CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2025
O guardião da tela
O funcionário mais antigo do cinema mais antigo do Recife
Felipe Fernandes | Edição 223, Abril 2025
Nas décadas de 1970 e 1980, Recife chegou a ter quase trinta cinemas de rua. Agora, restam apenas dois: o Cine Teatro do Parque e o São Luiz. Os dois ficam a pouca distância um do outro, no Centro da capital.
O faz-tudo do São Luiz é João Bosco Ferreira da Silva, de 61 anos. Ele começou a trabalhar no cinema em 1982 e conhece o espaço de cima a baixo: sabe onde fica cada cartaz, lâmpada ou disjuntor. Mais do que um funcionário, é o guardião de um pedaço da história cultural pernambucana que sobreviveu ao tempo.
Natural de Piancó, no sertão da Paraíba, Silva assistiu a seu primeiro filme aos 12 anos, em um cinema de rua. Ele não se lembra do nome, mas a história de terror envolvia animais selvagens. “Era tarde da noite, e eu tive que passar por uma mata. Só ficava imaginando os ursos do filme correndo atrás de mim”, recorda. Três anos depois, em 1978, sua família se mudou para o Recife.
Aos 18 anos, desempregado e com a mulher grávida de seu primeiro filho, Silva foi indicado por um vizinho para trabalhar no São Luiz. Começou como auxiliar de limpeza e, desde então, desempenhou várias funções: técnico e encarregado de refrigeração, eletricista, encanador e, finalmente, projecionista – o ofício de que mais gosta e o que exerceu por mais tempo, dezesseis anos.
Seu gênero preferido é o faroeste, mas os filmes brasileiros ficaram bem marcados em sua memória. Ele cita alguns que projetou (em reprises) e que admira: Uma onda no ar (2002), de Helvécio Ratton – sobre um grupo de jovens que cria uma rádio em uma favela de Belo Horizonte –, Deserto feliz (2007), de Paulo Caldas – a história de uma jovem do interior do Nordeste que cai nas teias do turismo sexual –, e O Homem que engarrafava nuvens (2009), de Lírio Ferreira – sobre Humberto Teixeira, um dos pais do baião. “É difícil lembrar todos, não é, meu filho?”, comenta. Alguns filmes ficaram tanto tempo em cartaz que ele se cansou de projetá-los. Dois casos foram de diretores pernambucanos: Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, e Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho.
O São Luiz foi inaugurado em 1952 pela empresa de Luiz Severiano Ribeiro, que abriu as primeiras salas de cinema no Norte e Nordeste (o grupo Severiano Ribeiro hoje é dono da rede Kinoplex). O prédio fica no bairro de Boa Vista, às margens do Rio Capibaribe, na esquina da Rua da Aurora com a Avenida Conde de Boa Vista, uma das mais movimentadas da região central do Recife.
Era um espaço de certo luxo para a época, com duas solenes colunas na entrada, 992 lugares distribuídos entre plateia e balcão e um raro item de decoração em cinemas: dois vitrais criados pela artista Aurora de Lima, um à direita, outro à esquerda da tela, que existem até hoje. Até que o filme comece, os vitrais ficam acesos, formando a imagem de dois jarros de flores.
O início do século XXI não foi gentil com o São Luiz. Em 2007, o cinema foi fechado pelo grupo Severiano Ribeiro, por causa da redução do público. Silva foi então trabalhar em outro cinema do Centro, mas em um shopping, o Boa Vista. Em 2009, o São Luiz foi tombado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), e Silva foi convocado de volta. “Me chamaram para ficar tomando conta do cinema enquanto as obras de revitalização aconteciam”, conta. Foi quando ganhou o apelido de “guardião” do São Luiz: “As pessoas me tratam assim. Eu sei que não sou o dono, mas se está na boca do povo, está tudo certo.”
No final de 2009, o cinema reabriu, agora gerido pela Fundarpe, vinculada à Secretaria de Cultura de Pernambuco, que arrendou o espaço do grupo Severiano Ribeiro. No ano seguinte, o governo comprou o cinema, que agora dispõe de dois projetores – um de película 35 mm e outro digital 4k, com capacidade para projetar filmes em 3D.
Em 2023, uma chuva forte causou danos ao São Luiz – que estava fechado desde o ano anterior para obras de reparação –, provocando sua interdição total. Incomodado com o fechamento, o diretor Kleber Mendonça Filho publicou uma carta aberta questionando o destino que o governo pernambucano daria à sala. Citava os dezesseis funcionários do cinema, com o nome de João Bosco Ferreira da Silva no topo da lista. (No mesmo ano, o diretor lançou Retratos fantasmas, sobre o declínio do Centro do Recife a partir dos fechamentos dos cinemas de rua.)
A reforma demorou: só em novembro do ano passado o São Luiz foi reaberto, com as estreias em Recife de Ainda estou aqui, de Walter Salles, e Apocalipse nos trópicos, de Petra Costa, acompanhadas de debates com os diretores. Longas filas se formaram para as sessões. Hoje, o cinema funciona só nos fins de semana. Outras obras de revitalização estão sendo feitas nos dias úteis, e só devem terminar em meados do ano que vem.
Além do trabalho no São Luiz, Silva costumava consertar geladeiras e aparelhos de ar-condicionado na vizinhança onde mora. Aposentando, diminuiu o ritmo. Parou com os bicos e agora assume o projetor com menos frequência, em geral para cobrir a folga de outros funcionários.
Ele tem confiança no futuro das salas de cinema: “O povo sempre vai preferir assistir a um filme nelas: o som é melhor, a imagem é maior e tudo é mais divertido.” Silva não pensa em arredar os pés do São Luiz. “É como se alguém tivesse me dado uma coisa para eu guardar. Eu sei que não é minha, mas continuo zelando para que nunca se quebre”, diz.
