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    Nem todos os aiatolás do mundo impediriam Saddam Hussein de interpretar o Alcorão a seu bel-prazer. Bastava um gesto blasfemo ter sido consumado por ele para deixar de ser blasfemo ILUSTRAÇÃO: SIMON BAILLY_2018

carta do Iraque

O Alcorão de Sangue

À procura do livro sagrado escrito com a hemoglobina de Saddam Hussein

Emmanuel Carrère e Lucas Menget | Edição 145, Outubro 2018

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Texto originalmente publicado na revista XXI
Tradução de André Telles

O protocolo é sempre o mesmo, pelo menos no caso das pessoas importantes. Em primeiro lugar, transpostos os checkpoints, espera-se. Espera-se muito tempo. Essa espera é entremeada por copinhos de chá superaçucarados trazidos por rapazes solícitos, mais raramente por moças. A princípio, não desconfiei. No segundo dia, levei um livro para matar o tempo; no terceiro, deixei o livro no hotel porque é uma pena matar o tempo no Iraque, é preferível deixá-lo viver e sentir sua densidade milenar – a todo instante vão nos lembrar de que estamos num país com 7 mil anos de história e que inventou praticamente tudo, a começar pela escrita.

Chega finalmente o momento em que somos introduzidos no tabernáculo. A importância da pessoa importante, seja ela um político ou um religioso, é medida pelo tamanho da mesa atrás da qual ela observa você se aproximar, pela distância que separa mesa e porta e pelo número de gigantescos sofás recostados nas paredes, um defronte do outro e longíssimos um do outro, de maneira que é preciso quase gritar para se fazer ouvir por quem está à sua frente.

 

Sentamos, a entrevista tem início. É Lucas Menget quem a conduz, com uma habilidade que me impressiona. A manha consiste em não fazer a pergunta que nos interessa nem cedo nem tarde demais, com medo de que nosso interlocutor se tranque. Nossa reportagem, explica então Lucas, pretende traçar um panorama de Bagdá hoje. Sempre fazemos um aquecimento, evocando a recente vitória sobre o Estado Islâmico e os respectivos papéis desempenhados por xiitas e sunitas. Depois de uns vinte minutos de conversa fiada sobre política, que termina geralmente com votos de reconciliação nacional, Lucas fecha sua caderneta, agradece e, então, como se lhe ocorresse uma ideia de última hora, mera banalidade completamente alheia ao assunto, mas que o intriga a título pessoal, diz: “Ouvimos falar de um Alcorão que Saddam Hussein teria mandado escrever com seu próprio sangue. Essa história lhe diz alguma coisa?”

De nossa parte, o que sabemos sobre essa história provém de três fontes: uma matéria de um jornalista australiano em 2002, outra de um jornalista inglês, no Guardian, em 2010, e por fim uma entrevista, transmitida pela Al Jazeera em 2014, com um célebre calígrafo iraquiano. Em síntese: em dezembro de 1996, tentaram assassinar Udai, o filho mais velho de Saddam Hussein. Udai ocupava cargos importantes: era presidente do Comitê Olímpico Iraquiano, mandachuva da imprensa, parlamentar eleito com 99% dos votos. Era acima de tudo um psicopata notório, o terror das noites de Bagdá, capaz de abater a tiros de revólver um sujeito que lhe desagradasse ou cuja mulher cobiçasse, tudo em quase completa impunidade. Digo “quase”, pois Saddam não gostou nem um pouco que o filho trucidasse com uma faca seu provador pessoal de comida, durante uma recepção oficial, e despachou o turbulento rapaz para a Suíça a fim de que ele sossegasse o facho durante alguns meses. Em suma, Udai acabou baleado ao volante do seu Porsche – quer dizer, de um dos seus Porsches, pois possuía a bagatela de 1 200 automóveis. Trinta e sete balas no corpo, às quais ele sobreviveu por um triz. Para agradecer a Alá por sua mansuetude, seu pai faz então esse juramento bizarro, faustiano, no limiar da magia negra: mandar escrever um Alcorão com seu próprio sangue. Uma enfermeira, a intervalos regulares, vem bombear a hemoglobina presidencial, que é levada para o renomado calígrafo. Ao fim de três anos, este termina de escrever as 114 suratas do livro sagrado, e Saddam, com toda a pompa, doa-o a uma mesquita que ele acaba de construir. A cerimônia é filmada pela televisão iraquiana, mas infelizmente não resta vestígio do material.

Em 2003, os americanos invadem o Iraque. Saddam será encontrado no fundo de um buraco, semblante esgazeado, rosto carcomido pela barba, olhos desvairados, e acabará na forca em 2006. Em meio ao caos generalizado, o Alcorão de Sangue desaparece, há coisas mais urgentes do que ir atrás do livro. O jornalista australiano David Blair afirma que lhe mostraram uma página – o começo da famosa surata “Al Baqarah”, ou “A Vaca” (a que afirma que não se pode forçar ninguém a aceitar uma religião). O jornalista inglês do Guardian investigou a fundo, mas não teve essa sorte. O calígrafo, por sua vez, nega-se a abordar o assunto: é uma lembrança ruim. Última peça do processo: uma foto que acompanha a matéria do Guardian mostra dois barbudos vestidos de jelaba em frente a uma vitrine onde se acham expostas páginas grandes, à distância semelhantes a gravuras; asseveram tratar-se do famoso Alcorão, mas poderia ser outra coisa qualquer.

 

No fim de 2016, Patrick de Saint-Exupéry, que dirige a revista XXI, levanta essa bola com Lucas Menget, jornalista que trabalhou muito no Oriente Médio. E lhe ocorre a ideia de nos atrelar numa parceria: Lucas, que conhece o Iraque como a palma da mão, e eu, que tenho inclinação por histórias bizarras, como sabe Saint-Exupéry. Eis-nos então chegando a Bagdá: Lucas, convencido de que a história é verdadeira; eu, de que ela tem tudo, absolutamente tudo, de uma lenda urbana, o que não a torna menos interessante de ser contada. Sempre com a preocupação de não abrir muito o jogo antes da hora, Lucas não revelou o assunto da reportagem antes de partirmos nem ao nosso motorista, Sami, com quem ele trabalha há muito tempo, nem ao doutor Khadum, nosso fixer – como são chamadas as pessoas espertas que, num país estrangeiro e a priori difícil, exercem a função de intérprete e assistente para jornalistas e sabem quando é preciso sacar algumas cédulas da carteira para azeitar uma situação. Ao abrirmos finalmente o jogo, espantam-se com a nossa curiosidade por aquela história, que já conhecem de ouvir falar e cuja autenticidade não colocam em dúvida. É minha vez de ficar surpreso e me fazer perguntas que, em vez de dissipar, adensam o mistério: 1) Se é que existe o Al-corão de Sangue, o que fizeram com ele? Onde está?; 2) O que os iraquianos acham disso tudo? Isso os fascina? Ou os repugna? Estariam se lixando? Mais genericamente, que tipo de relação cultivam com a figura de Saddam?; 3) E o que tinha na cabeça o próprio Saddam ao conceber aquilo?

Lucas, que esteve em Bagdá umas trinta vezes a partir de 2003, não retornou no último ano e meio e não para de se surpreender com a normalização da vida na cidade. A estrada do aeroporto continua enxameada de checkpoints, certo, mas não é mais percorrida a 180 quilômetros por hora com um frio na espinha por causa dos tiros de morteiro. O risco de atentado suicida permanece elevado, certo, os milicianos xiitas que retomaram a Mossul perambulam pelas ruas, desmobilizados, e o Estado não sabe o que fazer com eles, que se ocupam sequestrando tudo que podem sequestrar. Porém, de dia e com um bom segurança, um estrangeiro pode dar alguns passos na rua, em determinadas ruas, e até mesmo se sentar à mesa de um café na calçada. As pessoas, a começar pelo doutor Khadum e por Sami, queixam-se menos da violência do que da corrupção, onipresente, e da burocracia que torna qualquer solicitação uma maratona, além de fadada ao fracasso. O mais impressionante, todavia, para um calouro como eu, são os muros: esses muros de cimento que os americanos erigiram para se proteger dos carros-bomba, e que circundam todos os prédios, todos os bairros, e que contornamos durante horas, os quatro chacoalhando no velho Jeep de Sami: Bagdá pode até ser uma cidade em vias de normalização, mas permanece uma cidade emparedada.

 

(Lucas Menget)

 

Desde a chegada, rumino que Emmanuel Carrère terá uma visão bastante pacata de Bagdá. Ele não tem como saber, mas há muito menos muros do que antes. A última vez que estive na cidade foi há dezoito meses. Muitos checkpoints e T-walls, escudos de cimento armado em forma de “T” invertido, foram desmontados. Não é uma cidade em guerra. É uma cidade no pós-guerra. Nesse intervalo, o Iraque, ajudado por americanos, franceses e iranianos, venceu a guerra contra o Estado Islâmico. Paira um ar poluído, mas quase primaveril, beneficiado pela temperatura amena: são os últimos dias antes do verão de 50ºC. Vemos sorrisos, engarrafamentos e lojas abertas. Claro, não é uma cidade normal, longe disso, mas não é mais a Bagdá que conheci. Arregalo os olhos e, opa, percebo que aconteceu alguma coisa.

