A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
“A gente se sente um lixo”

    Lopes, em 2017: “Não sou militar, como posso agredir alguém? A pessoa pode se sentir agredida da maneira como se fala. Major? Imagina. Sou civil. Não entro na sala do diretor, pô.” CRÉDITO: KEINY ANDRADE_FOLHAPRESS_2017

autos de denúncia

“A gente se sente um lixo”

Enfermeiras acusam o cardiologista e clínico geral Antonio Carlos Lopes de assédio sexual

João Batista Jr. | Edição 205, Outubro 2023

A+ A- A

Silvana ficou entusiasmada quando a contrataram para trabalhar no Hospital Vila Nova Star, em julho de 2021. Ela havia se afastado temporariamente do trabalho para tratar de um linfoma num grande centro oncológico de São Paulo e o novo emprego lhe possibilitava retomar a carreira de enfermeira, agora em um dos hospitais mais chiques do país, onde já se trataram o ex-presidente Jair Bolsonaro, a cantora Anitta, o governador de Goiás Ronaldo Caiado. Unidade de luxo da Rede D’Or São Luiz, o Vila Nova Star foi criado para atender quem está no topo da pirâmide social. Os pacientes têm direito a serviço de concierge e refeições preparadas por um chef. Localizada no bairro rico da Vila Nova Conceição, a unidade tem dezesseis andares e os apartamentos estão distribuídos por cinco pisos. Tem 89 leitos de internação, dos quais 38 são de UTI. Costuma pagar aos enfermeiros um salário mensal de cerca de 7 mil reais.

O entusiasmo de Silvana com o novo emprego durou pouco. Quatro meses depois de começar a trabalhar,  ela consultava um computador do posto de enfermagem do 16º andar quando um senhor grisalho se aproximou, trocou algumas palavras e puxou a máscara hospitalar dela para baixo. “Queria ver como você é. Bonita, né? Eu não gosto de conversar com as pessoas e não saber como é o rosto delas”, disse ele, segundo Silvana. Atônita com a grosseria, ela colocou a máscara de volta. “Ele então colocou a mão na minha nuca e alisou o meu cabelo”, recordou ela, em uma entrevista feita por videochamada, na qual pediu que fosse identificada por um pseudônimo. Silvana se levantou assim que a mão do homem tocou o seu corpo – era um médico, que perguntou se ela “estava bem”. Constrangida, ela deixou o posto de enfermagem. “Contei o que tinha acontecido a uma técnica, e ela me disse que aquele médico era muito invasivo. E ainda me disse: ‘Todo mundo sabe do jeito dele.’”

“Aquele médico” é o clínico geral e cardiologista Antonio Carlos Lopes, hoje com 78 anos. Com uma cartela de clientes estrelados – entre eles, o ex-presidente Michel Temer, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, e o ex-ocupante do posto, o general Eduardo Villas Bôas –, Lopes é chamado de “professor” por seus colegas. Em 1974, começou a dar aulas na prestigiada Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e foi seu diretor na primeira metade da década de 2010. Durante anos, manteve um consultório particular no Hospital Israelita Albert Einstein. Já foi coordenador da área de residência médica do Ministério da Educação e preside a Sociedade Brasileira de Clínica Médica, que reúne mais de 20 mil clínicos no país. Além do Vila Nova Star, também é médico do Hospital Militar de Área de São Paulo. Costuma dizer que tem “100 mil fichas de pacientes” e publicou mais de sessenta livros, entre eles Tratado de clínica médica, da Editora Roca, que ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ciências naturais e da saúde de 2007. “Ele é um bom médico, bom clínico, conhecedor da medicina”, diz um colega que pediu para não ser identificado porque rompeu relações com Lopes. “Ele acompanha o paciente até o último instante, um tipo de médico que não existe mais, que cuida e participa do dia a dia.”

