Mercado na Martinica, em 1938: “A cultura antilhana era um doce folclore. Suas tradições só tinham lugar nos balaios turísticos cheirando a baunilha. A paisagem paradisíaca apagava o país” CRÉDITO: FOX PHOTOS_GETTY IMAGES_1938
O enigma do contador
Ao longo do tempo, descobri que minhas leituras eram tóxicas, com negros e colonizados retratados como sub-homens
Patrick Chamoiseau | Edição 227, Agosto 2025
Fazer o túnel ali,
oferecer a mão direita, passar
para a esquerda,
fazer o túnel ali, bem ali!…
Palavras de comando de quadrilha
SAUDAÇÕES DOS ANJOS_Sou eu, sim, sou eu mesmo, venho das Antilhas, do país-Martinica, uma superfície vulcânica não muito grande onde o mar está à frente e também atrás, e que é azul em cima e embaixo, eu decifrei as paisagens onde nossas histórias malfalam, os crânios e os grilhões com sinos surdos das zonas abissais, vi povos surgirem em seu desaparecimento e outros se desgastarem invisivelmente na ausência para si mesmos, ouvi antigas correntes gravarem ovações, amei aqueles que as quebram, pranteei aqueles que as conservam, mas para mim, para mim mesmo, fechei-me ao lado das velas altas, rotas frementes esquecidas pelos barcos, longas asas sem pássaros, que apenas têm fome de vento, e que vão apenas para os ventos, esses ventos claros e violentos em que se misturaram carregamentos de continentes, de sangues e de oceanos, distribuídos como quem semeia o possível nas vértebras de um continente antiquíssimo, geografia das quatro pimentas, do milho, da mandioca, totens de Jesus e deuses do vodu, de junções invisíveis, onde aquilo que canta deposita pranto sobre a terra, e aquilo que chora celebra um discurso sobre a vida, e aquilo que sonha resiste, é verdade, sem saber exatamente a quê, mas sem tirar um nadica de nada dos sais da exigência, tudo isso para dizer, mas sem dizer nada na verdade, mas por assim dizer, boa noite, sou um crioulo[1] americano.
AS LÍNGUAS ARMADAS_Quando, nos anos 1960, minha adolescência vislumbra a escrita, eu me confronto com dois problemas: o problema da língua e o problema das fundações. O problema da língua é comum àqueles que escrevem, qualquer que seja o canto do mundo em que eles batem e se debatem. O Escrever é, sempre, apoiar a testa contra a rocha dura de uma língua. É, de uma certa maneira, se não a transpassar, “problematizá-la”. Para mim, é difícil conceber um gesto artístico no universo de uma língua que não fosse uma problematização dessa língua, em particular, e do uso da língua em geral. Acredito que uma língua só vive nesse hosana em que se esgotam seus limites, nesse lugar inabitável onde o Escrever medita sobre si mesmo. Isso já é, em si, espinhoso. Porém, quando se vive, como eu, num país colonizado, essa questão se torna ainda mais dura.
Numa colônia, sempre existe uma língua dominada e uma língua dominante. No meu caso, a língua dominada (língua materna, língua matricial) foi a língua crioula. Ela surgiu na plantação escravista, isto é, em meio à superexploração dos ecossistemas naturais, à desumanização ontológica dos cativos africanos, ao racismo institucionalizado e aos atentados permanentes do colonialismo. A língua dominante, o francês, me foi ensinada, a bordoadas, na escola. Por meio dela, descobri a leitura, a escrita, a literatura, a ideia do Verdadeiro e aquelas do Belo e do Justo, uma ordem do mundo cinzelada tão somente pelos valores do colonizador.
A língua dominante já não era, então, uma simples língua.
Era uma arma.
Se o Escrever em si já não é fácil, debater-se com a pena num tal arsenal é uma tragédia que todos os escritores dos países colonizados tiveram que enfrentar, ou que ainda suportam. O Escrever é frequentemente isto: desarmar certas línguas.
O Escrever é tanto ter algo a dizer, quanto buscar o que temos a dizer. O que temos a dizer nem sempre é o que pensamos dever dizer, nem o que somos capazes de dizer. Sempre há no verdadeiro Escrever elucidações de si mesmo, do seu entorno imediato, do mundo no qual se vive, e desse “si mesmo” nesse mundo. Encontrar o que se tem a dizer e se apoderar dos modos de dizer é, no mínimo, estar em clareza consigo mesmo, com aquilo que somos, de onde viemos… Que lugar ocupar no mundo? Qual relação estabelecer com as forças de nossa época?… Em suma, colocou-se para mim, no umbral do Escrever, uma problemática identitária que seria exacerbada pelo contexto colonial.
