Hackeando instituições: atuando à margem da regulação, o partido digital contorna proibições ao discurso político, avança sobre o tempo de campanha e mantém seu dinheiro nas sombras CRÉDITO: BETO NEJME_2025
O bolsonarismo organizado
Como a extrema direita brasileira criou um partido digital
Leonardo Martins Barbosa | Edição 229, Outubro 2025
No dia 7 de setembro de 2024, o já tradicional comício na Avenida Paulista reuniu os principais líderes bolsonaristas, que se revezaram no palanque para defender as pautas da extrema direita e avançar a agenda eleitoral de Jair Bolsonaro – tanto a municipal de 2024 quanto a nacional de 2026. Os discursos foram complementares, as pautas eram amplas, e o projeto de poder, coletivo. Dezenas de milhares de pessoas compareceram ao evento, dando a dimensão do apoio ao bolsonarismo. A verdadeira repercussão do ato, entretanto, só ficaria clara com o passar das horas. Em pouco mais de um dia, os vídeos dos principais discursos já contavam com milhões de visualizações.
A natureza coletiva que se observou nesse Sete de Setembro nem sempre foi uma característica predominante na extrema direita. Bolsonaro provavelmente foi um dos primeiros políticos do país a se valer do mundo digital para promover sua imagem. Ao menos desde o início da década de 2010, ele e sua família são ativos nas redes sociais. Mas, inicialmente, sua atuação refletia o que fora sua carreira parlamentar até então, cultivando um eleitorado bastante circunscrito no Rio de Janeiro, formado sobretudo por um nicho saudosista da ditadura militar. Por muito tempo, suas bandeiras se restringiram ao corporativismo militar, às diatribes contra as liberdades democráticas e ao repúdio a pequenos avanços do poder público, como o controle de armas ou o aprimoramento de leis de trânsito – a que chamou indústria das multas.
Outras lideranças conservadoras seguiram trajeto semelhante. Influenciadores se valiam do baixo custo do mundo digital para ampliar o alcance de suas mensagens, mas sempre em caráter bastante personalista e vinculado a uma agenda específica: Nikolas Ferreira na universidade, Gabriel Monteiro na polícia, Silas Malafaia em comunidades religiosas, Pablo Marçal com o empreendedorismo, Zé Trovão entre caminhoneiros. A diferença entre eles e influenciadores digitais de outras searas da vida social se resumia basicamente ao tema de ocasião – alguns mais políticos, outros menos. Com o tempo, a natureza das atuações dessas lideranças nas redes mudou. O comício anual do Sete de Setembro, cuja coreografia se repetiu neste ano em São Paulo, não é apenas o resultado da soma de seus perfis. Representa uma mudança qualitativa em suas atuações, tomando a direção de algo coletivo. Aí reside o fenômeno político do nosso tempo.
A agenda política conservadora hoje em dia contempla diversos temas em torno de uma visão ideológica, que envolve o elogio do Brasil do agro, os valores cristãos, o direito de ter armas de fogo e o liberalismo econômico. Todos esses elementos se encontram numa leitura peculiar do princípio da liberdade e num projeto de poder organizado a partir da liderança de Bolsonaro – ele próprio já não mais a figura excêntrica de vinte anos atrás, apenas mais um antigo filhote (e atual viúvo) da ditadura. O elogio ao coronel torturador Brilhante Ustra proferido em 2016, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, talvez tenha sido o último ato dessa antiga persona. A partir de então, ele passou a representar um movimento mais amplo e, sobretudo, organizado, cujo vasto espólio eleitoral, agora que foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pela intentona golpista, está em franca disputa.
O Sete de Setembro é reflexo dessa coesão. Como em atos de esquerda patrocinados por sindicatos, partidos e movimentos, nas manifestações da direita sempre foi muito clara a existência de patrocínios e algum grau de organização. Mas, desde as mobilizações pelo impeachment em 2016, houve notórias mudanças. Até então, prevalecera uma estrutura bastante descentralizada. Os atos contavam com diversos carros de som, cada qual com diferentes movimentos e lideranças proferindo discursos desencontrados e simultâneos. Nos últimos anos, os atos passaram a se concentrar em apenas um carro de som, com acesso controlado, e discursos seguindo um fluxo ordenado em seus temas e tons.[1] No fim daquele comício de setembro de 2024, encorajado pelo apoio recebido na avenida, Pablo Marçal – prestes a concorrer a prefeito de São Paulo, e com bons números nas pesquisas – tentou subir no palanque fora do momento combinado. Foi impedido de discursar.
