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    Autorretrato africano, de Ayrson Heráclito, feito em Dakar, no Senegal, em 2015: “Já participei de duas edições da Bienal de Veneza, mas nunca havia recebido o convite para a Bienal de São Paulo, o que me dava uma dorzinha”, diz o artista baiano em tom de desabafo CRÉDITO: AUTORRETRATO AFRICANO_AYRSON HERÁCLITO_DAKAR, 2015

vultos das artes plásticas

Ayrson Heráclito, o artista-sacerdote

Quem é o artista que no candomblé da nação Jeje Mahi é ogã sojatin e será um dos destaques da 35ª Bienal de São Paulo

Tatiane de Assis | Edição 203, Agosto 2023

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Vestidos inteiramente de branco e com guias – colares de miçangas coloridas com significado religioso –, o artista visual Ayrson Heráclito, o chef Joceval Santos e a orientadora socioeducativa Daniela Santos chegaram ao prédio da Estação Pinacoteca por volta de oito da manhã. Naquele dia 2 de março de 2022, o trio foi autorizado a realizar em uma parte do museu um ritual do candomblé chamado sacudimento. “Eles começaram no quinto andar, indo em direção ao térreo, fazendo a limpeza com folhas”, conta a curadora-chefe da Pinacoteca de São Paulo, Ana Maria Maia. “O Ayrson entrava nos lugares, explicava o que estava fazendo e perguntava aos funcionários se eles gostariam que aquela limpeza fosse feita ali. Em caso de recusa, ele se retirava.” Maia acompanhou todo o ritual coordenado por Heráclito, que no candomblé da nação Jeje Mahi é ogã sojatin, um sacerdote encarregado de ritos realizados em torno de árvores sagradas, que são chamadas àtinsás.

Com grandes folhas arranjadas em maços, como pequenas vassouras, Heráclito e seus amigos varreram os locais. Também recorreram à pemba, um giz que é raspado e soprado no ambiente, e defumadores, trazidos de Salvador. A produção do museu comprou os outros itens, como pratos de cerâmica, carvão e algodão. “Na área administrativa, no segundo andar, se formou uma fila de pessoas interessadas em que fosse feito o sacudimento nelas”, recorda a pesquisadora Horrana Santoz, que na época integrava o núcleo de curadoria do museu.

Heráclito explica à piauí para que serve o sacudimento: “É um rito que busca, sobretudo, afastar eguns que estão causando incômodo ou infortúnio ao ambiente e às pessoas.” A palavra “eguns”, do iorubá, designa espíritos de pessoas que já morreram.

 

Por causa de seu passado trágico, o prédio da Estação Pinacoteca é bastante “carregado”. Entre 1940 e 1983, foi sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), um dos centros de tortura durante o Estado Novo (1937-45) e a ditadura militar (1964-85). Na época em que atuava como sindicalista, na década de 1980, o presidente Lula esteve preso no local. No início dos anos 2000, o edifício foi dividido em duas partes: numa delas, foi criada a Estação Pinacoteca; na outra, o Memorial da Resistência de São Paulo, museu e instituição que cuida da memória da resistência à repressão política no Brasil.

Foi rumo ao Memorial que o trio liderado por Heráclito se dirigiu, quando chegou ao térreo do prédio. “Ayrson passou de sala em sala, inclusive naquelas que funcionavam como celas no passado. Purificou aquele espaço em que tantas pessoas morreram e foram torturadas”, diz a curadora Ana Pato, coordenadora do Memorial da Resistência. O ritual terminou por volta das 16h30, no Largo General Osório, onde eles depositaram os materiais usados na performance. O largo costuma ser frequentado por usuários de crack.

Não foi o primeiro sacudimento realizado por Heráclito em prédios públicos. Em 2015, ele fez dois. O primeiro aconteceu na Casa da Torre de Garcia d’Ávila, uma construção em ruínas em Mata do São João, a 60 km de Salvador, que foi propriedade de um poderoso senhor de escravos. O segundo foi na Maison des Esclaves, na Ilha de Gorée, a cerca de 3 km de Dakar, no Senegal, lugar onde os negros escravizados aguardavam seu embarque para as Américas e hoje funciona um memorial. Nesses dois espaços, o passado sombrio demandava uma limpeza espiritual, do que cuidou Heráclito, indo de um lado a outro do Atlântico.

