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Minha bisavó matou um cara

    Ilustração de Roberto Rodrigues mostra o médico Manuel Dias de Abreu apalpando Sylvia Serafim: a imagem dela que se consolidou não foi a de feminista pioneira, mas a de louca assassina CRÉDITO: REPRODUÇÃO RETIRADA DA PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL CRÍTICA NÚMERO 346 DE 26/12/1929

anais da emancipação

Minha bisavó matou um cara

A história da jornalista e feminista Sylvia Serafim, que assassinou o irmão de Nelson Rodrigues

Sergio Schargel | Edição 196, Janeiro 2023

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É possível que você conheça esta história.

Em 26 de dezembro de 1929 – um dia depois do Natal –, a sórdida Sylvia Serafim invadiu a redação do jornal Crítica, da família Rodrigues, e assassinou a sangue-frio o genial ilustrador Roberto Rodrigues, no Rio de Janeiro. Ela estava enfurecida com o jornal que a mostrava como uma adúltera infame. Homem profundamente honesto e no fulgor da idade, Roberto Rodrigues, atingido com um tiro na barriga, agonizou nos braços de sua família por três dias enquanto a vilã gargalhava. As mães brasileiras ficaram chocadas com o duplo crime de Serafim: além de assassina, era jornalista. Embora tenha sido presa em flagrante, a rameira foi absolvida pelo júri. Como? Certamente por ser uma vagabunda apadrinhada por amantes que se supõem poderosos e por ter comprado os jurados com ajuda daquele pirata libidinoso do Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. A Cadela das Pernas Felpudas, conhecida por ser a mocinha de todos em Petrópolis, mostrou seu verdadeiro caráter de meretriz sanguinária.

O relato feito no parágrafo acima foi baseado na versão que o dramaturgo Nelson Rodrigues apresentou do assassinato de seu irmão, Roberto Rodrigues, em vários comentários feitos ao longo da vida, mas principalmente nas crônicas reunidas no livro O Reacionário, de 1977. Os adjetivos e epítetos com que Sylvia Serafim foi qualificada – “adúltera infame”, “vagabunda”, “cadela” – foram extraídos de diversos artigos publicados no jornal Crítica entre 1929 e 1930.

 

É compreensível que Nelson Rodrigues faça coro à história criada por sua família para demonizar Sylvia Serafim. Problema maior é que as pessoas aceitaram essa narrativa demolidora como verdade absoluta durante quase cem anos, proliferando a mesma versão em peças, filmes, ensaios, romances e até teses acadêmicas. Ninguém questionou se, além das relações familiares, o conservadorismo dos Rodrigues, que se expressava com clareza nas páginas de Crítica, não teria deturpado alguns pontos da história daquele assassinato.

Por quase um século todos ignoraram que Sylvia Serafim, ainda que tenha cometido o crime, não era uma tresloucada. Em 1929, era uma mulher avançada para sua época, dedicada ao jornalismo e às artes, simpatizante do socialismo e do movimento feminista. Crítica, por outro lado, era um jornal conservador, que expôs em suas páginas, na forma de escândalo abominável, a separação matrimonial de Sylvia Serafim Thibau do médico Ernesto Zeferino da Costa Thibau Júnior, chegando a ponto de inventar que ela tinha cometido adultério – uma fake news desmentida pelo próprio marido.

Indignada com a exposição da sua vida íntima, ela tomou a decisão radical de ir até o jornal levando na bolsa um revólver, no fim daquele ano de 1929, um período de grande aflição para o mundo, em decorrência da quebra da Bolsa de Nova York.

 

Sete décadas depois, um homem perto dos 40 anos e um menino de 6 anos passeavam no Palácio do Catete, no Rio. O pai e o filho viram um grupo de teatro ensaiando uma peça e se aproximaram para observar a encenação. Uma das jovens atrizes notou o interesse do homem e da criança e, após o ensaio, os procurou para divulgar o espetáculo. Ela contou que a peça era sobre o assassinato do desenhista Roberto Rodrigues por uma mulher, no início do século xx. Depois de repassar toda a história “oficial”, ela comentou: “Como pode, né? O que leva uma mulher dessas a tomar uma atitude tão monstruosa? Dizem que ela não era muito sã e por isso se suicidou depois.” O homem sorriu e respondeu: “Pois é. O que será que levou minha avó a fazer isso?” A atriz olhou espantada e se afastou rapidamente.

O homem era meu pai. O menino de 6 anos era eu – e Sylvia Serafim era minha bisavó.

