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“É dilacerante”

    Emicida em seu escritório-ateliê: “Eu amo meu irmão”, afirma o rapper sobre Evandro Fióti, com quem está em disputa judicial. “Não necessariamente a ruptura precisa ser um fim” ÊNIO CESAR_2025

vultos da música

“É dilacerante”

No ano mais difícil de sua vida, Emicida reencontra o rap dos Racionais

Guilherme Henrique | Edição 235, Abril 2026

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Fincada aos pés da Serra da Cantareira, na Grande São Paulo, a casa de Emicida é discreta para quem a vê de fora, e sua imponência só se revela quando se cruza um estreito portão cinza. Há dois modos de conhecer a propriedade. À direita, fica a área social, com piscina, uma ampla sala envidraçada, a cozinha em estilo americano que deixa o espaço ainda maior, sofás e uma estante com livros (os quartos ficam no segundo andar). À esquerda, há um lance de escadas que leva a uma horta, que na tarde daquela terça-feira, dia 24 de fevereiro, estava carecendo de cuidado. “Você pegou a fase ruim”, me disse o rapper. “Um mês atrás estava bonito. Vou replantar, mas preciso deixar a terra descansar.”

Vestindo short rosa e camiseta laranja, ele me avisou que precisava tomar banho, porque estava, justamente, mexendo na plantação – assim que entrei vi cerca de 15 a 20 sacos de terra escorados na parede, esperando para serem carregados. “Já que vocês estão aqui, podem me ajudar”, gracejou Emicida, dirigindo-se também ao seu produtor, Tininho Fita, que mexia no computador. Poucos metros acima da horta há uma área aberta, uma espécie de lounge, com uma cozinha, uma comprida mesa de madeira e uma bancada de cimento. É ali que Emicida costuma festejar com amigos e familiares ou fazer reuniões com parceiros de trabalho.

Enquanto o rapper tomava banho, Roseli, sua funcionária, trouxe pães de queijo, suco de laranja e fatias de bolo. “Seu Leandro vai dizer que estou mimando vocês”, disse ela, referindo-se a Emicida pelo nome de registro. Dito e feito. “Olha só, comigo não tem isso, não”, ele brincou, ao voltar da chuveirada usando calça bege e camiseta verde. Seu cachorro, Chico, um border collie, estava alvoroçado, tentando abocanhar um dos quitutes. “Esse cachorro é macumbeiro”, disse. Depois de pegar um pão de queijo, Emicida notou que cinco ou seis saguis desciam das árvores que abundam no espaço em torno. “Eles escutam a gente conversando e sabem que tem comida.”

 

De fato, a movimentação na casa é o que desfaz o silêncio da região. Há poucos carros na rua ou barulhos na vizinhança. De dia, ouve-se o canto dos pássaros e à noite, dos grilos. O som do vento se mistura ao dos galhos que chacoalham nas árvores. Esta é a ambientação utilizada pelo músico em seu novo disco: Emicida Racional VL 2 – Mesmas cores & mesmos valores. Lançado em dezembro, é o segundo volume – e o principal – de uma trilogia que homenageia a obra dos Racionais MC’s, o mais importante grupo de rap do país, e reconecta Emicida ao gênero do qual esteve afastado na última década. VL é a abreviação de “vida loka”, tal como utilizada pelos Racionais, e também da palavra “volume”.

A trilogia foi inaugurada em novembro passado com Emicida Racional VL 3 – As aventuras de DJ Relíquia e LRX, como se o rapper numerasse os álbuns de trás para frente, chamando o primeiro lançamento de volume 3. O álbum foi composto de mashups – a combinação de antigas músicas de Emicida, cantadas por ele, com beats (batidas que acompanham as letras) de clássicos dos Racionais, o quarteto formado por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay.

O terceiro lançamento, ainda mantido sob sigilo, deve sair em novembro. “Esse terceiro disco já foi EP [versão reduzida de um álbum] e já foi instrumental. Agora estou com uma ideia muito doida, mas essa vou guardar comigo.” A piauí apurou com pessoas próximas do artista que no volume derradeiro Emicida vai cantar pela primeira vez algumas músicas dos Racionais, e não somente utilizar as batidas das canções.

 

Uma turnê foi organizada para o lançamento de Emicida Racional VL 2. Começa no fim deste mês de abril, em São Paulo, e depois segue para Rio de Janeiro, Curitiba, Recife e Belo Horizonte. “Mano, está foda”, diz o músico, sobre as complicações que vem encontrando para o espetáculo. A maior dificuldade é encaixar uma banda em um show de rap. Essas apresentações costumam contar apenas com um DJ, que produz a música, e um MC (mestre de cerimônia), que canta os versos e comanda o palco. “Alguns músicos pensam que é só fazer um compasso 4 por 4 [andamento mais conhecido na canção popular] que vai ter um cara no palco falando em cima dessa batida.” Para evitar conflitos, a formação da banda será reduzida, com três músicos se revezando na bateria, no teclado, na guitarra e no baixo, todos eles sob a regência de DJ Nyack (Fernando Carmo da Silva). “Eu e ele somos arroz com feijão. Tocamos juntos há vinte anos.”

Enquanto Emicida falava sobre estratégias para entrosar os músicos, os saguis se aproximaram da mesa. “Sai fora, bandido”, ele bradou. Sem sucesso, resolveu atraí-los para o jardim com um pedaço de pão de queijo. “Não vai colocar na matéria que eu dei isso para eles, senão a Luisa Mell vai aparecer aqui!” Mell é influenciadora e ativista em defesa dos animais.

Com a ofensiva dos saguis, decidimos continuar a conversa no estúdio de música. Dali foi possível ver o escritório-ateliê cuja foto ilustra a capa do novo disco: totalmente envidraçado, com duas estantes repletas de livros, poltrona estofada, mesa ampla e prancheta de desenho.

 

No estúdio, vi uma mesa de som, diferentes instrumentos musicais, como violões e flautas, e bonecos de anime japoneses. Na parede, pranchetas com os manuscritos das canções do último álbum e letras inéditas, intituladas Fim da carreira do malandro e Na maldade. Perguntei quem foi Santo Antônio da Boa Fortuna, que dá nome ao estúdio. Emicida, então, me conduziu até um casebre nos fundos do quintal. O lugar parece uma capela, mas o que se vê é o típico sincretismo brasileiro, com imagens de orixás, santos católicos e todo tipo de divindades. O rapper apanhou numa prateleira duas esculturas de Santo Antônio da Boa Fortuna e explicou que o padroeiro da cidade de Lisboa foi adotado como símbolo de libertação no antigo reino do Congo, durante a luta abolicionista, e recebeu o nome de Toni Malau.

Entre tantas influências religiosas, Emicida diz que neste momento está mais próximo do budismo zen, que ensina como alcançar a liberdade interior absoluta e vê o sofrimento não como um castigo, mas como parte constitutiva da experiência humana. A definição ajuda a compreender o que foi, para Emicida, o ano de 2025, o mais atribulado da carreira. A criação da trilogia que homenageia os Racionais ocorreu em paralelo ao ruidoso fim da parceria com seu irmão, Evandro Fióti, à disputa em torno da empresa que eles criaram juntos, a Laboratório Fantasma, e à morte da mãe, Jacira Roque de Oliveira, aos 60 anos. “Recebi o que a vida me ofereceu de coração aberto para aprender com aquilo, sem necessariamente ter que elaborar uma resposta”, afirma o rapper.

