CRÉDITO: JOÃO PINHEIRO_2026
Música de mortos suaves
A vida era aquilo para eles desde sempre
Ricardo Guilherme Dicke | Edição 234, Março 2026
Quando Numa Pompílio Espiridião chegou com a família ao extremo daquela terra que todos diziam irremediavelmente perdida, um pântano calcinado, acreditaram que o homem tinha qualquer coisa terrível para pagar. O lugar era triste. Nenhum morador numa roda de 10 léguas. Viram o dia que ele passou na povoação mais próxima, um miserável amontoado de gente desprezada que desprezava os outros, no cair da noite, Numa, a mulher e os sete filhos, e as duas carroças carregando os trastes, com três juntas de bois, atrás.
– A maldição vai continuar – murmurou um velho entre os dentes, remoendo a boca, entrando para dentro e fechando a porta.
– Que se findem depressa! É a sina! – gritou uma mulher, levantando o punho cerrado na direção da caravana.
Quando chegaram a Porto Engrácia, já era de noite, e o medo que os vinha acompanhando pulsou mais forte na espreita do coração.
Um casarão no deserto com um grande curral abandonado, à beira do rio, que naquele lugar era um abismo de lamas negras muito lento, envolto em miasmas, febrento, as margens movediças, as árvores torcidas, um perene ar de solidão, os horizontes de fogo, o silêncio de aflição e desamparo.
Compreenderam e assentiram silenciosamente, sem indagar os desígnios do chefe. Ninguém lhes falara em todo o caminho. Nem lhes perguntaram nada. Logo se acostumaram à desolação cortada apenas pelos mugidos tristonhos dos seus bois no curral desmantelado. O rio era quieto, eternamente quieto nos lameiros fétidos. À noite, em pleno desassossego daquela ausência de ruídos, os corações batiam oprimidos, aguardando talvez o consolo de uma aparição que nunca vinha, alguma alma penada em extravio, um fantasma qualquer que saído dos caminhos noturnos desse a vaga alegria duma ínvia companhia, quebrasse o malfazejo pairar de ouro sem sono daquela Lua sempre da mesma cor, que quase se diria, nunca metamorfoseava as fases, sempre crescida, como um relógio sem ponteiros, parada no mesmo lugar.
A mulher, Cornélia, nunca perguntara nada ao marido, este resolvia tudo, nunca vira necessidade de saber. Bastava que o homem dirigisse. Mas achava estranho. Como sempre, desde o casamento, Numa lhe parecera estranho. A mudança da cidade onde agora as coisas tinham começado a sorrir para ele. Evidente que a sorte os estava ajudando quando se deu a mudança repentina. Indagar-lhe não era preciso, mas que era estranho, era. Pois como vender a boa casa no bulício da cidade e adquirir este sítio desconjuntado e inóspito, tanto tempo sem dono, que ninguém quisera comprar? Vão saber as razões. Isto era tudo agora, esta casa de teto vergado e telhas negras, as paredes rachadas, o curral de mourões apodrecendo, uns hectares de terra úmida em volta, as três juntas de bois.
As crianças também não se deram pela novidade. Parece até que preferiram esta solidão à chusma de gente da cidade, seus rumores, seus carros, suas fascinações.
O primeiro a morrer foi o caçula, o pequeno Apolônio, de 2 anos, dois meses depois de haverem chegado a Porto Engrácia. Apareceu-lhe uma espécie de asma asfixiante no peito que o tomou rapidamente e em dois dias o menino, de noite, no silêncio tão nítido, os pais sem poderem nada fazer, perdeu o pulso e logo o coração. O pai enterrou-o junto ao curral, pegado à casa, no pequeno quintal frente ao rio de águas negras e plantou na sepultura do pequeno um cajueiro. De noite, no terreiro banhado de Lua, vagava sem sono e sossego, ao longo do curral, enquanto os outros dormiam em casa, pensando no caçula enterrado. O tempo correu e quando o cajueiro atingiu os seus joelhos, um entardecer em que se preparava uma tempestade no céu, a mais velha, Balbina, moça de 20 anos, saiu para apanhar água e não voltou. Viram quando a faísca azul do raio caiu perto do rio, na clareira em frente à casa, após o longo ribombar do trovão e pressentindo a demora, Numa saiu sob a chuva que caía e encontrou a filha morta, toda coberta dum negro azul dos pés à cabeça, caída à margem. Enterrou-a também no terreiro, ao lado do pequeno Apolônio, plantando na sua tumba um segundo cajueiro. Não passou muito tempo e morreram quase ao mesmo tempo a quarta filha, Rosalina, de 10 anos, que era também doente de asma do peito, e o quinto, Petrônio, de 8, que pisou num espinho brabo e a infecção veloz alcançou os centros do corpo frágil. Numa inumou-os ao lado de Apolônio e Balbina e sobre ambos plantou mais dois cajueiros.
