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“Duvido não aceitar”

    Simulação da PF com possíveis disfarces da traficante Karine Campos: ela chorou quando viu o seu nome como titular de uma conta de 1 milhão de reais. “Nunca tive nada no nome antes”, disse CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

anais da corrupção

“Duvido não aceitar”

A maior narcotraficante brasileira e os milhões de reais para corromper a Justiça

Allan de Abreu | Edição 232, Janeiro 2026

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Às 6h40 do dia 27 de agosto de 2019, três agentes e um escrivão da Polícia Federal tocaram a campainha da casa de portão branco no bairro Carandá Bosque, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Eles cumpriam um dos trinta mandados de busca da Operação Alba Virus, cujo nome significa em latim “vírus ou veneno branco”. Era uma referência clara ao fato de que a operação desvendara o esquema de tráfico de cocaína para a Europa.

Quem abriu a porta foi uma mulher, que se identificou como Sandra de Oliveira. Os policiais pediram um documento de identidade, mas ela disse que não tinha nenhum naquele momento. A equipe da PF aceitou a explicação e, em seguida, apreendeu um veículo, celulares, papéis rasgados com anotações e uma aliança com o nome “Karine” gravado na parte interna. Na bolsa da mulher, os policiais acharam mais de 5 mil reais em espécie. Às 8 horas, depois de Sandra de Oliveira assinar o recebimento do mandado, a equipe da PF foi embora.

Como as operações policiais são compartimentadas, cada equipe que integra a fase ostensiva tem informações apenas das pessoas e endereços dos mandados que lhe cabem cumprir. Portanto, os policiais em Campo Grande não sabiam que, naquele exato momento, a verdadeira Sandra de Oliveira estava sendo presa a 1,2 mil km dali, em Itajaí, no litoral de Santa Catarina. E que a mulher que se apresentou como Sandra era ninguém menos que Karine de Oliveira Campos, o alvo mais importante da Operação Alba Virus, cuja prisão temporária havia sido decretada. Aos 40 anos, ela comandava a quadrilha de traficantes. Sandra de Oliveira é sua mãe.

 

Chamou a atenção que os quatro policiais nada desconfiaram sobre uma mulher sem carteira de identidade e com mais de 5 mil reais na bolsa, em um endereço ligado a um grupo de narcotraficantes. Em casos assim, os policiais devem levar a pessoa à delegacia para confirmar sua identidade. Não se sabe se os quatro policiais foram corrompidos, ou apenas escrachadamente incompetentes. Uma sindicância não encontrou nada de irregular, e o caso acabou arquivado.

Karine Campos escapou por dentre os dedos da PF, apesar de ser considerada a maior narcotraficante brasileira, em um negócio dominado por ho­mens. Só no último semestre de 2018, menos de um ano antes da batida policial em sua casa, ela enviara mais de 3 toneladas de cocaína para o exterior por meio dos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Navegantes (SC).

Apesar de perder seus alvos principais – além de Karine Campos, seu marido e braço direito, Marcelo Mendes Ferreira, também conseguiu escapar –, a Operação Alba Virus trouxe sérios prejuízos para o casal. No saldo final, acabaram presos a mãe de Campos e dez subordinados dela que coordenavam a logística de transporte da droga até os portos. Os nomes de Campos e Marcelo Ferreira foram incluídos na lista da Interpol. Preocupada com o risco de voltar para detrás das grades com o marido, oito anos depois de ambos terem deixado a prisão, Campos foi à luta. Passou a mobilizar traficantes, lobistas e advogados para corromper o Judiciário, não só nas ações penais decorrentes da Alba Virus, mas em outras operações policiais contra ela, o marido e os criminosos aliados.

 

Ao menos nos últimos seis anos, Campos fez da corrupção da cúpula do Judiciário uma prática constante. Na clandestinidade, movimentou malas com milhões de reais em espécie entre Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, e conversou abertamente com seus comparsas sobre o pagamento de propina a juízes em aplicativos de mensagens criptografadas.

 

Embora não sejam filiados a nenhuma facção criminosa, Karine Campos e Marcelo Ferreira são próximos da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), com destaque para André Oliveira Macedo, conhecido como André do Rap. No início da década passada, ele deu os primeiros passos da facção para exportar cocaína pelo Porto de Santos. Alvo de uma operação policial em 2014, foi condenado a 14 anos de prisão por narcotráfico internacional pelo juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos. Ficou foragido até setembro de 2019, quando foi flagrado pela polícia em um condomínio de alto padrão em Angra dos Reis, no litoral fluminense. Na casa havia um helicóptero.

