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    A invasão do Iraque pelos americanos e a ação do Estado israelense contribuíram para a deterioração da situação no Oriente Médio, mas o jihadismo não surgiu dos erros dos "ocidentais". Há urgência em combater esse inimigo, e ele não será derrotado no plano territorial senão por meios militares FOTO: KENZO TRIBOUILLARD_AFP_GETTY IMAGES

carta de Paris

Massacre no canal Saint-Martin

O fundamentalismo do Estado Islâmico é uma forma de totalitarismo – semelhante, sob muitos aspectos, ao nazismo e ao stalinismo

Ruy Fausto | Edição 111, Dezembro 2015

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Vou almoçar fora no domingo, dia 15 de novembro. Na região do Mercado Saint-Germain, não longe do Quartier Latin, há bons pequenos restaurantes, que costumo frequentar no fim de semana. Entro no melhor deles e noto que não há mais do que duas mesas ocupadas. Coisa anormal num domingo. Peço uma mesa (em Paris, nunca se vai sentando num restaurante). Para minha surpresa, o garçom avisa que estão fechando. Saio, vejo que há mais restaurantes fechados. Afinal, encontro um aberto. Sou o único cliente.

Há muito pouca gente na rua. Mas, como sempre nessas ocasiões, os franceses ficam mais conviviais. Fala-se muito entre desconhecidos. A distância entre a sociabilidade fria do parisiense e a nossa, muito mais quente, diminui. Foi o que ocorreu em janeiro. Mas, em relação aos massacres do início do ano, hoje o medo é maior. Depois do que aconteceu no Charlie Hebdo e no hipermercado kosher, temia-se, claro, alguma nova ação. O que não impediu uma manifestação de mais de 1 milhão de parisienses. Estive lá. Agora é diferente. Todo mundo parece temer algum novo atentado.

Eu moro na banlieue (subúrbio), em Boulogne-Billancourt, ligada a Paris pelo sudoeste, mas, do ponto de vista administrativo, uma outra cidade – um pouco como Santo André em relação a São Paulo, digamos. Na véspera dos ataques, eu tinha ido a Paris ouvir um grupo de música de câmara barroca cuja cravista é uma amiga minha, do Rio. Tudo calmo na quinta-feira. Na sexta, passei o dia na Biblioteca Nacional em Paris, onde leio e escrevo com frequência. Conversei bastante com um jovem amigo baiano, filósofo, bolsista, cuja jovem esposa é também baiana, professora de dança. Jantei num restaurante próximo à biblioteca e voltei para casa.

 

Lá pelas dez da noite, recebi um e-mail da minha filha. “Papai, você está bem?” Ela não deu mais detalhes, nem explicou o que se passava. Como eu ainda não sabia de nada, estranhei um pouco a pergunta. Mas, tudo somado, achei simpático. A filha, sem maior motivo, preocupada com o pai. Logo em seguida veio uma mensagem do amigo baiano. Sem entender bem a gravidade da coisa, respondi que não iria à biblioteca no sábado porque já não precisava dos livros de lá. Ele me explicou que “de jeito nenhum iria à biblioteca no sábado”. Afinal, a biblioteca fechou. Depois do amigo baiano, muita gente me escreveu ou me telefonou. Com uma ou duas exceções, todos os meus amigos e parentes, diretamente ou representados, se comunicaram comigo.

Pela televisão, vi as imagens dos massacres. Eles atacaram um bairro extremamente simpático. O 10º e o 11º arrondissement, na parte leste da cidade, ao lado do canal Saint-Martin. É um dos lugares mais interessantes de Paris. Lá não vão muitos turistas, e os frequentadores são jovens de classe média ou popular – em geral brancos, mas nem todos, uma mistura de “bobôs” (burgueses de esquerda, semiboêmios ou intelectuais) com um público mais modesto –, apreciadores de restaurantes exóticos (cambojanos, afegãos, tailandeses).  Uma paisagem que não parece parisiense. O pessoal caminha à beira do canal. O cenário evoca outras cidades da Europa ou, às vezes, paisagens urbanas à beira-rio do interior de São Paulo.

Pouco mais longe, o canal se amplia, vira um rio imenso, o Canal de la Villette, que desemboca no Ourcq. Antes dele, várias pontes, um público que se aglomera, no fim de semana, atrás de cinema e outras diversões. Costumo passear por lá de vez em quando. Uma das minhas amigas, que agora está no Brasil, costumava me propor um jantar em algum dos restaurantes exóticos da região. Eles escolheram como alvo esse público jovem, em geral simpático, pluriétnico, de profissão variada. Há, entre os mortos, jornalistas, advogados, músicos, estudantes, técnicos. O Libération observou que os assassinos tinham, mais ou menos, a idade das vítimas.

 

A primeira coisa que me veio à cabeça – à minha, mas um pouco à de todos – foi o paralelo com a matança de janeiro na redação do Charlie e no mercado kosher. Na época, alguns – eu, inclusive – compararam o que aconteceu, guardadas as devidas proporções, ao 11 de Setembro. Mas quantitativamente ainda estávamos longe. E o caráter era outro. Agora os dois eventos – o nova-iorquino e o parisiense – se aproximam. Massacre de massa e anônimo. Como os de Londres, de Madri, mas também como os massacres na Índia, na Indonésia e, recentemente, na Tunísia.