 

A performance do sacudimento na Estação Pinacoteca, embora não estivesse aberta ao público, fazia parte da exposição que Heráclito iria inaugurar no museu no mês seguinte, em 2 de abril. Chamada Yorùbáiano, a mostra com curadoria de Amanda Bonan, Ana Maria Maia e Marcelo Campos ocupou três salas da Estação Pinacoteca e consolidou Ayrson Heráclito como um dos principais nomes da arte brasileira contemporânea.

Seu trabalho, que não vê limites entre a religião e a reflexão sociopolítica e histórica, também chama a atenção pela exuberância das cores e formas, aromas e corpos, numa convocação ritualística de todos os sentidos do público. Toda essa exuberância é trespassada ao mesmo tempo pelo sagrado e pelo olhar crítico sobre o passado colonial e cruel da Bahia e do Brasil. “Penso a minha arte como uma das estratégias possíveis para transmutar as dores coloniais e da escravidão através destes processos e tecnologias que há na limpeza, na lavagem, nas oferendas, nos banhos rituais”, diz ele. “Eu sempre busquei um ativismo muito mais místico. Para mim, um sacudimento com folha é mais eficiente do que uma faixa aberta em uma passeata.”

O cuidado de Heráclito com os eguns e com as árvores sagradas terá papel importante no trabalho que ele vai apresentar na 35ª Bienal de São Paulo, a principal mostra de arte do país, que será aberta em 6 de setembro. Em seu escritório no bairro de Nazaré, em Salvador, sentado em um sofá cinza, ele abre o notebook e mostra uma maquete virtual desse trabalho, chamado Floresta de Infinitos. “Antes de chegarmos a essa última versão, fizemos uns dois projetos”, conta Heráclito. “É um ambiente imersivo de mais ou menos 150 m2, fechado com paredes, porque a gente precisa controlar a luz.” Nesse ambiente, o visitante irá percorrer uma densa vegetação composta de 450 unidades de bambus, de 6,2 metros de altura e com cinco telas para projeções, de 2 metros de altura.

 

“Há muita coisa sendo redefinida, mas o espaço é dividido em ‘zonas de aparição’”, detalha Heráclito. Ao entrar, os visitantes acionam as projeções e as paisagens sonoras criadas pelo músico baiano Tiganá Santana, que coassina o trabalho para a bienal. Em uma das zonas de aparição serão projetadas imagens das divindades afro-indígenas da floresta, como caboclos e orixás. Em outra, surgirão “espíritos biomorfos”, plantas, animais e fluxos de água extintos ou afetados por algum desastre ambiental, como o Rio Doce, em Minas Gerais – que teve grande parte de seu curso contaminado com metais pesados, depois do rompimento da barragem da Samarco Mineração na cidade de Mariana, em 2015.

Haverá também na instalação da bienal o espaço dos ancestrais, entre eles o Índio do Buraco – o último membro de uma etnia desconhecida (ele morreu no ano passado) –, a líder religiosa Mãe Stella de Oxóssi (1925-2018), o ativista Chico Mendes (1944-88) e o jornalista Dom Phillip (1964-2022). “O único ancestral vivo a ser mostrado nas imagens será uma gameleira que fica na Casa da Torre”, diz o artista. No candomblé das nações iorubanas essa árvore é sagrada, tendo relação com o orixá Iroko.

Quando Ayrson Heráclito Novato Ferreira nasceu em Macaúbas, há 55 anos, a palmeira macaúba, que pode atingir até 25 metros, ainda era abundante na região em que fica a cidade, no meio da Bahia. Hoje não é mais. O pai do artista, Alberto Heráclito Ferreira, era negro e sargento da Polícia Militar. Foi nomeado delegado de polícia em Macaúbas e lá conheceu Lourdes, professora de ascendência portuguesa e italiana. A posição social que Ferreira ocupava não o livrou da discriminação. “O casamento dos meus pais, a princípio, não agradou ao meu avô [materno], que ficou um ano sem dar a bênção à minha mãe, por ela ter se casado com um negro. Mas meu pai acabou conquistando a afeição e respeito de toda a família, inclusive do meu redimido avô”, conta Alberto Heráclito Ferreira Filho, o primogênito da família, no texto Porque Sou Negro: Um Esclarecimento Definitivo. “Eu descobri que ser negro era uma forma de me orgulhar do meu pai.”