A este tempo o primeiro cajueiro já tinha mais de um ano e o segundo atingia quase 1 metro. Não interrogava, não orava, mas sofria achando que uma injusta ordem natural pairava sobre sua gente inocente. A mulher se tornara silenciosa e quase nunca falava. Enquanto Numa se entretinha com o difícil amanho da terra e com os bois que agora tinham aumentado desde que comprara duas vacas, Cornélia passava sempre muda perfazendo os afazeres da casa.
À noite, persistia em divagar no silêncio do terreiro, contemplando a terra onde os cajueiros cresciam, clara como o dia pela grande Lua sem mistérios que dourava as cercanias. Às vezes caminhava de mãos para trás pela beira do rio, olhando a sua grande quietude e cuidando de não pisar nos barreiros grudentos que espelhavam em muitos círculos dissimulados na baixada que descia para as águas mortas.
Passou muito tempo sem que nada acontecesse e já respiravam aliviados de o anjo exterminador havê-los esquecido quando se deu o passamento dos três filhos que restavam. O pequeno Teotônio, de 4 anos, o sexto, franzino e tristonho, adoeceu repentinamente duma infecção do umbigo e morreu, seguido de Emelina, de 15 anos, a terceira, que faleceu dormindo, picada de cobra. A última foi Blandina, a segunda, de 18 anos, que os bois pisaram, ao assuntar-se no curral por qualquer coisa, quando ela tirava leite duma das vacas. O pai inumava os cadáveres juntos, de Teotônio e Emelina, quando teve de retirar a moça agonizante de sob os bois assustados. Faleceu um dia depois, os cascos enraivecidos abriram-lhe o crânio e a moça não suportou. Sete sepulturas havia, junto à casa, entre o curral e a baixada do rio e já haviam se passado dois anos. Todos os filhos repousavam no chão, sob o céu sempre igual.
Numa Pompílio tornou-se também calado como a esposa. Nunca se ouviam um a voz do outro. Dir-se-ia que jamais haviam tido filhos. A vida era aquilo para eles desde sempre, a ausência dos meninos e das moças, uma viagem demorada para os países invisíveis, aquele sossego torturante, como uma espera desesperada, e o Sol de fogo, os lamentosos, quase fúnebres, mugidos dos bois no curral de madeira podre, nenhum amigo, nenhum conhecido, para de vez em quando transitar por ali, nenhuma voz diferente para saudá-los de longe, o rio com suas espessas águas paradas, a mata cor de ferrugem, como numa seca que não terminava nunca, a espera de onde não vinha ninguém. Antes, quando soltavam os bois para pastar nas imediações, a pobre vegetação que crescia na terra úmida e doentia, era sempre alguma das meninas que os pastoreava, a própria mulher ou ele mesmo. Agora era ele quem fazia o serviço. Nem conversar com os bois, conversava. Tratava-os como tratava consigo mesmo, como tratara os filhos e a mulher: aquele mutismo, aquela face sem revelar dor nenhuma, como se nada tivesse acontecido, os olhos de sempre, só que mais parados, um despegar-se profundo das coisas, uma profundidade que o tempo intercalava de longitudes tranquilas, como se fosse estranhamente insensível.
As noites eram mais longas e Numa podia demorar-se mais em seu deambular noturno. Persistia aquela dolorosa ausência de vivos e mortos como uma tenebrosa luz perfurando à guisa dum punhal, uma atmosfera qualquer, muito rarefeita, chamada defesa ou olvido. Jamais o pressentimento de uma aparição, duma alma penada egressa do rio de águas de lama, das matas avermelhadas, fugindo sobre os caminhos desertos e perdidos, sob o círculo da Lua, tempo que presidia a solidão e prescindia de mostradores, relógio ocluso das eternidades, pendente das noites, numa mesma eterna fase, sem o divino das metamorfoses, como um signo mais inútil que os cascos sujos de esterco dos animais lamentosos no curral. Nunca um prenúncio de aparição, os filhos, os doces filhos mortos, separados, a divisão das coisas, nunca jamais um encontro, as almas.