De acordo com a PF, André do Rap é um dos principais “parceiros comerciais” de Campos e Ferreira na remessa de cocaína para a Europa. Em razão dos negócios, a traficante e o marido sempre se interessaram em ajudar a tirar André do Rap da cadeia. Por isso, acionaram o advogado Anderson dos Santos Domingues, que ingressou com pedidos de habeas corpus em favor do traficante no TRF da 3ª Região e no STJ. Perdeu em ambas as instâncias. Em setembro de 2020, restava uma última opção: recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Naquele mês, o recurso acabou distribuído para o ministro Marco Aurélio Mello, então membro da Corte. Ao contrário do que acontecera no TRF e no STJ, dessa vez o pedido de André do Rap não vinha assinado por Anderson Domingues, mas pela advogada Ana Luísa Gonçalves Rocha, uma jovem de 24 anos, recém-formada, que, no ano anterior, havia sido estagiária no gabinete de Marco Aurélio Mello e se tornara sócia de Eduardo Ubaldo Barbosa, um ex-assessor do ministro. A piauí apurou que o ex-assessor pediu à estagiária que assinasse o pedido sob o argumento de que seu nome não poderia aparecer no processo. A jovem aceitou a incumbência, ainda que nunca tivesse atuado em casos penais – sua área era o direito trabalhista.

Naqueles dias, André do Rap assegurava aos colegas de cela na Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista, que não passaria o Natal atrás das grades. A afirmação, confirmada pela piauí com um servidor do sistema carcerário paulista, poderia ser considerada fanfarrice, mas o traficante também dizia que pagara 5 milhões de dólares – mais de 30 milhões de reais – por um habeas corpus favorável no STF.

Em 6 de outubro de 2020, Marco Aurélio concedeu liminar revogando a prisão de André do Rap. O ministro aceitou o argumento da defesa de que a Justiça excedera o prazo de noventa dias para o reexame da prisão. Também afirmou que André do Rap estava preso “sem culpa formada”, expressão que se usa quando ainda é possível recorrer de uma condenação. (Naquela altura, André do Rap já havia sido condenado pelo juiz de primeira instância e pelo TRF, mas ainda podia contestar.) Em sua decisão, como é de praxe, Marco Aurélio solicitou ao traficante do PCC que atendesse aos “chamamentos judiciais” e informasse à Justiça caso mudasse de endereço, “postura que se aguarda do cidadão integrado à sociedade”.

A decisão do ministro foi publicada no Diário de Justiça Eletrônico Nacional no dia 7 de outubro, mas só chegou formalmente à direção da penitenciária no fim da tarde do dia 9, uma sexta-­feira. Nesses casos, o detento costuma ser liberado no dia útil seguinte – segunda-feira –, enquanto se verifica a autenticidade do alvará de soltura e se cumprem os ritos burocráticos. Na manhã de sábado, porém, os advogados de André do Rap procuraram a direção do presídio exigindo a libertação imediata do traficante. Como o pedido foi negado, acionaram o gabinete de Mello, em Brasília. Um dos assessores do ministro telefonou então ao diretor, ameaçando prendê-lo caso não soltasse o preso. No fim da manhã de sábado, André do Rap deixou a penitenciária.

Horas depois, o então presidente do STF, Luiz Fux, em uma atitude incomum, entrou no caso, atropelando o relator Mello, e suspendeu a liminar. Determinou nova prisão do traficante. (Mais tarde, a decisão de Fux foi referendada pelos ministros da Primeira Turma do Supremo com um único voto contrário, o de Marco Aurélio.) Quando a ordem de Fux chegou ao presídio, já era tarde. Assim que deixou a penitenciária, André do Rap viajou de helicóptero para o Paraguai e nunca mais foi encontrado. Está solto até hoje.

Ao saber da decisão, segundo diálogos em poder da Polícia Federal aos quais a piauí teve acesso, Karine Campos comemorou a libertação do aliado e disse que iria procurar a filha do traficante do PCC em busca de detalhes. Em outra conversa, ocorrida no dia seguinte à soltura de André do Rap, Campos falou com um subordinado, Caio Bernasconi Braga, e fez uma revelação. Corroborando a versão dos informantes do Ministério Público na prisão, disse que André do Rap pagara 5 milhões de dólares pelo habeas corpus. Ela não disse quais foram os destinatários da bolada, mas justificou o alto valor dizendo que havia muitas pessoas na transação “mordendo” o dinheiro.

Poucas semanas depois, em novembro de 2020, a PF captou outro diálogo sobre o assunto, do qual se depreende que os 5 milhões de dólares deviam ser pagos por Karine Campos. O registro foi feito por uma escuta ambiental instalada no carro de Vitor Provesi Júnior, um traficante sob investigação. Nele, Provesi Júnior está conversando com André Miranda do Nascimento, que embarcava cocaína de Campos pelo porto catarinense de Itajaí. A certa altura, Nascimento diz a Provesi Júnior que um tio de André do Rap andava à procura de Campos e Ferreira. E informa que caberia ao casal “pagar o cara que soltou” André do Rap. O jovem não diz quem seria “o cara”.

À piauí, a ex-estagiária Ana Luísa Rocha disse que desconhece o valor que Eduardo Barbosa, o ex-assessor de Mello, cobrou pelo serviço. Quanto aos próprios honorários, ela informou que recebeu “apenas o salário regular mensal referente ao trabalho no escritório”. (Desgastada com o episódio, Rocha abandonou a advocacia. Hoje é servidora pública.) A piauí também perguntou a Barbosa o valor dos seus honorários. Ele enviou nota à revista, mas não respondeu a pergunta. Em vez disso, comentou a decisão do ministro, seu ex-chefe: “Não houve qualquer decisão diferente de um amplo histórico decisório do ministro Marco Aurélio.”