Macaúbas ficou para trás quando o sargento Ferreira foi transferido para a sede do batalhão, em Vitória da Conquista. Na nova cidade, o clima na família era animado. “Meu pai era muito festeiro. Todos os fins de semana, ele e minha mãe recebiam os colegas, que eram funcionários públicos. Muitos negros, mas também muitos brancos”, relembra o artista. “A gente sempre te­ve um contato com essa classe média negra e com a ideia de ascensão financeira.” A importância dada à educação era outra característica da família. Ferreira, o pai, cursou até o segundo grau e enchia a casa de livros. “Eles compravam nas mãos de vendedores que passavam, os ditos mascates”, diz Ferreira Filho.

Em Vitória da Conquista também acontecia de aparecerem escorpiões nas casas. Heráclito tinha cerca de 6 anos quando foi picado por um no quartinho dos fundos da casa em que morava. Depois de sentir uma dor terrível, começou a ter alucinações causadas pelo veneno do artrópode. “Tive uma alteração de consciência profunda e vi as cores de um modo diferente: o azul do céu de Conquista muito intenso, as ramagens do chuchuzeiro”, conta o artista. “Foi nesse período que o universo das artes começou a surgir para mim.”

Quarto dos sete filhos do casal, Heráclito era chamado de Freud quando criança. “Ele era muito vivo, muito sabido”, explica Lourdes, sua mãe, hoje com 87 anos. Os pais se multiplicavam em várias frentes para complementar os salários de funcionários públicos e, com isso, permitir que seus filhos pudessem estudar. Depois de casada, Lourdes fez direito e comandou, como delegada, a primeira Delegacia da Mulher de Vitória da Conquista. Em meados dos anos 1970, o pai de Heráclito – que morreria em 2016, aos 89 anos – abriu uma autoescola, que foi muito bem-sucedida. “Nós, que éramos classe média baixa, viramos classe média alta”, relembra Ferreira Filho.

Ele, Heráclito e duas irmãs foram estudar em uma escola particular de prestígio, o Instituto São Tarcísio (que fechou as portas em 2009, depois de cinquenta anos de atividade). “A diretora era negra e uma de nossas professoras era Sonia Rodrigues, filha do dramaturgo Nelson Rodrigues. Por influência de Sonia, nós participamos por um tempo de um grupo da juventude do PCdoB, quando o partido ainda era clandestino. Vendíamos jornais, que ajudavam a implantar padarias coletivas”, conta o artista.

O garoto Heráclito desenvolveu seu gosto pelas artes plásticas folheando coleções vendidas na única banca de revista existente na cidade na época. Seu artista preferido na juventude era Pierre-Auguste Renoir, um dos mestres do impressionismo. Obstinado, ele lançava mão de todo tipo de exercício para aprofundar os estudos sobre esse movimento artístico, até mesmo subir no telhado para ver o nascer do Sol. “Eu fazia isso porque estava concentrado na questão das cores. Meus pais eram muito avançados, se eles não entendessem minha atitude eu teria sido a ovelha negra da família, mas nunca fui visto assim.” Em um quartinho da casa, Heráclito criou o seu primeiro ateliê. “Eu vivia praticamente fechado lá, estudando história da arte, desenhando, pintando muito, muito, muito.”

A inclinação cultural das crianças levou-as a criar, junto com vizinhos, o Clube Packa, que promovia um pouco de tudo: teatro, música, festas juninas e até desfiles de moda. Para o artista, uma das lembranças marcantes dessa época foi a montagem da peça Ritos Satânicos do Conde Drácula, escrita e dirigida por Ferreira Filho. “Meu personagem era um médico devorado por vampiras. Eu vestia um colete de carne e, por cima dele, uma roupa muito fininha, de voile. Dentro do colete, havia umas bolsas com suco vermelho, engrossado com mingau, para fazer o sangue”, recorda Heráclito.

A brincadeira teria reflexos em seu trabalho futuro, acrescida de um sentido social. Em 2000, numa das apresentações do projeto Transmutação da Carne, pessoas vestidas com coletes de charque eram marcadas a ferro quente com o brasão de senhores de engenho da Bahia colonial, uma referência a um dos suplícios vividos pelos escravizados. Quando esse trabalho foi apresentado pela primeira vez em São Paulo, no Sesc Pompeia, logo que a marcação a ferro quente era feita se espalhava uma fumaça e um cheiro nauseante pelos corredores do espaço cultural.