 

Emicida vive na casa da Serra da Cantareira com Marina Santa Helena, sua companheira desde 2015, e as duas filhas: Estela, de 15 anos, fruto de um relacionamento anterior do artista, e Teresa, de 8 anos, filha do casal. O fato de a residência ter muitos ambientes envidraçados e atravessados pela luz natural não é ocasional. “Morei num barraco que não tinha janela”, conta ele. “Havia um vitrô que deixava entrar um quadradinho de luz muito fraco. A gente vivia forçando a vista lá dentro. Passei muito tempo em lugares escuros.”

Até se tornar um músico consagrado, na virada dos anos 2010, Leandro Roque de Oliveira morou em diferentes locais da periferia da Zona Norte paulistana com a mãe e os três irmãos – Evandro Fióti, de 37 anos, Katia Roque, de 44, e Katiane Roque, de 43. Empregada doméstica e artesã, a mãe só conseguiu ter uma vida tranquila depois do filho obter sucesso na música.

O pai, Miguel, foi um DJ frustrado por não viver do seu sonho. “Ele fazia uns bicos, mas do que gostava mesmo era de música”, diz Katia. “Era alcoólatra e violento. Existia violência física nas brigas lá em casa.” Emicida tinha 6 anos quando o pai morreu ao tentar apartar uma briga. “Fui entender que ele tinha morrido um ano depois, no Dia dos Pais na escola, quando todo mundo tinha para quem entregar o trabalho, e eu não”, recordou o artista no programa Ensaio, da TV Cultura, em 2011.

A tragédia e a relação por vezes conflituosa com a mãe e o padrasto, Eduardo, tornaram a adolescência um período complicado para Emicida. “Ele era fechado, ficava meio na espreita”, recorda Tiago Pereira, o Tico, um dos melhores amigos do rapper nesse período. Ainda hoje, é comum ouvir de amigos e familiares que uma das principais características de Emicida é ser cauteloso. “Ele gosta de observar para saber onde está pisando”, comenta sua mulher.

Tico e Emicida estudaram na Escola Estadual Dr. Alberto Cardoso de Mello Neto, na Zona Norte paulistana, e faziam parte de grupo de amigos que gostava de rap e era excluído por quem tinha mais dinheiro no colégio. “Ficávamos num canto falando sobre música, dançando break e fazendo letras de grafite”, diz Tico, que também se recorda que Emicida era alvo de piadas racistas. “Ele era magrinho e tinha um cabelo black power curtinho. Às vezes não usava boné, e o pessoal falava que parecia antena de barata. Ele ficava puto e xingava de volta.”

Emicida sempre gostou de desenhar, atividade que pratica até hoje. Sua letra é bonita – elogio que gosta de receber – e prefere escrever à mão a digitar. Quando criança, passava horas assistindo a desenhos na TV Manchete, o que, segundo sua irmã Katia, fez com que seu interesse por desenho e ilustração se ampliasse. Até o início da fase adulta, ele cultivou o sonho de ser quadrinista. Na adolescência, assinou grafites e os primeiros versos com o codinome LRX (Louco Revolucionário X). Foi riscando paredes que conheceu Djose (José Luiz Cardoso Nunes), para quem mostrou as primeiras letras de músicas, entre 2003 e 2004. “Emicida sempre foi um nerd”, diz Djose, com bom humor. Fissurado em tecnologia, Djose começou a produzir as primeiras batidas para aquelas letras.

Foi a época em que eles começaram a frequentar as batalhas de freestyle, estilo de rap no qual dois oponentes se enfrentam em duelos de rimas, geralmente com dois rounds de 45 segundos cada. Os “ataques” são feitos de improviso e os versos mais ácidos são definidos como punch line, por carregar uma ofensa, piada ou frase de efeito. Entre 2004 e 2006, Emicida ficou conhecido como alguém que perdia pouco e possuía um repertório acima da média. Abandonou, então, o codinome LRX e adotou a alcunha que usa até hoje. Primeiro, grafava como E.M.I.C.I.D.A., um acrônimo da frase “Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte”. Depois, após muitas vitórias, foi definido por seus pares como um “assassino de MCs” – daí a outra interpretação para o nome artístico.

Um dos que sofreu com seus versos foi o rapper Rashid (Michel Dias Costa), seu amigo até hoje. “Eu nunca tinha batalhado na vida. O meu primeiro adversário foi ele”, conta Rashid, sobre o duelo ocorrido no início de 2006. “Diria que para mim foi legal entre muitas aspas. Mas foi mais legal para o Emicida, que ganhou.” Djose lembra que eles viviam o hip-hop intensamente: “Os caras comiam rap com farinha.” Rashid concorda: “Na época, nós tivemos contato com o código de ética dos samurais. Nosso pensamento era viver e morrer pelo hip-hop.”

Para Emicida, a consagração veio também em 2006, ao vencer a Liga dos MCs, no Rio de Janeiro, um dos principais eventos de batalha de rima do país. Ele foi para lá contrariando a ordem da mãe e sem dinheiro. Hospedou-se no apartamento que o rapper carioca MC Marechal (Rodrigo Cerqueira de Souza), seu amigo, dividia com Damien Seth, um produtor francês que vivia no Rio desde os anos 1990. Pergunto a Seth como era Emicida naquela época. “Magro!”, diz ele, em sua casa no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde mora atualmente. “Um pouco retraído, mas com um carisma impressionante. Era uma esponja, sugava tudo que acontecia ao redor.” No ano passado, Emicida convidou Seth para produzir seu disco mais recente. “Damien nunca tinha me visto na vida e, lá no Rio, durante aquela viagem, me deixou dormir na lavanderia”, diz o rapper. “Qual o tamanho do obrigado que devo a ele? Foi ali que virei o Emicida. Foi a primeira grande semente de possibilidade para além do sonho.”

 

Em paralelo às batalhas de rima, Emicida começou a trabalhar, entre os 18 e 19 anos, como assistente no estúdio Timbre, na Vila Madalena, em São Paulo. A oportunidade surgiu por acaso. O assistente de direção Carlos Magalhães viu o jovem improvisando na rua e o convidou para compor a música de um personagem infantil. O projeto não vingou, mas a criatividade do rapper impressionou a equipe do estúdio. “Na época, pensei: ‘Esse moleque é muito foda’”, conta o produtor Felipe Vassão.

Contratado, o jovem trabalhou no estúdio por dois anos, até meados de 2006, quando decidiu que era o momento de focar na música. No ano seguinte, ele procurou Vassão para mostrar algumas composições suas. “Foi a primeira vez que caiu a ficha de que ele era um artista”, diz o produtor. Foi a Vassão que Emicida pediu ajuda para fazer a batida de Triunfo, lançada em 2008. A canção, que se tornaria um clássico do rap brasileiro, chacoalhou um gênero que estava em baixa depois da morte do rapper Sabotage (Mauro Mateus dos Santos), em 2003, e do traumático show dos Racionais na Praça da Sé, em 2007, quando dezenas de pessoas ficaram feridas após a ação violenta da Polícia Militar.

O show de lançamento de Triunfo pelo selo Na Humilde Crew, um coletivo de hip-hop que antecedeu a Laboratório Fantasma, aconteceu num bar de São Paulo. No ano seguinte, a canção ganhou um clipe que fez sucesso no YouTube e foi o carro-chefe de Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe, uma mixtape lançada em 2009. Mixtape é um formato comum no rap, sobretudo entre os jovens artistas, pois não tem uma identidade bem definida, como um álbum. Geralmente reúne muitas faixas – a de Emicida tinha 25 – e experimentações sonoras. A história do projeto é conhecida: o rapper fez as gravações de modo caseiro e copiou tudo em CDs. Depois, chamou os amigos para empacotar cada CD em uma embalagem de papel pardo e saiu vendendo na rua por 2 reais. O trabalho foi o primeiro da Laboratório Fantasma, gravadora e produtora criada por Emicida junto com o irmão Evandro Fióti, que para isso deixou seu emprego como gerente do McDonald’s.

