Propuesta Republicana, o partido de Macri, surgiu depois da crise de 2001. Reunia pessoas jovens: de ONGs, das universidades e do setor privado. Críticos à esquerda viam o PRO como um aglomerado de neoliberais nostálgicos da era Menem FOTO: CASA ROSADA_2015
O C.E.O.
Mauricio Macri, o presidente que recrutou executivos para governar e parece querer prescindir da política
Graciela Mochkofsky | Edição 112, Janeiro 2016
Em 6 de dezembro passado, apenas quatro dias antes de deixar a Presidência, Cristina Kirchner tuitou uma história surpreendente para seus 4,3 milhões de seguidores: contou que o presidente eleito, Mauricio Macri, havia acabado de gritar com ela ao telefone, exigindo receber faixa e bastão presidenciais – adereços da tradicional cerimônia de posse – no palácio presidencial, e não, como pretendia ela, no Congresso Nacional. De acordo com Cristina, ele teria dito aos gritos (o que os assessores de Macri posteriormente negaram) que era isso o que ela precisava fazer, porque “a cerimônia era dele” – e teria ainda ameaçado deixá-la de fora, caso não cooperasse. Nessa hipótese, ele receberia faixa e bastão do presidente da Corte Suprema de Justiça. As intenções dela, prosseguia Cristina, eram as melhores possíveis. Havia mandado até plantar flores amarelas (a cor do PRO, Propuesta Republicana, o partido do presidente eleito) nos jardins da residência presidencial. Mas aquela gritaria toda era intolerável e, sugeriu ela, antidemocrática. Para ela, era o fim. “Meu amor acabou aí”, escreveu.
Boa parte do resto da semana foi consumida nessa refrega. Macri insistia em seu desejo de que a cerimônia tivesse lugar à tarde, no palácio presidencial; Cristina, em que ela acontecesse pela manhã, no Congresso Nacional. Na quarta-feira, Macri conseguiu de uma juíza a determinação para que a Presidência de Cristina Kirchner terminasse um pouco mais cedo que o esperado: à meia-noite da véspera da posse do novo mandatário.
No dia designado, Cristina se dirigiu a uma multidão impressionante, de mais de 100 mil pessoas, que se reunira diante da Casa Rosada apenas para se despedir da presidente; a maioria dos cartazes dizia “Obrigado”. Ela brincou: “À meia-noite, vou me transformar numa abóbora.” Na hora assinalada, Cristina Kirchner deixou o poder, e Federico Pinedo, um membro do PRO empossado naquela tarde como presidente provisório do Senado, assumiu como presidente interino da Argentina – um chefe de Estado não eleito, instituído por força de uma briga e de uma ordem judicial. Macri foi empossado pelo Congresso, doze horas mais tarde.
Foi um começo pouco auspicioso para o novo presidente, que, como candidato, havia adotado o slogan “Vamos mudar” e prometera superar a polarização que tomou conta do país desde 2008.
Filho privilegiado de um magnata que se fez por conta própria, criado para herdar e comandar um império industrial, Macri chocou muita gente ao enveredar pela carreira política, e com certeza chocou o mundo todo ao derrotar o peronismo, aparentemente invencível, nas eleições presidenciais de novembro, apoiado por uma coalizão formada em torno do PRO, partido que fundou há apenas doze anos.
Ao assumir a Presidência como candidato declaradamente pro-business, depois dos três mandatos do transformador populismo de esquerda de Néstor (2003–07) e Cristina Kirchner (2007–15), é possível que ele tenha mais surpresas a oferecer. Num país acostumado a oscilar como um pêndulo entre extremos que vão do neoliberalismo ao populismo redistributivo, Macri promete que sua administração será diferente: um governo de direita moderado, moderno e profissional, disposto a extrair o melhor de ambos os lados do espectro político. Essa parece ser uma convicção genuína, mas também uma necessidade de um presidente que não tem maioria no Congresso nem uma estrutura política nacional para encarar uma oposição que pode se revelar ferrenha.