Também notava que os filhos, dormindo sob os cajueiros agora folhudos e projetando sombra, haviam deixado no ar, em volta do casarão, onde os enigmas das esperadas visões porfiavam em não assomar nas claridades derramadas da Lua, os sete filhos mortos haviam deixado uma espécie de prolongamento de suas curtas existências imadurecidas, a lembrança deles se agitava no silêncio que mediava seus passeios noturnos cheios de meditações, a memória dele surdia docemente nas paredes do sonho, o sonho triste de quem contemplava as formas das arvorezinhas crescendo na terra que os apertava, como se fossem uma certa continuação deles, as raízes, as folhas, e ao mesmo tempo que doía como um pensamento de brasas, Numa sentia uma grande doçura, um inefável consolo que lhe tocava as origens do ser, descido na breve brisa que escapava no céu noturno perenemente negro, sem estrelas, com sua Lua imóvel. E o homem tinha uma grande vontade de chorar. Mas reprimia e não derramava uma lágrima sequer. Os filhos a dormir substituíam todas as possíveis visões a assomar-se, que divagavam por todas as partes menos no casarão silencioso de Porto Engrácia. Foi uma alegria quando o primeiro caju nasceu no cajueiro da sepultura do pequeno Apolônio. Um fruto grande como um coração, vermelho como o sangue, quase roxo, que Numa esperou pacientemente chegar ao último ponto de maturação. Uma noite em que espreitava as sepulturas sob o clarão da Lua, aproximou-se e colheu o fruto, pesado e denso como uma hóstia sagrada roubada ao mistério, uma pedra mágica numa carne imantada. Ajoelhado sobre a tumba, comeu-o em silêncio. E ouviu a música que se escapava da terra. Só um espirar sutil, como um som de flauta em praia natural. E o fruto tinha gosto de carne, como uma posta mal-assada em brasas, um teor ácido que lhe ateou fogo no coração e fê-lo sentir e conhecer o segredo da sabedoria vã dos homens.
Aquela suavidade, aquela sabedoria não o deixou mais. As noites lhes pareceram povoadas de filtros, os fantasmas dos filhos cercavam a solidão da casa, voavam sobre os bois a mugir no curral, borboleteavam no rio imundo com seu espessor negro.
A mulher começou a definhar, dentro do seu silêncio e seus lábios pregados não sabiam dizer palavra. Numa suspeitou que Cornélia enlouquecia. Pressentia que ela ia morrer também. Ela permanecia agora sentada, os olhos semicerrados, a balançar-se numa cadeira de balanço de palha, em frente à janela, a bordar interminavelmente. Se bordava silêncios, trançando-se, urdindo-os e entrelaçando-os, se bordava com as borlas e as longas agulhas, ou se casava borlas e silêncios jungidos à mesma cor e ao mesmo desenho, só Cornélia, os olhos quase fechados, em frente à janela, pelo pequeno copiar, o sabia.
O tempo deixou-se remontar, transandando no vaivém lento e meditativo dos passeios de Numa, não muito, mas um bom tempo transcorreu.
Os cajueiros cresceram, floriram, frutificaram, sete árvores cheias de frêmitos e reguladas de trêmulos acordes que o vento que os acariciava e cujo rumor de noite ou de dia se ouvia através das paredes da casa, junto à rede de Numa. Mas muito pouco dormia o homem. Estava envelhecendo, sentia. E a mulher definhava.
Já não trabalhava como antes. Preferia sentar-se à rede a ouvir o rumor dos cajueiros junto à parede. Quando chegava a chuva, as árvores pesavam pintalgadas de pintas vermelhas, os sete cajueiros vergados de frutos, que caíam e juncavam o solo apodrecendo, que agora terra e ar se povoavam de passarinhos, nuvens chilreantes, não se sabe vindas de onde.
Um dia, chegado do curral, estranhou a imobilidade da mulher e viu que estava morta. Enterrou-a junto dos filhos num dia de chuva, os olhos enxutos, os ouvidos ouvindo a música das flautas invisíveis que desenhavam presenças de mortos cheios de jovial ingenuidade e doce pureza, no som das águas.