 

A reação de Silvana não impediu novas abordagens de Lopes. “Depois disso, ele tentou segurar o meu cabelo e tirar a minha máscara outras vezes. Eu sempre me esquivava, afastava o meu corpo, levantava da cadeira…”, diz a enfermeira. Por causa dos constrangimentos, ela evitava ser escalada para lidar com os pacientes de Lopes. Os dois não se viam com muita frequência, porque o turno de Silvana era das 13 às 19 horas, e o médico tinha o hábito de visitar seus pacientes mais tarde. Só de vez em quando Lopes chegava antes das 19 horas. Em uma dessas ocasiões, a enfermeira pediu a um colega do sexo masculino que acompanhasse a visita de Lopes a um paciente, explicando que já fora assediada pelo médico. O colega retrucou que aquilo só tinha acontecido porque ela dera liberdade. Para a enfermeira, foi como um novo assédio dentro do assédio já vivido. Ela decidiu que era hora de falar com a chefia sobre o comportamento do médico.

Procurou, então, a sua coordenadora direta, Eliane Ferreira, que não trabalha mais no hospital. “Quando contei o que o dr. Antonio Carlos fazia, de passar a mão e encostar em mim, ela me disse que ele era assim mesmo, mas, se eu quisesse denunciar, teria todo o seu apoio”, recorda Silvana. Ela se sentiu amparada. Como sabia que outras colegas tinham vivido situações parecidas, autorizou que a coordenadora levasse seu caso à gerente assistencial do Vila Nova Star, Giseli Rodrigues de Carvalho, responsável pelo departamento de enfermagem. Dias depois, a coordenadora contou a Silvana que a gerente levaria o caso à direção do estabelecimento. Com isso, Silvana achou desnecessário fazer uma denúncia pelo canal online de compliance do hospital. (Nem Eliane Ferreira, nem Giseli de Carvalho quiseram dar entrevista.)

A situação entre a enfermeira e o médico piorou. Lopes chegava ao posto de enfermagem e, olhando nos olhos dela, perguntava se Silvana não iria atendê-lo. Ao escutar a resposta negativa, o médico a chamava de “sem educação” na frente de quem estivesse ali. Ele também se fazia de desentendido, perguntando às demais enfermeiras quem era “essazinha”. Silvana intervinha: “Essazinha, não, o senhor sabe bem quem eu sou e por que não falo com o senhor.” O motivo da hostilidade entre eles não era segredo para ninguém. Mas, ao contrário do que esperava, a enfermeira não obteve nenhum retorno sobre a queixa levada à coordenação.

 

Silvana passou a sofrer de dores musculares nas costas, devido a uma protrusão na região lombar. Quando teve uma crise aguda durante o horário de trabalho, precisou ir até o Hospital São Luiz Jabaquara – também da Rede D’Or São Luiz –, a cerca de 8 km de distância. O Vila Nova Star não atende seus próprios enfermeiros, nem o Hospital e Maternidade São Luiz Itaim, que fica bem em frente. “Fui deitada no banco de trás do Uber para o hospital mais distante, me contorcendo de dor. O motorista precisou me ajudar a sair do carro e entrar no hospital.”

Por motivo de saúde, Silvana precisou se afastar do trabalho em maio de 2022. Cinco meses depois, ela retomou suas funções, sem que tivesse notícia sobre a queixa feita à coordenadora. No dia 17 de novembro, a enfermeira foi desligada do Vila Nova Star. Acionado pela reportagem, o hospital não quis informar a razão da demissão, nem se a denúncia de assédio chegou à direção do estabelecimento. Silvana diz: “Eu não sei se a minha denúncia teve alguma influência nessa decisão, mas me falaram que eu não me encaixava mais no perfil.”

 

Luiza, pseudônimo de outra enfermeira do Vila Nova Star, começou a enfrentar problemas semelhantes ao de Silvana cerca de seis meses depois de entrar no emprego. Ela também integra o turno da tarde e se encontra com o médico Antonio Carlos Lopes somente depois das 18 horas. “Eu passei por inúmeras questões, muitas vezes com pessoas por perto”, contou ela, também durante uma entrevista feita por videochamada. Quase sempre os casos ocorriam no posto de enfermagem, quando ela estava sentada, analisando exames laboratoriais.