Políticos rivais já acusaram Macri de estar preparando um revival das políticas neoliberais implementadas na Argentina durante a década de 90 – ou mesmo antes disso, por regimes militares –, e vaticinaram que o presente governo vai terminar numa crise terrível. Macri se vale de toda e qualquer oportunidade para se declarar diferente dos estereótipos que lhe aplicam. Mas não são apenas seus opositores que demonstram pouca fé nele. Durante a campanha deste ano, Franco Macri afirmou que seu filho, Mauricio, “não tem coração” para ser presidente. (Mauricio respondeu: “Duas pessoas convivem em meu pai: a que me ama incondicionalmente e a que me boicota.”)
É tentador especular que todos os esforços do filho para chegar aonde chegou, seu momento de triunfo, talvez tenham sido instigados pelo desejo de provar que o pai estava errado. “Estou completando 50 anos, vou fazer o quê? Ser como meu pai?”, disse-me Macri em novembro de 2007, poucos meses depois de conseguir sua primeira vitória política e se tornar prefeito de Buenos Aires.
No começo, porém, não parecia querer se diferenciar tanto assim do próprio pai.
Franco Macri, um imigrante italiano que fez fortuna nas indústrias automotiva e de construção civil, era figura central de um empresariado local que ganhou dinheiro em conluio com governo após governo, pouco importa se chefiados por ditaduras militares ou por presidentes eleitos democraticamente. Em sua busca longa e incessante por fortuna, esteve próximo de todas as administrações, desde a da ditadura militar (1976–83) sob a qual construiu sua empresa até a kirchnerista.
Mauricio Macri formou-se em engenharia e começou como executivo no conglomerado industrial do pai, Socma (Sociedad Macri). Em seu tempo livre, como Franco, era playboy e mulherengo. Ao longo de toda a década de 90, fotografias dos Macri deitados ao sol e rodeados de jovens curvilíneas em minúsculos biquínis eram um clássico das edições de verão das revistas de fofocas. Casou-se três vezes, todas elas com mulheres belíssimas. O pai só se casou duas vezes, mas cortejava abertamente incontáveis amigas, cada vez mais jovens.
Em certo momento, contudo, Mauricio mudou de curso. Por quê? Em 1991, ele foi sequestrado por policiais criminosos e libertado em troca de resgate; foram doze dias de cativeiro. A experiência, segundo ele conta, transformou sua postura de vida como o faria uma doença terminal. Em 1995, num primeiro passo rumo à política, tornou-se presidente do Boca Juniors, o time de futebol mais popular da Argentina. Num país em que o futebol é não apenas um esporte popular, mas também parte intrínseca da identidade nacional, Macri ganhou enorme exposição, assim como acesso às esperanças das pessoas.
No final de 2001, princípio de 2002, como resultado de políticas neoliberais implementadas nos anos 90 e financiadas mediante endividamento externo e venda de companhias estatais, a Argentina se viu obrigada a congelar todas as contas bancárias do país, dar um calote na dívida e desvalorizar o peso. Metade do país passou a viver abaixo da linha da pobreza. Com apenas 50% do mandato cumprido, o presidente da República renunciou, deixando o cargo de helicóptero. Do lado de fora do palácio, a polícia atirava nos manifestantes. Os protestos continuariam por meses, com manifestantes exigindo a cabeça de toda a classe política. “Que se vayan todos!”, gritavam. E um bocado deles de fato se foi. Ao dar cabo das principais figuras políticas do país, a crise parecia oferecer não apenas a Macri, mas a todo mundo, uma oportunidade de substituí-las. À esquerda, houve experiências sociopolíticas, tais como “assembleias” ao estilo soviético e cooperativas de trabalhadores assumindo o comando de fábricas falidas. À direita, Macri fundou, em 2003, o partido que, mais tarde, receberia o nome de Propuesta Republicana, ou PRO.