Também nisso, o discurso colonial fazia da noção de identidade uma arma de destruição em massa. Culturas, línguas, nações e civilizações dos colonialistas ocidentais tinham se tornado absolutos levantados contra a diversidade do mundo, considerada repugnante. Em suas lutas pela libertação, os colonizados iriam conservar essa hipervalorização identitária, com o objetivo de produzir um contradiscurso igualmente vertical. A lição que as gerações seguintes puderam tirar é esta: o “contra” permanece agarrado à garra que o suscita. Infelizmente, os dominados se esforçaram para extrair do mundo sua própria existência com modalidades similares àquelas dos dominantes. Uma maneira infalível de serem vencidos duas vezes. Esse mecanismo maniqueísta (próprio aos meros “rebeldes”, e que os “guerreiros” sabem evitar) abre um caminho perene para os conflitos de fenótipos, de línguas, de culturas, de deuses, de territórios, de fronteiras, de nações… todos eles atributos das velhas identidades que ainda nos agitam. Para mim, esse problema se colocou de maneira ainda mais aguda, pois eu pertencia a um povo compósito, sem absolutos, nascido de um choque terrível, orquestrado pelos escravistas e pelos colonialistas, entre o Ocidente, a África, as Américas e o espaço asiático, cujas engrenagens traumáticas foram o tráfico negreiro, a escravidão, a colonização pelo sistema das plantations.
O que fazer com isso?
Para onde ir com esse tipo de tripulação?
Apesar de tudo, eu senti bastante rápido, quero dizer, no obscuro, que esses crimes eram, para mim, os lugares de uma estranha fundação. O Escrever também é isto: considerar o obscuro, se lançar no mais obscuro para esclarecer o obscuro; identificar esse abalo inaugural (esse versículo ilegível) ao qual nenhuma vida de escrita pode se furtar.
OS PACOTINHOS-AMARRADOS_Assim, enfrentei a problemática de saber quem eu era, enquanto começava a rascunhar umas coisinhas. Um escritor é, antes de mais nada, uma vida em alerta para o sensível, uma espécie de “atletismo emocional”, como diria Gilles Deleuze; mas é, sobretudo, uma síndrome de leituras e uma biblioteca. A minha já estava bem abarrotada. Muito rápido, eu tinha me tornado um leitor compulsivo que mergulhava igualmente bem nos clássicos escolares e nas fotonovelas, nas histórias em quadrinhos, nos romances de amor, nos romances policiais, de espionagem ou de ficção científica… Essa biblioteca caótica teve seu início, no meu caso, com o tesouro guardado numa caixa de batatas. Tinha aumentado com os abalos da escola e, ao sabor das minhas errâncias mentais, havia se sedimentado de maneira autônoma, sensitiva principalmente, mas também acidental. O Escrever também é isto: ler para respirar, viver lendo, ao bel-sabor da inocência e de um prazer perfeitamente inútil.
Para deixar claro: Man Ninotte, minha mãe, não era realmente letrada. Não via diferenças entre as coisas impressas. A coisa impressa gozava, nesse tempo, de uma espécie de autoridade. Quando ela descobriu que eu gostava de ler, decidiu esvaziar a carriola de um djobeur[2] que ficava às quartas-feiras nas imediações do mercado de peixe e que vendia os materiais rejeitados de uma livraria, dos quais tinham suprimido cuidadosamente as capas. Ele vendia em pacotinhos-amarrados livros, brochuras, opúsculos, fotonovelas, revistas, almanaques, histórias em quadrinhos… Toda quarta-feira, Man Ninotte me trazia alguns deles; me entregava com gestos bruscos e aquele ar de indiferença afetada que servia para ela mostrar um tipo de amor. Comecei a ler assim, de pacotinho-amarrado em pacotinho-amarrado, sem discriminar muito, aprendendo a derreter o prazer da leitura com as leis do acaso e o fogo único de uma circunstância. Próximo. O que está lido está lido. Vamos mais rápido. Pegue qualquer um ao acaso. Nunca é o bastante. Ler e ler mais ainda… O Escrever também é isto: aspirar pura e simplesmente aquilo que vem.
