Haddad, na sede do Ministério da Fazenda, em São Paulo: ninguém sabia que Campos Neto tinha se envolvido até com pesquisas eleitorais para orientar a campanha de reeleição de Bolsonaro CRÉDITO: BOB WOLFENSON_2023
Fernando Haddad, a ascensão
Sete meses após assumir o cargo, ministro da Fazenda criou pontes com o Congresso, é elogiado pelo mercado financeiro e assiste à melhora dos indicadores econômicos
Ana Clara Costa | Edição 203, Agosto 2023
O deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco, duas figuras proeminentes da República que presidem suas respectivas casas do Congresso, estavam se estranhando nos idos de maio em razão de uma disputa de poder sobre a tramitação de medidas provisórias. O azedume era tanto que preocupou o empresariado, temoroso de que a briga atrapalhasse projetos relevantes, como a nova regra fiscal e a reforma tributária, ambos patrocinados pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
João Camargo, fundador da Esfera Brasil e presidente da CNN Brasil, convidou Pacheco para um jantar em sua casa. Na noite de 22 de maio, com a presença de expoentes do empresariado paulista, Camargo expôs sua preocupação de que a contenda com Arthur Lira, o líder do Centrão, frustrasse os planos de Haddad. Convenceu Pacheco a encontrar-se com Lira para selar um armistício. “Não precisa ser amigo dele. Mas vamos montar uma agenda mínima e tentar avançar na pauta econômica”, disse.
Marcou-se então um almoço para o dia seguinte na residência oficial do Senado, em Brasília. Além dos dois chefes das casas legislativas, confirmaram presença o ministro Fernando Haddad, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e os deputados Cláudio Cajado, relator do novo regime fiscal, e Aguinaldo Ribeiro, relator da reforma tributária. Camargo encorpou o encontro com alguns empresários graúdos. Junto com Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro e atual responsável pelas relações institucionais do BTG Pactual, ele fez uma lista com doze nomes de diferentes segmentos econômicos. Menos de doze horas depois da conversa de Camargo e Pacheco em São Paulo, começaram a pousar os jatinhos em Brasília. Os lugares à mesa eram marcados. Haddad ficaria ao lado de Campos Neto.
O prato principal do almoço, no entanto, não foi o peixe assado, nem o filé ao molho madeira, nem mesmo o armistício para facilitar as reformas, mas as cobranças dos empresários para que Campos Neto reduzisse a brutal taxa de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o órgão que trata do tema. O empresário Flávio Rocha, sócio da varejista Riachuelo, era um dos apóstolos mais fervorosos do corte nos juros. “Nós precisamos dar aos brasileiros a possibilidade de financiamento. O brasileiro quer comprar em dez vezes”, disse, com ar aflito.
Alvejado por todos os lados, Campos Neto pediu paciência. Antecipou que não seria possível cortar a taxa na reunião que aconteceria em junho, mas que a nova regra fiscal, se aprovada, permitiria caminhar nesse sentido em breve. Mas nada tranquilizava os empresários à mesa, entre os quais estavam Benjamin Steinbruch (CSN), Josué Gomes (Fiesp) e André Esteves (BTG). Flávio Rocha e Steinbruch chegaram a ser indelicados com o presidente do BC. A tensão subiu a tal ponto que Haddad interveio em favor de Campos Neto, dizendo que nenhum movimento deveria ser brusco. Apesar de tudo, conforme o relato de três presentes ouvidos pela piauí, os empresários deixaram a mesa dizendo que fora o melhor almoço que já tiveram em Brasília. Sentiram que, de fato, foram ouvidos por uma autoridade federal – no caso, o chefe da Fazenda.
É uma guinada e tanto para Haddad.
Em dezembro do ano passado, o anúncio de que o petista seria ministro da Fazenda foi recebido no Congresso e no mercado com ceticismo, descrédito e até mesmo pavor, entre os mais pessimistas. Falou-se em “explosão do fiscal”, “fim do mundo”, “caos”. O economista de um grande banco conta que quatro empresários o procuraram querendo enviar todos os investimentos para fora do país porque “esses caras são uma droga”. Em agosto do ano passado, ainda antes da vitória eleitoral de Lula, numa reunião da Esfera, Flávio Rocha, que entre amigos se referia a Haddad como “comunista”, disse ao futuro ministro que suas ideias eram baseadas na obra do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci. Haddad reagiu: “A que livros do Gramsci o senhor se refere? Eu li todos.” Rocha não havia lido nenhum. Agora, no almoço na casa de Pacheco em Brasília, o empresário disse que Haddad era um ministro “muito preparado”.
O começo na Fazenda foi tumultuado, com disputas internas pelos rumos da política econômica ainda indefinida, uma base parlamentar gelatinosa e um Congresso de direita, mais simpático às ideias de seu antecessor, Paulo Guedes. Pelo menos até agora, em sete meses de trabalho, Haddad surpreendeu os céticos, os descrentes e os apavorados. Propôs uma política fiscal considerada razoável por economistas, criou pontes com o Congresso hoje mais sólidas do que aquelas construídas pelo próprio governo, é elogiado pelo mercado financeiro e assiste à melhora dos indicadores econômicos – mesmo que nem todos sejam resultado de sua gestão. E conquistou o aval de Lula para impor suas ideias, o que foi fundamental para neutralizar seus adversários dentro do próprio PT que discordam de sua visão econômica.
Com suas negociações, que resultaram na aprovação de um novo regime fiscal e uma reforma tributária que estava parada no Congresso havia quinze anos, Haddad tornou-se patrono do único exemplo concreto de pacificação política num ambiente ainda conflagrado – e dos múltiplos exemplos concretos da notável elasticidade ideológica de que a Avenida Faria Lima é capaz quando se trata de farejar seus interesses. Ali, onde estão os bambambãs do PIB nacional, Haddad agora virou “o cara”. Numa sondagem da Quaest Pesquisa e Consultoria com 94 participantes do mercado, 65% têm uma avaliação positiva sobre ele, ante 10% em março. Para 47%, a política econômica do país está na “direção certa”, ante 0% em março. Com isso, a avaliação positiva do governo Lula como um todo subiu de 2% para 20%. A negativa caiu de 86% para 44%.
Em razão da melhora de sua relação com o mercado, Haddad passou a ser comparado a Antonio Palocci por alguns investidores que conviveram com o ex-petista quando era ministro – mas Haddad não gosta de ouvir falar na comparação. Prefere outros paralelos. Em entrevista coletiva antes da aprovação da reforma tributária, ele afirmou: “Penso que nós estamos às vésperas de uma oportunidade que há muito tempo não se vê no Brasil. Um economista chegou a falar, e ele não tem nenhuma proximidade com o governo, que ‘pode ser o Plano Real, o novo Plano Real do Brasil.’” A frase é do seu amigo Samuel Pessôa, economista historicamente ligado ao PSDB. O Plano Real, como se sabe, projetou Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Haddad, já chamado de “o mais tucano dos petistas”, não esconde sua admiração por FHC – e, ainda mais, por sua trajetória.
Mas, ao contrário de FHC, Haddad batalhou duro para virar ministro da Fazenda.
Em março de 2021, faltando um ano e meio para a eleição presidencial, Haddad intuiu que Lula só teria chance de voltar ao Palácio do Planalto se fizesse uma ampla aliança de centro-esquerda – sobretudo em São Paulo. O PT então sugeriu abrir negociação com Guilherme Boulos, do Psol, que tinha planos de concorrer ao governo paulista. Haddad achava que o caminho era outro. Não dizia abertamente, mas pensava que o primeiro a ser sondado teria de ser o tucano Geraldo Alckmin, em vias de abandonar o PSDB e sem um candidato óbvio para apoiar em 2022. Não demorou a perceber que, mais do que um futuro aliado, Alckmin poderia ser vice de Lula, formando uma chapa com potencial para recuperar os votos que o PT perdera no estado na eleição de 2018.
