Alcolumbre: para não abandonar a cadeira da qual presidiu a sessão do Senado que o elegeu presidente, ele ficou sete horas ininterruptas sentado. Seu segredo: fralda geriátrica MARCELO CAMARGO_AGÊNCIA BRASIL_2026
O onipresente
Como Davi Alcolumbre opera – na luz e nas sombras
Camille Lichotti e Allan de Abreu | Edição 235, Abril 2026
O senador Davi Alcolumbre é um bonachão. Gosta de boa comida, boa bebida, música alegre. Na juventude, depois de encerrar o expediente na loja dos seus pais, a Shalom Autopeças, ligava as caixas de som automotivo e convocava os amigos para uma festa com música alta e bebida farta ali mesmo, na calçada da loja. Na Câmara, onde exerceu três mandatos de deputado de 2003 a 2015, costumava escapar das sessões plenárias para tomar vinho e confraternizar em restaurantes de Brasília, em especial no Dom Francisco, local tradicional da capital. Quando voltava de suas andanças pelo interior do seu estado, o Amapá, divertia os colegas mostrando vídeos das viagens, nos quais aparecia dançando brega e tecnobrega, dois ritmos populares na região.
Quando foi eleito para a presidência do Senado pela primeira vez, Alcolumbre agradeceu o apoio abraçando e beijando testas e mãos dos aliados. “Ele visita meu gabinete e se deita no sofá”, descreve o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que já teve entreveros com o colega. “Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?” Um dia, Alcolumbre se desentendeu com uma senadora e, semanas depois, apareceu num evento organizado pelo filho dela – e se esbaldou. Em que pese a desvantagem de seus quilos generosos, vestiu calção, chuteira, meião e entrou em campo. “Ele corria de um lado para o outro. É uma coisa que alegra, que gera simpatia pela pessoa”, diz o ex-senador Antonio Anastasia, hoje no Tribunal de Contas da União.
Como a política pune a arrogância e premia a simpatia, Alcolumbre tem sido um sucesso em Brasília. Depois de exercer apenas metade do mandato de vereador em Macapá, mudou-se para a capital federal ao ser eleito deputado. Em 2015, após três mandatos, trocou a Câmara pelo Senado quando venceu a eleição com 36% dos votos. Em 2019, aos 41 anos, tornou-se o mais jovem presidente do Senado, derrotando o veterano Renan Calheiros (MDB-AL). Encerrou o mandato em 2021 e, no ano passado, voltou à presidência da Casa. Com sua figura de aparência despreocupada, conta piadas, atende pequenos e grandes pleitos e leva sorvete de açaí e cupuaçu para sobremesa nos almoços com colegas.
Comerciante de origem, ele tem prazer em satisfazer o cliente. Um dia, uma assessora parlamentar do Ministério da Educação enfrentava dificuldades com o trâmite burocrático de sua licença-maternidade e recorreu à ajuda do senador, então vice-líder do governo de Michel Temer. Alcolumbre marcou uma reunião com um alto funcionário do MEC e intercedeu em favor da servidora. Deu certo. Em outra ocasião, mais recente, distribuiu canetas de Mounjaro aos colegas que duelavam com os quilos extras quando o medicamento nem circulava livremente no Brasil e custava mil reais a unidade.
Esse é um Davi Alcolumbre, o bonachão. Há outro.
Ao alto funcionário do MEC com quem tratou da licença-maternidade, pediu o favor embalado numa ameaça: “Vai ser ruim para você negar um pedido do vice-líder do governo, em pleno mês das mulheres”, disse, segundo uma testemunha, relacionando o pedido ao mês de março, época em que a conversa ocorreu.* Era uma modesta mostra de como Alcolumbre explora o peso do seu poder. Segundo o portal uol, as canetas Mounjaro de que dispunha eram um presente de um personagem radioativo, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, hoje foragido da Justiça por falcatruas no mercado de combustíveis e suspeitas de ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país. Era, outra vez, uma modesta mostra de sua rede explosiva de relações pessoais.
Alcolumbre começou sua carreira no PDT, mas logo aderiu à direita, filiando-se ao PFL, que deu origem ao DEM, que, por sua vez, virou União Brasil, essa legenda que aparece em onze de cada dez escândalos nacionais. Na transição entre o DEM e o União Brasil, quando a direita e a extrema direita varreram as urnas do país, sua vida política tomou um impulso decisivo. De início, como deputado federal, Alcolumbre restringia-se à política miúda. Integrava o chamado baixo clero, formado pela massa de parlamentares que atuam com a precisão das águias na defesa de seus interesses, mas não têm voz nas grandes questões nacionais.
Logo na estreia em Brasília, seu nome apareceu em gravações interceptadas pela Polícia Federal, nas quais o então prefeito de Macapá e um empresário atribuíam ao jovem deputado a definição de valores de emendas parlamentares destinadas a obras públicas com licitações fraudulentas. A investigação não avançou. Em 2013, reapareceu em interceptações telefônicas, desta vez em conversa com o doleiro Fayed Traboulsi, participando de um esquema de lavagem de dinheiro e desvios de fundos de pensão. As provas acabaram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.
Ainda na sua época de deputado, uma reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo mostrou que Alcolumbre usava toda a verba de combustível do seu gabinete (9,3 mil reais mensais, em valores atualizados) em postos de propriedade do seu tio Salomão, uma prática proibida por lei. Seu gabinete respondeu que a família era dona de cerca de 70% dos postos do Amapá, “sendo inviável não abastecer na empresa de parentes”. (Ainda hoje, em plena era do Pix, alguns postos da família só aceitam pagamento em dinheiro vivo.)