Nenhum desses experimentos reuniu força suficiente para desafiar o establishment político remanescente. Com o colapso à vista de todos da União Cívica Radical, tradicional segunda força política do país, o peronismo – o movimento popular transformado em máquina política pragmática que, ao longo de seus setenta anos de existência, acomodou da extrema direita à extrema esquerda – conseguiu sobreviver. Em maio de 2003, um mês depois da fundação do partido de Macri, Néstor Kirchner, o governador peronista da província remota e pouco povoada de Santa Cruz, na Patagônia – figura quase desconhecida no restante do país –, assumiu a Presidência. Durante seus quatro anos de mandato, favorecido por um período de prosperidade impulsionado pela disparada internacional do preço das commodities, Kirchner reestruturou a dívida externa, o maior fardo financeiro e político da Argentina desde os anos 80. Fez mais: baixou os níveis de pobreza de 57,5% para 23% do país; implementou uma ampla gama de subsídios à energia e aos transportes públicos que beneficiou as classes médias baixa, média e alta; criou programas de auxílio aos desempregados e de bem-estar para os pobres; deu início a uma política de direitos humanos que resultou na prisão de criminosos da mais recente ditadura militar, antes favorecidos por um longo período de perdões e anistias; e deu independência à Suprema Corte de Justiça.
Enquanto isso, no seu novo partido, Macri reunia um grupo de pessoas, em sua maioria jovens, vindas de ONGs, das universidades de elite e do setor privado, temperando a agremiação aqui e ali com uns poucos políticos mais experimentados. Críticos à esquerda viam o PRO como um aglomerado de neoliberais nostálgicos, esperançosos de um retorno da era Menem. Macri insistia em que o partido não era isso. Em 2005, dois anos após a criação da legenda, foi eleito deputado federal por Buenos Aires. Tornou-se prefeito da cidade em 2007, o que lhe deu projeção nacional.
Alguns dos novos líderes do PRO eram bem conservadores, tais como a atual vice-presidente Gabriela Michetti, católica de extrema direita. Outros, como o próprio Macri, eram liberais, do ponto de vista social. Adeptos de uma estética cool, apresentavam-se todos como bem-falantes, saudáveis, gente boa e bem-sucedida. Uma reunião típica do PRO contava, e ainda conta, com centenas de balões amarelos e muita dança, mais parecendo uma daquelas festas de aniversário ou casamento celebradas pela classe média. “Dentro do PRO, coexistem uma centro-direita populista e conservadora, que acredita em política de base; uma centro-direita católica que acredita em trabalho voluntário; e uma centro-direita que olha para a frente, se pauta pelo mercado e crê em outras coisas”, afirmou o sociólogo Gabriel Vommaro, coautor de um livro sobre o partido intitulado Mundo PRO.
Contudo, atrás da pista de dança, há alguns cantos escuros. Macri, por exemplo, foi indiciado quando era prefeito de Buenos Aires, em 2010, por supostamente ter orientado um grupo de policiais a realizar escutas ilegais. (O indiciamento permanece, mesmo após a posse como presidente.) E a empresa têxtil da família de sua atual esposa, os Awada, foi indiciada pela utilização de trabalho escravo. Um juiz federal determinou o arquivamento do processo contra a família em 2007; pouco depois, esse mesmo juiz tornou-se um dos membros do gabinete do prefeito Macri.
Quando Cristina Kirchner sucedeu ao marido numa vitória acachapante em 2007, duas coisas tornaram-se aparentes: o casal planejava se alternar no poder pelo máximo de tempo possível, e inexistia um grupo político capaz de derrotá-lo. Essas duas certezas radicalizaram a classe média não peronista que foi às ruas em 2008. Seguiu-se uma polarização feroz, o “kirchnerismo contra o antikirchnerismo”, ressuscitando as inimizades que, de 1945 até a década de 80, haviam dividido cruelmente o país entre peronistas e antiperonistas.