Para Haddad, o Brasil não vivia uma crise econômica, mas política, nascida, em parte, com o acesso de brasileiros de menor renda a espaços antes interditados, como a universidade. Era, portanto, anterior ao bolsonarismo, embora tenha se agravado com ele. A um amigo, ele detalhou o que pensava. “Entre o PT e PSDB havia muita intersecção. Com o bolsonarismo, essa intersecção sumiu. Estou tentando buscar o ponto de tangência para adensar os setores razoáveis da sociedade, os setores do diálogo, da busca do meio-termo.” Numa conversa reservada no Diretório Nacional do PT em São Paulo, Haddad falou pela primeira vez com Lula sobre a saída Alckmin. Haddad, segundo contou mais tarde a um podcast, começou assim: “Cara, eu vou te falar uma coisa. Se você disser não, essa conversa nunca existiu. Se você não disser nada, vou me sentir autorizado a tocar em frente.” Em seguida, expôs seu plano. Lula coçou o bigode, pensou por alguns segundos e, sem dizer nem sim, nem não, vaticinou: “Haddad, a política é extraordinária!”
Sentindo-se autorizado, Haddad arregaçou as mangas. Depois de meses de articulação em sigilo, conseguiu reunir as partes interessadas num jantar no apartamento de Gabriel Chalita, um interlocutor entre PT e PSDB, no dia 14 de julho de 2021. Mas, como ninguém lançou objetivamente o tema da aliança, o tucano achou que a ideia havia naufragado. Depois do cafezinho, se despediu e foi embora. Chalita acompanhou-o até o carro sem entender o silêncio de Lula. Frustrado, Alckmin disse ao amigo que manteria seus planos de tentar o governo de São Paulo, possivelmente pelo PSD. Haddad deixou o jantar aflito. No dia seguinte, ligou para Lula para saber se a aliança estava de pé. Recebeu uma resposta afirmativa. Depois, ligou para Alckmin para tranquilizá-lo. Na verdade, Lula avaliava que sua presença no jantar deixava implícito que o acordo estava certo. Depois, quando foi questionado por Haddad sobre o jantar cifrado daquela noite, disse: “Haddad, não dá para beijar na boca já no primeiro encontro.” Lula e Alckmin ainda levaram seis meses para aparecerem juntos (em 19 de dezembro, num jantar com advogados do grupo Prerrogativas) e mais cinco meses para anunciar a aliança (em maio de 2022).
Desde o pleito de 2018, quando perdeu a eleição para Bolsonaro, o sonho de Haddad era ser ministro – e da Fazenda. Acreditava ter os instrumentos certos para o cargo, embora sua experiência no campo econômico nunca tivesse alcançado o alto escalão. Mestre em economia pela Universidade de São Paulo (USP), ele trabalhara como analista de investimentos, desenhara a tabela Fipe, que mede o preço médio dos automóveis no mercado, e depois ingressara como chefe de gabinete na secretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo na gestão Marta Suplicy. Chegou ao governo federal como assessor no Ministério do Planejamento no primeiro governo Lula. E, desse período em diante, dedicou-se à educação até ser eleito prefeito de São Paulo em 2012. Quando perdeu a reeleição, voltou para o meio acadêmico como professor de administração pública do Insper, em São Paulo.
Com a chapa Lula-Alckmin, Haddad achava que, em caso de vitória, finalmente poderia chegar à Fazenda, mas teve que cumprir uma missão para a qual não tinha apetite: concorrer ao governo de São Paulo para dar um palanque a Lula no maior colégio eleitoral do país. Perdeu a eleição para Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro, mas o arranjo com Alckmin revelou-se decisivo. O eleitorado paulista deu a Lula 4,3 milhões de votos a mais do que dera a Haddad na presidencial de 2018 – e Lula venceu Bolsonaro no país com vantagem de 2 milhões de votos.
Na festa da vitória, em 30 de outubro, Lula subiu no carro de som na Avenida Paulista e agradeceu publicamente o papel fundamental que Haddad desempenhou na campanha. Nas duas semanas seguintes, ficou no limbo. Perdera a eleição e não fazia ideia do que o presidente eleito reservava para ele. Em 2018, Lula comentou que, se fosse candidato e ganhasse, o convidaria para assumir a Fazenda, mas, em 2022, não houve essa conversa. Em paralelo, no segundo turno, a candidatura de Lula ganhara a adesão de vários economistas de centro, como Henrique Meirelles e Persio Arida, cujos nomes começaram a aparecer no meio financeiro como possíveis ministros da Fazenda depois da vitória. Fazia sentido. Eram nomes bem-vistos pelo mercado e se encaixavam na ideia de um governo amplo, maior do que o PT.
“Eu imaginava que o Lula moderado iria propor um ministro muito mais na linha de manter o tripé econômico conquistado até agora, que foi o que ele praticou no primeiro mandato”, diz o sócio de uma das maiores gestoras de recursos do país, que pediu para não ter seu nome citado para não se indispor com o ministro. Ele temia que o Brasil enveredasse para o caminho da Argentina, mas hoje elogia a gestão de Haddad. O interlocutor de outra grande gestora, que também pede o anonimato, diz que o mercado esperava que Lula replicasse o modelo que aplicou com Antonio Palocci, em 2003. “Se o governo repetisse o Lula 1, precisaria de um nome de fora na Fazenda, como o Palocci. Mas era uma arrogância nossa porque Lula não havia prometido nada disso.”
Quando se anunciou que Persio Arida, um dos pais do Plano Real, integraria o grupo de economia na equipe de transição, o mercado se encheu de esperança de que o futuro ministro da Fazenda talvez não fosse petista. Um funcionário do atual segundo escalão do Ministério da Fazenda lembra dessa certeza com certo espanto. “É coisa típica de um mercado que ainda não processou totalmente a democracia”, diz. “Imagina que o Lula ia ganhar a eleição e botar o Meirelles, o Persio! Na origem disso está: ‘Vocês podem votar aí a discussão de gênero, mas esse outro lado aqui, a economia, não é para vocês brincarem.”
Enquanto isso, surgiram os concorrentes dentro do PT. Alexandre Padilha, que frequentava eventos de grandes bancos, era um nome palatável porque o mercado acredita que poderia tutelá-lo. Aloizio Mercadante, que apoiou a política fiscal heterodoxa do governo de Dilma Rousseff, causava pânico. Haddad figurava no meio do caminho. Não era uma opção tão ruim quanto Mercadante, mas, ao contrário de Padilha, era “cheio de ideias”, nas palavras de um interlocutor que acompanhou as discussões do mercado. Ainda por cima, sua dissertação de mestrado fora sobre a economia soviética, o que deixava a elite empresarial arrepiada. (Como Flávio Rocha, ninguém leu a dissertação ou o livro a que deu origem. O texto é uma crítica contundente à economia da União Soviética.) A aversão ao seu nome era tamanha que, durante a campanha, houve empresário cogitando votar nele para o governo de São Paulo só para impedir que, em caso de vitória de Lula, ele pudesse vir a ser o novo ministro da Fazenda.
Com a indefinição, Lula convidou Haddad para comandar o grupo de educação na transição. Ele respondeu que indicaria nomes para compor o grupo, mas não faria sentido comandá-lo porque não tinha a intenção de voltar a ser ministro da Educação, cargo que ocupou entre 2005 e 2012. Antes de falar com Lula sobre a Fazenda, aconselhou-se com amigos. Um deles disse que, se tivesse planos políticos ambiciosos, como a Presidência da República, a Fazenda era uma cadeira arriscada em razão da grave crise econômica e do alto risco de impopularidade. Haddad ouviu, mas continuou determinado a buscar o cargo.
Como a maior resistência ao seu nome não estava no PT, mas no mercado, procurou interlocutores no empresariado e na Faria Lima para mostrar que não era o “perigoso esquerdista” que supunham. Interlocutores que acompanharam alguns encontros contam que a rejeição mais forte estava no segundo escalão do mercado, entre os que fazem as análises econômicas, e não no primeiro escalão. A cúpula dos grandes bancos, por exemplo, não era tão hostil ao seu nome. Mas Lula estava indeciso.
Diante da grave crise, da inflação alta e dos percalços fiscais, o presidente eleito tinha consciência de que a escolha por Haddad era uma aposta altíssima. Se desse certo, o futuro poderia estar garantido. Mas, se desse errado, seu governo perderia o rumo e um potencial sucessor, já que Haddad seria esmagado pela impopularidade. Lula decidiu arriscar. Convidou Haddad para acompanhá-lo na viagem à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, no Egito, e, durante o voo de ida, ofereceu a ele o cargo de ministro da Fazenda. Antes de aceitar, Haddad disse o que planejava fazer, incluindo o rigor na responsabilidade fiscal, tema que Lula havia desprezado dias antes em um discurso que assustou o mercado.