Para além do medo, a reação é diferente. No caso Charlie, justificadamente ou não – para mim, injustificadamente, é claro –, discutiu-se sobre a eventual “responsabilidade” das vítimas, mesmo que, em geral, não se legitimasse o atentado. Nos meios da juventude imigrante, houve muita conversa ao estilo “teoria da conspiração” (“É tudo inventado” ou “Foi a polícia que montou”). Agora, há mais unanimidade.

 

Que dizer de tudo isso? Primeiro, é claro, o sentimento de horror, de horror absoluto diante de pelo menos 130 mortos e algumas centenas de feridos. Acho que, diante dessa barbárie, é preciso evitar duas coisas: a exploração demagógica da dor dos parentes e amigos, de um lado, e, no outro extremo, o simples mergulho na frieza estatística  dos dados (tantos mortos, tantos feridos). É importante fixar-se um momento na dor dos parentes e amigos dos mortos. Por exemplo, no testemunho de dois pais que perderam suas filhas jovens. Testemunhos quase sem lágrimas, exprimindo uma tristeza profunda, e ao mesmo tempo, em um deles, indignação pela maneira fria e em parte grosseira com que foi tratado na longa procura pela filha. Os responsáveis não sabem quando entregarão o corpo e respondem mal quando o pai pergunta pelas condições do enterro.

 

Sobre a significação própria do acontecimento, é preciso dizer, em primeiro lugar, que se trata de um morticínio da população civil, barbaridade inteiramente injustificável, moral e também juridicamente – mas um tipo de coisa que infelizmente foi se banalizando, na direita como na esquerda. Não se trata de “vítimas colaterais”, mas de vítimas principais. Crime sem atenuantes.

Embora representantes de grupos minoritários – na Europa, certamente; no Brasil, não sei –, há quem busque alguma “circunstância atenuante”. No caso Charlie, o pretexto seria a “blasfêmia”. Nesse caso, são razões de ordem política. A França não teria alguma culpa nisso? Dir-se-á que o país está em guerra, que se juntou à coalizão que combate o Estado Islâmico – de que também participam várias nações europeias e diversas árabes. Mas há que discutir que guerra é essa e, desde logo, se nela houve ataque à população civil – não falo de vítimas colaterais, que existem em qualquer guerra.

A esse propósito, embora se trate dos americanos e tenha ocorrido no Afeganistão, não se pode deixar de registrar um verdadeiro crime de guerra, caso se confirme a sua intencionalidade: o bombardeio de um hospital do Médicos Sem Fronteiras em Kunduz, no Afeganistão, no início de outubro. A primeira versão que se teve da ocorrência foi a de que a operação foi intencional: as bombas visavam talibãs feridos, também tratados no hospital. Bem tardiamente, os americanos declaram que visavam uma instalação inimiga próxima ao hospital. Há também a história dos ataques por drones, utilizados em larga escala pelos americanos. Mas, se ouso dizer, o caso dos drones é um pouco diferente dos massacres de 13 de novembro em Paris, porque pelo menos visam um alvo militar preciso, que não é a população civil. No caso do hospital, não creio que se possa utilizar esse argumento. Quanto a bombardeios como os de Hiroshima e Dresden, mesmo que se tratasse de tentar pôr um ponto final a uma guerra sangrenta contra o nazismo, eles procuravam, sim, atingir o inimigo por meio da destruição da população civil. Mas no massacre parisiense, se os meios são péssimos, os fins são ainda piores.

Não se trata, assim, de afirmar a pureza das intenções dos “ocidentais”. Nessas guerras há sempre outros motivos. Tudo somado, entretanto, não se chega nem de longe ao horror absoluto do Estado Islâmico. Com relação aos ocidentais, deve-se considerar o seguinte: trata-se de “democracias capitalistas” – ao mesmo tempo democracias e capitalismos hegemonistas. Democracia e capitalismo são duas coisas potencialmente contraditórias. É necessário considerar sempre os dois aspectos, pelo menos, quando, à testa das democracias, têm-se governos do tipo Obama – que foi contra a invasão do Iraque – ou de François Hollande. Outra coisa é, por exemplo, quando está lá alguém como o segundo Bush. Por tudo isso, o julgamento é em geral complexo, complexidade que aumenta, ainda, pelo fato de que o peso de cada um dos dois elementos – democracia e capitalismo – pode ser diferente, conforme a situação.

Mas é preciso dizer que o jihadismo não surgiu dos erros e crimes dos “ocidentais”, embora tenha sido alimentado pela desastrosa invasão do Iraque, decidida por George W. Bush e por seus conselheiros neoconservadores. O Estado Islâmico – ISIS, no acrônimo em inglês para Estado Islâmico do Iraque e da Síria, também conhecido como Daesh, no acrônimo em árabe – surgiu no Iraque, passou a se autodenominar assim a partir de 2013 e se tornou um “califado” em 2014, com o autoproclamado califa Abu Bakr al-Baghdadi. É fruto de uma aliança entre sunitas fanáticos com os remanescentes da polícia e do partido (Baath) de Saddam Hussein.

