Sayyid Ahmed trabalha no sistema informal de coleta do Cairo, pago pelos moradores; veste-se com sapato e roupa largos e usados, achados no lixo, mas em sua casa tudo é novo em folha FOTO: RENA EFFENDI_INSTITUTE
O lixo não é trash
Um catador de rua explica o Egito moderno
Peter Hessler | Edição 101, Fevereiro 2015
Moro no Cairo, no andar térreo de um prédio antigo, num apartamento amplo, de pé-direito alto, com três portas que dão para fora. Uma delas abre para o saguão do edifício; outra conduz a um jardinzinho; a terceira é de uso exclusivo do zabal (ou lixeiro), que se chama Sayyid Ahmed. Esta última fica na cozinha, e quando nos mudamos para esse apartamento, no começo de 2012, a senhoria nos instruiu a pôr o lixo junto da escada de incêndio, perto da porta, a hora que quiséssemos. Não havia um horário específico de coleta nem algum tipo preferido de embalagem: podíamos usar sacos, caixas ou simplesmente jogar o lixo solto, porta afora. Os serviços prestados por Sayyid não exigiam uma remuneração predeterminada. Ele não era funcionário público nem tinha um contrato ou emprego formal. Disseram-me que pagasse o que achasse justo e, se desejasse, também podia não pagar nada.
Muitas coisas não funcionam direito no Egito. O trânsito é ruim, trens são cancelados e, no verão, não é nada incomum enfrentar cinco apagões num mesmo dia. Houve um ano em que passamos meses sem poder comprar água mineral, porque, sabe-se lá como, a fábrica que a fornecia tinha pegado fogo. Desde que nos mudamos para esse apartamento, o país já teve três Constituições, três presidentes, quatro primeiros-ministros e mais de 700 parlamentares. Mas nunca houve um único dia em que meu lixo não tivesse sido recolhido. De um modo geral, o sistema de coleta no Cairo funciona surpreendentemente bem, considerando-se que é um serviço em grande parte informal. Numa cidade espraiada e caótica de mais de 17 milhões de habitantes, os zabaleen como Sayyid conseguiram desenvolver uma das redes mais eficientes do mundo de reciclagem municipal de lixo.
No começo, eu nunca via Sayyid em ação – ele desobstruía minha escada de incêndio de madrugada. Passados três meses dessa atividade invisível, um dia ele se aproximou de mim na rua e me perguntou se eu já havia morado na China. Não entendi como ele poderia saber disso – havíamos conversado poucas vezes, e nunca por muito tempo. Sayyid queria me fazer uma pergunta importante sobre medicina chinesa.
Naquela noite, ele chegou a minha casa às oito em ponto, vestindo suas roupas de trabalho. Ele tem pouco mais de 1 metro e meio de altura, mas os ombros são largos e as pernas arqueadas, de carregar peso. Usa roupas alguns números acima do seu, e sapatos folgados como os de um palhaço, pois os apanha do lixo de homens maiores do que ele. Mostrou-me uma caixinha vermelha decorada com caligrafia dourada. A descrição chinesa era elegante, mas imprecisa. Dizia que os comprimidos ofereciam “proteção à saúde” e promoviam “desenvolvimento e potência”. Dentro da caixa, um papel com instruções me lembrou de como às vezes os chineses conseguem ser bem mais expressivos quando fazem mau uso do inglês:
2 comprimidos por vez, sempre que necessário
20 minutos antes de trepar, fazer amor
“Onde você conseguiu isto?”, perguntei. “No lixo”, ele disse. “De um sujeito que morreu.” Contou que se tratava de um homem de certa idade que morava na minha rua, um pouco mais adiante. Depois de sua morte, os filhos tinham jogado fora os comprimidos e outros pertences do falecido. E completou: “Muita coisa era mish kuaissa.” Ou seja, “não era coisa boa”. Perguntei o que ele queria dizer com aquilo. “Coisas assim…”, esboçou no ar um desenho com o dedo, apontando depois para um ponto abaixo da cintura. “É elétrico. Funciona a pilha. É para mulheres. Esse tipo de coisa não é boa.”
Mas falar sobre aquilo parecia deixá-lo feliz. Sayyid me contou que o lixo também continha comprimidos egípcios para ereção e uma bela coleção de revistas pornográficas. Não disse o que havia feito com esse material. Perguntei onde o falecido trabalhava. “Era embaixador.” À época, eu tinha começado a estudar árabe havia menos de um ano, e Sayyid disse aquilo num tom tão casual que precisei pedir que repetisse. “Trabalhava em embaixadas no exterior”, ele explicou. “Era muito rico, tinha milhões de dólares. Sua conta no banco era de 4 milhões e 44 dólares.” A precisão da cifra chamou minha atenção, e perguntei como ele sabia. “Estava nas cartas do banco.”
Seria bom ficar atento a meus descartes, pensei comigo. Sayyid queria informações sobre o remedinho chinês, e traduzi da melhor maneira que pude a instrução que dizia “20 minutos antes de trepar, fazer amor”. Ele não foi muito claro quanto ao destino que pretendia dar aos comprimidos. Verifiquei os componentes – ginseng branco, chifre-de-veado – e decidi que provavelmente não havia risco. Tive a sensação de que não era a primeira vez que ele pescava um comprimido do lixo.
Depois disso, Sayyid passou a me fazer perguntas com regularidade. Com o tempo, percebi que ele havia recrutado certo número de pessoas como consultores informais. Como mais de um quarto dos egípcios adultos, ele é analfabeto e, portanto, se quer ler alguma coisa que catou, recorre ao proprietário do H Freedom, uma barraquinha de esquina. Caso se envolva em alguma briga com vizinhos, liga para o homem que distribui pão subsidiado pelo governo. Quanto a mim, minha especialidade cobre de coisas estrangeiras a produtos voltados para o desempenho sexual e álcool. Se alguém joga fora uma garrafa consumida só até a metade, Sayyid vem me consultar, para saber se é bebida importada e se pode, assim, ter algum valor de revenda. É muçulmano, mas não muito devoto. Quando passa na minha casa à noite, tem por hábito me pedir uma cerveja. É o único visitante que leva embora a latinha vazia, porque sabe que, ao fim e ao cabo, acabará tendo de recolhê-la.