— Tudo isso que eu quero fazer está à direita do seu plano de governo e à direita do seu discurso. O senhor topa essa brincadeira? Porque aí eu posso ser seu ministro da Fazenda — disse.
Haddad continuou:
— Eu não preciso de cargo para ser seu amigo. Eu sou seu amigo de graça. Mas isso aqui [o plano econômico] eu faço, isso eu sei fazer.
Lula não fez qualquer reserva ao que ouviu e manteve o convite.
Já de volta ao Brasil, Haddad reforçou ao presidente que uma de suas prioridades seria a reforma tributária, com a qual pretendia “colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda”. O mote era bom, mas Lula ouviu incrédulo e reagiu:
— Haddad, faz quase vinte anos que todo mundo tenta passar essa reforma e ninguém consegue! Eu tentei duas vezes…
— Todo mundo tem o direito de falhar. Eu não tentei nenhuma, disse Haddad, em tom de piada.
No final de novembro, Haddad ainda aguardava o anúncio de sua nomeação quando a Febraban, entidade que representa os bancos, convidou Lula para um almoço. Queria ouvi-lo sobre seus planos para a economia. O petista mandou Haddad no seu lugar. Era uma forma de jogá-lo aos leões e testá-lo. Haddad esteve no encontro, mas não pôde dizer que era o futuro ministro. Limitou-se a informar que estava ali “em nome do presidente Lula”. Antes do almoço, numa sala privada, conversou com Isaac Sidney, presidente da Febraban, e três banqueiros: um do BTG (André Esteves) e dois do Bradesco (Octávio de Lazari Jr. e Luiz Carlos Trabuco). Durante o almoço, na desconfortável posição de intermediário sem cargo, fez uma fala pouco convincente. Resultado: a bolsa caiu mais de 2%.
No dia 9 de dezembro, uma sexta-feira, Lula finalmente anunciou Fernando Haddad como novo ministro da Fazenda – e já lhe deu uma tarefa espinhosa: aprovar a chamada PEC da Transição, a emenda constitucional que autorizaria o governo a gastar mais 145 bilhões de reais, como forma de cumprir suas promessas de campanha. O texto já vinha sendo negociado por outros integrantes da transição. Mas Haddad, como futuro ministro, tomou a dianteira dos trabalhos e já começou discordando de alguns deles, que preferiam a estratégia de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) a negociar a PEC com o Congresso, onde ficariam reféns de Arthur Lira. Haddad pensou que não seria bom negócio começar em pé de guerra com o Parlamento. A PEC revelou-se tão oportuna para o governo quanto para Lira, que aproveitou para exigir o controle de um naco de 9 bilhões de reais para distribuir entre seus aliados, restabelecendo assim seus dias de glória no orçamento secreto. Haddad levou a PEC, aprovada na Câmara por um placar apertado de 331 votos, e Lira levou seus 9 bilhões.
Era uma vitória para o futuro ministro da Fazenda, mas dividiu as opiniões. Uma parte do governo estava satisfeita, pois haveria dinheiro para começar a gestão, mas outra reclamava que Lira levara mais do que devia. Na Faria Lima, os 145 bilhões eram vistos como um exagero e um sinal de que Lula maltrataria as contas públicas. Em entrevista concedida antes da aprovação da PEC ao site Brazil Journal, o economista Armínio Fraga calculou que o ideal seriam 50 bilhões de reais. “Votei no Lula e não me arrependo. Mas estou com medo”, disse. O economista Marcos Lisboa, do Insper, disse que bastariam 90 bilhões de reais. Esses valores, porém, não contemplavam os desejos do PT – que, além do Bolsa Família, queria aumentar o salário mínimo e retomar benefícios como o Farmácia Popular – nem o pedágio bilionário do Congresso.
Feliz com o resultado, Haddad saiu com a impressão de que construíra uma ponte importante com Arthur Lira para aprovar projetos futuros. Lira, por sua vez, concluiu que Haddad era um “cumpridor de acordos”, e as relações do Congresso com o governo poderiam prosperar. Logo surgiu a nova batalha: o preço dos combustíveis. Na campanha eleitoral, Paulo Guedes, o então ministro da Fazenda, anunciara um pacotaço de 120 bilhões de reais em desonerações no intuito de baixar o preço dos combustíveis. Para Haddad, não havia como o governo continuar abrindo mão de tanto dinheiro. A medida teria que ser derrubada logo na largada, junto com outros benefícios setoriais concedidos pelo general Hamilton Mourão nas 48 horas em que foi presidente da República, depois que Jair Bolsonaro partiu para a Flórida. Entre as canetadas do vice, estavam mimos tributários ao fundo da Marinha Mercante e a redução do PIS/Cofins de instituições não financeiras. No STF, Haddad conseguiu revogar os decretos, mas desfazer o pacote de Guedes seria uma batalha à parte.
De início, Lula não gostou da ideia, pois implicaria aumento da gasolina. O PT passou a defender a manutenção do benefício para evitar a má notícia logo na arrancada do governo. Haddad colheu elogios do mercado ao defender a revogação das medidas de Guedes, mas foi criticado por não conseguir convencer seu chefe. Em razão da aparente derrota, um editorial do jornal O Estado de S. Paulo, em apenas quatro dias de governo, já decretava: “Haddad, o ministro decorativo.” O subtítulo explicava o vaticínio: “Desautorizado já na posse, novo ministro da Fazenda perde batalha pela reoneração dos combustíveis e mostra que terá que ensaiar mais para aprender a dizer ‘não’ ao presidente.”
A intentona golpista do 8 de janeiro atrapalhou ainda mais os planos. Lula temia que, depois da arruaça bolsonarista, uma agenda negativa, como o aumento da gasolina, pudesse voltar a tumultuar o cenário. Haddad apostava que a alta dos juros no exterior desvalorizaria o dólar, provocando a queda nos preços do petróleo e, por consequência, no valor do combustível nas bombas. Achava, inclusive, que não se devia esperar muito sob pena de perder o timing da reacomodação internacional que estava acontecendo. Lula concordou, mas pediu pelo menos sessenta dias antes da volta do tributo. Estimava que era o tempo necessário para desanuviar a cena política. Os dois estavam entendidos.
Sem saber disso, o mercado contabilizava a inação de Haddad como uma primeira derrota e vaticinava que, com seu temperamento calmo e cordato, o ministro não teria voz junto ao presidente. Para complicar, o pacote de medidas fiscais anunciado no dia 12 de janeiro havia sido muito mal recebido. Haddad anunciara que as medidas poderiam resultar num ajuste de mais de 240 bilhões de reais, mas a maioria dos economistas calculava que o impacto seria a metade disso e que as iniciativas eram vagas e com efeito apenas no curto prazo. “As medidas são excessivamente baseadas em receitas em vez de ajustes nas despesas, e a maior parte delas são extraordinárias ou incertas”, informava um relatório do banco Barclays, divulgado naqueles dias. O banco tinha razão: Haddad não anunciara nenhum corte – e não tinha intenção de fazê-lo.
Samuel Pessôa, o mesmo que mais tarde diria que a reforma tributária poderia se tornar “o novo Plano Real”, deu uma entrevista ao Estadão criticando as medidas. Amigo de Haddad desde os tempos em que estudaram no Colégio Bandeirantes, em São Paulo, Pessôa disse que não duvidava da sinceridade do compromisso do ministro com a responsabilidade fiscal, mas o pacote só evitaria o crescimento da dívida se houvesse aumento de impostos. “É natural da esquerda querer gastar mais e resolver o problema fiscal aumentando impostos, como é natural da direita querer fazer o ajuste pelo corte de gastos. Ambas são estratégias legítimas. É uma escolha eminentemente política. O Lula quer gastar mais com os pobres. Acho absolutamente correto. Só que, se ele quer fazer isso, tem de tirar os recursos de algum lugar.”
Apesar do clima de mau humor, Haddad teve uma boa conversa em seu primeiro compromisso internacional como ministro da Fazenda, no final de janeiro. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, encontrou-se com o americano Ian Bremmer, da consultoria Eurasia, cujas análises eram muito menos pessimistas com o Brasil do que as dos bancos e gestoras do país. À piauí, Bremmer relembrou o diálogo. “Eu conversei com ele sobre um horizonte de boas notícias por algumas razões. Primeiro, porque a estabilidade política juntamente com o centrismo necessário do Congresso faria avançar a agenda econômica, animando o investidor. Segundo, o interesse de Lula em priorizar a agenda ambiental com um recuo no desmatamento iria promover o Brasil no cenário global. E terceiro, a Casa Branca me confidenciara seu desejo de melhorar significativamente a relação [com o Brasil] depois da eleição de Lula”, conta.