O retorno financeiro obtido pelo rapper ajudou a reduzir a desconfiança que ainda pairava na sua casa a respeito de fazer carreira na música. Era comum sua mãe dizer que ele precisava arrumar um emprego e que aquela vida de artista, em algum momento, acabaria dando errado. “Minha mãe tinha receio de que ele descambasse para o mesmo caminho do meu pai”, diz Katia.

 

No dia 27 de novembro do ano passado, por volta das oito da noite, cerca de trezentos convidados estavam reunidos no Cine Marquise, na Avenida Paulista, para a pré-audição de Emicida Racional VL 2 – Mesmas cores & mesmos valores, que seria lançado dali a duas semanas. Para que nada vazasse antes da hora, os celulares foram lacrados dentro de pequenas bolsas, minutos antes da exibição. “Confidencial, não é?”, disse uma convidada, ao que outra respondeu: “Acho chique!” No palco, o rapper deu as boas-vindas à plateia e disse, um tanto tímido, que o novo trabalho era fruto de “uma nostalgia gostosa de um Emicida ‘freestyleiro’”.

Em uma de nossas conversas, ele dividiu a sua carreira em três etapas: estética, metafísica e histórica. É a mesma classificação utilizada pelo escritor argentino Julio Cortázar para explicar sua obra.

A fase estética reúne o que Emicida produziu entre 2009 e 2011. “O que eu queria fazer no começo? A rima mais louca, tipo punch line”, diz ele. Nesse período, além de sua mixtape de estreia – Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe –, lançou outra mixtape, Emicidio, com dezoito faixas, título que indica a morte da própria persona artística (não à toa ele aparece na capa segurando uma granada), e dois EPs: Sua mina ouve meu rep tamem…, com seis canções, e Doozicabraba e a revolução silenciosa, com dez. Ao mesmo tempo em que tratam da vida na periferia e da desigualdade social, reflexo do rap produzido nos anos 1990, as composições indicam um novo caminho para o gênero, com melodias mais arrojadas e variação temática, influenciadas por nomes que haviam surgido no início dos anos 2000, como Kamau, Max B.O., Parteum e Marechal.

É também nessa época que se adensa a valorização do rap como negócio, uma percepção empresarial que se refletiu no modo de Emicida gerir sua carreira – que o pesquisador Felipe Oliveira Campos, mestre em filosofia pelo programa de Estudos Culturais da USP, definiu como “estética da superação empreendedora”. O rapper Rashid comenta sobre esse período: “Começou-se a aventar novas possibilidades, que o público do rap não aceitava muito bem, porque gostava do discurso mais combativo.”

Emicida inicia uma nova fase a partir de 2013, com o lançamento de seu primeiro álbum: O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui. O trabalho tem participações de artistas como Pitty, Wilson das Neves, Fabiana Cozza e Juçara Marçal, o que indica um deslocamento rumo à MPB. A proposta será reafirmada nos dois álbuns seguintes. Lançado em 2015, Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa tem a colaboração de Caetano Veloso em Baiana e de Vanessa da Mata em Passarinhos (canção que se tornou um hit e símbolo da fase mais pop do rapper). No álbum AmarElo, de 2019, o elenco se amplia, com participações de Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar e até Fernanda Montenegro. “É Emicida se entendendo enquanto artista brasileiro”, diz Guilherme Botelho, diretor de Nos tempos da São Bento (2010), um documentário sobre as origens do hip-hop em São Paulo. “Ele vai se aproximando de gigantes da música, entra nesse circuito do mainstream e traz essas pessoas para o seu modus operandi musical.”

Esse segundo ciclo é descrito por Emicida como “metafísico”, porque “a obsessão pela forma deu lugar a um compromisso com a essência das coisas”. As canções retratam o cotidiano e falam do nascer do Sol, da bruma, do vento, do cantar dos galos e do latir dos cães. “Não queria mais ser simplesmente imagético. Havia uma coisa sinestésica: queria fazer com que as pessoas sentissem um cheiro através do que eu estava dizendo, que elas sentissem um abraço através de um determinado grupo de palavras.”

A proposta deu certo. Emicida venceu o Grammy Latino, se apresentou no Theatro Municipal de São Paulo e ampliou seu público para além das fronteiras do rap. Mas houve quem não gostasse. Para alguns críticos, o rapper estava estimulando em suas músicas um discurso “paz e amor”, que ajudava a apaziguar as tensões de classe e raça em uma sociedade desigual como a brasileira. Além disso, ele vinha mantendo diálogo com a mídia hegemônica, um tabu para alguns grupos de rap dos anos 1980 e 1990.

Emicida se justificou em uma entrevista ao jornal O Globo, em 2011: “Essa coisa de rapper não aparecer na tevê surgiu com os Racionais e funcionou bem para eles. Não preciso imitar.” Tanto ele não imitou que, entre 2018 e 2022, integrou a bancada do programa Papo de segunda, do GNT. “Sou o rapper favorito da mãe de muita gente”, ele me diz. “Saí do GNT porque queria focar na música e porque estava ficando repetitivo. A tevê é confortável, mano, e por ser confortável é perigosa. É um ambiente seguro, quentinho, e eu preciso da rua.”

No terceiro ciclo, que está vivendo agora, Emicida vê a si e a sua obra como partes da história cultural negra do Brasil. “Não há como me desassociar de um efeito colateral como foram os Racionais. Assim como não há como desassociar os Racionais do efeito causado neles por Sueli Carneiro, Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez. Estou pegando o bastão e passando adiante.”

A socióloga Daniela Vieira dos Santos, que coordena uma linha de pesquisa sobre o hip-hop na Unicamp, entende que é a liberdade que move a música de Emicida. “Ele é um cara negro, vindo da periferia, mas decidiu que era sobretudo um artista, não um militante. Então, ele faz rap com samba, rap falando de amor ou com crítica social. Ele entende a música como um gênero livre.” Santos avalia que muita coisa mudou no rap. “A revolução não está mais no horizonte. O que está no horizonte é pensar o modo como os negros são tratados: reivindicar direitos. Mas a quebra de ordem não existe mais.” Ela tem trabalhado com o conceito de “nova condição do rap” para entender o momento no qual o gênero deixa de ser uma subcultura marginalizada para se tornar potência na indústria cultural. Para a socióloga, Emicida e a Laboratório Fantasma são os principais emblemas dessa mudança.

Criada para gerir a carreira de Emicida, a Laboratório Fantasma se tornou, de fato, sinônimo de profissionalização no ambiente do rap brasileiro. Santos lembra que a empreitada serviu de inspiração para que os Racionais criassem a Boogie Naipe, em 2009, em um modelo similar de negócio – selo musical, gestão de shows, gerenciamento de outros artistas e envolvimento com a moda.

Em 2014, Emicida figurou na lista de jovens promissores da música no país com menos de 30 anos, feita pela revista Forbes. Seu negócio se expandiu de tal forma que ele e o irmão assumiram a administração da carreira de outros artistas, como Rael e Drik Barbosa. A Laboratório Fantasma também firmou parcerias com grandes empresas, como Adidas, iFood e Nubank, além de projetos audiovisuais com a Rede Globo e a Netflix. Houve até a criação de uma linha de roupas e acessórios, hoje desativada, que desfilou em três edições da São Paulo Fashion Week, entre 2016 e 2017. “A Laboratório Fantasma marca uma diferença grande em relação aos anos 1990, se analisarmos a indústria cultural. Não há mais mediador. Isso possibilitou que Emicida pudesse ousar, inclusive na composição. Ele negocia com quem manda, sem ninguém para falar por ele”, diz o documentarista Guilherme Botelho.