Os norte-americanos humilharam e destruíram o país, dissolveram sem mais o que sobrou do seu exército, colocaram no poder um governo xiita sectário, corrupto e incompetente. Tudo isso levou água para o moinho do Daesh. Americanos e franceses são aliados da Arábia Saudita e das monarquias do golfo, embora as relações dos sauditas com os americanos tenham esfriado consideravelmente desde o 11 de Setembro (a maioria dos terroristas vinha de lá) e, depois, desde a normalização de relações com o Irã xiita. Hollande fez negócios vultosos com os chefes de alguns desses Estados (Arábia Saudita e Catar), nos quais a situação dos trabalhadores estrangeiros é de quase escravidão, há decapitações, lapidações (no Catar, ao que parece, não há lapidação, e a decapitação é legal, mas não é aplicada) e violenta discriminação contra as mulheres (a condição feminina no Catar melhorou um pouco). Parte dos aviões franceses que bombardearam no domingo seguinte ao atentado posições do Estado Islâmico decolou de países do golfo. Porém, se sob esse aspecto a posição da França não é defensável (e tanto menos defensável porque não vem sequer acompanhada de algum tipo de crítica ou reserva), a política do governo Hollande nessa crise acerta sob outros aspectos.

Há quem julgue, conforme um esquema clássico, que o melhor seria sempre a não intervenção, porque intervenções remetem, sem mais, a uma política “imperialista”. Mas as coisas se alteraram, e são hoje muito complicadas. Não só o imperialismo, sem ter desaparecido, mudou muito – ele é hoje, antes de tudo, um hegemonismo dos países “centrais” –, mas, na periferia, surgiram fenômenos muito graves e, graças ao progresso tecnológico e outros fatores, com eficácia negativa muito maior do que no passado. A não intervenção pode significar um desastre que vai eventualmente até o genocídio, como se viu na África não faz muito tempo.

Primeira questão: como os franceses foram levados a intervir? Cito apenas alguns dos episódios, porque houve vários. Eles tinham intervindo no Mali, em 2013, contra um grupo islamista,[1] o que implicou participar também da luta contra o Boko Haram, a organização terrorista originária da Nigéria que sequestra jovens das escolas e que tem vínculos com o Daesh. Essa intervenção provavelmente evitou uma grande vitória das forças islamistas no Mali, com as consequências terríveis que adviriam daí. A intervenção na Líbia, em 2011, anterior ao governo Hollande, foi provavelmente necessária para evitar um massacre das forças anti-Kadafi. Todavia, sem subestimar as dificuldades da situação, ela foi seguida de uma política irresponsável que redundou num verdadeiro caos no país norte-africano.

A intervenção contra o Daesh se limitava de início ao Iraque. Bem mais tarde, em setembro de 2015, decidiu-se bombardeá-los também na Síria, país em guerra civil desde 2011, onde o Daesh se implantara. É difícil criticar a decisão de intervir, mesmo se, repito, não haja inocência nisso. Os franceses defendem seus interesses econômicos e políticos internacionais, é claro, mas havia outras boas razões para se juntar aos Estados Unidos e à coalizão que combate o Daesh, que já tinha se notabilizado pela execução brutal de reféns, entre outras violências. E isso sem poupar Assad, o ditador sírio, um personagem sinistro que matou ainda mais gente do que o Estado Islâmico, embora com outro “estilo”.

Hollande, aliás, chegou a propor uma ofensiva contra Assad, apoiando a revolta contra a ditadura síria, mas a ação coletiva foi vetada por Obama. Ao que tudo indica, essa intervenção não seria terrestre. Segundo alguns especialistas, se essa medida tivesse sido tomada, a organização jihadista não teria chegado a assumir o papel que ela própria hoje se confere: a de defensora do conjunto dos sunitas reprimidos pelo poder alauita sírio. Há quem insista, por outro lado, que essa intervenção só fortaleceria as forças jihadistas, hegemônicas na oposição. Creio que é preciso considerar o fato de que um bombardeio é sempre algo terrível para a população civil. Chega-se a esse extremo apenas quando a ação se mostra inevitável, e com boa probabilidade de ser frutuosa. Teria sido o caso? A prudência de Obama foi melhor do que o voluntarismo de Hollande?

Deixando de lado as ponderações sobre um possível ataque a Assad, o que dizer da intervenção contra o Estado Islâmico? A pergunta contrafactual que se termina fazendo, nesse caso, é inversa. Não teria sido melhor se os franceses tivessem decidido não intervir? Para nós que vivemos na França, de um ponto de vista egoísta, a resposta é: sim, teria sido, porque não haveríamos sofrido o que sofremos, nem viveríamos sob ameaça e medo, como ocorre agora. Mas teria sido melhor para o mundo? É duvidoso. Alguém precisa ajudar os que merecem ajuda, entre as forças que combatem por terra o califado. E nesse caso há duas forças que merecem ajuda: os curdos e o que resta de grupos relativamente sãos na resistência a Assad. Se a França não se dispusesse a apoiar – na realidade, o seu apoio efetivo é proporcionalmente bem pequeno –, a intervenção ficaria restrita aos norte-americanos, já que a atitude dos russos em relação aos grupos não fundamentalistas que se opõem a Assad continua sendo mais do que ambígua. Ora, entregar o peso da intervenção, mesmo que apenas simbólico, nas mãos dos americanos só reforçaria a sua hegemonia.

 

Mas o que é esse poder jihadista que se pretende combater? Seria bom não perder de vista o que ele representa. Ausência de liberdade, execuções, torturas, violências contra as mulheres. No Estado Islâmico, o destino das mulheres capturadas no decorrer das invasões depende da religião que professam – mais ainda, da sua seita. Ainda que sejam sunitas, só podem sair na rua acompanhadas de um tutor, e o menos possível, “somente em caso de necessidade”. Se não forem sunitas, mas xiitas, cristãs, judias, podem ser legalmente escravizadas. O Daesh defende, em seus textos e panfletos, a legitimidade da captura de mulheres “não crentes”, pertencentes ou não aos “povos do Livro” – isto é, sejam ou não cristãs ou judias. Feita a conquista, depois que as prisioneiras são “distribuídas” pelo imã, “é permitido comprar, vender ou dar de presente as mulheres cativas e escravas”, diz um panfleto.  Lê-se também que, se forem virgens, pode-se ter relações com elas, mesmo “imediatamente após a sua apreensão”. Caso já tenham tido relações sexuais, “seu útero deve ser purificado”. Em bom português, isso quer dizer que o estupro é autorizado e legitimado.