Na primeira manhã, sob uma garoa que obriga os militares a vestirem por algumas horas uma espécie de poncho estapafúrdio, temos um encontro marcado com um diplomata japonês radicado há oito anos na Zona Verde, famoso enclave com 10 quilômetros quadrados, sede de todos os poderes, de Saddam e depois dos americanos. O espaço ainda hoje abriga a embaixada dos Estados Unidos, o governo iraquiano e as dependências da Organização das Nações Unidas. Queremos fazer um tour, focando nos lugares-chave. Nunca duvidei da existência desse Alcorão. Ele esteve aqui, na Zona Verde, talvez ainda esteja. Disponho de uma fonte suplementar: o jornalista e amigo Adrien Jaulmes, do Figaro, que o viu em 2003, algumas horas após a queda do regime, durante aqueles momentos vacilantes em que tudo estava visível, ao alcance da mão, uma vez que os americanos ainda não haviam instalado seu poder e o Exército iraquiano se livrava dos seus uniformes a toda pressa. Meu amigo o viu num pequeno museu dedicado aos presentes de Saddam, e ele não é do tipo que brinca com os fatos. Viu-o como viu a motocicleta Norton do ditador. O museu ainda existe, mas só têm acesso a ele os credenciados permanentes da Zona Verde.

Sami nos deixa num cruzamento, próximo a um dos raros interstícios do muro de proteção da Zona Verde. Ele não tem autorização para entrar: não passa de um simples iraquiano. Já nós, somos convidados. A pé, passamos por um primeiro controle. Passaportes. Depois, por um segundo, estamos efetivamente na lista. Serpenteamos por entre os T-walls instalados às dezenas de milhares após 2003, para confinar Bagdá em seu pesadelo. Emmanuel pega o celular para fazer uma foto desse dédalo de muros e chicanas, lembro a ele que é rigorosamente proibido e que há câmeras e guaritas em toda parte. Que podemos passar longas horas no posto policial por causa de uma foto. Para entrar no hotel Ra-sheed, onde será o encontro, atravessamos um subterrâneo, semelhante a uma entrada de metrô. Saímos numa alameda em excelente estado de conservação, ladeada por palmeiras, onde estacionam rutilantes Land Rover brancos, ao lado dos quais conversam contractors, sujeitos supermusculosos, superarmados, superbrancos e superocidentais, que fazem a segurança de políticos, diplomatas e prédios e só conhecem o Iraque através dos visores de seus fuzis ou dos para-brisas de seus carros blindados. Estão se lixando para a história desse país. Na melhor das hipóteses, estão interessados em seus salários e comissões. Na pior, por uma visão vagamente messiânica de seu trabalho como reparadores de erros numa região que consideram medieval.

O diplomata japonês não sai, ou pouco sai, da Zona Verde. Recebe todo mundo em seu gabinete ou nos banquinhos desse café moderno, quase chique, igual ao que encontramos em todos os hotéis de luxo do Oriente Médio, mas único do gênero no Iraque. Está prestes a deixar, a contragosto, esse país que o apaixona. Viu-o soçobrar na guerra civil em 2006, quando xiitas e sunitas matavam-se uns aos outros nas ruas de Bagdá. Assistiu à primeira tentativa de reconciliação em 2011, quando os americanos imaginaram poder partir de cabeça erguida e com a missão cumprida, na realidade deixando em seu rastro um país devastado e mais dividido do que nunca. Presenciou o surgimento do Estado Islâmico, depois o “recrutamento” de um exército de jovens xiitas para defender Bagdá. No momento em que fecha suas três malas, acredita na ressurreição do país. Constata que os partidos políticos em campanha eleitoral procuram se distinguir dos religiosos, como se tomados por uma euforia laica que lembra os primeiros tempos de certo Saddam Hussein. Exauridos por quinze anos de guerras de todos os tipos, os iraquianos não queriam mais do que descansar um pouco as armas e os estandartes e se dedicar a ganhar suas vidas e proteger seus filhos.

Nas mesas mais próximas, agentes de segurança americanos, britânicos e russos. Um pouco adiante, homens de negócios árabes assinando papéis, provavelmente contratos. Eu abaixo um pouco a voz para pronunciar o nome do ex-ditador. É praxe. Faço a pergunta sobre o Alcorão de Sangue. Ele ainda estaria na Zona Verde? O que o nosso diplomata sabe sobre isso? Silêncio. Um pouquinho longo demais. Teremos de nos habituar a esses longos segundos de silêncio. “Não, não sei onde está o livro…” Não é um assunto para esse diplomata da ONU. Tudo isso ficou lá atrás. Em contrapartida, sim, reina efetivamente uma nostalgia de Saddam Hussein: “Não do homem, compreendam. Agora todo mundo sabe que ele era sanguinário e perigoso. E os seguidores de Saddam não têm nenhum futuro político. Por outro lado, todos sentem que, sob sua ditadura, o país pelo menos era bem cuidado, unido, havia uma direção.”

Retornamos ao Iraque, do outro lado do muro – porque a Zona Verde não é o Iraque. Sami nos espera com seu sorrisinho matreiro. Fazemos um balanço, os quatro sentados à mesa de um pequeno restaurante nas imediações da rua Saadoun, uma das mais animadas da cidade, com suas agências de viagem decrépitas, seus restaurantes e algumas lojas de bebidas mais ou menos dissimuladas, conforme o humor religioso do momento. Costuma-se dizer que a Saadoun é a Champs-Elysées de Bagdá, mas não tem nem a largura nem a atmosfera, e o único paralelo possível é o fato de ser uma avenida central engarrafada e passível de ser mostrada aos estrangeiros. Khadum – o doutor Khadum, como o chama Emmanuel, que tem razão em respeitar o título –, enquanto estávamos na Zona Verde, também foi à cata de informações. Encontrou num jornal iraquiano uma brevíssima entrevista do calígrafo requisitado para escrever o Alcorão, que teria dito em 2010: “Eu não tinha escolha. Trabalhei noite e dia, quase perdi a vista.” E, principalmente, descobriu que um comitê de religiosos sunitas supervisionara a operação, dando-lhe seu aval. O que ele julga ainda mais surpreendente. Como religiosos foram capazes de chancelar um sacrilégio?

 

(Carrère)

Se é para fazer a pergunta, melhor fazê-la para alguém que sabe do que fala: é assim que conheço o primeiro aiatolá da minha vida, em seu feudo de Kadhimiyah. Um aiatolá é uma eminente autoridade religiosa de obediência xiita; Kadhimiyah, um bairro quase exclusivamente xiita. Do outro lado do rio, fica o bairro de Adhamiyah, quase exclusivamente sunita: foi grande a matança de uma margem à outra. Sem equiparar-se completamente em santidade aos lugares supremos do xiismo que são Najaf e Kerbala, a mesquita de Kadhimiyah abriga o mausoléu de Musa al-Kazim, sétimo imã do xiismo, envenenado por ordens do califa Harun al-Rashid e objeto de um fervor que constatarei daqui a pouco, por ocasião da grande oração da sexta-feira: da dimensão de Nossa Senhora de Lourdes, fácil. É na penumbra dessa mesquita que somos recebidos pelo aiatolá Khalissi, de turbante branco, ampla túnica marrom, estatura imponente, um rosto bonito, tipo sábio do bem – na medida em que é possível ser sábio e do bem quando se é uma eminente autoridade religiosa colocada no posto avançado de uma guerra de religião e obedecida por fiéis superarmados, mediante um simples gesto.

Pequeno balanço da situação: segundo o aiatolá, a luta contra o inimigo comum, o Estado Islâmico, aproximou os iraquianos, inclusive xiitas e sunitas, mas ele continua extremamente desconfiado no que se refere aos políticos que disputam o poder. Todos corruptos, todos parte integrante de um vasto complô anti-iraquiano, a ponto de ele depositar suas esperanças não em eleições inexoravelmente fraudulentas, mas numa verdadeira revolução. Uma revolução não violenta, decerto, porém religiosa, e quando perguntamos se sonha com um modelo iraniano, ele responde sem rodeios que sim.