 

Vamos voltar ao dia de Natal de 1929. Sylvia Serafim Thibau, filha do médico Augusto Serafim da Silva, tem 27 anos, é colunista de jornal, aspirante a escritora, simpatizante do feminismo e frequentadora da alta burguesia carioca. No dia 25 de dezembro, ela vai à redação do jornal Crítica, lançado no ano anterior por Mário Rodrigues, para pedir que uma matéria sobre sua vida particular não seja publicada. Em vão. No dia 26 de dezembro, indiferente aos apelos de Serafim, Crítica estampa na primeira página:

 

Entra hoje em juízo nesta capital um rumoroso pedido de desquite. […] Há uma grande ansiedade pública em conhecer os motivos da separação do casal Doutor Thibau Júnior. […] Será o conhecido radiologista Dr. João de Abreu o causador direto da dissolução do lar daquele seu ilustre colega? […] Mme. Sylvia Thibau, que subscreve as suas crônicas em jornais e revistas com o pseudônimo de Petite Source esteve em nossa redação.

O desquite, por si só, já era motivo de escândalo. Pior ainda era a insinuação de que decorria de um suposto adultério cometido por Serafim com o médico e cientista Manuel Dias de Abreu (1891-1962), que criaria alguns anos depois a abreugrafia, um método de radiografia dos pulmões. Para completar, o texto ainda era acompanhado de um desenho malicioso que mostrava Serafim, com a saia levemente levantada, sendo acariciada nas pernas por Abreu.

Em 26 de dezembro, com a acusação de adultério já exposta nas bancas, Serafim retornou à redação de Crítica, na Rua do Carmo, nº 35, no Centro do Rio, carregando um revólver. Como Mário Rodrigues, o dono do jornal, não estava na redação, Serafim foi recebida pelo filho dele, Roberto Rodrigues, de 23 anos, que trabalhava como ilustrador no jornal e fizera o desenho ofensivo da carícia nas pernas. Os dois se dirigiram a uma sala e, logo após, ouviu-se um tiro. Serafim foi presa em flagrante. Nelson Rodrigues, que tinha 17 anos e estava na redação, disse tempos depois: “O meu teatro não seria como é, nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto.”

Não há registro sobre o que Serafim e Roberto falaram naquela sala. Nelson Rodrigues sugere que a conversa foi irrelevante, uma vez que ela já teria tomado a decisão de matá-lo. É um argumento parecido com o que foi usado pela acusação no julgamento. A defesa contestou dizendo que a ré portava a arma apenas para o caso de ter que se defender e que só atirou em Roberto após ser ofendida verbalmente por ele.

No dia seguinte ao crime, começou a retórica da desumanização de Serafim. Em notas veiculadas diariamente no jornal Crítica, ela passou a ser tratada como “meretriz assassina”, entre outras ofensas. Conservadora, a publicação aproveitou o caso para alertar seus leitores sobre os perigos de ter uma feminista por perto.

Fazia tempos que Crítica observava Serafim, tanto por causa do conteúdo de seus escritos, excessivamente ousados aos olhos do diário, quanto por ela ser uma colaboradora dos jornais do empresário Assis Chateaubriand, rival dos Rodrigues. Segundo a professora Marialva Barbosa, da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, provavelmente a escritora foi usada por Rodrigues para atingir o seu rival na imprensa.

Em O Jornal, uma das publicações de Chateaubriand, Serafim dirigia a seção “Para a Mulher no Lar”. A despeito do título, a seção tratava de temas como a mulher na literatura, o feminismo e a “maternidade consciente”. No artigo O Trabalho Intelectual Feminino, publicado em A Gazeta, do jornalista Cásper Líbero, em 8 de maio de 1929, Serafim faz perguntas que ajudam a entender seu temperamento irrequieto e avançado:

Muitos espíritos femininos há que para a existência monótona e caseira foram feitos. Porém, e os outros, aqueles cuja potência intelectual se debate no círculo estreito e monótono dos afazeres domésticos, tal como o filho de uma águia na gaiola de um canário? Será preciso que, para seguirem seu destino, tenham de renunciar à felicidade, e que a satisfação de sua personalidade intelectual seja incompatível com a realização de suas aspirações sentimentais?

Depois do crime, os jornais cariocas se dividiram em blocos contra e a favor de Serafim. Os jornais de Chateaubriand defenderam abertamente o atentado, e o empresário auxiliou sua colaboradora financeira e psicologicamente. A Noite, o jornal fundado por Irineu Marinho, alinhou-se com a visão dos Rodrigues e publicou um artigo (que Crítica reproduziu na primeira página) dizendo que Serafim teria abandonado seu papel de mãe para se dedicar às letras: “Como classificar uma mãe que desmancha seu lar para escrever contos nos jornais?” Roberto Marinho, filho de Irineu, foi uma das pessoas que compareceu à redação de Crítica para prestar solidariedade aos Rodrigues. No artigo de A Noite, a menção ao assassinato aparece apenas no 11º parágrafo, em fonte muito menor, enquanto palavras como “lar”, “família” e “mãe” recebem destaque em todas as frases anteriores.