Logo depois, no início de fevereiro, Haddad acompanhou a comitiva de Lula na visita a Washington – e o tema da reoneração dos combustíveis reapareceu, em reuniões privadas com investidores. Como não podia anunciar o acerto que fizera com Lula, Haddad limitou-se a garantir segurança. Um dos presentes nessas reuniões relatou à piauí que o ministro fez questão de dizer que não haveria qualquer medida heterodoxa em relação à política de preços da Petrobras e todas as decisões seguiriam as práticas do mercado. Mas, naqueles dias, outro assunto começou a dominar o noticiário econômico: os ataques de Lula ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. A origem está na manutenção da altíssima taxa de juros, mas os bastidores do caso, como se verá a seguir, incluem a atividade intensa do economista na campanha de Bolsonaro.
Tudo começou no dia 18 de janeiro. O presidente Lula deu uma entrevista à jornalista Natuza Nery[1], da GloboNews, em que criticou a política monetária, o sistema de meta de inflação e a autonomia do Banco Central, uma medida aprovada em 2021. A crítica de Lula à autonomia do BC surgiu por sua própria iniciativa, sem que a jornalista a tivesse provocado, o que foi interpretado como um sinal de que o presidente desejava deliberadamente colocar o assunto em discussão. No dia seguinte, Campos Neto, que estava prestes a completar quatro anos à frente do BC, disse que o mercado seria muito mais volátil se a autonomia do banco não estivesse prevista em lei, o que deixou Lula ainda mais irritado. O presidente não acreditava que Campos Neto atuasse de forma independente.
A desconfiança vinha de antes. Embora Campos Neto ocupasse cargo técnico e independente, chegou aos ouvidos de Lula que o economista trabalhara ativamente na campanha de Bolsonaro, inclusive na captação de dinheiro – acusação que o PT nunca conseguiu provar. Nos dois turnos da eleição, Campos Neto votou vestido com a camiseta do Brasil, o uniforme usado pelos eleitores de Bolsonaro. Na primeira reunião que teve com Lula, ainda antes da posse, em dezembro, Campos Neto não fez questão de distensionar o clima diante de sua movimentação na campanha. Um assessor de Lula, que ouviu queixas do presidente, disse que o economista comportou-se com “soberba”.
Apesar de tudo, Haddad entendia a política de juros vigente e apostava que o cenário econômico logo permitiria o começo de um ciclo de queda. Ele acreditava na boa-fé de Campos Neto. Em 2022, num dos eventos promovidos pela Esfera, Haddad comentou numa roda de empresários que o economista era a única coisa do governo Bolsonaro que “prestava”.
Em fevereiro, porém, veio a gota d’água. O Copom fez sua primeira reunião sob o governo Lula e não cortou os juros. Além da autonomia do BC, Lula passou a atacar Campos Neto. “Eu vou esperar esse cidadão terminar o mandato dele para fazer uma avaliação do que significou um Banco Central independente”, disse, em entrevista à Rede TV. No fim do ano passado, o mercado já achava que um ciclo de queda poderia começar em junho de 2023, mas a ata da reunião de fevereiro nem indicou essa tendência. Diante disso, Lula perdeu a paciência. “O que mudou?”, disse ele, numa conversa reservada. “A gente tá aqui há trinta dias. Não conseguimos nem errar ainda.” A explicação do mercado é que o próprio Lula havia mudado as perspectivas. Com suas declarações contrárias à responsabilidade fiscal, a curva de juros futuros subira, acompanhando a desconfiança dos investidores, o que, em certa medida, obrigava o BC manter o aperto monetário.
As coisas azedaram ainda mais quando o jornal Folha de S.Paulo publicou a fotografia de uma tela de celular mostrando que Campos Neto continuava participando de um grupo de WhatsApp formado por ex-ministros de Bolsonaro. Mais tarde, em entrevista ao programa Roda Viva, ao ser questionado sobre seu traje na eleição, Campos Neto respondeu que o voto “é um ato privado” e mudou de assunto.
O envolvimento de Campos Neto com a campanha bolsonarista, no entanto, foi maior do que se sabia até agora. Em entrevistas separadas, quatro fontes com acesso aos bastidores da campanha contaram à piauí que Campos Neto, ao mesmo tempo em que comandava a autoridade monetária, produziu um modelo matemático de pesquisas eleitorais capaz de orientar o núcleo duro de apoio ao presidente. Era um agregador de dados estaduais que, na sua visão, gerava resultados mais precisos do que os dados nacionais. Em determinado momento, a campanha de Bolsonaro começou a questionar as diferenças entre as pesquisas. Nos levantamentos nas cinco regiões, Bolsonaro não saía do lugar ou até caía. Quando se analisava os dados por estado, no entanto, seu desempenho melhorava. A diferença decorria de uma distinção metodológica. Campos Neto montou, então, um agregador para neutralizar a diferença e fazer cálculos de checagem de probabilidade.
O mercado já vinha acompanhando de perto as discrepâncias entre regiões e estados, esperançoso de que Bolsonaro pudesse ultrapassar Lula. Campos Neto acabou disponibilizando esse tipo de análise à campanha do então presidente. Ao agregar os dados estaduais, concluíra que, entre todos os institutos de pesquisa, o Instituto Paraná estava mais alinhado com aquilo que levantara. Como já estava enfronhado no assunto, o economista também produziu análises para auxiliar a candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo.
Os dados de Campos Neto abasteciam a campanha de Bolsonaro e acabavam vazando para o mercado. “Muita gente da própria campanha acreditava mais no modelo do Roberto do que no próprio tracking que eles contratavam”, diz uma das fontes ouvidas pela piauí, que acompanhava a evolução das pesquisas. Na Faria Lima, o agregador de Campos Neto também fazia sucesso e servia como bússola para os investidores. Embora Lula aparecesse na liderança em todas as pesquisas de institutos credenciados no Tribunal Superior Eleitoral, o mercado, faltando mais de uma semana para o pleito, começou a precificar a hipótese de uma virada pró-Bolsonaro. As ações de estatais começaram a subir e os juros futuros passaram a cair.
Os levantamentos do presidente do Banco Central apontavam que Bolsonaro tinha chance de ganhar porque estava avançando sobre Lula em São Paulo. Segundo uma das fontes da piauí, as pesquisas de Campos Neto informavam que Bolsonaro tinha de 14 a 16 pontos de vantagem sobre Lula no eleitorado paulista, uma margem que lhe garantiria a vitória no segundo turno. No final, o número apurado estava abaixo da previsão do economista. A diferença foi de 10 pontos.
Procurado pela piauí para falar de sua colaboração com a campanha de Bolsonaro, Campos Neto enviou uma nota por meio da assessoria de imprensa do BC. Diz o seguinte: “O presidente Roberto Campos Neto não encomendou qualquer pesquisa ou agregador de pesquisas eleitorais e, portanto, não encaminhou tais produtos à campanha de qualquer candidato nas eleições de 2022. O presidente e alguns diretores acompanhavam a divulgação das pesquisas de vários institutos como espectadores do processo eleitoral.” As quatro fontes da piauí confirmam a versão que contaram à revista. Uma delas, que recebia as projeções feitas por Campos Neto, acrescenta: “Acho que o Roberto não tinha noção da gravidade do que estava fazendo.”
No final, Bolsonaro não culpou Campos Neto pela previsão errada. Sua campanha acredita que o economista estava certo, mas o cenário mudou quando dois bolsonaristas resolveram pegar em armas. Em 23 de outubro, uma semana antes do segundo turno, Roberto Jefferson disparou cinquenta tiros e três granadas contra agentes da Polícia Federal. Seis dias depois, na véspera do segundo turno, Carla Zambelli sacou uma pistola e perseguiu um homem pelas ruas de São Paulo. Um coordenador da campanha, que pediu para não ser identificado, contou que a fuzilaria de Jefferson tirou cinco pontos de Bolsonaro. “Depois do Jefferson, não conseguimos mais empatar. No decorrer da semana, até conseguimos chegar muito perto. Mas aí veio a Zambelli. E São Paulo vota em segurança pública”, diz esse interlocutor.