Após essa introdução, vem a pergunta de verdade. O aiatolá faz a pausinha de silêncio regulamentar. “Uma história muito triste”, suspira, balançando a cabeça com um sorriso desolado. Saddam era um desequilibrado revestido de ditador cruel, digno do seu modelo Stálin, e esse caso do Alcorão ilustra sua loucura. O fato de haver consultado um colegiado de eruditos, como assegura o doutor Khadum, é certamente verdade, mas, em primeiro lugar, esses eruditos eram sunitas, depois, se arriscavam à forca se falassem a verdade que Saddam não queria ouvir: então se encolheram. Pois a verdade, a verdadeira verdade da sharia, é que o sangue é halal, puro, enquanto corre nas veias do homem ou do animal; depois de derramado, torna-se haram, impuro. Por conseguinte, é impuro escrever um Alcorão com sangue. Mesmo um Alcorão normal, acidentalmente manchado por uma pequena nódoa de sangue, “deveria ser removido”. “Removido”, como assim? “Destruído”, e não somente a página ensanguentada: o livro inteiro. Se tivesse que estatuir o que fazer com o Alcorão de Sangue – uma vez que, isso é um fato, ele existe –, o aiatolá não piscaria: mandaria queimar. E, se um dia alguém viesse procurá-lo para dizer que cogita escrever ou mandar escrever tal Alcorão, ele, no ato, internaria a pessoa num hospital psiquiátrico.

O aiatolá também disse que Saddam, que começou sua carreira como laico intransigente, encerrou-a almejando ser um líder do Islã. Essa reviravolta se esboçou na aurora dos anos 90, em primeiro lugar porque as coisas começaram a degringolar para ele e, quando as coisas degringolam, o homem é feito de tal maneira que se volta para seu Criador. Mas, e isso é o principal, ele começou a se tomar por Khomeini. Por Khomeini?, nós nos espantamos. Sério? Sim: embora tenha travado contra ele uma guerra sem misericórdia, bem no fundo o admirava, pois Khomeini sabia se colocar como poder absoluto, e quis imitá-lo. O diabo imita o bom Deus, é como nosso aiatolá nos explica a coisa.

No carro, após esse encontro, conversamos animadamente. Sami e o doutor Khadum, que não são religiosos, julgam a explicação capciosa, se não bizarra – esperávamos um pouco de paranoia da parte deles, mas, de maneira geral, acham engraçada a nossa empreitada, uma tarefa descontraída e sem grandes desafios entre duas missões mais pesadas. Não obstante, aquilo me intriga. Um sujeito que pretende ser um líder do Islã pode construir mesquitas, abrir escolas corânicas, declarar a guerra santa, fazer tudo que quiser, menos escrever um Alcorão com o próprio sangue – uma atitude que não precisa ser grande clérigo para saber que é sacrílega. Um sujeito que deseja imitar o aiatolá Khomeini não começa por escrever um equivalente de Os Versos Satânicos. Ou começa?

“Não”, reconhece o doutor Khadum, pensativo. “Mas e um sujeito que quisesse desafiá-lo?”

Um pouco mais tarde, para equilibrar a balança, encontraremos, ao pé da sua própria mesquita, outro majestoso ancião de barba branca: o xeque Sumadai, mufti da República e grão-ulemá dos sunitas. Os rostos dos dois irmãos inimigos já se confundem em minha memória, tanto mais que é somente por ínfimos detalhes, como o drapejado do turbante, que um religioso sunita se distingue a olho nu do seu par xiita. Sobre o Alcorão de Sangue, o xeque não tem nada de muito interessante para contar. Reconhece que era evidentemente haram e, visto que o colégio de eruditos que endossou a iniciativa era composto de sunitas como ele, sente-se obrigado a dizer, encolhendo os ombros, que, em toda parte, sempre há pessoas mais amigas do poder do que da religião. É triste, mas é assim. O mais interessante é a total desfaçatez com que confessa ter saudades de Saddam. Pois o Iraque, em sua época, era senhor do seu destino e não joguete de potências estrangeiras. Hoje, o primeiro-ministro não pode deslocar um funcionário ou militar graduado sem o aval da embaixada americana. “É como a ocupação alemã na França”, ele diz, “e nossos políticos de hoje são tão respeitados quanto o governo de Vichy.” Não sei se o mufti tem uma abordagem desse tipo para cada um de seus interlocutores estrangeiros, mas, no caso de um francês, acertou na mosca.

Mais uma vez, o briefing no carro é instrutivo. Sami e o doutor Khadum aproximam-se ambos dos 60 anos. Um foi soldado, depois pugilista, antes de guiar e proteger jornalistas, que, como Lucas, lhe são fiéis porque ele tem uma cabeça incrivelmente boa e a gente se sente não só em segurança, como simplesmente bem em sua companhia. O outro estudou nos Estados Unidos, é professor de inglês e jornalista, um homem culto, pacato, circunspecto, mas tudo isso não basta para alimentar sua família. Ao longo de suas vidas, conheceram sucessivamente a guerra contra o Irã, a desastrosa invasão do Kuwait, o embargo e as sanções econômicas que devolveram seu país à idade da pedra, o caos que sucedeu a invasão americana e, como cereja do bolo, o Estado Islâmico: trinta anos de sofrimento condensado, mas os dois são velhos o bastante para se lembrar de uma época em que ninguém se preocupava em saber se ele mesmo ou seu vizinho era sunita ou xiita. Uma época em que as garotas de minissaia encontravam nos cafés, onde eram servidas bebidas alcoólicas, à beira do Tigre, rapazes de terno e mocassins italianos que desciam de carros esporte de cores chamativas: a dolce vita em Bagdá.

O Iraque era então um país moderno, próspero, laico, um país do Oriente Médio como o Ocidente sonhava que todos viessem a ser, e o seu presidente, um ditador, acredite se quiser, bastante apresentável. Todo mundo se extasiava ao firmar vultosos contratos com ele, a começar pelos primeiros-ministros franceses Raymond Barre e Édouard Balladur e pelo presidente Jacques Chirac, que desviavam o rosto quando Saddam matava com gás suas populações curdas com a ajuda de seu ministro e primo, o general Ali Hassan al-Majid, ironicamente alcunhado “Ali Químico”. Então, naturalmente, quando era iraquiano, um indivíduo sabia que Saddam era perigoso, caprichoso e cruel, mas, caso não caísse nas garras do Mukhabarat, versão local da KGB, e tivesse a sorte de não esbarrar com Udai Hussein embriagado, ele até que vivia bem. Até os pobres comiam conforme sua fome. Os serviços públicos funcionavam, o atendimento médico era gratuito e excelente, era possível comprar sua casa, ter fundadas esperanças de que os filhos teriam uma vida melhor, passar férias no estrangeiro – todas essas coisas inconcebíveis no Iraque de hoje. Conheci muitos russos, nos anos 90, que sentiam saudades da União Soviética porque, mesmo ruim, qualquer ordem é preferível ao caos. Reencontro isso no Iraque, em pessoas honestas, decentes no sentido da common decency de George Orwell, como o doutor Khadum e Sami: não é a maneira de exercer o poder que eles recriminam em Saddam, mas a loucura que o levou a perdê-lo.

(Menget)

Durante um jantar, apresento a Emmanuel meus dois primeiros fixers no Iraque, Mohammed e Muthanna. Ambos fizeram carreira na segurança, setor que ignora a crise do Iraque. Tornaram-se prósperos empresários, viajam e são muito bons amigos. Diverte-os um pouco, eu acho, chamar dois carros blindados, com guarda-costas silenciosos e pesadamente armados, para ir buscá-los no meu hotel. Mas eles andam realmente preocupados. A criminalidade é endêmica, os sequestros, diários. Eles se odiariam se me acontecesse alguma coisa no trajeto para Jadriyah, antigamente um bairro elegante, onde eles têm seus escritórios. Hoje a zona está infestada de milícias, todas mais ou menos competindo umas com as outras, mas sobretudo lutando contra o exército e a polícia. E ambos, em coro, também sentem saudades da época de Saddam. Quando argumento que nenhum dos dois poderia ter criado sua empresa e feito fortuna, eles replicam o.k., o.k., mas de que serve ser rico num caos como esse, vivendo com um frio na espinha e sem nenhuma garantia de futuro? Sim, Saddam era louco, mas, enfim, seja como for, a vida era mais simples. Explico a razão da nossa viagem a Bagdá. Silêncio, sorrisos, mas principalmente: “Lucas, logo você que está a par da situação, não acha que há coisas mais importantes para contar sobre o Iraque? Não acha que temos problemas mais graves do que um velho Alcorão escrito por um louco?”