Antes do estabelecimento desse cenário de extrema polarização, Macri se valia de toda e qualquer oportunidade para se diferenciar dos Kirchner. Não obstante, enfrentava-os bem menos que outros líderes oposicionistas. À época, chegou mesmo a haver especulações de que ele tentaria conseguir um acordo com pelo menos uma ala do Partido Justicialista, nome oficial da legenda peronista, a fim de poder concorrer à Presidência.
Durante seus oito anos como prefeito, Macri combinou austeridade fiscal, na gestão dos orçamentos para a saúde e a educação, com importantes investimentos públicos na infraestrutura de Buenos Aires. Sua administração não combateu os sindicatos locais; ao contrário, negociou com eles. Macri se negou a privatizar o banco da cidade. No fim, pagou por essas ambiguidades triplicando o déficit municipal, mas conseguiu se reeleger em 2011, quando preferiu permanecer na prefeitura a entrar numa disputa presidencial em que Cristina Kirchner ameaçava ser (e se revelou de fato) imbatível.
O pragmatismo de Macri se mostrou em toda a sua plenitude por ocasião das etapas que conduziram à aprovação de uma lei autorizando o casamento entre homossexuais, em 2010. Em 1997, ele declarara numa entrevista que a homossexualidade era uma “doença”. Em 2007, recusou-se, como deputado federal, a apoiar uma lei que propunha o casamento gay. Dois anos depois, um juiz declarou inconstitucionais dois artigos do Código Civil que impediam o casamento entre homossexuais e solicitou à Câmara Municipal de Buenos Aires que concedesse a um casal gay a permissão solicitada para o casamento. Como prefeito, Macri podia ter instruído os procuradores municipais a apelar da decisão. Mas não o fez, e desencadeou, assim, a bem-sucedida campanha para a aprovação de uma lei federal patrocinada no Congresso pelos Kirchner. (Os legisladores do PRO se dividiram na hora de votar.)
Independentemente de toda e qualquer consideração sobre as reais convicções de Macri, as pesquisas revelavam o que importava: 73% dos habitantes de Buenos Aires, considerada uma das cidades mais simpáticas do mundo aos gays, apoiavam a lei. Os macristas postulam um trato não ideológico, “técnico”, da política, que inclui pesquisas de opinião e marketing.
Em 2015, cinco anos depois da morte de Néstor, Cristina Kirchner estava impossibilitada de tentar a reeleição e o kirchnerismo não dispunha de um claro sucessor. Macri conseguiu então reunir todos os grupos oposicionistas em torno de sua candidatura. O peronismo se dividiu, e apenas com muita relutância e no último instante Cristina deu seu apoio a um dos dois candidatos: Daniel Scioli, ex-vice-presidente de Néstor e governador da província de Buenos Aires por dois mandatos – um aliado público que os Kirchner viam, na realidade, como inimigo. Mesmo sob essas condições favoráveis, Macri só conseguiu se eleger no segundo turno, e por uma margem de apenas 2,68% dos votos.
Como candidato, Macri adotou o slogan “Vamos mudar”, e sua vitória já produziu algumas poucas mudanças.
Trata-se da primeira vez na história da Argentina que um candidato declaradamente de direita e pro-business é eleito, livre e justamente, presidente da República. Somente as ditaduras militares abraçavam e promoviam essa plataforma. Presidentes eleitos mais ou menos livremente só adotaram uma posição pro-business depois de terem prometido fazer exatamente o contrário. É também a primeira vez na história da Argentina que outro partido, que não o peronista ou o radicalista, chega ao poder por meio de eleições democráticas de fato. E é a primeira vez na história do país que um presidente democrático monta uma administração em grande parte desprovida de políticos “antigos” ou “tradicionais”.
De todo modo, com a vitória nas eleições, o PRO se viu necessitado de membros capazes de preencher não apenas os cargos da prefeitura de Buenos Aires, a experiência administrativa anterior de Macri, mas postos no governo federal e na província de Buenos Aires, a mais populosa da Argentina (16,6 milhões de pessoas, num país de 41 milhões de habitantes – 40% do eleitorado nacional) e baluarte histórico do peronismo. A nova governadora, María Eugenia Vidal, ex-vice-prefeita de Macri, solicitou fundos de emergência para pagar os salários de dezembro e declarou estado de emergência em razão da criminalidade disseminada e da violência relacionada às drogas (que seus predecessores não conseguiram erradicar).