Em parte porque não sabe ler, é hábil em detectar pistas sutis. Separa à mão todo o lixo, e em determinado momento notou que as mulheres estrangeiras muitas vezes jogam fora cartelas vazias de comprimidos em número idêntico ao dos dias do mês. Concluiu que era alguma coisa afrodisíaca e veio me perguntar se aquilo fazia as estrangeiras quererem sexo todo dia. Expliquei que não era bem isso, embora sua hipótese fosse compreensível, já que em sua triagem ele encontra grande quantidade de drogas afrodisíacas e apetrechos sexuais. Apareceu mais duas ou três vezes com outras versões de remédios sexuais chineses, e costuma me trazer medicamentos chamados Virecta, por exemplo. Tudo o que é azul o atrai. Não faz muito tempo, surgiu animado com uma embalagem laminada de Aerius, até que fui pesquisar na internet e descobri que se tratava de um antialérgico de cor semelhante à do Viagra.
Moro em Zamalek, uma região ao norte de uma ilha no Nilo situada no Centro do Cairo, e Sayyid se tornou meu guia para os arredores. De vez em quando eu o acompanho em sua ronda matinal, antes do amanhecer. A primeira vez que fiz isso, em fevereiro de 2013, ele me levou à saída de emergência de um prédio da minha rua, no último andar.
“Esta é madame Heba”, disse. Tinha acabado de recolher um saco plástico preto, jogando-o num enorme cesto de lona que levava nos ombros, qual um Quasímodo. Foi descendo pela escada de incêndio, enquanto tecia comentários sobre os moradores, cujos nomes alterei aqui. “Este é o doutor Mohammed”, prosseguiu no andar de baixo. Mais um andar, e ele continuou: “Este é um padre, padre Mikael. É um tremendo pão-duro. Só me dá 5 libras por mês”, disse, erguendo dois sacos grandes. “Diz que não tem dinheiro, mas eu vejo as caixas e sacolas dos presentes que ele ganha. As pessoas dão coisas para ele o tempo todo, porque é padre.”
Em outro pavimento, abrimos caminho pela área forrada de comida estragada. Gatos de rua haviam rasgado uma pilha de sacos. “Esta é estrangeira”, Sayyid explicou. “Não é nem para eu recolher o lixo de sua porta. O senhorio não está muito contente com ela. Estão brigando. Ele me disse para não botar a mão.” De acordo com Sayyid, não é algo incomum. As pessoas podem pagar para ele remover seu lixo, mas também podem lhe dar algum dinheiro para que ele deixe o lixo de alguém acumular. Descemos mais um andar, e ele informou que a moradora era uma muçulmana que estava tendo problemas com bebida. “Ela sempre descarta garrafas”, comentou em voz baixa.
Então, a título de ilustração, rasgou o saco de lixo à porta da moradora e me mostrou as garrafas vazias: uísque Auld Stag e vinho Casper. Fez o mesmo com um saco num prédio do outro lado da rua. “Este aqui é o senhor Hassan, que está doente”, disse, remexendo dentro do saco plástico e puxando duas seringas usadas. “Acho que é diabético. Todo dia encontro duas seringas. Ele deve tomar uma injeção de manhã e outra à noite.”
A rota traçada por Sayyid se emaranhava por um labirinto de escadas de incêndio que subia por vestíbulos estreitos, saídas de emergência que mais pareciam chaminés. Vez por outra, uma escada dava para o topo de um edifício, de onde, duas quadras adiante, se podiam ver as águas cinzentas do Nilo. Zamalek é um bairro relativamente próspero do Cairo, que sempre cativou moradores estrangeiros, mas que também abriga muita gente de classe média e mesmo pessoas pobres, porque a lei que regula os aluguéis permite que alguns apartamentos não custem mais do que uns poucos dólares por mês. Resultado: são raras as melhorias feitas pelos proprietários, e os prédios velhos exalam uma espécie de glória decadente. Na minha rua, muitos edifícios foram construídos em estilo art déco, com saguões de mármore e belíssimas grades de ferro forjado nas sacadas. São comuns os apartamentos cuja porta da cozinha dá para a escada de incêndio, como o meu.
Às vezes, algum madrugador ouve Sayyid em atividade e abre a porta da cozinha para cumprimentá-lo e lhe oferecer uma xícara de chá. Certa manhã, eu estava com ele quando uma senhora de idade lhe deu quatro bifinhos de hambúrguer embrulhados cuidadosamente num saquinho plástico: eram para o almoço. No Cairo, onde muitos serviços básicos se desenvolveram na informalidade e a cultura da gorjeta é arraigada, as pessoas tendem a ser generosas com quem dá duro. Essa é uma das razões pelas quais Sayyid se veste tão mal: ele sabe que roupas sujas e folgadas têm maior probabilidade de despertar a generosidade das pessoas.
A informação que extrai do que é descartado o ajuda a interagir com os moradores. Além de recolher os sacos de porta em porta, ele também separa o lixo na rua, amontoando-o em pilhas que são retiradas por caminhões. Cumprimenta todo mundo que passa, pergunta pelo cônjuge, pelos filhos, e presta especial atenção a detalhes relativos à saúde. Durante sua ronda matinal, comenta se um morador está tomando injeções ou remédio, ou ainda se está usando fraldas. Se algo lhe parece particularmente digno de nota, abre o saco para me mostrar. Certa feita, parou num andar e me sussurrou que o morador era um libanês viciado em sexo. Depois, rompeu o saco de lixo, encontrou um frasco vazio e me pediu para ler o rótulo: Durex Play Feel Intimate Lube – um lubrificante de camisinha.