Procurado pela reportagem, o ministro, cuja carreira de fato foi marcada por decisões garantistas, que priorizam a proteção dos direitos fundamentais e as garantias constitucionais do réu, enviou uma manifestação sucinta: “Tempos estranhos! Vejam minha vida como juiz: 42 anos em colegiados julgadores, 31 no Supremo. Maledicência pura.”

 

Passado pouco mais de um ano da soltura de André do Rap, Karine Campos comandou uma operação escusa para corromper a Justiça e livrar um subordinado da cadeia. Seu nome é Leonardo Costa Nobre, preso preventivamente em 12 de abril de 2021, mediante suspeitas de coordenar a logística de voos de jatos executivos que levavam cocaína na rota de Belo Horizonte a Lisboa. Com a prisão de Costa Nobre, a irmã, Juliana, assumiu seu lugar. Quando descobriu o papel de Juliana, a Polícia Federal instalou uma escuta em seu celular e flagrou dezenas de diálogos entre ela e o irmão, que usava um aparelho convencional dentro da prisão. Captadas entre janeiro e fevereiro de 2022, as conversas revelaram um caso de corrupção no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília.

Tudo começou em dezembro de 2021, quando Costa Nobre contratou o advogado João Paulo Todde Nogueira para obter um habeas corpus. Todde Nogueira faz parte do grupo de advogados milionários da capital federal. Ele gosta de charutos e carros de luxo, especialmente Ferraris (considera os da Porsche “carro de mulher”). É cônsul honorário da República Dominicana e dado a escrever poemas nas redes sociais. Mas Costa Nobre escolheu o advogado por seu currículo de serviços prestados a André Luiz Santiago Eleutério, seu sócio na logística aérea do tráfico para Portugal. Em agosto de 2021, Todde Nogueira conseguira que Eleutério fosse transferido para prisão domiciliar sob o argumento de que o preso precisava cuidar da mãe, que sofria de Alzheimer. O habeas corpus foi relatado pelo desembargador Cândido Ribeiro Filho e concedido com o voto de todos os três juízes da Quarta Turma do TRF.

A suspeita de que o benefício foi obtido à base de propina surgiu numa conversa interceptada em 5 de fevereiro de 2022. Nela, Todde Nogueira conversa com seu cliente, Costa Nobre, e reclama de como seu cliente anterior, André Eleutério, deu com a língua nos dentes sobre o suborno quando ainda estava preso. Diz Todde Nogueira na conversa: “A única coisa que eu falava, ‘André [Eleutério], cala a porra da boca e deixa eu trabalhar em paz enquanto você tá preso. No dia que você sair você pode falar o que você quiser.’ O filha da puta não me pagou e criou o problema pior ainda. Ele criava problema falando para funcionário da penitenciária […]. ‘Ah, meu advogado já… contratei o advogado que já tem o juiz na mão. Contratei o advogado que tá com o desembargador no bolso.’ Cara, você não tem noção da imagem que isso desgasta […], porque isso vai direto para a Corregedoria […]. Então, a gente tem que ter muita cautela. Porque não é soltar ou não soltar você. É, assim, é a vida do desembargador, é a vida do gabinete, de funcionário do gabinete, é a minha vida.”

Em diálogo com seu irmão, Juliana explicou o episódio. Segundo ela, Todde Nogueira pagou o suborno (possivelmente 5 milhões de reais) com dinheiro do próprio bolso e, em seguida, tomou calote do traficante. Na conversa, Juliana diz ao irmão: “André deu 1 [milhão] e 250 [mil reais] e ficou devendo 3 [milhões] e 700 e pouco [mil reais] pro Todde. O André precisa arrumar esse dinheiro porque senão ele vai tomar pau.”

Na suspeita da PF, Costa Nobre, interessado em contratar o serviço de Todde Nogueira, tentou conseguir o dinheiro com Karine Campos, a quem chama de “madrinha”. No seu caso, a propina era mais baixa, de 2 milhões de reais. Na nuvem do celular de Juliana, a PF encontrou uma carta manuscrita de Costa Nobre para Campos: “Infelizmente o advogado e os desembargadores não aceitaram [conceder o habeas corpus] sem colocar o dinheiro na frente. […] Já tivemos provas que é garantida a liminar e a liberdade. Conseguimos deixar, com muito custo, para 2 milhões [de reais] de entrada. […] É 1 milhão para cada desembargador, preciso de 2 votos [dos 3 da Quarta Turma].” Em seguida, Costa Nobre discorre sobre o advogado Todde Nogueira: “Esse escritório é um dos maiores do Brasil, fica em BSB [Brasília] e o dono é amigo íntimo do filho do relator do meu caso”, diz ele, referindo-se ao também advogado Ravik de Barros Bello Ribeiro, filho do desembargador Cândido Ribeiro.