Foi o irmão Ferreira Filho o primeiro a se envolver com as artes. “Era eu quem desenhava e pintava. Freud era meu assistente, me ajudava, limpando os pincéis.” Um dia, porém, ele foi surpreendido pelo talento de Heráclito. “Freud tinha pintado no verso dos meus quadros com uma qualidade melhor que a minha. Então, falei para ele: ‘Você é artista, tem que estudar para isso.’” O irmão mais velho também pensava em seguir a carreira artística. “Mas meu pai e minha mãe não iam deixar”, ele diz. “Eu podia, no mínimo, ser médico ou advogado. Mas Freud nunca teve isso, a gente segurou as pontas para ele ser artista.” O primogênito acabou se dedicando à pesquisa histórica, e aos 61 anos é professor universitário aposentado.

Os dois são muito próximos até hoje. Do seu apartamento, no lado par da Rua Arquimedes Gonçalves, perto da Arena Fonte Nova, em Salvador, Heráclito avista o prédio de Ferreira Filho, no lado ímpar da mesma rua. Quando Lourdes visita Salvador, eles se revezam nos cuidados com a mãe. “Freud é um irmão muitíssimo carinhoso. Eu não sei se sou pai, filho, irmão ou amante”, diz o primogênito, entre risadas.

Em 1986, Heráclito entrou no curso de educação artística na Universidade Católica do Salvador. No mesmo ano, se inscreveu no Salão Metanor/Copenor de Artes Visuais da Bahia e foi premiado com Gabriel Lopes Pontes, então um estudante de artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e hoje artista visual e diretor de cinema. No júri, estava o renomado crítico mineiro Frederico Morais. O trabalho do jovem de 18 anos, de inspiração neoexpressionista, se chamava Jesus no Monte das Oliveiras. Apesar do título, não retratava Jesus, mas um morador de rua sentado sobre uma montanha de lixo.

Três anos depois, Heráclito apresentou no foyer do Teatro Castro Alves, em Salvador, a performance O Crepúsculo do Ritmo, com a artista plástica Mônica Medina, então estudante de artes plásticas na UFBA. Durante a apresentação, os dois secaram uma garrafa inteira de vodca. Medina aparecia de robe e camisola branca, enquanto Heráclito fazia a barba. Depois, eles tomavam a vodca numa xícara e fumavam um cigarro. “A gente queria sacralizar uma coisa banal na vida de um casal, que é sentar e tomar o café da manhã”, diz Medina, hoje com 62 anos. “No primeiro gole, eu já vi tudo girar, mas fiquei uma doida concentrada. Ayrson ficou mais louco, saltava de um lado para o outro.” Nem ele nem ela tinham o costume de beber. “Eu não bebia muito, porque, para beber, você precisa de dinheiro, e eu não tinha.” A performance assustou a direção do teatro, que sugeriu que a dupla usasse água, fingindo que era vodca. “Mas a gente se negou a fazer isso, porque senão virava teatro, o que não era a nossa ideia”, diz Medina. “Ninguém nessa época sabia o que era performance em Salvador.”

Medina e Heráclito se conheceram em Vitória da Conquista, quando ela dirigia um restaurante natural chamado Cio da Terra, que à noite promovia peças e exposições. Os dois começaram a namorar, ficaram noivos e se mudaram para Salvador com o intuito de fazer faculdade. A relação durou onze anos, mas eles nunca se casaram. Na época da faculdade, viviam enfurnados em ateliês e bibliotecas, lendo e estudando a obra de artistas, como o compositor americano John Cage (1912-92), os franceses Marcel Duchamp (1887-1968) e Yves Klein (1928-62), e sobretudo o alemão Joseph Beuys (1921-86), até hoje uma das principais referências de Heráclito. “As performances de Beuys são ao mesmo tempo engajadas e de uma criatividade imensa”, ele salienta. Um dos fundadores do Partido Verde alemão, Beuys propôs para a mostra de arte Documenta em 1982 uma obra que consistia no plantio, com a ajuda dos visitantes, de 7 mil carvalhos.

Medina conta que Heráclito tinha uma “vocação muito grande” para pintura e escultura. “Por isso ele era resistente à linguagem do vídeo, e fui eu que insisti com ele.” Juntos, eles fizeram dois trabalhos em videoarte. “Se não me engano, a última vez que vi Ayrson foi há dez anos. Admiro e torço por ele, mas não o acompanho, o trabalho que ele faz é diametralmente oposto ao que desenvolvo”, diz a artista, que é professora do curso de cinema e audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.

