A pedido da família Kennedy, Sinatra coordenou a festa de posse do 35º presidente dos Estados Unidos. Um dos objetivos era levantar recursos para pagar dívidas de campanha. "É a tarefa mais fascinante da minha vida", disse o cantor FOTO: DENNIS STOCK_MAGNUM PHOTOS_LATINSTOCK
O chefão
As relações de Frank Sinatra com o presidente e a máfia
James Kaplan | Edição 110, Novembro 2015
Sei que todos temos uma dívida com um grande amigo: Frank Sinatra.
John F. Kennedy, no baile da posse, 19 de janeiro de 1961
Sinatra conseguiu – ele tem seu próprio presidente.
Jack Carter, comediante,
março de 1961
No dia seguinte ao Ano-Novo de 1961, Vernon Scott, correspondente da UPI em Hollywood, fez uma matéria sobre o figurino que Frank Sinatra planejava vestir na posse do presidente. O estilista Don Loper, que criara o colante e provocativo vestido prateado de Janet Leigh e o traje de casamento de Nancy Sinatra, tinha se esmerado para seu primeiro cliente do sexo masculino. “Entre os artigos que constavam das oito peças desenhadas por Loper para o cantor”, escreveu Scott,
estavam um casaco com capa inverness, cartola de seda, colete cinza trespassado, bengala com castão de prata, fraque e calça risca de giz.
“Frank vai ser o homem mais bem-vestido de Washington”, previu Loper. Tudo que fiz para ele é incrivelmente leve, cortado de maneira elegante e chiquérrimo. Para mim ele é um dos homens mais elegantes do mundo”, disse o estilista.
A reação negativa foi imediata. Uma coisa era o estilo charmoso de Gary Cooper ou Fred Astaire; capas inverness, cartolas de seda e fraques estavam fora de questão. Para não falar da bengala com castão de prata. O comediante Joe E. Lewis mandou um telegrama: “Ouvi falar de seu novo figurino Don Loper; reserve a primeira dança para mim.” Milton Berle (então o mais famoso apresentador de tevê), num depoimento sobre Gary Cooper, que estava morrendo de câncer, brincou: “Sinatra só não está aqui hoje porque ao provar seu novo figurino Don Loper o zíper prendeu numa lantejoula.”
“Essa é a história da minha vida”, Frank reclamou com James Bacon, repórter de Hollywood. “Compro roupas novas e isso vira assunto. Nunca abri a boca para falar de ninguém. Gosto daquelas roupas e vou vesti-las em toda ocasião formal para a qual for convidado.”
Frank tinha motivo para tamanha empolgação. Em dezembro do ano anterior, Joe Kennedy lhe pedira que, junto com seu genro, o ator Peter Lawford, ele produzisse e estrelasse o maior evento de todos: o baile de posse de seu filho, um evento beneficente para ajudar a quitar a dívida de campanha de 2 milhões de dólares do Partido Democrata, e que seria realizado no Arsenal da Guarda Nacional em 19 de janeiro, uma noite antes de o presidente eleito assumir o cargo. Doze mil pessoas haviam sido convidadas, a 100 dólares por cabeça; um camarote saía por 10 mil dólares. Doze mil pessoas aceitaram. “Essa é a tarefa mais fascinante da minha vida”, disse Frank. “Vai ser a maior arrecadação em uma única noite na história do show business.” Havia semanas ele não saía do telefone, convocando um elenco de artistas de alto nível que só ele era capaz de reunir, uma constelação que ia de Joey Bishop, mestre de cerimônias, a Leonard Bernstein, que concordou em escrever uma música especialmente para a ocasião (Fanfare for the Inauguration) e em reger The Stars and Stripes Forever; da soprano Helen Traubel a Milton Berle, da cantora gospel Mahalia Jackson a Jimmy Durante.
Frank usou de seus consideráveis poderes de convencimento para persuadir celebridades a viajar: Ella Fitzgerald viria da Austrália; Shirley MacLaine, do Japão; Gene Kelly, da Suíça; Sidney Poitier, da França. Ele conseguiu que os produtores de dois shows da Broadway, Gypsy e Beckett, cancelassem as apresentações por uma noite para que Ethel Merman, sir Laurence Olivier e Anthony Quinn pudessem estar presentes. Eleanor Roosevelt, deixando para trás sua preferência por Adlai Stevenson como candidato às eleições presidenciais, aceitou fazer uma leitura; Nelson Riddle concordou em ir com uma orquestra completa, que ele regeria tocando The Silver Bell Waltz, de A. A. Hopkins – uma das músicas favoritas do 16º presidente americano, Abraham Lincoln, executada em seu baile de posse –, e Lisbon Antigua, uma canção popular portuguesa que Riddle transformara em sucesso instrumental cinco anos antes.
Dean Martin e Sammy Davis Jr., claro, estariam lá. Frederic March concordou em participar, assim como Louis Prima e Keely Smith, Juliet Prowse e os Tom Hansen Dancers, Pat Suzuki, Alan King, Janet Leigh e Tony Curtis, Nat King Cole, além de Harry Belafonte e seus Belafonte Singers. Os compositores Sammy Cahn e Jimmy van Heusen vislumbraram a oportunidade de produzir algo verdadeiramente especial e criaram Ode to the Inauguration, um pot-pourri de paródias musicais.
E então a coisa começou a desandar. Dean, que desconfiava de todos os políticos e nunca tinha sido muito fã de Jack Kennedy, arranjou uma desculpa. Estava em Los Angeles rodando Ada – curiosamente, uma sátira política na qual interpretava um caipira do Sul manipulado por forças corruptoras para se tornar um governador fantoche – e não tinha como fugir, segundo alegou. Anos mais tarde, o diretor do filme, Daniel Mann, disse: “Nunca senti que ele estivesse preocupado com o filme.” Ele não estava. Mas quando Dean saía de algo, ele estava fora para valer, por mais que Frank tentasse dissuadi-lo.
E também havia Sammy. Depois de suspender sua apresentação no Latin Casino, nightclub perto da Filadélfia, para comparecer ao baile da posse, ele encomendou a Sy Devore um novo smoking e, a despeito dos protestos orçamentários de sua mulher, May Britt, convenceu-a a ir à luxuosa Bergdorf Goodman e comprar um vestido para o baile e um tailleur Chanel para a posse. Ele estava emocionado. “Isso realmente pode acontecer nos Estados Unidos”, pensou. “Apesar dos pesares, um garoto do Harlem sem educação formal pôde trabalhar duro até ser convidado para a Casa Branca.”
Daí aconteceu alguma coisa. Kitty Kelley, autora de uma biografia não autorizada de Sinatra, escreve que Sammy, repentina e inexplicavelmente, pediu para não ir, “por não querer que seu casamento inter-racial de alguma forma estragasse a festa”. Mas, de acordo com o próprio Davis, a secretária particular de Jack Kennedy, Evelyn Lincoln, ligou para ele três dias antes da posse, dizendo: “Sr. Davis… Sammy… o presidente me pediu para lhe dizer que não quer que o senhor vá à posse dele. Ele está sendo forçado a isso, e resistir seria contraproducente para o que ele tem em mira. Ele de fato espera que o senhor compreenda.”
Davis ficou arrasado. “Deitei e fiquei tentando entender”, lembrou.
A eleição terminara. Os votos já haviam sido depositados. Todos tínhamos trabalhado tanto para que Jack fosse presidente. Obviamente minha presença seria ruim para ele. Eu sabia que esperavam que eu entendesse aquilo. Minha mágoa e meu constrangimento se transformaram em raiva de meus amigos, de Sinatra e Lawford: por que eles não me defenderam? Mas eu sabia que eles haviam me defendido, pelo menos até onde puderam.
Nancy Sinatra, contudo, afirma que Davis não foi dispensado às vésperas da posse, mas semanas antes, quando os Kennedy mandaram um recado a Frank: por causa do casamento de Sammy com a sueca May Britt, seria melhor se ele não estivesse entre os artistas chamados a se apresentar no baile, nem constasse da lista de convidados. Sinatra defendeu o caso de Davis em vão, segundo contou à filha; sua incapacidade para ajudar o velho amigo lhe doeu de maneira profunda. Na verdade, ele podia ter abandonado a posse, “mas Sammy nunca teria permitido que ele fizesse isso”, escreve Nancy.
Como se Sammy alguma vez tivesse tido controle sobre o que Frank fazia ou deixava de fazer.
Os jornais dão sustentação à cronologia da filha Nancy. Duas semanas antes da posse, um despacho da Associated Press sobre o baile informava: “Nem Dean Martin nem Sammy Davis Jr. estarão no show. Martin está trabalhando em um filme e, segundo Sinatra, ‘Sammy está preocupado com a patroa’, referindo-se à gravidez de May Britt, mulher de Davis.”