A ideia de bolsonarismo – um tanto vaga e amorfa, diga-se – parece insuficiente para tratar da novidade que estamos testemunhando. O termo expressa um certo espontaneísmo, como se estivéssemos apenas diante de uma explosão de opiniões reprimidas e que encontraram nas redes sociais canais abertos de manifestação. Isso não condiz com o grau de organização política que se observa. Tampouco parece crível que isso resulte apenas de algoritmos ou da atuação demiúrgica de um líder populista – ideia que, de resto, já tem longa e questionável tradição na teoria política.
Na pesquisa conduzida no Center for Critical Imagination,[2] desenvolvemos a hipótese de que, por trás da ascensão da direita bolsonarista, está o surgimento de uma nova forma histórica de partido político – o partido digital.[3] Acreditamos que seja graças a essa nova forma partidária que o bolsonarismo consegue dar lastro e amplitude à sua vocação de poder, em magnitude até aqui inimaginável.
Ainda inexistem contornos claros para delimitar o partido digital enquanto objeto jurídico ou epistêmico. Isso porque estamos habituados a entender os partidos políticos de uma maneira particular, em sua forma institucionalizada e regulada legalmente nas democracias modernas. Eles têm seus estatutos, sedes públicas, representantes legais, nome e número eleitoral.
Os partidos são perfeitamente identificados a uma concepção particular de democracia, que se tornou preponderante a partir de meados do século XX, e cujos termos haviam sido introduzidos pelo economista e cientista político Joseph Schumpeter na década de 1940. Democracia e partidos, nessa leitura, teriam uma relação funcional: um não poderia ser compreendido sem o outro. A democracia permitiria o funcionamento de partidos, e os partidos, por sua vez, viabilizariam a realização de procedimentos democráticos, especialmente a organização de escolhas eleitorais e coalizões de governo.
Essa abordagem, no entanto, se baseia em uma visão histórica muito restrita. Os fundadores do governo representativo, no fim do século XVIII, tanto não previam a existência de partidos quanto temiam abertamente o surgimento de facções. O risco de ruptura da ordem tinha ficado claro em amostras prematuras de organização política desse tipo, como no caso dos jacobinos na França ou das guerras religiosas na Inglaterra. Um dos problemas-chave enfrentados pelos “pais fundadores” dos Estados Unidos era o de permitir a liberdade republicana sem criar um ambiente propício ao surgimento de conflitos desse gênero, que pusessem em risco a unidade do Estado. E, no entanto, foi precisamente o que aconteceu. Grupos políticos se organizaram aos poucos – primeiro nos parlamentos e, depois, como máquinas eleitorais –, trazendo para a arena política uma mobilização crescente das massas e mudando assim os contornos aristocráticos do governo americano.
Foi apenas no final do século XIX que surgiu o partido de massas, a inovação política mais disruptiva até aquele momento. Criados em países europeus como arma política para as reivindicações dos trabalhadores industriais, essa nova forma de partido emergiu completamente alheia às instituições vigentes, tendo sido muitas vezes perseguida e considerada ilegal. Seu principal exemplar foi o Partido Social-Democrata Alemão (SPD, na sigla em alemão). Criado em 1875, ele rapidamente se tornou uma ameaça à ordem imperial e, por isso mesmo, acabou banido pelo governo de Otto von Bismarck. Mesmo na ilegalidade, o SPD continuou a crescer, adotou o marxismo como ideologia oficial e fundou a Segunda Internacional ou Internacional Socialista. Legalizado novamente a partir de 1891, disputou sequencialmente as eleições, forçando sua entrada nas instituições parlamentares e pressionando por maior democratização do regime, até finalmente, no esteio da Revolução Alemã de 1918, assumir a condição de protagonista.