Em todo caso, Muthanna aceita mergulhar um pouco em suas lembranças. Uma noite, na casa dos pais, viu na televisão Saddam Hussein debruçado sobre as páginas desse Alcorão. O comentário esclarecia que o texto havia sido escrito com o sangue do presidente… Alguns dias mais tarde, foi vê-lo no pequeno museu que expunha os presentes recebidos por Saddam. “Fui lá à toa, só para ver; na verdade era apenas um Alcorão a mais, depois esqueci.” Muthanna, como tantos outros iraquianos irreprocháveis, tinha ido como curioso ver a última loucura do ditador. Como se para constatar que aquele governante, que de início eles tinham visto como um paizinho laico e um pouco violento, estava pirando. Após a derrota na Guerra do Golfo, alguma coisa mudara. Havia o terror espalhado por Udai, as prisões arbitrárias, a tensão palpável em toda parte o tempo todo, as ameaças de guerra. Veio então a reviravolta religiosa mencionada pelo nosso aiatolá. Em 14 de janeiro de 1991, por exemplo, sob as três estrelas da bandeira nacional aparece a menção Allahu Akbar, que significa “Deus é o maior”. As palavras foram manuscritas pelo próprio Saddam Hussein, anunciou então um comunicado do partido Baath. Curioso, muito curioso, em janeiro de 1991, em plena derrocada da operação kuwaitiana, o presidente se gaba de sua caligrafia religiosa…

Simultaneamente, ele dá início à construção de uma mesquita um pouco especial. Vai se chamar Umm al-Ma’arik, ou seja, a “mãe de todas as batalhas”. Justamente o nome da operação militar no Kuwait! Com o passar do tempo, os bagdalis irão chamá-la de “a mesquita de Saddam”, uma vez que simboliza seu delírio militar-religioso; a propósito, seus minaretes são em forma de mísseis Scud e de carregadores de Kalashnikovs. E é lá, eu penso, que foi depositado o Alcorão de Sangue após a queda do regime e da dispersão dos bens de Saddam, como atesta o jornalista australiano que viu algumas páginas no local, no fim de 2002 – depois disso ninguém mais o viu em parte alguma. A mesquita sunita também é um feudo de “saddamistas”. Durante todos os anos da guerra civil e da guerrilha contra os americanos, digamos de 2004 a 2011, Umm al-Ma’arik foi um lugar perigoso, onde era desaconselhável ir sem convite formal e sem escolta. Ali se reunia a última célula de adeptos do regime baathista, tramavam-se obscuras alianças entre religiosos e militares veteranos, todos convencidos de que a solução para o Iraque seria a volta do antigo regime, com ou sem Saddam. Por fim, parece lógico que esse Alcorão tenha sido colocado ao abrigo num lugar temido pelos xiitas, onde os jornalistas não são bem-vindos e do qual todo mundo desconfia um pouco.

É uma manhã monótona, como às vezes em Bagdá. Emmanuel está cansado e, quanto a mim, não me agrada ir a esse bairro. Atravessamos toda a cidade sem trocar uma palavra no Jeep. Sami tampouco está satisfeito. Essa região, Gazalyah, é muito pobre, as estradas estão em petição de miséria e acabam com o que resta da suspensão do carro. As casas são baixas, as palmeiras, cinzentas. Há terrenos baldios entre cada pequeno bairro, onde, não faz muito tempo, sunitas e xiitas se matavam. Chegamos em frente à entrada. Sami deve estacionar e permanecer no carro. Não gosto muito quando ele não está conosco. Ele também não. Primeira barreira, as poças de lama que atravessamos a pé. Verificam se não temos armas. Na segunda, deixamos os celulares. Chegamos a um estacionamento gigante e deserto. Ao redor da mesquita dos minaretes bélicos, prédios novos de vidro. Terceira guarita. Tomam nossos passaportes. Pronto, estamos nus em pelo. Khadum parece um pouco desorientado. Veio fazer um reconhecimento na véspera, mas tampouco gosta do lugar. Pedimos para falar com um responsável religioso. Damos sorte, há um, num prédio praticamente vazio do vasto loteamento construído em volta da mesquita.

Após tomarmos alguns chás, sentados em sofás de espera, somos levados ao gabinete do doutor Ammer Shaker al-Janabi, que dirige o waaf sunita, isto é, a autoridade administrativa das mesquitas dessa facção religiosa. A conversa incide sobre a guerra contra o Estado Islâmico, as batalhas que destruíram inúmeras das 12 mil mesquitas do país e os mártires, todos os jovens caídos em combate, em cuja homenagem Al-Janabi está escrevendo um livro. Depois, falamos sobre a mudança de nome da mesquita, que vemos pela janela. Ela não se chama mais Umm el-Ma’arik, mãe de todas as batalhas, e sim Umm al-Qura, mãe de todas as cidades, em alusão às cidades que circundam Meca. É muito mais consensual, e menos beligerante. Cumpre saber virar a página, diz o doutor, seguir em frente, trabalhar pela reconciliação nacional.

Termino guardando a caderneta e fazendo a pergunta. Silêncio, ainda mais longo do que o de praxe. Os olhares voltam-se uns para os outros – pois evidentemente alguns conselheiros e convidados assistem à entrevista. Ao fim e ao cabo: “Sim, ouvi falar. Vi na televisão quando era jovem.” Insisto: “Li em algum lugar que esse Alcorão está aqui…” Outro silêncio, depois gesto vago na direção da mesquita: “É, acho que esteve aqui, mas não está mais. Partiu.” Partiu, mas para onde? O doutor parece irritado: “Você deve perguntar ao governo.” Isso é o que se chama tomar uma ducha de água fria. Mas o doutor é educado. Autoriza-nos a visitar a mesquita, manda inclusive seu conselheiro nos acompanhar.

O edifício é imenso, glacial, lúgubre. O mármore branco desgastado, um pouco amarelado. Tudo exala um misto de angústia e tristeza através das pedras, do carpete e das cadeiras de plástico dispostas aqui e ali. Na entrada, observamos numa placa de mármore a assinatura de Saddam Hussein. Visivelmente tentaram apagá-la, depois voltaram atrás. Continua lá, um pouco esmaecida. Chegam o imã da mesquita e outro homem, a quem apelidaremos de “o guardião das chaves”, porque agita um monte delas num chaveiro. A mesquita está vazia e o imã lamenta que fique assim quase o tempo todo, mesmo nas manhãs de sexta-feira: “Só vêm as pessoas dos escritórios em volta, quem é do bairro vai a outro lugar.” Excelente oportunidade para eu perguntar se a mesquita não dá um pouco de medo. Se não há fantasmas circulando, como, por exemplo, o de… Saddam Hussein? O homem sorri: “Saddam, saiba o senhor, queria bancar o religioso, mas quase não era visto rezando, quase nunca vinha…”

Faz frio, o sol mal atravessa as vidraças cobertas de versículos do Alcorão. O homem das chaves começa com o imã uma conversa que não compreendo e que Khadum tem dificuldade em traduzir. Saddam está muito presente, mas claramente num tom de gracejo. Arrisco mais uma vez a sorte, com um grande sorriso ingênuo: “Me disseram até que ele mandou escrever um Alcorão com o próprio sangue e que ele se encontra aqui…” O homem das chaves agita seu chaveiro e aponta para uma janela: “Claro que sim, olhe, naquele pequeno prédio adjacente à mesquita… Sou eu que tenho as chaves e sou o único a tê-las.” O coração acelera. Roçamos no Graal, talvez? A resposta é não. “É uma pena, mas ele partiu há um ano.”

“Ah, mas para onde?”

“Não sei, sou apenas o encarregado das chaves. Não tenho poder, eu apenas guardava o livro para protegê-lo de um roubo ou uma depredação. Aliás, não é exatamente um livro, são páginas. Formato A3.”

O imã e o homem das chaves pegam duas folhas brancas A4, que colocam lado a lado para nos mostrar o tamanho exato. A3, então. “Estavam todas ali, protegidas dentro de um baú à prova de balas para que, mesmo em caso de ataque à mesquita, não fossem destruídas.”

O homem das chaves acrescenta um detalhe: ele só mostrou o Alcorão uma única vez a um jornalista, e se arrepende um pouco disso. Mas o jornalista insistiu tanto, recusando-se a partir, que o homem das chaves foi pegar uma página no esconderijo e mostrou a ele. É exatamente o que conta David Blair, o jornalista australiano, em sua reportagem no Telegraph em 2002. Tudo se encaixa.

Tudo se encaixa, mas, a crer naqueles homens que, pela primeira vez, levam nossas buscas a sério, perdemos o Alcorão de Sangue por apenas um ano. Eles parecem um pouco preocupados com aquele tesouro, que suspeitam ter sido vendido no estrangeiro. “Nos Emirados Árabes Unidos”, sugere um.

“A propósito, só para saber, senhor guardião das chaves, posso anotar o seu nome? Fotografá-lo?”

“Não, por favor, não, não quero, não quero.”

Mesmo de longe, quando, deixando o local, tento discretamente fazer uma foto, o homem das chaves nota e desvia o rosto.

 

(Carrère)

Quando saímos, um pouco decepcionados com a nossa visita à mesquita Mãe das Batalhas, depois das Cidades, o doutor Khadum consulta seu relógio: temos algum tempo até o nosso próximo encontro, podemos, se me apetecer, dar uma volta na Mutanabbi, que é a rua dos livreiros, e perguntar o que eles sabem sobre Zabiba e o Rei, um livro desconcertante que eu trouxe para essa viagem. Foi publicado no fim de 2000, em Bagdá, com a enigmática menção: “Por seu autor.” Esse autor, que quis permanecer anônimo, todo mundo no Iraque sabe que é Saddam Hussein, assegura o prefaciador da tradução francesa. Todo mundo, não posso garantir, mas fiz a pergunta a Sami e ao doutor Khadum e repete-se a história do Alcorão de Sangue: não leram, mas o conhecem.