As conversas de Sayyid giram em torno das três forças fundamentais que movem o mundo, isto é, mulheres, dinheiro e lixo. Com frequência, as três apresentam-se intimamente ligadas. O pai de Sayyid nutria uma insaciável paixão por mulheres, e no começo foi isso que levou o filho a se tornar um zabal. Seu velho, que trabalhava como vigia nos arredores da cidade, embarcou numa série de casamentos e divórcios. Ao todo, teve nove esposas – ou dez, contando o breve casamento com a mulher cristã que precedeu a mãe de Sayyid. Ninguém parecia saber quantos filhos ele havia tido, mas, em todo caso, eram muito mais do que era capaz de sustentar. Morreu quando Sayyid tinha 6 anos. O menino nunca frequentou escola, nem sequer por um dia, e aos 11 anos já trabalhava em tempo integral como ajudante de zabaleen.
Apesar da infância difícil, fala dos pais com carinho. Em sua aldeia ao norte do Egito, as pessoas ainda se lembram do pai dele quase como um mito. Dizem que, em seu coração, era um árabe de verdade, um beduíno, e que, como um homem do Saara, estava fadado ao desassossego. Também deixam claro que não computam a esposa cristã.
Sayyid acabou encontrando trabalho como ajudante de um chamado Salama, cuja vida como catador também foi inspirada por um grande número de mulheres. No caso de Salama, ele teve apenas uma esposa, mas ela deu à luz oito filhas e nenhum filho. “Ele nunca fez outra coisa na vida senão preparar suas filhas para o casamento”, contou-me certa vez Aiman, o marido da primogênita. Aiman é dono de uma pequena empresa de reciclagem e, como muitos zabaleen, tem um apelido: Aiman, o Gato. Do sogro, disse: “Tem gente que constrói prédios. Ele construiu filhas.” Quando Salama morreu, não deixou nenhum filho homem para herdar seu itinerário de coleta, e ele foi repassado a Sayyid, que tem permissão para recolher o lixo, mas deve separar papel, plástico, vidro e outros materiais passíveis de revenda, e entregar a Aiman, o Gato.
Não existe contrato formal entre eles, mas não importa, uma vez que a coleta de lixo no Cairo foi moldada pela tradição, e não por leis ou planejamento. O sistema teve início no começo do século XIX, quando um grupo de migrantes chegou de Dakhla, um oásis distante no oeste do país. Eles ficaram conhecidos como wahiya – “o povo do oásis” – e pagaram aos proprietários de prédios no Cairo pelo direito de catar o lixo e cobrar uma taxa dos inquilinos. Naquele tempo, boa parte do lixo era inflamável, e os wahiya o utilizavam como combustível nos carrinhos de rua em que faziam e vendiam ful – feijão frito, muito importante na culinária egípcia.
Como não podia deixar de ser, a população da cidade cresceu a uma taxa que perturbou o delicado equilíbrio entre lixo e feijão. Nas décadas de 1930 e 40, uma nova onda de migrantes começou a chegar, oriunda de Assiut, no Alto Egito. Eram cristãos coptas, o que significava que podiam criar porcos, e os porcos comiam o lixo orgânico. Os cristãos foram subcontratados pelos wahiya muçulmanos, que se transformaram em intermediários e passaram a cuidar apenas do acesso ao lixo e da cobrança de taxas. O transporte e a triagem de fato eram feitos pelos cristãos, que ficaram conhecidos como zabaleen e cuja renda provinha em grande parte da venda de carne de porco, sobretudo para os hotéis de turistas.
O governo não desempenhou nenhum papel na implantação do sistema, que funcionou muitíssimo bem. Cientistas sociais com frequência o mencionam como uma história de sucesso entre as megacidades do Terceiro Mundo e, em 2006, um artigo da Habitat International o descrevia como um dos sistemas “mais eficientes do mundo de reciclagem de recursos”. Estimava-se que os zabaleen reciclavam cerca de 80% do lixo coletado.
Mas esse sistema se tornou vítima do mau funcionamento político nacional sob o governo de Hosni Mubarak. Em 2009, durante a epidemia mundial da gripe suína H1N1, o Ministério da Agricultura decretou que todos os suínos do país deveriam ser sacrificados. Não havia nenhum indício de que estivessem disseminando a doença, mas o governo foi irredutível e chegou a abater 300 mil animais. Alguns egípcios acreditam que a decisão foi motivada pelo desejo de apaziguar os islamistas, que agora criticavam o regime às claras e que, supostamente, detestavam os porcos ainda mais do que detestavam Mubarak. Mas o tiro saiu pela culatra, porque centenas de zabaleen furiosos puseram-se a protestar. Além disso, passaram a jogar lixo orgânico nas ruas, porque sem os porcos ele não valia nada. O declínio das condições de higiene na capital e a agitação dos zabaleen contribuíram para o descontentamento geral que culminou na revolução de janeiro de 2011.
Para Sayyid, nada disso é exótico ou incomum – nem o povo do oásis, nem os criadores itinerantes de porcos nem a matança digna do Êxodo promovida por um regime moribundo. Ele não vê nada muito complexo nas relações que precisa administrar para ter acesso à coleta. Em Zamalek, ele apanha o lixo de 27 edifícios, atividade subempreitada de sete pessoas diferentes. Um deles é Aiman, o Gato, o zabal cristão; os outros são wahiya conhecidos por apelidos como “Besta” ou “Raposa”. Raposa permite a Sayyid cuidar de sete prédios; Besta lhe concede um único. Outro wahi já morreu faz uma década, mas o filho dele, um funcionário do governo, retém o direito ao lixo, que subempreita para Sayyid. Há outro wahi morto que deixou uma viúva, à qual Sayyid é obrigado a pagar 100 libras egípcias por mês, em torno de 14 dólares. De tempos em tempos, ele se certifica de que ela ainda está viva; jamais pensaria em enganá-la, por respeito ao elo sagrado entre as mulheres e o lixo.
