CRÉDITO: NARCISO HERNANDEZ
O mal das oficinas literárias
Não concebo a escrita como uma atividade ilustre, mas furtiva
Fabio Morábito | Edição 229, Outubro 2025
SCRITTORE TRADITORE
Aos 7 anos, eu me apaixonei por um colega da escola. Poderia ter me apaixonado por uma menina, mas, no meu colégio, meninos e meninas ficavam separados, então me apaixonei pela única menina que estava ao meu alcance, e esta era Massimo P., um menino tímido de feições delicadíssimas que não falava com ninguém. Era o primeiro dia de aula, estávamos no recreio e Massimo se aproximou para me pedir que amarrasse o cadarço do seu sapato. Parecia indefeso entre tantas crianças que gritavam correndo pelo pátio, e fiquei encantado com sua beleza e fragilidade. “Você parece uma menina”, eu disse, e ele, talvez acostumado a ouvir aquilo, limitou-se a sorrir. O recreio acabou e voltamos à sala de aula. Seu lugar ficava separado do meu por duas fileiras, ele não se virou para me olhar uma única vez e pensei que tinha se esquecido de mim. Então, chegou a hora da leitura. Cada um deveria ler em voz alta trechos de uma história do livro. Alguns meninos leram antes de o professor apontar para Massimo, que pôs o dedo no início do parágrafo e pronunciou a primeira palavra. Ou melhor, balbuciou. Na segunda palavra, voltou a travar, e também na seguinte. Lia tão mal que não conseguiu concluir a frase. O professor perdeu a paciência e pediu para que outro continuasse. Aceitei a triste realidade: Massimo P., apesar da sua aparência angelical, era um asno de marca maior. Então, chegou minha vez. Tomei uma decisão repentina: ler pior do que Massimo. Penso que, se tivesse feito isso, seria agora um homem melhor do que sou. Se existem episódios decisivos na infância, este foi um deles, porque depois de errar de propósito na primeira linha, percebi que não poderia continuar arruinando mais nenhuma palavra e desandei a ler com uma fluência que o professor aprovou com um gesto de admiração. Isso é que é ler bem, disse, e acho que foi aí que eu vislumbrei que minha vocação seria escrever livros, quase ao mesmo tempo em que conheci o sabor da traição. Sempre pensei que são duas vocações intimamente ligadas.
ROUBAR
Aos 13 anos de idade, eu roubava dinheiro dos meus pais. Todos os dias, surrupiava moedas suficientes para ir ao cinema, ao qual eu ia sempre sozinho, fugindo do clima asfixiante da minha casa. Ia à primeira sessão vespertina, quando a sala estava praticamente vazia. Não me lembro de nenhum filme, nenhum título, nenhuma imagem desfilando diante dos meus olhos. Creio que o sentimento de ser um ladrão me impedia de desfrutar o espetáculo, e procurava não olhar nos olhos da funcionária da bilheteria que – eu tinha certeza – adivinhava de onde vinha o dinheiro com que eu pagava a entrada. Quase não tinha amigos naquela época, meu desempenho no colégio havia caído vertiginosamente e o cinema era meu único alento. Roubava sempre no mesmo horário, depois do almoço, aproveitando a breve sesta dos meus pais. Minhas mãos tremiam ao fuçar nos bolsos do casaco do meu pai e no porta-níqueis da minha mãe. Reconhecia pelo tato as moedas de que precisava e levava somente a quantia exata para a entrada, nenhuma moeda a mais. Desconheço a repercussão que aqueles furtos tiveram na minha vida, e me pergunto se não influenciaram na minha inclinação literária, se a escrita não foi uma extensão deles, porque me concederam, junto com a vergonha e o remorso, uma tendência introspectiva que mais tarde me levou a ler muitos livros e também a escrever uns quantos. Não me arrependo, portanto, daqueles furtos.
Inclusive, penso que nas oficinas literárias deveriam ensinar a roubar pequenas quantias de dinheiro, pois quando escrevemos com intensidade estamos na verdade roubando, afanando dos bolsos da linguagem as palavras necessárias para aquilo que queremos dizer, apenas aquelas palavras e mais nenhuma outra. Ainda hoje, depois de tantos anos, costumo acordar bem cedo para escrever, quando todo mundo está dormindo. Não concebo a escrita como uma atividade ilustre, mas furtiva. Busco as moedas exatas para fugir do clima asfixiante de sempre. Como acordo bem cedo, meus amigos admiram minha disciplina.