O que me seduz de cara é o fato de haver em Bagdá uma rua dos livreiros, onde é possível circular. Pode-se inclusive passear nela ao sol, por cerca de 500 metros, entre bancadas ao ar livre, onde se misturam livros de aprendizado de idiomas, manuais de trabalhos domésticos, edições capengas de clássicos anglo-saxões, folhetos biográficos sobre Moshe Dayan, Karl Marx, Lênin ou Adolf Hitler. Fazemos uma pequena sondagem sobre Zabiba. Todos os livreiros conhecem o livro, nenhum deles duvida que seja da autoria de Saddam, poucos o têm em estoque: não é um item muito procurado. Embora sem traquejo com edições árabes, comprei um exemplar, que vamos folhear num velho café, ponto de encontro tradicional dos intelectuais laicos bagdalis. Essa grande sala escura e sossegada, onde se ouvem as peças de dominós deslizando suavemente, as chichas sendo gorgolejadas e rosários sendo debulhados, foi alvo de diversas explosões. O velho sereno e risonho que trabalha no caixa perdeu seus dois filhos no último atentado, há dois anos.

Resumo o que li de Zabiba para os meus amigos. É uma espécie de conto filosófico, escrito no estilo de As Mil e uma Noites, em que um rei sábio e poderoso expõe seus pontos de vista sobre o mundo à jovem do povo que partilha sua cama. Nele, topamos com previsíveis imprecações contra o sionismo (entre as quais “A abominável aliança com a América transformou o mundo em pesadelo”), uma não menos previsível exaltação ao Iraque e ao seu guia (“Um cavaleiro ergueu-se sobre sua montaria, brandiu sua espada e proclamou com voz firme: ‘Aqui estou, Iraque, único nesta terra a bradar: Chega de injustiça e tirania!’”), mas também considerações menos esperadas sobre a liberdade sexual da mulher e até mesmo a igualdade entre os sexos. Guardadas todas, mas rigorosamente todas, as proporções, é um pouco como o Alcorão, onde se pode pescar tudo que se quiser para legitimar tudo que se pensa: exortações a massacrar o infiel, mas também o princípio universal: “Não se pode forçar ninguém a aceitar uma religião.”

Terá sido mesmo Saddam quem escreveu isso? Se ele permitiu que o afirmassem quando estava vivo, inclusive no Babel, o diário que, entre mil outras sinecuras, Udai dirigia, certamente sim. E ocorreu-me que o crepúsculo do seu reinado foi muito estranho. Arrastado pela hybris, que levou à perdição a maioria dos ditadores, ele apostou tudo ao invadir o Kuwait em 1990. Pensava estar colocando o mundo perante um fato consumado, poderia colar, não colou: o mundo formou uma coalizão contra Saddam. Ele deveria ter morrido ou fugido, mas permaneceu doze anos à frente de um Estado que, por sua culpa, tornou-se arcaico, miserável e pária. Atravessou esses doze anos de embargo e sanções draconianas – enquanto as crianças do seu país morriam de fome e a secretária de Estado americana Madeleine Albright, interrogada sobre esse desastre humanitário, respondia friamente: It’s worth doing it (explicitamente: se isso faz Saddam quicar de raiva, vale a pena) – impingindo a história do herói solitário em luta contra todos e compondo uma canção de gesta que assumiu todas as formas bizarras que mencionamos: os diálogos filosóficos com Zabiba, a propaganda literalmente delirante (Ceausescu não era nada, comparado), os minaretes em forma de Kalashnikov e, a mais bizarra de todas, o Alcorão de Sangue que eu adoraria desencavar e ver com meus olhos, claro, mas do qual gostaria principalmente de compreender o sentido. Mais uma vez: o que ele tinha na cabeça ao fazer aquilo?

Não é nosso encontro seguinte que irá nos esclarecer. É com um político xiita chamado Mowaffak al-Rubaie, que exerceu altas funções no primeiro governo iraquiano sob ocupação americana, ainda almeja postos mais altos, debaixo do rótulo de centrista (“Como Macron entre nós?”, diz Lucas, adulando-o, sem vergonha) e se mostra irritadíssimo com o objeto da nossa reportagem. Exaspera-o, ele repete, essa paixão da mídia ocidental pelo pitoresco chamativo, pelo exotismo fabricado, por tudo que denota o inquietante atraso do seu país. Ouço o argumento, abaixo a cabeça em contrição, mas ainda assim me pergunto se ele é o mais bem posicionado para dizer isso, quando, adentrando seu salão – um aposento sinistro do tamanho de um campo de futebol, com as janelas vedadas e mobiliado com cadeiras de jardim encardidas pela umidade –, a primeira coisa que vemos é um enorme busto de bronze de Saddam. Eu disse enorme, cinco ou seis vezes a minha cabeça, e a cabeça no salão tem um pescoço e em volta desse pescoço uma corda, e quando, uma vez assimilada sua saraivada de irados sarcasmos, perguntamos a Mowaffak al-Rubaie o que é aquela corda, ele sorri pela primeira vez e responde com bonomia:

“O que acham? É a verdadeira.”

“A verdadeira o quê?”

“A corda verdadeira que serviu para enforcar Saddam Hussein.”

Explicação: foi nosso anfitrião, na época chefe da Segurança Nacional, que, em 2006, acompanhou pessoalmente o ex-todo-poderoso do seu país até o cadafalso. Saddam, ele se lembra, recusou que lhe vendassem os olhos: pode-se falar o que se quiser dele, mas era corajoso. Uma vez terminada a função, Al-Rubaie não sabia o que levar como suvenir: a camisa do defunto? Seu paletó? Escolheu a corda, doravante um bibelô do seu salão. Junto com a cabeça de bronze, que fazia parte de uma das inúmeras estátuas derrubadas pelos americanos, é uma das três relíquias que ele guarda de Saddam. A terceira sendo uma Kalashnikov de prata. Existe igualmente uma de ouro, mas nesta quem botou as mãos foi o primeiro-ministro Nouri al-Maliki. E o Alcorão de Sangue? Al-Rubaie dá de ombros: é uma lacuna em sua coleção, alguém certamente o subtraiu, mas ele não sabe quem, e está se lixando para isso.

 

(Menget)

Ao contrário de Emmanuel, não penso que Mowaffak al-Rubaie esteja se lixando para o Alcorão de Sangue. É uma postura, uma maneira de dizer que não vai se manifestar e que evocar tal lembrança em período eleitoral deixa-o numa posição delicada. Tanto não está se lixando que, em 2010, tomou parte no único debate parlamentar dedicado a essa questão sensível. Durante alguns instantes, o livro mobilizou a atenção dos deputados: convinha destruí-lo ou não? E ele fazia parte, com veemência, justamente dos que eram a favor de conservá-lo como testemunho da ditadura. Portanto, tudo que Al-Rubaie quer, uma vez terminado seu teatro, é nos despachar e não cair na lábia de jornalistas. Sua maneira de esquivar-se do assunto reforça minha convicção.

Emmanuel chama o dia seguinte de “o dia da dúvida”. É uma definição correta, que corresponde a uma sensação vaga e angustiante, geralmente no meio de uma reportagem, quando os elementos parecem não se encaixar mais entre si, quando o tempo se esgarça em longas horas sem trazer nenhuma resposta a nenhuma pergunta. Contudo, eu esperava muito da nossa visita à Academia de Belas Artes, onde fica a Escola de Caligrafia. Pois era preciso dois para dançar a dança macabra do Alcorão de Sangue: o contratador e o escriba, o ditador e o calígrafo, cercados de religiosos servis e assustados. E a caligrafia, no Iraque, é assunto sério. A propósito, a estátua que recebe estudantes, professores e visitantes no pátio da Academia é do primeiro calígrafo da era moderna. Em todo o mundo árabe, os iraquianos são conhecidos pela qualidade de sua arte. Não esqueçamos que foi aqui, entre o Tigre e o Eufrates, que homens inventaram a escrita, em plaquinhas de argila. Passei alguns anos estudando essas civilizações até constatar que preferia a reportagem às bibliotecas. Na época, éramos poucos, na faculdade de história, a nos iniciar no hitita, no sumério e no acadiano. Poucos, mas todos fascinados por aquelas aulas em que aprendíamos a decifrar tabuinhas de cuneiformes em fotocópias ruins, escutando ao mesmo tempo a epopeia de Gilgamesh, rei de Uruk em 2650 a.C., cujas façanhas alimentaram todos os mitos da região, a começar pela Bíblia.