Sayyid guarda de memória toda essa intrincada rede, além das gorjetas mensais de mais de 400 pessoas. Está sempre em busca de alguma informação adicional que possa lhe render um dinheirinho. Alguns anos atrás, tarde da noite, viu a filha de um porteiro voltando da faculdade com um rapaz. Acreditando-se a sós, os dois jovens se beijaram. “Como já comi com o pai e a mãe dela, não gostei do que vi”, ele me disse. “Por isso, contei ao pai.” Sem dúvida, pensou que a gratidão do porteiro lhe traria algum benefício, mas calculou mal. A filha negou tudo, e o porteiro proibiu Sayyid de recolher o lixo do prédio. Ele então recorreu ao proprietário do H Freedom e ao homem da banquinha de pão, para que intercedessem, mas isso só serviu para convencer o porteiro de que a história estava se espalhando. O direito ao lixo foi transferido para outro zabal, e agora Sayyid diz que deveria ter cuidado da própria vida.
É raro que os zabaleen sigam na função até a meia-idade, e Sayyid, que tem 40 anos, já sente uma dor crônica nas costas e nos joelhos. Sua expectativa é de que, em uma década, ele não terá mais condições de continuar na ativa, embora não saiba o que fará depois. Com frequência, ele se descreve como burro, capaz apenas de realizar o trabalho de uma mula. Mas, na verdade, sua atividade requer atenção e perspicácia, e ele precisa interagir com a totalidade da sociedade egípcia. Em especial, precisa ser delicado com os cristãos, que dominam o mercado. A primeira vez que fui com ele a seu bairro, para assistir a um jogo de futebol na casa de outro zabal, Sayyid me instruiu, listando coisas que eu poderia ou não dizer, a fim de evitar que eu ofendesse a sensibilidade cristã do anfitrião.
Certa noite, ele passou em casa para bater papo. Minha mulher, Leslie, e eu começamos a falar de uma vizinha rica e sabidamente muquirana. É uma mulher de meia-idade, bem educada, mas que nunca se casou. Perguntei a Sayyid por quê. “Tem um provérbio”, ele explicou, “que diz: ‘Se você fica amigo de um macaco por causa do dinheiro dele, amanhã o dinheiro acaba, mas o macaco vai continuar sendo um macaco.’ Foi o que aconteceu. Ninguém quis se casar com ela.” Comentei que a mulher era obesa, mas Sayyid fez que não com a cabeça. “Era bonita”, disse. “Vi fotografias dela de quinze ou vinte anos atrás. Era muito diferente, linda!” “Onde você viu essas fotos?” “Ela jogou fora”, ele respondeu. Perguntei por que ele achava que ela tinha feito aquilo. “Talvez não quisesse se lembrar daquele tempo”, sugeriu calmamente. “Vai ver que ficava triste ao contemplar as fotos.”
O próprio Sayyid se casou tarde para os padrões egípcios. Aos 29, arranjou com uns vizinhos de se casar com a prima deles, uma moça de 18 anos chamada Wahiba. Ela era de uma aldeia nos arredores de Assuã, no Alto Egito, e tinha estudado: frequentara uma escola de comércio depois de sair do colégio. Mudou-se para o Cairo para morar com Sayyid, e os dois logo tiveram dois filhos e uma filha.
Uma semana depois do nascimento da filha, Sayyid nos convidou – a mim e a Leslie – para a tradicional cerimônia de boas-vindas ao recém-nascido. Pegamos um táxi e, depois, um micro-ônibus para Ard al-Liwa, uma região no norte da cidade que abriga uma série de ashwa’iyat, ou assentamentos “informais” – favelas construídas ilegalmente. O assentamento de Sayyid é dominado por zabaleen, e caminhamos por vielas estreitas, cheias de lixo tirado manualmente.
Havia sacolas de garrafas de vidro, pilhas de trapos velhos, caixas repletas de plástico esmagado e montes de legumes apodrecendo que seriam dados às cabras. Num determinado ponto, um sujeito tinha posto para secar dezenas de pedaços de pão que coletara e que, depois, daria de alimento a um búfalo. Por toda parte ouvia-se o barulhinho de ratos caminhando pelo lixo. As casas, porém, eram de tijolo e concreto, relativamente bem construídas. De modo geral, é o que se pode dizer de toda a cidade, onde cerca de dois terços da população mora em ashwa’iyat. David Sims, um urbanista que escreveu o livro Understanding Cairo, já observou que as favelas da capital possuem uma funcionalidade e uma durabilidade que são raras em muitos países em desenvolvimento.
Antes de conhecer a casa de Sayyid, eu imaginava que o grosso da mobília provinha do lixo. Em Zamalek, ele vive me mostrando objetos descartados que ainda possuem algum valor; certa vez, disse que o pão que eu jogara fora no dia anterior ainda estava bom: ele o salvara do meu lixo e fizera sanduíches para alguns amigos do H Freedom. Assim, fiquei surpreso ao constatar que praticamente tudo em sua casa de dois andares era novo e, pela primeira vez, percebi a competência de Sayyid em obter gorjetas. Normalmente, ele ganhava quase 500 dólares por mês, o dobro da renda média usual no Cairo, e sua casa custara mais de 30 mil dólares. Tinha dois aparelhos de televisão, e os sofás ainda estavam envoltos no plástico da fábrica. Um computador estava sendo instalado para o filho mais velho, Zizou.
Ao entrar, fomos recebidos por Wahiba, o que constituiu outra surpresa. Ela era muito bonita, tinha a pele clara, um rosto em forma de coração e maquiara os olhos com sombra azul e delineador. Esbelta, vestia uma túnica branca comprida bordada com contas. Era difícil acreditar que uma semana antes havia dado à luz seu terceiro filho. Cumprimentou-nos calorosamente, e conversamos um pouco. Depois, muito educada, pediu licença. Em minutos reapareceu envolta num nicabe, o véu usado pelas muçulmanas conservadoras que cobre toda a cabeça.
Depois disso, nunca mais avistei seu rosto. Nos dois anos seguintes, visitei Sayyid algumas vezes, mas Wahiba não se fazia ver. Ficava na cozinha, a portas fechadas, preparando um chá ou o jantar, que me era servido pelo próprio Sayyid ou por uma das crianças. As poucas vezes em que a vislumbrei, ela estava de nicabe, e nunca mais tivemos outra conversa. Naquela primeira visita, eu a apanhara de surpresa, e era estranho lembrar aquela primeira e única visão. Quanto mais fui conhecendo Sayyid, menos eu julgava conhecer sua esposa, tanto mais misteriosa ela se fez.