Mas, seja quem for que tenha avisado Sammy e seja quando for que isso tenha acontecido, o único ponto em que todos os relatos coincidem é que não foi Frank quem deu a notícia.
Sinatra e Lawford chegaram a Washington em 6 de janeiro, a bordo do avião particular de Kennedy, o Caroline. Uma limusine Lincoln conduzida por um militar os levou do aeroporto até o Arsenal da Guarda Nacional para dar sequência aos preparativos para o grande show. Washington se deu conta da entrada triunfal de Frank, e Washington – uma cidade destinada a um único tipo de negócio sendo invadida por outra cidade dedicada a um único tipo de negócio – estava nervosa. Um congressista republicano discursou em plenário para denunciar o uso do carro e o motorista. Editorialistas desaprovavam a participação do “Clã”[1] nas festas da posse (embora dois terços dos verdadeiros talentos do grupo não estivessem participando). Os guardiões do decoro lamentaram que Frank continuasse se referindo ao presidente como “Jack”.
A capital fervia com a posse do jovem e glamoroso presidente. “Muitos habitantes de Washington estão saindo da cidade às pressas a fim de evitar o tumulto da posse, mas vêm sendo substituídos por hordas de visitantes que querem ver o novo governo assumir”, escreveram os colunistas políticos Walter T. Ridder, Robert E. Lee e William Broom.
Os hotéis registram lotação esgotada para a semana da posse, e muitas pessoas estão sendo alojadas em Baltimore. Todas as agências de locação de limusines estão com a agenda cheia desde meados de novembro.
Muitos habitantes da capital estão alugando suas casas por uma semana a visitantes de alto poder aquisitivo, dispostos a desembolsar valores exorbitantes, que vão de 75 a 200 dólares por dia. Por esses preços, também é preciso oferecer serviço de empregados domésticos em tempo integral. Uma viúva que anunciou sua mansão receava que um dos membros do “Clã” ou do “Rat Pack de Hollywood” acabasse em sua residência.
Ela estava prestes a desistir do aluguel quando fechou negócio com Bob Kennedy. Ele mora a 25 minutos de Washington, mas pelo jeito concluiu que as festividades não o deixariam com tempo para percorrer esse longo trajeto.
Frank continuou persistindo, instintivamente, no papel de produtor. Pagou a Billy Ruser, joalheiro de Beverly Hills, 90 mil dólares para confeccionar cigarreiras com uma réplica de prata do convite da posse, para presentear todos os artistas que dela participariam. Ele e Lawford cuidaram de perto de todos os pormenores da programação, fizeram reuniões com os roteiristas – entre os quais estavam os dois principais escritores de piadas de Bob Hope, Melville Shavelson e Jack Rose, o dramaturgo Leonard Gershe e o famoso humorista Goodman Ace, além de Sammy Cahn – para dar palpites no roteiro e nas letras de música criadas especialmente para a ocasião. Frank se ocupou até de detalhes relativos a transporte e acomodação, procurando garantir que os artistas fossem tratados condignamente. Ele chegou a recorrer a seu antigo rival romântico Howard Hughes, sócio majoritário da TWA, pleiteando um voo fretado de Los Angeles até a capital para transportar o contingente hollywoodiano que aportaria.
“Era um avião grande”, lembrou o guitarrista Bob Bain, integrante da orquestra de Riddle,
e eles começavam a servir assim que você entrava. A bebida era livre. Lembro que Felix Slatkin – um sujeito grande, pesado, que adorava um copo – ficou tão embriagado que tiveram de carregar o cara para fora do avião. Todos os comediantes ficaram contando velhas piadas de vaudevile. Foi bem divertido.
Frank havia reservado todo um andar do Statler-Hilton, onde estava hospedado, para os artistas – para alguns deles. Como lembra Bain, quando ele e vários músicos chegaram – muitos dos quais, incluindo o flautista Buddy Collette e o baixista Joe Comfort, eram negros –, lhes disseram que Frank tinha “mais convidados do que imaginara, mas vocês vão ficar num bom motel em Maryland”. O bom motel então se recusou a hospedar Collette e Comfort, que acabaram numa casa particular em Washington.
Na noite de terça-feira, dia 17, Frank, envergando o melhor figurino de Don Loper, acompanhou Nat King Cole e a mulher a uma festa que a irmã do presidente eleito, Jean Kennedy Smith, e seu marido ofereciam na residência do casal, em homenagem aos artistas que animariam a posse. A noite estava fria, e os 130 convidados ficaram numa tenda aquecida no jardim. O contingente cheio de estrelas incluía o vice-presidente eleito e a sra. Lyndon B. Johnson, além de “boa parte do clã Kennedy”, segundo a Associated Press. “Entre esses estavam Joseph P. Kennedy e a esposa, os pais do presidente eleito.” Jacqueline Bouvier Kennedy não compareceu. O presidente eleito apareceu sozinho e com uma hora de atraso – bronzeado, de smoking, todo sorrisos, tendo chegado naquele mesmo dia de Palm Beach, onde a primeira-dama havia permanecido com Caroline, de 3 anos, e John Jr., de 7 semanas e meia, que nascera de cesárea um dia depois do Dia de Ação de Graças.
Segundo a biógrafa Barbara Leaming, Jackie Kennedy estava adiando o máximo possível sua saída da Flórida. O pretexto, em parte verdadeiro, era que ela ainda se recuperava do parto e os médicos haviam lhe recomendado repouso. Mas havia mais, muito mais. Embora a posse “fosse um evento que a família Kennedy estivesse esperando praticamente a vida inteira”, a mulher do presidente eleito tinha pavor da ideia, e tinha pavor da exposição que a mudança para a Casa Branca traria. “Era uma situação que todo novo presidente e a família enfrentavam”, escreve Leaming,
mas para alguém como Jackie, com uma verdadeira obsessão por privacidade, a ideia de que estaria sob observação constante era particularmente difícil. Seu marido, com quem estava casada havia sete anos, a traía de maneira compulsiva, um comportamento que era doloroso e humilhante para ela. Agora que ele era o presidente, ela teria de viver o pesadelo totalmente à vista de um grupo de estranhos.
Tanto o baile quanto as festividades da posse também a poriam em contato com Frank Sinatra, um homem que ela “desprezava”, de acordo com Leaming. “Além do fato de não gostar de um sujeito que considerava violento, rude e grosseiro e que trazia à tona o pior de seu marido”, escreve a biógrafa, “havia um aspecto mais sério em suas objeções. Durante a campanha, ela tentara persuadir Jack de que sua ligação com Sinatra e o Rat Pack era totalmente prejudicial à imagem do candidato.” Jackie, porém, gostava do concunhado Lawford, cujos maus hábitos estavam à altura dos de Frank, mas que pelo menos sabia como manejar os talheres.
No início da tarde do dia 19, a neve começou a cair sobre Washington, uma cidade pouco preparada para isso. “Os ventos sopravam gelados, com rajadas que doíam, e jogavam a neve pelas ruas”, escreveu o historiador Arthur M. Schlesinger Jr.
Às seis da tarde, o trânsito tinha parado a cidade toda. As pessoas abandonavam seus carros em montes de neve e caminhavam de cara fechada em meio à ventania, com a cabeça abaixada, jornais enrolados no pescoço e enfiados por dentro dos casacos. E a neve continuava caindo e o vento seguia soprando.
Parecia que o show que Frank e Lawford haviam planejado com o zelo de uma operação militar (ou do assalto de Onze Homens e Um Segredo) podia naufragar. “Os astros que tinham ido ao Arsenal para ensaiar não conseguiam voltar ao hotel e trocar de roupa para a apresentação”, escreve Shawn Levy, cronista do Rat Pack.
O baile estava marcado para as nove da noite, mas a essa hora o auditório só estava com metade da lotação.
Frank teria ficado nervoso mesmo sem a tempestade. Andando de um lado para o outro nos bastidores com seu figurino extravagante, imaginando se o presidente eleito conseguiria atravessar as ruas entupidas de neve, ele morreu mil vezes. Como lembrou Bill Asher, que dirigiu uma gravação do baile, “Frank estava de fato ocupado aquela noite, e ficou furioso com Peter. Nós exibíamos o elenco do show num grande letreiro, e Frank continuava entrando na sala e gritando: ‘Foda-se o Lawford! Não vou fazer esse show. Estou fora!’, e então tirava o nome dele do letreiro”.
Jackie havia chegado de Palm Beach na quarta-feira, com a babá e as crianças a reboque, e se dirigira para sua casa em Georgetown, onde o marido vinha fazendo reuniões em meio a caixotes que seriam transferidos para o número 1600 da avenida Pensilvânia. No início da noite de quinta-feira, “o jovem presidente eleito e sua esposa foram ao Concerto de Posse no Constitution Hall”, escreve Schlesinger.