Mesmo na República de Weimar que se seguiu, não estava claro o papel dos partidos políticos em um governo democrático. A defecção comunista e o surgimento do nazismo atestaram que a resposta não era óbvia. Autores da época, de orientação ideológica tão distintas quanto Max Weber e Antonio Gramsci, concordavam que os partidos, primeiro e acima de tudo, eram organizações políticas voltadas à conquista do poder, e não ferramentas de escolha democrática. Apenas depois de duas guerras mundiais e da tragédia nazista houve um movimento mais assertivo para regular e constitucionalizar seu funcionamento. Mesmo assim, isso também implicou exclusões e modulação do comportamento partidário.
O caso mais notório foi o banimento dos partidos fascistas na maior parte da Europa do pós-guerra e, em alguns casos, também dos comunistas. Em países como a Itália – onde os comunistas haviam sido decisivos na resistência ao fascismo –, não foi possível colocá-los na ilegalidade. Mesmo assim, coalizões informais e a pressão americana impediram o poderoso Partido Comunista Italiano (PCI) de chegar ao poder. Na Alemanha, mesmo o SPD, já em sua encarnação moderada, só voltou a ter uma oportunidade de governo após o Congresso de Bad Godesberg, quando renunciou definitivamente ao marxismo como sua ideologia oficial.
O partido que conhecemos hoje, portanto, não é uma representação fidedigna do multifacetado e disruptivo fenômeno partidário moderno, mas sim a sua forma institucionalizada e, na medida do possível, domesticada. Se nos atermos a essa concepção atual, deixaremos de notar o surgimento de outras formas de organização partidária, com potencial tão ou mais subversivo que o dos partidos de massa na virada para o século XX.
A primeira experiência significativa de uso das mídias digitais na política ocorreu na campanha à Presidência de Barack Obama, em 2008. Na ocasião, criou-se uma ampla rede de apoiadores, com o intuito de organizar eventos e angariar contribuições financeiras. Desde então, a força dos meios digitais se fez sentir cada vez mais no âmbito global. Para além das mobilizações da Primavera Árabe e dos movimentos Occupy no início da década de 2010, houve tentativas de usar esses recursos em benefício da organização partidária. Um exemplo marcante é o Podemos, na Espanha, em que a mobilização digital permitiu ao partido alçar um voo meteórico na política espanhola. Na esteira do seu êxito, o italiano Movimento 5 Estrelas passou a usar uma plataforma digital intitulada Rousseau, cujo propósito era mediar a relação entre militantes e lideranças.[4]
As lideranças bolsonaristas, no entanto, deram um passo além desses precedentes. Passaram a agir de modo coordenado nas redes, sem se valer de uma plataforma, algoritmo ou burocracia externa. Para esses líderes, o mundo digital não se destina a aprofundar princípios democráticos em partidos tradicionais, nem serve como uma ferramenta auxiliar de uma organização externa. O mundo digital é, ele próprio, o meio em que formulam e executam uma ação coesa em busca do poder político. O partido digital bolsonarista existe principalmente a partir das ações no meio digital, com as possibilidades e as limitações que lhe são impostas por essa condição.
Teorias modernas sobre o partido político ressaltam a capacidade que partidos têm de resolver o dilema da ação coletiva, segundo o qual indivíduos racionais agindo em defesa do próprio interesse, mesmo quando há interesses em comum, dificilmente chegam a um acordo ótimo ou mesmo aceitável para o grupo todo. Para ilustrar essa lógica na realidade brasileira, é como se as ações individuais e isoladas de Jair Bolsonaro, Gabriel Monteiro, Silas Malafaia e Pablo Marçal não necessariamente (ou mesmo dificilmente) atingiriam o objetivo de avançar a pauta conservadora no país. Restritos cada qual em seu nicho, atuariam de forma fragmentada e limitada, sem poder de mobilização ou capacidade de influência institucional.
Em partidos tradicionais, no entanto, o dilema da ação coletiva é resolvido por meio de um arcabouço burocrático. São diretórios e executivas, ordenados de modo hierárquico, que delineiam estratégias, priorizam temas e formam uma agenda. Assim, embora estejam sendo empregadas com frequência cada vez maior, as técnicas digitais ainda aparecem como mera ferramenta auxiliar dessas instâncias. No caso das lideranças bolsonaristas, a ação coordenada nas redes sociais são a própria instância. É no meio digital que essas lideranças estabelecem conexões, criam e manejam hierarquias, apresentam pautas e discursos, e, por fim, se sujeitam ao crivo da base. Elas conseguem, com isso, mobilizar de modo coeso uma base conservadora fragmentada e diversa.
