Detalhe de As tentações de Santo Antão, de Bosch: uma elite mundial emergente está criando uma sociedade em que ações nefastas de líderes políticos são ocultadas por uma névoa de distrações CRÉDITO: DETALHE DO QUADRO AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÔNIO_HIERONYMUS VAN AKEN (BOSCH)_1516_REPRODUÇÃO DE PETER HORREE _ALAMY _FOTOARENA
O novo obscurantismo
O misticismo anticientífico atingiu os mais altos escalões da política americana e agora impulsiona as autocracias mundo afora
Anne Applebaum | Edição 221, Fevereiro 2025
Pinheiros cobertos de neve rodeiam as margens de um lago congelado. Está nevando; ouve-se uma música de fundo suave e relaxante. Um homem grisalho, de rosto afável, está em pé à beira do lago. Ele começa a se despir. Explica: vai nadar para demonstrar a sua fé – e também sua oposição à ciência, à tecnologia, à modernidade. “Eu não preciso do Facebook, não preciso da internet, não preciso de ninguém. Só preciso do meu coração.” Ele sai nadando no lago, parecendo não se incomodar com o frio, e continua: “Eu confio no meu sistema imunológico porque tenho total confiança e fé no seu criador, em Deus. Minha imunidade faz parte da soberania do meu ser.”
Esse é Călin Georgescu, que chocou seus compatriotas ao vencer o primeiro turno da eleição presidencial na Romênia, em 24 de novembro passado, apesar de mal aparecer nas pesquisas de opinião e fazer campanha quase que só no TikTok, cujas regras, supostamente concebidas para limitar ou controlar as mensagens políticas, pelo visto não o afetaram. Pelo contrário, ele utilizou as táticas que muitos influenciadores de mídia social empregam para atrair o algoritmo do TikTok. Em alguns clipes, com um piano suave e melancólico soando ao fundo, ele implora às pessoas: “Vote com a sua alma.” Em outros, usa legendas pop-up, iluminação agressiva, cores fluorescentes e música eletrônica, clamando por um “renascimento nacional” e criticando as forças secretas que, segundo afirma, tentam prejudicar os romenos. “A ordem para destruir os nossos empregos veio de fora”, diz ele em um vídeo. Em outro, fala de “mensagens subliminares” e controle do pensamento, enquanto as imagens mostram dedos segurando os fios de uma marionete. Nos meses que antecederam a eleição, esses vídeos tiveram mais de 1 milhão de visualizações.
Em outras plataformas, esse místico no estilo Nova Era, de aparência gentil, elogiou Ion Antonescu, o ditador romeno que conspirou com Hitler e foi condenado à morte por crimes de guerra, entre eles a participação no Holocausto dos judeus na Romênia. Georgescu chegou a qualificar tanto Antonescu quanto um líder da Guarda de Ferro – movimento violentamente antissemita anterior à Segunda Guerra Mundial – de heróis nacionais. E já se encontrou duas vezes com Alexander Dugin, ideólogo fascista russo que postou no X uma declaração (mais tarde apagada), dizendo que “a Romênia fará parte da Rússia”.
Ao mesmo tempo, Georgescu elogia as qualidades espirituais da água. “Nós não sabemos o que é a água”, diz ele. “H₂O não significa nada.” Além disso, “a água tem memória, e nós destruímos sua alma com a poluição”. E mais: “A água é viva e nos envia mensagens, mas nós não sabemos como ouvi-las.” Ele acredita que as bebidas gaseificadas contêm nanochips, que “entram em você como num laptop”. Sua mulher, Cristela, produz vídeos sobre cura no YouTube, recorrendo a expressões como “acidose linfática” e “metabolismo do cálcio” para escorar seus argumentos.
Ambos também promovem a “paz”, um objetivo vago que parece significar que a Romênia deve parar de ajudar a Ucrânia – país com o qual faz fronteira – a se defender contra os invasores russos. “Não se pode vencer uma guerra com uma guerra”, escreveu Cristela Georgescu numa postagem no Instagram, algumas semanas antes das eleições. “A guerra destrói não só fisicamente: destrói os CORAÇÕES.” Nem ela nem o marido mencionam as ameaças à segurança da Romênia – que aumentariam exponencialmente no caso de uma vitória russa na Ucrânia –, nem os custos econômicos, a crise dos refugiados e a instabilidade política que se seguiriam.
Călin Georgescu diz que não gastou dinheiro em sua campanha. O governo romeno, porém, afirma que alguém pagou ilegalmente centenas de milhares de dólares a usuários do TikTok para promover Georgescu e que estrangeiros não identificados coordenaram a atividade de dezenas de milhares de contas falsas, incluindo algumas que, se passando por instituições estatais, lhe davam apoio. Hackers, que se suspeita serem russos, realizaram mais de 85 mil ataques cibernéticos contra a infraestrutura das eleições romenas.