Não muito tempo depois daquela cerimônia, tensões começaram a perturbar o casamento de Sayyid. É verdade que ele sempre trabalhara muitas horas por dia em Zamalek, mas agora parecia adiar a volta para casa, muitas vezes retornando já perto da meia-noite. Queixava-se das brigas com Wahiba, sobretudo por causa de dinheiro. De vez em quando, mencionava a possibilidade de divórcio, pouco estigmatizado entre os muçulmanos egípcios do sexo masculino. Um de seus irmãos mais velhos havia se divorciado pela segunda vez fazia pouco tempo e agora buscava sua terceira esposa. “A gente fica com uma mulher por um tempo e depois troca”, o irmão me dissera ao nos conhecermos na cerimônia na casa de Sayyid. “É como trocar o pneu de um carro.”
Sayyid e quase todos os irmãos nasceram no Cairo, mas, como muitos habitantes da capital, eles mantêm vínculos fortes com a aldeia ancestral, fonte da maioria de suas ideias sobre família. Na aldeia de Sayyid, boa parte das mulheres usa o nicabe, por razões que parecem mais culturais do que estritamente religiosas. Para os homens, é uma questão de orgulho e de posse – Sayyid diz que sua mulher usa o nicabe porque é bonita e, se mostrar o rosto, vai ser cobiçada e assediada por estranhos. Outras tradições pressupõem um controle mais explícito sobre as mulheres. Uma noite, ele e eu observávamos minhas filhas gêmeas brincando no jardim, quando ele me perguntou en passant se eu pretendia circuncidá-las. Olhei para as meninas – elas tinham 3 anos – e disse que não, não estava em nossos planos.
A maioria das mulheres egípcias submete-se à operação, que os oponentes descrevem como mutilação genital. Ela se tornou ilegal a partir de 2008, mas muitos pais ainda circuncidam as filhas, em geral entre os 9 e os 12 anos. No Egito, os islamistas são os grandes defensores desse procedimento, que, entre outras coisas, torna a relação sexual menos prazerosa para as mulheres. Contudo, essa tradição não é mencionada no Corão, e muçulmanos da maior parte do mundo não a praticam. Na origem, tratava-se de um costume de tribos de muitas partes da África.
Perguntei a Sayyid se ele pretendia submeter a filha à cirurgia, e ele assentiu com a cabeça. “Senão as mulheres ficam doidas por dakar”, ele disse, empregando a palavra que significa homem. “Vão sair por aí à cata de homens.”
Trata-se de uma visão comum entre os egípcios de pensamento conservador: o desejo deve ficar restrito aos homens, que se empenham em intensificá-lo. Todas aquelas drogas para melhorar o desempenho sexual encontradas nos lixos de Zamalek não constituem uma anomalia – no Egito, tive uma série de conversas fortuitas que, quando derivavam para o sexo, levavam o interlocutor a retirar do bolso um comprimido, prova de que estava precavido. Na maioria das vezes, é algum tipo de Viagra, mas, no meio de Sayyid, a droga preferida costuma ser o tramadol, um analgésico cuja compra demanda receita médica. Versões baratas são produzidas na China e na Índia. Em 2012, o Escritório das Nações Unidas para as Drogas e o Crime estimou existirem no Egito 5 bilhões de comprimidos de tramadol, um número inacreditável para um país de 84 milhões de habitantes.
Muitos dos zabaleen que conheço são adeptos do remédio. Podendo ser comprado na rua por 30 ou 40 centavos de dólar, o tramadol alivia a fadiga e a dor de um dia duro de trabalho. Só que ele também vicia. Nos Estados Unidos, onde seu uso indevido está aumentando, o tramadol passou recentemente a ser classificado como substância controlada. No ano passado, um zabal das minhas relações me procurou em busca de ajuda para largar a droga. Seu aspecto era terrível: suava profusamente e seus olhos moviam-se sem parar de um ponto a outro. Eu sabia que ele era um cristão devoto e, portanto, fazendo o melhor que pude, recomendei duas coisas: rezar muito e ingerir um bocado de cafeína. Não creio que tenha sido hipocrisia de minha parte – faço uma dessas duas coisas religiosamente –, mas me senti impotente. Fiquei aliviado quando, um mês depois, o zabal veio me dizer que tinha se livrado do vício.
Em janeiro, fui com Sayyid visitar a aldeia de sua mãe, nas cercanias de Beni Suef, no Alto Egito. Antes de viajar, ele embalou com cuidado cinco comprimidos de tramadol, de presente para o tio, um fazendeiro que nunca experimentara a droga – Sayyid queria lhe dar um gostinho da vida na cidade grande. Mas nunca tive a impressão de que ele próprio corria o risco de ficar viciado, porque usa tramadol sobretudo para o sexo. Na verdade, a droga não funciona como o Viagra, mas muitos egípcios parecem acreditar que sim. E certo número de usuários afirma que o tramadol, que retarda o orgasmo, também intensifica as sensações.
Às quintas-feiras, Sayyid costuma me mostrar sorrindo os comprimidos para o fim de semana. Mesmo depois que irromperam os conflitos com a mulher, ele às vezes tomava um tramadol antes de voltar para casa, tarde da noite, na própria quinta-feira, o que não me parecia a melhor estratégia para lidar com uma crise conjugal. E eu me punha a pensar sobre a dinâmica social em certos lares egípcios, a combinação de maridos ingerindo comprimidos para melhorar o desempenho sexual e mulheres circuncidadas e confinadas em casa.