Na Câmara, um de seus primeiros projetos foi batizar o Aeroporto Internacional de Macapá com o nome de outro tio, Alberto Alcolumbre, já falecido. Mas sua principal ocupação era servir de mensageiro do ex-presidente José Sarney, seu mentor e aliado no Amapá. Alcolumbre frequentava ministérios e gabinetes, resolvendo demandas do ex-presidente. Era convidado para as reuniões, festas e jantares na casa de Sarney, nos quais não dava palpite, mas observava a atuação dos cardeais da política. (Seu maior ídolo já morreu. É Antônio Carlos Magalhães, que foi um baiano habilíssimo em distribuir afagos e punhaladas.)
Nas visitas de Sarney a Macapá, para onde o ex-presidente transferiu seu título de eleitor em 1990, Alcolumbre servia de cicerone. Recebia Sarney no aeroporto, testemunhava suas reuniões políticas, subia no seu palanque. A convivência, no Amapá e em Brasília, permitiu que Alcolumbre acompanhasse de perto o gradual enfraquecimento político do mentor. Em 2014, Sarney, então com 84 anos, estava inseguro quanto à sua reeleição para o Senado. A poucos meses do pleito, chegou a ser vaiado cinco vezes num evento do governo federal em Macapá.
Alcolumbre não perdeu tempo. A essa altura, com mais de uma década em Brasília, já tinha criado suas próprias conexões e não dependia tanto de seu padrinho. Em um jantar no finado restaurante Piantella, então o mais relevante epicentro político noturno de Brasília, anunciou aos correligionários do DEM que se candidataria ao Senado para enfrentar “o velho Sarney”. Argumentou que o ex-presidente estava cansado, e a população queria gente nova. De início, os colegas de partido acreditaram que era mais uma galhofa do espirituoso Alcolumbre. A ideia, porém, foi tomando corpo conforme a perda de vigor político do emedebista ficava mais evidente.
Sarney lançou um nome de sua confiança: Gilvam Borges, ex-senador pelo PMDB. O ex-presidente reuniu-se então com Alcolumbre e pediu que retirasse a sua candidatura, cedendo espaço ao apadrinhado da vez. Alcolumbre recusou. “As pessoas gostavam quando o Davi ia confraternizar na casa do Sarney. Ele entrava e já queria tomar conta da festa, beijava a careca do José Serra, agradava o pessoal”, conta Gilvam Borges. “Ele também queria fazer contribuições, mas os bispos nem sempre deixam, né? Aí ele quis se tornar bispo.”
A uma semana da eleição para o Senado, Alcolumbre ganhou o voto útil das forças de esquerda – sobretudo da família Capiberibe, historicamente ligada ao PSB – que queriam impedir a volta de Sarney. Com esse apoio decisivo, Alcolumbre venceu Gilvam Borges e deixou Sarney ressentido até hoje. No mesmo pleito, soube que seu novo aliado, Camilo Capiberibe, estava com pouco dinheiro para o segundo turno da campanha ao governo estadual. Alcolumbre ligou para um empresário de São Paulo, que foi ao Amapá e ofereceu 10 milhões de reais. Com uma condição: se eleito, Capiberibe teria que direcionar contratos na Secretaria de Educação para empresas indicadas por Alcolumbre. Capiberibe não aceitou. Perdeu a eleição.
Depois de sua vitória, Alcolumbre chegou ao Senado nos mesmos moldes de sua entrada na Câmara – sob suspeita. Na sua própria campanha, o novo senador declarara ter gastado 135 mil reais em gasolina nos postos de combustível do tio Salomão – um volume suficiente para dar doze voltas ao redor do planeta. A prestação de contas chamou a atenção do Ministério Público por “ausência de comprovantes bancários” e uso de “notas fiscais frias” – parte das quais foram emitidas por empresas da família Alcolumbre. A retransmissora do SBT, a TV Amazônia Ltda., de propriedade do tio José, pagou uma gráfica que produziu material clandestino de campanha. A afiliada da Band TV, dirigida pelo irmão Josiel, também encomendou material clandestino e emitiu nota quando a eleição já estava encerrada.
Apesar das evidências de irregularidades, o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá negou o pedido de cassação de Alcolumbre feito pelo MDB de José Sarney. Na interpretação do tribunal, não se comprovou que o senador sabia dos crimes eleitorais. Mas, como um procurador-geral eleitoral deu parecer favorável à cassação, o caso acabou chegando ao STF. Ali, tramitou sob sigilo até ser definitivamente arquivado em janeiro deste ano. A defesa do senador sustenta a legalidade dos gastos.
Ao comentar sobre o comportamento de seu antigo adversário, Gilvam Borges recorre a um verbo próprio da Região Norte: “mundiar”. Significa algo como espreitar, rondar, aturdir. “Quando tu vês uma cobra na mata cercando a presa, ela fica rondando e rondando os bichos até deixá-los zonzos. Aí, ela ataca”, compara. “O Davi mundia bem.” Mundiou Sarney, chegou ao Senado e, com a posse de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, Alcolumbre percebeu que havia mais degraus a galgar.