Ocorre que a parlapatice de André Eleutério chegou aos corredores do TRF. De acordo com análise da PF, o desembargador Cândido Ribeiro, com receio de ser identificado como “o desembargador no bolso”, negou o pedido de liminar para Costa Nobre em decisão tomada em janeiro de 2022. Num diálogo posterior, em 1º de fevereiro de 2022, André Eleutério conversa com Costa Nobre, que continuava preso, e, em vez de fazer um mea-culpa por sua indiscrição, apenas relata que o desembargador desistiu do esquema. Diz Eleutério: “Ele [refere-se ao advogado Todde Nogueira] falou assim: ‘O Cândido falou que não vai pôr o dele na reta por caso algum.’”

Depois da decisão do relator Cândido Ribeiro, ainda faltava o julgamento do mérito do habeas corpus pelos desembargadores da Quarta Turma do TRF. Nesse meio-tempo, tudo indica que os subornos inflacionaram. De acordo com conversa em poder da PF, Costa Nobre concordou em pagar um total de 8 milhões de reais pela decisão favorável na Quarta Turma. Desse valor, de acordo com os diálogos, 3 milhões de reais deveriam ser à vista aos magistrados, outros 2 milhões seriam desembolsados apenas depois da decisão e mais 3 milhões ficariam com Todde Nogueira a título de honorários.

Em 15 de fevereiro de 2022, Todde Nogueira pediu a Juliana que fosse ao seu escritório em Brasília para tratar pessoalmente do caso – ele não queria falar por telefone. No dia seguinte, uma quarta-feira, Juliana se deslocou de Belo Horizonte, onde morava, até a capital federal. De dentro do escritório de Todde Nogueira, ela ligou para o irmão na cadeia e descreveu a conversa que tivera com o advogado minutos antes: “Ele [refere-se ao advogado] me contou a história toda de como as coisas andaram, enfim… E a história ruim é que a gente teria que providenciar 3 milhões [de reais] na segunda-feira. Aí, na terça-­feira tem a pauta [de julgamento], aí seria julgado favorável e na sexta-feira você sai. Ele contou a história longa, mas em resumo o Ravik estava dificultando as coisas”, completou, referindo-­se ao filho do desembargador Ribeiro.

Juliana também disse ao irmão que o contato de Todde Nogueira para os esquemas ilícitos dentro do TRF da 1ª Região era o desembargador Ney de Barros Bello Filho, ex-cunhado de Cândido Ribeiro. “O negócio do Todde é com o Ney Bello mesmo, e aí o Ney Bello é quem intermedeia esse trem, sabe?” Horas depois, ela disse ao irmão que Bello “ganha uma beirada” e que Todde Nogueira afirmou ter dado 1,5 milhão de reais ao desembargador, mas não fica claro em qual contexto houve esse suposto pagamento. Juliana explicou ao irmão como era feito o pagamento da propina: “Esses caras [magistrados], eles… cê paga não é pra eles, não cai dinheiro na conta deles, né, nada. Normalmente eles indicam um escritório de advocacia, uma amante, um trem assim, procê botar o dinheiro, né?” (Ney Bello não é investigado nesse caso. À piauí, ele negou ter relações com Tod­de Nogueira. “Eu nem conheço esse advogado. Além disso, não tenho controle sobre falas de terceiros”, disse.)

Ainda na ligação para o irmão na cadeia, Juliana contou como seria a logística da propina. Disse que um advogado, sócio de Todde Nogueira, iria para São Paulo pegar os 3 milhões de reais das mãos de um subordinado de Karine Campos. Também disse que aquele montante “vai pra mão do Ravik”. (Dias depois, numa conversa por telefone com Costa Nobre, Todde Nogueira alterou esse plano e disse que os valores teriam de ser entregues no escritório dele em Brasília porque não havia como “ninguém tirar foto”).

A certa altura da conversa de Juliana com o irmão, Todde Nogueira entrou na linha. Costa Nobre, preso havia dez meses, queria garantia que os juízes dariam o habeas corpus depois de receberem o adiantamento. O advogado respondeu: “Eu sei como o jogo funciona aqui. Então, assim, não tem isso, não é assim que funciona. E dois: em relação à garantia, a garantia sou eu.” Antes de se despedirem, Todde Nogueira reforçou o cronograma: “Segunda-feira, com o dinheiro na mão, eu protocolizo, […] e a promessa que eles me deram é que sai a decisão na terça ou na quarta-feira.”

Karine Campos decidira que só daria o dinheiro da propina depois de sair o alvará de soltura. Diante disso, Costa Nobre e sua irmã elaboraram um plano arriscado: falsificar um alvará para que a “madrinha” liberasse o adiantamento de 3 milhões de reais. “Cê acha que eu tô feliz de arriscar minha vida e falsificar um documento público pra maior traficante do país?”, disse ele para a irmã. Mas o plano foi por água abaixo quando Davidson Cândido, conhecido como Negão, faz-tudo de Karine Campos, disse a Juliana que a ordem da chefe era entregar o dinheiro apenas quando o alvará entrasse formalmente nos autos. Em 17 de fevereiro, o faz-tudo disse: “Ou ele tá na rua ou tem que ter uma confirmação muito clara, senão ela [Campos] não vai mandar [o dinheiro], entendeu?”