Aqui estamos, na Academia. É um pouco vetusta, antiquada, com longos corredores por onde passam estudantes descolados, os rapazes de calças slim e penteados hispter, as moças de jeans e blusas cintadas, o véu jogado ligeiramente para trás, deixando passar uma mecha de cabelo, à moda iraniana. Nas paredes, afrescos, pinturas, caligrafias e reproduções de cuneiformes. Somos imediatamente recebidos pelo reitor. Chá, sofás. Seu gabinete é um tanto escuro, nas paredes estão penduradas reproduções de quadros europeus (Bonaparte na Ponte de Arcole, de Antoine-Jean Gros, A Ronda Noturna, de Rembrandt) e suratas do Alcorão. O doutor Zia Taha al-Kaissi impõe respeito, com seu basto bigode, confinado num terno de três peças em voga em 1910, triturando obstinadamente um maço de cigarros finos muito apreciados pelos homens no Iraque. Sente orgulho em falar da sua academia. Oitocentos estudantes, um ciclo de três anos de estudos, com recursos escassos…

Assim que abordo a questão da caligrafia, ele pede à sua secretária que chame os professores do departamento. Chegam quatro deles, instalam-se nos sofás à nossa frente, sorridentes, educados, felizes de discorrerem sobre seu saber, em especial a caligrafia corânica, ensinada pelo professor sentado defronte de mim: Abdul Hussein Radhawi, homem sofisticado, sereno, na casa dos 60 anos, barba branca modelada com esmero. Explica-nos pacientemente essa tradição que, a despeito das vicissitudes do país, perpetuou-se no Iraque. Declara que todo calígrafo talentoso desenvolve sua própria gramática gráfica e que todos se reconhecem mutuamente por alguns pequenos detalhes numa letra, a forma de uma consoante… Um bom calígrafo corânico não precisa assinar sua obra, ela será reconhecida ao primeiro relance. Aproveito para mencionar o Alcorão de Sangue. Dos cinco homens da arte da caligrafia presentes na sala, nenhum quer tomar a palavra em primeiro lugar. É então o reitor, do alto da sua autoridade, que responde: “Isso é do âmbito da propaganda, não é arte.”

A conversa poderia parar aí, afinal não se discute um trabalho de propaganda na Academia de Belas Artes. Mas não, todos terminam dando sua opinião. Para eles, antes de qualquer coisa, não se trata em absoluto de um Alcorão “de sangue”, e isso pura e simplesmente porque o sangue seca muito rápido, ao passo que a tinta deve estar permanentemente úmida. O sangue não é nem um pouco fluido, ao passo que é preciso poder fazer letras esguias e de uma só penada, sem machucar nem arranhar o papel. Logo, impossível com sangue. O reitor tem inclusive uma opinião mais política. “Apesar de tudo, Saddam Hussein era muito inteligente, deixou acreditarem que era seu sangue, mas nunca teria assumido, perante os religiosos que o aconselhavam nessa época, a utilização real do seu sangue. Ele nunca teria cometido esse erro.” Para eles, toda essa história é uma fraude: Alcorão falso, sangue falso. Apenas um lance de propaganda para fazer o povo iraquiano acreditar que ele era o comandante dos crentes. Quanto ao calígrafo que o realizou, conheciam-no, naturalmente: “Todos nós nos conhecemos. Ele tinha muito talento, mas não era professor da Academia.” Subentendido, não era do círculo deles. Era, dizem, um calígrafo autônomo, instalado num ateliê de Adhamiyah, onde copiava o Alcorão para clientes particulares, não pela arte, nem pela transmissão desse saber.

Percebo no tom do professor Radhawi uma ponta de desprezo. Ele gostaria de encerrar o assunto para voltar a coisas mais essenciais. “Não é uma obra artística, logo não tem nenhum interesse para nós.” Em seguida, abrindo um amplo sorriso, profere estas palavras: “É grande a distância entre suas orelhas e seus pés…” Os outros se escangalham de rir, Emmanuel e eu anotamos a frase sem entendê-la direito. O reitor a “traduz” por uma expressão mais europeia: só acredite no que vê. Contam-lhe coisas, mas você não viu com os próprios olhos. Como pode afirmar sua existência? Não deixa de ter razão, mandou bem. Para esses calígrafos acadêmicos, um Alcorão escrito com o sangue de Saddam não é tecnicamente possível, e ninguém mais sabe do seu paradeiro. E como não tem nenhum valor artístico, não vale a pena procurá-lo.

A propósito, preferem conduzir-nos até o seu departamento, para nos mostrar obras de arte verdadeiras. Cada qual nos faz admirar os êxitos de seus alunos, alguns trabalhos já emoldurados, outros ainda avulsos, em folhas grandes. Sentem orgulho, esses professores de caligrafia, e com razão: conseguem perpetuar uma arte que exige calma, tempo, concentração, num país que não se presta a isso. O professor Radhawi senta-se, pega uma folha e um tinteiro preto. Abre-o. Com efeito, a tinta é bem úmida. Aponta o cálamo de bambu com um estilete. A ferramenta não mudou, desde o cuneiforme. Ele mergulha na tinta a ponta afinada, revestida com um retalho de meia-calça feminina para lhe conferir textura. E, sem uma palavra, sob o olhar dos outros um pouco invejosos, começa a desenhar, ou a escrever, não saberíamos dizer – de tal forma o gesto é ao mesmo tempo amplo, preciso e rigoroso –, alternando grandes curvas e pontinhos quase invisíveis. Ele sorri timidamente, se debruça, vira a folha, mergulha seu bastonete e recomeça.

Diante dessa demonstração, Emmanuel e eu pensamos exatamente a mesma coisa, na frase pronunciada pelo calígrafo do Alcorão de Sangue em sua única entrevista: “Trabalhei dia e noite, com uma espada na nuca. Quase perdi a vista por causa desse Alcorão.” O professor teria pretendido nos mostrar como foi árduo o trabalho de seu colega, mesmo não passando de um calígrafo autônomo? Impossível saber, e seria inconveniente perguntar. Após uma boa meia hora para caligrafar três palavras do Alcorão, ele indaga meu nome, escreve-o em árabe sob o desenho e me estende a pequena página. Um grande sorriso, um abraço e três beijos na mesma face, à moda iraquiana. Ele percebeu minha emoção, ficou tocado, mas estou mais ainda. No meu cérebro ressurgem as imagens de minhas tabuinhas de argila na Sorbonne. Ele não diz uma palavra, mas tenho a impressão de ouvi-lo me aconselhar a desistir da minha busca e a voltar a coisas um pouco mais sérias.

A dois passos da Academia está o Museu Nacional, onde fica o gabinete do vice-ministro da Cultura, Qais Hussein Rashid. Conheço-o um pouco, já o entrevistei, e várias pessoas, um pouco mais um pouco menos dignas de fé, nos disseram que o nosso Alcorão talvez se encontrasse no seu museu. Apesar de não termos agendado um encontro, o que nunca se faz com os funcionários iraquianos, irrompemos e arrancamos “uma breve conversa”. O ministro, no fundo do seu escritório com oito sofás dando para o jardim do museu, é um quarentão superelegante, terno sob medida, cabelo penteado para trás, sem barba nem bigode: diríamos um ministro italiano. Inicio a entrevista sem atentar muito para a presença de um homem sentado um pouco adiante. Falo das obras de arte em geral, da situação dos museus de Mossul destruídos pelo Estado Islâmico, da ajuda internacional etc. Chega a hora da minha pergunta sobre o Alcorão de Sangue. O ministro me relanceia com um olhar glacial e se dirige a Khadum em árabe: “Ouvi falar, mas não sei onde está, e esse Alcorão não tem nenhum interesse histórico. Pergunta seguinte?” “Bola fora”, não fosse o senhorzinho sentado atrás de mim, que, nesse momento, se levanta para fazer o ministro assinar uma petição.