 

Há poucas informações sobre a vida de Sylvia Serafim. Mesmo a nossa família desconhece grande parte da vida da escritora, que se encerrou aos 33 anos, em abril de 1936, quando ela cometeu suicídio. Seu pai, o médico Augusto Serafim da Silva, foi auxiliar técnico de Oswaldo Cruz na campanha contra a febre amarela no Pará. Uma matéria do Jornal Pequeno, de 1910, informa que era membro da Diretoria de Saúde Pública do Rio de Janeiro (cargo que Thibau Júnior, marido de Serafim, também ocuparia), o que sugere sua relevância profissional. Morreu em 24 de março de 1940, quase quatro anos depois da filha. Mauro e Cláudio Thibau, os dois primeiros filhos de Sylvia, compareceram à missa de sétimo dia do avô. O único irmão dela, Mario Serafim da Silva, foi engenheiro da Central do Brasil e morreu em 1975.

Em 21 de agosto de 1930, véspera do início do julgamento do caso Roberto Rodrigues, o jornal carioca A Batalha, que não pertencia ao grupo de Chateaubriand, publicou um conjunto precioso de informações – colhidas pela Seção de Segurança Pessoal da 4ª Delegacia Auxiliar – que ajudam a esclarecer parte da trajetória de Sylvia Serafim. A Batalha era um jornal ligado ao Partido Comunista Brasileiro e é provável que seus editores conhecessem Serafim ou ao menos fossem simpáticos à escritora.

O relatório conta que ela nasceu na Rua General Severiano, em Botafogo, em 27 de julho de 1902, e foi batizada na Igreja de São João Batista, em 8 de dezembro. Fez o curso primário no Externato Pitanga, em Copacabana, e depois foi matriculada no Externato Sion, onde ficou apenas um ano. Entre 1914 e 1916, continuou os estudos no internato do Colégio Sacré-Coeur de Marie, instituição em Copacabana voltada às meninas da classe alta. “Teve educação à moda antiga, nunca andando só ao tempo de solteira”, diz o relatório. Serafim iniciou a Escola Normal, mas abandonou o curso quando sua família se mudou para Petrópolis. Em 1919, ficou noiva. Casou-se em 14 de novembro de 1921.

Sua primeira publicação na imprensa foi no Correio da Manhã, sob o pseudônimo de Ary Brasil. Mas sua principal atuação foi em O Jornal, como redatora da seção semanal “Para as Horas do Lazer Feminino”, que depois seria ampliada e rebatizada como “Para a Mulher no Lar”. Também colaborou em A Noite e na revista Fon-Fon. O relatório publicado em A Batalha observa:

Sua literatura nada tem de perniciosa, livre ou amoral. Nota-se na maioria dos seus escritos, seu grande amor aos filhos, ao lar e à família. […] Seus contos, escritos em estilo ligeiro, seus artigos sobre modas, sobre eugenia, sobre educação, sobre problemas sociais, são inúmeros e todos eles vazados numa linguagem limpa, escolmada de quaisquer inconveniências. Sua colaboração, por isso mesmo, nos diversos diários do Rio e até de S. Paulo foi aceita sem nenhuma relutância.

Após o nascimento do segundo filho, Cláudio, em 23 de dezembro de 1927, Serafim foi “atacada de uma psicose gravídica, que muito alterou seu comportamento, segundo afirma seu pai, dr. Augusto Serafim”. Depois de uma aplicação de raio x em um tratamento na perna esquerda, ela passou cerca de dez meses presa à cama. De acordo com o pai, esse problema também “lhe agravou o sistema nervoso” devido ao constante uso de analgésicos e estupefacientes.

Nessa época, as relações entre Serafim e o marido já estavam abaladas, por “incompatibilidade de gênios”. O relatório descreve o dr. Thibau Júnior como um homem “em demasia austero”, em contraste com a esposa, “que trazia um temperamento irrequieto, nervoso, com forte inclinação para a literatura”, o que contrariou o desejo e a determinação do marido. Os dois optaram pelo desquite amigável, que foi homologado pelo juiz em 19 de dezembro de 1929.

Politicamente, Serafim se afirmava socialista e se aproximou da Aliança Liberal, que em 1929 apoiou as candidaturas de Getúlio Vargas e João Pessoa às eleições do ano seguinte, contra o candidato Júlio Prestes, próximo das oligarquias então dominantes. No artigo O Comunismo ante a Consciência Humana, publicado em A Gazeta, de São Paulo, em 6 de novembro de 1929, ela afirmou: “Adoto, e corajosamente o proclamo, em suas linhas gerais a teoria comunista.” Mas, em outro artigo no mesmo jornal, publicado no dia 26 de junho de 1930, ou seja, depois do assassinato e enquanto ela estava detida, comparou o bolchevismo ao fascismo, como doutrinas políticas que exigem, “em troca do bem-estar da maioria, a liberdade de todos”.