Ao mesmo tempo que estudava artes, Heráclito entrou para a Faculdade de Arquitetura da UFBA. Mas as matérias de cálculo logo o fizeram desistir do curso. Ele se concentrou na faculdade de educação artística, cujo curso era integrado: os estudantes tinham aulas de artes visuais, música e teatro, e só mais tarde escolhiam sua habilitação. Por um tempo, a música fisgou Heráclito. “Aprendi a solfejar, tocava flauta. Queria ser como a americana Laurie Anderson, um músico experimental entre a arte e a performance”, diz. A compra de um instrumento, contudo, foi uma limitação – e ele seguiu pelas artes plásticas.

A família de Heráclito era católica não praticante, tanto assim que ele nunca foi batizado. O candomblé estava sempre por perto, mas nem os pais nem os irmãos falavam a respeito. “Sei que minha tia, em Vitória da Conquista, frequentava uma casa de candomblé Angola. Às vezes, a gente ouvia em casa um disco de Bethânia que tinha aqueles atabaques, e essa minha tia saía correndo, com medo de incorporar.”

A aproximação do artista com o candomblé aconteceu em 1986, depois que ele integrou, como diretor de arte, a equipe de um documentário sobre Luiza Franquelina da Rocha, mais conhecida como Gaiaku Luiza, mãe de santo de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano, a cerca de 120 km da capital. Quando voltou a Salvador, Heráclito foi acometido por desarranjos intestinais. O diretor do filme, José Carlos Lisboa, que é pai de santo, ao saber do que se passava, disse ao artista que ele deveria ter se preparado melhor, porque a cerimônia do Gboitá (lê-se “boitá”) que haviam filmado “era muito forte”.

A partir daí, Heráclito passou a frequentar aquele terreiro como abiã, alguém que é ligado à religião, mas não passou ainda pelos ritos de iniciação. Em Salvador, ele continuou seus laços com o candomblé em um terreiro no subúrbio da capital, associado ao de Cachoeira. Durante a pandemia, o terreiro encerrou as atividades, mas Heráclito continuou a fazer os rituais em casa. “Só o terreiro está fechado. Minha relação com a espiritualidade continua”, diz. “O candomblé não é só uma religião, é todo um pensamento pré-colonial africano que agora chega para a gente.”

Foi só depois de abandonar a pintura no início dos anos 1990 e adotar a performance, a instalação, o vídeo e a fotografia que o trabalho de Heráclito começou a chamar certa atenção da crítica. Em 1994, ele apresentou no MAM da Bahia a instalação Segredos Internos, título homônimo do livro do historiador americano Stuart Schwartz sobre o desenvolvimento da economia açucareira baiana entre 1550 e 1835. A instalação consiste em um barco de madeira de cerca de 10 metros, partido ao meio, formando um V na sala de exposição, e três caixas de açúcar, que ressaltam a estratificação social da sociedade colonial, de acordo com Heráclito: “Na primeira caixa, o açúcar branco, associado à nobreza portuguesa e à sua clientela consumidora; na segunda, o açúcar mascavo, relacionado aos mestiços, e na última caixa, o açúcar de cor mais próxima do barro, associado ao escravo.”

O açúcar é um dos elementos centrais nas obras de Heráclito, em sua reflexão sobre a diáspora africana no Brasil e a escravidão. “É o primeiro material que descortina o momento colonial. Penso no processo de violência que vai explorar o Brasil”, diz. A produção do açúcar foi o que estimulou o início da escravização de africanos. “É justamente esse espaço de produção do corpo que eu chamo de afrodiaspórico. Mas é também uma referência à divindade Exu, à cachaça que esse deus gosta de tomar e que energiza seu movimento e comunicação.”

A violência física sofrida pelos negros, assim como sua resiliência e bravura se materializam em um segundo importante elemento do trabalho de Heráclito: o charque. “Ao usar o charque, estou me referindo a uma energia associada à divindade Ogum, que come feijoada com esse tipo de carne”, explica Heráclito.

O terceiro elemento é o azeite de dendê, que, segundo o artista, “é o sangue ancestral, o sangue vegetal”. O dendê aparece, por exemplo, em uma das versões de Divisor III, exibido em 2022. O trabalho é um aquário de vidro de cerca de 2 metros de largura por 50 cm de altura, dentro do qual o dendê foi colocado sobre uma camada de água salinizada. A obra faz alusão ao Oceano Atlântico e à diáspora africana. “Essa ideia do Atlântico como um útero gestor da própria categoria negra me afeta muito”, diz o artista, citando como referência um livro que lhe causou forte impacto, O Atlântico Negro: Modernidade e Dupla Consciência (1993), do sociólogo inglês Paul Gilroy. O dendê e a água salinizada nunca se misturam, porém se movem lentamente, como se compusessem uma pintura “em progresso”, fora do controle do artista.