Emicida considera equivocada a percepção de que tenha se embrenhado demais por uma lógica mercantil. Para ele, suas iniciativas ampliaram os horizontes do rap sem que o gênero tenha perdido a essência periférica e negra. Ele cita um adinkra – ideograma de Gana que representa um provérbio – que diz: Owo foro adobe (a cobra sobe a palmeira de ráfia). “Quer dizer que a cobra, mesmo sem pés e mãos, usa sua engenhosidade ao escalar uma árvore que pode feri-la. É isso que precisamos: entender qual é o movimento a ser feito para defender aquilo que acreditamos. Vai haver momentos em que serei entendido como algo mais comercial, e isso faz parte dessa dimensão da indústria”, diz ele. E continua: “A cantora Fabiana Cozza falou certa vez que existem duas dimensões nas quais a música existe: uma enquanto indústria, que é a que coloca comida na nossa mesa. Essa é a ponta do iceberg. O resto desse iceberg é feito de algo intangível, como o fato de eu ter ouvido meia dúzia de palavras nos anos 1990 e estar aqui defendendo isso. É algo que não posso perder. A nossa responsabilidade é maior do que só fazer números para a indústria. Se nos afastarmos dessa responsabilidade, assinamos nosso próprio testamento.”

 

Após quinze anos de sucesso, prêmios e reconhecimento no mercado da música brasileira, a Laboratório Fantasma viveu um litígio em decorrência da briga entre Emicida e seu irmão Evandro Fióti, que é também músico e empresário. No dia 28 de março de 2025, ambos foram às redes sociais anunciar o fim da parceria. O primeiro disse apenas que o irmão não o representava mais, sem maiores explicações. O segundo afirmou que gostaria de focar em sua carreira artística.

Desde que surgiu, em 2009, a empresa se expandiu ano a ano. Além da Laboratório Fantasma Produções (com divisão societária de 90% para Emicida e 10% para Fióti), outras três sociedades foram criadas: uma para a marca de roupas (registrada apenas em nome de Fióti), outra para a produção de eventos (de propriedade de Emicida) e a terceira com sede em Portugal, que tem três sócios, com participações iguais – Emicida, seu irmão e o diretor financeiro do grupo, Tiago Freire.

A disputa entre Emicida e Fióti começou, ao menos juridicamente, em 22 de novembro de 2024, quando o rapper comunicou ao irmão o desejo de encerrar a parceria, segundo o processo que tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo. “Demorei seis meses para falar disso em voz alta, porque não estava sabendo lidar com a situação”, me contou Emicida em seu estúdio musical. “Esse é o tamanho do quanto isso é profundo para mim. Sei que foi difícil para mim, assim como foi para ele. Até hoje está sendo elaborado.”

Em 20 de dezembro de 2024, os irmãos assinaram um documento que estabelecia um prazo de três a seis meses para avaliação completa do patrimônio. Pouco tempo depois, a situação começou a degringolar. Em 30 de janeiro do ano seguinte, Emicida revogou uma procuração outorgada a Fióti em janeiro de 2015 para gerir a Laboratório Fantasma. Fez isso porque, segundo ele, identificou uma série de saques das contas da empresa feitos pelo irmão que não foram devidamente comunicados. Os saques ocorreram entre junho de 2024 e janeiro de 2025, no total de 6 milhões de reais.

Fióti negou que tivesse feito os saques sem o consentimento do irmão. Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, de 2 de abril de 2025, afirmou com base nos autos do processo que ele havia avisado Emicida por e-mail sobre um saque de 2 milhões de reais referentes à distribuição de lucros entre eles. Dois dias depois, uma nova reportagem do jornal apresentou um vídeo, sem data, em que os dois tratam da distribuição de lucros da empresa. O acordo foi o seguinte: apesar da composição societária de 90% para Emicida e 10% para Fióti na principal empresa do grupo, eles fariam um documento informal para repartir os lucros de forma igualitária. “Vamos elaborar um contrato de gaveta onde ele tem 50% do lucro e ele pode fazer esses repasses que estão retidos em nome dele para a própria conta dele de pessoa física. Não vejo problema nenhum nisso”, diz Emicida ao irmão e a Tiago Freire na gravação.

À época, o rapper alegou, em nota, que o vídeo havia sido tirado de contexto. Pergunto a ele qual era o contexto e se de fato havia autorizado o irmão a fazer os repasses que, agora, considera irregulares. “Acho muito difícil que eu mergulhe na explicação daquele vídeo sem esbarrar na questão de sigilo do processo. Se eu esbarrar nessa questão, fico vulnerável juridicamente. Não é algo que eu entenda muito, mas também preciso estar protegido. Basicamente, é uma discordância de interpretação das duas partes. Esse é o mérito”, responde Emicida, sem explicar se a discordância sobre a interpretação diz respeito aos valores sacados ou à forma como as transferências foram feitas.

A briga tem mais nuances. No processo, Emicida diz que nunca teve um salário e que 80% do caixa da empresa vinha de sua atividade musical – ele também fez saques num total de 1,6 milhão de reais entre junho de 2024 e fevereiro do ano passado. O irmão, por sua vez, considerava insuficiente a remuneração mensal de 40 mil reais. Procurado pela piauí, Fióti não quis dar entrevista.

No dia 9 de abril de 2025, o Tribunal de Justiça decretou o sigilo do processo e, a pedido dos irmãos, determinou pausa de sessenta dias para que as partes tentassem resolver o conflito de maneira amigável. Pergunto a Emicida qual a situação do processo neste momento: se está paralisado ou tramitando. “Está correndo”, ele responde, lacônico.

Apesar da briga judicial, o rapper demonstrou afeto pelo irmão na nossa conversa. “É um amor profundo. Uma vez minha esposa me disse: ‘Quando se está brigando com alguém, entra-se numa negação de tudo de positivo que aquela pessoa tem na sua vida.’ Daí ela falou: ‘Ele [Fióti] é o maior amor da sua vida e ficar brigando com isso vai fazer você sofrer’”, diz Emicida. “Eu amo meu irmão. Mas chegou um momento em que ele tem a busca dele, que é um desejo profundo de ser reconhecido como artista. Espero que ele seja muito feliz nessa trajetória. E eu tenho o desejo de conduzir as coisas que faço de outra maneira. Infelizmente, não conseguimos chegar a um denominador comum. Mas não necessariamente a ruptura precisa ser um fim.”

Pergunto a ele se teria feito algo diferente na condução da sua empresa. “Ela foi o que podia ser”, diz. “Mas essa é uma reflexão que não faço porque é injusta. Com as capacidades que tínhamos, fizemos o que precisava ser feito. Me orgulho da contribuição do Evandro. Ela é inegável, incontornável, e tenho uma gratidão imensa por ele. Seria mentiroso não reconhecer isso. Mas nós também temos nossas diferenças.”

Entre os amigos, o assunto é tratado com cautela. Seth, o produtor francês que trabalha com Emicida, está produzindo o próximo disco de Fióti, ainda sem data de lançamento. “Eles sabem que não vou ficar de leva e traz”, comenta Seth. “Mas o que vi ao longo desse ano foi muito sofrimento, porque os dois são meus amigos. Acredito que só o tempo para fazer sarar. Torço por isso, porque eles construíram algo que fez muita gente sonhar, inclusive eu.”