David Samuel Alcolumbre Tobelem – ele usa a grafia “Davi” e o sobrenome da mãe – vem de uma família de judeus marroquinos que chegaram ao Brasil no início do século XX. Seus avós maternos, ambos já nascidos no Brasil, tiveram onze filhos – entre eles, Júlia, a mãe de Alcolumbre. Os avós, Isaac Menahem Alcolumbre e Alegria Gabbay Peres, tinham uma mercearia em Macapá, mas, segundo relatórios do antigo SNI, a agência de espionagem da ditadura, fizeram fortuna com a extração ilegal de ouro em garimpos às margens do Rio Jari, na divisa entre Pará e Amapá, e o contrabando do metal até a Venezuela e os Estados Unidos.
Nos anos 1980, mantendo a tradição familiar, os tios Alberto e Salomão, o da rede de postos de combustíveis, também atuaram no comércio ilegal de ouro, de acordo com um relatório da Polícia Federal ao qual a piauí teve acesso. Em 2002, quando a avó Alegria Peres morreu, outro tio de Alcolumbre, Nissim, abriu uma briga homérica na família, que incluiu até alguns disparos de tiros – sem feridos. Nissim acusou os irmãos de sumirem com uma parte do patrimônio da matriarca, incluindo duas fazendas, 760 mil reais em joias e 8 kg de ouro, que valem cerca de 6,8 milhões de reais, tudo em valores atualizados. Nissim já morreu, mas o processo segue até hoje inconcluso.
No Amapá, a família Alcolumbre transformou-se numa potência local. Tem 35 empresas em atividade, cujo capital social remonta a 35 milhões de reais. O império dos Alcolumbre inclui 16 postos de combustíveis, 4 emissoras de rádio e tevê, 1 construtora, 1 metalúrgica, 4 empresas agropecuárias, 4 imobiliárias, lojas de variedades, 1 supermercado, 1 terminal portuário, 1 factoring e até 1 cemitério.
Da penca de tios e primos, Alcolumbre se aproximou de Pierre, filho do tio Alberto. Ele foi registrado em cartório como filho dos avós – razão pela qual é chamado de “tio Pierre”, quando na verdade é primo. Pierre é doze anos mais velho que Alcolumbre, tem três filhos e é uma alma gêmea do senador. Presença constante em bares e rodas de samba em Macapá, gosta de confraternizar e dançar. É do tipo que, quando está de bom humor, anuncia que vai pagar a conta do bar inteiro. Alcolumbre e Pierre, além de compartilharem a personalidade extrovertida, também se cruzam nos negócios.
Aos 18 anos, em 1983, Pierre abriu sua primeira empresa, um supermercado em Macapá. Seis anos mais tarde, foi escolhido presidente da Associação Comercial e Industrial do Amapá, a maior entidade empresarial do estado. Em 1990, tornou-se sócio de Júlia, mãe de Alcolumbre, em dois imóveis rurais em Macapá. No ano seguinte, deixou a Associação Comercial para comandar a Fundação Mariinha Barcellos, apelido da então primeira-dama do estado. Na época, a entidade assistencial foi alvo de uma CPI na Assembleia Legislativa por desvios de dinheiro público. A investigação acabou em pizza.
Ainda assim, Pierre tinha uma vida relativamente modesta, mas começaram a aparecer sinais nebulosos. Chegou a ser indiciado por estelionato ao vender um carro roubado no Maranhão. O inquérito acabou arquivado sem denúncia do Ministério Público. Em 1998, um relatório da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), antecessora da atual Agência Brasileira de Inteligência (Abin), apontou a suspeita de que um avião de Pierre estava arremessando drogas em um ponto às margens da rodovia BR-210, próxima de Macapá. O caso não rendeu nem um inquérito. Pierre nega categoricamente envolvimento com narcotráfico. Em nota à piauí, afirmou: “Reputo como a maior acusação que alguém pode fazer para outra pessoa quando a mesma jamais se envolveu e jamais se envolverá em situação como essa, inclusive porque sequer possuía avião.” E concluiu: “Quero lhe garantir que este documento [da SAE] não existe.” O documento, ao qual a piauí teve acesso, está no acervo do Arquivo Nacional.
O patrimônio de Pierre só explodiu depois da primeira eleição de Alcolumbre para deputado federal, em 2002. Das dezenove empresas em nome de Pierre e seus filhos, catorze foram abertas a partir de 2003, com um capital social, somado, de 19 milhões de reais. São imóveis rurais de quase 10 mil hectares, parte deles sobrepostos a um assentamento rural do Incra e a um quilombo. Uma parte das terras foi adquirida por Pierre com depósitos de dinheiro vivo na boca do caixa, feitos em Belém por uma beneficiária do auxílio emergencial pago durante a pandemia de Covid.
Nesses anos todos, enquanto o patrimônio de Pierre engordava, o de Alcolumbre seguia estável, ou até emagrecia um pouco – pelo menos no papel. Em 2014, quando se candidatou a senador, Alcolumbre informou à Justiça Eleitoral que seu patrimônio valia 1,13 milhão de reais, em valores corrigidos. Em 2018, houve uma pequena variação para cima, chegando a 1,16 milhão. Em 2022, oscilou para baixo, caindo para 1,15 milhão.
Depois de derrotar o candidato de Sarney e eleger-se pela primeira vez para o Senado, Davi Alcolumbre chegou à sua nova casa parlamentar sob as bênçãos de outro emedebista graúdo: Romero Jucá (MDB-RR), que fez dele vice-líder de Temer. Na prática, o posto não traz muito poder decisório, mas Alcolumbre usava-o como passaporte para pedir pequenos favores nos ministérios e fazer indicações na máquina pública. Usava essa influência até para atender a quem vinha lhe pedir uma mãozinha para questões administrativas do dia a dia.