Na noite do dia anterior, com os acontecimentos se desdobrando em ritmo alucinante, surgira um novo obstáculo. Em nova conversa com o irmão na cadeia, Juliana repassou um recado que recebera de Todde Nogueira: Ravik, o filho do desembargador, agora queria subir o valor da propina para 10 milhões de reais. Era dinheiro demais, o impasse se tornara aparentemente intransponível e então Juliana tomou uma atitude ousada: tirou Todde Nogueira do jogo e foi até o escritório de Ravik, em Brasília.

 

Ravik Bello Ribeiro, que já havia sido investigado pela Polícia Federal sob a suspeita de auxiliar um cliente enrolado com desvios de verba e ocultação de patrimônio, demonstrou ser mais cuidadoso do que Todde Nogueira ao tratar dos esquemas ilícitos. Ao receber Juliana no seu escritório, no Lago Sul, pediu os dois telefones e a mochila da mulher, guardou tudo em um armário e depois a convidou para entrar em uma pequena sala. Ali, segundo Juliana relataria horas depois ao irmão por telefone, Ravik disse que havia atuado diretamente na concessão do habeas corpus de André Eleutério, mas que o caso do seu irmão era mais complexo. Ele já tivera outros recursos parecidos recusados pelo TRF e, por isso, o valor da primeira parcela não poderia ser de 3 milhões, mas 3,5 milhões de reais. (Tudo indica que Todde Nogueira estava blefando quando falou de 10 milhões de reais pelo habeas corpus). Juliana reconstituiu o diálogo em uma ligação para o irmão:

– Eu não tenho 3,5. A pessoa que vai subsidiar é uma pessoa que meu irmão prestou serviço pra ela [referia-­se a Karine Campos] e tá limitado a 3 milhões – disse Juliana.

– Tipo, mas 3 milhões você tem? – perguntou Ravik

– Eu não tenho, eu consigo.

– O.k. Eu posso contar com 3 milhões?

– Sim. Você pode contar com 3 milhões. […] Se você quiser que seja feita alguma transferência…

– Não, transferência não. Pode vincular a pessoa a vocês, né? Isso é o que cês não querem, né? Eu também não.

– Então eu quero que você me dite as regras, diga como é que cê quer que seja feito.

– O.k. Eu vou pensar a respeito – encerrou Ravik.

Ravik também pediu que Juliana e o irmão dispensassem a intermediação de Todde Nogueira e avisou que o recurso deveria ir a julgamento logo depois do Carnaval. Por fim, Ravik afirmou que em poucos dias sua secretária entraria em contato por Whats­App. “A gente vai conversar por ali. Se você me mandar mensagens e eu levar dois dias pra responder, não se preocupe, eu não fico… Eu não ando com esse telefone. A gente nunca vai conversar no telefone tradicional”, disse Ravik, ainda segundo a reconstituição feita por Juliana ao irmão.

O cronograma atrasou. Em 18 de março, Todde Nogueira formalizou sua saída do caso e, em seu lugar, entrou o advogado Felipe Vidigal de Oliveira. Para a PF, era um preposto do filho do desembargador – Oliveira graduou-se em direito junto com Ravik, em Brasília. Os trâmites burocráticos do processo emperraram, a votação não ocorreu logo depois do Carnaval, como se previa, mas apenas no dia 19 de abril. Nesta data, o TRF concedeu o habeas corpus, com os votos dos desembargadores Cândido Ribeiro, Néviton de Oliveira Batista Guedes e Saulo José Casali Bahia.

Em nota enviada à piauí, Guedes e Bahia afirmaram que “apenas participaram do julgamento e acompanharam a tese trazida pelo relator [no caso, Cândido Ribeiro]”, que havia entendido que “caberia a substituição da prisão preventiva por cautelares alternativas, que incluíam entrega de passaporte e monitoramento eletrônico”.

Na manhã de 8 de maio, Ravik voou para Belo Horizonte. Às 16h30, chegou ao café de um museu na Praça da Liberdade, como mostram imagens do circuito de segurança do local. Sete minutos depois, chegaram Costa Nobre, recém-saído da cadeia, e sua irmã Juliana. O encontro durou duas horas. Ravik recebeu do traficante uma caixa que, segundo a PF, continha ao menos parte da propina. (Coube a Negão, preposto de Karine Campos, buscar o dinheiro em São Paulo e entregá-lo a Costa Nobre em Belo Horizonte.) Naquele mesmo dia, Ravik tomou o voo de volta para Brasília.

Quase um ano depois, na manhã de 14 de março de 2023, a Polícia Federal cumpriu nove mandados de busca nos endereços de todos os envolvidos: Ravik, o desembargador Cândido Ribeiro, o advogado Todde Nogueira, Costa Nobre e sua irmã, o advogado Felipe Oliveira e Davidson Cândido, o Negão. Na casa de Ravik, apreendeu 270 mil reais em dinheiro vivo. O inquérito tramita em sigilo no STJ. Um mês mais tarde, em 13 de abril, o desembargador Cândido Ribeiro foi aposentado por invalidez pelo TRF da 1ª Região. A publicação da decisão cita “incapacidade permanente para o trabalho decorrente de doença não especificada em lei” – as escutas da PF indicam que Ribeiro sofria com alcoolismo.