 

Enquanto Emicida e seu irmão discutiam a cisão, os cerca de cinquenta funcionários da empresa acompanhavam atônitos o desenrolar dos fatos. Internamente, sempre houve a percepção de que o rapper acompanhava menos o dia a dia da companhia, função atribuída a Fióti. “Emicida ia um pouco menos ao escritório, mas sempre que necessário fazia reuniões por vídeo”, me disse uma funcionária que trabalhou dois anos na empresa e pediu anonimato, para não se indispor com os ex-chefes. Outra colaboradora, com tempo de casa semelhante e também sob anonimato, afirmou que Fióti era presença constante porque cuidava da burocracia e que o irmão mais velho, por ser um artista consagrado, era mais ausente. Ressaltou, no entanto, que, quando Emicida estava no escritório, o irmão entrava em alerta. “O Fióti ficava em cima dele.”

A notícia de que a parceria entre os dois estava ruindo demorou a chegar aos funcionários e funcionárias. “O burburinho começou em fevereiro. Ficamos apavoradas”, descreveu uma delas. No dia 12 de março de 2025, às 13h41, Emicida enviou um e-mail coletivo, dizendo que, a partir daquela data, assumiria o controle da Laboratório Fantasma e que Fióti não respondia mais pela gestão. Fióti respondeu pouco tempo depois, afirmando que havia um processo desgastante, mas que continuaria à frente do negócio.

Fióti convocou uma reunião para as 16 horas do dia seguinte, descrita pelas funcionárias como “chata e desagradável”. Emicida havia desencorajado os funcionários a participarem do encontro em um e-mail enviado às 12h37:

Reitero que, como Sócio Administrador da Laboratório Fantasma, tomei a decisão administrativa de suspender as atividades gerenciais desempenhadas pelo Sócio Evandro e, enquanto gestor, não endosso a reunião convocada para as 16h, de modo que eventual comparecimento é uma opção dos profissionais. Por se tratar de uma atividade não oficial da empresa, não se sintam obrigados a alterarem a sua rotina pessoal, de trabalho e obrigações por conta do agendamento feito.

Os colaboradores pediam respostas. Uma reunião foi agendada para o dia 27 de março, na sede da empresa. “Foi um show de horrores”, descreveu uma das funcionárias. Dessa vez, estavam presentes os dois sócios, acompanhados de seus advogados. Uma pessoa próxima ao rapper quis gravar o encontro e foi interpelada por Fióti. Houve um pequeno bate-boca, e a filmagem foi interrompida. “Estava todo mundo sentado em roda olhando para eles dois, enquanto advogados se atracavam o tempo todo”, contou a funcionária.

Emicida abriu a reunião dizendo que se sentia na obrigação de dar satisfação à equipe sobre o que estava acontecendo e explicou que desejava desfazer a sociedade. Não falou sobre os saques, mas explicou que o irmão queria alterar a distribuição de lucros da empresa a fim de aumentar seus ganhos. A companhia recebia 30% de todos os contratos firmados com os artistas. Fióti queria 15% desse valor. “Esses 30% mantinham a operação da empresa. Emicida mostrou que essa mudança poderia impactar nossos salários”, disse a funcionária.

Descontente com o rumo da reunião, Fióti passou a questionar o irmão mais velho no âmbito pessoal. “Parecia que ele queria descredibilizar o Leandro, como se ele fosse uma pessoa mentalmente instável. Falava coisas do contexto familiar que não nos interessava. Teve uma hora que ele falou: ‘Eu mandei presente de Natal para a família do Leandro e ele não me deu nem uma bala.’” A reunião durou uma hora. Após ser interrompido algumas vezes, Emicida afirmou que não poderia continuar o encontro daquela forma. “Ele se levantou e foi embora. Foi bem tenso.”

Uma das funcionárias disse que a empresa se tornou um “ambiente tóxico” depois da briga dos irmãos. “Ficamos uns três meses no limbo. Passávamos os dias sem fazer nada e esperando alguma novidade. Não tinha mais nenhum projeto.” Em meados de junho do ano passado, os funcionários foram reunidos na sede da empresa para um processo de demissão coletivo.

A briga atravessou o núcleo familiar, que tenta manter a discrição. “Isso não é algo que será tratado para além das nossas paredes. Tem muitas nuances e uma complexidade que faz com que o assunto deva ser resolvido pelos envolvidos”, diz Katia Roque, a irmã primogênita de Emicida. “Posso criar um problema onde não fui chamada. Sabe qual a melhor coisa que você faz quando não sabe de algo? Cala a boca e assiste. Tudo vai se resolver e estou aqui pelos dois.”

A dissolução da empresa aconteceu meses antes da morte de Jacira, a mãe de Emicida e Fióti, no dia 28 de julho de septicemia, em decorrência de um mieloma. Ela fazia hemodiálise há 28 anos e seus rins estavam inativos. “Nosso processo de despedida não foi muito claro”, me conta Katia. “No sábado, estávamos organizando a agenda dela da semana seguinte e conversando sobre ter alta. Ela entrou em coma às oito da noite do domingo e faleceu às dez da manhã da segunda-feira.”

Os quatro irmãos se revezaram para cuidar da mãe no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, onde ficou internada por 21 dias. “Ela teve dias muito bonitos com cada um de nós. As músicas do Chico Buarque que escutava com o Evandro, as risadas com o Leandro. Assim que o Leandro saía, ela perguntava para mim ou para Tiana [apelido de Katiane, a outra irmã] quando ele voltaria. Ele levava sopa. Parecia um piquenique”, recorda Katia. “Nossa família foi atravessada por um conflito e, ainda assim, corremos por ela. As tréguas foram estabelecidas no momento necessário. O que nós tínhamos a perder era muito maior do que qualquer briga. Disse isso a eles pessoalmente e também no velório.” Os quatro irmãos assinaram uma nota conjunta à imprensa para informar a morte da mãe.

Evandro* telefonou para a Associação Cachuera – um centro de cultura popular e afro-brasileira no bairro de Perdizes, em São Paulo –, um dos lugares preferidos de Jacira, para saber se o velório poderia ser realizado lá. A cerimônia, que a família chamou de encantamento, durou oito horas e teve música, festa e dança. Para Emicida, foi um reflexo do que sua mãe construiu ao longo da vida. “Um parceiro meu falou ‘poxa, cara, quero que meu velório seja daquele jeito’. Disse a ele que isso não é a gente que escolhe, é quem a gente foi.”

 

A decisão de mergulhar na obra dos Racionais povoa a cabeça de Emicida há pelo menos dois anos, quando ele começou a reouvir os trabalhos do grupo todo dia, segundo Marina Santa Helena, sua mulher. O projeto da trilogia ganhou forma durante uma conversa telefônica em abril do ano passado com o DJ Nyack. Emicida disse a Nyack que gostaria de criar um mashup misturando o canto de Triunfo, o rap que o projetou na cena musical brasileira, com a batida de Voz ativa, lançada pelos Racionais em 1992. O DJ fez a mistura e Emicida aprovou – a canção se chama Voz triunfal. Repetiram a dose com Levanta e anda, do rapper, e Homem na estrada, dos Racionais, criando a canção Levanta e estrada. Sempre da mesma maneira, unindo músicas cantadas por Emicida com batidas dos Racionais, eles fizeram 24 versões. “Mas achamos que cinco passavam o recado”, diz o rapper.

O EP com cinco faixas se chama Emicida Racional VL 3 – As aventuras de DJ Relíquia & LRX e foi o primeiro lançamento da trilogia. DJ Relíquia foi o codinome inicial de Nyack, assim como LRX foi o de Emicida – um modo de conectar o projeto à ideia de retorno às origens do rap.

Além de Voz triunfal e Levanta e estrada, a dupla também produziu outras três versões: Capítulo boa, versículo esperança – que mistura Boa esperança, de Emicida, e Capítulo 4, versículo 3, dos Racionais –; Papel, caneta e num devo, não temo, dá meu copo que já era – junção de Papel, caneta e coração, de Emicida, com v.l. (parte 1), dos Racionais –, e Xô falar pucê, eu já invejei quem tem pai – mix de Ooorra, de Emicida, e v.l. (parte 2), dos Racionais).