Ele morava agora inteiramente sozinho no casarão de Porto Engrácia. Realmente sentia que o corpo se lhe alquebrava, apesar de não haver ainda chegado ao enigma dos 50 anos. Quase que nada fazia. Qualquer trabalho o deixava extenuado. Numa notou os ventos que levavam arrastando as folhas, notou que mil florações de cajueiros pululavam com seus brotos de folhas verdes e tenras, desde os currais até a baixada do rio, desde as paredes da casa até os limites das matas. O vento passava como um amigo sobre as fruteiras e o seu murmúrio era doce aos seus ouvidos, como uma nascente, como uma serenata, nas longas noites de Porto Engrácia. Sua boca cerrada só se abria para comer a frugal comida que preparava. Um dia teve saudades da própria voz e fez força para falar e a voz não saía. Tinha se acostumado com o próprio silêncio e este se parecia com o silêncio das paredes, com o silêncio dos túmulos, com o silêncio da paragem, encerrada em si mesma como um segredo. As pedras, a lama, a terra mudas, sem palavras, as vozes partidas. Só o rumorejar dos cajueiros, as flautas que os filhos tocavam, dedos invisíveis apalpando as sombras, a música das folhas nas manhãs e nas noites e nas tardes, os dedos. Se habituara ao seu silêncio, Numa, o peito e a boca, e este se parecia uma casca de sua alma. Deu-lhe medo de haver quedado mudo, correu ao terreiro, como assombrado em frente às sepulturas dos filhos que não as distinguia do chão preto, a não ser pela demarcação dos sete cajueiros e gritou pelos seus nomes.
Para alívio seu saiu a voz, grossa, rouca, como um elemento da natureza, transformado em húmus, que se houvesse desaparecido sob camadas de limos depositados pelo tempo e pelo silêncio.
Numa, que nunca vira visões, teve medo da própria voz, como se a sua própria alma penada que se lhe saísse da boca, deparando-se à sua frente.
Mais tempo transcorreu. Os cajueiros agora tinham invadido a extensão do terreno enegrecido e seu rumor era infindável em volta da casa, as tumbas despercebidas, dispersas, perdidas sob os cajueiros murmurantes.
Sentia-se cada vez mais sem forças. Os bois andavam agora soltos, porque os mourões e as madeiras haviam terminado por cair e um mundo de pássaros, em nuvens e nuvens multicolores revoava trinando em álacres invasões, o cajual sem fim. Era seu único prazer deixar vazar o tempo das nuvens, do céu, de onde fosse, ele deitado, de olhos fechados como a dormir, na rede armada entre dois cajueiros, no meio dos rumores, a escutar a doce música.
Uma tarde de muito Sol, ouviu alguém chamando.
– Ó de casa! Ó de casa!
Estava junto ao curral cercado das folhagens das árvores, quando ouviu e estacou enregelado, sem compreender. Em toda aquela imensidão, nunca uma pessoa que fosse transitara perdida pelas terras despovoadas do casarão. Ninguém cortara Porto Engrácia naquele local, nem mesmo um fantasma. Era natural que estacasse, um fio de pavor correndo-lhe a espinha, demorando a entender o milagre, a migração dos homens. Apoiou-se a um tronco de cajueiro que se alteava acima de sua cabeça, um pouco tonto e notou uma coisa fria que lhe umedecia as fímbrias de cada olho.
Eram duas lágrimas que logo se transformaram numa corrente. Com os olhos em chamas, abriu caminho entre os cajueiros e chegou até o viandante que chamava. Um homem que indagava qualquer coisa, se havia perdido. Em frente ao homem, todo o pranto represado manou interminável nos olhos de Numa, um rio de dor que estivera flutuando como uma nuvem sobre o tempo, as longas, as intermináveis noites sem mortos, sem vivos, a Lua eternamente sem fases, os filhos enterrados sob os cajueiros, o rumor dos cajueiros, ao vento.
– A música, não ouve a música, não ouve?
A voz saía forte, queixosa, os soluços amargos, há tanto tempo estancados. O homem perplexo, indeciso agradeceu algo inarticulado e retomou o caminho perdendo-se ao longe sem volver a cabeça para trás.
Numa voltou à rede, entre as árvores, e deitou-se. O Sol queimava, mas a sombra dos cajueiros era mais fresca que a água virgem dos poços.
Ali deitado ficou até entrar a noite em suas imensidões, sem estrelas, apenas a Lua de sempre, filtrando-se entre as folhas, contrária a todas as mutações e metamorfoses das estações e do tempo, com a mesma face sem fases, de relógio que andava sem os ponteiros, iluminando o telheiro negro do casarão, o rio de águas enlamaçadas de voz estrangulada, o curral sem o mugido dos bois tristes, o vento abraçando em murmúrios os cajueiros multiplicados. Ouvia a música como um respirar sutil, mortos suaves os que dormiam sob os cajueiros intérminos, as flautas tão doces que subiam do silêncio, e foi chamando, o coração batendo de incerteza, primeiro o nome da mulher, depois os nomes dos filhos, um a um, como se eles o estivessem escutando.
Este conto faz parte da coletânea Música de mortos suaves, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), organizada por Rodrigo Simon de Moraes e a ser lançada neste mês pela Record, com catorze contos, doze deles inéditos, do escritor mato-grossense.