Nos trabalhos de Heráclito, os alimentos são muito presentes, como em Bori, de 2008, performance criada a partir de um ritual do candomblé de mesmo nome, que significa “dar de comer à cabeça”. Nesse trabalho, quiabo, inhame e pipoca, entre outros produtos, foram colocados em torno da cabeça de participantes deitados no espaço expositivo – como uma espécie de aura ou coroa. “As lições de Beuys me levaram a investigar os materiais não só em suas funções ordinárias, mas também energéticas”, diz o artista. “Os ensinamentos estéticos desse artista me fizeram olhar para os ebós do candomblé, essa forma que temos de oferecer alimento para as divindades da natureza e retribuir o próprio alimento que elas nos oferecem, para que nunca nos falte.”

Os alimentos de Bori foram preparados pelo baiano Joceval Santos, de 49 anos, o companheiro de Heráclito, creditado como coautor da performance nas montagens recentes. “A relação entre comida e candomblé é básica. Você expressa sua fé através da dança, dos resguardos, mas tudo é alimento. Tanto para ofertar às divindades, quanto para servir ao povo envolvido no ritual da casa”, diz Santos.

“A dimensão da espiritualidade na produção do Ayrson é fundamental”, diz a curadora Ana Pato, que testemunhou o sacudimento no Memorial da Resistência. A ação religiosa se alia à crítica do processo colonial e ao desejo de regeneração e cura. Não existe, contudo, uma relação mimética entre o trabalho de Heráclito e os rituais do candomblé, tanto que ele não se utiliza do sacrifício de animais, que é comum nas cerimônias da religião. Ana Maria Maia, da Pinacoteca, traz outro elemento importante na produção de Heráclito: “Os trabalhos dele envolvem esses ambientes de sigilo e segredo. Não é porque é artista que ele tem que abrir tudo. Ele faz um trabalho que está nesse limiar. Tem muita clareza do que precisa ser mostrado e do que não pode ser mostrado, mas ainda assim deve existir.”

A performance Bori foi adquirida pela Pinacoteca, que passou a ser dona das instruções para a realização da obra. Fotos do mesmo trabalho e uma das versões dos trabalhos Segredos Internos e Divisor III fazem parte do acervo do Instituto Inhotim. Neste mês de agosto, Heráclito participa da megaexposição Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, que reúne 240 artistas negros na unidade Belenzinho do Sesc São Paulo.

Em 2015, ocorreu uma virada na carreira de Heráclito. Ele participou em São Paulo da exposição Terra Comunal: Marina Abramović + MAI, no Sesc Pompeia. Tratava-se de uma retrospectiva da artista sérvia, com curadoria de Jochen Volz (hoje diretor da Pinacoteca de São Paulo), que exibia, num espaço contíguo, com curadoria de Abramović e Paula Garcia, obras de sete artistas, entre eles Heráclito, e performances de um coletivo.

Quando Heráclito foi ao local de seleção dos artistas, na Galeria Luciana Brito, Abramović se aproximou dele e perguntou sobre Mãe Filhinha, uma mãe de santo importante em Cachoeira. “Marina tinha ido à Cachoeira e a conheceu, porque estava fazendo um documentário. Eu olhei para ela e contei que Mãe Filhinha havia falecido naquela madrugada. Ela se sentou e pediu um pouco d’água.”

Depois da triste notícia, Abramović disse que Heráclito tinha tudo a ver com Cachoeira, pois havia um belo rio na cidade, o Paraguaçu – e rios eram importantes também para o pensador grego do qual o artista é xará. Na hora de mostrar o portfólio de suas obras, Heráclito descobriu que o pen drive com as imagens estava corrompido. “Elas apareciam todas verdes, mas Marina já tinha visto meu trabalho e levou numa boa. Dizia: ‘Amazing, Heráclito, amazing’”, ele conta, rindo. O contato com a artista sérvia foi fundamental. “Me falavam que eu tinha um trabalho regional, mas havia um tom preconceituoso nisso”, diz Heráclito. “Marina disse pa­ra eu pensar como poderia ser visto para além de um artista do ritual. Eu mesmo tinha criado meu caminho na arte, nunca fui orientado por alguém. Ela foi a minha primeira orientação. É possível falar que minha produção em performance se divide em antes e depois de Marina.”