De início, a grita de Lula contra o Banco Central parecia uma barbeiragem, com um agravante: ele dizia que, se não podia mudar os juros, tinha o poder de aumentar a meta de inflação (de 3,25% para 4,5%). A grita no mercado e no Congresso foi imediata. Os presidentes da Câmara e do Senado logo vieram a público reforçar que nada deveria mudar, e a base parlamentar do governo não tinha músculos para alterar a lei da autonomia. O PT, entendendo o recado de Lula, montou sua artilharia contra Campos Neto ao exibir uma série no YouTube com o título: Banco Central de Bolsonaro: o Sabotador da Economia Brasileira. Gleisi Hoffmann, presidente do partido, dizia em suas redes que Campos Neto deveria pedir demissão. “Esse cara tem que explicar os juros”, disse ela, num evento em março. “Vai ficar assim até o final do ano? Isso acaba com qualquer possibilidade de investimento privado no país.”
Aos poucos, o que parecia um discurso aloprado começou a ganhar tração entre as famílias, cujo consumo é afetado pelos juros, e mesmo entre os empresários bilionários – aqueles que se reuniriam em maio na casa do senador Rodrigo Pacheco com críticas ácidas à política de juros de Campos Neto. Em um evento público, em março, o empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Fiesp, disse que a taxa de juros no Brasil era “pornográfica” e precisava cair. A maré estava virando.
No meio da barafunda, Haddad tentou se preservar. Entendia que o problema não seria resolvido em público, na base de um debate áspero, e era pessoalmente contra a subida da meta de inflação. Optou por ficar quieto, sem se opor aos ataques de Lula e sem integrar a frente de combate ao BC, deixando esse papel para outros colegas de governo, como o vice Geraldo Alckmin e a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. Os dois falaram mal dos juros, mas não de Campos Neto. A posição equilibrada de Haddad – tucana, diriam os críticos – abriu espaço para o fogo amigo, que tentava queimá-lo desde o momento em que assumiu a pasta.
As caneladas indiretas vieram de Gleisi Hoffmann e do grupo de economistas que fora preterido na montagem do novo governo, sobretudo Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, e seu grupo de assessores, entre eles André Lara Resende, que havia ganhado prestígio entre os petistas por ser um ex-tucano recém-convertido ao ideário do PT. Também se postaram na trincheira contra Haddad os economistas considerados “heterodoxos”, como Paulo Nogueira Batista Jr. e Ricardo Carneiro, que chegou a escrever um artigo sobre o pacote fiscal de 12 de janeiro. Enquanto o mercado considerou a iniciativa excessivamente tímida, Carneiro disse que era tão restritiva quanto o torniquete fiscal do período de Pedro Malan, ministro da Fazenda de FHC entre 1995 e 2003.
A insatisfação dessa ala com a condução de Haddad era tanta que, em meio às discussões do novo regime fiscal no Congresso, Lara Resende comandou um seminário no BNDES sobre o assunto, ainda que a instituição não tenha qualquer prerrogativa para definir a política fiscal. No dia do seminário, a imprensa foi informada que o evento acontecia com o aval do Ministério da Fazenda, embora em nenhum momento Haddad tivesse sido consultado sobre a iniciativa. Dentro do PT, em conversas privadas, Haddad era chamado de “elitista” porque, entre outras coisas, defendia o aumento do preço dos combustíveis.
Quando estava na Índia participando de um encontro do G20, assim que expirou o prazo de sessenta dias definido por Lula para a reoneração, Haddad foi surpreendido por um tuíte de Gleisi Hoffmann criticando a medida defendida pela Fazenda. Ficou irritado. Mas engoliu a ira, ligou para a petista e, em tom amigável, perguntou o que estava acontecendo. Hoffmann se fez de desentendida. No auge da disputa, Campos Neto chegou a dizer a um interlocutor que, na prática, o governo tinha três ministros da Fazenda – Haddad, Gleisi e Mercadante.
Quando apresentou sua proposta de regime fiscal a Lula, Haddad ouviu um conselho e uma ordem, segundo um interlocutor que acompanhou as discussões. “Ele mostra pro Lula, e o Lula diz: ‘Agora, você tem que convencer o governo. Apresenta tua proposta, seja ministro.’” Haddad então conversou com Gleisi e com Rui Costa, o ministro-chefe da Casa Civil. “A Gleisi e o Rui foram para cima dele”, diz o interlocutor, aludindo à oposição de ambos ao pacote do ministro.
Em março, Lula entrou em campo para encerrar o tiroteio e, pela primeira vez, defendeu Haddad publicamente quanto à discussão sobre a reoneração dos combustíveis – uma defesa que, até então, se dava apenas a portas fechadas. Um assessor palaciano que acompanhou os bastidores afirma: “Mercadante e Gleisi atrapalharam demais naquele momento, até março, mais ou menos. Quando o Lula arbitrou em favor do Haddad na questão dos combustíveis, houve uma virada importante. O Lula quis dizer: galera, parou, deixa o Haddad trabalhar. Aí ficou claro que ele era o ministro.”
O fogo amigo foi pouco a pouco se apagando, mas ainda em abril surgiam faíscas. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) disse numa entrevista à Folha que a proposta era “um pacto com o diabo” e comparou Haddad a Riobaldo, o personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. “Riobaldo tenta vender a alma ao Diabo e o Diabo nem responde.” Lindbergh depois telefonou para o ministro para pedir desculpas. Afirmou que não era bem assim e não sabia que sua fala teria tal repercussão, e Haddad optou por baixar a fervura. A atitude foi apreciada pelos grupos mais radicais do PT.
Indagado pela piauí se subscrevia as críticas do PT às medidas de Haddad, Aloizio Mercadante mandou uma nota com nove parágrafos, fazendo todo um histórico sobre o contexto político da eleição presidencial, e disse: “Nesses primeiros meses, o êxito da política econômica se revela no avanço do novo arcabouço fiscal e no debate sobre a reforma tributária, ambos foram compromissos programáticos de campanha. O ambiente macroeconômico melhorou expressivamente, a inflação está dentro da meta, o câmbio se valorizou, a Bolsa superou o patamar de 120 mil pontos e as agências de riscos melhoraram o rating do Brasil.”
Com seu poder vitaminado, Haddad continuou benevolente com a posição de Campos Neto, mas em meados de junho chegou ao seu limite. Naquele mês, o Copom voltou a se reunir e não só manteve a taxa de juros intacta como emitiu um comunicado duro, indicando que a situação econômica não permitia respiros. Todo mundo sabia que os juros não cairiam na reunião de junho, mas, diante do avanço no campo fiscal, do recuo da inflação e da melhora da classificação de risco do Brasil, a dureza do comunicado irritou a equipe econômica. No dia seguinte, em conversa com um interlocutor, Haddad desabafou: “Eu sempre confiando na possibilidade de trazer o cara [Campos Neto] para o projeto. Mas sinto uma dificuldade. Os IGPs [índices de inflação] estão todos deflacionados, todos os indicadores favoráveis, e você fica assim: ‘pô!’”, disse, com ar exasperado.
Campos Neto passou a apanhar de todo mundo: do empresariado, da imprensa e, pela primeira vez, nas rodas da Faria Lima. Naqueles dias, em conversa reservada com a piauí, na qual pediu o anonimato, o gestor de um grande fundo que votou em Bolsonaro em 2018 e 2022 – em razão de Paulo Guedes – confidenciou: “Espero que essa questão não esteja subindo à cabeça do Roberto. O Brasil está precisando desafogar para dar um pouco de respaldo ao que o Haddad está fazendo”. Uma semana depois, o Copom divulgou a ata da reunião. Se o comunicado fora duro, a ata tinha outro tom. Trazia uma visão otimista do cenário econômico e sugeria o corte dos juros em agosto.
Para amenizar as dificuldades, Haddad indicou seu secretário executivo, Gabriel Galípolo, para integrar a diretoria do Banco Central, ocupando a cadeira de diretor de Política Monetária. Seu nome foi aprovado pelo Senado em julho. Galípolo não tem experiência no tema ou na tesouraria de instituições financeiras, mas é um articulador hábil, tem excelente formação econômica e tem sido apontado como um potencial sucessor de Campos Neto, cujo mandato termina no ano que vem.