Em razão desse comportamento nitidamente partidário, hoje há um temor fundamentado sobre o plano bolsonarista para a conquista da maioria do Senado nas eleições de 2026. A eleição para essa Casa é historicamente marcada pelo domínio de lideranças regionais, em disputas que pouco espelham divisões partidárias nacionais. Embora de difícil consecução, o partido digital bolsonarista almeja algo que nem mesmo a maior coalizão do período de estabilidade da Nova República, a coalizão do Plano Real entre PSDB e PFL, sonhou em conquistar.
Essa dinâmica nova e seus limites saltam aos olhos em momentos de crise, como aquela ensejada por Pablo Marçal na corrida pela Prefeitura de São Paulo em 2024. Seu crescimento nas intenções de voto ameaçou a estratégia bolsonarista de fazer costuras com partidos do Centrão, com o objetivo de acessar a máquina pública e formar alianças para 2026. São Paulo era uma peça central nesse jogo. O governador Tarcísio de Freitas apoiava o incumbente Ricardo Nunes, e Bolsonaro havia indicado o candidato a vice-prefeito, o coronel Mello Araújo. A repercussão da chapa na militância bolsonarista e a crítica de Marçal sobre os acordos com o Centrão levaram Bolsonaro a hesitar na estratégia inicialmente desenhada. Temia perder sua base e ver emergir uma nova liderança capaz de contestar sua posição de destaque na direita brasileira.
O comportamento de Marçal no Sete de Setembro foi essencial para a decisão de isolá-lo e marchar em definitivo com o prefeito Ricardo Nunes. Mas a construção dessa decisão não foi fácil, precisamente em decorrência da natureza do partido digital. Nikolas Ferreira inicialmente remou junto à corrente de opinião de seus seguidores e mostrou-se um entusiasta de Marçal, enquanto Silas Malafaia, o pastor político, chegou a proferir críticas abertas a Bolsonaro por sua atitude ambígua. Na última semana de eleições, o ex-presidente voltou a defender publicamente o voto no prefeito incumbente, e a semana eleitoral foi marcada por um conspícuo silêncio entre lideranças bolsonaristas a respeito de Marçal.
Apesar da disputa acirrada no primeiro turno de outubro de 2024, Marçal quase alcançou o segundo turno, mobilizando os votos de parte do eleitorado de direita. Mas o esforço de concertação bolsonarista teve resultado. Ao fim e ao cabo, suas principais lideranças atuaram de modo orquestrado e mantiveram a coesão de sua base, sobretudo nos eventos que se seguiram. Note-se que a decisão do partido digital bolsonarista teve de ser justificada em incessantes lives na semana eleitoral, cujo objetivo não era tanto esvaziar a votação do novo postulante, mas manter a legitimidade das lideranças e de sua máquina digital, que, ao contrário de Marçal, sobreviveram ao episódio e permanecem mobilizados. Hoje, enquanto a luta pela anistia e pela recuperação dos direitos eleitorais de Bolsonaro continua a pleno vapor, Marçal coleciona sentenças judiciais retirando-lhe direitos políticos e é ignorado pela base mais ampla do movimento conservador.
A história dessa polêmica mostra que a hierarquia do partido digital, embora existente, parece ser mais nebulosa do que as de burocracias tradicionais, cujo poder de imposição, aliás, também é frequentemente superestimado – basta lembrar das inúmeras disputas fratricidas dentro do PT. Ao passo que Marçal foi abandonado na beira da estrada, outras lideranças conservadoras frequentam uma zona cinzenta, equilibrando-se entre o partido digital bolsonarista e caminhos mais autônomos, por vezes lutando contra a rejeição do núcleo bolsonarista – casos, por exemplo, de Ricardo Salles e Carla Zambelli.
A divulgação do relatório da Polícia Federal sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos corrobora a hipótese sobre a estratégia e o esforço para atuar de modo coordenado nas redes. Não se trata aqui de defender uma ideia superficial de “manipulação das bases”, em que caem muitas análises atuais sobre o bolsonarismo. O que as lideranças bolsonaristas conseguem por meio de sua atuação digital é isolar dissidências e elencar prioridades que atendam a seu cálculo político. É uma relação viva e tensa com a base digital conservadora, alcançando impressionante coesão no fragmentado ecossistema digital do conservadorismo brasileiro. Ao fazerem isso, as lideranças da direita estão criando, ainda que de modo embrionário, essa nova forma de partido.