Após ser presa em flagrante, Serafim foi levada à Delegacia do 1º Distrito, na Praça Mauá. Na mesma tarde a transferiram para a Casa de Detenção, na Rua Frei Caneca. Por causa de uma cirurgia de varizes, dias depois foi levada à Ca­sa de Saúde Santo Antônio, na Rua Riachuelo, onde ficou até o julgamento. Ali, recebeu a visita de Almerinda Farias Gama, que se sensibilizou com a campanha difamatória movida contra Serafim, cujos artigos nos jornais admirava. “Eu sabendo que ela estava presa lá, por questão de solidariedade, resolvi fazer-lhe uma visita. Visitei Sylvia, gostei dela, ela tinha um trato muito fino”, escreveu Gama, que viria a ser uma das pioneiras do feminismo brasileiro e uma das primeiras negras a atuar na política­ – foi uma das duas mulheres que participaram da Assembleia Nacional Constituinte de 1933, que consagrou o voto feminino conquistado no ano anterior, por meio de decreto. Patrícia Cibele da Silva Tenório conta, em A Vida na Ponta dos Dedos (dissertação de mestrado em história na Universidade de Brasília), que as duas mulheres travaram amizade, e Serafim convidou Gama a colaborar com a página que editava em O Jornal, dando projeção nacional à feminista.

 

O julgamento de Sylvia Serafim, em 22 de agosto de 1930, foi o primeiro do país a ser transmitido por rádio, que havia sido implantado no Brasil sete anos antes e começava a operar como o grande meio de comunicação de massa que logo se tornaria. A transmissão ficou sob os cuidados da Sociedade Rádio Educadora Paulista e da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (hoje conhecida como Rádio MEC). Além disso, o acesso ao tribunal foi liberado para qualquer cidadão pelo juiz do caso, Antônio Eugênio Magarinos Torres, mudando um costume que limitava a entrada a convidados. Segundo os Rodrigues, a medida teria sido uma manobra jurídica de um desafeto da família para incluir no tribunal um público majoritariamente a favor de Serafim. Quem não conseguiu entrar, pôde ouvir os debates pelos alto-falantes instalados em frente ao tribunal. Como descreveu a manchete de A Batalha do dia 21 de agosto, tratou-se de “um julgamento sensacional”.

O tribunal que julgou Serafim foi também palco de um enfrentamento político. Grupos conservadores diziam que a ré ofendera as mulheres e as famílias. Grupos feministas argumentavam que ela tivera a sua vida privada exposta pelo jornal e agira em defesa da honra. Na equipe inicial de advogados de Serafim, esteve uma importante feminista, Natércia da Cunha Silveira, primeira advogada do Rio Grande do Sul, que lutava pela emancipação e pelo direito de voto da mulher.

Crítica descreveu “os amigos da assassina Sylvia Serafim” como um “ultraje à família brasileira”: “Tentam equipará-la às virtuosas damas de nossa sociedade! […] A família brasileira paira muito acima de todas essas indignidades.” O advogado de acusação, Max Gomes de Paiva, reforçou essa ideia, ao afirmar que a ré havia trocado “sua condição de anjo do lar pela profissão de jornalista, para satisfação de sua vaidade”. A acusação insistiu na tese de que o assassinato fora premeditado, o que não surpreendia em se tratando de uma mulher que havia trocado o matrimônio e a maternidade para tornar-se intelectual, jornalista e adúltera. Mas o próprio marido, Thibau Júnior, negou que o desquite se dera em razão de adultério, repetindo que o único motivo fora incompatibilidade de gênios do casal. A defesa, comandada por Clóvis Dunshee de Abranches – irmão da futura condessa Pereira Carneiro e diretora-presidente do Jornal do Brasil –, argumentou que Serafim tivera a honra ofendida pelo jornal, o que provocou nela, no dia do crime, um rompante emocional.

Em 23 de agosto, segundo dia do julgamento, Crítica trouxe uma descrição detalhada da sessão no tribunal, ainda que nada imparcial. Descreveu inclusive a roupa que Serafim usava, “um elegante vestido de seda azul-marinho”, com um chapéu de feltro negro, “tipo cloche, colocado caprichosamente na cabeça, deixando ver madeixas de sua cabeleira loura”. O jornal tampouco deixa de sexualizá-la, para reforçar a imagem de mulher perversa:

Logo que se sentou, Sylvia Serafim recostou-se à tribuna de defesa e vagou o olhar pelo auditório. O decote triangular do traje deixava descoberto o colo, cintilando no vértice um rico pendentif [pingente]. Por vezes sorria, revelando uma insensibilidade nunca vista.