Um refugiado de Sirte, na Líbia, cidade que havia sido invadida por um braço local do Daesh, relatou que, segundo as regras do Estado Islâmico, as meninas devem usar véu desde os 11 anos, e as mulheres jovens devem vestir o niqab, o grande véu que deixa à vista apenas os olhos, a partir dos 18. Se uma mulher for surpreendida na rua sem a companhia de um homem, o castigo depende de seu estado civil. Se casada, ela receberá 100 bastonadas. Caso seja celibatária, será “forçada a se casar com um combatente”. Também “os enforcamentos e as crucificações de opositores são frequentes”, segundo o relato desse refugiado, reproduzido pelo jornal Le Monde. O corpo dos condenados – ou simplesmente sua cabeça – é exposto em lugares privilegiados da cidade.

Ao mesmo tempo, nas áreas e nas cidades em que os representantes do Estado Islâmico estão instalados há mais tempo, eles parecem ter estabilizado a sua dominação, garantindo, por exemplo, serviços públicos mais ou menos organizados. Fazem também um trabalho assistencial. Há quem escreva que eles são a síntese de três coisas: fundamentalismo religioso, baathismo ultrarrepressivo e sanguinário, e assistencialismo.

Em geral, não se deve subestimar a sua força, inclusive em termos militares: o Daesh ocupa um território do tamanho da Grã-Bretanha, com uma população de cerca de 8 milhões de pessoas, além de uma nebulosa internacional de mais ou menos trinta grupos em uma dezena de países. “Desde a tomada de Mossul, em 10 de junho de 2014, o Estado Islâmico se apropriou do arsenal que o Pentágono havia fornecido ao Exército iraquiano”, escreveu o jornal Libération. “Ele dispõe de várias centenas de tanques e de 5 mil jipes militares, sem contar numerosas peças de artilharia. Para pôr em marcha esse material, não faltam técnicos: Mossul é a cidade que conta com o maior número de oficiais do antigo Exército de Saddan Hussein.”

 

O Estado Islâmico é ao mesmo tempo uma organização jihadista e terrorista, um exército, um território e mesmo um proto-Estado – em princípio, parece não se encaixar em nenhuma categoria sociológica ou política usual. Por um lado, pode-se ver nele a expressão de um arcaísmo, uma volta a uma forma pré-moderna de poder. Ele é em parte isso. Mas é também, mais do que um arcaísmo, uma forma de totalitarismo. O fundamentalismo radical, extremista, pode e deve ser considerado uma variedade de totalitarismo – um terceiro totalitarismo, eu diria, ao lado do nazismo e do stalinismo. Que ele seja um totalitarismo, não é difícil demonstrar: é um poder hiperautocrático, com uma ideologia de conquista, o qual não só faz apelo a uma ampla mobilização popular, mas intervém diretamente em todo o tecido, mesmo o mais íntimo, da vida individual das populações submetidas ao seu domínio, ou que aderiram a ele.

Nessas condições, que dizer de alguns textos jornalísticos que pudemos ler nos últimos dias na imprensa brasileira, e também na internet (em português ou em inglês), em que se considera o terrorismo dos jovens jihadistas alguma coisa equivalente às práticas dos nossos jovens revolucionários dos anos 60? Segundo essas fontes, haveria na base dos dois movimentos um mesmo impulso de luta contra o capitalismo.

Há nessa equivalência muitas coisas estranhas, para dizer pouco. Primeiro, a suposição de que os jovens jihadistas queiram combater o capitalismo. Daí resulta um tom de compreensão, até de simpatia. Supõe-se, sem mais, que os jovens jihadistas tencionem se engajar numa luta pela emancipação, por mais liberdade e igualdade. Mas esses textos não ficam por aí. Dão o passo seguinte: esse sentido emancipatório é conferido, pelo menos no plano subjetivo, à luta em que esses jovens efetivamente se engajam. Mesmo se com frequência se reconhece tudo o que o Estado Islâmico tem de negativo, o combate dos jihadistas aparece de tal modo que se é levado a crer que sua significação profunda, pelo menos subjetivamente (uma significação pode ser subjetiva e profunda), é a de uma luta pela emancipação. Ora, é completamente absurdo imaginar que as lutas dos jovens têm intrinsecamente um sentido emancipatório. Quem quer que tenha estudado a história do século XX sabe que o nazismo foi de início um movimento de juventude.

Há aí uma mitologia da juventude, que é ao mesmo tempo um fetichismo do progresso. Acredita-se que o mundo vai sempre, ou vai afinal, para a frente, mesmo se por vias tortas. Ora, não é assim. Há verdadeiras e reais regressões, o que, aliás, a teoria revolucionária dominante do fim do século XIX ao final do século XX não entendeu. E, de fato, é absurdo projetar tal teoria sobre a situação contemporânea – situação de um mundo que passou pela experiência totalitária. Tanto pelo tempo histórico real em que ela emergiu, como pelo teor do seu programa e das suas previsões, aquela teoria revolucionária se situa num registro em que está inteiramente ausente o totalitarismo. Além do que, agora se sabe, se já não se sabia antes, religião não é superestrutura.