Procurado pela piauí, Todde Nogueira não quis se manifestar. Ravik não retornou os contatos feitos pela reportagem. Nem Cândido Ribeiro nem sua defesa foram localizados.

Karine Campos, Negão, Costa Nobre e seu sócio, André Eleutério, respondem à ação penal na Justiça Federal em Belo Horizonte, acusados de tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico e associação criminosa; Juliana é ré por associação criminosa. O processo não foi julgado. Com exceção de Costa Nobre, todos estão livres.

 

Filha única de um comerciante e uma dona de casa, e neta (do lado paterno) de um militar do Exército que lutou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, Karine de Oliveira Campos nasceu em Itapetininga, no interior paulista, e ainda criança mudou-se com os pais para Corumbá, em Mato Grosso do Sul, na fronteira com a Bolívia. Ali, aos 14 anos entrou em contato com o submundo do tráfico de cocaína. Segundo a PF, o pai dela, Antônio da Costa Campos, era próximo do major Sérgio Roberto de Carvalho, um policial militar que virou um dos maiores narcotraficantes da última década.

Em julho de 1999, Campos foi presa em flagrante vendendo crack em Salvador. Na época, a jovem de 20 anos disse à polícia que adquiria a droga em Corumbá e vendia na capital baiana. Condenada a três anos de reclusão, recorreu da sentença em liberdade, benefício que, segundo disse a um amigo traficante em conversa obtida pela PF, conquistou ao subornar o juiz com 200 mil reais. No Tribunal de Justiça da Bahia, ela perdeu. A condenação foi mantida e a jovem foi presa novamente no início dos anos 2000. Depois de solta, como era técnica de enfermagem, passou a trabalhar como cuidadora de idosos em Salvador. Na casa de um idoso, conheceu Marcelo Ferreira, contratado como pedreiro. Engataram um namoro e nunca mais se separaram.

No tráfico de cocaína, o casal prosperou. Campos aproveitava os seus contatos na fronteira com a Bolívia para comprar a droga no país vizinho e contratava mulas para levar a mercadoria até o Recôncavo Baiano. “A Karine é o cérebro do casal, o lado frio e calculista. Se não fosse por ela, o Marcelo já teria sido assassinado há muito tempo”, diz um policial federal que acompanha há anos os passos do casal, mas que não quis ser identificado por não ter autorização formal para dar entrevistas. De fato, Ferreira é um homem violento. Em processo que tramita sob segredo na Justiça baiana, é acusado de ordenar o assassinato de um traficante rival, cadeirante.

Em janeiro de 2009, a polícia baiana chegou ao casal. Campos e Ferreira foram presos preventivamente. Ela ficou atrás das grades por um ano e nove meses, até conseguir um habeas corpus no Tribunal de Justiça da Bahia. Nesse período, chegou a dividir a cela com dezesseis presas e emagreceu 20 kg. (Ele continuou preso preventivamente até 2012.) Libertada, Campos ficou atenta para driblar interceptações telefônicas. Trocava de celular constantemente. Criava circuitos fechados de celulares, em que só se usava determinado aparelho para falar com integrantes do mesmo grupo. Em uma época em que os aplicativos de mensagens criptografadas como o WhatsApp ainda não eram populares, procurou se inteirar do tema. Certa vez a PF interceptou uma conversa em que ela indicava para outro traficante o livro Fortaleza digital, romance policial do americano Dan Brown que trata de criptografia.

Em julho de 2018, o advogado Mário Sérgio Rosa pediu o trancamento da ação penal contra a traficante. Alegou que o caso já se arrastava havia quase dez anos sem sentença definitiva e, além disso, a polícia não havia apreendido droga com o casal. Em que pese a fragilidade do argumento, considerando que a polícia já havia comprovado a liderança do casal na quadrilha de traficantes por meio de dezenas de horas de gravações telefônicas, o pedido foi aceito pelo desembargador Luiz Fernando Lima, do Tribunal de Justiça da Bahia. “Bem analisando os autos, tenho que a assertiva da defesa é contundente, estando a paciente envolvida na denúncia unicamente porque seria, à época dos fatos, companheira do acusado Marcelo Ferreira, não havendo qualquer prova nos autos de que seria ela líder da entidade criminosa”, escreveu o magistrado. A ação penal foi trancada em julho de 2019. No ano seguinte, as acusações contra Marcelo Ferreira prescreveram, e a ação judicial acabou arquivada. O casal, enfim, estava livre novamente.

Tempos depois, em 2023, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) abriu investigação contra o desembargador Luiz Fernando Lima, depois que, durante um plantão judicial, ele concedeu prisão domiciliar ao líder de uma facção criminosa acusado de homicídio e narcotráfico. A sindicância acabou arquivada, sem chegar a uma conclusão, depois que o desembargador atingiu a idade limite de 75 anos e foi aposentado compulsoriamente. Ele não foi localizado pela reportagem.

 

Para se livrar da ação penal decorrente da Operação Alba Virus, aquela em que a PF deixou Karine Campos escapar, a traficante mobilizou novamente sua estrutura para corromper o Judiciário. O primeiro alvo foi o juiz Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, o mesmo que, anos antes, condenara André do Rap a 14 anos de prisão.