O longo percurso entre o surgimento e a relativa incorporação dos partidos de massas foi marcado por enorme instabilidade e rupturas de regime – não necessariamente em sentido negativo.
Na virada do século XX, pouquíssimos países apresentavam alguma forma, ainda que tímida, de sufrágio democrático. Hoje reconhecemos como as democracias mais antigas eram na verdade: governos representativos de feição eminentemente aristocrática. Era o caso da tríade que muitos consideram fundadora da democracia liberal: França, Estados Unidos e Reino Unido. Embora desde o fim do século XVIII os três países estivessem organizados em torno de instituições representativas, apenas no curso do século seguinte a luta política levou à democratização da participação política.
Nesses, como em outros países, o processo decorreu de diferentes formas de mobilização partidária, que fizeram ruir o edifício de regimes tradicionais, dando origem ao que o cientista político francês Bernard Manin chamou de “democracia dos partidos”. Especialmente em sociedades mais conservadoras, como Alemanha e Suécia, a força dos partidos de massa se mostrou decisiva para enfrentar o poder de Estados autoritários. A democracia liberal, no entanto, não foi o único resultado desse período de turbulências. Para outro estudioso do tema, Gregory Luebbert, o surgimento da política de massas levou à criação de outros dois regimes característicos do século XX: o fascismo e a social-democracia.
Um paralelo com esse período talvez ajude a entender a instabilidade que começa a se apresentar com a emergência do partido digital. Assim como o surgimento dos partidos de massa desembocou nos regimes do século XX, é possível que estejamos num interregno, vivendo o surgimento de ordens políticas de feições ainda desconhecidas.
A natureza não institucionalizada do partido digital é um traço importante da estratégia bolsonarista. É o que lhe permite atuar nas margens da regulação pública, desviando-se de proibições impostas ao discurso político, avançando sobre o tempo regular de campanha e, principalmente, agindo nas sombras no que diz respeito a obtenção e uso de recursos financeiros.
Isso não quer dizer que não haja relação com as instituições vigentes. O principal caminho seguido pelo partido digital bolsonarista para compensar os efeitos negativos de sua existência fora das instituições tem sido o de se infiltrar – ou hackear – partidos tradicionais, em especial as legendas conservadoras do Centrão, e mais especificamente o PL, presidido por Valdemar Costa Neto. Com isso, o partido digital bolsonarista consegue competir em eleições, ter acesso a fundos públicos e acessar outras prerrogativas de partidos institucionalizados – como, por exemplo, a capacidade de recorrer ao Supremo Tribunal Federal. Em troca, o PL recebe um mar de votos conquistado pela mobilização bolsonarista. O Centrão não impôs barreiras ao partido digital. Ao contrário: à sua boa moda, lhe ofereceu soluções.
Mesmo com essa relação cada vez mais carnal, o partido digital bolsonarista tem um outro locus de decisão e organização, diferente das instâncias oficiais do pl. Vem daí a impressão que se teve até agora de que o PL tem duas cabeças: Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro. O convívio mútuo entre as duas legendas, a digital e a tradicional, é muito mais parecido com uma relação contratual do que com uma união política sólida – os benefícios mútuos são negociados a cada passo. A aliança com o fugaz PSL em 2018 tinha uma lógica semelhante. Ao sinal de que a legenda já não atendia ao projeto de poder bolsonarista, articulou-se uma migração em massa para a nova agremiação, sem qualquer sinal de prejuízo para o bolsonarismo. A relação de autonomia mútua entre o partido digital bolsonarista e as legendas que lhe dão abrigo fica ainda mais clara quando percebemos que há bolsonaristas espalhados em diversos partidos do Centrão, especialmente no PP e no Republicanos.
