CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Mulher cobra
No Ceará, uma líder indígena defende o ensino do tupi
Juliana Faddul | Edição 212, Maio 2024
Uma mulher queria muito ser mãe, mas seus bebês nasciam mortos. Em desespero, ela entrou na mata, chorando, para pedir uma filha, nem que fosse uma cobra. Pouco tempo depois, voltou a engravidar. Teve duas filhas saudáveis: uma menina, a quem deu o nome de Cuiã, e uma cobra. Mas não sobreviveu ao parto. Antes de morrer, presenteou o marido com um anel e disse: “Guarde-o bem guardado. Se alguma mulher encontrar, case-se com ela.”
O pai jogou a cobra em um rio e cuidou de Cuiã, mas as duas irmãs continuaram a se ver. Um dia, Cuiã achou o anel e mostrou ao pai, que propôs casamento à filha, como mandara sua mulher. A jovem foi consultar a irmã-cobra para saber se deveria se casar com o próprio pai.
A cobra lhe deu três vestidos: um que refletia as águas, outro as matas e o terceiro o universo inteiro. “Usando o vestido das águas, vá para outra aldeia”, aconselhou. “Todos por lá ficarão loucos com a sua beleza. Mas, depois, ande desgrenhada pela aldeia. O homem que, mesmo assim, quiser casar com você é aquele que a ama. No dia em que aceitar o pedido, use o vestido das matas, e no dia do seu casamento, o vestido do universo.” Tudo aconteceu como a cobra previu – e do casamento de Cuiã com o homem que a amava nasceu o povo Potiguara.
Quem gosta de contar essa lenda é Teresinha Pereira da Silva, de 69 anos, mais conhecida como Teka Potyguara. “Cada um narra a história do jeito que quiser. O interessante é que quem comanda aqui, entre os potiguaras, é sempre uma mulher”, ela diz.
A aldeia Mundo Novo, no Ceará, onde ela vive, é quase um matriarcado. A atual cacica, Antônia Feitosa de Souza, a Toinha Tabajara, de 82 anos, não é a primeira a ocupar o posto máximo. “Nunca teve cacique homem aqui”, orgulha-se Teka. “Na região toda só mandam as mulheres. Nós somos horríveis.” A região a que ela se refere é a das Aldeias Indígenas Rurais de Monsenhor Tabosa, que reúne os povos Potiguara, Tabajara, Gavião e Tubiba-Tapuia, na área rural do município de Monsenhor Tabosa. Todos são governados por mulheres.
A aliança entre esses povos foi firmada em 2002 para lutar pela demarcação das terras e a preservação das pinturas rupestres da área – e levou à construção, na aldeia Mundo Novo, de um museu dedicado à história deles.
Nos últimos anos, os indígenas vêm enfrentando saqueadores de quartzo rosa, minério abundante na região. Criminosos tentam apagar as pinturas rupestres preservadas na Serra das Matas para evitar que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) declare o local uma unidade de conservação de proteção integral à natureza, como aconteceu com a aldeia vizinha de Quixaba. “Sem esse espaço geográfico é impossível a gente viver. Morar na cidade é o mesmo que morrer. Temos que lutar de todas as formas, quebrar paradigmas e entrar com a nossa sabedoria. Somos desobedientes, mas a gente estuda as leis”, diz Teka, que esteve ao lado de Ailton Krenak na defesa da demarcação dos territórios indígenas junto à Assembleia Constituinte, em 1988. “Estudando, nos afirmando e sabendo como funciona a sociedade não indígena, fica mais difícil de você ser manipulado.”
Aos 14 anos, quando foi estudar em Monsenhor Tabosa, Teka ouviu de uma professora que seu português era “de porta de feira”, jeito pejorativo de atacar o modo como ela falava. Teka chamava o milho de “mi” e a cor vermelha de “encarnada”. Nesse tempo de estudante, ela acatou os modos de falar da cidade e até tentou mudar a linguagem dos familiares. Só mais tarde Teka aprendeu a valorizar a língua que falava em casa: não o português, mas o tupi.
Formada em pedagogia e antropologia, ela foi uma das idealizadoras – e é a diretora – da Escola Indígena Povo Caceteiro, que está em atividade desde 2019 na aldeia Mundo Novo. Na inauguração, Teka fez questão que o então governador do Ceará, Camilo Santana (PT), atual ministro da Educação, plantasse uma árvore. Mas a relação com o governo nem sempre foi fértil. “O colégio tem a cara do Estado, não a nossa. Aqui todo mundo estuda muito antes da chegada da escola. Educa na casa, na família, na economia e na espiritualidade, que são os nossos quatros pilares”, diz Teka.
Um de seus principais impasses com a Secretaria da Educação do Ceará foi a implantação da língua indígena na grade curricular: “Aqui nós falamos tupi. Para que priorizar inglês ou espanhol?”
Depois de disputas judiciais com o município, o tupi foi não só incorporado à grade curricular da escola, a partir do sexto ano, como reconhecido oficialmente, em 2021, como língua cooficial de Monsenhor Tabosa. Até ganhou uma cartilha, a Kurumí nheengatú Ywytera Ka’a Ita, traduzida para o português como O menino e a língua boa na Serra das Matas.
A aldeia Mundo Novo fica na Serra das Matas, região de difícil acesso no sertão cearense, com uma única via de terra, íngreme e repleta de pedregulhos e curvas sinuosas. Durante a pandemia, os obstáculos para chegar ao local foram usados em favor da saúde dos habitantes. Teka determinou que os homens da aldeia construíssem uma porteira ao pé do morro e a mantivessem fechada.
“Quando ligávamos a tevê, víamos médicos falando, pessoas sem ar, morte. Falei para fecharmos a fronteira”, lembra Teka. “Meu Deus, temos imunidade baixa e muitos idosos. Nossa cacica está com 82 anos. Falei: ‘Fecha a porteira. Ninguém entra, ninguém sai.’”
E assim foi. Nem mesmo o prefeito de Monsenhor Tabosa, Francisco Salomão de Araújo Sousa, que foi ao local distribuir cestas básicas, pôde passar da porteira. Os homens da aldeia dividiam-se em duplas, ou trios, para fazer vigílias em turnos de doze horas. “Os homens foram bons na pandemia”, diz Teka. Apesar dessa concessão, ela defende que sua aldeia se mantenha um matriarcado: “Os homens não são ruins. Mas é a gente que sempre pensa em tudo. A gente é mulher e é cobra.”
