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MODA, CÓPIA E TRETA

Estilista monta coleção de barracos judiciais
Imagem Moda, cópia e treta

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Nati Vozza é um fenômeno. Paulista de Campinas, ela foi uma pioneira dos blogs de moda, com o Glam­4You. Linda e bem articulada, tornou-se uma das primeiras influenciadoras a criar a própria grife, em parceria com Antonio Junqueira, seu marido na época. Lançada em 2012 como byNV e hoje chamada apenas NV, a marca faz roupas para mulheres ricas. Em 2020, foi adquirida por 210 milhões de reais pelo Grupo Soma, um dos maiores conglomerados de moda do Brasil – Animale, Farm e Hering estão em seu portfólio.

Hoje divorciados, Vozza e Junqueira seguem no comando da NV, que alcançou uma receita bruta de 381,4 milhões de reais em 2022, um crescimento de 38,1% em relação ao ano anterior. A grife tem dezesseis lojas próprias, vende suas peças online e está nas prateleiras de noventa lojas multimarcas em todo o Brasil.

Enquanto isso, com 1,4 milhões de seguidores no Instagram e 320 mil no TikTok, a criadora da NV suscita controvérsia nas redes. Suas brigas com outras influenciadoras foram parar no Judiciário, em três processos rumorosos.

Num recente vídeo promocional da NV, a influenciadora Mônica Salgado ironizou grifes que recorrem ao “ativismo” para “se legitimar”. Pegou mal: o Grupo Soma vangloria-se de plantar mil árvores por dia. Na surdina, a empresa fez a peça publicitária com Salgado sumir das redes sociais. Uma diretora do Soma disse no Instagram que o vídeo “não reflete os valores do grupo”.

Vozza engoliu a reprimenda em silêncio, o que não é do seu feitio – como bem sabe a publicitária Camila Toledo, da conta “Camila Fashion Tips”, com 66 mil seguidores no Instagram. Em março, Toledo cotejou vestidos do estilista Reinaldo Lourenço com peças parecidas do norte-americano LaQuan Smith e da marca italiana Bottega Veneta. Antes disso, apontou cópias de outras grifes estrangeiras feitas pelas brasileiras Skazi, Agilitá, Iorane – e NV. “Ela começou copiando muito a Cris Barros,  grife que também faz parte do Grupo Soma”, diz Toledo, sobre Vozza. “Mas adora Isabel Marant, Courrèges, Givenchy…”

Em 2020, Vozza entrou na Justiça com um pedido para que Toledo não mais citasse o seu nome e sua grife. O juiz Guilherme Ferreira da Cruz acatou as acusações, afirmando que houve “uso indevido do nome, da imagem e da voz” da estilista. A decisão foi reformada em uma instância superior, mas ficou mantido o veto à citação do nome de Vozza e de sua marca. Para driblar a ordem judicial, Toledo se refere à NV como byXerox.

A disputa aguarda julgamento de recurso pelo STF. “Uma influenciadora com milhões de seguidores, que faz da exposição de sua vida uma forma de gerar valor de mercado para a sua empresa, pode não querer ser alvo de críticas?”, questiona a advogada Letícia Soster Arrosi, que representa Toledo. A defesa de Vozza diz que Toledo abusou da liberdade de expressão. “Camila chegou a fazer 84 postagens em dois meses contra a marca e a pessoa física da Nati, usando termos pejorativos, como Raivozza e Trevozza”, diz a advogada Priscila Cortez de Carvalho.

Formada em farmácia, Priscilla Rezende chacoalhou a internet entre os anos de 2011 e 2013, depois que criou o blog Blogueira Shame para revelar os bastidores de uma profissão que ainda estava no berçário: a de influenciadora. “As meninas faturavam alto com publicidade, fingindo estar dando dicas de amigas para as suas seguidoras”, conta Rezende, que na época não revelava a sua identidade.

O Blogueira Shame atingia entre 2 e 3 milhões de visualizações por mês. Tamanha repercussão fez com que fosse responsável pela primeira autuação do Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) sobre publicidade digital no Brasil, em 2012. Revelou que a Sephora tinha contratado as blogueiras Lala Rudge, Mariah Bernardes e Thássia Naves para fazerem anúncio velado de um delineador da Yves Saint Laurent. O caso ficou conhecido ironicamente como “mensalão da moda”.

Rezende interrompeu o blog algum tempo depois, mas em 2020, quando estava em quarentena no sítio de sua família em Minas Gerais, resolveu criar uma conta no Instagram chamada “Desin.Fluencer”, abordando o universo das influenciadoras. A fim de fazer uma grana, ela passou a cobrar de seguidores que quisessem fazer parte de seus “melhores amigos”, recurso do Instagram Stories para mostrar postagens a pessoas selecionadas. Só que publicou ali intimidades sobre o divórcio de Vozza, usando termos chulos, e a mensagem vazou do grupo exclusivo. “Eu estava nervosa com a pandemia”, justifica-se Rezende. A criadora do NV apelou à Justiça, e Rezende foi condenada a pagar 40 mil reais (em valores atuais). No fim de 2021, o Instagram tirou o “Desin.Fluencer” do ar, por supostamente infringir suas regras. Rezende briga na Justiça para reativar o perfil.

Jéssica Belcost, mais uma influenciadora do Instagram, com 592 mil seguidores, comprou por 3 mil reais uma calça de couro da NV e desconfiou do material depois que um passante do cinto se soltou. Resolveu falar disso na rede e acabou processada por Vozza.

Uma perícia judicial atestou que a parte externa da calça era feita de couro, mas a interna, de elastano. Pelo uso da palavra “falso” em uma postagem sobre a calça, Belcost foi condenada a pagar 5 mil reais de indenização. O caso aguarda julgamento em segunda instância. Em contrapartida, Toledo e Belcost processaram Vozza por danos morais, mas perderam.

No Reclame Aqui, plataforma criada para consumidores relatarem problemas, a NV consta na categoria “não recomendada”. De quarenta reclamações entre outubro de 2022 e março deste ano, nenhuma foi respondida pela grife.

Nati Vozza ainda encontra tempo para cultivar haters com postagens descalibradas, devido ao seu comportamento. Ao elogiar a eficácia de um bronzeador, ela afirmou ter mudado de “raça”. Durante a pandemia, questionou a rapidez com que foi criada a vacina contra a Covid e disse que o lockdown iria “matar mais do que o vírus”. Também precisou pedir desculpas por ter relacionado marcas que estariam copiando as suas peças com “fábricas de chão sujo” do bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Para a advogada de Vozza, não concordar com determinado posicionamento político não dá direito a ninguém de fazer ataques pessoais. “O argumento de que, por ser uma pessoa pública, pode ser xingada não tem cabimento.”

Vozza em nenhum processo contestou o fato de ser acusada de copiar estilistas estrangeiros. “Esse não é o objeto dos processos. Coincidências podem acontecer, e a moda está cheia disso”, diz a advogada. Camila Toledo rebate: “Qual é a diferença entre as roupas vendidas pela Shein e as dela [Vozza], que faz peças parecidas, só que custando 1 mil reais?”


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)