O advogado Evandro Lins e Silva, que mais tarde foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), acompanhou o julgamento quando era jovem jornalista no Rio de Janeiro. Em O Salão dos Passos Perdidos: Depoimento ao CPDOC, uma longa entrevista sobre sua trajetória profissional e política, ele rememorou o caso:

Ela era uma mulher que tinha se separado do marido, e isso era uma coisa incomum no Rio de Janeiro daquele tempo. A mulher ficava sempre suspeita de não ser uma pessoa correta pelo fa­to de se ter separado. E ela era jornalista, assinava uma coluna com o pseudônimo de Petite Source, Pequena Fonte. Uma mu­lher que escrevia em jornal… Uma mulher que conversava com as pessoas, que levava os seus trabalhos para a redação… Isso tudo fez com que ela fosse vítima da reportagem da Crítica, que a apontava como uma mulher livre, uma mulher que não devia praticar certas ações que eram censuráveis diante da sociedade muito rigorosa e machista da época.

O argumento de que Serafim agiu em defesa da honra e devido à “perturbação dos sentidos e da inteligência” foi acatado – e o júri popular a absolveu por 5 votos a 2. É um desfecho curioso, pois o mesmo argumento de defesa da honra era na época aplicado principalmente a homens que matavam mulheres.

O resultado foi um baque para os Rodrigues, que não tinham dúvidas de que a ré seria condenada. Havia meses, o jornal vinha publicando uma contagem regressiva, que consistia numa foto de Serafim, sobreposta pelas palavras “Meretriz Assassina!” e um texto invariável, só modificado na data. Em 20 de agosto, por exemplo, a contagem dizia:

faz hoje duzentos e trinta e seis dias que Sylvia Serafim, ex-Thibau, esposa adúltera, mãe infame, cujos vícios inspiraram uma escandalosa ação de divórcio, para maior liberdade de cadela de rua, feriu de morte Roberto Rodrigues, artista de vinte e três anos de idade, chefe de família, profundamente honesto, com o fulgor de um grande talento e de virtudes inexcedíveis. A meretriz assassina será castigada.

Crítica continuou a campanha contra Serafim mesmo depois do veredicto, estendendo os ataques ao advogado (chamaram Abranches de “charlatão cínico e ladravaz”), ao júri e ao magistrado (que acusaram de ter transformado o julgamento “numa farsa”). Mas isso não durou muito: o jornal foi empastelado quando estourou a Revolução de 1930, no final de outubro.

Uma das reações mais violentas ao veredicto foi publicada na Bahia, na revista ETC, de Júlio de Carvalho, em 1º de setembro de 1930. Foi escrita por Jorge Amado, então um aspirante a escritor de 18 anos que havia pouco se estabelecera na capital federal (poucos meses depois, lançaria seu primeiro livro, O País do Carnaval), de onde assinava a coluna Cousas do Rio de Janeiro. Amado – que anos depois se ligaria ao Partido Comunista – não somente atacou rudemente Sylvia Serafim no artigo, como aproveitou para vilipendiar as feministas. No texto Um Júri Sensacional, ele escreveu:

A assassina Sylvia Serafim, ex-Thibau, que há tempos abateu na redação de Crítica, a tiros, o jovem desenhista Roberto Rodrigues, acaba de ser absolvida.

Sentença profundamente injusta, filha de um sentimentalismo tolo que dorme estupidamente na alma de todos os brasileiros e que só acorda para absolver assassinos e aplaudir retóricos oradores analfabetos.

Sylvia Serafim é uma mulher profundamente medíocre. Destas a quem a literatura seduz e que para ter nome são capazes de tudo.

Mãe de filhos ainda crianças, ia abandoná-los e abandonar o marido para dedicar-se inteiramente à imprensa… (Que país infeliz o Brasil). […]

A assassina conseguiu o que pretendia. Ficou no cartaz. Protegida por jornalistas que enriqueciam na campanha liberal, na prisão e depois no hospício para onde foi transportada recebia diariamente visitas e mais visitas de histéricas moças feias, ávidas de ler seu nome nas gazetas.

Foi interessante. Todas as mocinhas suburbanas e quarentonas, que já haviam perdido todas as esperanças de casamento, doentes de histerismo escreveram à assassina de um honrado pai de família […].

[Serafim] irá agora atulhar os jornais de má colaboração (só pelo que escreve ela merecia cadeia para o resto da vida), fazer contos, dar conselhos, e consequentemente influir na educação daquelas que a ler.

E de que modo pode uma mulher que assassinou um pai de família e que abandonou a sua própria família influir na educação de uma moça? Somente de um modo nocivo. […]

E tudo isso, o que é pior, em péssimo português de lavadeira feita jornalista, sem o mínimo respeito e gramática e em particular aos pronomes. Mas é assim que se faz justiça no Brasil.