Uma hora depois eles saíram no intervalo para ir ao baile de posse no Arsenal. A limusine percorreu cuidadosamente seu trajeto em meio a uma neve que não deixava ver quase nada. Fogueiras haviam sido acesas ao longo do caminho num esforço vão para manter a avenida liberada. Grandes holofotes ao redor do Monumento a Washington brilhavam em meio à brancura. Era uma cena de estranha beleza. Enquanto motoristas encalhados saudavam o carro presidencial, o presidente eleito disse a seu amigo William Walton: “Acenda as luzes para que eles possam ver Jackie.” Com a luz acesa dentro do carro, ele se recostou no banco para ler o primeiro discurso de posse de Jefferson, que fora impresso no programa do concerto. Quando terminou, balançou a cabeça e disse, com ironia: “Melhor que o meu.”
Às 22h30, o radiante Primeiro Casal – ele de smoking, ela num vestido Oleg Cassini de organza marfim – chegou ao Arsenal. No interior do cavernoso edifício, dezenas dos principais artistas do país havia uma hora e meia pensavam aflitos se o show devia ou não continuar, tendo apenas 3 mil dos 12 mil assentos ocupados. Mas na entrada, com a neve soprando, Frank Sinatra sorria – de repente, tudo estava certo no mundo[2] – enquanto cumprimentava seu amigo Jack; depois tomou o braço da mulher que o detestava e a acompanhou escada acima.
Passado o susto, o espetáculo de três horas transcorreu de maneira tão tranquila quanto seus produtores podiam ter desejado. Todos os ingressos haviam sido vendidos antecipadamente, gerando uma receita líquida de quase 1,5 milhão de dólares para o Partido Democrata, e por isso o fato de muitos não terem comparecido praticamente não teve consequências. O baile começou em grande estilo, com a Fanfare, de Bernstein, The Stars and Stripes Forever, de John Philip Sousa, e com a versão de Mahalia Jackson de The Star-Spangled Banner, o hino nacional. Sir Laurence Olivier fez um discurso comovente, mas com uma sinistra premonição sobre os desafios que o novo presidente enfrentaria: “Seu ingresso no Olimpo se dá num momento que talvez esteja mais saturado de perigos do que qualquer outro que tenhamos conhecido na história da civilização.” Então Joey Bishop subiu ao palco, olhou para o camarote presidencial e disse: “Eu falei que vocês iam conseguir um lugar bom. E todos estavam tão preocupados.”
O espetáculo continuou alternando atrações de alta cultura e outras nem tanto. Frank, no lugar de honra, como penúltimo artista antes do intervalo, disse ao presidente eleito aquilo que ele queria ouvir com uma versão de You Make Me Feel So Young. Depois do intervalo e do Aleluia de Haendel, Ethel Merman – que tinha sido uma ardorosa apoiadora de Nixon – olhou direto para o presidente eleito e cantou uma passagem de Gypsy: “Você vai ser ótimo! Você vai ser grande! Vai ter o mundo inteiro a sua disposição.”
Jack Kennedy estava sentado na primeira fila do camarote, ao lado do pai, fumando um cigarro e adorando cada minuto. Nat King Cole sorriu ao entoar The Surrey with the Fringe on Top; Jimmy Durante emocionou a plateia com September Song; Harry Belafonte e os Belafonte Singers cantaram uma agitada John Henry – e, então, depois de um trecho humorístico com Milton Berle e Bill Dana, era a vez do pot-pourri de canções populares com letras novas de Sammy Cahn para torná-las adequadas ao momento. A Frank, claro, coube o encerramento. Ao som da melodia de That Old Black Magic, ele cantou:
That ol’ Jack magic had them in his spell
That old Jack magic that he weaved so well
The women swooned, and seems a lot of men did, too
He worked a little like I used to do.[3]
Essa acertou em cheio. Ou, como escreve o historiador cultural Mark White, “aquele elogio respeitoso ao carisma sexual de Kennedy, vindo de um homem cuja persona artística encarnava um tipo intensificado de masculinidade e de confiança sexual, servia para autenticar o poder de sedução de JFK”.
A eloquência tranquila de JFK, claro, era parte significativa de seu encanto. Ao final, ele foi até o palco agradecer ao elenco. “Estou orgulhoso de ser um democrata, porque desde a época de Thomas Jefferson o Partido Democrata tem sido identificado com a busca da excelência, e esta noite nós vimos excelência”, disse.
Acredito que o feliz relacionamento entre arte e política que caracterizou nossa longa história tenha hoje chegado a seu ápice.
Sei que todos temos uma dívida com um grande amigo: Frank Sinatra. Muito antes de saber cantar, ele já fazia campanha em um distrito democrata de Nova Jersey. Aquele distrito cresceu até abarcar todo o país. Mas muito depois que ele tiver cessado de cantar, continuará defendendo o Partido Democrata, e em nome de todos hoje agradeço a ele.
Frank resplandecia enquanto ouvia a fala de Kennedy – e pensava que poderia ouvi-la de novo sempre que quisesse. Ele havia providenciado a gravação da festa, tendo em mira um álbum duplo comemorativo pelo selo Reprise – os lucros seriam doados ao Partido Democrata. Esse disco teria uma história interessante.
Jackie Kennedy, emocional e fisicamente exausta, tinha abandonado o camarote durante o intervalo e voltara a Georgetown para tentar dormir um pouco. Jack, por outro lado, estava cheio de adrenalina (e da injeção de cortisona que tomava todos os dias para a insuficiência adrenal crônica, além de procaína para a dor nas costas). Para Frank, claro, a noite ainda era uma criança. Às duas da manhã, o presidente eleito e os astros embarcaram em limusines e ônibus e foram até o Paul Young’s, um restaurante de luxo no Centro que o “Embaixador” – como Joseph Kennedy era conhecido – havia alugado para uma festa privada. Carl Sferrazza Anthony, biógrafo de Kennedy, escreve que quando Paul “Red” Fay, amigo íntimo de Jack Kennedy, chegou com a atriz Angie Dickinson,
Joe Kennedy rosnou para ele: “Espere até eu contar a sua mulher como você está se comportando!” Joe então se virou para Angie e disparou: “Por que você está perdendo seu tempo com um sujeito ordinário como esse?” Todos riram, e Joe lhes disse para entrar enquanto cumprimentava outros convidados que surgiam.
E o cheiro de enxofre estava no ar.
Red Fay, que conhecera JFK quando os dois serviram em lanchas torpedeiras no Pacífico Sul, fora convocado para a semana da posse para acompanhar Angie Dickinson a vários eventos – em resumo, para agir como testa de ferro do presidente eleito, que meses antes havia principiado um affaire com a atriz. Um pouco depois, Kennedy o puxou de lado na despensa no restaurante e perguntou, empolgado: “Você já viu tanta gente atraente no mesmo lugar? Meu pai sabe como dar uma festa.”
Frank pensava o mesmo. Quando disse isso para o Embaixador, o Kennedy mais velho retrucou: “Espere para ver a festa que vamos dar daqui a quatro anos!”
Sem chapéu e sem casaco, apesar do frio medonho (seu segredo: roupa de baixo térmica), John Fitzgerald Kennedy, o 35° presidente dos Estados Unidos, postou-se na plataforma diante do Capitólio e começou a ler seu discurso de posse às 12h52 na sexta-feira, 20 de janeiro. O texto era uma brilhante miscelânea elaborada por Ted Sorensen, expert em discursos, e pelo próprio Kennedy: uma fala breve, forte, comovente (“Que se espalhe a partir deste lugar e deste momento a notícia, tanto aos amigos quanto aos inimigos, de que o bastão foi repassado para uma nova geração de americanos”), lida pelo maior artista que já ocupou a Casa Branca, e toda a ocasião tinha um ar solene. Na plateia estavam sessenta das mais de 150 destacadas figuras das artes e das ciências convidadas para a cerimônia, sinal da dedicação do novo governo à cultura – W. H. Auden, Arthur Miller, Samuel Barber, Mark Rothko, Tennessee Williams e John Steinbeck, entre outros. Frank Sinatra viu a cerimônia pela tevê, em sua suíte no Statler-Hilton.