COQUETEL DE BOAS-VINDAS
Aos 14 anos, passei férias pela primeira vez com minha família em um grande hotel. Enquanto seguíamos a estrada rumo a Acapulco, examinei o folheto do estabelecimento, que citava a frase “Coquetel de boas-vindas”, e imaginei uma recepção organizada em algum dos salões ou à beira da piscina para comemorar nossa chegada. Embora não ignorasse o verniz um tanto inverossímil da situação, ao rever as fotos do hotel, com seus enormes espaços e jardins, sua altura descomunal, seu clima asséptico e seus elevadores futuristas, concluí que as coisas ali obedeciam a uma lógica nova e surpreendente. Não que eu achasse que, à nossa chegada, um batalhão de funcionários correria para abrir o salão do térreo com vista para o mar, para estender dezenas de toalhas sobre as mesas, enquanto outro batalhão bateria nas portas dos quartos para convidar os hóspedes ao coquetel organizado em homenagem aos meus pais, meu irmão e a mim. Na verdade, supus que no salão com vista para o mar acontecia um coquetel contínuo e que, quando chegássemos, seríamos anunciados às pessoas ali reunidas, que fariam um cerco festivo à nossa volta, erguendo os copos e fazendo mil perguntas para nós. Talvez, quem sabe, os primeiros coquetéis de boas-vindas fossem realmente assim e acabaram se perdendo à medida que se tornou dispendioso manter uma recepção permanente, em que era necessário oferecer bebidas gratuitas ou a um preço muito baixo aos hóspedes encarregados de dar as boas-vindas aos outros. Talvez esses brindes tenham sido substituídos a princípio por um grupinho formado apenas pelo funcionário da recepção, o mensageiro que carrega as malas até o quarto e duas ou três camareiras, que brindavam às pressas em homenagem ao hóspede recém-chegado antes de voltar à lida. E acabaram sendo o que são agora: um drinque solitário à nossa espera no quarto, um trago triste que bebemos à beira da piscina ao lado de outros hóspedes tomando Sol entediados e que, como nós, no fundo esperavam outra coisa.
ESCREVER SEM ERGUER A CABEÇA
Tive um professor que lia histórias para nós enquanto caminhava pela sala de aula. Segurava o livro aberto na mão direita e guardava a esquerda no bolso da calça, que tirava para virar a página e, aproveitando o gesto, dava uns cascudos em quem estivesse conversando ou olhando pela janela. Se a infração fosse mais grave, interrompia a leitura, trocava o livro de mão e acertava com a direita uma pancada daquelas na cabeça do infeliz. Ainda o vejo em seu eterno traje cinza, puído de tanto uso, andando entre as carteiras. Sua maneira de segurar o volume aberto com uma das mãos, escondendo a outra no bolso da calça, me fez entender plenamente o que é um livro. A mão que batia, escondida no bolso, era a mesma com que ele virava as páginas com absoluta delicadeza. Aquele homem, cuja autoridade sobre nós era imensa, com um livro na mão sofria uma metamorfose e um abrandamento que chegavam a alterar seus gestos e sua voz. Assim, tornava-se palpável para nós a influência que um livro, esse objeto relativamente simples, pode ter sobre uma pessoa. A leitura não nos cativava tanto quanto a transformação do professor. Mas ninguém podia se considerar a salvo e, quando ele tirava a mão do bolso para virar a página, tremíamos de novo. A mão esperava alguns segundos, pronta para desferir um golpe sobre algum desavisado. Aquela pausa, muito breve se nosso verdugo estivesse imerso na leitura, aumentava perigosamente se a história fosse fraca. De certa forma, isso representou uma lição permanente da boa escrita, pois não tenho a menor dúvida de que uma boa história e às vezes apenas uma boa frase nos pouparam de golpes certeiros na nuca e no cocuruto. Deveríamos, portanto, escrever sempre assim: sob constante ameaça física, numa carteira desconfortável, com a cabeça baixa e rezando pela eficácia de cada frase. Mas hoje, infelizmente, na maioria das oficinas literárias ensinam a escrever sem medo e com a cabeça erguida.