Depois que Sayyid e Wahiba começaram a brigar, ela, em segredo, procurou uma repartição governamental e registrou a casa dos dois no nome dela. Quando Sayyid ficou sabendo disso, as brigas se tornaram mais furiosas, e uma das irmãs dele, também moradora de Ard al-Liwa, se envolveu na confusão. Em certo momento, Wahibae alguns de seus parentes quiseram tirar satisfação com a irmã de Sayyid no meio da rua, e a briga tornou-se física; o olho da irmã foi ferido com tamanha gravidade que ela precisou passar por uma cirurgia. Depois, Wahiba expulsou Sayyid de casa e trocou as fechaduras. Para completar, foi à Justiça e entrou com três processos contra ele, um deles para pagamento de pensão alimentícia.
A mulher também enviava uma série de mensagens de texto para o celular de Sayyid. À noite, ele dormia no chão da garagem de um prédio na minha rua, cujo acesso um porteiro lhe franqueara. Sempre que recebia uma mensagem, tinha de correr ao H Freedom, onde esperava, arrasado, até o proprietário ler em voz alta coisas como:
Ontem, você não brigou por mim. Pois vou brigar eu mesma, e você vai ver o que vou fazer.
Ah, quer o divórcio? Vou levar tudo o que tenho direito, seu puto, e as pessoas vão ver você.
A casa não é sua, seu ladrão, e você voltou para mim feito um cachorro, como eu queria que você fizesse, e vou te mandar embora quando quiser.
À medida que a briga piorou, cada um recorreu a sua arma principal. No caso de Sayyid, era o dinheiro: ele parou de dar dinheiro vivo à mulher, que foi forçada a pedir ajuda aos parentes. No caso de Wahiba, sua arma eram as palavras. Ela tomava como alvo o analfabetismo do marido e lhe enviava mensagens que sabia que se tornariam públicas e arruinariam a reputação dele em Zamalek. E, obrigando-o a ir à Justiça repetidas vezes, forçava-o a se meter no mundo hostil dos autos e das repartições públicas. Certa manhã, acompanhei-o ao escritório de impostos imobiliários, onde ele tentava conseguir a papelada necessária para contestar o direito da mulher à casa. Por mais de duas horas, ele foi de andar em andar, de sala em sala, deparando-se com funcionários que lhe dirigiam frases que eram pedidos cifrados de propina. “Quero beber um chá”, disse um deles, e Sayyid lhe deu 20 libras. “Estou com uma coceira”, disse outro, e Sayyid lhe deu 5. “Preciso de alguma coisa para acelerar o processo”, disse um terceiro, e Sayyid puxou outra nota.
Nada disso parecia surpreendê-lo ou mesmo irritá-lo. Mas Sayyid desconhecia por completo a noção de governo como prestador de algum serviço positivo. Não frequentara escola, morava num ashwa’iyate não tinha nem seguro-saúde nem garantia de trabalho. Seu único contato significativo com o Estado tinha sido a convocação para o Exército, na década de 90. Como todos os convocados sem instrução, servira três anos, em vez do único ano obrigatório aos escolarizados. Mas esse serviço ampliado é, efetivamente, um castigo, e não uma oportunidade para resolver o analfabetismo epidêmico do Egito. Durante seu tempo como soldado, o Exército não lhe ofereceu uma única aula de alfabetização básica. Sayyid passou três longos anos montando guarda em Port Said com um fuzil apoiado no braço.
Para os líderes da revolução, boa parte deles das classes média e alta, a experiência de um sujeito como Sayyid exemplifica à perfeição a necessidade de uma mudança radical. Mas, a partir de certo ponto, a pessoa está tão fora do sistema formal que não tem interesse em modificá-lo. Sayyid nunca deu muita bola para os protestos na praça Tahir e, como boa parte dos egípcios, tende a apoiar quem quer que pareça popular em dado momento. Em 2012, para presidente votou em Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana; dois anos depois, votou em Abdel Fattah el-Sisi, o general que depôs Morsi à força.
A cada troca de liderança no país, novas promessas de reforma dos serviços públicos. Depois de ganhar as eleições, Morsi fez da reforma do lixo o ponto central de seu programa de “100 dias”, mas nada aconteceu. Desde o golpe militar, outras mudanças propostas tampouco tiveram sucesso. O governo é fraco e incompetente há tanto tempo que as pessoas se acostumaram às alternativas. Os serviços informais nem sempre funcionam bem, mas funcionam bem o bastante para que as coisas sigam caminhando. E, quando o governo atua, sua tibieza muitas vezes o faz acompanhar essas instituições informais, sem lhes acrescentar nada de grande valor. No ashwa’iyat, o governo em geral chega depois que os moradores já conseguiram acesso ilegal a água, esgoto e energia elétrica. Tudo que o Estado faz é instalar medidores para começar a cobrar pelo serviço.
A coleta de lixo segue padrão semelhante. A principal falha do serviço informal sempre foi sua intermitência em áreas pobres da cidade, onde falta aos zabaleen motivação para trabalhar, porque as gorjetas são pequenas e o lixo contém menos coisas de valor. Em 2003, o governo de Mubarak ofereceu contratos de quinze anos para companhias estrangeiras de gestão do lixo que, em teoria, atenderiam à maior parte dos bairros, valendo-se dos wahiyae zabaleen já existentes, aos quais pagariam salários justos. O plano, contudo, contava com menos recursos do que o necessário, e a cultura do sistema informal era demasiado complexa, estava entranhada demais para que as companhias estrangeiras lograssem navegar por ela.
O desastroso abate dos porcos e a instabilidade pós-revolucionária só pioraram as coisas. Hassan Abu Ahmed, um porta-voz do Escritório de Limpeza e Embelezamento do Cairo – o órgão do governo encarregado de cuidar do lixo –, disse-me que as empresas estrangeiras realizam apenas 50% ou 60% dos serviços prometidos nos contratos. Mas disse também que o governo deve a essas empresas dezenas de milhões de dólares, porque a economia entrou em colapso em consequência da revolução.