É no segundo volume, Emicida Racional VL 2 – Mesmas cores & mesmos valores, que a criação de Emicida se manifesta mais intensamente. O rapper se inspirou no disco Cores & valores (2014), o último álbum dos Racionais, para conceber um álbum de dez faixas – cinco canções inéditas nas quais ele faz suas rimas e cinco interlúdios (faixas com textos narrados e instrumentais, que ajudam a explicar o conceito de um disco). Neste álbum, os interlúdios apresentam referências musicais importantes para os Racionais e episódios da vida pessoal de Emicida.

O rapper escolheu homenagear Cores & valores por achar que é um álbum incompreendido pelos fãs de rap. O disco foi alvo de críticas por não repetir a proposta de obras anteriores, como Sobrevivendo no inferno (1997) e Nada como um dia após o outro dia (2002), com músicas longas que narram a história de pessoas e da vida na periferia. Com faixas mais curtas, Cores & valores se aproxima justamente daquilo que Emicida fez entre 2009 e 2012.

Katia, a primogênita, diz que o novo projeto do irmão a partir dos Racionais, trocando a entonação melodiosa dos últimos discos por uma dicção colérica, era o que ela precisava neste momento, por expressar uma raiva que também compartilha. Um dos produtores do álbum, Julio Fejuca, se espantou no início: “Estava esperando algo parecido com AmarElo, mas era só pedrada.”

 

Em sua casa, Emicida me mostrou um bloco de papel com todas as letras de Emicida Racional VL 2 – Mesmas cores & mesmos valores. Setas e textos coloridos indicavam as referências para cada verso. Na faixa inicial – o primeiro interlúdio, de quase 9 minutos – feita com áudios de sua mãe, ele encontrou quinze figuras de linguagem usadas por ela. “A única ausência é a comparação. Achei foda, porque a velhinha era sem comparação mesmo. Fui montando de acordo com as paixões dela pela linguagem.”

A sequência de falas da mãe na canção Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior) tem sido uma das faixas mais comentadas do novo álbum. “Não queria que minha mãe fosse sequestrada para um lugar melancólico. É para sentirmos sua presença, não a ausência.” A canção foi também inspirada em Sou + você, dos Racionais, em que Mano Brown fala “Bença, mãe” na introdução. “Deixei a palavra dela soar como forma de produzir essa bênção”, diz Emicida.

Os áudios de Jacira são sustentados pelo arranjo do pianista pernambucano Amaro Freitas, que Emicida procurou em meados de agosto. “A fala dele foi meio um desabafo, ao explicar como o ano tinha sido pesado”, conta Freitas. Quando eles estavam trabalhando em outras canções, o rapper apareceu com áudios da mãe. Ele fez uma relação com Coisa nº 2, do instrumentista Moacir Santos, ao dizer que a coisa número 1 sempre será a mãe. Amaro pegou a dica e buscou outras referências melódicas na obra de Tom Jobim, Milton Nascimento, Erik Satie e John Coltrane. “Percebi todas as paisagens sonoras que ele costurou e entendi que a trilha poderia servir como uma cama, mas uma cama emocional, para deixar o ouvinte arrepiado e emocionado.”

No dia da gravação, Amaro Freitas sugeriu fazer a primeira versão como se fosse a definitiva a fim de captar a emoção inicial. “Botei o fone e ouvi a voz de dona Jacira. Fiquei todo arrepiado. Comecei a tocar e vejo que ele [Emicida] está sentado, encolhido e chorando. Pensei: ‘Puta que pariu, preciso me equilibrar para tocar até o final.’ Quando terminou, ele veio me abraçar e choramos juntos.” É possível ouvir o pranto no minuto final da gravação. “Foi ali que eu percebi que ainda não tinha chorado tudo que precisava chorar”, me diz o rapper.

Por meio dessa faixa que homenageia a mãe, Emicida elaborou parte do seu luto. “A forma como a faixa foi concebida fica em um limiar: dói tanto que fica bonito. Ou é tão bonito que dói”, ele próprio comenta. “O luto não pode ser algo somente paralisante. Paralisado eu já estava. Fiquei meses assim. Ele drena nossa energia e diminui o nosso viver. Mas também nos possibilita transformar momentos de escuridão em luz, a opressão em festa, com a perspectiva de que precisa haver um amanhã.”

É esse mesmo trajeto que o segundo disco faz. No início da segunda faixa – Mesmas cores & mesmos valores – é possível ouvir Emicida caminhando sobre pedras, como se estivesse iniciando uma jornada, enquanto grilos cantam ao fundo. Tudo soa como se a pessoa estivesse cercada pela escuridão. “Essa é a primeira música que estou rimando. É como se eu dissesse: ‘Ó, presta atenção que o negócio é sério.’”

Em dado momento, ele canta:

Mano, tô ótimo, sem socorro pro Batma
Estoico, lógico, gigante, bem Mahatma
Arrudas, enteógenos, plumas, mão de Fátima
Suas ia até copia quem cria, mas não bate, mano.

Quando terminou esses versos, ele decidiu desafiar o ChatGPT para saber se a plataforma conseguiria identificar o que havia pensado. “Sou o maior inimigo dessa porra”, afirma. “Por isso o último verso diz que a inteligência artificial até copia, mas não bate. E esse disco é a antimáquina.”

A terceira faixa, O que nóiz faz com essa dor, é apenas instrumental e reúne as melodias da música Boa esperança, de Emicida, com Olhos coloridos, de Macau, interpretada por Sandra de Sá, expoente do black music no Brasil e uma referência para os Racionais. O jogo com o sentido e o som das palavras, seu principal fascínio na composição, é intensificado em Finado neguim memo?, quarta faixa do álbum. A repetição de palavras proparoxítonas (glóbulo, óvulo, módulo, telúrico, círculo, triângulo), assim como fez Chico Buarque em Construção, sustentam uma canção dividida em duas perspectivas: a da caneta, o instrumento de trabalho do compositor, e a do rapper, um operário do gênero. Em um dos versos, diz que as calçadas estão em “uníssono” e que o rap está “monótono”. O rapper Rashid me diz: “Esse é o Emicida arrumando problema para nós. Mas concordo com ele. Acho que estamos aqui tempo suficiente para poder dizer que o gênero está se afastando das raízes e ficando sem personalidade.”

Marina Santa Helena conta que, quando ouviu Finado neguim memo? pela primeira vez se sentiu angustiada. “Daí ele [Emicida] disse que era essa a intenção.” Para construir esse efeito, Seth se inspirou na trilha feita por Amedeo Tommasi para o filme italiano de terror A casa das janelas sorridentes, de 1976. “A trilha mantém uma tensão no filme que era exatamente o que nós queríamos”, explica Emicida. Quando estive com Seth, ele me mostrou uma troca de mensagens com o rapper. O produtor enviou uma batida e Emicida respondeu: “Francês, estou aqui com o Nyack e a gente acha que está tenebroso às seis da tarde. Precisa ser tenebroso à meia-noite.” Após modificações, Emicida aprovou o tom sombrio da canção em outra mensagem: “Ela vai ser o padrão do disco.”

A quinta faixa é o interlúdio A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesma. Emicida diz na introdução da música: “São Paulo, dia 1º de outubro de 2025, quatro horas da manhã.” É uma citação do que Mano Brown fez em Diário de um detento, do disco Sobrevivendo no inferno, que inicia da seguinte forma: “São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, oito horas da manhã.” A música de Emicida, totalmente instrumental, reúne as melodias de Levanta e anda, sua composição, e Diário de um detento.

