ILUSTRAÇÃO: GEORGES WOLINSKI_GLÉNAT
Na cama com Wolinski
Um encontro entre o autor de Pornopopéia e o decano do Charlie Hebdo
Reinaldo Moraes | Edição 101, Fevereiro 2015
A consternação, quase incredulidade, com que recebi a notícia do assassinato do Wolinski em Paris, junto com a patota do Charlie Hebdo, não conseguiu empanar a surpresa, seguida de intensa curiosidade, ao ler nos primeiros necrológios sobre o artista que ele tinha nascido em Túnis, capital da Tunísia. Pra mim, o Wolinski nasceu em 1975, em Paris, na baciada de ofertas de uma livraria, com todo tipo de porcaria encalhada a preço de banana – ou de livro encalhado mesmo, já que, na França, banana vale mais do que livro encalhado. Foi ali que achei uma coletânea pocket de desenhos desse cara, de quem eu mal tinha ouvido falar, publicados no jornalzinho de humor Hara-Kiri de 1965 a 1967. O livrinho se chamava Ils Ne Pensent qu’à Ça [Eles Só Pensam Nisso], e era um puta sarro, expressão de época que deve ter-me vindo à cabeça ao devorar os desenhos do cara.
“Puta sarro”, no caso, significava aquele humor cético, meio idiota, entre o nonsense e uma espécie de existencialismo pop, em que o macho quase sempre se dá mal nas mãos de mulheres sádicas ou indiferentes, ultrajadas ou liberadas pra libertinagem. Praqueles personagens delineados com traços mínimos mas de efeito total, o sexo é um palco em que se encenam os pequenos dramas sociais e individuais da modernidade urbana, com seu cortejo de constrangimentos e decepções, matéria-prima de um humor sem fronteiras morais, ideológicas, religiosas ou impostas por qualquer definição de bom gosto.
E nada de fofices lúdicas ou românticas. O autor daqueles desenhos não tinha o menor medo de cair na vulgaridade, na qual se banhava como um clochard nas águas de uma enxurrada. “Meu conceito de vulgaridade difere muito do da maioria das pessoas, a começar da minha mulher”, ele diria anos depois. Era, no entanto, uma vulgaridade cabeça a praticada ali naqueles desenhos, apesar de as pin-ups wolinskianas serem quase invariavelmente umas gostosas, com suas bundas e peitos olímpicos.
Como era previsível, já em 75 acusavam o Wolinski de machista e misógino, os qualificativos mais frequentes ensejados pelo humor anárquico desse judeu tunisiano (!), o que não passava de uma simplificação grosseira das várias camadas de significação que marcavam as historietas e os haicais figurativos do livrinho.
Num desses esquetes, por exemplo, um cara cruza com uma mulher num espaço em branco que o autor deixava no entorno dos personagens, talvez para instigar o leitor a preenchê-lo com seus próprios cenários cotidianos. No lugar nenhum desse desenho em especial podemos imaginar uma calçada de uma rua qualquer. A mulher, meio gordinha, com jeito de dona de casa, passa indiferente pelo cara, que no entanto se vira pra lhe passar a mão na bunda. Indignada, a mulher se volta pra dar um esporro de dedo em riste no cafajeste. No que ela retoma seu caminho, lá vem de novo a mão boba do outro em sua bunda.
Dessa vez a indignação escala pra fúria mais descabelada, de bolsa no ar prestes a tombar na cabeça do babaca. Barraco encerrado, mal a mulher dá as costas ao agressor, já leva outra passada de mão nos glúteos. Agora não há indignação. A dona da bunda abusada apenas abre a bolsa, puxa de lá um berro e manda uns pipocos à queima-roupa no sujeito. Não contente, a rotunda senhora ainda tripudia com fúria simiesca sobre o cadáver do molestador. E, de saída, ainda lhe dá uma cuspida de misericórdia pra arrematar sua vingança. No que ela dá o primeiro passo pra ir embora, lá vem outro toque na bunda, dessa vez com a ponta do pé do falecido, que, pra tanto, ergueu e esticou a perna. A mulher toma um puta susto de comédia-pastelão.