 

“Ele chegou encostando o pênis no meu ombro, colocando também a mão, como se estivesse olhando os exames. A gente se sente um lixo”, diz. Segundo ela, o médico encostou o pênis em seu ombro em mais uma ocasião. Luiza passou a se levantar da cadeira assim que avistava o médico se aproximando. “Eu evito contato, mas tem algum limite. Como enfermeira, eu preciso conversar com os médicos, isso faz parte do meu trabalho.”

Ela conta que o clínico tem o hábito de pegar os crachás das enfermeiras, em geral dispostos na altura do peito, enquanto pergunta: “Qual é o seu nome?” Faz isso como pretexto para roçar a mão nos seios delas. “Ele já fez isso comigo muitas vezes, é nojento. Eu passei a pedir às outras técnicas: ‘Quando ele chegar, fica aqui no posto comigo.’ É uma forma de me proteger e também de protegê-las. Nunca comuniquei à chefia, fico com medo. Não sei o que pode acontecer. Eu preciso do meu salário, e ele é muito poderoso.”

Quando começou a trabalhar no Vila Nova Star, no final de 2019, Fabiana, pseudônimo de outra enfermeira que conversou com a piauí, ouviu a notícia de que Lopes estava se transferindo para o hospital. As enfermeiras ficaram incomodadas porque diziam que “esse médico é todo saliente, atrevidinho”. Depois que Lopes chegou, Fabiana precisou acompanhá-lo na visita ao quarto de um paciente do sexo masculino. “Ainda no posto de enfermagem, o dr. Antonio Carlos me cumprimentou e tentou alisar o meu braço”, ela contou em entrevista presencial, em um café na Zona Sul de São Paulo. Os dois seguiram até o quarto do paciente, a quem Lopes disse: “Veja só, o senhor está sendo cuidado por uma enfermeira linda. Ela não é bonita?” Antes que o paciente respondesse, a enfermeira falou que estava ali apenas para acompanhar a visita. “Não sou o foco de nada”, disse e, em seguida, deixou o quarto.

Minutos depois, quando Lopes apareceu no posto de enfermagem, Fabiana mirou bem nos olhos dele e disse: “Quero ser bem clara com o senhor, doutor. A nossa relação é profissional, entre médico e enfermeira. E outra coisa: nunca mais toque em mim. Posso ajudar em algo mais? O senhor vai adotar alguma conduta em relação ao paciente?” Lopes, na lembrança de Fabiana, respondeu apenas: “Não.” Depois desse episódio, o médico passou a tratá-la com deboche. Ao encontrá-la nos corredores do hospital, colocava as duas mãos para trás. Nunca mais importunou Fabiana, que não fez qualquer denúncia com receio de ser prejudicada.

Contratada logo na inauguração do Vila Nova Star, em maio de 2019, Paula conta ter passado por diversos constrangimentos com as abordagens de Lopes. “Isso de pegar o crachá para alisar os meus seios aconteceu diversas vezes”, diz. “Mas ele também abraça, alisa o braço, encosta…” Quase sempre, os contatos físicos se deram no posto de enfermagem. “Todo mundo sabe que ele é assim, não é segredo para ninguém. Nem para a equipe nem para a direção do hospital.” Ele também fez troça do sotaque nordestino da enfermeira, quis saber quanto o marido dela ganhava, e ridicularizou o cabelo crespo de outra enfermeira. Paula, que conversou com a reportagem por videochamada e também pediu para ser tratada por um pseudônimo, mudou-se de São Paulo e trabalha hoje em outro estabelecimento. Nunca teve coragem de levar adiante a denúncia sobre os assédios porque tinha a impressão, compartilhada por suas colegas, de que a chefia do hospital faz vista grossa às atitudes do médico.

Ou fazia.

 

No dia 25 de agosto, sexta-feira, a piauí entrou em contato com a assessoria de imprensa do Vila Nova Star para falar sobre as denúncias das quatro enfermeiras contra Antonio Carlos Lopes e a alegação de que o hospital nunca tomou providências. No mesmo dia – antes do contato da revista –, a direção do hospital chamara Lopes para uma reunião. Ele compareceu acompanhado de seu advogado, Luiz Paulo dos Santos. No encontro, o médico foi informado que o setor de compliance do hospital recebera uma denúncia anônima que o acusava de assédio sexual.