Sexta faixa do disco, A mema praça é uma releitura explícita de A praça, música dos Racionais sobre o caótico show de 2007 na Praça da Sé. Mas, enquanto a faixa do quarteto cantada por Edi Rock conta o ocorrido a partir da visão de quem está no palco, a versão de Emicida narra o episódio na ótica de quem está na plateia, tentando fugir da confusão. Para reviver aquele dia, Emicida convidou Rashid e Projota, amigos de longa data, que dividem a composição.

A canção seguinte é Quanto vale o show memo?, uma continuação de Quanto vale o show, uma das canções preferidas de Emicida na discografia dos Racionais. Nela, Mano Brown descreve sua vida dos 13 aos 17 anos: os sonhos de um adolescente na periferia paulistana, as influências musicais, os amores e as frustrações que antecederam sua entrada no rap. Emicida pega o fio da meada para narrar a própria trajetória a partir de 1988, quando tinha 3 anos. Fala de sua infância, da morte do pai e enumera fatos históricos – como a chacina da Candelária e a Copa do Mundo de 1994 –, encerrando o relato em 2003, quando completou 18 anos. A música termina com um sample (um trecho de outra música, efeito bastante utilizado no rap) de Castiçal, de Cassiano, com o verso: Se Deus quiser, amanhã. Depois, é possível ouvir o canto dos passarinhos.

Em seguida, há mais um interlúdio, Compreender tudo, é perdoar tudo. Estela, a filha mais velha de Emicida, declama versos da música What’s going on, de Marvin Gaye, canção fortemente política, com críticas ao racismo, à violência policial e à Guerra do Vietnã. É possível perceber a melodia de Jorge de Capadócia, de Jorge Ben Jor, outro artista fundamental para os Racionais.

O canto dos passarinhos e o verso de Cassiano que encerram Quanto vale o show memo? anunciam a saída da escuridão rumo à luz, caminho que irá se concretizar em Us memo preto zica, a penúltima faixa do álbum, que reúne versos de 24 músicas diferentes dos Racionais. É um quebra-cabeça, cuja linha de raciocínio resume a filosofia do quarteto: seja leal aos seus princípios e às pessoas que você ama. A melodia, que lembra um samba de roda, carrega um violão de sete cordas inspirado na obra de Cartola e nos sambas dos anos 1970. O refrão tem a participação de Teresa, a filha mais nova de Emicida e Marina. “Ela é muito rapper”, brinca a mãe, dizendo que a garota de 8 anos consegue decorar músicas inteiras.

 

Por se aproximar do samba, Us memo preto zica foi a faixa mais celebrada pelos integrantes dos Racionais na audição coletiva feita no fim de setembro do ano passado, em um estúdio em Pinheiros, na capital paulista. Emicida não tinha avisado o grupo sobre o projeto. “Fui fazendo e depois mostrei. Arriscadíssimo, né? Falei para amigos que minha expectativa estava no tudo ou nada: ou seria lindo ou seria um trauma nunca mais superado.”

Ele foi à audição ciente de que, caso o trabalho fosse recusado, teria de exercitar a humildade para abortá-lo. Ao mesmo tempo, estava confiante, pois conhece bem a história dos Racionais e tem uma boa relação com eles. “Sei o tamanho do esmero que tivemos e do respeito que eles têm por mim.”

No dia da audição coletiva, o rapper acordou tranquilo, mas, por volta das onze da manhã, quando estava chegando ao estúdio, começou a ficar nervoso e a se questionar sobre se deveria ter mexido em obra alheia. Assim que os integrantes dos Racionais começaram a chegar, ele se sentiu como um estudante prestes a fazer vestibular.

Ao longo da audição, tentou mapear com o olhar as reações da banda. “Racionais é mistério, mano, os caras não entregam o que estão pensando”, diz Emicida. “Tem uma energia meio mafiosa, algo como O poderoso chefão: o lance dos violinos, o anel que precisa ser beijado. É a mística.”

Depois da faixa inicial, dedicada à sua mãe, veio a batida de rap da segunda faixa, que agradou. “Os caras começaram a mexer a cabeça. Quem é sabe: ali o beat pegou. O Edi Rock [um dos integrantes dos Racionais] falou: ‘Mais do que isso só se fossem os Racionais cantando’”, recorda Emicida. “É como um gol do Brasil, mano.” A reação mais efusiva veio com Us memo preto zica. “Foi bonito ver como eles se iluminaram ao ouvir a música deles em um lugar inusual. Essa era a mais heterodoxa. Se os caras falassem que não gostaram, ia esfarelar meu coração”, diz o rapper. Em nossa conversa, Edi Rock elogiou a canção. “Ele estudou e mostrou o nosso universo de outro ângulo. O samba é nossa raiz. Consigo imaginar os moleques se divertindo e cantando essa música em um quintal.”

O ciclo do álbum que começa no luto e trafega pela escuridão termina em uma festa. A décima faixa – (outro) A próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora – é um interlúdio de 10 minutos que reproduz o aniversário de 40 anos de Emicida, três semanas após a morte da mãe. “Havia dúvida sobre fazer alguma coisa e ele acabou marcando um almoço. Comemorar nesse momento é uma forma de não sucumbir à tristeza”, diz Katia.

Marina preparou churrasco, encomendou bolo e convidou amigos e familiares. Em dado momento, ela notou que o marido estava com a cabeça abaixada e os braços cruzados. Perguntou se ele estava bem, e Emicida respondeu que havia tirado um cochilo. “Ele estava realmente à vontade, porque tem certa dificuldade para dormir.”

O rapper espalhou microfones pela casa para captar o áudio do encontro. A intenção era usar trechos, mas, ao ouvir a gravação achou que aquilo contava uma história. “É a percepção da vida em sua grandiosidade. O som da festa vai embora e fica só o dos passarinhos. O que isso significa? Que todos nós vamos passar.”

O álbum, que foi o primeiro fora da Laboratório Fantasma, inaugurou a nova empresa de Emicida, a Cecropia, criada em sociedade com sua mulher. O nome homenageia uma árvore que eles têm no quintal e é conhecida por ser uma plantadora de florestas. “Por ser uma árvore de crescimento rápido, ela abre suas folhas como um guarda-sol e protege plantas que ainda não conseguem resistir à luz solar. Do ponto de vista filosófico, é isso”, diz o rapper. “Do ponto de vista do negócio, estamos estruturando para apresentar ao mercado. Se fizermos isso hoje, vai parecer que é só mais um selo.”

 

Dois dias depois da audição do novo disco do Emicida, no fim de novembro passado, fui a Porto Alegre para acompanhar a cerimônia em que o rapper recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Por volta das 17h20, a van saiu do hotel na região central rumo à instituição, para um trajeto curto, de aproximadamente 10 minutos. Sua esposa e filhas, a irmã Katia e a avó, Maria, estavam lá para prestigiá-lo.

No caminho, Emicida ressaltou que seu título não era uma unanimidade dentro da universidade. “Só deu certo por causa da molecada do coletivo negro”, disse. Ele se referia ao Coletivo dos Estudantes Negros da Pedagogia, que, em parceria com a divisão gaúcha do Movimento Negro Unificado e a UFRGS Negra, levou a demanda à Faculdade de Educação, que propôs a titulação ao Conselho Universitário. O conselho é formado por docentes, que são 70% dos membros, e por técnicos administrativos e estudantes, que representam 30%. Após a indicação, uma comissão especial foi formada para analisar o pedido.