Como analisar essa microfábula urbana? Será que o Wolinski está só ironizando com bem-humorada benevolência o machismo atroz daquela atitude do seu personagem cafajeste, no fundo insinuando ser esse um atavismo masculino tão enraizado que subsiste até a morte do machão? Ou será que, diante da reação radical da mulher molestada – abater a tiros o molestador –, Wolinski estaria sugerindo que foi-se o tempo em que um tipo escroto como aquele passava impune depois de apalpar as nádegas de uma honesta cidadã na rua? De qualquer maneira, parece complicada a tarefa de sacar uma moral redondinha da história, porque aquilo, afinal, é só humor, uma das substâncias mais instáveis e corrosivas que há na natureza.
Essa historieta, com a duração de uma tira estendida, de alguma forma mimetiza o massacre do Charlie Hebdo pelos vingadores islâmicos, seguido de um novo número da revista que, mesmo com seus principais humoristas destruídos pelas balas dos Kalashnikovs, continua a passar a mão na bunda da moral religiosa dos assassinos.
Mas, e Túnis? Por que Túnis, capital de um país em que 99% da população é muçulmana? Isso lá é lugar prum humorista iconoclasta e judeu nascer? Ziegfried, o pai do Wolinski, polonês casado com uma franco-italiana, era um judeu errante que rodou o mundo antes de se estabelecer na Tunísia, então protetorado francês (de 1881 até 1956), exercendo a profissão de ferreiro artístico, desses que desenham e executam aqueles portões e grades de ferro com floreios intrincados que desafiam a própria natureza rígida do ferro. Curioso lembrar que o avô de outro famoso cartunista, o brasileiro Angeli, também era um ferreiro que desenhava e fabricava portões art noveau e coisas assim. Angeli conta que o convívio com esse avô desenhista e artesão foi decisivo para definir sua opção profissional e artística.
Já o Wolinski – Wolin (Volã), pros amigos – não poderia dizer o mesmo de seu pai, também ele assassinado quando o futuro artista tinha apenas 2 anos, em 1936. O seu Ziegfried tinha despedido um operário que trabalhava pra ele numa obra e o cara, injuriado, deu cabo do ex-patrão. Uma década depois, finda a Segunda Guerra Mundial, Wolinski, com 13 anos, se mudaria de mala e cuia pra França, onde se tornaria um dos maiores desenhistas de humor do mundo todo, exceto pelos países que reverenciam o invisível Maomé, que não pode ser desenhado, sob pena de morte, segundo os exegetas fundamentalistas do Corão, e menos ainda pelado, de quatro, bunda e genitália voltadas pro leitor, com uma estrelinha a lhe tapar o brioco, do jeito que vemos o profeta numa das charges do jornalzinho atacado em Paris.
O estilo inconfundível de Wolinski, a já mencionada economia de traços com máximo rendimento expressivo, lhe veio, dizem os especialistas, do seu contato com o grande François Cavanna, fundador de algumas publicações que se tornaram baluartes do moderno desenho de humor na França, com destaques para as revistas Hara-Kiri (fundada em 1960, depois Hara-Kiri Hebdo) e Charlie (de 1969, depois Charlie Hebdo). Onze anos mais velho que Wolinski, Cavanna acolheu o franco-tunisiano na Hara-Kiri em 1961, dando um gás decisivo na carreira do jovem desenhista de humor.
Gauchiste como Cavanna, Wolinski participou ativamente da bagunça contestatária de maio de 68 na França, ocasião em que fundou, com o humorista Siné, a revista de humor político L’Enragé [O Irado], sem deixar de desenhar para a Hara-Kiri, também alinhada com os protestos estudantis, seja lá o que isso significasse na época. Cavanna, no entanto, foi obrigado a se manter à margem da agitação das ruas por causa de uma prosaica mas dolorosa crise de hemorroidas que o prostrou numa cama de hospital – de bruços, provavelmente.
Wolinski teve duas filhas com sua primeira mulher, morta num acidente de carro, ela dirigindo, ele de passageiro no veículo. Foi pai de outra filha com sua segunda mulher, a jornalista e escritora Maryse, uma loira linda, dez anos mais nova que ele, com quem viveu durante quarenta anos até sua morte estúpida – perdão, trágica: estúpidos, obviamente, foram seus assassinos, seres inteiramente desprovidos de humor.