As explicações a respeito de sua ausência divergem. O escritor Leonard Gershe, que assistiu à cerimônia a seu lado no hotel, disse mais tarde que Sinatra não compareceu por causa do frio. Mas o Daily News, de Nova York, relatou que Frank – com sua capa inverness forrada de cetim vermelho – tinha aparecido bêbado no Capitólio. Segundo Bob Neal, amigo de Frank, ele simplesmente não fora chamado – por descuido ou de propósito, caso Jackie Kennedy tivesse tido alguma coisa a ver com aquilo. “Os lugares dos convidados estavam marcados num papel sobre uma mesa, e o nome de Frank não constava da lista”, contou Neal. “Ele subiu o tom e disse: ‘Eu sou Frank Sinatra’, e um sujeito retrucou: ‘Não damos a mínima nem se você for o papa. Você não está na lista.’ E os seguranças o tiraram dali.”
Ele investira muito dinheiro na cerimônia – a decepção depois do show era inevitável. Naquela noite, enquanto o presidente Kennedy circulava por cinco bailes de posse (sem a sra. Kennedy, que voltara para a Casa Branca, cansada de ficar exposta aos olhos do público por mais de doze horas), Sinatra dava sua própria festa, no Statler-Hilton, para todos os participantes do espetáculo. Os convidados, recebidos com caviar e champanhe, ganharam suas cigarreiras de prata. Frank lhes havia garantido “que Kennedy iria dar uma passada para fazer um agradecimento pessoal”, escreve o repórter de política Ronald Brownstein.
À medida que a noite avançava e Kennedy ia de um a outro baile de posse, Sinatra ficou sentado, ansioso, com suas companhias cintilantes, “aflito, à espera, observando, perguntando-se quando Kennedy iria chegar – porque ele prometera que iria ao jantar”, contou Gloria Cahn Franks, que estava lá com o compositor Sammy Cahn, então seu marido. Por fim começou uma agitação na porta. Agentes do serviço secreto tomaram o salão, e então “ele entrou”, lembrou Franks. O presidente circulou com graça, de mesa em mesa, cumprimentando os astros, conversando, rindo, enquanto Sinatra permaneceu sentado “radiante, radiante como o Gato de Cheshire”.
Mas, em algum momento entre esse instante e o dia seguinte, aconteceu alguma coisa que arrefeceu o ânimo de Sinatra – entusiasmado na véspera, ele agora estava deprimido e furioso. Teria sido porque o presidente abandonara sua festa e se dirigira a uma pequena reunião na casa do colunista Joseph Alsop? Frank tinha um instinto aguçado para descortesias, e ser deixado em segundo plano pelo homem mais poderoso do planeta pode tê-lo irritado. Qualquer que tenha sido o motivo, ele mudou abruptamente seu plano de se juntar a um grupo de astros que Joe Kennedy havia convidado para ir a Palm Beach. Esperando que Sinatra estivesse pronto para pegar o avião, o casal Janet Leigh e Tony Curtis o encontrou tomando café da manhã com a atriz Juliet Prowse em sua suíte do hotel.
“Na época eu não sabia o que havia ocorrido”, lembrou Leigh. “Mas mais tarde alguém me contou – talvez tenha sido Peter Lawford – que disseram algo depois do baile, ou mesmo naquela manhã. Frank não parecia contente.”
Alguma coisa o estava consumindo. Acompanhado de Prowse, ele foi a Nova York para um show agendado para o dia 27, no Carnegie Hall, em prol da Conferência da Liderança Cristã do Sul e do reverendo Martin Luther King. Dean e Sammy também participariam. No começo da semana, Frank disse ao colunista Earl Wilson que deixou de ir a Palm Beach “porque, como eu tinha tanta coisa por fazer, fiquei com peso na consciência”. Ele contou a Wilson que precisava ensaiar para seus próximos shows no Sands e no Fontainebleau – mas não há registro de que tenha ensaiado ou feito shows naquela semana antes do Carnegie Hall. Circularam notinhas especulando que ele estaria passeando por Manhattan, ciceroneando Juliet Prowse pela Colony e levando-a a um nightclub no Upper East Side chamado Tony and Tony’s Wife, frequentando o restaurante Toots Shors, ou mesmo indo ouvir Peggy Lee, sua antiga paixão, na Basin Street.
Mas outra antiga paixão – Ava Gardner – tinha aparecido na cidade na semana anterior para ver o show de Peggy Lee na Basin Street, “com um cara que ninguém conhecia”. Não era nenhuma novidade sobre Ava, que com frequência era vista com um cara novo que ninguém sabia quem era. Frank, que mantinha contato com ela por telefone, devia saber de sua proximidade. Ao descobrir que se achavam na mesma pequena ilha ao mesmo tempo (por coincidência ou não), teriam conseguido evitar um encontro? Quando Wilson perguntou a Prowse sobre o boato de que ela e Sinatra iam se casar, “ela riu por dois minutos”.
Sammy Davis Jr. foi o mestre de cerimônias do evento beneficente de Martin Luther King; a lista de convidados também incluía Mahalia Jackson, Harry Belafonte, Count Basie e orquestra, além de Tony Bennett e outros. O grande Sy Oliver estava lá para reger para Frank. No início da noite, Sammy anunciou do palco que “o líder chegara”, acompanhado de “seu amigo italiano bêbado”, numa referência a Dean. Mas Dean não era o único a beber. O escritor Peter Levinson, que tentava obter uma vaga de assistente de relações públicas na equipe de Sinatra, viu-se no camarim de Frank no Carnegie Hall, e presenciou maravilhado o astro tomar mais de uma dúzia de bourbons com água ao longo da noite, e depois sair e cantar como se nada tivesse acontecido.
Frank só apareceu depois da meia-noite, “indo apressado pelo corredor para interromper uma imitação sua que Davis estava fazendo”, como relatou a Associated Press.
Daí em diante foi um show do Rat Pack. Eles se interrompiam uns aos outros com insultos – às vezes ligeiramente pesados –, falando de microfones fora do palco; montaram um bar cheio de garrafas no palco e serviram drinques uns para os outros; zanzaram para lá e para cá enquanto algum colega estava tentando apresentar seu show – enfim, faziam valer o que Davis havia dito no início: “Agora começa o tumulto.”
Nenhum deles procurava sequer fingir que o show fosse espontâneo. Era o que as pessoas esperavam, e agora já era mais do que previsível – sem levar em consideração se era adequado ao local ou à causa a que o espetáculo se destinava.
Em 1º de fevereiro, Frank deu início a uma temporada de duas semanas no cassino Sands, a primeira em um ano. O show tinha apenas uma falha, de acordo com a resenha adulatória da Variety: “Ele só cantou doze músicas e a plateia parecia querer pelo menos o dobro. Sinatra, o maior astro de Las Vegas, de novo exibe seu talento como a usina musical que é, e sem dúvida é bom tê-lo de volta.”
O funcionário número 1 da Reprise, o recém-contratado Mo Ostin, era convidado de Frank para a estreia. Acomodado na primeira fila e com os olhos brilhando ao lado da jovem esposa, ele lembra: “Estávamos sentados em uma mesa com Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Eddie Fisher e duas irmãs Kennedy, Eunice Shriver e Jean Smith.”
Ostin sorriu ao se lembrar disso. Iria assistir a muitos shows de Sinatra ao longo dos anos, mas nunca se esqueceria do primeiro. “Era difícil ele fazer um show ruim”, contou. “Quando tinha amigos na plateia, acho que de fato dava o melhor de si. Ele exalava confiança. Sabia que tinha poder. E, no entanto, ele sabia ser charmoso, e sabia fazer quase todo mundo gostar dele.”
A plateia sentia o mesmo. “Grandes shows em Las Vegas com Frank Sinatra lotando a casa no Sands”, escreveu a colunista Louella Parsons em 8 de fevereiro. “Todo o clã de Sinatra – a ex-mulher Nancy, Frank Jr., Tina, de 12 anos –, a filha Nancy com o marido, Tommy Sands, assistiram ao show de Frank e estavam entre os convidados dele para o fim de semana.”
Ele sem dúvida estava lotando a casa. Num impulso (e sem o cara que ninguém sabia quem era), Ava decidira pegar um avião de Nova York para surpreender Frank, sentando próximo ao palco no Copa Room. A surpresa, porém, foi dela: a atriz chegou no mesmo fim de semana que a família de Frank. A situação piorou bastante a partir daí.
Ava podia ter ido por impulso, por não ter mais nada que fazer – aos 38 anos, decidira se aposentar do cinema. Embora tivesse sido muito elogiada por seu desempenho em A Hora Final, “os louvores às vezes incluíam comparações entre a atriz de 37 anos e a personagem machucada e desleixada que ela interpretou”, escreve Lee Server, biógrafo de Gardner. “Um crítico afirmou que ela nunca tinha atuado melhor nem tido uma aparência pior.”
