CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Meia-noite em Paraty
Dois prodígios literários da França se conhecem na Flip
Ana Clara Costa | Edição 218, Novembro 2024
“Quando encontrei Édouard Louis, tive a impressão de já conhecê-lo. Mas não o conhecia: apenas havia lido seus livros”, me disse Mohamed Mbougar Sarr, escritor senegalês de 34 anos que vive desde a juventude na França. “Eu me correspondi com Sarr por um tempo, por e-mail, mas nunca nos encontramos”, contou Édouard Louis, de 32 anos, que nasceu nos arredores de Hallencourt, no Norte da França.
Dois dos nomes mais celebrados da literatura atual de língua francesa, Sarr e Louis estudaram na mesma universidade, vivem a 80 km de distância um do outro na França, mas se encontraram pela primeira vez não nos cafés de Saint-Germain-des-Prés ou do Marais, e sim num restaurante tailandês de Paraty.
Sarr e Louis foram os convidados de honra da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no mês passado. Na noite de 12 de outubro, sábado, o senegalês – autor de A mais recôndita memória dos homens (Fósforo) – conversou com o escritor Jeferson Tenório, na mesa mediada pela editora e crítica literária Rita Palmeira, no auditório principal do evento. Logo depois, participou de uma conversa com o escritor e ator Gregório Duvivier na Casa Libre, da editora Malê, que publicou seus dois primeiros livros no Brasil. Enquanto isso, Louis – autor de Mudar: método (Todavia) – era entrevistado na tenda principal da festa pelo jornalista Paulo Roberto Pires.
Quando os dois escritores acabaram seus compromissos, foram a um jantar organizado por Duvivier, que já havia estado com Sarr no Rio de Janeiro. Ele o levara para jogar uma partida de futebol do time Polytheama, cujo craque mais famoso é o compositor Chico Buarque. Meio de campo acima da média, Sarr fez a alegria da equipe ao entregar duas bolas precisas para os atacantes marcarem os dois gols que deram a vitória ao time. Chico Buarque é fã de Sarr. Depois de ler A mais recôndita memória dos homens – que ganhou em 2021 o principal prêmio literário da França, o Goncourt –, disse que não sabia como poderia voltar a escrever. (Mas voltou: lançou neste ano Bambino a Roma, pela Companhia das Letras.)
Louis conheceu Duvivier na festa do coletivo de editoras Sete Selos, no dia 11, sexta-feira. O brasileiro logo perguntou se o francês já havia se encontrado com Sarr. Louis disse que não, mas que adoraria. Duvivier fez então a proposta do jantar, que aconteceu no dia seguinte. Louis bebeu vinho, Sarr preferiu cachaça. “Eles se deram muito bem. Fico feliz com esse encontro, porque acho que são os maiores”, disse Duvivier. “A mais recôndita e Mudar: método são obras-primas que vamos estudar daqui a cem anos se ainda houver mundo e se alguém se importar com literatura.”
Depois do jantar, a dupla de escritores circulou pela noite de Paraty. Terminaram o sábado em uma festa improvisada pelas paulistanas Clarice Reichstul e Joana Reiss na parte antiga da cidade. Naquela noite, Sarr me disse que sua vinda ao Brasil o tocara de forma diferente. Por isso gostaria de voltar ao país e passar mais tempo.
Ele havia se impressionado em particular com Salvador, que visitou rapidamente antes da Flip. “O Sarr quis muito ir a Salvador. Apresentamos a moqueca e o acarajé, e ele gostou muito. Disse que no Senegal há um prato parecido, chamado acará. Ficou louco pela picanha também”, disse Francisco Jorge, editor da Malê.
Sarr, que mora em Beauvais, perto de Paris, me contou que não tem a intenção de passar a vida inteira na França e que estava pensando em pleitear uma bolsa francesa para escritores que o permitisse ficar no Brasil por um tempo mais longo. Ele espera ser aceito numa residência artística que é realizada em Itaparica, na Bahia.
