No meio da semana, já dava para sentir a enorme melancolia nos olhos dos modelos. Talvez dois ou três consigam uma projeção maior, algumas dessas meninas certamente vão desfilar em Milão e Paris, mas sabemos que a história de Gisele Bündchen não vai se repetir. Para a maioria, sobram um álbum de fotografia e os recortes da Elle e da Vogue no fundo da caixa. Um dia a vida real chega
O elfo, o Insta e o like
Um passeio pela São Paulo Fashion Week
Ricardo Lísias | Edição 127, Abril 2017
Entre os dias 13 e 17 do mês passado, a cena fashion baixou no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Mesmo que algumas marcas importantes tenham na última hora desistido dos desfiles, a turma da costura se reuniu para lançar as tendências para o próximo inverno, ver e ser vista trajando o look da estação, admirar os rostos e os corpinhos que despontam na passarela, rever os nomes que fizeram a história do evento e celebrar algumas grifes de sucesso.
Nas passarelas, na imprensa, nas redes sociais, nos blogs especializados e nos corredores do prédio, a São Paulo Fashion Week deste ano destacou o rosto anguloso, de pele perfeita e olhar angelical e infantil do elfo, o modelo masculino que veio substituir o lenhador, rústico e de expressão forte e adulta, das edições anteriores.
Em qualquer lugar por aqui, elfo é uma das palavras mais ouvidas, junto com outra também muito característica do evento: “Insta”. No meio dos desfiles, fashionistas fazem questão de postar no Instagram todo tipo de imagem que, com uma obsessão incontrolável, produzem sem parar. Um cartaz avisando que entrar na São Paulo Fashion Week autoriza automaticamente a divulgação da sua imagem dá o tom da corrida por cliques. A propósito, além de elfo e Insta, outra expressão decisiva é digital influencer. Blogueiros com mais de 1 milhão de seguidores atraem tanta atenção quanto alguns modelos. As expressões que criam logo se integram ao dialeto local. No final do desfile da Ellus, que comemorou 45 anos, ouvi uma frase que resume bem a régua publicitária do nosso tempo: “Esse foi muito like.”
A São Paulo Fashion Week é um evento fechado para convidados. Quem não consegue entrar e quer se vestir na moda pode ficar do lado de fora e observar como os fashionistas se vestem. Perto da fila de táxis cadastrados ficam os que se contentam com uma foto do estilista ou modelo do momento, sem colocar o próprio rosto na frente do celular. Esses dão a impressão de montar o look em casa mesmo, fazendo sobreposições com as roupas que vão encontrando por aí. Na calçada, um outro grupo tem mais liberdade para pedir uma selfie. Não usam as marcas que estarão na passarela, mas aparentemente gastam o salário nas lojas que irão, daqui a alguns dias, vender estampas e cortes inspirados nos desfiles.
Dentro do café, as pessoas já se conhecem, trocam beijinhos e as fotos são mais produzidas. A partir dali, todos se vestem segundo um mesmo código. Ainda assim, vi que um ou outro não tinha convite. Quem passa pelos seguranças está completamente integrado ao ambiente, com pleno domínio do vocabulário e das regras que parecem valer só mesmo ali dentro.
No meio de toda essa gente é possível mapear o guarda-roupa da moda. Homens e mulheres estão usando jeans rasgados. Quando elas preferem as saias, são muito curtas, às vezes com um sapato de salto alto, outras com botas, que aliás são obrigatórias no styling da maioria das marcas. Do mesmo jeito, os meninos sentem-se à vontade com a saia, normalmente um pouco abaixo do joelho. Para eles, o calçado da estação tem tecido laminado brilhante e sola alta e grossa.
Quando aderem à calça, sempre rasgada, os homens estão usando modelos muito justos, com a barra dobrada até o meio do tornozelo. No meu tempo, chamávamos esse look de caça-siri. Alguns usam dois cintos ao mesmo tempo. Como todos são muito magros, confesso que não entendi a razão. Homens e mulheres dão preferência a blusas retas e compridas, sempre decotadas. São variações de uma espécie de túnica, que aqui vira uma roupa “máxi”: é o maxicolete, a maxiparka, o maximoletom e até o vaporoso maxianorak. Tenho quase certeza de que máxi significa longo.
No momento, chapéu é coisa de homem. Os óculos, por outro lado, estão no rosto de todos, são grandes e de preferência espelhados. Carregar um guarda-chuva, para quem não quer a bolsa, também é uma atitude elegante, sobretudo se for daqueles maiores. Não se trata, porém, de nenhum tipo de inspiração em Charles Chaplin: as cores precisam ser fortes, misturadas e muito chamativas.