O jihadismo é uma regressão. Ele não é essencialmente anticapitalista. É antidemocrático, o que significa outra coisa. O que o jihadismo combate são as liberdade civis, políticas e sociais que existem no Ocidente. Aliás, mesmo que fosse anticapitalista, nem por isso se poderia tirar a conclusão de que ele seria necessariamente progressista. Um regime escravista não é capitalista, mas, diante do capitalismo, é reacionário.

Por que o jihadismo consegue mobilizar os jovens? Em termos bem gerais, porque os jovens estão abertos às mudanças e às aventuras. Mas há que precisar: essas mudanças podem ir para a frente ou para trás, em termos de progresso social. Sem dúvida, em termos mais particulares, as dificuldades da imigração contam, mas não são nem condição necessária, nem condição suficiente para o apelo que esse movimento exerce em alguns jovens. Observe-se, além disso, a singularidade do jihadismo: não se trata de um éthos cultural aventureiro que, apesar de todos os riscos, é frequentemente um éthos de vida. No jihadismo, tem-se claramente uma cultura de morte. Isso é novo.

Enfim, essas análises que critico aqui – que fazem, no fim das contas, o elogio da juventude mobilizada e de sua suposta luta contra o capitalismo – são formais e psicologistas, além de praticarem um jogo sofístico: o de separar, de forma ilegítima, o Estado Islâmico, que se ataca e sobre o qual se concentra toda a carga, dos movimentos que sustentam esse Estado e que, de um modo ou de outro, são inocentados. Se for possível resumir em poucas linhas essas minhas críticas a esse tipo de literatura, não esquecendo o peso negativo específico das condições difíceis da imigração, diria o seguinte.

Afirmar que esses jovens partem de sentimentos anticapitalistas com raízes nas estruturas sociais dos países em que vivem, sentimentos que seriam comparáveis aos dos nossos jovens anti-imperialistas dos anos 60, é pelo menos sumário, por três razões essenciais. Em primeiro lugar, se a ação deles pode ter raízes internas, ela vem, na realidade, muito mais de fora do que de dentro – é fruto do impacto da ideologia jihadista, que por sua vez resulta de fatores complexos, não só da política ocidental, mas também de uma longa tragédia interior ao mundo muçulmano; tragédia que tem uma história de mais de um milênio. Em segundo lugar, é ilusório dizer, de forma geral, que os sentimentos de que partem os jovens jihadistas têm caráter generoso. Isso pode ocorrer, mas a ideologia a que estão submetidos põe em movimento o pior de cada um deles. Por fim, de uma forma ou de outra, considerados fatores internos e externos, há um problema de responsabilidade individual. Um jovem que metralha outros jovens indefesos, num café ou num teatro, por causa de uma ideologia político-religiosa abstrusa (ou por outro motivo qualquer) é, antes de mais nada, alguém que pratica um ato abominável, pelo qual é responsável.

Mas se certo jornalismo de esquerda se perde inteiramente na leitura dos acontecimentos, o de direita não anda melhor.

Um dos elementos cruciais na deterioração da situação no Oriente Médio foi certamente, já disse, a desastrosa invasão do Iraque levada a cabo por Bush e os neoconservadores. Ela, como vimos, forneceu um dos componentes essenciais do Estado Islâmico: a massa de militares e também de funcionários e policiais ligados a Saddam Hussein que se dispersaram com a invasão americana. Além de ter provocado um desastre ideológico e religioso. Pois ainda assim se pode encontrar na imprensa brasileira e na americana gente que defenda a política neoconservadora. Os argumentos são furados: por exemplo, supõe-se que quem se opõe ao neoconservadorismo não aceita nenhum tipo de intervenção externa, o que é falso.

Além disso, há uma questão de importância considerável em todo esse processo que a direita costuma ignorar, ainda que sua solução não seja garantia suficiente de uma saída. É a questão palestina. Quaisquer que tenham sido os erros e o fanatismo de parte a parte, a verdade é que atualmente o governo israelense se empenha de fato numa operação de conquista “pacífica” do território palestino, por meio da colonização. Essa operação é inteiramente condenável e alimenta toda sorte de violências.

Ora, há também, no jornalismo de direita que oficia nas colunas de jornais brasileiros ou americanos, quem continue defendendo as ocupações. A fim de justificá-las, recorre-se ao antissemitismo do Hamas ou a seu projeto de destruir Israel. As duas imputações são verdadeiras, mas elas não legitimam o fato brutal da ocupação. Uma solução do problema palestino não faria desaparecer da noite para o dia o problema do terrorismo, nem a violência no Oriente Médio. Porém, ela alteraria fundamentalmente a situação. Desapareceria uma motivação para o jihadismo, cuja base é real, mas que se transformou em pretexto insustentável. Assim, a confusão é muito grande dos dois lados, na esquerda radical e na direita radical. É verdade que considero aqui dois extremos. Há muita gente, seja de esquerda ou de direita moderada, que tem uma posição suficientemente lúcida, embora nem sempre muito clara, sobre o problema – mesmo porque a situação é efetivamente de leitura difícil.

