ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016
No pique
Um passeio de mountain bike com Celso Russomanno
Julia Duailibi | Edição 121, Outubro 2016
O porteiro do condomínio insistiu por quase quinze minutos até que Celso Russomanno atendesse ao interfone. “Pode entrar”, autorizou o deputado federal pelo PRB, o Partido Republicano Brasileiro. Quando finalmente me recebeu à porta da casa térrea em que mora, parecia ter acabado de acordar. Os olhos ainda estavam inchados, a voz, um tanto grave, e ele, um pouco lento. “Pronta para pedalar?”, indagou, trajando bermuda de lycra, camiseta dry fit, tênis e luvas. Eram nove e quinze da manhã.
Na véspera, dia 12 de setembro, o parlamentar comparecera à sessão da Câmara que cassou Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Atravessou a noite no plenário, onde, às vezes, borrifava no rosto o líquido de um pequeno frasco de vidro que trazia no bolso. “Água mineral. Para evitar rugas”, explicou tão logo perguntei do que se tratava. “Quantos anos você acha que tenho?”, gabou-se, aos 60, com a convicção de que aparenta menos. Embora o PRB fizesse parte do bloco que alçou Cunha à presidência da Câmara, Russomanno votou contra o antigo aliado. Candidato a prefeito de São Paulo, não podia se dar ao luxo de salvar o pescoço de um dos maiores vilões nacionais.
Àquela altura, apesar dos esforços para ficar bem na fita, o político paulistano começava a derrapar e, após meses à frente da campanha eleitoral, corria o risco de não alcançar o segundo turno. As pesquisas indicavam a possibilidade de o tucano João Doria Júnior lhe roubar o primeiro lugar e de a disputa pela vice-liderança se travar entre ele, a neopeemedebista Marta Suplicy e Fernando Haddad, do PT. Como no pleito municipal de 2012, Russomanno poderia novamente morrer na praia.
Não por acaso, na manhã seguinte à degola de Cunha, estava disposto a mostrar que tinha fôlego de sobra. Na casa de portão branco, cercada por muro de pedra e localizada em Sobradinho, cidade-satélite de Brasília, um par de mountain bikes nos aguardava. Antes do passeio, porém, o candidato me levou para um tour pela residência de três dormitórios e nada suntuosa, apesar do nome do condomínio: Morada dos Nobres.
Escura, a pequena sala exibia um aparador em que imagens de Nossa Senhora disputavam espaço com garrafas de champanhe. Tapetinhos persas e paisagens a óleo se espalhavam pelos ambientes. “Gosto de decoração”, comentou o deputado antes de revelar que, “aos 14 ou 15 anos”, fez um curso na área. Com cortinas de renda, a cozinha abrigava uma tevê, que sintonizava a Globo, embora Russomanno apresente o quadro Patrulha do Consumidor num programa vespertino da Record e tenha a bênção da Igreja Universal, liderada pelo dono da emissora, o bispo Edir Macedo.
“Está vendo aquele pote?”, apontou. “É multivitamina.” O suplemento, esclareceu, o ajuda a “manter o pique”. Ainda na cozinha, passou batido pelo frasco com remédio para conter a queda de cabelo. Perguntei se ele toma algum calmante, já que sua dicção é quase pastosa no tête-à-tête. “Nada. Nada. Sou bem tranquilo, bem alegre. Muito diferente do que demonstro na televisão.” Um vídeo que circula pela internet o flagra aos gritos com uma caixa de supermercado durante reportagem para o Patrulha do Consumidor. “Na tevê, fico bravo mesmo, visto a camisa daqueles que estou defendendo. Mas, fora do ar, sou superlight.”
Quando lhe indaguei por que vivia a 20 quilômetros do Congresso, num condomínio simples, em nada parecido com o luxuoso Lago Sul, região preferida dos políticos, respondeu franciscanamente: “Só tinha dinheiro para comprar uma casa aqui.” Russomanno, no entanto, é rico. Segundo declaração à Justiça Eleitoral, seu patrimônio soma 1,8 milhão de reais e abarca um terreno e seis casas, incluindo a de Sobradinho e outra no bairro do Morumbi, em São Paulo, onde também mora. Entre seus demais bens, destaca-se um helicóptero.
Enquanto punha capacete e óculos escuros, o deputado afirmou possuir 22 bicicletas, distribuídas por algumas de suas propriedades. Após me ensinar o funcionamento das marchas, montou no selim da mountain bike e partiu. “Em geral, ando muito forte, mas hoje irei devagarinho”, avisou, ao descermos a rampa da garagem. Ex-competidor, disse percorrer de 10 a 20 quilômetros sempre que sai de magrela. “Pedalo uma vez por semana”, informou. Logo depois, alterou o cronograma: “Na verdade, em Brasília, pedalo às terças, quartas e quintas.”
O tempo estava quente e seco, mas Russomanno não suava. Dava apenas umas tossidinhas, indicando que a baixa umidade do ar lhe irritava a garganta. Magro, ele pesa 68 quilos e não ostenta pernas de ciclista. As canelas são brancas e finas, e as panturrilhas, pouco avantajadas. Já os bíceps, volumosos, parecem esculpidos na academia de ginástica.
A queda nas pesquisas resultava principalmente dos ataques desferidos pelos adversários, defendeu-se o parlamentar. Os concorrentes o acusavam, por exemplo, de não pagar direitos trabalhistas para garçons de um bar que manteve em Brasília. Ele também figura num depoimento do ex-deputado Pedro Corrêa, condenado na Lava Jato, que o denunciou como beneficiário de um mensalão e achacador de empresários.
Dos rivais em São Paulo, considera-se amigo de João Doria. “Às vezes, até almoçamos juntos.” Há três décadas, os dois chegaram a organizar um evento que pretendia festejar a passagem do cometa Halley. “Eu cuidava da diversão e da gastronomia. O Doria se responsabilizava por atividades como alugar um avião para que os passageiros pudessem avistar o cometa lá do alto. Só que o céu fechou. Ninguém viu cometa nenhum.”
À medida que cruzava as ruas do condomínio, Russomanno cumprimentava os vizinhos, que lavavam carros ou faziam ginástica. Já estava ofegante quando avistou uma ladeira. “Teremos de enfrentá-la”, alertou. “Normalmente, subo no pau, em alta velocidade.” Comigo, porém, mostrou-se menos vigoroso. Chegou ao topo um pouco sem fôlego, mas não passou recibo: “Aguenta outra volta?”