Ao contrário de Louis, que durante a infância viveu a miséria em Hallencourt, Sarr vem de uma família com recursos. Seu pai é médico no Senegal, onde também vivem os seis irmãos do escritor, todos homens. Depois de fazer o ensino médio na melhor escola de Dakar, Sarr mudou-se para a França a fim de fazer o curso preparatório para a École Normale Supérieure, uma das principais instituições de ensino do país, que Louis também frequentou, anos depois.
A mãe de Sarr é muçulmana e o pai segue a religião tradicional local, ligada à cultura sererê, que tem semelhanças com o candomblé e com a qual o escritor se identifica mais. Em 2018, ele foi alvo de ataques conservadores depois que publicou seu romance Homens de verdade (Malê), que fala da brutalidade com que os homossexuais são tratados no Senegal, onde 90% da população é muçulmana. Ele disse que, mesmo nos meios intelectuais e progressistas de seu país, a homofobia é regra. Até hoje, o livro não foi publicado no Senegal.
Homens de verdade causou grande impacto em Louis, que àquela altura já se tornara um fenômeno editorial, com três obras publicadas em vinte idiomas. “Fiquei muito impressionado com a história. Eu achei muito corajoso da parte dele escrever esse livro. Eu não o conhecia e decidi mandar um e-mail. Trocamos mensagens, mas nunca passou disso”, me disse Louis, no domingo, logo depois de sua última participação na Flip, uma conversa com o escritor José Henrique Bortoluci e o jornalista Thallys Braga, da piauí, na Casa de Histórias, organizada pela piauí, a Janela Livraria e a Netflix.
Caminhamos juntos até a pousada em que ele estava hospedado. Louis se sentia cansado depois da noitada de sábado e usava óculos escuros mesmo em ambientes fechados. Ele explicou que sua rotina é complicada, por causa do excesso de tarefas. Como costuma ler durante a madrugada, acorda só depois do meio-dia. “Eu sou frágil, me canso muito. Preciso de solidão para escrever e gosto de passar um tempo só”, afirmou o escritor, que preferiu não autografar na Casa de Histórias em razão do cansaço. Para encontrar tranquilidade ao escrever, ele costuma passar longas temporadas fora de Paris e mesmo fora da França, em países como a Grécia.
Louis ainda não leu A mais recôndita memória dos homens, mas disse que Homens de verdade e Terra silenciada – livro de Sarr publicado em 2014 – foram o bastante para considerar o senegalês um dos melhores autores em língua francesa de sua geração. Ele explicou que, em certos círculos literários, há uma forte divisão entre autores de autoficção, como ele, e os de ficção, como Sarr. Pouco tempo atrás, havia inclusive preconceito de certa elite literária em relação ao primeiro gênero. “Mas Sarr não tem isso. Ele realmente se interessa por toda a literatura”, disse.
Sarr contou ter lido “quase todos” os livros de Louis, mas o que mais o impressionou foi Mudar: método, em que o francês descreve sua trajetória de vida, da infância pobre até se tornar um autor de sucesso, sem ocultar as condutas mesquinhas e por vezes calculistas que precisou utilizar para se incluir no fechado e elitista meio literário parisiense.
No domingo, enquanto Louis falava na Casa de Histórias, Sarr participava de uma mesa na Casa Folha, conduzida pelo jornalista Walter Porto. Durante a conversa, o senegalês reconheceu que tinha dificuldade em se ver como fenômeno literário e que observava como Louis agia em relação a isso, já que o escritor francês havia alcançado o sucesso antes dele.
Ao final, Sarr autografou seus livros para uma fila de dezenas de leitores. Conversava com cada um, tirava fotos e fazia uma dedicatória personalizada. “É estranho conhecer Édouard Louis aqui, mas ao mesmo tempo curioso, porque a gente poderia ter se encontrado antes. Mas teve que ser aqui”, me disse Sarr.
Naquela mesma manhã, ele já havia escrito ao novo amigo para combinarem um encontro em Paris.