Depois de quatro anos de uma atuação tímida no Senado, Alcolumbre lançou-se candidato ao governo do Amapá – cargo que almeja desde o início da vida pública. Na campanha, em 2018, viajou o estado com bolsas de dinheiro vivo. Uma testemunha contou à piauí que certa vez, devido à quantidade de malas, a equipe precisou parar em Laranjal do Jari, quase no Pará, para dividir o dinheiro entre os carros da comitiva. Temiam que a Polícia Federal, que costuma fazer naquela região uma fiscalização mais rigorosa, pudesse dar uma batida e, neste caso, queriam tentar salvar pelo menos uma parte da grana. (O senador rebate. Diz que a história não é verdadeira.)
Alcolumbre não se qualificou para ir ao segundo turno. Estava encerrando o ano de 2018 com a segunda derrota eleitoral de sua carreira para um cargo no Executivo, já que também perdera a Prefeitura de Macapá em 2002. Ficou profundamente abalado, entrevado no meio de um mandato apagado como senador e sem relevância política.
Mas, um mês depois, o primo Pierre teve motivos para comemorar: comprou, de uma só vez, seis salas comerciais no sétimo andar do edifício The Office Araguary, um dos mais modernos da capital amapaense. Pagou a módica quantia de 700 mil reais à vista e em dinheiro vivo, de acordo com as escrituras registradas em cartório. Em uma das salas funciona o escritório político de Alcolumbre.
Sete pessoas ouvidas pela piauí sob anonimato para evitar retaliações afirmam que Pierre, na prática, opera em nome de Alcolumbre nos negócios. Indagado sobre sua relação com o primo, o senador disse que a pergunta lhe atribui “responsabilidade por atos e negócios privados de terceiro, com base em associações especulativas”. Afirmou ainda que “responsabilidade não se transfere por vínculo familiar” e concluiu que não lhe cabe “responder por aquisições patrimoniais ou recursos de terceiros”. O senador não respondeu com que frequência usa o escritório de Pierre.
Apesar da derrota, Alcolumbre também ganhou motivos para celebrar no final da campanha de 2018. O fracasso para o governo do Amapá acabou sendo regiamente compensado. Alcolumbre soube, dias depois, que ele precisaria assumir a presidência do Senado interinamente, já que era o terceiro suplente da Mesa Diretora e todos os demais senadores na linha de sucessão haviam perdido o mandato nas urnas. A nova função lhe despertou a ambição de voar mais alto.
Em dezembro de 2018, antes mesmo que alguém levasse a sério sua candidatura ao comando da Casa, Alcolumbre já contava votos no convés de uma chalana ancorada no Lago Paranoá, em Brasília. Ali, ele confraternizava com antigos colegas de partido na embarcação do senador Wilder Morais (PL-GO), apelidada de Love Boat. Antes do jantar, chamou num canto o colega gaúcho Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, e plantou a semente: será que o futuro presidente Jair Bolsonaro não gostaria de apoiá-lo à presidência do Senado?
A cúpula bolsonarista vinha buscando um nome para enfrentar o favoritíssimo Renan Calheiros, que já havia vencido quatro vezes a disputa pelo cargo e é praticamente mobília fixa do Senado. Lorenzoni havia sondado nomes como Simone Tebet, Alvaro Dias, Romário, Esperidião Amin, mas todos recusaram a proposta. Alcolumbre, pouco conhecido, queria colocar-se na lista dos candidatos. Disse que conquistaria votos que “Renan nem sonha”.
No dia seguinte, Lorenzoni levou a proposta a Bolsonaro, que nem se lembrava do senador amapaense e hesitou. “Chefe, deixa eu dizer uma coisa para o senhor: o maior construtor de relações do Congresso se chama Davi Alcolumbre”, Lorenzoni lembra de ter dito. “É um craque. Ele abraça todo mundo e as pessoas gostam dele de graça.”
A campanha começou no mesmo dia em que Bolsonaro deu sinal verde. Durante o período de recesso, Alcolumbre procurou todos os senadores eleitos, cruzando o Brasil num avião alugado pelo partido – ainda era o DEM, na época. Em um único dia, visitou a chácara de um senador no interior do Amazonas e à noite estava na casa de outro em Balneário Camboriú, a mais de 3 mil km de distância. “O Davi luta pelo que ele quer”, ressalta Lorenzoni. “Ele não aceita um ‘não’.”
Alcolumbre prometia acabar com a divisão entre alto e baixo cleros e atender todos os colegas de maneira igualitária. Pedia uma chance para renovar a política, apresentando-se como um jovem senador cheio de energia. O discurso estava na moda. Nas eleições de 2018, o Senado passou pela maior renovação desde a redemocratização: entre os 54 que tentaram se reeleger, apenas oito tiveram sucesso. Por isso, em 2019, 87% dos senadores eram novatos, eleitos na onda dos outsiders.
A eleição para a presidência do Senado foi particularmente tumultuada. Houve briga sobre a interpretação do regimento para decidir se Alcolumbre podia presidir a sessão em que era candidato – ele presidiu, ficou sete horas na cadeira, sem levantar nem para ir ao banheiro, com medo de perder o lugar. O segredo para tamanha continência: estava usando fralda geriátrica.