Durante seu período como prefeito de São Paulo, entre 2013 e 2017, Fernando Haddad montou uma equipe econômica com nomes de sua preferência pessoal. Quando chegou a Brasília, resolveu fazer a mesma coisa – e o mundo caiu em sua cabeça. Apanhou do PT, que queria uma equipe formada por nomes históricos da Fundação Perseu Abramo, a entidade de debates e estudos ligada ao partido. E apanhou do mercado, que esperava uma equipe com economistas do mainstream. Criou ondas de choque na Faria Lima quando, para a Secretaria de Política Econômica, ocupada por Marcos Lisboa na gestão de Palocci, designou Guilherme Mello, ex-Unicamp, considerado um “heterodoxo” e muito próximo da ala ideológica do PT. Para o mercado, era mau agouro.
Um ex-diretor do BC, que hoje trabalha no mercado financeiro, descreve a temperatura daqueles dias. “O preconceito era: o cara [Haddad] é prepotente porque estudou filosofia e tal. Mas parece que não é isso. Ele montou uma equipe muito personalista, com exceção do Mello. O resto era gente que estava com ele na prefeitura.” A impressão, porém, não demorou a mudar. “Antes, fazíamos reunião com o Mantega [Guido Mantega, ministro da Fazenda de 2006 a 2015] e ele ficava de cara feia tratando a gente como inimigo de classe. O Haddad vai para São Paulo nas sextas-feiras para se reunir com o mercado. O mercado gosta de carinho. Por isso faz romaria a Brasília para conversar com o pessoal do BC.”
A boa comunicação com o mercado aplainou o caminho, mas Haddad precisava de mais do que um caminho aplainado. Tinha a tarefa de substituir o teto de gastos – política adotada no governo de Michel Temer e odiada por Lula, que, já na campanha, prometeu enterrá-la – por um novo regime fiscal. Dogma dos liberais, o teto de gastos virara quase um xingamento dentro do PT porque, ao limitar os gastos públicos a um certo patamar, acabava resultando em cortes nas verbas discricionárias – ou seja, programas sociais e investimentos – já que todo o resto era composto de despesas obrigatórias.
No governo Bolsonaro, Paulo Guedes furou o teto cinco vezes e, ainda assim, fez múltiplos cortes em projetos sociais, como o Farmácia Popular e o Mais Médicos. Ao assumir, Haddad avisou que um novo regime seria construído com o Congresso, mas sua base seria aumento da arrecadação, e não corte de gastos. O dinheiro não viria da criação de um novo imposto, mas do fim de benefícios tributários setoriais. Em outras palavras, contribuintes que recebessem descontos tributários injustificados teriam de pagar mais – coisa que o empresariado e o mercado não gostam de ouvir.
Numa entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, em julho, Haddad desenvolveu seu raciocínio. “Você acha que um brasileiro que é rico, tem residência no Brasil e dinheiro fora, não tem que pagar pelo rendimento de um fundo offshore pessoal? Por quê? Qual é o sentido? E os fundos exclusivos, em que uma pessoa delega as cotas para os seus descendentes e não paga imposto de renda nunca? São coisas que chamam a atenção do mundo sobre o Brasil. O trabalhador hoje está isento [de imposto de renda], graças ao presidente Lula, até 2 640 reais. Você ganhou 2 650 reais, já paga. E uma pessoa que ganha 2,640 milhões de reais está isenta? Como um país com tanta desigualdade isenta o 1% mais rico da população? Qual vai ser o dia em que nós vamos olhar para o problema e resolvê-lo?”
“Em nenhum momento a crítica ao que o Haddad apresenta é de que a direção está errada, e sim de que vai ser muito difícil”, diz um dos principais conselheiros do ministro, que pediu para ficar anônimo para não criar ruído interno. O desenho da nova política fiscal foi feito com a equipe que ingressava na Fazenda, em especial o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, ex-auditor fiscal, outro que trabalhou com Haddad na Prefeitura de São Paulo. Bernard Appy, que estivera no primeiro governo Lula, cuidaria da reforma tributária. Como não queria fazer cortes, Haddad precisava então aumentar a arrecadação. Um interlocutor relata um diálogo que teve com o ministro sobre o assunto. “Eu compreendo a correlação de forças, mas nossa agenda está colocada”, disse Haddad. “Os liberais querem orçamento equilibrado. Onde vai cortar? No salário mínimo ou no gasto tributário? Eu não vou ser infiel à minha formação. A minha formação é de que o problema estrutural do Brasil é a desigualdade. Como é que eu vou cortar salário mínimo mantendo gasto tributário sem justificativa?”
A equipe definiu três prioridades. A primeira seria a mudança do chamado “voto de qualidade” no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), o conselho formado por governo e entidades privadas cuja atribuição é julgar as grandes disputas tributárias no país. No governo Bolsonaro, o voto de qualidade tornou-se uma prerrogativa dos devedores privados. Isso significa que, quando havia empate, o voto de desempate cabia ao representante dos devedores, o que, naturalmente, resultava em decisões sempre favoráveis às empresas e contrárias ao governo. Foi um presentaço que Paulo Guedes deu aos empresários. Melhor que isso: a regra de Guedes instituiu que o governo, mesmo quando derrotado, não podia recorrer à Justiça. Nem mesmo quando perdia em casos bilionários.
Haddad, em uma de suas primeiras medidas no cargo, sugeriu devolver o voto de qualidade ao representante do governo no Carf, mas permitindo que as empresas devedoras, quando derrotadas, recorressem à Justiça. Claro que tirar o poder do PIB não era lá uma medida muito popular entre a elite empresarial. Haddad combinou o jogo com Arthur Lira e com o setor privado – ou seja, os grandes devedores. João Camargo, da Esfera e da CNN Brasil, fez a ponte, junto com os advogados Roberto Quiroga e Marcus Vinicius Furtado Coêlho. Para avançar nesse ponto, Haddad se comprometeu a fazer tudo pela reforma tributária. Deu certo. Conseguiu reverter a mamata dos devedores no Carf e a reforma foi aprovada em julho. Nas contas da Fazenda, só a mudança no Carf deve render ao governo 100 bilhões de reais.
As outras duas prioridades estavam no âmbito da Justiça. Uma envolvia mudar a base de cálculo do PIS/Cofins dos bancos. A outra debatia se as empresas poderiam contabilizar como lucro os descontos que recebiam do ICMS. Neste caso, o relator da ação no STF era o ministro André Mendonça, nomeado por Bolsonaro para a vaga de “terrivelmente evangélico”. Como Mendonça já havia decidido a favor das empresas, Haddad procurou o ministro, explicou o ponto de vista do governo e conseguiu convencê-lo. Ganhou os dois casos que, juntos, podem render cerca de 180 bilhões de reais, valor fundamental para tornar crível sua lógica de fazer o ajuste fiscal, não por meio de cortes, mas pela via do aumento de receita.
Fernando Haddad só conheceu Arthur Lira no final de 2022, quando ambos se encontraram para negociar a PEC da Transição. Nesses primeiros sete meses de governo, os dois chegaram a um terreno comum e formaram uma dupla improvável. As negociações conseguem avançar mesmo que a liberação de emendas e cargos, a moeda clássica para a compra de apoio em Brasília, não avance no ritmo voraz ditado pela fome do Centrão. Lira gosta da deferência que Haddad lhe faz. Aprecia sentir-se contemplado nas decisões e, em última instância, o jogo ajuda Lira a mudar de assunto sempre que seu nome aparece em denúncias de corrupção e desvio de dinheiro público. Antes de apresentar o novo regime fiscal, conhecido como “arcabouço”, Haddad fez questão de ir até Lira para expor as linhas gerais e colher sugestões. Fez o mesmo com Pacheco.
Bruno Dantas, o presidente do Tribunal de Contas da União, uma das pessoas consultadas sobre o regime fiscal, elogia a forma como as coisas foram conduzidas. Segundo ele, suas sugestões sobre o limite de gasto individualizado para os três poderes foram discutidas e acatadas. “Quando eu tive contato com o arcabouço fiscal pela primeira vez, eu pensei: vai dar certo. O Haddad soube ordenar os temas de maneira racional. É isso que um negociador faz. O negociador não é quem impõe sua visão, é quem ordena todos os temas que vai ter que lidar e, quando chega o tema complexo, ele tem crédito para negociar.”