“Isso não existe, meu querido”, disse Lopes, ao rebater as denúncias de assédio, em entrevista à piauí naquele mesmo dia 25. “Sou um dos homens mais estimados na enfermagem, ajudo todas [enfermeiras]. Muitas querem trabalhar comigo no consultório particular. Sou um homem sério, honesto, religioso. Não tenho nada a ver com isso. Dou minha palavra de honra, fraternalmente”, afirmou. “Como sou bastante enérgico e exijo algumas coisas, a maneira de se vingarem é fazer isso [acusá-­lo de assédio]. Não existe uma coisa dessa.”

Uma semana depois, em 1º de setembro, o Vila Nova Star decidiu suspender seus vínculos com Antonio Carlos Lopes. O comunicado, enviado à revista, menciona “denúncias”, no plural, e informa o seguinte:

Em virtude de denúncias recebidas […], o profissional encontra-se impedido de internar seus pacientes no hospital enquanto as apurações estiverem em curso. Portanto, os relatos de que a direção do hospital ‘faz vistas grossas’, obtidos pela reportagem, são absolutamente improcedentes. O Hospital Vila Nova Star repudia quaisquer atitudes de assédio moral e sexual, e mantém, desde sua inauguração, em maio de 2019, um serviço ativo de compliance para o recebimento de denúncias dessa e de outras naturezas, que contrariem suas diretrizes institucionais.

Ao ser procurado pela reportagem depois da suspensão, Lopes negou que o Vila Nova Star tenha decidido afastá-lo. Acrescentou que, apesar da investigação em curso, sua médica assistente continua internando seus pacientes no hospital. Indagado mais uma vez pela piauí, o hospital enviou um novo comunicado à revista em que reitera a decisão: “Conforme informado anteriormente, o senhor Antonio Carlos está impedido de internar pacientes em seu nome no Hospital Vila Nova Star.”

A suspensão tem implicações financeiras nocivas para o hospital. No Vila Nova Star, os médicos não são contratados co­mo funcionários. Eles são convidados a internar seus pacientes ali e dividem seus ganhos com o estabelecimento. Daí, o interesse do hospital em atrair médicos experientes e renomados, cuja clientela tende a ser abastada e numerosa. “O Antonio Carlos tem uma idade já avançada e trata pacientes em geral também idosos, que precisam ser internados com mais frequência”, diz um diretor clínico do Vila Nova Star, que pediu para não ser identificado para evitar represálias administrativas. “Em resumo, ele traz muito dinheiro aqui para dentro.”

Na ocasião de sua suspensão, Lopes tinha dois pacientes internados no Vila Nova Star. Os dois já deixaram o hospital. A piauí pediu ao hospital autorização para entrevistar o diretor-geral Pedro Henrique Loretti, chefe dos médicos. O pedido foi negado.

 

Antonio Carlos Lopes tem um consultório particular, localizado nos Jardins. Ali, é auxiliado por funcionárias e recebe dezenas de pacientes a cada semana – mas a rotina do local já extrapolou o exercício da medicina e chegou ao 15º Distrito Policial, no Itaim. Em maio de 2017, duas funcionárias prestaram queixa contra o médico por assédio sexual. Eram recepcionistas. Contaram à polícia que tinham sido tocadas nos seios – uma delas fizera um implante recente de próteses de silicone – e que, certa vez, o médico se aproximou de uma delas com o pênis para fora da calça. Disseram que, por diversas vezes, tentaram evitar as “investidas libidinosas” sem causar atrito porque precisavam do emprego. Não tiveram sucesso. Resolveram, então, reunir fotos, gravações em áudio e em vídeo para fazer um boletim de ocorrência.