Semanas depois da deflagração da Alba Virus, Campos, escondida em um apartamento em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, voltou a contratar o advogado Mário Sérgio Rosa para defendê-la no caso. Rosa tinha duas missões: cuidar da defesa formal de Campos e tentar corromper o juiz. Ele tentou se aproximar de Santos Filho recorrendo a uma juíza amiga do magistrado. A estratégia não prosperou. Planejou então abordá-lo com a ajuda de um homem identificado apenas pelo primeiro nome – Odilon – para oferecer 10 milhões de reais ao magistrado. “Duvido não aceitar”, escreveu Campos, em maio de 2020, em um aplicativo de mensagens.

Santos Filho nunca recebeu nenhuma das propostas criminosas. Campos, então, acionou seu plano B: corromper as instâncias superiores da Justiça. Na tarde de 3 de outubro de 2019, pouco mais de dois meses depois da deflagração da Alba Virus, a PF bateu no apartamento de Balneário Camboriú. O casal não estava mais no imóvel, mas os policiais encontraram cartas escritas à mão por Campos para os seus subordinados presos na Alba Virus. Nelas, a traficante chama todos de “irmãos”, diz que estava enviando dinheiro aos familiares deles e promete tirá-los da cadeia em breve. “Temos o dinheiro para cada HC [habeas corpus] de vocês em Brasília”, escreveu. “Não queria que nenhum de vocês estivesse aí. Vamos ser fortes e juntos vamos vencer, com a bênção de Deus.”

Em março de 2020, Rosa ingressou com pedido de habeas corpus preventivo para o casal no TRF da 3ª Região, em São Paulo, com o argumento de que não havia provas que vinculassem o casal ao esquema investigado pela PF. O TRF negou o pedido, e o casal continuou sob risco de ser preso. Semanas depois, Rosa morreu em decorrência da Covid. Campos então contratou dois advogados goianos, Gustavo Machado Soares e Alexandrino Araújo Oliveira Neto, para recorrer ao STJ. À alegação de que não havia provas contra o casal, eles acrescentaram o argumento de que Campos era mãe de duas crianças, de 8 e 5 anos. Pediram que, caso sua prisão fosse decretada, que ao menos ela cumprisse a ordem em regime domiciliar.

O pedido de habeas corpus foi protocolado no STJ na manhã de 30 de abril de 2020. A data coincide com uma movimentação milionária entre os comparsas de Campos. A traficante já havia depositado 3 milhões em contas bancárias indicadas por um lobista goiano com atuação em Brasília e, no dia seguinte ao protocolo do habeas corpus, dois aliados de Campos, um deles doleiro, embarcaram num voo comercial para Brasília com 1,2 milhão de reais em espécie na bagagem. Na capital federal, todos se reuniram para discutir o caso – o lobista, o doleiro, a advogada Paula Diniz Gouvêa, em cujo nome estava o aluguel do imóvel em Camboriú, e outros dois desconhecidos.

Logo apareceram indícios de que a dinheirama – os 3 milhões e mais 1,2 milhão – seria destinada à obtenção do habeas corpus. Às 21h17 do dia 1º de maio, já encerrada a reunião, Paula Gouvêa enviou um áudio para o Whats­App do doleiro Diógenes Caldas de Jesus Junior colocando em dúvida o trabalho do lobista, Leandro Luiz Gonçalves de Assis: “Olha, vou ser muito sincera. Tá escancarado aqui no grupo. Ou ele [Assis] mostra a decisão [do pedido de habeas corpus] ou ele vai devolver a metade do dinheiro, vai deixar guardado – eu já tenho um cofre aqui disponível – e aí na segunda, na terça, no dia que ele quiser, o dia que sair o resultado eu dou pra ele o restante.”

Campos acompanhava a discussão por meio de um aplicativo, usando os codinomes “Esmeralda” e “Pérola”. Em data não especificada no relatório policial, o doleiro Jesus Junior enviou a seguinte mensagem para a chefe traficante, com mais um indício de que o habeas corpus seria comprado: “Já falei com Leandro [Assis] / Ele me confirmou que tem que pagar os dois mesmo [não fica claro se ele se refere a duas pessoas ou a 2 milhões de reais] / E falou que ficou acertado de dar após sair a assinatura [do habeas corpus].” Em resposta, a traficante observou que havia dúvida sobre o momento do pagamento: “Certo / Mas o cara disse q não vão assinar só por palavra / Que, se não chega dinheiro, não assina.”

Na tarde de 3 de maio, os comparsas abriram outra discussão – a possibilidade de embolsar o dinheiro da traficante, em vez de usá-lo para comprar um habeas corpus. Em resposta a uma mensagem do doleiro, a advogada Paula Gouvêa mandou um áudio em que diz que a melhor opção era serem honestos com Campos e não desviarem o dinheiro. “É o que eu tô te falando, a gente tem muito mais a ganhar mostrando nossa lealdade a ela do que pegar [o dinheiro]… tipo ‘ah, pega, vai dividir…’ até porque […] mesmo que cada um tenha a sua comissão, vou ser muito sincera, essa comissão nem chega aos pés do que […] pode vir por ela saber que somos leais a ela.”