 

Livre, Sylvia Serafim continuou a escrever nos jornais de Chateaubriand. Apaixonou-se por um tenente da Aeronáutica, Armando Serra de Menezes, e teve um filho com ele, Ronald. Como a legislação brasileira não permitia o casamento de pessoas desquitadas, os dois planejaram se casar no Uruguai, onde isso era possível, desde que morassem um tempo no país. Quando Menezes fez parte de uma comitiva de Getúlio Vargas ao país vizinho, em torno de 1935, Serafim o acompanhou. A comitiva regressou ao Brasil, o tenente também, e ela permaneceu em Montevidéu, com o filho. Aguardou que Menezes voltasse para o casamento, mas isso nunca ocorreu – Menezes preferiu se casar com uma mulher rica.

Serafim e o filho retornaram ao Rio de Janeiro em 1936. Algum tempo depois, ela foi presa, acusada de falsificar documentos para se matricular na Faculdade de Direito de Niterói. Partiu para Curitiba, em busca da ajuda de Menezes, que tinha se mudado para lá. Mas ele a rejeitou novamente. No hotel em que estava hospedada, Serafim tentou suicídio, cortando os pulsos. Sobreviveu e foi presa, denunciada por Menezes. Foi levada à Casa de Detenção de Niterói. Em 27 de abril de 1936, na prisão, ela ingeriu um vidro inteiro de sonífero – e não acordou mais. Quando se suicidou, seu filho com o tenente, então com 4 anos, dormia ao seu lado no cubículo com banheiro onde a instalaram no presídio. É meu avô. Ele nunca falou sobre a mãe, que mal chegou a conhecer.

Cláudio, um dos dois filhos que Serafim teve no primeiro casamento, com o médico Ernesto Thibau Júnior, tornou-se piloto militar e morreu em um acidente de aviação. Mauro, o segundo filho, foi engenheiro e chegou a ministro de Minas e Energia, no governo Humberto Castelo Branco. Morreu em 2005. Em Mauro Thibau: A Trajetória de um Ministro (lançado em 1997 pelo Centro da Memória da Eletricidade no Brasil), ele relembrou sua relação com a mãe, mas não mencionou o assassinato nem o que se passou com ela entre 1929 e 1936. Também disse ter apenas um irmão, ignorando seu meio-irmão nascido após o crime.

As duas famílias – os Thibau e os Menezes – nunca foram muito próximas, mas tinham algum contato e se encontravam em datas festivas. Distanciaram-se, conforme as gerações foram se sucedendo. Cada uma delas lida com a história ao seu modo. Membros da família Thibau deram depoimentos ao programa Linha Direta Justiça, da Rede Globo, que reconstituiu o caso em 2007. Ao contrário desses descendentes, os da família Menezes preferiram nunca falar sobre essas histórias do passado. Sou o primeiro a fazê-lo e tentar promover um resgate dessa mulher, que considero pioneira.

 

Sylvia Serafim publicou três livros: Fios de Prata (Sinfonia da Dor), de 1930, Ramos de Coral (Poemas de um Coração de Mãe), de 1931, e Manual de Civilidade, de 1935. Todos são difíceis de encontrar. Só consegui a primeira obra depois de dois anos de busca, em um sebo em Brasília. Uma edição de Ramos de Coral foi vendida em 2020 em um leilão, mas nunca encontrei indício de Manual de Civilidade. Uma reportagem publicada perto do final de sua vida diz que Serafim deixou um quarto livro inacabado, cujo protagonista seria seu último filho. Mas o manuscrito não foi encontrado até hoje.

Fios de Prata, lançado depois do assassinato, pela Officinas Graphicas Alba, tem duzentas páginas e traz quarenta crônicas e textos poéticos em tom confessional, divididos em três partes, conforme os anos de 1928, 1929 e 1930. O livro abre com uma foto de Serafim, que traz impressa embaixo duas assinaturas: uma com seu próprio nome, outra com seu principal pseudônimo, Petite Source. Duas páginas depois, uma dedicatória: “A todos aqueles que me fizeram sofrer.”

O estilo literário de Serafim é datado e meloso, bem diferente da sobriedade que ela imprimia aos artigos jornalísticos, com sua militância crítica e editorial sobre temas como a emancipação feminina e os direitos dos trabalhadores. A seção “Para a Mulher no Lar”, em O Jornal, mesclava temáticas espinhosas à época com poemas, crônicas e assuntos de moda e beleza. Ocupava duas páginas, contando sempre com trabalhos de Serafim, com uma coluna sobre estética chamada A Ciência da Beleza, assinada pelo dr. Pires Rebello, cartas (e, por vezes, poemas e crônicas) dos leitores, além de anúncios.