A piauí apurou que o episódio foi encerrado com um acordo extrajudicial entre as partes, no qual consta uma cláusula de mordaça – nem as funcionárias, nem o advogado delas podem se manifestar sobre o assunto. Lopes diz que desconhece o caso. “Não estou sabendo de nada, dou a minha palavra de honra para você”, disse. Seu advogado, Luiz Paulo dos Santos, no entanto, está sabendo. Ele nega o acordo extrajudicial e diz que o boletim de ocorrência é resultado de um complô. Na sua versão, uma das funcionárias teve um caso consensual com o médico e, depois, juntou-se à colega para forjar uma denúncia de assédio e arrancar uma indenização trabalhista. Concluído o assunto na esfera criminal com o acordo extrajudicial, as duas funcionárias entraram com ações trabalhistas contra Lopes, alegando que o salário registrado em carteira era inferior ao salário efetivamente pago – artifício usado para pagar menos imposto. As duas ganharam a ação.

Outro caso envolve uma paciente. A revista teve acesso a cópias de fotos e conversas de cunho sexual entre o médico e uma mulher trinta anos mais jovem, que se tratava com ele. No começo, era um caso consensual, apesar da proibição expressa no Código de Ética Médica do Conselho Federal de Medicina que pune o profissional que “aproveitar-se de situações decorrentes da relação médico-­paciente para obter vantagem física, emocional, financeira ou de qualquer outra natureza”. Quando ela cortou relações e bloqueou o médico de seus contatos, Lopes não gostou e passou a ameaçá-la dizendo que contaria tudo ao marido dela. E cumpriu a ameaça. “Eu tenho pesadelos com esse homem, me deixa fora disso”, disse a ex-paciente, que continua casada com o mesmo marido.

Lopes confirmou à piauí que teve um relacionamento com a paciente, consentido por ambas as partes, mas o caso nunca se tornou objeto de denúncia às entidades médicas. A paciente diz que evitou tomar essa providência porque tem medo do clínico em razão de sua influência. No Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Lopes é alvo de sete denúncias e três processos ético-profissionais, mas nenhum trata de relações sexuais com pacientes. Um deles foi proposto pelo Einstein em agosto de 2017, depois que Lopes deu alta para uma paciente ao ignorar a suspeita da equipe plantonista de que se tratava de um caso de aneurisma. Dois dias depois, a paciente precisou voltar a ser hospitalizada. Acabou se recuperando bem. Concluída uma sindicância interna, o Einstein resolveu levar o caso ao Cremesp.

 

Filho de um fundidor e uma dona de casa que viviam no Brás, então um bairro operário de São Paulo, Antonio Carlos Lopes passou no vestibular da Escola Paulista de Medicina (EPM) em 1965. Na prova de residência médica, tirou o primeiro lugar. Cursou dois anos de residência em clínica médica e um em cardiologia. Depois se especializou em hemodinâmica (que trata disfunções como aneurismas, obstruções e tromboses) e em propedêutica (conjunto de técnicas e procedimentos para obter o diagnóstico). Fez uma carreira muito bem-sucedida, mas teve problemas com seus modos belicosos.

Lopes teve que fechar seu consultório particular no Einstein depois de uma briga. Em 2014, a Prefeitura de São Paulo decidiu passar adiante a administração de um hospital no bairro do Jabaquara. A EPM, então sob direção de Lopes, interessou-se pelo negócio, assim como o Einstein – que acabou ganhando a disputa. O médico não gostou, disse que a escolha fora irregular e passou a atacar publicamente o diretor do Einstein, o oftalmologista Claudio Luiz Lottenberg, dizendo que ele vivia adulando políticos. Em resposta, Lottenberg suspendeu a autorização para que o consultório particular de Lopes funcionasse dentro do Einstein, mas permitiu que o médico seguisse internando seus pacientes no hospital.

Durante a gestão de Lopes no comando da EPM, uma sindicância investigou a denúncia de que seu filho, o cardiologista Renato Delascio Lopes, era professor fantasma da instituição. Ele ganhava cerca de 9 mil reais brutos, mas morava (e ainda mora) nos Estados Unidos, onde dava aulas (e ainda dá) na Universidade Duke, na Carolina do Norte. No fim da investigação, determinou-se que o filho devolvesse 381 mil reais à EPM, quantia referente a salários pagos indevidamente de dezembro de 2010 a maio de 2015 – período que coincide com a gestão de Lopes, que durou de maio de 2011 a maio de 2015. O pagamento não foi feito até hoje.