Também houve demissão, numa canetada de Alcolumbre, do funcionário que secretariava a Mesa – reconduzido ao cargo no dia seguinte. Houve disputa se o voto seria aberto ou fechado – foi aberto e nominal, favorecendo Alcolumbre. Houve, ainda, acusações, gritos e sussurros – como quando Renan Calheiros sentou-se ao lado de Alcolumbre, aproximou-se de seu ouvido e disse, baixinho: “Seu filho da puta! Sai daí, seu merda”, conforme o próprio Alcolumbre relatou a aliados mais tarde.
Houve, por fim, adiamento da eleição. No dia seguinte, depois de uma noitada regada a uísque para comemorar o aniversário de seu pai, Alcolumbre estava de volta à peleja. Os bolsonaristas, antes meio divididos, acabaram fechando apoio a Alcolumbre. Depois de seis horas de tumulto, Renan Calheiros retirou sua candidatura sob protesto. A votação precisou ser feita duas vezes porque, na primeira, havia 82 cédulas na urna, uma a mais do que o total de senadores. Na segunda votação, Alcolumbre emplacou os 42 votos. Na cadeira de presidente, tomou ar, suspirou aliviado, foi aplaudido de pé pelo plenário e, em seu primeiro pronunciamento, apresentou-se como o que há de novo na política do país, prometendo superar “os conchavos das elites partidárias.” “Obrigado, meu Deus”, finalizou, com a voz embargada. “Me dê sabedoria para daqui desta Mesa conduzir o destino do Brasil.”
Assumiu o posto como quem dirige um trator. Demitiu, de uma só vez, 150 funcionários do Senado, incluindo até garçons, o pessoal da copa e servidores ligados a políticos do MDB. É comum que presidentes recém-eleitos façam trocas em cargos comissionados para acomodar indicações de aliados, mas não nessa escala. Alcolumbre trocou até o chefe da Polícia Legislativa do Senado, que estava no cargo havia catorze anos.
Entre os pares, porém, aplicou a lição que aprendera com Sarney: estender a mão aos opositores. Dias depois da eleição caótica, procurou Renan Calheiros para fazer as pazes. Tampouco guardou mágoas da ex-senadora Kátia Abreu (PDT-TO), que o acusara de promover um golpe durante a eleição ao Senado. Para agrado dos colegas, Alcolumbre mantém as portas de seu gabinete abertas e recebe a todos sem hora marcada. Costuma até se oferecer para mandar lavar e escovar os ternos dos senadores e já atuou inclusive como mediador em brigas matrimoniais para ajudar na reconciliação de um senador recém-separado. No fim de ano, distribui garrafas de vinho de presente.
Nos primeiros meses do novo comando do Senado, Lorenzoni, já empossado na Casa Civil, entendeu que o apoio de Alcolumbre não era gratuito. A conta chegou assim que o governo de Bolsonaro começou a colher os resultados positivos da aliança com o senador. “Como ele é um utilitarista, para trabalhar tem que ter a diretoria de não sei do quê, da Caixa Econômica, do Banco do Brasil… Se puder, ele pede o lugar inteiro”, disse Lorenzoni à piauí em julho passado, num café de Brasília. “Naquela época, o Davi queria o mundo.”
A “planta no deserto”. Essa é a expressão usada por um ex-senador – que pediu para não ser identificado – ao descrever Davi Alcolumbre. Quer dizer: a planta que cresceu na terra arrasada do governo Bolsonaro. O senador cumpriu a agenda bolsonarista e cuidou de toda a articulação política no lugar do governo. Empenhou-se na aprovação da reforma da Previdência Social e da Lei da Liberdade Econômica e pautou todos os temas de interesse do governo.
Sua fatura continha cobrança de cargos, indicações em agências reguladoras, tribunais – e recursos, muitos recursos. “O que ele mais pedia eram coisas que tivessem ação política programática do governo na região dele”, diz Lorenzoni. “Eu ia lá para segurar as pontas [de Alcolumbre]”, completa ele, referindo-se à rotina de visitas ao Senado para conter o apetite do amigo. Alcolumbre fazia negociações diretas com o governo Bolsonaro. Emplacou aliados na Agência Nacional de Mineração, no Conselho Nacional do Ministério Público, na Agência Nacional de Saúde Suplementar, no Banco do Brasil, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, na Comissão de Valores Mobiliários, na Agência Nacional do Petróleo, nos Correios, na Agência Nacional de Telecomunicações e segue a lista.
O senador sabia como cuidar de seus interesses. Em um de seus primeiros movimentos depois de assumir a presidência do Senado, tentou mudar a lei para permitir sua reeleição já em 2021, tema que estava em debate no STF. Não conseguiu e tratou de pavimentar o caminho para voltar mais tarde. De saída, reuniu os líderes dos partidos e anunciou que tinha 150 milhões de reais em emendas “dele” para cada bancada distribuir entre seus integrantes, o que dava cerca de 2 milhões por senador. Orientou que cada um fizesse as indicações do destino do dinheiro por meio de ofícios. Era o embrião do que mais tarde viria a ser conhecido como “orçamento secreto”. Também conseguiu aprovar um projeto de sua autoria que incluiu o Amapá na área de atuação da Codevasf, a principal destinatária das emendas do orçamento secreto.