Por serem movidos por lógicas distintas, o convívio entre o partido digital bolsonarista e os partidos do Centrão é por vezes tenso e conflituoso, o que gera impactos (talvez subestimados num primeiro momento) para a política brasileira e para os próprios partidos hospedeiros. O Centrão se caracteriza desde a Assembleia Constituinte de 1988 por impor sua agenda mediante a negociação de espaços no governo, por fora do debate público. Embora conservadores, nunca atuaram de modo ideológico. Sua defesa do status quo tem seguido a lógica do fisiologismo, da troca do apoio político por cargos e indicações. O partido digital bolsonarista, por sua vez, carrega uma disposição oposicionista não apenas contra o governo, mas contra a ordem política. O traço ideológico que une todas as suas correntes, e que esteve em sua origem, é a rejeição aos pilares da Constituição Cidadã. A organização política bolsonarista ofereceu a esses grupos um meio para efetivamente contestar e minar a ordem constitucional.
Não é pouca coisa. Agir contra o Estado nunca foi tarefa trivial. Ao longo da história, partidos mostraram sua capacidade de se valer dos recursos e meios de mobilização da sociedade moderna para oferecer um contraponto à legitimidade do governo incumbente ou mesmo à do regime. Essa lógica de politização do debate público é completamente distinta daquela habitualmente abraçada pelo Centrão. É a primeira vez que temos no Brasil um partido conservador que pode oferecer um desafio amplo e sistemático ao governo, ao modo como apenas partidos de mobilização de massa já fizeram em outros momentos da história, e seus efeitos sobre a direita brasileira já começam a ser sentidos. Ao contrário dos prognósticos de domesticação do bolsonarismo, o que se vê é o inverso: um processo de ideologização dos partidos do Centrão, que pode, no limite, exaurir o mero fisiologismo pelo qual o grupo é conhecido desde sua origem.
Parcela considerável de congressistas são hoje menos dependentes do acesso ao Estado do que da mobilização ensejada pelo bolsonarismo. Para eles, seguir um comportamento coordenado junto ao partido digital bolsonarista é mais importante para seu futuro político do que alimentar suas clientelas e paróquias eleitorais – mesmo que isso implique uma ação aberta contra o Estado democrático brasileiro. Quem representa bem essa transformação é o senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro. Político tradicional do Piauí, ele resolveu vestir uma roupagem oposicionista ao atual governo e articula abertamente o desembarque de seu partido do governo atual, com vistas a aderir a uma candidatura conservadora no ano que vem, mesmo sendo senador de um estado que vem dando amplo apoio ao PT e a Lula.
Atualmente, o comportamento dos parlamentares bolsonaristas é mais parecido entre si do que com a de seus pares nas legendas a que formalmente pertencem. Dito de outro modo, o partido digital bolsonarista tem conseguido algo que os partidos do Centrão jamais alcançaram ou quiseram alcançar: a fidelidade partidária e o posicionamento coeso e ideológico. O resultado disso é um enfraquecimento histórico do governismo no Congresso. A perda de controle sobre o Orçamento da União certamente reduz a margem de negociação da Presidência da República na formação da agenda legislativa, mas isso não deve nublar uma mudança muito mais profunda em curso: a emergência de uma oposição conservadora, ideológica e de massas ao regime político vigente.
O surgimento do partido digital bolsonarista encontrou um campo aberto, para não dizer terra arrasada, no espaço da direita política do país. Embora a crise brasileira da última década tenha sido, ao menos desde 2016, interpretada como uma crise do PT, hoje é possível ver com maior clareza que o impeachment de Dilma Rousseff foi, antes de tudo, um sinal de derrocada de seu principal adversário até então, o PSDB.
Ao modo de um tradicional partido de quadros, o campo de atuação do PSDB desde sua origem foi eminentemente o parlamentar. Neste ambiente, o partido foi criado em 1988 e dali se projetou para o cenário nacional, durante o impeachment de Fernando Collor. A crise de 2016 ocorreu em cenário já muito diverso, tendo portanto efeito diametralmente oposto para o partido em termos de repercussão política. Nela ficou patente que o PSDB já se mostrava incapaz de desempenhar sua tarefa primordial, assumida desde 1994: fazer frente ao PT nas eleições presidenciais. Diante de um partido de massas que organizava seu apelo eleitoral com uma agenda de redução da pobreza e da desigualdade, o partido de Fernando Henrique Cardoso e o conservadorismo tradicional brasileiro se mostraram cada vez mais anacrônicos. Nada mais sintomático disso do que o governo de Michel Temer, que desde os primeiros dias parecia ter vindo pelo túnel do tempo diretamente da República Velha.