Ela assinava os textos com seu nome e com pseudônimos: além de Petite Source, Borboleta Azul, Maripoza Doirada ou Cinderella, este último utilizado na coluna No Império da Moda. Em um dos artigos, de 18 de outubro de 1931, a pretexto de falar sobre vestidos de noiva, Serafim resolveu atacar uma ex-feminista chamada Jeanne Galzy, que teria dito que a felicidade da mulher reside tão somente no matrimônio. A jornalista não nega a importância do casamento e da maternidade, mas rejeita que uma coisa e outra sejam motivos para impedir a atividade intelectual da mulher. Defende que é possível aliar o casamento e os filhos com esportes, hob­bies e trabalhos intelectuais, como fazem os homens. Ela também rebate o argumento de Galzy de que toda mulher “emancipada” é frustrada porque, no fundo, deseja “a grande monotonia tranquilizadora dos trabalhos caseiros”. Serafim responde: “Se tudo isso, em vez de ser um ideal, fosse uma realidade, o feminismo não existiria.”

No artigo Feminista, publicado em 25 de maio de 1929, em A Gazeta (SP), ela escreve: “Sob a reprovação quase que geral, a feminista é, no entanto, a mulher mais verdadeira e nobremente mulher.” Também rechaça uma ideia difundida na época de que “a feminista é a mulher feia que não podendo conquistar o homem, quer ser a rival do homem”. Em A Mulher na Literatura, publicado em A Gazeta, em 29 de novembro de 1929 (pouco menos de um mês antes do crime), defende que não há arte mais intimista que a literatura e que essa seria uma das razões de ser praticada principalmente por homens (até aquela época), pois “o incessante constrangimento exercido sobre a vida da mulher pelo receio da opinião alheia” promove nelas um violento autossilenciamento.

A mulher estaria acorrentada, incapaz de expressar literariamente as profundezas do psicológico pela mesma razão que o seu íntimo era controlado e podado: “Ao escrever para o público, um pudor obscuro e invencível a contém, obrigando-a a descobrir apenas o rosto, as mãos… Os braços… Isto é, suas impressões e julgamentos mais superficiais cuja externação não compromete.” A escassez da produção literária feminina, diz Serafim, ocorre, portanto, não por causa da “inteligência menor” ou da incapacidade das mulheres, mas devido às mesmas pressões sociais que impediam, por exemplo, as mulheres de votar.

 

Nos anos 1930, depois do crime, da absolvição e de ter tido um filho do homem com o qual não se casou, Serafim foi demonizada por conservadores e sacralizada por progressistas. Para estes últimos, ela encarnava o espírito de uma mulher independente, o futuro – visão que foi sendo apagada à medida que Serafim sofria um processo gradual de desumanização e era empurrada para a lata de lixo da história. No lugar da feminista pioneira, consolidou-se a imagem de uma louca assassina, que inclusive debocha dos mortos, tal como na ilustração que acompanha um artigo de Mário Rodrigues Filho, em Crítica, de 24 de agosto de 1930.

No texto, o jornalista trata da morte de seu pai, Mário Rodrigues, o fundador do jornal, ocorrida naquele mesmo ano, em 15 de março (antes, portanto, do julgamento). O desenho mostra Serafim rindo ao lado do caixão de Roberto Rodrigues, como se ela tivesse cometido um duplo assassinato: o do filho e o do pai. O escritor Ruy Castro diz, em O Anjo Pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues, que teriam culpado Serafim até mesmo pela morte de Joffre Rodrigues, outro irmão de Nelson, que faleceu em 16 de dezembro de 1936, aos 21 anos, de tuberculose. “Era como se, mesmo morta, Sylvia ainda tivesse em suas mãos o destino de Joffre e não quisesse poupá-lo”, escreve Castro.

Para pensar a construção dessa imagem de Serafim vale recorrer ao livro The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (A louca do sótão: a escritora e a imaginação literária do século XIX), das críticas norte-americanas Sandra M. Gilbert e Susan Gubar. Partindo da figura de Bertha Mason – personagem do romance Jane Eyre, de Charlotte Brontë –, internada em um sótão por ser considerada insana, as autoras refletem a respeito do processo de desumanização e da interpretação maniqueísta da mulher como anjo ou como monstro no cânone literário:

A maioria dessas histórias tende a perpetuar imagens extremas e debilitantes de mulheres como anjos ou monstros […] Afinal, Macbeth é nobre; Lady Mac­beth é um monstro. Da mesma forma, Édipo é uma figura heroica, enquanto Medeia é apenas uma bruxa, e a loucura de Lear é gloriosa, enquanto a de Ofélia é simplesmente patética.