Em 6 de dezembro, em resposta às descobertas do governo romeno sobre ataques russos “agressivos” e violações das leis eleitorais do país, o Tribunal Constitucional da Romênia cancelou a eleição e anulou os resultados do primeiro turno.[1]
Dada essa estranha combinação – nostalgia da Guarda de Ferro e trolls russos, junto de bobagens sobre bem-estar, mais comumente associadas à atriz Gwyneth Paltrow –, quem são, exatamente, Georgescu e sua mulher? Como classificá-los? Embora seja tentador descrevê-los como “extrema direita”, essa terminologia antiquada não capta muito bem o quê ou quem eles representam.
Os termos direita e esquerda vêm da Revolução Francesa, quando a nobreza, que buscava preservar o status quo, sentava-se do lado direito da Assembleia Nacional, e os revolucionários, que desejavam mudanças democráticas, sentavam-se do lado esquerdo. Essas definições deixaram de nos satisfazer há uma década, quando uma parte da direita, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, começou a defender não a cautela e o conservadorismo, mas sim a destruição das instituições democráticas. Em sua nova encarnação, a extrema direita começou a se assemelhar à velha extrema esquerda. Em alguns lugares, as duas começaram a se fundir.
Em 2017, quando escrevi pela primeira vez sobre a necessidade de uma nova terminologia política, tive dificuldade para encontrar conceitos melhores. Mas agora os contornos de um movimento político popular estão ficando mais nítidos – e esse movimento não tem relação alguma nem com a direita nem com a esquerda, tal como as conhecemos.
Os filósofos do Iluminismo – cuja crença em Estados democráticos baseados no predomínio da lei nos deu tanto a Revolução Americana quanto a Revolução Francesa – protestavam contra o que chamavam de obscurantismo: escuridão, obstrução, irracionalidade. Mas os profetas do que agora podemos chamar de Novo Obscurantismo oferecem exatamente isso: soluções mágicas, uma aura de espiritualidade, superstição e o cultivo do medo. Entre eles, estão charlatões da saúde e influenciadores que desenvolveram ambições políticas; fãs do movimento quase religioso QAnon e seus derivados no estilo Pizzagate;[2] e membros de vários partidos políticos de toda a Europa que são pró-Rússia e antivacina e, em alguns casos, também promovem o nacionalismo místico.
Há estranhas semelhanças por toda parte. Na Alemanha, tanto a política de esquerda Sahra Wagenknecht quanto o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) promovem o ceticismo em relação às vacinas e às mudanças climáticas, incentivam o nacionalismo tipo “sangue e solo”[3] e a retirada do apoio alemão à Ucrânia. Em toda a Europa Central, a fascinação pelas runas e a magia popular se alinha com a xenofobia de direita e com o paganismo de esquerda. Líderes espirituais estão se tornando políticos, e políticos se desviaram para o ocultismo. Tucker Carlson, ex-apresentador da Fox News que se transformou em apologista da agressão russa, chegou a dizer que foi atacado por um demônio que deixou “marcas de garras” pelo corpo.
Esse Novo Obscurantismo atingiu agora os mais altos escalões da política dos Estados Unidos. Comentaristas, tanto estrangeiros como americanos, têm tido dificuldade para explicar a ideologia por trás de algumas nomeações de Donald Trump para seu gabinete, e com bons motivos. Embora Trump tenha sido reeleito pelo Partido Republicano, não há nada de tradicionalmente “republicano” em propor Tulsi Gabbard como diretora da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês). Gabbard é uma ex-democrata progressista, com relações de longa data com a Science of Identity Foundation, uma seita dissidente do movimento Hare Krishna. Assim como Tucker Carlson, é apologista do brutal ditador russo Vladimir Putin e de Bashar al-Assad, o tirano da Síria recentemente deposto, cujas mentiras fantásticas ela já repetiu.