Nesse cenário, quando em 2018 Bolsonaro provou ser o único candidato competitivo diante do crescimento das intenções de voto do petista Fernando Haddad, não restou pedra sobre pedra do castelo tucano. A emergência do partido digital bolsonarista, portanto, não decorreu da competição com adversários que se dispunham à mesma tarefa. Foi, ao contrário, um voo solo sobre um deserto sedento por lideranças de massas.
A situação no campo da esquerda parece significativamente distinta. Apesar dos pesares, o PT parece mais uma vez ter sobrevivido a outro fim anunciado. Seu legado de partido de massas lhe dá significativo respaldo de movimentos sociais e sindicais e uma legitimidade política atestada pelo alto percentual de identificação partidária, bem como pelas votações substantivas alcançadas entre os segmentos mais pobres da população. O PT ainda é imprescindível para a esquerda e, até o presente, também incontornável, especialmente depois de a candidatura de Lula em 2022 ter reafirmado a liderança do partido em um momento em que outros líderes progressistas começavam a aventar voos próprios.
Mas, paradoxalmente, a força petista é também sua fraqueza nos tempos de política digital. Para o PT, a mera adoção de técnicas digitais de campanha é um passo ainda muito aquém do necessário para fazer frente à mobilização bolsonarista. Nesta nova forma de partido, com novas estruturas, mesmo o processo de formação de lideranças está sujeito à lógica digital. Os líderes petistas, ou de outras legendas de esquerda, ainda surgem e crescem graças à sua história em movimentos sociais e por meio de sua atuação na burocracia partidária, como se espera em um partido de massas tradicional, mas não é o suficiente para o crescimento de lideranças em um partido digital.
Basta acompanhar a última disputa pela presidência do pt para termos uma noção clara disso. Todos os principais candidatos tinham trajetória de militância e participação nas instâncias do partido, e, embora Edinho Silva, o vencedor, tenha também um histórico de êxito eleitoral, seus votos sempre se deveram muito mais à sua atuação política em movimentos e na administração pública do que por sua militância digital. Justamente por ser um partido clássico, por assim dizer – o único verdadeiro partido de massas da política brasileira – é natural que o PT tenha dificuldade de se adequar a novas lógicas, de modo que sua adaptação ao mundo digital provavelmente será bem mais difícil.
Ainda não está claro que desenvolvimento o partido – e por consequência, a esquerda – terá neste novo momento. Mas é possível imaginar que, à diferença do que ocorreu na direita, a política digital no âmbito da esquerda se fará sentir por meio do surgimento de partidos digitais que tentarão competir de algum modo com o petismo, dentro e fora do partido, afetando suas disputas internas, desafiando a estabilidade de seus grupos dominantes e ampliando suas fronteiras formais. O tempo dirá como o PT irá enfrentar esse cenário desafiador que apenas começa a aparecer.
[1] Essa evolução foi acompanhada pelo também pesquisador e diretor científico do CCI/Cebrap, Jonas Medeiros, e divulgada em diversos meios, inclusive numa reportagem no site da piauí, publicada sob o título Menos Exército, mais carro de som.
[2] Núcleo sediado no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e liderado pelo professor Marcos Nobre. Participam do grupo ainda os seguintes pesquisadores do CCI/Cebrap: Ana Claudia Teixeira, Daniela Costanzo, Mércia Alves e Paulo Yamawake. O primeiro relatório do projeto está disponível em <https://cci-cebrap.org.br/publicacoes/o-partido-digital-bolsonarista/> e contou também com a colaboração de Carol Luck, do Projeto Brief, e de João Santos e Letícia Capone, do Instituto Democracia em Xeque. Contribuiu ainda Júlio Canello, pesquisador associado do Iesp-Uerj, junto ao Observatório do Legislativo Brasileiro.
[3] O termo no sentido discutido aqui e desenvolvido em nossa pesquisa foi apresentado pela primeira vez no livro de Marcos Nobre, Limites da democracia.
[4] O sociólogo Paolo Gerbaudo introduziu a ideia de partidos digitais para se referir a essas tentativas de substituir a mediação burocrática por ferramentas digitais – Gerbaudo, porém, descrevia um fenômeno que considerava ainda limitado pelo modelo tradicional de partidos de massa como o conhecemos no século XX.
Leia Mais