A limpeza da zona do Cairo em que moro é feita nominalmente por uma firma italiana chamada AMA Arab Environment Company. No começo do verão, quando me encontrei com Ahmed Assan Ahmed – o gerente de projeto da AMA Arab –, ele me pareceu exausto. Disse que o governo devia à empresa quase 30 milhões de dólares e que tinha acabado de passar uma semana lidando com uma greve dos lixeiros no norte da cidade. Recentemente, um de seus empregados tinha sido esfaqueado nos pulmões, depois de invadir o território de um zabal. “Se você entrar na área de um zabal e pedir o lixo dele, vai levar um tapa na cara”, contou-me Ahmed. Sua empresa implantou em certas regiões do Cairo coletas regulares feitas por caminhões, mas, em termos do serviço porta a porta, a principal mudança foi o acréscimo de uma nova camada de intermediários.
Na minha rua, o governo terceiriza a coleta para a companhia italiana, que a repassa a um wahi chamado Osama Apricot, que a repassa a Aiman, o Gato, que, por fim, a repassa a Sayyid. O bizarro é que os pagamentos se movem em direções opostas ao longo dessa cadeia: no topo, o governo paga os italianos em dinheiro, ao passo que, lá embaixo, Sayyid paga Aiman, o Gato, em lixo reciclável. Parece um milagre que tanto resíduo seja de fato coletado, e que as pessoas no nível mais baixo participem com tanto vigor desse sistema capenga. Contudo, baixas expectativas são, como o lixo, um recurso de que o Egito dispõe em grande abundância. “A beleza da coisa toda é que o lixo não custa nada”, Sayyid me disse certa vez, com alegria. “Você simplesmente recolhe e é pago por isso!”
Sayyid passou o inverno dormindo no chão da garagem. Duas ou três vezes, usou meu chuveiro e, de tempos em tempos, um porteiro permitia que ele se aquecesse num aposento dotado de calefação. A maior parte do tempo, porém, ele tinha um aspecto cansado, sujo, infeliz. Por fim, um vizinho em Ard al-Liwa organizou uma reunião tradicional de reconciliação com a presença de membros das famílias de Sayyid e Wahiba. Na reunião, o vizinho deu um conselho a Sayyid: “Se sua esposa lhe pedir uma moedinha, dê duas.” “E por que eu deveria dar duas moedas a ela?”, Sayyid perguntou. “Porque um homem com três já vai estar diante da sua porta.”
Depois disso, Sayyid ficou otimista. Quando perguntei como sua irmã e Wahiba haviam se comportado na reunião, ele manifestou surpresa. “Elas não estavam lá”, respondeu. “Mulheres não podem participar dessas reconciliações.” Explicou, então, que era impossível controlá-las em situações daquele tipo. E completou: “Elas têm a língua comprida, começam a xingar. Ia dar briga.”
Logo ele voltou a receber mensagens de texto – Você vai se divorciar de mim com as pernas cruzadas acima da cabeça –, e ficou claro que a reunião puramente masculina de reconciliação não tinha conseguido acalmar a raiva daquela mulher. No último dia de janeiro, Sayyid procurou um advogado que conhecia em Ard al-Liwa, e eu fui junto, acompanhado de um intérprete.
O escritório do advogado ficava numa das áreas mais sujas da região. Enquanto seguíamos nosso caminho por entre pilhas de material orgânico em processo de decomposição, Sayyid me explicou que os zabaleen vinham despejando aquele lixo ali desde o grande massacre dos porcos de 2009. Contudo, o escritório em si era bem-arrumado. Uma fileira de obras jurídicas de capa dura alinhava-se na estante, atrás da mesa do advogado, que dispusera quadrinhos de conteúdo religioso por toda a sala: “Que as bênçãos estejam com o Profeta”, ou “Não existe outro Deus senão Deus”. O advogado era um homem baixinho e sem pescoço, que se inclinava para a frente ao falar, os ombros na altura das orelhas, como se pronto a se lançar de cabeça contra qualquer obstáculo. Seus olhos se arregalaram quando Sayyid lhe mostrou uma das mensagens de texto no celular.
“Ela chamou você de puto!”, exclamou o advogado. “Se fosse minha mulher, juro por Deus que eu teria dado um tiro nela. BUM, juro!” Depois, balançou a cabeça e, apontando para alguns documentos que Wahiba enviara à Justiça, continuou: “A lei não tem coração. Tem cérebro, e seu cérebro são os papéis. Este papel aqui diz que ela não pode viver com você, que não te suporta.” Sayyid respondeu: “Até aí, isso não me faz querer humilhar ela.” “Sayyid, você a ama!”, disse-lhe o advogado, advertindo-o seriamente de que ele estava sendo mole. “Veja isto aqui!”, exclamou, erguendo outra folha de papel. “Não sei ler”, disse Sayyid. “Ela está xingando você com palavras feias! Ela escreve essas coisas, olhe aqui!” “Não sei ler”, ele repetiu. “Ela está xingando você!”, tornou a dizer o advogado. “Entrou com três processos. Cada um deles é uma espécie de quebra-molas. O objetivo dela é ou impedir que você siga adiante ou, caso vá em frente, impedir você de trabalhar.”
E prosseguiu, dizendo que, se Sayyid não brigasse com a mulher na Justiça, ela ficaria com tudo. Sayyid parecia acabado, tinha olheiras e, como estava vindo diretamente do trabalho, vestia roupas sujas. Mas o advogado foi hábil. Com calma, começou a fazer perguntas e extrair detalhes de seu cliente. De vez em quando, brandia um documento e o depositava diante dele, que dizia sempre a mesma coisa: “Não sei ler, não sei ler.” Depois de algum tempo, Sayyid mencionou que recentemente a esposa tinha começado a trabalhar numa tecelagem. O rosto do advogado se iluminou.
“Qual o endereço da tecelagem?”, perguntou. “É só você me dizer que eu mando prender sua mulher! Aqui diz que ela não trabalha”, ele brandiu um documento. “Veja você, a lei é linda! Podemos enviar um recado ao gerente da tecelagem: ou ele demite a funcionária ou nos fornece uma prova de que ela está empregada.” “Ela vivia me pedindo para trabalhar”, disse Sayyid. “Falei para ela que, quando eu morrer, ela pode trabalhar.” “Então ela pediu permissão para trabalhar?” “Pediu, mas eu sou alguma criança, por acaso?”, disse Sayyid. “Eu posso trabalhar, minha esposa não precisa fazer isso.”