Macri, então, se saiu com a ideia de recrutar ex-diretores e altos executivos de companhias privadas e multinacionais, à sua semelhança. O resultado disso é que o novo ministro da Economia é um ex-executivo do J.P. Morgan; a ministra das Relações Exteriores é ex-diretora da IBM e da Telecom Argentina; o ministro da Energia é ex-presidente da Shell Argentina; o secretário das Finanças é um ex-executivo do Deutsche Bank; o ministro da Produção é ex-diretor de um fundo de pensão; a presidente da Aerolíneas Argentinas é ex-diretora regional da General Motors. E segue a procura por mais nomes.
Mas quantos executivos e diretores de empresa alguém pode conhecer pessoalmente? Diversos headhunters foram contratados para fazer uma busca entre executivos argentinos que trabalham no exterior, a fim de preencher as vagas ainda em aberto. Um desses headhunters, Alex Cirone, o presidente da Prolaurum para a América Latina, disse ter recebido 1 500 candidaturas, e outras estão a caminho. O principal incentivo para os candidatos, diz ele, “é servir ao país participando de uma nova liderança, cujo objetivo é reconduzir a Argentina a uma posição privilegiada na arena global”. De acordo com Cirone, a maioria dos candidatos não se importa com os salários reduzidos.
Em virtude da falta de CEOs disponíveis, certos postos foram preenchidos por figuras inesperadas, adicionando um pouco de comédia ao processo. Quando perguntado sobre sua nomeação para ministro do Meio Ambiente, o rabino Sergio Bergman respondeu: “Não tenho nenhum conhecimento técnico da área ambiental. Vou usar o bom senso.” O ministro da Cultura, Pablo Avelluto, ex-diretor do escritório regional da editora Random House, ao falar sobre o Plano Nacional de Leitura, declarou: “Não conheço os detalhes, mas concordo que um plano assim deveria existir.” A nomeação de um executivo de tevê, Juan Cruz Avila, como secretário de políticas para a universidade pública provocou tamanho alvoroço nos círculos acadêmicos que ele renunciou quase de imediato. Declarou que compreendera não ser o candidato mais apropriado para o posto, porque “sou diretor executivo de uma empresa e minha especialidade é gerir e administrar”.
“Em grande medida, o PRO nasceu como uma tentativa de estimular profissionais de negócios a se envolver com política, a tornar a política mais eficiente”, disse-me Vommaro. “Os CEOs que ocupam tantas posições relevantes [no novo governo] não são expressão tanto da influência direta das grandes empresas, e sim da centralidade da ideia de gestão com que o macrismo pretende reerguer o país. Como isso vai se coadunar com pragmatismo, é um mistério”, afirmou.
“Um novo tipo de líder de direita está surgindo em toda a região”, observa José Natanson, analista político e diretor da edição sul-americana do Le Monde Diplomatique. De acordo com Natanson, Sebastián Piñera, do Chile, Henrique Capriles, da Venezuela, e Mauricio Macri, da Argentina, são líderes democráticos, pós-neoliberais, com um discurso marcado pela compaixão social e que não se furtarão a tomar umas poucas medidas populistas.
Mas é possível conduzir o gabinete de Macri, lotado de CEOs, a esse tipo de moderação pragmática?
Diante dos desafios econômicos e políticos que o aguardam, Macri pode muito bem descobrir que o que torna seu governo tão atraente para os negócios internacionais terá o efeito contrário sobre seus eleitores.