Um detalhe importante: quase todo mundo valoriza o decote e faz questão de mostrar o corpo em dia. O evento é sobre roupas, mas o corpo que vai por baixo parece tão importante quanto o tecido que o cobre, muitas vezes mínimo e outras tantas transparente. Deixar a lingerie à mostra também está na moda. As poucas pessoas com alguns quilos a mais andam bastante constrangidas.
Dentro do pavilhão da Bienal, a área de convivência nos distrai entre um desfile e outro, oferece uma passarela alternativa e oportuna para quem não tem ainda tantos likes no Insta e, enfim, abriga os fashionistas que não conseguem ingressos para ver as novas coleções na passarela.
Tudo na São Paulo Fashion Week é escolhido a dedo: a entrada na área do evento não garante a presença nos desfiles, que deve ser negociada com cada uma das marcas. Consegui ver os principais, mas a autorização para a entrada na área de convivência custou uma semana e uma troca de e-mails que mobilizou duas pessoas da revista. No primeiro dia, um dos responsáveis pela assessoria de imprensa me pediu para encontrá-lo do lado de fora. Na lista de cadastrados, havia uma marquinha no meu nome. Ele queria me mostrar tudo com muito cuidado e saber a minha pauta. Desconversei e entrei por uma das portas laterais. A coleira esteve entre os acessórios de algumas grifes.
Jornalistas que se vestem do mesmo jeito que os fashionistas sempre entram antes nos desfiles, ganham beijinhos e risadinhas. Os outros têm direito a água mineral, o quanto quiserem do energético TNT e alguns salgadinhos minimalistas. Fotógrafos sofrem bastante. Precisam correr o tempo inteiro. Vi um tristemente tropeçar na escadinha que carregava. Acho que o minimalismo financeiro dos veículos de imprensa os impede de contratar auxiliares.
Outra palavra bastante usada é esse minimalismo. Modelos com pouca roupa são minimalistas, peças com quase nenhuma costura também. Vi uma pessoa dizendo que a decoração da área de convivência e os próprios estandes eram minimalistas. O termo, nesse último caso, significa pouco, embora o sentido real, proibidíssimo de ser pronunciado por quase todo mundo no evento e em seu entorno, seja crise. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, a estilista Gloria Coelho, que aliás desistiu de desfilar no evento, respondeu a uma pergunta sobre a recessão: “Desculpa, mas eu não faço parte da crise! Nessa onda eu não quis entrar não.”
Os poucos estandes que foram montados este ano economizaram em tudo, inclusive nos brindes. Fiquei bastante tempo parado no espaço da joalheria Pandora, mas ninguém me ofereceu o lanchinho que estavam distribuindo. Não entendi o critério: mesmo algumas pessoas que não usavam o look fashionista ganhavam. É justo dizer, porém, que o desfile da lab, grife dos rappers Emicida e Evandro Fióti, presenteou cada proprietário de um convite com um batom da Natura.
Quem teve coragem de falar em crise foi o prefeito de São Paulo, João Doria Júnior, que apareceu no primeiro dia e recebeu salamaleques de algumas marcas. Bem adequado para a realidade do evento, no look de rainha da sucata com sorriso colgate, parecia muito satisfeito e não tomou conhecimento das tintas spray, um de seus maiores pesadelos, que eram passadas de mão em mão no estande da TNT, usadas para pichações cool em um papel kraft. Seu discurso foi o mesmo de sempre: vamos buscar parcerias.
Um passeio inicial pela São Paulo Fashion Week dá a impressão de que, por aqui, tudo é permitido. Foi o que achei no primeiro dia. A maioria com roupa muito curta e insinuante conversa com gente que faz questão de cobrir até os punhos e valorizar o maxianorak. O macacão com o tamanho três vezes maior dos funcionários da TNT convive bem com o look justíssimo dos elfos que, enquanto descansam dos desfiles, aproveitam para fazer selfies com os fãs, passar a mão no cabelo e conferir o Insta.
No primeiro dia um fashionista apareceu com um modelito por assim dizer meio exótico. A parte de cima cobria os braços e uma porção da barriga com o que parecia ser uma espécie de calça velha. Nas pernas, uma bermuda flex era o tempo inteiro arriada para ele mostrar que vestia um biquíni fio dental. Conseguiu aparecer em quase todos os sites especializados, e depois sumiu.
Tanta criatividade no styling não agrada todo mundo. No segundo dia do evento, ouvi um segurança, com o rosto compungido, dizendo uma frase sintomática para um colega: “Cara, nunca vi tanta gata tão malvestida.” Quando fui tentar entrevistá-lo, mesmo sem querer saber seu nome, ele se recusou, nervoso, afirmando que podia dar problema no serviço. “Aqui, a gente tem que ficar na moral.” Na sexta-feira, disfarçando a exaustão, o garçom de um café que fica logo ao lado da entrada desabafou comigo: “Ainda bem que o freak show acaba hoje.”