À semelhança do que o deputado Arthur Lira (PP-AL) fazia na presidência da Câmara, Alcolumbre também integrou a turma que promoveu uma farra ilimitada no Congresso com os recursos orçamentários. Calcula-se que, entre 2020 e 2022, período em que existiam as chamadas “emendas de relator”, cerca de 28 bilhões de reais saíram pelo escaninho do orçamento secreto, ou seja, verba que os parlamentares despachavam para onde bem entendessem sem ter que se identificar, com sinais eloquentes de desvios do dinheiro pelo meio do caminho.
Mesmo quando deixou a presidência do Senado, Alcolumbre continuou regendo a partilha das emendas parlamentares e até ajudou a ampliar seus valores. Chegou a montar uma equipe especializada para tratar do assunto. Nomeou como assessora a servidora Mabel Regina Godinho Lenza, que havia passado quatro anos como assistente técnica no núcleo orçamentário da Secretaria de Governo da Presidência da República. Ela acompanhava a liberação do pagamento e redigia os ofícios aos ministérios. Já a chefe de gabinete do senador, Ana Paula de Magalhães Albuquerque Lima, administrava as planilhas com a divisão dos recursos e está no centro da criação das emendas de comissão, iniciativa que partiu do gabinete do senador. Atualmente, seis servidores lotados no gabinete realizam alguma atividade relacionada à distribuição de emendas parlamentares.
Assim, em fevereiro de 2021, quando deixou a presidência do Senado e tomou posse no comando da Comissão de Constituição e Justiça, Alcolumbre manteve seus métodos e seu controle na distribuição das emendas. Quando não era atendido em seus pleitos junto ao governo, jogava pesado. No movimento mais evidente de sua gestão na CCJ, travou por quase cinco meses a votação da indicação de André Mendonça para ministro do STF. Queria que o indicado fosse Augusto Aras, então procurador-geral da República. (Até hoje, o ministro André Mendonça e o senador não se bicam.)
Um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) aponta que, entre 2020 e 2023, três cidades do Amapá – Tartarugalzinho, Pracuúba e Cutias – foram as que mais receberam emendas do orçamento secreto, considerando-se a proporção da população. Tartarugalzinho, com 13 mil habitantes, é a campeã nacional: abocanhou 87,5 milhões de reais no período, quase 7 mil reais por morador. No ranking dos dez municípios que mais receberam recursos por habitante, cinco são do Amapá.
Tudo é secreto no orçamento secreto, mas as digitais aparecem aqui e ali. Tome-se o caso de uma emenda de 9 milhões de reais para pavimentação de ruas em Santana, cidade no sudeste do Amapá. A obra foi executada pela empreiteira de Breno Barbosa Chaves Pinto, o segundo suplente de Alcolumbre no Senado. Mas o prefeito de Santana, empolgado com a liberação da verba, postou um vídeo de agradecimento nas redes sociais, no qual revela inadvertidamente que o autor da emenda era Alcolumbre. “A prefeitura continua, portanto, executando asfaltos em Santana. Emenda do senador Davi [Alcolumbre] mais uma vez.”
Em outro caso de pavimentação, desta vez em um trecho da rodovia BR-156, a maior do Amapá com seus 820 km de extensão, o mesmo empreiteiro Breno Pinto, o suplente de Alcolumbre, foi contemplado com uma parte da obra – mas uma perícia do Instituto Nacional de Criminalística (INC) constatou que a licitação de 24 milhões de reais fora fraudada. A preocupação em esconder o nome dos padrinhos do dinheiro aparece numa mensagem de WhatsApp captada pela Polícia Federal e acessada pela piauí. Nela, um dos responsáveis pela obra da BR-156, o superintendente Marcello Vieira Linhares, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), passa uma orientação clara para o dublê de empreiteiro e suplente: “Fortifica a ideia de ele [refere-se a Alcolumbre] conseguir com a bancada recursos p/ gente!!!!” E frisa: “De preferência emenda de bancada que não tem dono específico.”
O papel do suplente de Alcolumbre ficou mais claro ainda em janeiro de 2024, quando o repórter Guilherme Grandi, do jornal Gazeta do Povo, perguntou a Breno Pinto sobre eventual favorecimento. Naquela altura, o empreiteiro-suplente já ganhara licitações de 268 milhões no Dnit e 86,5 milhões na Codevasf. Breno Pinto respondeu às perguntas, mas antes de enviá-las ao repórter, submeteu o texto à aprovação de Alcolumbre. “Depois lê pra dizer o que achou”, escreveu ele, segundo mensagem de WhatsApp flagrada pela Polícia Federal. (O senador diz que não tem conhecimento da mensagem.)
Não são as únicas digitais de Alcolumbre nos malabarismos com dinheiro público. A cada remessa de verba federal para as obras da rodovia BR-156, Breno Pinto ia até a agência bancária e sacava parte do montante. Antes de ir ao banco, o empreiteiro-suplente perguntava ao gerente pelo WhatsApp qual era valor máximo disponível para saque. Em apenas um dia de janeiro de 2024, sacou 500 mil reais. Os saques em espécie eram tão frequentes que, mesmo sem ser acionada por Breno Pinto, a gerente se prontificava a informar que havia dinheiro vivo. “Caso queira sacar, pode vir. Posso liberar 49 mil em cada conta. Me confirma se vai querer”, diz uma mensagem. No total, o suplente de Alcolumbre retirou mais de 3 milhões de reais, de acordo com relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
A Polícia Federal não identificou o destino exato do dinheiro sacado, mas encontrou uma pista sobre a identidade dos envolvidos. Segundo noticiou o jornal O Globo, os agentes acompanharam discretamente a ida de Breno Pinto ao Banco do Brasil no dia 7 de novembro de 2024. O empreiteiro-suplente chegou à agência no banco do passageiro de um Jeep Compass. Numa investigação rápida, os policiais descobriram que o veículo pertencia à 2A, loja de variedades que está no nome de dois filhos do primo Pierre. O incansável primo Pierre. (Indagado sobre seu envolvimento na operação, Pierre não se manifestou.)