Maryse confessou numa entrevista, em 2011, que, ao longo dessas quatro décadas de casamento com Wolinski, teve “mil razões para se separar dele, mas mil e uma razões para ficar”. Ela conta também que, vendo se aproximar seus 80 anos, Wolinski disse a ela que não queria saber de túmulo nem de cemitério. Seu desejo expresso era ser cremado. Maryse achou a ideia cretina: “E onde eu vou jogar as cinzas?” A resposta do desenhista não podia ser mais wolinskiana: “Joga na privada, assim, cada vez que você se sentar sobre a minha tumba, eu verei teu rabo.”
Não sei se Maryse fez ou vai fazer isso com as cinzas do Wolinski, mas, se foi esse o caso, restituirá ao maridão o direito a praticar seu esporte preferido, além de fumar charutos: pensar em sexo, praticar sexo, usar o sexo em seus desenhos como veículo pra todas as suas inquietudes sociais, políticas, existenciais e, claro, propriamente sexuais. Uma das mais sintomáticas charges, entre as milhares que desenhou, mostra uma mulher gostosona perguntando a um rapazote: “O que você quer ser quando crescer, meu pequeno?” Ao que o garoto, de olho no decote dela, responde: “Obcecado sexual, madame.”
Wolinski era craque nesse humor con (xoxota, na gíria francesa, equivalente ao nosso babaca, que também significa idiota). Um de seus personagens mais populares, aliás, era o Roi des Cons (Rei dos Babacas), criado para ironizar de direitistas fascistoides a machistas, misóginos, políticos e liberticidas em geral. Seu mestre Cavanna dizia do amigo: “O Wolinski, a gente acha que ele é babaca porque ele banca o babaca, mas na realidade ele é de fato babaca.”
Para celebrar essa hilária babaquice, resolvi escrever uns contículos bem babacas em torno de umas charges deliciosamente babacas do Wolinski, que, com certeza, vai se espadanar de raiva babaca nas águas daquela privada em que pediu para Maryse jogar suas cinzas.
O Rei dos Babacas morreu. Viva o Rei dos Babacas.
1
D
iz que você me ama”, Corinne ordenou, por cima do ombro, numa torção conjunta de pescoço, ombro e braço direito, que ela esticava para trás, até sua mão tocar minhas costelas. Ela montava meus quadris, só que de costas pra mim, peladona, meu pau dentro dela, muito embora do ângulo que você nos vê não é possível ter certeza absoluta disso. Corinne bem podia estar apenas repousando sua feminilidade peluda sobre o meu pinto em qualquer estágio de desenvolvimento.
Mas, veja, era eu que estava lá deitado naquela cama, tronco e cabeça apoiados num travesseirão confortável, então posso afirmar com absoluta certeza que o pau era meu e que estava perfeitamente apto às tarefas introdutórias.
Corinne, pra mim, era só uma mina que eu pegava de vez em quando, mesmo morando com ela já fazia uns três anos. A gente trepava bem ainda. Quer dizer, trepava normal. Mas, uma trepada normal com uma mulher com quem você trepa há três anos, é sempre uma boa trepada, pros padrões conjugais hodiernos.
Nada de mais até aí, portanto, se você descontar aquela posição algo esdrúxula, com a mina me cavalgando invertida na sela. Tudo começara num pacífico meia-nove, do qual Corinne evoluiu com facilidade, e por iniciativa própria, praquela posição pornô soft que me permitia filar livremente sua bunda grande e bem torneada de cowgirl pornô a cavalgar o santantônio. Só meu cine-olho tinha ângulo pra focar as internas da paisagem, mas você também, do seu ponto de vista, pode avaliar a bela bunda da Corinne. Todas as minas que eu pego, aliás, têm um rabão daqueles. Me conhecendo um pouco, você logo saca isso. Coincidência? Predestinação? Ou é só que eu gosto de mulher de bunda grande e nada mais?
Os peitinhos dela, como você pode ver até bem melhor do que eu próprio podia naquela posição, eram rijos e empinadinhos, tamanho médio, 44 de busto, eu arriscaria a dizer. Pouco antes da cena que você está vendo, eu tinha dado umas titiladas naquelas mamas e mamilos, assim mesmo, eu por trás dela, uma volúpia. E ela, a musa me dando o verso da sua presença, devia, de seu lado, estar achando muito excitante me saber ali, atrás e dentro dela, a me deliciar com a visão do seu “violino de Ingres”, a imitar aquela foto clássica da modelo Kiki de costas pro Man Ray. Na Corinne, só faltavam as ranhuras em f nas costas.