Com um pouco de observação, fica claro que tudo nesse universo é artificial e bem calculado, das pessoas que receberão os convites ao número de passos que os modelos dão na pista. Até agora estou tentando entender por que todos desfilam sérios, com os olhos fixos no infinito, o rosto fechado e duro e sem o menor sinal de descontração. Um sorriso não seria bom para os negócios?
No meio da semana, já dava para sentir a enorme melancolia nos olhos dos modelos. Talvez dois ou três elfos consigam uma projeção maior, algumas dessas meninas certamente vão desfilar em Milão e Paris, mas sabemos que a história de Gisele Bündchen não vai se repetir. Para a maioria, sobram um álbum de fotografia e os recortes da Elle e da Vogue no fundo da caixa. Um dia a vida real chega.
Os modelos não conseguem esconder a pulsão de morte que os acompanha nesse universo em que a passagem do tempo não significa nada além do fim de quase todos eles. A São Paulo Fashion Week é uma casa de bonecas muito triste.
Talvez dê para dizer que esse exagero de cálculo seja responsável pela impressão de clichê que o mundo da moda transmite. No geral, os desfiles são todos iguais. Uma pista cercada de gente, com os modelos caminhando carrancudos em direção aos fotógrafos. Quando davam meia-volta, alguns colocavam as mãos na frente do rosto, o que imediatamente me remetia à infância: esse era o movimento marcante da cantora Rosana no videoclipe O Amor e o Poder, clássico dos anos 80.
O desfile de Lino Villaventura, por exemplo, parecia inspirado em um misto de O Senhor dos Anéis com uma visão infantilizada dos cavaleiros da Távola Redonda, terminando com dois modelos dentro de uma capa telada que lembrava muito as múmias egípcias. O estilista usou e abusou dos elfos na passarela.
Quase não há cenografia, o que espanta em um meio tão artificial. A Ratier colocou uma galhada no centro da pista e afirmou que estava se inspirando nos ciganos da Romênia. Além da própria afirmação, nada nas roupas remetia ao grupo étnico perseguido por Hitler e depois por Nicolai Ceausescu, mas aqui uma afirmação já vale como verdade. A Apartamento 03 diz que seu desfile foi baseado no livro O Visconde Partido ao Meio, de Italo Calvino. Não dá para perceber como, mas tudo bem.
A Ellus afirmou no release de sua coleção que levaria para a passarela um look street. O desfile da grife foi montado no andar térreo da Bienal, em uma das laterais, ao lado das janelas de vidro. Mesmo se colocando como urbana, a marca não fez o menor uso do parque, perdendo a oportunidade de dialogar com um dos ambientes mais simbólicos da cidade. Do Ibirapuera, sobravam do lado de fora um atleta que parou meio espantado o alongamento, um carrinho de sorvete e um grupo de adolescentes que parecia se divertir, fazendo um rolezinho com roupas tão street quanto as da Ellus.
A Reserva fugiu do lugar-comum – a passarela – e conseguiu um resultado interessante. Os convidados eram recepcionados por uma jazz band animada e podiam, em um bar improvisado, pegar um drinque. Em cinco minutos, tinha gente dançando. No fundo, alguns displays mostravam a coleção, inclusive com os preços exorbitantes. Os modelos entraram um pouco depois, ao som instrumental de Odara, de Caetano Veloso. Não cruzaram o espaço, mas subiram em plataformas. Os convidados podiam circular entre eles, conversar e fazer fotos. O casting era variado, com modelos negros, alguns um pouco mais velhos e nenhum elfo. Foram os únicos que sorriram, vários inclusive sem muita dificuldade. As roupas que vestiam são adequadas a qualquer um de nós, desde que evitemos certas sobreposições meio estranhas. Ficou legal.
Os desfiles são muito curtos. No geral, não passam de quinze minutos. Começam com a luz diminuindo, a música eletrônica enchendo o ambiente e os modelos invadindo o espaço, para frisson geral do público absolutamente a favor de tudo. Celulares se erguem para gravar qualquer coisa. Algumas pessoas filmam com a mão direita e fotografam com outro aparelho na esquerda. Suspiram. Quando a excitação já está em um patamar perigoso, acaba. Mais cinco minutos e o povo invadiria a pista, saindo para desfilar atrás dos modelos.