O delegado Lucas Palmeira Marcolini Mattos, da Polícia Federal, teve acesso a todos esses indícios, mas achou que não eram suficientes para concluir sobre o envolvimento do senador. Ele não quis dar entrevista, mas, em sua decisão, escreveu: “Os elementos atualmente reunidos demonstram que Breno [Pinto] utiliza o nome do parlamentar como ferramenta de convencimento ou persuasão, a fim de ampliar seu capital de influência e obter proveito econômico – mas sem que haja qualquer indicativo de que o parlamentar tenha aderido subjetivamente à conduta ou sequer dela tenha tomado parte consciente.” Em julho de 2025, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca contra Marcello Linhares, chefão do Dnit, e Breno Pinto. A Justiça determinou o afastamento do superintendente do Dnit por dez dias.
Até o fim de março, a investigação continuava em curso.
A passagem de Davi Alcolumbre pela presidência do Senado ocupou muitas páginas do noticiário político, mas também foi generosa em notícias policiais. Seu gabinete, por exemplo, chegou a ser flagrado aplicando o golpe da rachadinha, o mesmo que alçou à fama o senador Flávio Bolsonaro. Rememorando: o parlamentar contrata alguém para trabalhar em seu gabinete por um determinado salário, mas pede que o novo funcionário devolva todos os meses uma parte da remuneração.
Seis mulheres pobres, moradoras dos arredores de Brasília, contaram à revista Veja, em reportagem publicada em 2021, que aderiram a uma proposta de rachadinha feita pelo senador e seu chefe de gabinete da época, Paulo Boudens. Assim que saiu a notícia, Alcolumbre determinou que a Polícia Legislativa – chefiada por seu indicado, Alessandro Morales Martins – investigasse o caso. Mesmo sem ter competência para realizar esse tipo de apuração, a polícia da Casa intimou as ex-servidoras a prestar depoimento. A investigação interna foi considerada uma tentativa de intimidá-las.
Como o nome de Alcolumbre surgiu em meio à investigação, a Polícia Legislativa teve de encaminhar as informações coletadas à Procuradoria-Geral da República, na época chefiada pelo amigão Augusto Aras. O órgão, por sua vez, excluiu Alcolumbre da investigação e fez um acordo com seu chefe de gabinete, que pagou 2 milhões de reais à União em troca da suspensão do caso. Não houve instauração de processo criminal, mas Boudens perdeu o cargo e o dinheiro, se sentiu abandonado e se afastou do senador, pelo menos em público.
O dado mais evidente é que Alcolumbre e seu pessoal não vivem apenas de escândalos passados – como rachadinha e orçamento secreto. Os nomes do senador e aliados aparecem também em dois dos maiores casos de corrupção em curso no país: o desfalque do INSS e a fraude histórica do Banco Master. Em agosto do ano passado, quando tentava salvar seu banco da liquidação, o banqueiro Daniel Vorcaro apareceu na residência oficial de Alcolumbre, de onde saiu à meia-noite. Depois, em troca de mensagens acessadas pela Polícia Federal, Vorcaro comentou que a reunião fora boa e mencionou que um novo encontro aconteceria dias depois.
A intimidade entre o senador e o banqueiro não é o único laço. O nome de Alcolumbre também apareceu no rolo que envolve a Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá, que investiu 400 milhões de reais nos papéis podres do Master. É o segundo fundo de pensão que mais aplicou no banco, atrás do RioPrevidência, dos servidores do Rio de Janeiro, que investiu quase 1 bilhão de reais durante o governo do recém-inelegível Claudio Castro (PL).
A operação da Amprev foi realizada sob a presidência de Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre indicado para o cargo pelo próprio senador. Atualmente, Jocildo Lemos, que já esteve preso sob a acusação de fazer tráfico de influência, despacha numa sala comercial em Macapá. Onde? Numa daquelas seis salas que foram compradas pelo primo Pierre no edifício The Office Araguary. (Depois de sofrer uma operação de busca e apreensão em fevereiro deste ano, Jocildo Lemos renunciou à presidência da Amprev.) A influência de Alcolumbre sobre o fundo de previdência não se limita a Jocildo Lemos. O senador também indicou para a entidade seu irmão, Alberto Alcolumbre, que atuou como conselheiro fiscal entre 2023 e 2025, período em que o investimento de 400 milhões foi feito. As conexões do senador com o Master talvez expliquem sua resistência em instalar a CPI para investigar o escândalo.
(O União Brasil de Alcolumbre está com os dois pés fincados no Master. Um dia depois de negar publicamente “qualquer relação” com Vorcaro, dono do finado Master, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, admitiu ao repórter Breno Pires, da piauí, que seu escritório de advocacia tinha contrato com o banco, para o qual fez “mais de 1 000 audiências” e “aproximadamente 400 acordos”. Não disse quanto recebeu pelos serviços. O vice-presidente do partido, ACM Neto, por sua vez, segundo revelou o jornal O Globo, recebeu 3,6 milhões de reais do Master e da gestora Reag, parceira do banco, por meio de um contrato com sua consultoria, empresa que havia sido fundada três meses antes do início do pagamento.)