No dia seguinte, 4 de maio, o pedido de habeas corpus de Campos e seu marido foi distribuído, por sorteio, para o gabinete do ministro Antonio Saldanha Palheiro. Um dia depois, o ministro negou o pedido de liminar para o casal. Diante do revés, o doleiro Jesus Junior disse que viajaria a Goiânia para “fazer o povo devolver o dinheiro e encerrar esse assunto”. Tudo indica que Assis, o lobista, não devolveu o montante, porque, dias mais tarde, o doleiro ameaçou acionar o PCC para cobrar a devolução do dinheiro. “Vou jogar tudo pra cima pra resolver o problema da Pérola [Karine Campos]”, escreveu o doleiro numa mensagem. Pelos diálogos, não fica claro se o dinheiro foi recuperado. As conversas encerraram-se em junho de 2020, quando o celular do doleiro foi apreendido pela polícia num flagrante de apreensão de drogas em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Em setembro de 2020, como o juiz da 5ª Vara Federal condenou o casal à prisão, o ministro Saldanha Palheiro, do STJ, considerou que o habeas corpus preventivo não fazia mais sentido. A defesa do casal recorreu e, em 3 de agosto de 2021, Palheiro alterou sua decisão anterior e concedeu o habeas corpus autorizando Campos a cumprir prisão domiciliar a fim de cuidar dos filhos. O ministro não sabia que, nove meses antes, o TRF da 3ª Região concedera prisão domiciliar à mãe de Campos, Sandra de Oliveira, justamente para que ela cuidasse dos netos.

Em nota encaminhada pela assessoria do STJ, Palheiro disse que a concessão de prisão domiciliar para mulheres com filhos menores de 12 anos é “entendimento consolidado” nos tribunais superiores, e que na época havia a política de se priorizar medidas alternativas à prisão em função da pandemia. O ministro também afirmou que, na ocasião, desconhecia “pedido idêntico feito pela avó da criança” no TRF da 3ª Região. Por fim, negou ter recebido “qualquer proposta, oferta ou sequer insinuação para recebimento de qualquer tipo de vantagem visando beneficiar qualquer parte nos processos sob nossa relatoria”.

O Ministério Público não recorreu da decisão de Palheiro. Campos nunca se apresentou à Justiça para cumprir a pena em casa. Foragida, voltou a recorrer ao STJ em 2024, pedindo um novo habeas corpus, dessa vez para se livrar da própria prisão domiciliar, com o argumento de que um dos mandados de busca da Alba Virus fora cumprido sem ordem judicial. O pedido foi concedido pelo ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, que revogou a prisão domiciliar da traficante e anulou a prisão preventiva do marido, Marcelo Ferreira.

O caso mostra como Karine Campos opera um esquema com lobistas, advogados e doleiros para movimentar dinheiro em qualquer ponto do país, com vistas a comprar uma decisão judicial, ainda que não consiga seu objetivo de imediato.

 

A política de tentar subornar quem se põe no caminho de Karine Campos e Marcelo Ferreira não se limita ao Judiciário.

Um exemplo: em acordo de delação, o empresário Marcos José de Oliveira, acusado pelo Ministério Público de lavar dinheiro para o casal de traficantes, disse que, em 2019, Ferreira gastou 3 milhões de reais em relógios da marca Rolex para distribuir entre servidores da Receita Federal em Santa Catarina e funcionários do Porto de Paranaguá. Era um modo de agradecer pelos serviços prestados à quadrilha. Nem os servidores públicos, nem os funcionários foram nominados na delação. Há uma investigação em curso na PF.

A piauí encaminhou um pedido de esclarecimentos à defesa de Karine Campos e Marcelo Ferreira a respeito das sucessivas tentativas de corromper o Judiciário narradas nesta reportagem, mas não houve retorno. Com grossa corrupção, o casal prosperou no submundo do crime. Apenas entre fevereiro de 2019 e julho de 2022, a PF e a Receita apreenderam 16,7 toneladas de cocaína da dupla, em portos das regiões Sul, Sudeste e Nordeste. A PF estima que o patrimônio atual do casal supere 1 bilhão de reais. Parte da fortuna, segundo a PF, está escondida em espécie em salas-cofre espalhadas pelo Brasil.

Em sua delação à PF, o empresário Marcos Oliveira disse que, por volta de 2018, ele e Campos foram até uma agência do Banco Bradesco em Santa Catarina para abrir uma conta bancária. Oliveira se recorda que, quando a traficante viu o nome dela como titular da conta com saldo de 1 milhão de reais, começou a chorar de emoção. “Isso é meu sonho, nunca tive nada no nome antes”, disse ela, de acordo com o delator.

Mas a ilusão de vida lícita de Karine Campos durou pouco. Meses depois, quando a PF deflagrou a Alba Virus, ela e o marido tiveram de retomar sua condição de fugitivos (atualmente existem no Brasil quatro mandados de prisão contra Campos e três contra Ferreira). Depois de viverem um período na cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, os dois fugiram para a Europa. Hoje, a Polícia Federal suspeita que o casal esteja morando em Dubai, reduto de grandes criminosos de todo o mundo.

Allan de Abreu
Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)

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