Neste ano, algumas grifes tentaram transmitir um ar mais politizado. A própria organização da São Paulo Fashion Week divulgou que o evento é carbon free e anunciou algumas atividades ligadas ao discurso da sustentabilidade. O Sebrae promoveu o desfile de algumas grifes pequenas, afirmando com isso estimular o pequeno e médio empreendedor. Um espaço para palestras promovia apresentações e debates sobre o que se convencionou chamar de economia criativa, embora até hoje ninguém tenha conseguido definir exatamente o que seja isso.
Podemos procurar exemplos, porém. Alguns dias antes da abertura do evento, o editor do site da jornalista Lilian Pacce, referência nesse meio, passou uma mensagem no Facebook procurando estagiários que estivessem dispostos a trabalhar em regime de voluntariado. A forma como ele se apresentou talvez nos dê algumas pistas sobre a tal economia criativa: “Não temos verba, mas temos um bom coração e, pra quem não tem um cv caprichado ainda, é uma oportunidade bacana de recheá-lo e de aprender mais.” Por algum tempo, segui a equipe da jornalista. Posso atestar que a mensagem, apesar de ter causado uma péssima impressão e sido retirada do ar algum tempo depois, é de boa-fé: trata-se de um grupo de cocotes que se deslumbra com tudo, dá bastante risada e realmente gosta do que faz. Se eu estivesse na faculdade com meu pai disposto a pagar tudo, inclusive um look fashionista, e quisesse me especializar na alta costura, essa seria a minha turma.
Ainda no âmbito da política, a estilista Fabiana Milazzo mostrou uma parceria com algumas ONGs de rendeiras e artesãos. A Reserva avisava que o aspecto pobre de seu convite, entregue dentro de uma sugestiva embalagem de marmitex, devia-se à doação de cinco pratos de comida. Por pessoa no desfile, evidentemente. Desconfio, porém, que o modelo de beleza que cultivam ainda é o do Sul e Sudeste do Brasil.
Tudo aqui é quase sempre apenas criação de vocabulário e sobretudo de fotografias e vídeos para ocupar o espaço que o evento gera. Com a tal politização, não seria diferente. O fato é que a moda, por mais que se esforce, não consegue se livrar da melancólica impressão de frivolidade que transpira.
O modelo de negócios é obscuro. O que está na passarela, na melhor das hipóteses, é roupa caríssima ou algum tipo de inspiração para croquis mais simples que, logo após o evento, serão massificados. O resto é esquisitice que ganha outro nome e muita sugestão erótica. Só mesmo dentro da spfw alguém usa a maioria das “criações” que Lino Villaventura desfilou. Muitas fotografias da nova coleção de Alexandre Herchcovitch podiam estar nas paredes de algum motel mais descolado.
Na outra ponta, estão as constantes denúncias de que oficinas de costura empregam trabalhadores em péssimas condições, com longas jornadas de trabalho e salários muito baixos. Há inclusive uso de trabalho escravo. A ONG Repórter Brasil chegou a criar um aplicativo para o consumidor poder se informar das formas como as principais marcas brasileiras estão tentando combater essa prática. De realmente político no evento dá para destacar a boa presença de modelos negros. O que antes era, para enorme vergonha, um ambiente exclusivamente branco, agora abre um pouco mais de espaço para os outros tons da nossa sociedade. Testemunhei a dignidade silenciosa com que diversos modelos negros, forçando um pouco mais que os outros as pernas no chão, atravessaram a passarela.
Nesse sentido, o desfile mais politizado foi o da lab, que colocou na pista, ao som de um samba de gafieira, inclusive gente obesa. Não havia elfos ou exposição gratuita do corpo feminino. Para fechar, Emicida e Fióti cruzaram a passarela acompanhados pela mãe, que é bordadeira, e pelo sambista Wilson das Neves. Não estavam afetados e conseguiram transmitir algo muito raro no Brasil contemporâneo: dignidade misturada com genuína alegria.
Por fim, cabe uma discreta nota sobre o tal erotismo que muitas grifes se orgulham de produzir. Em vários desfiles, modelos de rosto angelical exibem pequenos seios, que parecem ainda em formação. Algumas meninas desfilam sem calcinha. O garoto tipo elfo não tem a mais remota sombra de barba no rosto liso e pré-púbere, enquanto mostra o dorso e o peito sem pelos. Imagino que esses modelos tenham mais de 18 anos. O tipo físico que estampam, porém, aparenta menos. Para disfarçar, o dialeto da moda apareceu com duas palavras em inglês: millennials e ageless. Ambas podem ser traduzidas, na verdade, por novinhos. Tenho certeza de que muitas das imagens produzidas na São Paulo Fashion Week fazem a alegria dos pedófilos.