Em 2015, quando estava prestes a completar 70 anos, idade da aposentaria compulsória, Lopes tentou candidatar-se a um novo mandato no comando da EPM, apesar da proibição etária. Até contou com a ajuda de um de seus pacientes ilustres – o então vice-presidente Michel Temer – para dar uma pedalada na norma da idade-limite. “Mas eu não pedi nada para ele”, ressalva Lopes. A então reitora da Unifesp, Soraya Soubhi Smaili, doutora em farmacologia, conta que Temer ligou e estava “nitidamente constrangido”. “Mas ele foi muito gentil, devo dizer.” Ela rememorou a conversa, informando um detalhe que contradiz a versão de Lopes. “Ele [Temer] disse: ‘Eu sei que a senhora tem autonomia, mas estou ligando a pedido do professor que quer muito continuar…’” A reitora explicou que a norma impedia a reeleição do médico, e a conversa se encerrou em tom cordial. Temer não respondeu ao pedido de entrevista. (A reumatologista Emilia Sato venceu a disputa, tornando-se a primeira mulher a ocupar a direção da EPM.)

No Hospital Militar de Área de São Paulo, para o qual começou a prestar serviço em 2016, Lopes também teve desavenças. Numa manhã do segundo semestre de 2022, de acordo com o relato de testemunhas ouvidas pela revista, o médico entrou alterado no gabinete do general Antonio Carlos Pereira Leal, diretor do hospital, e começou a xingar o major e médico Paulo Jorge Correia Alves, chefe da clínica cirúrgica. Lopes queria afastá-lo do hospital porque ele não lhe dirigia a palavra. Chamou o major de mau-caráter e desferiu-lhe um tapa nas costas. À piauí, Lopes negou o episódio. “Não sou militar, como posso agredir alguém? A pessoa pode se sentir agredida da maneira como se fala. Major? Imagina. Sou civil, não sou militar. Não entro na sala do diretor, pô.” Um comunicado do Exército tem outra versão: “Este centro informa que de fato houve um desentendimento durante uma reunião interna. Cabe ressaltar a atuação imediata do diretor do HMASP [general Pereira Leal], que interveio prontamente, solicitando que o professor Antonio Carlos Lopes se retirasse do recinto.” No dia seguinte, segundo a nota, Lopes pediu desculpas e não se instaurou processo disciplinar.

No Hospital Militar, além dessas desavenças, também apareceram suspeitas de assédio.

 

Antonio Carlos Lopes têm boas relações com os militares. Além de ser médico do general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, Lopes é seu admirador. Em agosto de 2018, o médico recebeu das mãos do general uma honraria inédita, o Bastão de Comando, concedida apenas ao generalato. Segundo o site do Superior Tribunal Militar, trata-­se de um “símbolo de autoridade e insígnia de comando [que] foi usado por reis e por grandes capitães para dar o sinal de início das batalhas”. O Bastão de Comando, com meio metro de comprimento e feito em madeira avermelhada, se parece com a batuta de um maestro. A condecoração enfeita o gabinete de trabalho de Lopes no seu consultório particular. “Sou o único civil a ter sido homenageado”, orgulha-se o médico.

Em 2016, Lopes recebeu outra distinção inédita para civis. Tornou-se o primeiro, e até agora o único, a comandar um programa no Hospital Militar de Área de São Paulo. Ele ocupa o cargo de coordenador do Programa de Residência de Clínica Médica, enquanto todos os outros médicos de primeiro e segundo escalões do HMASP são generais, coronéis ou majores. Com relações tão privilegiadas com militares, Lopes acabou ganhando um status especial no HMASP, onde desfruta de uma enorme liberdade de ação.