Tudo ia bem, até que ela resolveu se virar pra mim, numa graciosa torção de tronco, pra me dizer, sem ênfase nenhuma na voz, aquilo:
“Me diz que você me ama.”
Cruzei as mãos atrás da cabeça, cenho apertado até fechar os olhos. E mandei:
“Cê tem sempre que complicar tudo!”
Olho por olho, clichê por clichê.
Comigo é assim.

2
U
m cara pegador pega de tudo na rua, nos lugares, nas baladas, no raio que o parta. Peguei uma loirinha que ó, vou te contar. Cê tá vendo a peça. Já te ouço exalar um “Que bunda! Que petchos!”. Qualquer um exalaria a mesma coisa no seu lugar. E qualquer um, homem, mulher ou gay, almejaria uma bunda daquelas, ou pra ter ao seu lado na cama, ou instalada no próprio corpo.
Então. Só que a coisa em si, quando rolou, não foi nada fácil, te asseguro. Pela minha cara ali você já vê que não foi.
É que a mina, na hora do frege, revelou-se “sexualmente correta”. Palavras dela:
“Sou liberada, mas exijo uma relação sexualmente correta, tá ligado?”
Foi o que ela me disse. “Sexualmente correta”? Nunca tinha ouvido falar nisso. E o que seria sexualmente incorreto? Trepar com caprinos, pepinos, beduínos? Achei que era um tipo de ironia da parte dela, um convite à sacanagem às avessas. Torci até pra gata não tirar da bolsa apetrechos sadomasocas àquela altura do caminho da humanidade. Ia me dar um constrangedor trabalho extra.
No vai da valsa, vi que ela falava sério. Eu não sabia ainda do que se tratava, mas tornou-se nítido que ela falava sério. Fiquei com o pé atrás. E o pau na frente, como de praxe.
Daí, o seguinte. Nóis lá em casa, pelados, eu bêbado, mas perfeitamente viagrável, ela gostosérrima, e tudo, mas… sei lá. Um tanto durinha, talvez. Professoral. Coxinha.
Tudo bem, declarou meu anjo pornográfico. Coxinha a gente também come, de boa. Mas ela espalmou sua mão à frente, me barrando o acesso aos seus tesouros, e comandou:
“Calma. A gente vai transar, mas de maneira sexualmente correta. Se você não sabe como é, eu explico. Não vai doer, te juro.”
Olhando aquele corpão, pensei: é, doer não vai mesmo. Daí, a mina me tira da bolsa o smartphone dela e um projetorzinho digital portátil. Depois de acessar alguma coisa no celular, ela encaixou o celula no miniprojetor, lente apontada pra parede ao lado da minha cama, palco de tanta trepolinagem descomplicada num passado recentíssimo.
Achei que ela ia projetar alguma espécie de putaria naquela parede. Tem gente que gosta de trepar vendo foto e filme de sacanagem. Eu não gosto. Me incomoda ver um cara enfiando um pau com o dobro do tamanho do meu numa garota duas ou três vezes mais gostosa do que aquela que estou prestes a degustar.
Sentei na cama, pernas pra fora, à espera do que vinha do projetor. E o que veio, você não ia acreditar se não estivesse vendo com seus próprios olhos e possíveis óculos: um decálogo de quinze itens – um “quinzálogo”. Ela exigiu, do alto daquelas tetas catedráticas:
“Presta atenção.”
Eu tenho grande dificuldade de prestar atenção em qualquer coisa que não seja sexo quando me vejo pelado com uma mulher igualmente em pelo, como era o caso ali. De pé, do meu lado, com uma anteninha retrátil esticada, ela apontava para cada um dos itens do quinzálogo:
“Primeiro”, começou, “o olhar. Olhar, ver, mirar o objeto do seu desejo.”
Obedeci e olhei, vi, mirei – a bundinha dela, claro, pra onde mais eu haveria de mirar naquela posição? Daí, fui logo metendo o mãozão naquelas esferas gêmeas de carne torneadas a traço de mestre e separadas por um rego assaz convidativo. Mas levei uma tremenda lambada da mão dela na minha mão. Daí, virando sua xota semirraspada pra mim – isso você não viu –, ela mandou:
“Depois, vem roçar. Roçar de leve. Beeem de leve.”