 

Para além das ambiguidades da política externa francesa e dos erros enormes da americana, é preciso se perguntar em que medida os preconceitos antiárabes e as dificuldades de integração que encontra a população de origem muçulmana na Europa, sobretudo nas periferias francesas, têm a ver com a radicalização dos jovens de origem árabe e de religião muçulmana. É claro que os preconceitos agravam a situação, porém é preciso considerar que o jihadismo e, em particular, o engajamento na Síria se manifestam também nos países árabes. O maior contingente de voluntários para o Estado Islâmico vem (ou vinha, até bem pouco tempo) do Marrocos. Muitos se originam da Argélia e da Tunísia. Com relação à Tunísia, um dos países mais democráticos do mundo árabe, o único, praticamente, em que a Primavera Árabe teve êxito suficiente, é de se observar que ela tem sido vítima de ações extremamente sangrentas do terrorismo jihadista. Assim, o problema está longe de ser apenas francês ou europeu.

Mas, afinal, em que medida as condições da população imigrante são a chave para entender o terrorismo e o avanço do Daesh? Elas são e não são. Não são, pelas razões apontadas. O fenômeno é mundial em seus efeitos, e seu lugar de origem é o Oriente Médio. Se se quiser estudar seu contexto econômico, o mais importante é se debruçar sobre o enorme leque de desigualdades que caracteriza aquela região. Lá, sobretudo, se encontra uma população muito pobre em face de fortunas imensas. O Oriente Médio é “a região mais desigual do planeta”, segundo Thomas Piketty. Mas a questão das banlieues também interessa. Como se explica que jovens de origem árabe, mas nascidos na França e em outros países europeus, se mostrem tão receptivos a uma doutrina fanática estrangeira e se disponham a partir para a Síria e até a praticar atos de violência contra a população civil de seu próprio país? Esses jovens, é bem verdade, são uma minoria da população muçulmana da França. Mas, ao se transformarem, pelas facilidades que têm como cidadãos da Europa, numa verdadeira e triste “vanguarda” armada do jihadismo, sua ação ganha importância global. Aí as causas são o desemprego, o racismo, o isolamento das periferias, também a droga e a delinquência. Tudo se imbrica, o quadro é complicado, mas é inegável que há aí um problema grave, pelo qual as elites europeias são em grande parte responsáveis.[2] No plano global há, por baixo de tudo, um verdadeiro ressentimento histórico – parcialmente justificável, parcialmente “patológico” – em relação ao Ocidente. Justificado, porque a experiência do imperialismo não foi rósea. Patológico, porque há também, nisso, a nostalgia da grande nação árabe, que voltando à glória de muitos séculos atrás ganharia de novo hegemonia mundial. Sonho de muitos ativistas, dos convertidos inclusive, que são frequentemente os mais fanáticos.

Outra dificuldade, também já mencionada, é a de saber que relação efetiva tem o fenômeno do jihadismo com a religião muçulmana. Se acompanharmos as discussões que se fizeram na tevê francesa depois dos acontecimentos do dia 13, nota-se uma espécie de diálogo de surdos entre os que dizem que o fenômeno jihadista tem a ver com a religião muçulmana e os que, denunciando um amálgama espúrio, afirmam que uma coisa não tem nada a ver com a outra. A solução não é difícil e já está na ampla literatura consagrada ao problema fundamentalista, produzida também por autores árabes ou de formação muçulmana. O jihadismo tem uma clara relação com a religião muçulmana, mas a grande maioria da população muçulmana não é jihadista, nem apoia as suas ações. Como disse um autor, o jihadismo está para a religião muçulmana como uma doença para o corpo são. Ele é uma espécie de doença do islã. Sendo uma enfermidade, os muçulmanos não são responsáveis por ela; vale a advertência de que é preciso evitar a confusão e a identificação. Mas sendo uma enfermidade do islã, é óbvio que o jihadismo tem algo a ver com essa religião – um pouco como o stalinismo ou mesmo o nazismo tinham a ver com o nosso pensamento e as nossas sociedades “ocidentais”.

Nessas condições, os muçulmanos antijihadistas, a imensa maioria, ocupam uma posição especial em relação ao fenômeno. Aliás, é bom não esquecer que a grande maioria das vítimas do terrorismo islamista é muçulmana. Os muçulmanos têm possibilidades singulares no combate contra o fanatismo islamista, e lhes cabe um papel específico nessa luta. Embora evidentemente essa não seja uma tarefa apenas deles. Um fato importante a esse respeito foram os sermões contra o terrorismo, elaborados por alguns imãs e proferidos em um grande número de mesquitas da França. A tevê transmitiu do interior delas, com algumas entrevistas individuais de apoio. Esse tipo de reação pode ter um papel importante no combate ao racismo e ao chauvinismo, que levantam a cabeça depois do massacre, como já é possível verificar.

Em termos de política francesa e europeia, a situação atual oferece perigos. Certa direita vai se aproveitar – e já se aproveita – dos acontecimentos para culpabilizar os imigrantes que fogem da repressão ou da miséria de outras partes do mundo. Há que se neutralizar esse tipo de acusação. No plano da política mundial, a direita, ou parte dela, jogará a carta da aliança com Putin, senão com Assad. Um setor da direita e o grosso da extrema direita não escondem suas simpatias por Putin. Ele tem simpatizantes também na extrema esquerda. Uma aliança de longo fôlego com um personagem tão repressivo e reacionário como Putin seria muito negativa. Não à toa a extrema direita está de amores com ele. Entretanto, não é absurdo tentar algo como um acordo tático na luta contra o Estado Islâmico. Desde que se obtenha alguma coisa em troca: no caso, que Putin deixe de atacar as forças anti-Assad (é o que ele tem feito até aqui, principalmente) e concentre seus ataques contra o Estado Islâmico. Quanto ao próprio Assad, pelas razões expostas, há que se evitar qualquer atitude simpática em relação a ele.