“Teve uma época que a gente orientava as próprias residentes de clínica médica a jamais ficarem sozinhas com ele”, disse uma tenente médica, em conversa com a reportagem por videochamada. Ela pediu para não ser identificada por temer a influência de Lopes junto à cúpula militar e nunca fez denúncia ao hospital, que não tem um setor de compliance. Uma médica civil contou à revista que testemunhou Lopes abordando uma residente no elevador. “Ele passou a mão na bunda da aluna na frente de todo mundo, com ela tirando a mão. Talvez eu devesse ter feito algo, mas a verdade é que não fiz.” Nem ela, nem a residente fizeram denúncia formal. Procurada pela reportagem, a residente disse: “Não tenho interesse nenhum em falar sobre ele. Isso vai me comprometer profissionalmente.” Hoje, ela trabalha num hospital privado.

Durante oito meses, uma sargento – que também pede para não ser identificada – trabalhou como secretária de Lopes no hospital militar. “Foram os piores oito meses da minha vida”, disse ela, em uma mensagem de áudio de Whats­App. “Ele tem umas atitudes abusivas, de querer passar a mão na bunda, de querer passar a mão no peito, de ficar falando em suruba. Ele falou várias vezes que ia passar na minha casa.” Ela descreve uma situação: “Você vai sentar ao lado, educadamente, e ele pega as suas mãos e coloca nas partes íntimas dele e fica ‘Ahhhhh, você é uma delícia, estou louco para comer você’… Isso é uma coisa nojenta.” A ex-secretária diz que nada disso é segredo. “O pessoal no quartel sabe que ele faz isso, mas passa pano. Eu tive de ouvir de um coronel que isso só aconteceu porque eu gostei. Teve tanto assédio que um dia eu estourei.” Nesse dia, a sargento levou o caso à sua chefia e mostrou gravações de conversas com o médico. Em resposta, ouviu que os áudios não eram provas suficientes.

Em entrevista à piauí, num primeiro momento Lopes disse que não se lembrava da secretária, mas logo recuperou a memória. “Ah, já sei. Ela foi uma sargento que passou lá num período muito curto. É uma senhora gorda, de cor inclusive.” O médico negou ter tido qualquer comportamento indevido. Procurada pela reportagem, a direção do hospital militar também disse, em nota, que nunca teve conhecimento de “nenhuma denúncia de assédio moral ou sexual contra o dr. Antonio Carlos Lopes”.

Ainda assim, cinco dias depois do contato feito pela revista, a sargento foi chamada ao hospital e convidada a assinar um documento em que assegurava nunca ter sofrido qualquer assédio do médico. Consultado, o hospital disse que a sargento foi convocada “com a finalidade de ser submetida à inspeção de saúde, tendo em vista que a mesma encontra-se afastada do serviço para fins de tratamento de saúde”. Na realidade, foi mais do que isso: o hospital instaurou um procedimento disciplinar para apurar as denúncias de assédio e Lopes foi chamado para prestar um depoimento. A sindicância tem prazo de trinta dias, prorrogáveis por mais vinte. Deve se encerrar até a segunda quinzena de outubro. Um médico militar enfronhado no assunto suspeita que a sindicância seja apenas um jogo de cena.

 

Antonio Carlos Lopes foi casado por décadas com Vera Lúcia Delascio, com quem teve três filhos: Márcio e Carla, além do cardiologista Renato, que mora nos Estados Unidos. Uma das frases mais conhecidas do médico, que costuma ser dita num tom entre a brincadeira e a verdade, é aquela em que ele afirma que todos os especialistas em áreas que começam com a letra “o”, como oftalmologistas, ortopedistas e obstetras, “não são médicos”. Lopes é rompido com a ex-­mulher e os filhos Marcio e Carla. Todos eles, mãe e filhos, são obstetras.

João Batista Jr.
João Batista Jr.

Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)

Leia Mais

questões criminais

A noite que nunca terminou

O calvário do caso Mari Ferrer

01 nov 2021_14h32
autos de denúncia

O que mais você quer, filha, para calar a boca?

O assédio sexual, a queda do humorista Marcius Melhem e o silêncio da Globo

30 nov 2020_11h00
questões médico-criminais

“Eu era o melhor”

Roger Abdelmassih fala da vida na prisão, dá sua versão sobre as acusações de estupro e se diz vítima da inveja dos concorrentes

30 jul 2015_14h55
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30