“Você não acreditaria nos casos que me aparecem”, comentou o advogado, pondo-se a descrever a história de uma cliente cuja mãe andara flertando com o próprio genro. “É da televisão que as pessoas tiram essas ideias”, observou. “Sua esposa é do Alto Egito, está acostumada a ficar atrás de vaca”, prosseguiu. “Aí, vem para o Cairo, vê televisão, vê gente dançando e quer aquilo tudo.” “Tenho duas tevês”, informou Sayyid, com orgulho. “É nossa obrigação ensinar a ela”, disse o advogado. “Quando a gente tem uma vaca agressiva, o que é que faz? Enfia um anel no nariz dela.”
Em seguida, notou que Wahiba havia contratado uma advogada, uma mulher, o que, na opinião dele, era uma estratégia astuta para intimidar o juiz – segundo seu palpite, seria alguém formado na Universidade de Al-Azhar, a mais prestigiosa instituição islâmica no mundo árabe. “Quando essa advogada se dirigir ao juiz formado na Al-Azhar, ele vai olhar para o chão”, explicou. “Vai ficar tímido, sem saber o que fazer. Sua esposa vai dizer: ‘Ele abusou sexualmente de mim, fez isso, fez aquilo!’ E o juiz vai dizer: ‘Basta! Basta!’ Porque é muito tímido. Mas, se eu estiver lá, vou pôr as coisas nos devidos lugares.”
O advogado ainda explicou que, por lei, Wahiba precisava ter a permissão do marido para trabalhar, porque seus documentos a descreviam como dona de casa. E evocou o direito islâmico: “De acordo com a sharia, a mulher é um ovo”, disse. “Digamos que você tenha dez ovos. Onde vai guardar esses ovos? Vai deixá-los por aí? Não, você poria os ovos num lugar adequado, na geladeira. O lugar das mulheres é em casa. Se o marido concordar, elas podem sair, mas é só.”
Quando Sayyid entrou naquele escritório, ele parecia próximo das lágrimas. Mas a confiança do advogado era contagiosa e, ao final da reunião, Sayyid sorria. O advogado lhe disse que era importante ele não pedir o divórcio. Se Wahiba fosse obrigada a fazê-lo, ela levaria uma parte bem menor dos bens. Sayyid foi também advertido a não contar a ninguém a estratégia que usariam. “Mantenha esse segredo atrás dos dentes”, disse. “Foi para isso que Deus fez sua boca do jeito que ela é!”
Durante todo o conflito, vi Wahiba uma vez só. Fui com Sayyid à Vara da Família, onde as duas partes prestaram depoimento. Sayyid vestia roupas bem sujas, porque o advogado lhe dissera que parecer pobre aumentaria suas chances em exatos 15%. Wahiba chegou com sua advogada, com a mãe, a cunhada e os três filhos pequenos a reboque. Vestia um nicabe preto e usava luvas. Sayyid e eu fomos instruídos a esperar em outra sala, enquanto ela depunha. Na noite anterior, ela havia enviado a ele o seguinte texto: Vou depor sob juramento e destruir você.
Sempre gostei de conversar com Sayyid, sobretudo por seu olho para os detalhes. Mas notei que ele raras vezes comentava alguma coisa específica sobre a mulher. Era louca, ele vivia me dizendo, e a mente dela era “uma fechadura” – uma imagem que usa para descrever ignorância e teimosia. Às vezes, porém, eu me perguntava se ela não era quase tão misteriosa para ele como era para mim. Nas palavras dele, Wahiba era uma folha em branco, tão desprovida de rosto como uma figura envolta numa mortalha. Toda a habilidade que ele mostrava em Zamalek – suas perspicácia e maleabilidade, sua capacidade de interagir e tratar com pessoas tão diversas – parecia evaporar quando ele precisava lidar com a mulher. Ela era simplesmente assustadora. E, do ponto de vista masculino, isso parecia verdade em relação às mulheres egípcias em geral, quer estivessem brigando, caçando dakar ou intimidando juízes formados na Al-Azhar.
Nunca fiquei sabendo o que havia deixado Wahiba tão furiosa. Sayyid culpava o dinheiro, o que parecia improvável. Dois ou três vizinhos dele me disseram que o problema de fato era que Sayyid passava tempo demais em Zamalek, cultivando suas relações, enquanto Wahiba ficava presa no ashwa’iyat com três crianças pequenas. Mas era impossível saber ao certo, assim como foi impossível saber por quê, de repente, ela desistiu dos processos. Depois de todos os advogados e depoimentos, de todas as mensagens ameaçadoras, no último minuto ela recuou. Decidiu não pedir o divórcio e largou o emprego na tecelagem. E Sayyid voltou para casa, em Ard al-Liwa, como se nada tivesse acontecido.
Em 2013, depois que Morsi foi deposto e os militares retornaram ao poder, uma amiga minha comentou que aquilo tudo parecia uma revolução, “no sentido de uma trajetória circular”. E explicou: “Você volta para o ponto de onde partiu.” Quanto mais eu vivia no Egito, mais sentia a presença de alguma frustração indefinida, sem um direcionamento que motivasse tudo, da política à vida doméstica. Ela não se limitava a certa classe. Eu ficava admirado com amigos da classe média e da classe alta que também tinham brigas familiares tão intensas como as de Sayyid. E, como ele, a maioria retornava quase inevitavelmente ao que lhe era familiar. Era mais uma declaração que uma exigência – as pessoas não conseguiam dizer o que queriam, mas apenas que alguma coisa parecia errada.
Seja como for, sobreviveram. O círculo seguiu girando. Toda manhã, o lixo desaparecia da escada de incêndio. À noite, Sayyid volta e meia vinha a meu apartamento para tomar uma cerveja e bater papo. Depois que ele ia embora, Leslie às vezes perguntava: “Como é possível que estejam juntos de novo?” Mas ele tinha um aspecto bem mais feliz e saudável do que no inverno. E voltara a tomar tramadol às quintas à noite, o que havia de ter algum significado.