No pronunciamento que fez ao Congresso francês (Senado mais Câmara dos Deputados, reunidos conjuntamente), depois de um apelo à unidade, Hollande anunciou uma espécie de guinada, em vários planos. Em política internacional, ele se dispõe a trabalhar com Putin, mas diz que é preciso buscar outra solução política “na qual Bachar al-Assad não é a saída”. Logo em seguida, fez questão de dizer que “nosso inimigo na Síria é o Daesh”. A fórmula, meio enigmática, significa que Hollande não vai exigir o fim do regime de Assad como condição para um acordo, como fez até aqui. Mas a declaração não sugere nenhum tipo de apoio a Assad. A manobra pode se justificar ou não, conforme o modo como venha a ser posta em prática. No restante, Hollande multiplicou as medidas de segurança, soltando lastro em favor das propostas que a direita já vinha fazendo. Como disse um jornal de esquerda, o tempo não é para “angelismo”.

Mas há certo risco no caminho que Hollande vai tomando. Ele propôs uma reforma da Constituição para modificar o lugar que tem o “estado de emergência” no arcabouço do direito francês. Não se sabe bem até onde ele pretende ir com essa medida. Também se dispõe a aceitar a perda de nacionalidade para os binacionais, inclusive os nascidos na França que tenham sido condenados por atos terroristas ou análogos. Até aqui, isso só é possível para os binacionais que tenham adquirido a nacionalidade francesa. A medida abre um precedente que pode ser perigoso. Também a insistência de Hollande em dizer que a França está “em guerra” foi malvista por muitos. Do ponto de vista estritamente jurídico, o país não está em guerra, e mais, a ênfase no termo, por mais que haja alguma verdade nele, convida a certo tipo de radicalização que pode ter consequências antidemocráticas. A direita, em geral, apoiou as medidas, mas não sem fazer críticas ao presidente. A população francesa, em boa maioria, o apoia. De todo modo, o pós-13 de novembro é bem diferente do pós-Charlie. Apesar das teorias imaginárias de gente como o demógrafo Emmanuel Todd, que viram na manifestação de 11 de janeiro um ato islamófobo e reacionário, o pós-Charlie foi um momento de grande mobilização democrática. A situação de agora é distinta – e a diferença vem principalmente do medo e dos efeitos jurídicos do estado de emergência.

 

Que possibilidades se abrem, hoje? Quanto ao Estado Islâmico, ele perde terreno em seu núcleo original (Síria e Iraque) e tem o mundo inteiro contra si. Gilles Kepel, grande especialista no Oriente Médio, acha que o 13 de novembro pode ter sido uma jogada ambiciosa demais, e que ele acabará tendo efeito negativo para a organização, como, na opinião de Kepel e dos próprios radicais muçulmanos, teve para a Al-Qaeda o 11 de Setembro. Mas se o Estado Islâmico está politicamente isolado e, pelo menos no seu núcleo central, em defensiva, o problema permanece, em parte por causa das dissensões entre seus adversários, em parte porque uma intervenção aérea (a única que ocorreu até aqui, contra ele, salvo a presença de um número restrito de especialistas militares) é insuficiente para garantir uma vitória. Uma intervenção terrestre é muito arriscada, principalmente pela repercussão que poderia ter entre as populações árabes e muçulmanas. E há muitas outras dificuldades. Assim, por exemplo, quando os curdos tomaram a pequena cidade estratégica de Sinjar, no Iraque, surgiram tensões entre os curdos do Iraque e os do PKK (partido curdo da Turquia, hostilizado pelo governo Erdogan), que também ocupou a cidade. E por aí afora.

Se, numa difícil síntese, quisermos definir um certo número de pontos para um programa, acho que se deveria dizer mais ou menos o seguinte. Há questões imediatas e urgentes, e problemas de mais longo prazo. De imediato, existe um poder fundamentalista neototalitário que representa uma ameaça global. Na véspera dos acontecimentos parisienses, houve um atentado no Líbano, também perpetrado pelo Estado Islâmico, que matou 43 pessoas e sobre o qual quase ninguém falou. Há urgência em combater esse inimigo, e ele não será derrotado no plano territorial senão por meios militares. Quais serão esses meios é difícil dizer. De qualquer modo, é uma espécie de guerra de novo tipo.

Entre outras coisas, trata-se de uma guerra contra kamikazes, algo de que, até aqui, só se teve uma experiência muito limitada e em outro contexto. De certo modo, mutatis mutandis, ocorre com o Daesh o mesmo que aconteceu com o nazifascismo. As responsabilidades dos ocidentais por sua emergência foram muito grandes, mas, uma vez instalado, independentemente de sua gênese, era preciso combatê-lo. O mesmo se dá com o Estado Islâmico. Mas a derrota territorial desses novos jihadistas, ainda que provável, poderá significar o fim do grupo?