Dócil como um yorkshire terrier amestrado, passei a roçar-lhe beeem de leve a seda levemente arrepiada dos glúteos. Minha paudurescência aumentou uns dois ou três graus na escala Johansson-Bündchen. Logo vi que aquela aula de sacanagem sexualmente correta ia ser uma rude provação pra minha notória impaciência libidinal. Como você pode ver pela lista de etapas projetada na parede, tinha muito chão até os gloriosos finalmentes. Ainda faltava tocar, tatear, farejar, passar o dedo, titilar, acariciar, esfregar, lamber, apalpar, amassar, penetrar e foder. E depois dormir um sono sexualmente correto.
E eu fui que fui, acompanhando o passo a passo daquela aula provocante. Rocei, toquei, tateei, farejei (a xotinha ginecologicamente correta de milady, que você não consegue ver daí), levei o dedo pra passear por aquelas pétalas úmidas, por seu grelinho entumescido, por seu rego suadinho, sem esquecer de sintonizar seus mamabilíssimos mamilos, e tanto titilei que, porra, gozei. Não deu pra segurar. Minha descendência voou longe, espetáculo que ela, desmilinguindo-se com a minha titilação, não viu.
Na sequência, a mestra apontou o próximo passo na lista: acariciar. Nenhum problema em acariciar aquele corpão. O problema era o meu pau, melado de porra, que desinflava a olhos e dedos vistos.
Foi aí que eu fechei as pernas e cruzei os braços sobre elas, barrando-lhe a visão da minha pica amolescente. Com mil diabos galados, blasfemei. Eu ia precisar de um tempo extra ali pra dar conta dos passos que restavam: esfregar, lamber, apalpar, amassar e – manobra impossível no momento – penetrar! Foder, então, nem pensar.
Que fazer?
Lênin escreveu um livro com esse título, lembrei na hora. Lembrar do Lênin não me ajudou muito a levantar o moral nem seu notório apêndice, ora em estado de repouso. Que merda. Essa história de sexualmente correto obriga o cidadão a praticar um excesso de prolegômenos. Ou bem o cidadão acaba broxando, ou bem ele goza antes do lesco-lesco propriamente lescado – e daí broxa do mesmo jeito.
Já era. Não adiantava chorar sobre a porra derramada. Vamos lá, força na peruca, foi o que eu me disse. A loirinha continuava apontando a palavra “acariciar”, exigindo minhas carícias. Não sei o que você faria no meu lugar. Já eu… nem te conto. Ai, ai. Nem te conto, nem te conto. E digo mais: nem te conto.
Uma coisa eu conto: o nome dela era Corinne.

3
Não me dei o trabalho de ver a hora em que ela chegou, mas foi bem tarde. Ou bem cedo, se você é um sabiá-bandeira madrugador. A luz cinzenta do dia apenas se anunciava pelas frestas verticais da veneziana, onde, pra todos os efeitos, ainda era noite. Não abri os olhos, mas senti uma tensão diferente na superfície do colchão de casal, como se, junto com a Corinne, um peso semelhante ao dela tivesse ali se depositado também. Uma Corinne e seu duplo.
Duplo? Tudo estranho. Não me animei a abrir os olhos. Essa Corinne duplicada logo começou a se agitar com suspeitíssima suavidade. Dissimulada suavidade, eu diria. Gemidos engolidos, o ar aspirado entre os dentes, e aquela trepidação de terremoto sufocado seguida de uma calmaria de ânsia apaziguada.
Corinne e seu sobrepeso exalaram um suspiro duplo, coroando a pequena morte que pareciam ter experimentado. Continuei sem abrir os olhos. Achei que eu não ia gostar do que me seria dado ver. Não era possível que Corinne tivesse outra vez trazido um cara pra cama, um sujeito qualquer que ela catou no acaso das ruas e dos bares.
Outro dia, ela me apareceu aqui com um africano cheio de escarificações rituais pelo corpo todo, inclusive no rosto e no pênis, como fui obrigado a constatar ao vê-lo em ação na minha própria cama, com a minha própria patroa. Tudo propriedade minha, e o negão só ali, consumindo e consumando minhas posses.