A começar pela economia. Em 2011, logo após ser reeleita, Cristina Kirchner impôs o chamado “cepo” às operações de câmbio na Argentina, a fim de evitar a fuga de capitais enquanto seu governo tentava não desvalorizar o peso, apesar das pressões externas nesse sentido. Uma combinação de normas administrativas restringiu as compras particulares de dólares, e uma taxa de câmbio fixa foi estabelecida (em 2011, eram 4,40 pesos por dólar; ao final do governo de Cristina, essa relação estava em cerca de 9 para 1). As importações foram limitadas e postas sob controle rigoroso, e as intervenções do governo sobre as vendas externas – além do câmbio controlado – limitavam os ganhos dos exportadores.
As restrições causaram descontentamento na classe média. Importadores e exportadores tentaram postergar suas operações. Houve pressões constantes para que o governo desvalorizasse o peso. Depois de quatro anos de “cepo”, as reservas do país caíram para 25 bilhões de dólares (menos da metade do que eram em 2011), em números do Banco Central da Argentina.
Macri havia prometido acabar com o “cepo” tão logo quanto possível. De acordo com seu plano, a eliminação da restrição e uma desvalorização devem estimular os exportadores de soja e de grãos a vender seus produtos e trazer o dinheiro para dentro do país. Ele está incentivando também os argentinos que compraram dólares no exterior ou esconderam seus dólares em casa a despejar esse dinheiro de volta na economia nacional (fala-se em 200 bilhões de dólares).
Contudo, o fim súbito do “cepo” e o salto da taxa de câmbio – que nos primeiros dois dias de governo passou de 9 para 13 pesos por dólar – podem alimentar a inflação. Alguns analistas estimam que ela pode alcançar cerca de 30% em 2016, mais que os 23% de 2015. Macri declarou também que vai eliminar boa parte dos subsídios concedidos à energia e ao transporte público ao longo dos três governos dos Kirchner. Os subsídios chegam a 4% do Produto Interno Bruto – o déficit fiscal total da Argentina é de 6,5% do PIB – e significaram preços baixos nos serviços públicos para milhões de argentinos durante toda a década passada. Eles beneficiam 93% dos que vivem em Buenos Aires e arredores, uma população de cerca de 13 milhões de pessoas. Se, por um lado, Macri prometeu manter os subsídios apenas para os muito pobres, que são 21% da população, por outro, isso significa que os beneficiários dos subsídios nas classes média e alta terão um aumento de até 700% nos preços dos serviços públicos.
Na semana anterior à posse do novo presidente, Cristina Kirchner disse: “Logo, logo, muitos argentinos vão descobrir que também eles estavam sendo subsidiados pelo governo” – um recado para os eleitores de Macri, muitos do quais rechaçavam aquilo que desqualificavam como demagogia voltada para gente avessa ao trabalho.
Pouca ou nenhuma ajuda oferecem, ademais, as sombrias perspectivas econômicas para a região, em parte devido ao fim da disparada no preço das commodities e, em parte, à desaceleração do crescimento chinês. A economia latino-americana está encolhendo pela primeira vez desde 2009, com um crescimento projetado para toda a região de 0,3% em 2016 – uma conjuntura que é ainda pior no Brasil, principal parceiro comercial da Argentina, que enfrenta uma severa recessão, como se sabe. A estratégia anunciada por Macri para estimular a economia envolve buscar crédito no exterior e atrair investimentos estrangeiros. Seu governo vai desfrutar de uma vantagem não concedida a nenhum de seus predecessores desde 1983: a ausência de uma pesada dívida externa (a dívida externa bruta do setor público é de 18% do PIB, uma das menores da América Latina). Espera-se do presidente o restabelecimento das relações com os mercados de capitais, rompidas durante a era Kirchner. O novo governo de fato já foi saudado pelos mercados financeiros. Uma semana antes de Macri assumir o poder, enviados do J.P. Morgan, do Merrill Lynch, da UBS Securities, do Credit Suisse e da Goldman Sachs tiveram reuniões a portas fechadas com membros da equipe econômica de Macri. “Jamais haverá governo mais simpático ao mercado do que esse governo argentino”, disse-me o jornalista econômico Alejandro Rebossio.