Tampouco há qualquer coisa de “conservador” em Kash Patel – indicado por Trump para diretor do FBI –, que já avisou que vai demitir um grande número de funcionários do governo, atuais e passados, inclusive muitos que serviram no primeiro governo Trump. Seguindo o espírito dos novos obscurantistas, Patel ajudou a promover a Warrior Essentials, empresa que vende antídotos tanto para a Covid como para vacinas contra a Covid. E nenhuma pessoa que leve a sério pensadores conservadores como Edmund Burke ou William F. Buckley Jr. colocaria um teórico da conspiração como Robert F. Kennedy Jr., outro apologista de Putin, ex-democrata (aliás, da família democrata mais famosa dos Estados Unidos) e inimigo das vacinas e do flúor, no comando dos serviços de saúde do país, como fez Trump.[4]
Nenhum “conservador” que defende os valores tradicionais da família proporia, como embaixador na França, um criminoso sentenciado que contratou uma prostituta para seduzir o marido de sua irmã e gravar um vídeo comprometedor – especialmente se esse criminoso sentenciado fosse o pai do genro do presidente.[5]
Em vez do conservadorismo, tal como entendido convencionalmente, esse grupo de pessoas e seus similares internacionais representam a fusão de várias tendências que vêm se consolidando há algum tempo. Os vendedores de suplementos vitamínicos e curas não comprovadas da Covid atualmente se unem – e não por acaso – com admiradores declarados da Rússia de Putin, em especial aqueles que acreditam, de modo errôneo, que o presidente russo é líder de uma “nação cristã branca” (na realidade, a Rússia é multicultural, multirracial e, majoritariamente, irreligiosa; seus trolls promovem o ceticismo em relação às vacinas e mentiras sobre a Ucrânia).
Os fãs do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán – um autocratazinho que conduziu à penúria o seu país, hoje um dos mais pobres da Europa, enquanto enriquecia sua família e seus amigos – se solidarizam com os americanos que infringiram a lei, foram presos, roubaram de suas próprias instituições de caridade ou assediaram mulheres. E isso não é de admirar: em um mundo onde as teorias da conspiração e as curas mais absurdas são amplamente aceitas, logo desaparecem conceitos baseados em evidências, como culpa e criminalidade.
Entre os seguidores desse novo movimento político estão alguns dos americanos mais pobres. E, entre seus apoiadores e financiadores, estão alguns dos mais ricos. George O’Neill Jr., herdeiro da família Rockefeller e membro do conselho da revista The American Conservative, apareceu em Mar-a-Lago[6] depois da eleição de Trump. O’Neill, que tinha contato próximo com Maria Butina, agente russa deportada em 2019, apoia Tulsi Gabbard, a nova diretora da NSA, desde pelo menos 2017, tendo feito doações para sua campanha presidencial em 2020, bem como para a de Kennedy Jr. em 2024. Até Elon Musk, o bilionário que usou sua plataforma de mídia social X para dar um impulso algorítmico a histórias que ele decerto sabe que são falsas, conseguiu arranjar um posto no governo para si mesmo, no novo Departamento de Eficiência Governamental.
Será que O’Neill, Musk e os corretores de criptomoedas que acorreram até Trump estão nisso pelo dinheiro? Ou será que eles realmente acreditam nas ideias conspiratórias, inclusive as antiamericanas, que andam promovendo? Talvez a primeira hipótese seja verdade, ou talvez a segunda, possivelmente ambas. Se as motivações deles são cínicas ou sinceras, isso não tem tanta importância. O que importa é o impacto que exercem, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.
Seja para o bem, seja para o mal, os Estados Unidos dão exemplos que os outros acabam seguindo. O simples anúncio de Trump de que pretendia nomear Kennedy para seu gabinete garantiu que o ceticismo em relação às vacinas para crianças venha a se espalhar pelo mundo, possivelmente seguido pelas próprias doenças. E as epidemias, como aprendemos recentemente, costumam deixar as pessoas amedrontadas e mais dispostas a adotar soluções mágicas.
Outras civilizações já vivenciaram momentos como este. No século XVI, quando o império dos venezianos começou a declinar, eles passaram a recorrer à magia e a maneiras rápidas de enriquecer. Nos últimos dias do Império Russo, o misticismo e o ocultismo se alastraram rapidamente: seitas camponesas promoveram crenças e práticas exóticas, incluindo a autoflagelação, a autocastração e o antimaterialismo. Em Moscou e São Petersburgo, aristocratas recorreram à teosofia, uma mixórdia de religiões inventada pela russa Helena Blavatsky, que levou para os Estados Unidos o seu credo hindu-budista-cristão-neoplatônico.
O mesmo clima febril e passional que produziu esses movimentos impulsionou Rasputin – um místico camponês que afirmava ter poderes mágicos de cura – até a corte imperial de Nicolau II. Depois de convencer a imperatriz Alexandra que poderia curar a hemofilia do filho, Rasputin acabou se tornando conselheiro político do czar.
A influência de Rasputin produziu uma espécie de histeria generalizada na Rússia. Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, muitos russos estavam convencidos de que forças obscuras (tyomnye sily) controlavam secretamente o país. “Essas forças tinham significado diferente para cada tipo de pessoa – judeus, alemães, maçons, a imperatriz Alexandra, Rasputin, a camarilha da corte”, escreve Douglas Smith, um dos biógrafos de Rasputin. “Mas acreditava-se piamente que eles [os membros da conspiração secreta] eram os verdadeiros senhores da Rússia.” Como disse um teosofista do país: “Existem realmente inimigos que estão envenenando a Rússia com suas emanações negativas.”