Heráclito ganhou projeção internacional antes mesmo de ser convidado a fazer uma exposição individual em algum grande museu de São Paulo ou do Rio de Janeiro. O principal convite do exterior veio da 57ª Bienal de Veneza, que em 2017 o chamou para integrar a mostra principal do evento. Na Itália, ele exibiu o trabalho Os Sacudimentos: Reunião das Margens Atlânticas, com registros feitos em 2015 na Casa da Torre de Garcia D’Ávila, na Ba­hia, e na Maison des Esclaves, no Senegal (a mesma obra voltou neste ano à Veneza para a Bienal de Arquitetura, a convite dos curadores do pavilhão brasileiro, Gabriela de Matos e Paulo Tavares, que ganharam o Leão de Ouro da mostra). Também em 2017, ele expôs no Weltkulturen Museum de Frankfurt e na Bienal Internacional de Fotografia e Vídeo de Changjiang, na China.

A regionalização é um fantasma que costuma pairar sobre o trabalho de artistas que não vivem em São Paulo ou no Rio de Janeiro, como ocorreu com Heráclito por longo tempo. Thais Darzé, diretora da Paulo Darzé Galeria, de Salvador, que representa o artista, conta que, anos atrás, na SP-Arte, a maior feira de arte da América Latina, muita gente chegava em seu estande e dizia: “Ai, adoro essas coisas lá da Bahia.” Seu pai, Paulo Darzé, acrescenta, mais enfático: “Na SP-Arte, quando mostrei pela primeira vez Rubem Valentim e Mestre Didi, não vendi nada. E o preço era muito barato, as esculturas pequenas custavam 8 mil, 9 mil reais. E o que mudou na carreira de Mestre Didi daquela época para cá? Nada. Ele já era um artista maduro. O que mudou foi o mercado. Hoje, uma obra do Didi sai, no mínimo, por 70 mil.” Esse é também o valor médio cobrado por uma obra de Heráclito.

Thais Darzé ressalta que a inserção de artistas baianos afro-brasileiros é ainda mais complicada. “Era um debate que já estava na academia, chegou às instituições e museus, mas o mercado de arte não entrava. Um dia, porém, as galerias tiveram que responder ou, melhor dizendo, tiveram que engolir.” Ela associa a mudança a uma movimentação institucional, em particular às exposições Histórias Mestiças, com curadoria de Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, no Instituto Tomie Ohtake, em 2014, e Histórias Afro-Atlânticas, do Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 2018. “O colecionador é impactado”, diz Thais Darzé.

Heráclito foi um dos curadores da exposição no Masp, junto com Pedrosa, Schwarcz, Tomás Toledo e Hélio Menezes. A mostra coletiva, em que foram reunidas 432 peças, tratou dos fluxos migratórios e culturais que unem a África e a América, incluindo a região do Caribe. Heráclito cuidou do núcleo “Rotas e Transes: África, Jamaica e Bahia”, no qual mostrou, inclusive, obras de artistas-sacerdotes, um fenômeno de longa tradição no Brasil. A exposição do Masp foi eleita pelo New York Times como uma das melhores de 2018 e teve forte impacto na carreira do artista. “O Ayrson se transformou em uma referência, não só como artista, mas como sacerdote que ele é, além de professor universitário e pesquisador da escravização e da decolonialidade”, diz Thais Darzé.

Em 2014, Heráclito foi um dos curadores da 3ª Bienal da Bahia, junto com Ana Pato. A mostra dirigida por Marcelo Rezende, então diretor do MAM em Salvador, teve como título uma pergunta – “É tudo Nordeste?”. Deixou uma marca forte nas artes plásticas do estado por seu alcance crítico e por retomar uma história interrompida em 1968, quando a 2ª Bienal da Bahia foi brutalmente cancelada pelo regime militar. Heráclito, que não expôs nessa bienal, explica a relevância dela para seu trabalho: “Foi nela que tive oportunidade de praticamente apresentar a sistematização da minha tese de doutorado e as minhas outras pesquisas sobre arte afrodiaspórica. Se eu não estivesse lá, muito provavelmente Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, que viram a 3ª Bienal da Bahia, não teriam me chamado para integrar a exposição Histórias Afro-­Atlânticas.” A 4ª Bienal da Bahia nunca aconteceu.