Tanto as forças externas a saudar sua vitória como também seu próprio governo pressionarão Macri a adotar medidas drásticas que apontem na direção da desregulamentação da economia, de um Estado menor, da austeridade. “Ouço investidores privados dizendo que, se não houver medidas de austeridade, não vão investir um único dólar”, diz Rebossio.
“Preciso me valer de certo gradualismo”, afirmou Macri em uma das primeiras entrevistas que concedeu depois da vitória: “Tentar acompanhar o processo sem produzir uma recessão.” E declarou também que queria “um mercado equilibrado por um Estado forte”. Como conseguir isso, se esse mesmo mercado está sendo solicitado a financiar o Estado necessitado? Marcos Peña, o novo chefe da Casa Civil e braço direito de Macri ao longo de toda a última década, contou-me que haverá “projetos de investimento de diferentes origens, com grande interesse do setor privado, depois de tantos anos de estagnação”.
Outra maneira de compensar pressões “dos mercados” seria recorrer à política. Mas aí Macri encontrará um conjunto diferente de complicadores, exemplificado inclusive na composição de seu gabinete.
Tendo vencido por uma margem estreita de votos, e somente numa coalizão que reuniu a totalidade do antikirchnerismo, Macri não pode contar com capital político próprio. Ele não possui maioria em nenhuma das casas do Congresso, nem mesmo contando todas as cadeiras conquistadas pela coalizão eleitoral que o levou à Presidência. O PRO tem apenas 41 deputados (91, se contarmos os aliados eleitorais), de um total de 129; e 4 senadores (15, incluindo-se os aliados), dos 37 necessários para aprovar uma lei.
E, no gabinete de executivos de Macri, verifica-se uma ausência conspícua dos grupos políticos que o ajudaram a chegar à Presidência. A despeito de sua debilidade e da falta de apelo popular, a União Cívica Radical segue possuindo uma estrutura nacional. Mas seu presidente, Ernesto Sanz – a quem a maioria dos relatos atribui a arquitetura da aliança que conduziu Macri ao poder –, se excluiu da equipe de governo e renunciou à liderança do partido (por motivos “pessoais”) no mesmo dia da vitória eleitoral. Nenhum outro líder significativo do partido pareceu interessado em participar do governo, nem o governo convidou algum deles a fazê-lo.
Do outro lado, Macri terá de lidar com quinze governadores peronistas (de um total de 24) e com poderosos sindicatos igualmente peronistas. Derrotado na eleição porque se dividiu, o peronismo ainda é a principal força política do país. O risco para Macri é que o peronismo volte a se unificar em torno de um chefe – ou chefa. Depois de oito anos no poder, Cristina Kirchner está deixando a Presidência com uma popularidade de cerca de 40%, a maior de um presidente em final de mandato nas últimas três décadas (a não ser por Néstor Kirchner em 2007). Ela lidera 43 senadores e 117 deputados – mais do que o PRO.
Num sinal de como pretende superar a desvantagem política, em seu quarto dia na Presidência Macri nomeou dois novos juízes para a Suprema Corte por decreto, ou seja, desviando-se do processo habitual de confirmação dos nomes pelo Senado. Isso jamais foi feito antes por um presidente eleito democraticamente na Argentina, e parece ir de encontro à promessa de Macri de preservar as “instituições republicanas” do país. A jogada causou rebuliço por toda a Argentina e foi criticada até mesmo por alguns dos apoiadores do presidente, inclusive por juristas aliados – a tal ponto que Macri se viu forçado a recuar das nomeações, suspensas até o começo do próximo ano legislativo.
Além disso, ao mesmo tempo que anunciou que não convocaria sessões extraordinárias do Congresso – que permanecerá fechado durante todo o verão –, Macri confirmou que, nos primeiros meses de seu governo, vai tomar grande quantidade de medidas que transformarão a Argentina. Também nisso é um presidente diferente: o primeiro que, em plena democracia, aspira a governar o país sem ter de recorrer à política.
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