Nos anos seguintes ao julgamento, a polêmica em torno de Sylvia Serafim foi enfraquecendo, enquanto ela própria se transformava num adendo da biografia de Nelson Rodrigues. O próprio dramaturgo a transformou em uma personagem característica de sua prosa: uma personagem ridícula, patética, infantil, mimada e viciada.

As abordagens posteriores não diferem muito disso. No romance Sylvia Não Sabe Dançar (2008), a escritora Cristiane Lisbôa cria um relacionamento anacrônico entre Serafim e Nelson Rodrigues, pintando-a como louca e incestuosa. A “relação” entre os dois, aliás, se tornou lugar comum no teatro. É assunto de ao menos duas peças, Amor e Morte de Nelson Rodrigues, de Clóvis Levi, de 1995, e À Sombra do Anjo: Teatro Desagradável em Cinco Atos, Um Roteiro Performativo a Doze Mãos, de Bya Braga e outros, publicada em Caderno de Encenação, em 2010.

A tevê deu uma visão mais imparcial e completa do caso. No episódio A Primeira Tragédia de Nelson Rodrigues, do extinto programa Linha Direta Justiça, da Globo, ela é tratada para além do clichê de assassina. O programa está disponível no YouTube, e nos comentários dos espectadores vê-se que o caso ainda mobiliza paixões e polariza as pessoas, tal como em 1930.

Outro trabalho sem maniqueísmo é o ensaio O Corpo e as Subjetividades de Sylvia Serafim: Violência de Gênero, Imprensa e Protagonismo Feminino no Rio de Janeiro (1920-1930), de Karla Carloni (no livro Mulheres Tecendo o Tempo, organizado por ela e Carolina Coelho Fortes). Publicado em 2020, o texto é talvez o primeiro de cunho acadêmico a fazer um resgate de outras facetas de Serafim. Também Marcus de Moura Barros, doutorando em literatura na Sorbonne, dedicou-se à escritora em Por que Nunca Ouvi Falar Delas?: Sylvia Serafim Thibau e o Apagamento Discursivo das Mulheres Controversas, trabalho de cerca de cem páginas, ainda não publicado. Pouco a pouco, as pessoas começam a notar que a trajetória de Serafim não pode ser sintetizada num crime. E minha impressão é que esse movimento tende a crescer.

 

Não me recordo da primeira vez que ouvi falar de Sylvia Serafim, mas foi só quando cheguei à adolescência que me contaram uma espécie de versão preliminar do assassinato de Roberto Rodrigues, cheia de reticências. A história era um tabu familiar. “Meu pai, filho dela, não toca nesse assunto e não quer que ninguém toque”, disse certa vez um dos netos de Serafim. De acordo com outro, “meu avô só tocou no assunto uma vez, e porque estava num momento especial”. O silêncio sobre o passado foi regra entre os filhos e os netos.

Serafim era uma grande sombra pairando sobre todos. Ou um grande vazio, pois não havia fotos dela nos álbuns da família, repletos de imagens do meu bisavô, o general Armando Serra de Menezes. O único material que encontrei nos arquivos familiares foi um álbum bem conservado, e aparentemente montado pela própria escritora, com os textos que ela publicou.

Às vezes, o assunto pipocava nas conversas em família, mas sempre de forma reticente. Era uma ferida que ninguém tinha coragem de cutucar. Mas a curiosidade começou a crescer dentro de mim e me levou a ler os escritos de Serafim, sobre os quais agora faço uma tese no doutorado de literatura brasileira na Universidade de São Paulo.

Eu gostaria de ter Serafim no sobrenome, mas não tenho. Tenho o de meu bisavô, Menezes, embora utilize mais o sobrenome materno por questões pragmáticas. Na verdade, o sobrenome Serafim morreu com Sylvia, pois seus filhos herdaram os de seus pais. Acho um sobrenome bonito, imponente, e é uma pena que não tenha sido transmitido às gerações seguintes. Foi outra maneira de apagá-la da nossa história, como nos álbuns de fotografia.

As famílias envolvidas na tragédia – as de Sylvia Serafim e Roberto Rodrigues – se encontraram por algumas vezes. Um dos netos dela me contou ter tido contato com um dos filhos de Nelson Rodrigues, mas não se identificou como descendente de Serafim, para evitar embaraços. Eu mesmo tive contato com alguns membros da família Rodrigues. Algumas vezes me identifiquei, outras vezes não. Quando me identificava, logo emergia certo constrangimento, mesmo depois de cem anos.

Sergio Schargel

É pesquisador, mestre em ciência política pela Unirio e mestre em literatura pela PUC-Rio. Venceu o Prêmio Abralic de melhor dissertação do biênio 2020-2021, que resultou no livro O Fascismo Infinito, no Real e na Ficção (Bestiário)

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