O fato simples e brutal era que o tempo e a vida haviam deixado marcas em Ava. Não que não houvessem deixado marcas também em Frank. Uma matéria de jornal da época observou que ele começara a usar óculos para ler, ver tevê e dirigir. E Peter Levinson lembrou-se de uma ocasião em que encontrou Sinatra na sauna do Sands no fim de janeiro de 1961: “Olhei para o rosto dele, não pude acreditar! O lábio superior, todo mastigado. O queixo todo cheio de marcas. E aquela cicatriz. A bebida, o rosto afundado. E, claro, sem cabelo. Ele tinha muito pouco cabelo.”
Mas uma peruca e uma boa maquiagem eram capazes de lhe devolver uma aceitável aparência de vigor. Já para uma mulher de cinema o negócio era outro – e os padrões para uma das grandes beldades dos tempos modernos eram impraticavelmente altos. Ninguém tinha mais consciência disso do que a própria Ava – mas, ao mesmo tempo, não havia como evitar a passagem do tempo. “Agora ela vivia sem um plano ou propósito, escapando do passado, fugindo do futuro”, escreve Server:
A felicidade tinha se mostrado enganosa. O amor não durou. A beleza, a fama e o sucesso não eram tudo aquilo que se dizia. Ela queria esquecer de tudo, disse um amigo, só queria “beber, dançar e transar”.
Impulso e prazer se tornaram os princípios que a orientavam. De dia, como uma bela vampira, ela fazia pouco mais do que dormir; com a noite vinha a bebida, e com a bebida vinha o gosto por sangue. Esses anos – o começo da década de 60 – se passaram como um gigantesco fim de semana perdido. Houve cenas, telefonemas imprudentes, contratempos infelizes.
A viagem espontânea para Las Vegas foi desse naipe. “Ao que tudo indica, ela estava muito preocupada com o visual quando embarcou para a Costa Oeste”, escreve Arnold Shaw, biógrafo de Sinatra, “pois monopolizou o banheiro do avião num grau que chamou a atenção dos passageiros. Então, nervosa, ela esqueceu o casaco a bordo. Ao voltar para procurá-lo, desencontrou-se de Frank, que tinha ido ao aeroporto para recebê-la.”
Tanto Shaw quanto Lee Server dizem que, ao descobrir que Nancy e os filhos estavam em Las Vegas, Ava fez meia-volta: saiu do hotel e retornou a Nova York (e depois para sua casa na Espanha) sem ver o show de Frank – uma história triste o suficiente. Mas tanto a Variety quanto a Associated Press afirmam que ela foi ao show de Sinatra no domingo, dia 5, e, de acordo com um “porta-voz” citado pela AP, ela e Frank “ficaram juntos rapidamente antes de ela ir embora na tarde de segunda-feira” – uma história ainda mais triste. Para piorar, o texto informava que Ava não conseguira recuperar “o casaco longo de mink” que esquecera no avião.
Quase podia ser uma comédia de Neil Simon: a chegada inesperada da segunda esposa, uma estrela de cinema aposentada, e os malabarismos logísticos do herói para dar a mesma atenção à primeira e à segunda esposas (sem falar na atual amante), e evitar que a Esposa Um e a Esposa Dois se encontrem. Só que de comédia não havia nada: era sério, até trágico. O conflito de Ava e da mãe dos filhos dele era a origem e a essência de seu problema de consciência.
Assim que Ava e Nancy partiram de Las Vegas, Frank recebeu Dorothy Provine. Depois do show, Provine descobriria que o namorado encontrara uma nova modalidade de lazer: “Todos tínhamos de sentar na suíte de Frank no Sands e ouvir aquela gravação de Kennedy agradecendo a ele”, disse uma amiga de Jimmy van Heusen a Kitty Kelley. “Frank, ao lado da lareira, tocava aquilo várias vezes, e nós tínhamos que ficar ali sentados por horas a fio ouvindo cada palavra.”
Enquanto isso, o produtor Mo Ostin estava lutando com todas as forças para montar o LP de estreia da Reprise, com a gravação do baile. “Frank me pôs em contato com a Casa Branca para resolver tudo que tivesse a ver com o disco”, Ostin relembrou. Seu contato era Joe Kennedy.
Eu falava com o Embaixador quase todo dia. Ele era cortês e formal. Sempre atendia a meus telefonemas. E sempre estava a par do andamento do disco. Toda vez que encerrávamos um dos másters, ele queria ouvir e também queria que o presidente ouvisse – ele até me pedia desculpa se o presidente não tivesse ouvido. Ele dizia: “Olha, lamento que o presidente não tenha ouvido isso ontem, mas ele anda ocupado – você sabe, lidando com Cuba e sabe Deus o quê.”
Então ele me perguntou: “Quem você acha que deveria escrever os textos, as notas do encarte desse disco?” Respondi: “Não sei. Quem o senhor recomendaria?” Ele me disse: “Que tal Carl Sandburg?”[4] Eu disse: “Claro, parece ótimo. Como posso entrar em contato com ele?” Ele disse: “Vou lhe dar o telefone do [assessor de imprensa do presidente] Pierre Salinger na Casa Branca e ele lhe passará o número.”
Então liguei para Sandburg e lhe expliquei por que estava ligando. Sandburg me disse: “Sr. Ostin” – ele tinha uma voz meio áspera, grosseira. “Antes de responder, quero que o senhor me prometa que vai relatar palavra por palavra aquilo que vou dizer.” Eu disse: “Claro que sim.” E então ele fez um longo discurso de acusação contra os Kennedy. Não dá para confiar neles, eles são desleais, corruptos, o velho comprou a eleição, eles usaram todo tipo de gente nefasta para conseguir os votos – ele continuou por vários minutos! Eu fiquei realmente desconcertado, porque ele de fato estava exaltado.
Então liguei para o Embaixador e disse simplesmente que Sandburg havia recusado. Sem piscar, o Embaixador me disse: “Sabe o quê? Fale com o jornalista Theodore White.”
Conseguir a autorização dos vários artistas foi igualmente complexo. “Harry Belafonte, por exemplo, não cedeu”, lembrou Ostin.
Ele disse: “Olhe, esse dinheiro vai para o Partido Democrata. Pode ir para alguém do Sul que odeia negros, e não quero compactuar com isso.” Ele simplesmente disse não.
Então telefonei ao Embaixador, que me disse para ligar para Bobby Kennedy, que tinha importantes relações em Nova York, e pelo visto conhecia Belafonte. Bobby Kennedy falou com Belafonte, e então Steve Smith me ligou de volta e me contou que haviam conseguido a aprovação de Belafonte. Então fui para Las Vegas com os documentos para Belafonte assinar.
“Isso era Sinatra!”, disse Ostin. “As relações dele cobriam todo o espectro. Podiam ir do mais baixo entre os mais baixos até o mais alto entre os mais altos.”
No final, porém, nem mesmo as conexões de Frank puderam desatar os conflitos contratuais que, de acordo com seus arquivistas Ed O’Brien e Scott P. Sayers Jr., “impediam que muitos artistas assinassem termos de permissão autorizando o uso de suas gravações. Uma versão truncada de 75 minutos foi montada. Nunca chegou a ser lançada”.
Do mais alto entre os mais altos ao mais baixo entre os mais baixos. Do fim de fevereiro até metade de março, Frank se apresentou no Salão La Ronde do Fontainebleau. “Havia longas filas de fãs no saguão, desesperados por ingressos, e a única maneira de ver o show era dar discretamente uma gorjeta de 100 dólares ao maître”, escreve John Glatt, um cronista da família Novack, proprietária do Fontainebleau.
“O maître ganhava 5 mil dólares por noite quando Sinatra estava lá”, disse Floyd “Mac” Swain, mensageiro do hotel, “e tinha que dividir o dinheiro com a segurança e com Ben Novack.”
Frank Sinatra era o motor do Fontainebleau, e sempre que se apresentava o dinheiro fluía. Depois do show, a cena passava para o andar de cima, na suíte de Sinatra, onde tudo podia acontecer. O cantor promovia festas com seus comparsas da máfia Joe Fischetti e Sam Giancana, recorria ao serviço de quarto para receber as moças mais bonitas do Poodle Lounge, junto com baldes do melhor champanhe.
“Deus, como eles gastavam dinheiro”, Ben Jr. lembraria mais tarde, admirado.
As noites loucas com frequência terminavam com um Sinatra bêbado e seus amigos da máfia histéricos, atirando bombinhas da sacada do 17º andar.
Tanto Sinatra quanto Giancana gostavam de assustar os amigos e conhecidos com bombinhas; segundo Shawn Levy, é possível que Frank tenha adquirido o hábito por influência do gângster. Partindo do mafioso (também conhecido por Mooney ou Momo), porém, as explosões assustavam mais – qualquer um que soubesse como ele ganhava a vida atribuiria o barulho a armas, e não a espoletas. Mas naquela primavera o sr. Giancana tinha outras coisas na cabeça além de diversão e jogos em Miami.