O alcance da questão afro na 35ª Bienal de São Paulo, cujo título é Coreografias do Impossível, será inédito e forte. Inédito ainda é o fato de que essa mostra, em 72 anos de existência, só agora tem negros no posto de curadores-chefes – os baianos Hélio Menezes e Diane Lima, e a escritora e artista portuguesa Grada Kilomba. Fecha o quarteto o historiador de arte espanhol Manuel Borja-Villel, a única pessoa branca no grupo de curadores.

A lista final da bienal conta com 120 nomes do Brasil e do mundo. Dentre os artistas negros brasileiros, se destacam alguns veteranos que participarão pela primeira vez, como a paulista Rosana Paulino e o mineiro Eustáquio Neves. A turma dos nomes mais jovens inclui a fluminense Aline Motta e as mineiras Luana Vitra e Ana Pi. Entre os artistas negros estrangeiros, chamam a atenção o ganês Ibrahim Mahama, autor de instalações com materiais têxteis, e a americana Simone Leigh, que causou impacto no ano passado na Bienal de Veneza, com um imponente busto de uma mulher negra, de 4,9 metros de altura e 2,7 metros de diâmetro, pertencente à série Brick House (Casa de tijolos).

Havia a expectativa de que a 35ª Bienal se concentraria apenas na questão racial, mas isso não se confirmou. A mostra deverá tratar da diversidade de forma abrangente, incluindo as questões de gênero, com a participação de um número também inédito de artistas trans, como Castiel Vitorino Brasileiro (do Espírito Santo), Tadáskía (do Rio de Janeiro), Ventura Profana (da Bahia) e Daniel Lie (de São Paulo). “Acredito que será uma bienal emocionante. Já participei de duas edições da Bienal de Veneza, mas nunca havia recebido o convite para participar da Bienal de São Paulo, o que me dava uma dorzinha”, diz Heráclito, em tom de desabafo. “Ter agora essa legitimação junto a tantas pessoas que ficaram à margem é muito bom. É histórico.”

O curador Hélio Menezes vê o trabalho de Heráclito e do músico Tiganá Santana para 35ª Bienal como “um encontro de cosmologias afroadiaspóricas”. “O Ayrson vem de uma profundidade artística, estética e espiritual mais inspirada na África Ocidental, em grupos nagôs e iorubás. Tiganá tem sua prática baseada nas cosmologias banto centro-americanas”, diz Menezes. Sobre o título da obra que Heráclito levará para a bienal, Floresta de Infinitos, Heráclito reflete: “É al­go muito poético, em que o infinito é pensado como essa possibilidade imensurável de se relacionar com os ancestrais. Além disso, o trabalho tem essa ideia de que a formação vegetal dele não é algo específico: é uma floresta cósmica.”

À sua atividade nas artes visuais e no candomblé, Ayrson Heráclito soma todo um conjunto de trabalhos universitários e intelectuais que desenvolve como pesquisador da história das artes plásticas na Bahia e professor do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira. Ele é mestre em artes visuais pela UFBA e doutor em comunicação e semiótica pela PUC-SP.

Muito caseiro, o artista gosta de passar horas mergulhado nos livros. Nos últimos tempos, porém, as solicitações feitas por instituições do Brasil e do exterior só têm aumentado. “Às vezes, a gente acorda cedo, e ele tem tempo apenas de desamassar a cara e tomar um café. Depois já entra em uma série de compromissos online no escritório e fica o dia todo lá. Só sai para comer”, conta Joceval Santos. Os dois se conheceram há 25 anos, numa boate chamada Caverna, no Centro de Salvador. “O Ayrson fica brincando que eu fiz dancinha de Oxum pra ele e o enfeiticei. Como sempre gostei de dançar, talvez isso possa ter acontecido”, diz Santos.

Quando está no período de aulas na UFRB, Heráclito viaja toda semana de ônibus de Salvador até Cachoeira. No primeiro semestre deste ano, ele saía da capital baiana na segunda-feira de manhã e dava aulas no começo da tarde. Na terça-feira, depois de dar seu curso outra vez à tarde, retornava a Salvador. Durante essas viagens, o artista costuma ver passar pela janela do ônibus paisagens tomadas por bambuzais. É uma visão reconfortante. O candomblé associa o bambuzal à Iansã – e é ela a todo-­poderosa que cuida dos eguns. Em setembro, na Bienal de São Paulo, o público poderá passear por uma parte desse universo, precisamente 450 unidades de bambu.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “O ativista místico”.

Tatiane de Assis
Tatiane de Assis

Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.

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