GREGOR SAMSA
Ao acordar transformado em um inseto monstruoso, Gregor Samsa compreende que, no seu estado atual, com aquelas patinhas que brotaram de seus flancos e se agitam sem parar, chegará atrasado ao escritório. É a única coisa que o preocupa. Não fica chocado pelo fato de se encontrar metamorfoseado em um bicho repugnante, só o angustia não conseguir sair da cama para chegar pontualmente ao trabalho. É um dos momentos geniais da literatura. Kafka adia a reação de horror de Gregor Samsa, guarda-a para trazê-la à tona mais tarde, no momento oportuno, e quando descobre que não precisa dela, torna-se realmente Kafka. No quartinho modesto de Praga onde ambienta sua história, Kafka acaba de abrir uma porta de salvação para a literatura, que podemos chamar de supressão do grito. Ele desmantelou uma antiga fortaleza e ganhou um espaço novo para a subjetividade dos personagens. Essa subjetividade, isenta do grito, agora se desdobra em ramificações que permaneciam inexploradas. Gregor Samsa, o homem que não grita, renuncia a todos os laços com os outros, porque o grito é o último vínculo que nos une aos nossos semelhantes. Por isso, pode-se dizer que Samsa se transforma em um inseto porque não grita. Se tivesse gritado, é bem possível que a aterrorizante alucinação que o assalta nas primeiras horas da manhã tivesse evaporado. Em vez disso, Samsa prefere refletir. Cada nova reflexão solidifica sua metamorfose até torná-la real e irreversível. Ele se separa dos outros com base em reflexões. Por isso, em certo sentido, o tema profundo dessa fábula é a conversão de alguém em escritor, o consentimento à escravização que as palavras implicam, a assustadora imobilidade daqueles que escolhem transformar o grito em especulação, que é, em essência, a sina do escritor, pois toda história nasce de suspender uma exclamação de horror ou de assombro, e ali, na clareira momentaneamente aberta pela ausência do grito ou do choro, lançar umas palavras antes que a expectativa geral expire.
ANNA KARIÊNINA
Deitei na cama e botei uma compressa quente nas costas. Eu precisava ficar imóvel por 20 minutos, estiquei o braço até a estante e o primeiro livro que alcancei foi Anna Kariênina. Ainda não tinha lido. Decidi folhear as primeiras páginas enquanto a compressa fazia efeito e, quando o calor se dissipou, eu já havia lido mais de quarenta. Coloquei o livro de volta no lugar. Só fui me lembrar dele no dia seguinte, quando apliquei outra compressa. Estiquei a mão, abri o livro e continuei lendo. Eu não pretendia ler um tijolão daqueles, mas não queria ficar olhando para o teto, e cheguei à página 80 quando o calor da compressa se dissipou. Pus o livro de volta no lugar. Oitenta páginas eram uma boa amostra para me dar uma ideia do todo. Disse a mim mesmo que poderia ler as 870 páginas do livro num futuro não muito distante, quem sabe dentro de alguns meses. Três dias depois eu estava na sala de espera do dentista e, nas prateleiras de revistas, havia um único livro grosso: Anna Kariênina. Peguei o volume e retomei a leitura do ponto em que havia interrompido. Era outra tradução, com um estilo mais rebuscado. O médico me fez esperar uma hora e meia, durante a qual avancei até a página 160. Disse “avancei” porque eu não estava lendo Anna Kariênina, mas sim preparando o ambiente para lê-lo num futuro mais ou menos próximo. À medida que devorava cada página, eu estava apenas tateando o terreno. Isso não significa que as devorava de modo distraído, mas que eu me continha quanto a emoções e pensamentos. Pensava comigo: há indignação aqui, isso é para rir, aquilo é para se emocionar, mas eu não me indignava, não ria nem me sentia comovido, porque não estava lendo. É verdade que às vezes eu me deixava levar pelos acontecimentos e precisava dizer a mim mesmo: calma, é só um ensaio. Uma união de vários fatores fez com que, em questão de três semanas, entre aplicações de compressas e visitas ao dentista, eu chegasse à última página. Satisfeito, guardei o livro no lugar. Agora eu tinha uma ideia bastante sólida sobre ele. Em breve o leria.
Os relatos acima fazem parte da coletânea O idioma materno, a ser lançado pela editora Relicário no fim deste mês. Tradução de Mariana Sanchez.