Um estudante que participou do processo disse que parte do conselho estava incomodada pelo fato de Emicida ser um rapper e não ser gaúcho. A reitora Márcia Cristina Bernardes Barbosa, descrita pelos alunos como uma aliada, me confirmou o incômodo, mas disse que a proposta seguiu todos os ritos. Por fim, foram 48 votos a favor, com 5 abstenções.

Assim que chegou à universidade, por volta das 17h40, Emicida foi orientado por um dos seus produtores a não parar na aglomeração formada na entrada do prédio onde seria a cerimônia, a ser realizada no Salão de Atos, com capacidade para 1 174 lugares. O rapper, então, subiu para a sala da reitoria. Lá encontrou estudantes do coletivo negro que fez a proposta à universidade, professores da Faculdade de Educação e políticos, como a ex-deputada federal Manuela D’Ávila e o deputado estadual Matheus Gomes (Psol). Em seguida, foi convidado pelo vice-reitor, Pedro de Almeida Costa, a assinar o Livro de Ouro, que reúne recados de visitantes ilustres. O texto de Emicida enalteceu a trajetória de gaúchos célebres, como o compositor Lupicínio Rodrigues e o escritor e militante Oliveira Silveira, e acrescentou: “É uma honra imensa estar com vocês hoje construindo um novo amanhã.”

Por volta das 18h15, Emicida foi conduzido para uma antessala do Salão de Atos. Ele usava uma camiseta branca com uma frase atribuída à linguista americana Marcyliena Morgan, fundadora de um centro de pesquisa sobre hip-hop na Universidade Harvard. “Eu queria que o hip-hop tivesse o mesmo nível de respeito que qualquer área de estudo do mundo acadêmico”, dizia um trecho da frase.

Quando Emicida adentrou o salão, o local estava praticamente lotado. Ele sentou-se e ouviu os discursos de membros da universidade, que enalteceram sua obra, seguindo a praxe. Depois de receber o título, o rapper foi ao púlpito. De improviso, falou por 15 minutos. Celebrou o fato de ter sido lembrado por um coletivo de estudantes negros e que o trabalho deles na instituição não era apenas inspirador, mas revolucionário. Disse que é importante confrontar o racismo não apenas com luta, mas também com ternura. Encerrou afirmando que o Brasil deve estudar o passado para que ele não se repita e, assim, garantir um futuro no qual as crianças possam sonhar. Foi aplaudido de pé.

No retorno ao hotel, por volta das 20h30, Emicida celebrou o espaço que o rap tem conquistado. Recentemente, os Racionais receberam o título honoris causa na Unicamp como grupo, e Mano Brown, o líder, foi agraciado individualmente pela Universidade Federal do Sul da Bahia. Um dia antes da cerimônia na UFRGS, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, citou um verso de Ismália, música de Emicida, em seu voto a favor do reconhecimento do racismo estrutural no Brasil. “Meu telefone nunca tocou tanto.”

Nos últimos anos, Emicida foi convidado pela Universidade de Coimbra e de Pittsburgh para ministrar cursos e palestras aos alunos. “Esse homem é uma enciclopédia ambulante”, me disse Tatiana Moura, pesquisadora do Centro de Estudos Sociais na instituição portuguesa e responsável pelo convite. Ele não deu aulas em Portugal, mas participou de conversas com intelectuais e alunos, além de exibir um documentário sobre o álbum AmarElo. Emicida gostou da experiência, mas me disse que se sentiu pressionado por não “dominar tecnicamente a dimensão acadêmica”.

Para solucionar o problema, ele criou, no começo de 2023, o Clã do Jabuti, um grupo de estudos com amigos (o nome homenageia o livro de Mário de Andrade publicado em 1927). Os encontros eram quinzenais e duraram um ano. “Lemos muitos autores, como Roberto Schwarz, Antonio Candido, Lélia Gonzalez… Era sociologia e música”, relembra Rashid, um dos integrantes. “Tínhamos a perspectiva de entender o Brasil, conectando isso com a cultura hip-hop e a negritude”, complementa o documentarista Guilherme Botelho, que também participou.

A atividade ajudou Emicida a organizar o curso de quatro aulas que ministrou em Pittsburgh, em setembro de 2024, no Centro de Estudos Latino-Americanos da instituição. Ele foi para lá a convite da historiadora brasileira Keila Grinberg. “Coimbra foi quase um treino. Em Pittsburgh cheguei mais preparado, com uma didática de pensamento e um raciocínio com cabeça-tronco-membros”, afirma o rapper. No curso, ele conectou aspectos da música brasileira à história do país, desde a época da escravidão até hoje. “Ele tem um pensamento muito original”, diz Grinberg, que tentou traduzi-lo para os alunos americanos, mas, após os primeiros minutos, delegou a tarefa à sua filha, que na época estudava em Pittsburgh. “Ele começou a falar gírias. Era impossível!”

 

No último ano, Emicida intensificou seus momentos dedicados à meditação. Fez isso depois de corrigir um desvio de septo e melhorar a respiração, o que é fundamental para se manter concentrado. Ele pratica o Rinzai Zen, baseado nos koans, que são pequenos textos (perguntas, contos) que estimulam a reflexão profunda e não têm uma única resposta. “O meu novo disco é um koan gigante de 42 minutos”, ele compara.

O rapper costuma ir a um templo budista perto da sua casa, da associação Soka Gakkai. Às vezes, o pessoal de lá vai visitá-lo. “Eles têm uma coisa maravilhosa: é a reunião de palestra. Tem conversa e comida. Fazemos exercício de interpretação coletiva dos sutras, os escritos do budismo.”

Emicida medita por 40 minutos antes de dormir, por volta das oito da noite, e logo depois de acordar, às quatro e meia da manhã. Gosta de tomar o café da manhã com as filhas antes de levá-las à escola. Perguntei a Marina se o marido se faz presente no dia a dia da casa. “Cara, ele é um paizão”, desmanchou-se. Ela também medita, mas só por 15 minutos.

A prática do budismo ajudou o rapper a atravessar o ano mais complicado de sua carreira e a encontrar o que considera a melhor versão de si. “Nunca estive tão em paz como Emicida”, diz ele. “Já me escondi atrás do personagem, porque é fácil e seguro. Só que chegou um momento em que, para ser a pessoa que eu gostaria, tive de enfrentar minhas inseguranças, com decisões que impactam meu círculo social e a forma como trabalho. Quer dizer que alcancei a iluminação? Não. O divertido é ter a humildade de entender que hoje consegui fazer isso, mas não aquilo, e amanhã vou tentar de novo.”

Entre errar e acertar, ele se define como um aprendiz. Por isso preferiu se manter em silêncio quando a briga com o irmão veio a público. “Quis ter espaço para compreender o que estava acontecendo. Foi menos doloroso ou sofrido? Claro que não, mano. Até hoje é dilacerante. Acredito que para ele [Fióti] também seja. Mas essas coisas acontecem no nosso mercado. Os caminhos se dividem, porque cada um acredita em uma coisa”, diz. Emicida acrescenta: “A indústria do entretenimento parece um desfile de moda, mas é um campo de guerra. Quanto mais você se ilude com isso, quanto mais confunde ter respeito com ter fama, maior é a probabilidade de cair. Eu sempre quis estar com pessoas que estão construindo algo para além de si. O único jeito de trilhar esse caminho é ter uma cabeça e um coração de aprendiz. Vou acertar e errar. No fim, só preciso ter humildade para recomeçar.”

 

*Versão anterior do texto dizia que Emicida ligou para a Associação Cachuera para organizar o velório da mãe. A ligação foi feita por Evandro, seu irmão. A informação foi corrigida às 10h37 do dia 08 de abril de 2026. 

Guilherme Henrique
Guilherme Henrique

Editor do site da piauí e mestre em ciências pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

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