Se substituirmos forças obscuras por Estado profundo (deep state),[7] será que aquela história é tão diferente da nossa? Tal como os russos em 1917, estamos vivendo em uma era de mudanças rápidas, às vezes desconhecidas: econômicas, políticas, demográficas, educacionais, sociais e, acima de tudo, informacionais. Estamos imersos em uma permanente cacofonia, com mensagens conflitantes da direita e da esquerda, verdadeiras e falsas, cintilando nas nossas telas o tempo todo.
As religiões tradicionais vivem um prolongado declínio. Instituições confiáveis parecem estar colapsando. O otimismo tecnológico deu lugar ao pessimismo tecnológico, ao medo de que agora a tecnologia está nos controlando de variadas maneiras que não conseguimos compreender. Nas mãos dos novos obscurantistas – que promovem ativamente o medo da doença, o medo da guerra nuclear, o medo da morte –, o pavor e a ansiedade são armas poderosas.
Para os americanos, a fusão da pseudoespiritualidade com a política significa se afastar de alguns de seus princípios mais profundos, como o de que a lógica e a razão levam a um bom governo, que o debate baseado em fatos leva a boas políticas, que a governança prospera à luz do Sol e que a ordem política reside em regras, leis e processos, não em carisma místico. Os adeptos do Novo Obscurantismo romperam com os ideais dos fundadores do país, que se consideravam, todos eles, homens do Iluminismo. Benjamin Franklin não era apenas um pensador político, mas também um cientista e corajoso defensor da inoculação contra a varíola.[8] George Washington priorizou de maneira absoluta a rejeição à monarquia, a restrição ao poder do Executivo e o estabelecimento do estado de direito. Líderes americanos posteriores – Lincoln, Roosevelt, Martin Luther King – citavam a Constituição e seus autores para sustentar seus argumentos.
Em contraste, essa elite internacional emergente está criando algo muito diferente: uma sociedade em que a superstição derrota a razão e a lógica, a transparência desaparece e as ações nefastas dos líderes políticos são obscurecidas por uma névoa de absurdos e distrações. Não há freios e contrapesos em um mundo onde a única coisa que importa é o carisma. Não há estado de direito em um mundo onde a emoção derrota a razão – há apenas um vazio, que qualquer um que tenha uma história chocante e sedutora para contar é capaz de preencher.
O texto foi originalmente publicado na revista The Atlantic
[1] As novas eleições na Romênia foram marcadas para este ano, em 4 de maio (primeiro turno) e 18 de maio (segundo). (Todas as notas são da Redação.)
[2] A teoria da conspiração conhecida como Pizzagate, que começou a circular em 2016, relacionou Hillary Clinton, candidata à Presidência naquele ano, com uma rede de prostituição e tráfico de crianças. Ela perdeu as eleições para Donald Trump.
[3] A expressão Blut und Boden (sangue e solo) foi formulada no século XIX, relacionando a nacionalidade à raça e ao local de nascimento. Acabou sendo adotada como slogan pelos nazistas.
[4] O advogado Robert F. Kennedy Jr., de 71 anos, é filho do senador Robert Kennedy e sobrinho do presidente John Kennedy. Em 2023, ele apresentou sua candidatura às primárias do Partido Democrata para a Presidência. Acabou retirando seu nome, preferindo conduzir uma campanha independente, da qual também desistiu para apoiar Trump, que o nomeou secretário do Departamento da Saúde e Serviços Humanos do novo governo.
[5] A autora se refere ao empresário Charles Kushner, de 70 anos, pai de Jared Kushner – marido de Ivanka Trump e um dos principais conselheiros do presidente eleito.
[6] Mansão na Flórida construída na década de 1920 e adquirida nos anos 1980 por Trump, que fez do local sua residência, bem como um quartel-general de sua atividade política.
[7] “Estado profundo” é uma expressão utilizada por teorias conspiratórias para designar uma formação de poder político e econômico que age em segredo no Estado democrático, como um governo invisível, com o objetivo de ajustar aos seus objetivos o destino de toda a sociedade.
[8] Uma prática secular buscava evitar a contaminação grave pela varíola inoculando na pessoa em bom estado de saúde o material retirado da pústula de alguém já atingido pela enfermidade. Com isso, esperava-se que a pessoa que recebeu a inoculação, caso viesse a ser contaminada, desenvolvesse uma versão leve da doença. Os resultados desse procedimento eram sempre incertos, e a prevenção efetiva contra a varíola só se deu com a invenção da vacina, pelo britânico Edward Jenner (1749-1823), considerado o pai da imunologia.