É claro que essas obras em que eu vivia em sonho nunca me falavam sobre mim. Não evocavam nem as paisagens que conhecia, nem minha língua materna, nem as coisas que compunham minha existência. Para dispor de obras que refletissem minha realidade antilhana, me dirigi para os lados da Biblioteca Schoelcher,[3] um edifício improvável, pagode de ferro com detalhes em ouro, erguido no Centro da cidade, em frente a uma praça de origem militar, bem ao lado desse palácio de governo ainda utilizado pelos nossos prefeitos de passagem. Sua base livresca provinha da doação do acervo pessoal do admirável Victor Schoelcher. Ainda me vejo subindo os poucos degraus, atravessando uma espécie de nave entre as falésias de livros encapados com cheiro de couro amaciado, de arquivo morto, de barata seca, de naftalina. Eu me vejo me aproximando do velho bibliotecário, que cochilava durante a tarde em meio à poeira de sua sala. Tocado pela minha iniciativa de negrinho bizarro, esse ser humano (que o marcador, aqui, o reverencie!) me permitiu o acesso a um velho armário gradeado onde se eternizavam, num recanto de esquecimento, os livros que diziam respeito às Antilhas. Livros de piratas em degredo nas ilhas; livros de religiosos eruditos que escreviam crônicas de suas estadias nas Américas; livros de colonialistas felizes de possuir ilhas; enfim, livros de poetas apaixonados em volta de suas doudous,[4] das flores e das belezas da paisagem… De maneira geral, eram os vencedores que seguravam a caneta, e quando não eram eles, era seu próprio e único imaginário que se intrometia na evocação desse país e que dizia o mundo. Mas eu tinha tamanha sede de minha própria “realidade” que essas leituras me davam, por assim dizer, um prazer sem amarras.
UMA SENTIMENTECA_Artista, o escritor sempre encarna uma estética: uma tela sensível, consciente ou inconsciente, elaborada ou não, que enerva sua prática criativa. Mas é também uma vida de ser humano que se esforça para viver numa dada época: devaneios, encontros, acidentes, experiências diversas, engajamentos, implicações sociais, militâncias políticas ou de outro tipo, estímulos estéticos ou de outro tipo, amores, afetos… O caminho sem caminho da escrita, como todo processo criativo, faz parte dessa movimentação que não pode ser isolada do resto da existência. Uma obra artística somente se insere na obra determinante, que continua sendo aquela de uma vida. Vem completá-la, sustentá-la, servi-la. A obra é uma caminhada sem caminho, o torvelinho de uma vida.
Viver é advir e devir. O Escrever é viver.
Por fim e sobretudo, e isso nunca será dito o bastante, é a encarnação de uma biblioteca.
Escrever-ler, ler-escrever: grandes forças indissociáveis onde se delineia o Escrever.
O escritor, em geral, leu muito. Ele lê, relê mais uma vez. Mesmo sem a pretensão de virar escritor, a ambição de uma escrita criativa só pode se apoiar na parte mais imaginativa de si mesmo, e pressupõe três pimentas: mobilizar a própria vida de maneira muito profunda; mobilizar o mais carnal de sua biblioteca; construir para si uma negociação com a Beleza e, portanto, uma estética – arquiteta de uma vida atenta a si mesma e atenta ao mundo.
Sem demora, tomei consciência de um estranho fenômeno: minhas leituras não tinham esgotado toda a minha biblioteca. Certos livros haviam ficado, para mim, adormecidos: eu não tinha encontrado seus autores, que eram com frequência criadores que não poderiam ser negligenciados. Uma conversa, um artigo de jornal, um pedaço de frase que flutua numa indicação relembram-nos à tua boa memória, como faria o perfume de jasmim. Nos precipitamos nas prateleiras, encontramos esses autores, mergulhamos neles, e… o que não tinha acontecido antes se produz! Desse ponto de vista, as bibliotecas se parecem com a caverna de Ali Babá, com o labirinto inesgotável e com o grande cemitério. Acumulamos ali por gula e a acumulação cria pontos cegos; as leituras demasiado ávidas, que se tornam reflexos, atravessam longos corredores inertes; então, podemos nos perder, não dar valor às maravilhas, ir às perfumarias… No entanto, mesmo adormecido, mesmo esquecido, mesmo tendo ficado invisível, um livro importante integra teu universo sensível, ele te alimenta e alimenta os momentos do Escrever durante os quais teu ser em sua integralidade adquire uma densidade de estrela. O Escrever é também isto: uma força de atração posta em movimento, um chamado soberano que desperta aquilo que está dormindo, que revela aquilo que se esconde, que desperta para tudo o que vem, que atiça em sua forja aquilo que passa por perto.