Enquanto estava no Fontainebleau, Frank permitiu que o jornalista de celebridades Joe Hyams o entrevistasse para uma nova revista, uma versão de censura livre (e que durou pouco) da Playboy, que Hugh Hefner chamou de Show Business Illustrated. A reportagem de capa, de tirar o fôlego, intitulada “Sinatra, Inc.”, abria com a descrição de uma cena de Frank, com óculos de aros de chifre, dirigindo o carro e falando de negócios com o autor da reportagem, no banco do carona. Uma maleta jazia no chão do carro, “abaulada de livros, cartas de fãs, um relato do governo sobre os interrogatórios Apalachin,[5] roteiros de filmes”, além de exemplares do Wall Street Journal e do Publishers Weekly. Cansado, Sinatra discorreu sobre os prazeres e as preocupações de fazer tudo isso sozinho desde a morte de Bert Allenberg, seu agente na William Morris. A reportagem ainda enumerava os vários negócios de Frank, que supostamente totalizavam “investimentos de 25 milhões de dólares”:
Presidente do conselho de uma associação de depósitos e empréstimos de Beverly Hills, com grandes investimentos na Reprise Records, quatro editoras de música, uma produtora de filmes, o Sands Hotel, em Las Vegas, em que é vice-presidente e tem 9% das ações, empreendimentos imobiliários em San Rafael e Santa Barbara, na Califórnia, o Cal-Neva Lodge, no lago Tahoe, três estações de rádio na região noroeste do Pacífico, ações do Hipódromo de Atlantic City, vários e diferentes investimentos adjacentes.
Depois, expansivo, o presidente do conselho especulou sobre como seria sua vida quando ficasse mais velho. “Daqui a quatro anos vou ter 50”, ele refletiu. “Até lá estarei cansado de atuar e de cantar. Não cansado, mas… Que droga, quando eu chegar a essa idade não existem muitos papéis que eu vá querer fazer, ou poder fazer.”
“Quando penso na minha vida daqui a cinco anos”, ele disse, “me vejo menos como artista e mais como executivo de alto nível, interessado em negócios, talvez em dirigir e produzir filmes. Meu objetivo no final é crescer no sentido administrativo.” Ao menos era assim que ele dizia que queria que fosse.
Frank encerrou a temporada no Fontainebleau no dia 13 de março; na noite seguinte, em uma suíte, seu amigo Momo se encontrou com um representante da CIA e dois outros homens para discutir um plano para assassinar Fidel Castro. Vieram à tona algumas piadas depreciativas sobre Sinatra.
Quando se tratava de Giancana, Frank não compreendia bem de que lado ele jogava. Mas, verdade seja dita, a CIA tampouco.
Logo depois que Castro depôs o regime de Batista no início de 1959, oficiais dos mais altos níveis do governo norte-americano começaram a temer, não sem motivo, que uma Cuba marxista-leninista fosse ajudar a Rússia a estender sua esfera de influência no hemisfério ocidental. Pensando nisso, no início de 1960 Eisenhower autorizou a CIA a derrubar o governo de Castro. Em agosto, com a aprovação tácita do presidente, a agência pôs-se a tramar a morte de Fidel, num plano conhecido como Projeto Cubano – ou Operação Mangusto.
Assassinato político é um negócio sujo, e a CIA bolou o que na época parecia ser uma estratégia brilhante para não deixar rastros: a agência iria pedir ajuda ao crime organizado, que sofrera imensa perda financeira com a Revolução Cubana – a queda do novo líder interessava a ambas as partes. Se a máfia matasse Fidel (era o raciocínio), o governo podia negar de maneira plausível qualquer envolvimento, e todos ficariam felizes. Para colocar o plano em ação, a agência ligou para um detetive particular em Washington e para um ex-agente do FBI chamado Robert Maheu.
No verão de 1954, Howard Hughes, num gesto de flagrante exagero, havia contratado os serviços de espionagem de alto nível de Maheu. Queria que ele vigiasse a cabana no lago Tahoe onde Ava Gardner estava morando enquanto se estabelecia em Nevada para se divorciar de Sinatra. Hughes, doente de ciúme – e que Ava mantinha por perto por gostar dos presentes caros que ele lhe dava –, estava convencido de que um homem andava telefonando para a atriz. Ele estava certo – era Frank, que ansiava por uma reconciliação. Ele não conseguiu reconquistar Ava, nem Hughes conseguiu nada além da conta que o espião lhe apresentou.
Graças a seu passado no FBI, Maheu inspirava confiança a certos chefes da CIA, que não ignoravam suas ligações com o crime organizado. O principal elo de Maheu com a máfia era o bonito e elegante gângster Johnny Rosselli, de Los Angeles, um mafioso de escalão intermediário que Frank conhecera no encontro da organização em Havana, em 1947. Rosselli tinha uma afinidade com a indústria do cinema – ele e Harry Cohn, o antigo chefe da Columbia Pictures, haviam frequentado as corridas e usavam o mesmo anel de ouro e rubi, uma prova de amizade. Também já se aventou, embora nunca tenha ficado provado, que Rosselli tenha sido o responsável por Frank conseguir o papel que lhe salvou a carreira em A Um Passo da Eternidade, quando teria ameaçado Cohn em nome de Frank Costello. Para Robert Maheu, e por extensão para a CIA, o trunfo de Johnny Rosselli consistia em sua intimidade com Sam Giancana.
E Giancana interessava a Maheu não só em razão de seu alto posto na máfia de Chicago como também por suas ligações com Santo Trafficante Jr., outrora chefe do crime organizado em Havana e ainda poderoso na Flórida. (Sinatra também passara um tempo com Trafficante na reunião de cúpula da máfia de 1947.)
Trafficante, Giancana, Rosselli e Maheu estavam todos presentes ao encontro no Fontainebleau em março de 1961.
Robert Maheu não teve dificuldade em recrutar Johnny Rosselli para o Projeto Cubano: como nunca havia se importado em conseguir cidadania americana e vivia sob permanente vigilância do FBI, o gângster temia ser deportado. Cumprir com seu dever patriótico, ele raciocinou, garantiria que não fosse extraditado para a Itália. Sam Giancana, igualmente desejoso de se ver livre dos federais, estava se cercando de todos os lados: ele imaginava que ajudar Jack Kennedy a se transferir para a Casa Branca abonaria sua ficha com o governo – mas participar da Mangusto decerto o imunizaria de vez contra ações legais. Trafficante simplesmente queria reabrir as torneiras de dinheiro em Havana. Eliminar Castro era o primeiro passo fundamental.
Enquanto isso, uma absurda espiral de eventos em série levaria a Operação Mangusto a estourar na mão de Sinatra.
Enquanto tramava o complô em Miami, Giancana se encantou por uma mulher em Las Vegas. O objeto de seu desejo era Phyllis McGuire, a estrela das cantoras McGuire Sisters, e Mooney – ignorando o fato inconveniente de que ela estava noiva do belo comediante Dan Rowan – pôs-se a cortejá-la no início dos anos 60, “em parte fazendo com que o Desert Inn rasgasse uma dívida de quase 100 mil dólares que ela havia acumulado em mesas de blackjack”, de acordo com Shawn Levy. Esse gesto romântico, acreditava Giancana, era um vínculo entre os dois, com ou sem Rowan.
O ciumento Giancana perguntou a Robert Maheu se era possível instalar equipamentos de espionagem no quarto de Rowan no Riviera – onde o comediante estava se apresentando –, para descobrir se McGuire o estava traindo com o homem de quem havia ficado noiva. Querendo agradar o mafioso, com o dinheiro que acabara de ganhar da CIA Maheu contratou um operador em Miami, um certo Arthur J. Balletti, para ir até Las Vegas. Lá, “Balletti e seu bando puseram escutas no quarto e no telefone de Rowan e se instalaram em outro quarto”, escreve Levy.
Em 31 de outubro de 1960, eles fizeram uma pausa para o almoço, deixando os equipamentos de gravação e monitoramento bem à vista nas camas. Esqueceram-se, porém, de pendurar o aviso de NÃO PERTUBE na porta: uma arrumadeira entrou, viu todos aqueles cabos e máquinas sinistros e chamou a polícia. Quando Balletti voltou sozinho do almoço, foi preso. Rosselli incumbiu um parceiro de jogo de Las Vegas de pagar a fiança de mil dólares, e o grampeador trapalhão saiu da cidade.
Quando Rosselli contou a Giancana sobre o fracasso retumbante de sua missão, o mafioso teve uma reação peculiar: “Ele quase engoliu o charuto de tanto rir”, lembrou Rosselli, que não via nenhuma graça naquilo. “Isso estava estragando tudo, todo tipo de estratagema que eu tinha tentado arranjar”, disse.