Tá certo que o casamento moderno é um exercício de tolerância diária, e tal e coisa, e vice-versa. Mas esse nosso casamento poliafetivo tá passando um pouco dos limites. Já falei mil vezes pra Corinne, quando trouxer um presunto da rua pra comer em casa, dá um ligão antes, porra, manda um torpedo, olha, amor, tô indo pra casa com um sherpa nepalês que eu peguei num bar de alpinistas, ou com um paraquedista que caiu na minha mesa de paraquedas, ou um cuspidor de fogo que eu cruzei num cruzamento, pra citar apenas alguns dos exemplares de Homo sapiens sapiens que ela já trouxe pra cá. Sem falar naquele Hells Angel sérvio – ou croata?, já não lembro – inteiramente briaco e doidão que cismou de sodomizar Corinne a seco, já nem cuspe ele tinha, de tanta birita com sei lá que drogas que eles tinham mandado naquela noite. Foi tamanha gritaria que eu me vi forçado a levantar da cama e ir até o armarinho do banheiro catar um tubo de KY pra facilitar a vida de todo mundo ali, a deles, que praticavam o deleitável ato contranatura, e a minha, que aspirava a um pouco de silêncio pra dormir.
Já falei, já falei mil vezes, Corinne, me avisa antes, que eu vazo, vou dormir dentro da banheira, vou prum hotel pra cornos sonolentos, vou pra puta que pariu, se necessário for.
Aquele novo cara que ela tinha pegado eu não tinha ideia de quem era ou deixava de ser, embora me parecesse que ele mais deixava de ser do que era de fato alguma coisa. Por enquanto era só um peso extra no meu colchão. Acabei abrindo um olho e vendo a cara do cara. Putz, tratava-se de um fóssil hipongo que ela deve ter desenterrado lá em Woodstock. Não sabia que ela tinha ido tão longe naquela madrugada. Barbudão, cabeludão, sujão, chapadão. O cara me viu e murmurou um “Aê, bró”, que me pareceu até bastante amistoso. Mais do que o Hells Angel sérvio, que praguejava em sérvio (ou croata) enquanto atolava sua ferramenta de trabalho em Corinne, ali onde o sol não bate.
Pelo menos o paz-e-amor que o carinha protagonizou foi até que razoavelmente discreto. Gozou e dormiu, com fumaça de maconha a lhe escapar pelas ventas e orelhas. Eu também naufragava no sono de novo quando me soa a campainha. Onze da matina e alguém tocando a porra da campainha, como se não bastasse aquele estranho no meu ninho.
Alarmado, sentei na cama, costas escoradas na cabeceira. Onze horas pra mim é plena madrugada. Que merda era aquela? Corinne ao meu lado fez o mesmo, depois de me dar um selinho com um sabor estranho, de cannabis com amêndoas verdes tostadas, achei.
De novo o berro elétrico da campainha. Alguém tinha que tomar uma providência. Corinne suspirou algumas vezes, sinalizando que não seria ela a tomar providência alguma. Quando a campainha tocou uma terceira vez, um toque mais longo e irritado que os anteriores, quem se levantou da cama foi o novo companheiro da Corinne. Foi lá atender a porta, o Mr. Hippôncio Pilates. Fez isso com a desenvoltura de quem já conhecia o lugar. Não duvido nada. Só no mês passado viajei uns 45 dias a trabalho. Estive em Vladivostok, Adis Abeba e Tegucigalpa. Estive em Osasco também, mas isso é segredo, não espalha. Eu pelo mundo e a Corinne aqui, pelada com esse tipo imundo. Esse, mais a torcida do Curíntia, vai saber.
Ouvi meu comborço hippie abrir a porta, e uma voz de homem, depois outra voz de homem. As duas vozes trocavam frases que eu não conseguia distinguir. A voz masculina mais pastosa devia ser a do hiponguêra chibabeiro que, em todo caso, logo voltou pra cama, acomodando-se, ele também, de costas pra cabeceira, do outro lado da Corinne. Mas não voltou sozinho, a guedelhuda criatura. Trouxe com ele um sujeitinho inespecífico de gabardine, óculos, chapéu e bigode. Pensei que o fulano ia tirar a roupa e entrar na cama também. Não ficaria espantado se ele fizesse isso. Aquela cama já tinha visto de tudo na vida.
Mas, não. O da gabardine tirou do bolso e nos exibiu uma carteira funcional que o identificava como recenseador oficial. Depois, puxou papel e lápis, e fez uma rápida anotação, seguida de um comentário de natureza demográfica, me pareceu:
“Somos mais numerosos do que se pensava.”
Depois de um segundo, soltei uma gargalhada solitária. Acho que só eu entendi a piada ali.