Instantes mágicos: no momento do Escrever, passear pela biblioteca, pegar livros ao acaso, abri-los, acolher aquilo que vem… Muitas obras esperam por isso para, pura e simplesmente, passar a viver. O despertar de um livro desencadeia em ti um solavanco emocional (imagens, sensações, sentimentos, ideias…). Um tal acontecimento não é dado, nem pedido de antemão. Isso pode acontecer num instante, ou lentamente ao longo de uma maturação; isso também pode nunca acontecer, por mil e uma razões. Porém, quando o despertar ocorre, quando o encontro com o autor se produz, descobrimos um amigo ignorado, um velho irmão desconhecido. Constituímos família tendo como único laço as fosforescências. A obra chega às substâncias da tua vida de um modo necessário e precioso, presente oblíquo, depósito singular.
Frequentemente, a relação privilegiada que mantemos com uma obra não é redutível a nenhuma outra experiência. O livro pode ser importante, insignificante, até mesmo deplorável… pouco importa: ele te trouxe alguma coisa, uma palavra, uma frase, um ensinamento, um personagem, uma trama de sensibilidade, um nada que dá nuances à tua vida…
Subitamente despertados, esses livros tinham, ao longo dos anos, desenhado em minha biblioteca uma “geografia cordial”. Cada um deles balizava uma distorção da minha consciência. Juntos, constituíam uma nebulosa de sentimentos. Essa alma de toda biblioteca fielmente experimentada, eu chamei de sentimenteca. Não escrevemos com toda uma biblioteca, apenas com aquilo que atingiu nossas carnes. O Escrever faz vibrar as cordas de uma sentimenteca: da parte mais livre, da mais louca, da mais aberta, da mais variada e da mais ampla de si mesmo. Os autores da tua sentimenteca, confessáveis ou não, ficam ao teu lado no momento do Escrever. Eles estão perto de ti quando o desconhecido da criação é invocado. Alguns permanecem visíveis, outros ficam dissimulados, outros ainda se camuflam em um ponto cego, mas todos vêm ao encontro, sombras, evidências, silhuetas e tremores fugazes, glória da leitura, num jogo de reflexos moventes, sempre recomposto… O Escrever também é isto: invocar, adivinhar, experimentar sua própria sentimenteca.
DO KALEVALA: O canto total
como feitiço de tinta atenta
e de fôlegos combativos, de memórias
atiçadas e de signos fundadores. Magia.
– Sentimenteca.
DO MAHABHARATA: Memórias
da fala, ecos e esculturas
de todas as complexidades.
– Sentimenteca.
DO CONTADOR CRIOULO:[5] Antes de mais nada, rir.
É preciso rir. Mais vale rir.
– Sentimenteca.
Comecei a desenhar minha sentimenteca em Écrire en pays dominé, uma obra que esboça meu percurso de consciência. Foi desta forma: peguei cada obra, cheirei, folheei, e me vieram coisas, imagens, sensações, frases, rejeições ou afeições, adesões ou recusas… Mas é na mão, na mão que as segura, que chega a mensagem. Nos casos mais elétricos, tentei condensar em algumas linhas, uma espécie de selo instintivo, o que me havia sido dado. Podia ser um exemplo a seguir ou um contraexemplo; isso dava mostras de uma experiência, ainda viva numa linha neuronal, que era preciso pegar, flap!, de maneira não pensada, assim mesmo, quase à força. O inventário de uma sentimenteca nunca está terminado, ela permanece viva, relatando dia após dia aquilo que você se torna.
A PODEROSA E A MUDA_Não que eu tenha sido rápido na tomada de consciência, mas ficou evidente para mim, ao longo do tempo, que minhas leituras eram tóxicas. Nelas, negros e colonizados eram sub-homens. Apartada das civilizações, a África somente surgia (entre Tarzan e grandes exploradores) para ilustrar os irremediáveis da miséria, da bestialidade ou da barbárie. A cultura antilhana era um doce folclore. Suas tradições só tinham lugar na sala de curiosidades ou nos balaios turísticos cheirando a baunilha. A paisagem paradisíaca apagava o país. A doudou, gentil e sorridente (com as axilas perfumadas de canela), anulava qualquer possibilidade de se tratar de um ser humano.
O que era chamado de “História”, batida com um grande “H” maiúsculo, vertical e estreito, apenas exprimia, à guisa de ciência ou de consciência, uma solidão colonialista no mundo.
Vinha, então, o trágico da língua.