Em conversas com amigos, Haddad tem dito que o Congresso de hoje é muito diferente daquele com o qual lidou quando foi ministro da Educação. Em razão das emendas impositivas, está mais independente. Além disso, os temas do Ministério da Fazenda são de outra natureza. “A agenda econômica é muito mais difícil porque dialoga diretamente com os interessados. Não tem mediação”, disse ele. É o contrário do que acontece com a educação, ou mesmo com temas municipais, como o urbanismo, em que a negociação se dá com intermediários. “A economia é mais desafiadora.”
Em maio, quando a Câmara aprovou a urgência para votar o arcabouço fiscal, Haddad fez questão de ir à casa de Lira. “Fui agradecer ao presidente Arthur Lira, sentir dele o clima para a semana e se podemos ajudar. Mas senti que ele está muito animado e muito confiante”, disse Haddad aos jornalistas. Quando o texto foi aprovado com 372 votos, Haddad deu uma entrevista coletiva dividindo os louros da vitória com Lira e Pacheco. “Ele fica muito à vontade nesse papel de articulador”, diz um petista, que integra a ala dos aliados do ministro. Quando, no final de julho, a agência Fitch elevou a nota do Brasil, um mês após a Standard and Poors ter feito o mesmo, Haddad evitou chamar o mérito para si e disse que “a harmonia entre os poderes é a saída”.
Lira, por sua vez, parece encantado com a habilidade de Haddad. Também estava feliz com o então secretário executivo, Gabriel Galípolo. Ao pautar um tema econômico no Congresso, Haddad primeiro procurava Lira. Em seguida, Galípolo conversava com agentes do mercado. Quando o assunto aportava no Congresso, já estava pacificado com Lira e com o mercado, que se sentia “parte do jogo”, e não um mero espectador. O novo regime fiscal foi construído assim. “Haddad veio para São Paulo, conversou com os bancos e viu a importância de ter um arcabouço que também contemplasse o que o mercado entendia como necessário. O arcabouço veio construído com cara de consenso”, diz Lucas de Aragão, da Arko Advice, uma consultoria política.
O prestígio de Haddad junto a Lira já produziu cenas raras. Em conversa com um destacado nome da Faria Lima, que criticou incongruências na medida que tributava contas de brasileiros em paraísos fiscais, Lira surpreendeu e, em vez de comprar a versão do PIB de primeira, como é habitual, saiu em defesa da medida. “O Haddad e o Galípolo já me explicaram isso e eu confio neles”, disse ele, segundo o relato de um interlocutor que testemunhou a conversa. A coisa funciona tão bem que os burocratas de Brasília dizem que Haddad construiu um túnel entre o Ministério da Fazenda e a presidência da Câmara.
Quem acompanha o poder em Brasília avalia que a ausência de uma base governista consolidada, associada às emendas impositivas, o Palácio do Planalto dispõe de pouco poder de barganha para convencer os parlamentares sobre pautas mais caras à esquerda. Daí o avanço das agendas que a centro-direita considera importantes. Um auxiliar dos governos Temer e Bolsonaro ouviu de Arthur Lira, num evento em Nova York, no início de maio, que o governo não iria mexer na autonomia do BC, na reforma trabalhista, no marco do saneamento e tampouco na reforma da previdência – pleitos que o PT defendia com estardalhaço durante a campanha. Lira falou com a segurança de quem manda. “Isso está pegando bem para o investidor externo”, diz o auxiliar. “Há uma narrativa radical que o governo não pode entregar.”
A relação de Lira e Haddad aprimorou-se dentro de um vácuo. Em seu terceiro mandato, Lula tem adotado uma posição diferente dos mandatos anteriores. Só conversa com os presidentes das casas legislativas, raramente recebe deputados no palácio, coisa que fazia à exaustão nos mandatos anteriores, e tem se colocado acima do balcão das negociações. A distância acaba minando o poder dos articuladores políticos do próprio governo. “Lula está muito mais envolvido na agenda internacional. Se tornou um político que fica acima da briga”, define um auxiliar que acompanha a agenda externa do presidente. Haddad aproveitou esse espaço, foi à luta com o Congresso e, em certa medida, acabou rivalizando com Rui Costa, o ministro que, em sua missão de negociar com os parlamentares, vem colhendo derrotas e inimizades.
No início do ano, Rui Costa apresentou um decreto para desfazer o Marco Legal do Saneamento Básico, que fora aprovado no governo anterior com amplo apoio de Lira e do Centrão. Mais do que atender a posição do PT contrária à entrada do setor privado no saneamento, o projeto beneficiava aliados de Costa na Bahia, estado que governou desde 2015. O decreto chegou sem discussão prévia, todo mundo sabia que tinha chances escassíssimas de ser aprovado, mas Costa insistiu e o governo sofreu uma derrota que só não foi mais humilhante porque Lira flexibilizou algumas regras da privatização do setor. Ao final do processo, o deputado colocou lenha na fogueira e disse à imprensa que preferia Haddad a Costa na Casa Civil.
As rusgas entre os dois ministros na articulação política são uma reedição do antagonismo entre Palocci e José Dirceu no primeiro mandato de Lula. Palocci era o amante da agenda neoliberal. Dirceu era o porta-bandeira dos valores históricos do PT. Lula gostava de arbitrar as desavenças e avaliava que o resultado delas era um governo melhor. Na cerimônia dos cem dias de governo, fez a primeira defesa pública da nova política fiscal, dando a senha para que o PT deixasse Haddad em paz. E sintetizou a razão de manter em seu entorno petistas com visão mais radical. “Tudo que eles falam, certamente você não vai fazer, mas eles não te permitem ir para direita.”
Para tocar sua jornada no governo, Fernando Haddad conta com um trunfo enorme: tem uma relação com Lula que transcende a política. “Ele nunca se distanciou do Lula. É uma relação quase paternal”, diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho, ao lembrar que, no período da Operação Lava Jato, os maiores aliados de Lula “cabiam numa Kombi” – e Haddad estava na Kombi. A afinidade entre os dois começou a se aprofundar quando Haddad foi secretário executivo de Tarso Genro no Ministério da Educação. Quando Genro deixou o cargo para assumir a presidência do PT, Haddad foi seu substituto natural. E encantou Lula com os projetos de facilitar a educação dos mais pobres.
Em 2012, Lula empenhou-se na campanha vitoriosa de Haddad para prefeito de São Paulo. Uma vez eleito, ele enfrentou uma oposição do próprio PT, que o acusava de distanciar-se da militância e implementar um programa mais parecido com o do então governador tucano Geraldo Alckmin. Seu secretário de Finanças, Marcos Cruz, era um profissional de mercado, fora indicado pelo empresário Jorge Gerdau e tinha a missão de arrumar as contas, não de atender às demandas do PT. (De tão bombardeado, Cruz deixou a prefeitura antes do fim do mandato. Escaldado, recusou convite para trabalhar no Ministério da Fazenda.) Já no seu primeiro ano como prefeito, Haddad enfrentou um terremoto inesperado: o estouro das Jornadas de Junho, os protestos iniciados contra o aumento do transporte público.
Em uma reunião em Brasília sobre o preço das tarifas, Haddad queria compensar o buraco de caixa caso não pudesse aplicar o reajuste. Propôs municipalizar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), imposto federal sobre combustíveis. A presidente Dilma Rousseff não queria o aumento das tarifas dos ônibus, com receio de gerar inflação, e tampouco queria transferir a Cide para o município, temendo que resultasse em aumento da gasolina, o que também acabaria produzindo inflação. Em artigo publicado na piauí_129 (Junho de 2017), sob o título Vivi na pele o que aprendi nos livros, Haddad rememorou a época: “Alguma coisa estava muito errada: não se pensa em controlar a inflação de um país continental pelo represamento de uma tarifa municipal sem atravessar estágios intermediários e sucessivos de uma compreensão equivocada. Não se chega a um erro deste tamanho sem ter feito um percurso todo ele equivocado. Não se produz estabilidade macroeconômica por intervencionismo microeconômico.”