Esse senhorzinho talvez tenha 70 anos, gorducho, mãos de camponês, uma túnica puída e comprida demais. Diz estar vindo do escritório do primeiro-ministro, avança para fazer o ministro assinar seu papel, recua com deferência. De repente, sem qualquer aviso, se lança numa longa digressão. Khadum tenta traduzir, mas o senhorzinho não lhe dá tempo para isso. Tento interrompê-lo, ele faz como se eu não existisse. O ministro observa-o, entre divertido e irritado. Com efeito, o senhorzinho se intrometeu na nossa conversa, e ele se enerva. É preciso dar um fim a essa mistificação do Alcorão de Sangue, declara. “Ele não é redigido com sangue, mas com tinta, conheço perfeitamente o calígrafo que o fez, era meu amigo. Saddam obrigou-o, e o teria matado caso se negasse.” Khadun tenta traduzir, o ministro tenta interrompê-lo. Meu olhar vai de um a outro. Capto alguns fragmentos e aquele personagem, despejando uma verborreia incompreensível, me irrita um pouco. Mas ele continua, e os detalhes que fornece começam a nos interessar seriamente. “Saddam Hussein deu de presente para ele um apartamento e um carro, um Chevrolet Caprice, o das pessoas importantes. Instalou-o na Zona Verde, quando ele não era professor, simplesmente calígrafo.” O senhorzinho esclarece que também era calígrafo e, aliás, para provar isso, nos mostra e apresenta ao ministro sua carteira de membro da Associação Iraquiana de Caligrafia. E acrescenta que não havia muito sangue na tinta. Que era uma mistura, “com apenas uma ou duas garrafas do sangue do ditador”. Recomponho-me e interrogo-o sobre o calígrafo. Quem era ele? Como viveu aquele momento? O ministro não quer de jeito nenhum que a conversa continue, mas não pode fazer nada para deter o homenzinho. “Ele tinha uma primeira mulher e três filhos. Depois se casou com outra, e mais três filhos. Partiu com a segunda e os últimos filhos para o estrangeiro, fugiu, teria sido morto, mas tudo isso é um embuste, não foi culpa sua.” Ao longo do seu discurso, compreendo que ele procura reabilitar o calígrafo. Faz questão absoluta de dar a sua versão. O ministro põe fim a essa cena surrealista, levanta-se e despacha todos nós.

 

(Carrère)

Num filme antigo de Scorsese, Depois de Horas, há uma cena que me marcou: lançado numa espiral de paranoia urbana particularmente angustiante, o herói quer fazer, de um telefone de bar, a ligação que o salvaria. Mas, quando vai discar, seu vizinho de balcão, só de sacanagem, parece, começa a vomitar cifras ao seu ouvido, de modo muito rápido e em voz alta, e esse dilúvio ensurdecedor de algarismos parasitas impossibilita que ele forme o número do telefone: pura e simplesmente, o cérebro humano não consegue tratar essas duas informações ao mesmo tempo. Foi a impressão que me deu a inextinguível verborreia do velhinho no gabinete do ministro: para ter certeza absoluta de que ninguém faria um aparte, ele repetia dez vezes a mesma coisa, de enfiada e cada vez mais alto. Com uma veemência e uma cólera crescentes, cobrindo todas as nossas tentativas de interrompê-lo, terminou praticamente berrando que o calígrafo Abbas Joudi al-Baghdadi, ele o conhecera bem, muito bem, ninguém o conhecera melhor do que ele, e que o que ele poderia nos dizer sobre isso, se perguntassem com educação, era a verdade, a única, a verdadeira, sobre a questão que nos ocupava.

Enquanto batíamos em retirada, estupefatos, o doutor Khadum teve tempo de pedir ao velhinho seu número de telefone. Ligou para ele, convidou-o para almoçar no dia seguinte, e o esperamos, agora no salão VIP, reservado por zelo de discrição, de um agradabilíssimo restaurante de peixe à beira do Tigre. (O peixe é uma carpa, considerada uma das especialidades iraquianas mais saborosas e temida por todos os estrangeiros, de tão seca e insossa). O velhinho não aparece na hora combinada, nem uma hora mais tarde, nem duas horas mais tarde. Para passar o tempo, submeto a Lucas hipóteses altamente paranoicas: terá sido realmente um acaso ele estar no gabinete do ministro justo no momento da nossa visita?

O encontro fora totalmente improvisado, nós nos apresentamos no impulso, sem agendar previamente, o que parece excluir a hipótese de que um comitê de recepção estivesse nos esperando. Mas me falaram tanto da eficiência ardilosa do Mukhabarat, buzinaram tanto que nossos computadores seriam vasculhados, nossos telefones grampeados, nossos mínimos gestos vigiados, que me pergunto se os progressos da nossa investigação são não apenas acompanhados hora a hora, minuto a minuto, como antecipados, tipo algoritmos do Google, e se não teriam maquiavelicamente lançado aquela testemunha por demais providencial no nosso caminho. Dito isso: por quê? Por que nos direcionar para aquela pista em particular? De que outra pista eles estariam querendo nos desviar?

Esperamos então nosso convidado um tempo sem fim, devorando cumbucas inteiras de azeitonas e homus prudentemente pedidas em lugar da malfadada carpa. Começamos a nos resignar, pensando ter levado um bolo, mas ei-lo que chega, menos iracundo que na véspera, quando não jovial, salvo que, uma vez sentado, sem qualquer preâmbulo, volta a se lançar numa de suas tiradas impetuosas, que o doutor Khadum tenta em vão represar.

Resumo. Igualmente calígrafo, Hias (é seu prenome) é desde a juventude um grande amigo de Abbas Joudi al-Baghdadi. Hias estudava na Belas Artes, Abbas não. Nascido numa família pobre do bairro de Kadhimiyah – xiita, lembro –, Joudi não fez estudos. Começou como pintor retratista até tornar-se um calígrafo autodidata, tendo passado anos recluso em sua casa a forjar um estilo tão pessoal que, a um especialista, basta um único relance para identificar uma produção sua. Cada uma das letras que ele desenha é como uma nota musical, diz Hias, e uma página de sua lavra, uma espécie de sinfonia. Apesar disso, muito modestamente, abriu uma pequena loja no bairro de Adhamiyah – sunita, lembro, sem compreender muito bem o que implica essa passagem de um bairro a outro, de uma comunidade a outra, mas vale a pena notar que o nome de guerra que ele escolheu, Al-Baghdadi, é tipicamente sunita, além de ser o mesmo do fundador do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi.

Sem status oficial nem qualificação universitária, Abbas era não obstante considerado um mestre, o que em si já é algo de espantoso, me explicará o doutor Khadum. Pois a figura romântica do artista poderosamente original cujo talento eclode à margem de toda instituição acadêmica é um clichê na França desde os impressionistas, mas não vigora absolutamente nem no Iraque nem no mundo árabe, onde o prestígio é indexado pelos títulos e o reconhecimento oficial. No entanto, é como uma espécie de Van Gogh da caligrafia que seu amigo Hias se refere a Abbas. E, de fato, deve ter sido essa forma de glória, atípica e marginal, que lhe valeu, mais que a um calígrafo juramentado como os que encontramos na Belas Artes, ser eleito por Saddam para escrever o herético Alcorão de Sangue.

Uma coisa é inegável: de dois dias para cá, nosso interesse, meu e de Lucas, deslocou-se daquele que encomendou para o que executou a encomenda, do mecenas para o artista. Não pretendo ter sondado a alma negra de Saddam, mas, para explicar seu gesto, tenho uma hipótese que se sustenta: na espécie de descida aos infernos que sucedeu a invasão frustrada do Kuwait, ele trocou seu ideal de líder pan-árabe pelo de comandante dos crentes. E, no final dos anos 90, com a aproximação da catástrofe, foi ainda mais longe. Conta-se que ele dizia: “A lei é uma frase com a minha assinatura embaixo.” Ele estendeu esse princípio da lei secular à divina e ao ensinamento do Profeta. Queria até mesmo o Alcorão a seu serviço. Nem todos os aiatolás e ulemás do mundo o impediriam de interpretá-lo a seu bel-prazer. Bastava um gesto blasfemo ter sido consumado por ele para deixar de ser blasfemo e, mais até, para que a blasfêmia se tornasse louvor a Deus. O sangue é haram? Se é o sangue de Saddam, torna-se halal, e tenho certeza de que ele se divertia convocando assembleias de eruditos para ratificarem, com medo e com pavor, o que todos sabiam muito bem ser um sacrilégio. Gesto de desafio, gesto de hybris, gesto faustiano. Mas, como diz Lucas, era preciso dois para dançar aquela dança macabra. Então, quem era realmente Abbas Joudi al-Baghdadi?