Num artigo publicado no Libération, os jornalistas Vittorio de Filippis e Jean-Louis Le Touzet afirmam que o Daesh acumulou uma fortuna imensa, proveniente de diversas fontes: petróleo, impostos sobre populações sob seu controle, sequestros, tráfico de antiguidades. Esse dinheiro circula por uma rede complexa de bancos do Oriente Médio e regiões limítrofes: Chipre, Malásia, Turquia, Líbano, Síria. Os recursos são lavados por esses bancos, com a ajuda de especialistas; passam por organizações e empresas mais ou menos fictícias, até chegar, quando necessário, aos bancos ocidentais. Na perspectiva dos autores, essa riqueza acumulada permitirá a sobrevivência do Estado Islâmico e também, eventualmente, de parte dos seus quadros, mesmo depois de uma derrota militar. Então a organização passaria a ter outro caráter, o de um centro não territorializado de produção de atentados. Retomaria, de certo modo, o modelo da Al-Qaeda que ela havia abandonado.

Juntando esses diferentes elementos, eu diria: de imediato, há a luta anti-Daesh, que passa pelas vias militares, embora não só, e que exige movimentos táticos, como por exemplo a frente comum com os russos. Mas a longo prazo, e mesmo a médio, recolocam-se todos os problemas políticos e econômicos relativos ao Oriente Médio e à Europa. A questão Assad terá de ser resolvida. Que pelo menos se obtenha a realização de eleições na Síria, num prazo relativamente breve. De uma forma ou de outra, Assad tem de sair do poder, mas de tal modo que se consiga evitar a transferência do poder para uma oposição jihadista. Simetricamente, será preciso pressionar as monarquias do golfo para que pelo menos os traços mais violentos do poder autocrático sejam eliminados. É impossível continuar lutando em nome da democracia e ao mesmo tempo se aliar aos emires que matam e oprimem impunemente. Em terceiro lugar, há que se reforçar a pressão sobre Israel – por exemplo, através do boicote das mercadorias produzidas nos territórios ocupados pelos colonos, pequena mas importante medida – e exigir de Obama uma atitude mais corajosa em relação ao Estado israelense.

Parece muito – e não basta. Se insisti sobre o fato de que as condições dos imigrantes de origem muçulmana na França não são suficientes para explicar o terrorismo – há terroristas por todo lado, inclusive no mundo muçulmano, onde, que eu saiba, não há preconceito antimuçulmano –, isso não significa que os fatores internos não tenham um peso considerável no recrutamento da legião estrangeira do califado e, assim, no seu destino. Impõe-se um trabalho de real valorização das periferias das cidades europeias, das francesas em particular, trabalho que, apesar das crises, não se fez até aqui. A diminuição do desemprego é essencial. Finalmente, o texto do Libération mostra como não será possível mudar realmente as coisas sem atacar as fortalezas do capital internacional. É impossível levar adiante qualquer política democrática coerente e eficaz sem quebrar a opacidade do sistema bancário mundial, que oculta fraudes fiscais conhecidas por todos e praticadas até por Estados da União Europeia, como Luxemburgo. É preciso pôr fim à lavagem de dinheiro a serviço do grande banditismo e do terrorismo internacional.

Ainda que o Daesh venha a ser vencido territorialmente, só existe saída numa política em várias frentes. No plano imediato, a compatibilidade das tarefas é complexa. A longo prazo, contudo, não se deve temer o que pode parecer contraditório: enfrentar o governo de Israel, mas também o Hamas; lutar pela queda de Assad, mas também por mudanças radicais nos países do golfo. Apenas se aceitarmos esses “paradoxos” – e sem negar que se trata de um programa de realização complicada – será possível ter pelo menos um projeto para enfrentar os problemas do Oriente Médio. Um projeto parece nada, diante da situação atual, mas é na realidade essencial. Ficar no impasse, como pretendem alguns, não é a melhor solução. De resto, tudo isso pertence ao médio e ao longo prazos. Aquém dele, há um leque de questões urgentes.

A dolorosa experiência do 13 de novembro é uma ocasião para que a esquerda, assim como a “opinião progressista” em geral, repense certas coisas. Essa experiência é um bom exemplo do desajuste entre a política mundial atual, de um lado, e as teorias e os esquemas herdados do século XIX, de outro. Sem dúvida, de tudo fica um pouco. O papel do capital e seus interesses (petróleo, armamentos, finanças) continua sendo muito importante. Mas há muito mais do que isso movendo o mundo. Tanto para o caso da França e da Europa, como para o do Brasil, mais do que nunca é preciso se precaver contra os esquemas fáceis, que apresentam no máximo um lado do problema. E, sobretudo, é preciso jogar de verdade a carta da democracia. Uma carta que não é incompatível com a crítica ao capitalismo hegemônico. Ainda que não seja fácil – mas nada é fácil em política – é possível pisar ao mesmo tempo nos dois aceleradores. Só assim poderemos, num mesmo movimento, desconstruir certas tolices à esquerda enquanto neutralizamos a ofensiva do reacionarismo, do neofascismo e do cinismo, os demônios que assolam o mundo pela direita – e que, também a propósito dos massacres de Paris, não deixarão de jogar a carta do pior.

—

[1] Em contraste com os adjetivos “islâmico” ou “islamita”, que dizem respeito àquilo que é próprio do Islã e são, em si mesmos, neutros, o termo “islamista” se refere especificamente ao fundamentalismo muçulmano.

[2] Sobre a situação dos jovens de origem árabe na França, e também sobre outros temas tratados neste artigo, remeto ao texto “Je suis Charlie, balanço e reflexões”, que publiquei na revista Fevereiro (www.revistafevereiro.com), número 8, em julho de 2015.

Ruy Fausto
Ruy Fausto

Professor emérito da USP, é doutor em filosofia pela Universidade Paris I

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