Tendo a escrita se instalado em mim como uma mania vil, eu tinha me tornado sensível à questão da língua empregada. Minha mãe, negra, era sobretudo de língua crioula, esse era o seu natural. Meu pai havia forjado para si um “comportamento de mulato[6] distinto” com uma ótima dose de língua francesa; ele se exibia, recitando de boa memória as impressionantes maravilhas de um certo fidalgo Jean de La Fontaine. Eu ficava provavelmente mais do lado da escuta emocional da minha mãe, pois, na minha cabeça onde se chocavam as duas línguas, o crioulo se aproximava do vivo e do sensível; somente ele circulava bem à vontade nas minhas comoções comigo mesmo, ou na companhia de outras criaturas de mesma compleição que eu. Mas, quando começava a rascunhar minhas coisinhas, abria-se o reino das minhas leituras e do fidalgo Jean de La Fontaine: eu escrevia em francês.
Eu escrevia França.
A língua não vinha sozinha: ela se instalava com seus trens, seus verões, suas macieiras, seus invernos, suas caldeiras, chaminés e primaveras, com suas rodas de feno e seus salgueiros-chorões… Ela me carregava, pele branca, cabelo ao vento, para cima e para baixo, para bandas desconhecidas onde eu era muito feliz. As paisagens e situações com que me deparava nas maravilhas dos meus pacotinhos-amarrados, encontrava-as nas minhas leituras e nos meus livros escolares, e depois nas imagens em preto e branco da nossa primeira televisão. Uma boa parte da minha cabeça morava, portanto, na França. Minhas leituras se converteram numa verdadeira prisão, minhas escritas ofereciam a grade e passavam óleo na fechadura.
Mesmo assim, resolvi me dirigir para o lado da minha mãe, para o lado da língua esquecida, a língua crioula, e ali encontrar o que ela poderia ter gerado como biblioteca e como fonte de La Fontaine. Infelizmente, a noção de biblioteca não fazia parte de seu universo.
Minha língua primeira era oral.
Ela tagarelava, cantava, xingava, contava histórias, fazia piadas, dizia as emoções… No que diz respeito ao papel e à caneta, ela ainda buscava, entre militâncias rancorosas e folclore doce, a funcionalidade de uma escrita. Precisei, então, continuar minha aventura em francês da França sem biblioteca crioula, ou melhor: perseguir a escrita com aquilo que parecia estar mais perto de mim… a oralidade.
Sem me dar conta, com essa ânsia de escrever, eu caminhava lentamente em mim mesmo e lentamente na matéria daquilo que, ao meu redor, repercutia o mundo. Sem saber nem querer realmente, eu rompia cordas, desatava antigas correntes, frequentava o início de uma libertação mental. O Escrever também é isto: uma caminhada a princípio obscura, mas decifradora de toda uma existência.
[1] A palavra créole (crioulo) não tem aqui um conteúdo semântico racial, como seu correspondente em português. Designa os seres, as línguas e os elementos culturais oriundos da miscigenação resultante da colonização europeia. (Todas as notas são do tradutor.)
[2] Espécie de trabalhador informal que vive de pequenos biscates urbanos, de djobs – daí a palavra que mistura inglês e francês sob a égide do crioulo. Em seu romance de estreia, Chronique des sept misères (1986), Chamoiseau narra histórias dos djobeurs de Fort-de-France, no caso, daqueles que vivem ao redor dos mercados municipais, incluindo o mercado de peixe.
[3] Com um acervo de mais de 130 mil livros, a Biblioteca Schoelcher é, ainda hoje, a mais importante das bibliotecas públicas da Martinica.
[4] Figura de mulher idealizada e relacionada aos encantos da natureza tropical, típica de um período folclorista da literatura antilhana conhecido como doudouisme.
[5] Figura primordial já presente no título desta obra, o “contador crioulo” (conteur créole) ou somente “contador” (conteur) não se reduz a um simples narrador ou contador de histórias, tal como conhecemos hoje. As especificidades de sua prática ficam patentes, por exemplo, no livro Contos dos sábios crioulos (Editora 34, trad. Raquel Camargo), também de Chamoiseau.
[6] Na Martinica, o grupo social dos mulâtres (mulatos) goza de mais prestígio do que os noirs (negros). O termo “mulato” não tem, portanto, o mesmo caráter que em português, utilizado frequentemente, de modo pejorativo, como forma de encobrir a negritude.
Trecho do livro O contador, a noite e o balaio, a ser lançado em setembro pela Editora 34. Tradução de Henrique Provinzano Amaral.