Era essa a diferença entre os dois: Johnny Rosselli achava que a trama contra Fidel podia de fato funcionar; Sam Giancana, um niilista cínico, estava feliz só por pegar o dinheiro do governo.
Mas agora o segredo estava prestes a vazar. E o que era absurdo logo ficou sério. O xerife de Las Vegas, Butch Leypoldt, famoso por ser durão e se gabar do controle que tinha sobre a cidade, irritou-se com a ingerência de Balletti, um forasteiro de Miami, e chamou o FBI. “O interesse do bureau aumentou quando eles viram o nome de Maheu implicado no caso”, escrevem Charles Rappleye e Ed Becker, biógrafos de Rosselli. No momento em que o FBI ficou a par das atividades de Maheu, J. Edgar Hoover se envolveu pessoalmente.
O diretor estava furioso. Seus agentes trabalhavam havia anos para tentar processar Giancana, Rosselli e Trafficante – e agora o trio estava metido com o governo. A disputa por território entre o FBI e a CIA havia piorado, e quando o novo governo assumiu e Hoover se viu lutando para ter influência sobre o novo procurador-geral, o diretor tomou para si a tarefa de fazer com que Bobby Kennedy soubesse com quem seu irmão estava lidando. O FBI aumentou sua vigilância sobre os mafiosos, e Frank Sinatra aparecia em vários memorandos internos do bureau. Meses depois, Johnny Rosselli foi visto saindo do Romanoff ’s, em Beverly Hills, com a atriz Judy Campbell – que passara a visitar Jack Kennedy na Casa Branca quando Jackie estava viajando.
Depois de encerradas as festividades do início de 1961, Frank voltou ao estúdio de gravação – ou melhor, aos estúdios. Ele queria dar início a seu segundo LP para a Reprise, um tributo a Tommy Dorsey[6] com arranjos de Sy Oliver, o homem que, junto com Sinatra, transformara o som de Dorsey entre 1939 e 1940. Mas, como ainda devia mais dois álbuns para a Capitol, ele decidiu atacar ao mesmo tempo um disco de swingers com Billy May para essa gravadora. Dois discos de uma vez – uma façanha impressionante, talvez impossível, como, aliás, acabou se revelando. O esforço físico e emocional de ir da United Recording até aquela grande torre redonda na esquina da Hollywood com a Vine em 20 e 21 de março foi demais até para Sinatra. Ele sempre exalara uma energia quase sobre-humana, mas também já estava com 45 anos nas costas, e em alguns dos takes descartados das sessões com Oliver ele soava como se o proverbial trago estivesse entalado em sua garganta.[7]
Trabalhar com o irrefreável e beberrão Billy May sempre revigorava Frank, e era especialmente oportuno numa época de tensões cada vez maiores entre o cantor e a gravadora de que estava se divorciando. (A certa altura, conta-se que ele entrou no Estúdio A com uma gravata bordada com um FODA-SE.) No entanto, “Sinatra era cuidadoso para não deixar que seu desprezo pela Capitol afetasse seu relacionamento com May ou a qualidade do álbum”, escreve o crítico musical Will Friedwald. Ao mesmo tempo, “ele só queria gravar o disco”, ainda segundo May.
Come Swing with Me! era uma produção de alto nível, e Frank esteve à altura dela. Ele decidira basear a sonoridade do álbum no LP Big Fat Brass, que May havia feito para a Capitol – e que, como indica o título, era um disco dançante, ousado, feito com uma orquestra sem saxofones nem cordas. Da primeira à última faixa, o estereofônico Come Swing with Me! resultou num disco cheio de instrumentos de metal, jovial, e a voz de Sinatra é o melhor instrumento da orquestra. Se quando ele canta é compreensível que não encontremos a suavidade e a paixão que havia imprimido em Ring-a-Ding Ding!, um trabalho feito com amor para a Reprise, ele nunca é menos do que superlativo. Estava mostrando à Capitol o que eles iam perder.
Exausto por tentar fazer dois álbuns ao mesmo tempo, e ainda cansado do baile da posse, Frank anunciou que ia tirar um mês inteiro de férias em abril. Ele jamais gostou muito de ficar parado. Como disse a um repórter em 1957: “Eu preciso estar ocupado, é isso. Tiro férias por cinco dias e já cansei. Fico inquieto.” Sua impaciência natural o levava a aprontar todas, e a autorrecriminação o espreitava nas sombras. Ele estava bebendo o tempo todo, e com o álcool vinham os acessos de fúria.
Avesso à solidão, ele recebia um fluxo contínuo de convidados em Palm Springs: Sammy Davis Jr. e May Britt, os Lawford, Jimmy van Heusen, Marilyn Monroe. Frank sempre se orgulhava, com razão, de sua hospitalidade – mas não estava se comportando bem.
“Frank foi terrível nessa época”, relatou a Kitty Kelley um convidado anônimo.
Ele gritou com Marilyn, dizendo: “Cala a boca, Norma Jean. Você é tão burra que nem sabe do que está falando.” Nesse momento ela sorvia alguma coisa de uma garrafa de bolso e parecia patética. Ele vivia rugindo com George [Jacobs]: “George, pegue aquilo; George, encha os copos; George, limpe os cinzeiros; George, tire a mesa.” Nunca dizia “por favor” ou “obrigado”, e estava sempre berrando com o pobre sujeito, mas George nunca dizia nada. Ele aguentava tudo com um silêncio digno.
Jacobs sempre aguentava tudo. (Serviria sua vingança – fria e com a extensão de um livro – temperada com impressionantes lances de empatia.) Como a maior parte dos homens, ele via Marilyn Monroe com um fascínio especial; como dois oprimidos pelo mundo, porém, o criado e a deusa trágica parecem ter tido uma forte ligação emocional. Monroe estava em péssima forma na primavera de 1961, e Jacobs tinha pena dela. Os Desajustados – filme escrito pelo homem que à época era seu marido, Arthur Miller, e dirigido por John Huston – recém-estreara com resenhas que variavam bastante e uma bilheteria indiferente. Tinha sido seu último Waterloo.
Divorciada de Miller havia pouco, Monroe acabara de passar por um confinamento digno de pesadelo na clínica psiquiátrica Payne Whitney, em Nova York, e tinha voltado para a Califórnia em um estado delicado, o que torna mais cruéis os insultos de Frank chamando-a de burra. E ainda mais cruéis porque, de acordo com o antigo criado, “ela amava Frank Sinatra sinceramente”– e, dizia Jacobs, o amor não era recíproco.
A situação evocava de maneira incômoda o amor desesperançado que a promíscua Ginny Moorehead sentia pelo indiferente escritor Dave Hirsh em Deus Sabe Quanto Amei. “O sr. S. tinha muitos senões em relação a Marilyn”, escreve Jacobs, lembrando que ela estava acima do peso, vivia bêbada e muitas vezes ficava sem tomar banho, aspecto que a Frank parecia mais repulsivo. De acordo com o criado, o patrão dizia que nem dormir com a atriz ele queria – mas, sempre cavalheiro, de vez em quando cedia.
Para esses dois ícones do autodesprezo, o sexo era só a ponta do iceberg. Frank precisava dele para alimentar seu lado conquistador e lhe dar um vago vislumbre de intimidade; para Marilyn, era o que validava o único atributo pelo qual o mundo a respeitava. Como quase não tinha respeito por si mesma, a dose nunca era suficiente. Frank, autodidata como Marilyn, com ela compartilhava o profundo medo de ser inadequado em termos intelectuais – mas evidentemente jamais o admitia, nem a ela nem a quem quer que fosse. Era muito mais fácil desfrutar do débil prazer que lhe advinha ao menosprezá-la.
Em um humor instável desde os primórdios daquela temporada em Palm Springs, Frank escolheu como alvo preferencial – entre todas as pessoas possíveis – Desi Arnaz. Na década transcorrida desde que o músico cubano e sua mulher, Lucille Ball, haviam se tornado o casal queridinho da tevê americana, Arnaz, um empresário idiossincrático mas dinâmico, transformara sua própria produtora, a Desilu, numa usina televisiva. A Desilu produziu várias séries de sucesso nos anos 50, entre as quais I Love Lucy, Our Miss Brooks, The Jack Benny Program e, a partir de 1959, o drama policial da ABC Os Intocáveis. Embora Lucy e Desi tenham se divorciado em 1960, a empresa deles, com seus 33 estúdios em Culver City e em Hollywood, continuou a fazer sucesso. Em janeiro de 1961, a produtora de Sinatra, a Essex, tinha transferido seu escritório para a sede da Desilu na Gower Street, em Hollywood. Frank e Desi se conheciam e se davam havia anos.