Chamuscado pelos estilhaços de 2013 e pelo efeito radioativo da Lava Jato sobre o PT, quatro anos depois, Haddad perdeu a reeleição no primeiro turno, cravando o pior resultado do partido na capital paulista em vinte anos. Saiu criticado por petistas e rejeitado pelo eleitor tucano de São Paulo, que elegeu João Doria. “Ele soube lamber as feridas, entender esse processo e se reciclou. Passou tudo que passou com Lula, se credenciou para ser o advogado dele, visitava-o na prisão, retomou as pontes com o PT, reconquistou a militância, virou candidato, tomou um banho de povo e mudou. Virou o ‘Andrade’, que terminou se mostrando um hábil articulador político”, diz Marco Aurélio de Carvalho, aludindo ao apelido com que o eleitorado nordestino se referia a Haddad em 2018. “Ele voltou da Bahia, do Rio Grande do Norte muito impactado com o que viu.”
A convivência equivaleu a um doutorado sobre como lidar com Lula. Haddad não pergunta o que sabe que ele não quer responder, e conhece muito bem suas posições. Quando a proposta do arcabouço foi assimilada pelo mercado e a reforma tributária estava prestes a ser aprovada na Câmara, Lula, que não é afeito a elogios públicos aos subordinados, não escondeu sua admiração. Em sua forma peculiar de demonstrar contentamento, Lula termina as reuniões dizendo: “Haddad, você resolve isso”, mesmo quando o tema não tem conexão com a Fazenda. Na definição de um interlocutor do ministro: “Haddad virou uma caixa de ferramentas do Lula.”
Com isso, o ministro passou a integrar o restrito grupo das pessoas com liberdade para aconselhar e até criticar Lula – clube exclusivo que inclui a primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, e o embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais. Haddad está tão confiante que, em algumas ocasiões, enviou Gabriel Galípolo no seu lugar para reuniões com Lula. Além de Galípolo, só goza desse prestígio a atual secretária executiva da Casa Civil, Miriam Belchior, ex-ministra e quadro histórico do PT.
Galípolo estabeleceu sua própria relação com Lula. Em 2021, começou a ser convidado para reuniões virtuais em torno da pré-candidatura do petista, como representante do mercado. Como estava ocupado com sua corrida ao governo de São Paulo, Haddad não comparecia, mas Galípolo estava lá. Como os encontros eram secretos, o economista não falava sobre eles com Haddad, que só soube de sua presença durante o Natal dos Catadores de Lixo, promovido pelo padre Júlio Lancellotti. Lula e a cúpula petista estavam no evento. Quando viu Galípolo no local, Haddad quis apresentá-lo a Lula. Ouviu do presidente: “Eu sei, eu que chamei ele aqui.” Lula até se referiu a Galípolo em seu discurso aos catadores: “Esse dia de hoje está muito interessante porque aqui a gente tem um banqueiro que está do nosso lado nessa briga por reconstruir a democracia.”
Como fez carreira num banco menor, o Fator, e não tem experiência em tesouraria, Galípolo não era considerado um expoente destacado do mercado, segundo os economistas ouvidos pela piauí. A maioria dos entrevistados contou que nem conhecia seu nome até a campanha eleitoral. Mas a boa impressão que vem causando é inversamente proporcional à fama. “Ele é faixa-preta em social skills”, diz um ex-colega de ministério, falando de seu bom desempenho nas relações sociais. Embora tenha feito sua aparição pública assinando um artigo heterodoxo sobre “moeda única” no Mercosul ao lado de Haddad na Folha de S. Paulo há cerca de um ano, Galípolo acabou incorporando a função de intérprete entre o governo e a Faria Lima, desfazendo ruídos de comunicação – e, discretamente, ajudou a reduzir os níveis de ansiedade do mercado quando Haddad foi escolhido. E assim ganhou sua cadeira na cúpula do Banco Central.
Durante a apuração desta reportagem, a grande maioria dos economistas dos maiores bancos e gestoras do país preferiram falar sob anonimato. Temem que seus elogios tenham validade curta numa gestão que apenas começa. Vai que as coisas desandem mais adiante. Os críticos também evitam falar publicamente. Neste caso, o receio é outro: a síndrome do beato Salu. É uma referência a um personagem carrancudo e amalucado de uma novela da Globo. Na década de 1990, quando saiu o Plano Real, um economista chamado Paulo Guedes criticou a proposta, prevendo seu fracasso. O plano, como se sabe, livrou o Brasil do tormento da inflação – e o apelido de beato Salu grudou em Guedes. Agora, quem criticou Haddad na largada não quer bancar o beato e fazer novas avaliações definitivas. O fato é que a maioria dos críticos mudou de opinião.
José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, é um dos poucos que fala em público para dizer que está entre a “crítica” e o “alívio”. Ele prefere o teto de gastos ao arcabouço fiscal, tem dúvida sobre os efeitos da reforma tributária e ainda não entende de onde o governo vai tirar recursos para gerar superávit nos próximos anos sem aumentar impostos. Ainda assim, Camargo diz que está muito menos pessimista do que antes. “Agora pelo menos há um norte, conseguimos fazer contas. Agora sabemos que lá no ministério não há um bando de malucos sem compromisso com a responsabilidade fiscal, o que é reconfortante.”
As coisas andam tão auspiciosas que até ex-integrantes da equipe de Guedes têm dito que Haddad está fazendo bonito – mas em razão de uma herança bendita. Dizem que o ministro está “comprando as mesmas brigas que nós”, “independe de posicionamento ideológico” e “tem a ver com a gestão do erário”. Guedes, por sua vez, evita comentários públicos. Em privado, também atribui os bons resultados ao seu trabalho, mas não esconde a irritação quando a internet resgata vídeos do passado que debocham de suas previsões apocalípticas. A mais popular é sua entrevista ao youtuber Thiago Nigro, concedida em 2021, em que disse que o Brasil viraria a Argentina em seis meses e a Venezuela em um ano e meio se a política econômica fosse conduzida de forma “errada”. Estava se referindo a uma eventual gestão do PT.
Entre os empresários e financistas, também há poucos falantes. Abilio Diniz, que financiou as candidaturas de Tarcísio de Freitas e Rodrigo Garcia, adversários de Haddad, elogia “a habilidade política” do ministro e seu foco em “equilibrar todos os pratos que lhe deram”, como “garantir o equilíbrio fiscal, melhorar os gastos sociais, estimular a economia, atender aos anseios de governo, parlamentares, trabalhadores e empresários”. Guilherme Benchimol, fundador da XP Investimentos, que votou em Bolsonaro, não fala em público mas se deixa flagrar em conversas privadas tecendo elogios à equipe econômica. Seu mantra é: “Está indo tudo muito bem, é só diminuir o ruído e aprovar as reformas, que o Brasil vai voar.”
Pedro Jobim, economista-chefe da Legacy Capital, a mais bolsonarista gestora de recursos do mercado, faz um voo próprio. Com a vitória de Lula, Jobim escreveu um artigo dizendo que o Brasil estava prestes a embarcar em “uma longa e sinistra viagem” e previu que o dólar e a inflação subiriam. Como a viagem está serena, o dólar caiu abaixo de 5 e a inflação está em queda, Jobim deu um cavalo de pau. Sua gestora, que vinha apostando na queda da Bolsa, passou a apostar na subida. Suas previsões para a inflação e o câmbio ficaram mais otimistas do que a média do Boletim Focus, publicação do Banco Central que coleta projeções de mercado. Recentemente, Jobim desdenhou de um amigo que elogiava a nova regra fiscal do governo e, em resposta, ouviu o seguinte: “Você está com previsões mais otimistas que eu!” O amigo, economista de um grande banco, falou com a piauí, desde que seu nome não fosse citado: “Sabe quando essas pessoas vão amar o Haddad? Nunca. Agora, quando aqueles que estavam tocando a trombeta do Apocalipse param de tocar e começam a escrever sobre o tema é porque estão gostando do cara. Mas não vão elogiar.”
Em seu texto mais recente sobre a economia brasileira, publicado em julho, Jobim celebrou os bons dados da economia, mas fez uma observação: nada disso é mérito do governo atual. Ele atribui todos os louros à política monetária externa e à política monetária interna, em razão da boa condução de Campos Neto à frente do Banco Central. Além disso, diz que o sucesso decorre também da contribuição do agronegócio ao PIB. Por fim, aplaude o trabalho do Congresso “contra” o governo, ou seja, evitando que o PT consiga avançar com sua agenda raiz. Jobim escreveu em seu artigo ser “provável” que as boas notícias decorram do bom trabalho do governo – de Temer e de Bolsonaro.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_203 com o título “O ministro”.
[1] A jornalista Natuza Nery está entre os sete membros do Conselho Editorial da piauí.
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