Eu suspeitava que Hias queria monopolizar o discurso e o proscênio, desacreditando assim toda outra testemunha que não ele próprio. Eu estava errado. Foi com a maior boa vontade que ele nos levou para conhecer dois outros calígrafos, que, assim como ele, conheceram bem Joudi. Ambos praticam sua arte como ele praticava no início, nas biroscas situadas em ruas populares de Adhamiyah. Um deles é especializado em gravura sobre cobre e caligrafia de placas de carro. Ambos fazem de Joudi o mesmo retrato. Um artista, um poeta. Um pouco louco, um pouco obsessivo, mas um coração de ouro e um bom companheiro. Antigamente saíam para beber araque juntos, mas quando ele se viu envolvido na temerária história do Alcorão de Sangue, foi obrigado a parar, ao mesmo tempo porque o álcool é haram e, mais simplesmente, porque não tinha mais tempo. Trabalhava feito um louco, dia e noite – “com uma faca na nuca”, e, se nos repetem essa expressão, é sem dúvida porque ele a pronunciou. Não era mais visto. Receavam por ele, recluso no seu grande apartamento da Zona Verde, à mercê do humor de Saddam – Saddam, que, como ele próprio reconhece, cultivava a arte de dizer que faria uma coisa quando pretendia fazer outra e terminava não fazendo nenhuma das duas: assim, ninguém do seu círculo sabia onde estava pisando, nunca. E, quanto mais escuto esses três velhos que o conheceram, amaram e continuam a considerá-lo o melhor deles, mais cativante julgo esse Joudi, cujo perfil vai se desenhando aos poucos. Homem puro e artista de gênio, requisitado por causa de sua obra alquímica por um maluco todo-poderoso que se pretendeu igual a Deus e até mesmo seu superior, condenado, desde sua queda, a uma errância sem fim: a história pode ser contada dessa maneira. Porém…

Porém, na minha versão Joudi é um fantasma em fuga, acuado, intangível, ao passo que os três velhos falam dele no presente, comunicam-se tranquilamente com ele, sabem muito bem onde ele está: em Jidá, na Arábia Saudita, onde se assentou após alguns anos de ponte aérea entre a Jordânia e os Estados Unidos. A Arábia Saudita é o coração do Islã sunita – em sua versão wahhabita, de longe a mais hard. Não espanta um mestre da caligrafia corânica, queridinho do grande líder sunita Saddam Hussein, ter sido acolhido lá de braços abertos, tampouco desfrutar de todas as mordomias. Abriu em Jidá uma galeria luxuosa, não uma pequena birosca vagabunda, dizem seus velhos companheiros, com uma ponta de inveja. É tratado como um tesouro nacional, todos os seus desejos são antecipados, oferecem-lhe túnicas suntuosas excepcionalmente caras. Afora uma úlcera no estômago – legado dos anos de estresse dispendidos no Alcorão – e lufadas de saudade, está muito bem para os seus 68 anos. Bem até demais, para a história que eu gostaria de contar.

Eu sei, não devemos julgar ninguém pela aparência. É, contudo, o que faço. Acredito piamente que os rostos não mentem e que, a partir de certa idade, segundo a expressão consagrada, temos a cara que merecemos. Ora, a cara de Abbas Joudi al-Baghdadi, cujo retrato um de seus três amigos nos mostra em seu celular, é tudo menos uma cara boa, menos ainda uma cara de artista maldito. Cabeça raspada a zero, bigode e óculos escuros, ricto desagradável, maxilar pesado e amargo: uma cabeça típica de militante do partido Baath ou de um vilão do Tintim, o que dá mais ou menos no mesmo. E Lucas, a quem minha imaginação romântica irrita progressivamente, em vão me faz observar que aquela fisionomia conta uma história completamente diferente: a de um pintor de corte, arrivista e devotado, de um xiita convertido em sunita para agradar ao patrão, e que o patrão – como nos informa sem malícia um dos três velhos – o alçará a presidente da Associação dos Calígrafos Iraquianos; em suma, um exemplar apparatchik.

Qual desses retratos é o correto?, nós nos perguntamos uma noite, tomando umas cervejas no bar do hotel Bagdá. Qual dessas histórias é a verdadeira? E se as duas estivessem corretas? Saberíamos mais sobre isso se fôssemos a Jidá? Se batêssemos à porta de sua galeria?

 

(Menget)

Acrescento outras perguntas às de Emmanuel. Onde poderia estar o Alcorão de Sangue agora? Dois boatos chegaram aos nossos ouvidos em distintas ocasiões: teria sido vendido secretamente a ricos emiradenses, preocupados em preservar aquele texto da cólera dos xiitas. Num tom jocoso, um calígrafo ousa acrescentar que “em breve estará exposto no Louvre Abu Dhabi”. E, talvez ainda mais extravagante, o Alcorão de Sangue estaria nas mãos da filha de Saddam Hussein. Refugiada na Jordânia, Raghad Hussein, que vive da lembrança gloriosa do pai, teria conseguido recuperar as preciosas páginas graças às tribos sunitas que continuam a controlar em grande parte a fronteira entre o Iraque e a Jordânia. Meros boatos, mas pesando tudo…

Após nosso retorno de Bagdá, visito com frequência o Instagram daquele que diz chamar-se, pura e simplesmente, “baghdadiabbas”. Foi um dos calígrafos de rua que conhecemos que nos mostrou essa conta, banal assim. A coisa não me passara pela cabeça. Odeio-me por isso. Estava ao alcance da mão desde o começo – só precisávamos descobrir o nome “baghdadiabbas”. Espio seu Instagram várias vezes por dia. Nele, encontramos reproduções de suas inúmeras obras, bem como retratos em que aparece ora cercado de estudantes, ora de braços dados com um príncipe saudita, ora caligrafando. Alguém devia administrar sua conta, um aluno aplicado ou um fã, caso contrário ele teria de passar noite e dia naquilo. Estudo seu rosto, dou um zoom, tento ler atrás dos óculos. Às vezes, ele posta um retrato de sua época no Iraque. Vemos então o mesmo homem, jovem, cercado de alunos iraquianos e amigos. Parece muito mais risonho. Os retratos têm o aspecto amarelecido das fotografias antigas de má qualidade. Teria levado consigo pastas de fotos que destila de quando em quando para lembrar quem ele era em Bagdá? Que nem sempre foi aquele sujeito vestido com uma dishdasha saudita branca imaculada, mas um artista de jeans e camisa, cercado de amigos após um drink num café de Bagdá? Ou seriam seus amigos que lhe enviam do Iraque algumas fotos que desenterraram para lembrá-lo dos bons velhos tempos e sugerir que volte? Mas ele não pode voltar. Seus amigos lamentam, mas reconhecem: ele seria morto. As lembranças e os fantasmas de Saddam Hussein continuam muito presentes. Ainda que um ar de reconciliação pareça pairar sobre Bagdá, a capital não é o Iraque inteiro e a violência entre sunitas e xiitas permanece tenaz.

O desfecho desta reportagem poderia então ser o seguinte: iríamos a Jidá, agendaríamos um encontro com o artista, escutaríamos sua versão da história. Quem sabe finalmente não matávamos a charada? Mas isso não é tão simples. Ninguém aterrissa na casa de alguém, ainda mais na Arábia Saudita, sem ser autorizado e convidado. E depois Abbas Joudi al-Baghdadi sabe infalivelmente, por intermédio dos seus amigos, que dois franceses circularam por Bagdá perguntando a todo mundo sobre o “seu” Alcorão de Sangue. Ele deve desconfiar, nós desconfiaríamos.

Peço ajuda a uma amiga iraquiana. Ela conhece muito bem caligrafia, é inclusive uma especialista. Ajudou nas pesquisas, antes e durante nossa estada no Iraque. Mora na França e não quer que eu mencione seu nome. É uma intelectual, muito amável, que tem lembranças deliciosas de sua infância no Iraque e lastima a situação do país. Pergunto se ela se dispõe a telefonar para o calígrafo. Em nossa presença. Para explicar a ele nossa empreitada e dizer que queremos visitá-lo. Suponho que provavelmente ele será menos reticente em falar iraquiano com alguém que domina ao mesmo tempo seus códigos e sua cultura. Ela responde que vai pensar no assunto. Isso me surpreende um pouco: esperava que ela me fizesse esse favor sem piscar.

No dia seguinte, voltamos a nos encontrar. Está constrangida, percebo imediatamente. Gostaria de me ajudar. Mas aquilo, não. No fim, diz: “Lucas, não quero falar com esse homem. Nem por telefone. Ele me dá medo. Toda essa história me dá medo. Acho que devemos parar de revolver essas lembranças, ficar longe de tudo isso. Tenho medo de uma maldição: afinal de contas é um Alcorão de Sangue.”

Quando se aproxima a data de entrega desta reportagem, consigo finalmente um contato com Joudi. Um número de telefone obtido em Bagdá estava errado. Ligo para outro, que toca várias vezes sem que atendam – até que, finalmente, soa um clique, seguido de uma voz, a de um homem idoso, falando um inglês precário. “Sim, sou efetivamente Abbas al-Baghdadi, o calígrafo.” Apresento-me. Ele responde que está a par da nossa investigação, que “pessoas em Bagdá o informaram”. Exprime-se com dificuldade e prefere me passar para sua mulher. Com uma voz tranquila, ela explica que o seu marido é um homem honesto, muito honesto, e que está impedido de voltar a Bagdá. Eles moram em Riad, na Arábia Saudita. Proponho uma entrevista, para registrar sua versão. Ele se recusa a fazê-la por telefone. “Precisamos de um tempo”, traduz sua esposa. Sugiro ir ao encontro dele, com Emmanuel. “Os senhores serão bem-vindos”, responde o calígrafo.

A história do Alcorão de Sangue, portanto, terá uma continuação.

Emmanuel Carrère

Emmanuel Carrère, escritor, roteirista e diretor de cinema, é autor de O Reino, da Alfaguara

Lucas Menget

Editor da rádio France Info, foi correspondente no Oriente Médio e codirigiu o documentário Bagdad, Chronique d'une Ville Emmurée

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