Tudo ia bem até Sam Giancana decidir que odiava Os Intocáveis.
O programa de uma hora de duração, narrado em estilo direto pela voz ácida de Walter Winchell, baseava-se nas façanhas de um grupo real de agentes federais à caça do chefe da máfia de Chicago, Al Capone, nos anos 20 e 30. Os Intocáveis, batizados assim por serem incorruptíveis, eram chefiados pelo agente da Lei Seca Eliot Ness (interpretado por Robert Stack), e não só Capone mas vários gângsteres da série tinham sobrenomes italianos.
Na primavera de 1961, embora a série estivesse no ar havia mais de um ano, certos grupos começaram a se incomodar. A Federação de Organizações Democráticas de Ítalo-Americanos pediu que se boicotassem os produtos da Liggett & Myers Tobacco Company – o programa era patrocinado pelos cigarros Chesterfield – e um grupo de 250 membros da sede local da Associação Internacional de Estivadores fez um piquete em frente ao estúdio da ABC em Nova York, ameaçando parar de trabalhar com cargas da Liggett & Myers no porto em protesto contra o uso de nomes italianos no seriado. Em março, a Liggett & Myers retirou o patrocínio.
Embora muitos ítalo-americanos sérios estivessem sem dúvida descontentes com o programa, a movimentação irrompida naquela primavera parece ter sido iniciada por homens que julgavam o seriado muito próximo da realidade. O chefe da Associação Internacional de Estivadores no Brooklyn era Anthony “Tough Tony” Anastasio, que controlava as docas da região com mão de ferro, e, como era sabido, era um gângster a serviço da família Gambino – e irmão do mafioso assassinado Albert Anastasia. (Os irmãos grafavam o sobrenome de maneiras diferentes.) E embora o principal porta-voz da Federação de Organizações Democráticas de Ítalo-Americanos fosse o digno deputado de Nova York Alfred Santangelo, o boicote da federação à Liggett & Myers pelo visto era financiado por Sam Giancana.
Giancana encarou Os Intocáveis como uma ofensa pessoal, e não só por sua origem italiana: ele debutara em sua carreira no crime como motorista de Al Capone. Fidel Castro não era o único cubano que Sam Giancana queria ver morto naquela primavera – Desi Arnaz também tinha entrado para sua lista de alvos.
E ainda que Frank Sinatra nunca tivesse assistido a um único episódio de Os Intocáveis, ele resolveu tomar as dores de Mooney, e – em sua primeira semana de férias em Palm Springs – decidiu falar umas verdades para seu velho amigo Desi.
Numa noite da primeira semana de abril, bem tarde, Sinatra, bêbado e acompanhado de Dorothy Provine, foi de carro até o Indian Wells Country Club, no qual havia um restaurante que Arnaz frequentava. Jimmy van Heusen e uma amiga seguiam logo atrás. Quando Arnaz surgiu com dois guarda-costas, houve um confronto. Embora a Variety tenha informado que “não se conhecem detalhes precisos da confusão”, um texto da UPI mencionou “uma discussão dura que começou entre Sinatra e Desi Arnaz sobre o fato de os italianos serem retratados como bandidos na série de tevê da Desilu”.
De acordo com Kitty Kelley, que entrevistou a amiga de Van Heusen, Arnaz, que também tinha bebido, foi até a mesa de Frank com seus guarda-costas. Depois de apresentar o produtor a Provine, a Van Heusen e à outra mulher,
Frank se virou para Desi e disse o que ele e alguns de seus influentes amigos italianos pensavam sobre a série que retratava os italianos como gângsteres. “O que você quer que eu faça – que eu decida que todos eles são judeus?”, respondeu Desi. Ele disse não ter medo dos amigos de Frank, e a discussão continuou.
A UPI informou: “Pessoas ligadas aos dois dizem que a conversa degenerou em uma discussão durante a qual o cubano teria sugerido que Sinatra era um fracasso na indústria da televisão.”
A amiga de Van Heusen se recorda de Arnaz dizer a Frank: “Eu me lembro de quando você não conseguia emprego. Então por que você não esquece essa merda e vai tomar seus drinques e se divertir? Pare de meter o bedelho onde não foi chamado, você e seus tais amigos.”
Pouquíssimas pessoas teriam ousado falar assim com Frank Sinatra.
Mas o fato era que Desi Arnaz estava com dois guarda-costas; Frank estava com uma moça e outro casal. Arnaz e os dois homens voltaram para o bar e deixaram Frank espumando. “Eu não podia bater nele. Nós somos amigos há muito tempo”, ele disse. “Sim, esse foi o problema”, Van Heusen concordou.
De acordo com a amiga do compositor, os dois casais – e mais duas mulheres de uma mesa ao lado que Frank convidara – se dirigiram à casa de Van Heusen em Palm Desert às quatro da manhã “para uma festa”. Mas em vez da festa o que se viu foi um chilique de proporções épicas movido a álcool. Frank “entrou no quarto de Jimmy, onde havia um imenso retrato de Norman Rockwell pendurado na parede”, escreve Kelley.
Um dos bens mais estimados do compositor, o quadro retratava Van Heusen sentado ao piano com a camisa de um pijama, e era um presente do artista. Frank pegou uma faca na cozinha e atacou o quadro, retalhando a tela toda. “Se você tentar consertar isso ou colocar de novo no lugar, eu volto e boto abaixo a porra da parede”, ele ameaçou.
Van Heusen não disse palavra; as mulheres se entreolharam, assustadas. Por fim, uma das duas mulheres que ele tinha conhecido no clube disse, solícita: “Eu adoro seus discos, Frank.” Olhando-a com desdém, Sinatra retrucou: “Por que você não corta os pulsos?”
Na verdade, ele estava transbordando de desprezo por si mesmo, e a história exalava um significado inconsciente. No outono de 1953, durante uma fase particularmente ruim do desastre em câmera lenta que era seu casamento com Ava Gardner (ela estava a caminho de Roma para rodar um filme, e da Espanha para encontrar seu namorado toureiro), Frank cortara o pulso esquerdo no apartamento de Jimmy van Heusen, em Nova York. Chester[8] o encontrou a tempo e o levou ao hospital – contudo, no mundo de Sinatra, Van Heusen não fora o sujeito que o resgatara, e sim alguém que havia presenciado sua mais profunda humilhação. Agora o compositor era testemunha de outra humilhação, e tinha recebido seu pagamento.
“Como é que você pôde ficar parado ali e deixar ele fazer aquilo?”, a amiga de Van Heusen lhe perguntou mais tarde.
“Amanhã ele estará arrependido e me mandará alguma gravura que vale 5 mil dólares ou algo assim”, disse o compositor.
“Por que você aguenta essa maluquice dele?”, ela continuou. “Arruma prostitutas para ele? Vai lá o tempo todo e permanece acordado com ele até de manhã, sentado, enquanto ele trata as pessoas como lixo?”
“Porque ele canta minhas canções, só por isso”, Chester respondeu. “Por minha música sou uma puta.”
Vários dias depois, assim como Van Heusen previra, Sinatra lhe enviou uma gravura japonesa cara.
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[1] Apelido que um repórter da revista Life atribuiu inicialmente aos amigos Frank Sinatra, Dean Martin e Shirley MacLaine. Mais tarde o grupo se expandiu, englobando Sammy Davis Jr., Peter Lawford e outros, e ficou conhecido como Rat Pack.
[2] Referência aos versos God’s in His heaven/All’s right with the world, do poeta inglês Robert Browning (1812–89).
[3] Aquele velho mago Jack os conquistou com seu encanto/Aquela velha magia do Jack que ele fazia tão bem/As mulheres desmaiavam, e parece que muitos homens também/Ele fazia mais ou menos do mesmo jeito que eu.
[4] Carl Sandburg (1878–1967) já havia recebido dois prêmios Pulitzer de poesia e um de história, pela biografia de Abraham Lincoln.
[5] A Conferência Apalachin realizou-se na cidadezinha de mesmo nome, no interior do estado de Nova York, em novembro de 1957. Reunião histórica da máfia americana, foi interrompida abruptamente quando uma incursão da polícias municipal e estadual provocou uma debandada dos gângsteres pela floresta. O incidente foi dramatizado no filme Máfia no Divã.
[6] O músico Thomas Francis “Tommy” Dorsey (1905–56) foi um dos mais populares bandleaders da era do swing.
[7] Sinatra dizia “I think I swalloed a shot glass” quando sua voz desafinava.
[8] Nascido Edward Chester Babcock em Syracuse, Nova York, em 1913, Jimmy van Hausen era o pseudônimo que inventara durante a adolescência, quando era disc jockey.