No caso do INSS, Alcolumbre também comparece. A CPI que investiga o esquema de corrupção identificou que um ex-chefe de gabinete do senador recebeu 3 milhões de reais do personagem central do escândalo – o empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. O ex-assessor é o mesmo Paulo Boudens da rachadinha, hoje lotado no Conselho de Estudos Políticos do Senado. Em setembro do ano passado, a CPI do INSS recebeu requerimentos para convocar Boudens a prestar depoimento. Nenhum deles foi apreciado pelos integrantes. Seu sigilo bancário chegou a ir à votação, mas a maioria dos membros da CPI votou contra a medida.
Antes disso, Alcolumbre decidiu decretar sigilo de 100 anos nos registros de entradas do Careca do INSS no prédio do Congresso. A medida impediu a CPI de saber quem o lobista costumava visitar em suas visitas ao Parlamento. E Alcolumbre tem feito tudo – até o que não está ao seu alcance – para enterrar a investigação do INSS o quanto antes. Recebeu uma ordem do ministro André Mendonça, do STF, para ler o documento que mandava dar mais prazo para a CPI trabalhar. Tinha 48 horas para fazê-lo. O senador simplesmente ignorou a ordem judicial e não leu o documento. Tinha um duplo temor. Se reunisse o Congresso para prorrogar a CPI do INSS, Alcolumbre também teria que ler outro documento, aquele que instala a investigação mais temida por todo o mundo político: a CPI do Master. No dia 26 de março, o STF derrubou a ordem de prorrogação emitida por André Mendonça.
Com seus planos de voltar a presidir o Senado em 2025, Davi Alcolumbre precisava antes garantir a reeleição para senador em 2022. E havia dois outros candidatos no páreo: o então governador do Amapá, Waldez Góes (PDT), e Rayssa Furlan (MDB), mulher de Dr. Furlan, que estava no comando da Prefeitura de Macapá. Como a eleição preencheria apenas uma cadeira no Senado, as chances de Alcolumbre perder – e ficar sem mandato – não eram baixas.
No início do ano eleitoral, Alcolumbre se reuniu com Waldez Góes para dissuadi-lo da candidatura. Na época, Góes estava respondendo a um processo no STF em que era acusado de desviar dinheiro de empréstimos consignados de servidores do estado. Os termos da negociação são desconhecidos, mas o fato é que deu tudo certo. Primeiro, Góes desistiu da candidatura ao Senado antes mesmo de anunciá-la publicamente, dizendo que o fazia por “decisão política e pessoal”. Depois, foi nomeado ministro de Lula por indicação de Alcolumbre e, por fim, acabou sendo absolvido pelo Supremo.
Sem Góes concorrendo, restava a candidatura de Rayssa Furlan. Em maio de 2022, cinco meses antes da eleição, Alcolumbre reuniu-se com o prefeito Dr. Furlan. Chegou com semblante fechado e foi direto ao ponto, dispensando as piadas com que costuma quebrar o gelo. Perguntou se o prefeito iria apoiá-lo ao Senado, em vez de lançar sua própria candidata. Caso contrário, de acordo com um interlocutor que teve acesso à conversa, Alcolumbre faria o possível para destravar um processo por crime eleitoral contra o promotor de Justiça, João Furlan, irmão do prefeito. O processo era movido por Josiel Alcolumbre, irmão do senador.
Alcolumbre nega a ameaça e afirma que não tem “capacidade de interferência sobre instituições autônomas”. Não é bem assim. Depois de pressionar pelo fim da candidatura de Rayssa ao Senado, deu-se uma conversa elucidativa que veio a público recentemente nas páginas do site Metrópoles. No áudio, o senador foi flagrado orientando um aliado, então presidente da Câmara de Vereadores de Macapá, sobre o que deveria dizer e como deveria se comportar diante de um desembargador – que, fica evidente na conversa, estava escalado para poupar o aliado de Alcolumbre numa ação judicial. “Segunda, 10 horas, no gabinete dele, no tribunal, para você relatar as questões jurídicas e políticas, sem advogado”, disse Alcolumbre ao vereador Pedro dos Santos Martins, conhecido como Pedro DaLua – e hoje prefeito em exercício de Macapá.
Na mesma ligação, o senador que não tem “capacidade de interferência sobre instituições autônomas”, informa para DaLua que já adiantara o assunto com o magistrado. “Eu disse a ele [o desembargador] que faço política de grupo, de entrega, e sou grato às pessoas, reconhecendo aquelas que trabalham”, disse. “Porra, eu tô todo arrepiado aqui”, vibrou DaLua. Na ligação, em outra evidência de como funciona a rede de influência, DaLua disse ao senador que já havia encaminhado junto ao Tribunal de Contas a aprovação das contas “do nosso governador”. E completou, anunciando duas investigações: “Eu quero que o filho da puta do prefeito Furlan esteja preocupado com duas CPI lá na Câmara de Macapá”, disse DaLua. Alcolumbre gostou do que ouviu: “Vai para cima”, recomendou.
Pois bem. Quando quis evitar a candidatura da mulher do prefeito Furlan, Alcolumbre não teve sucesso. Rayssa manteve seu nome para o Senado em 2022 – e os Furlan não demoraram a sofrer as consequências. Nas semanas seguintes, o caso do promotor João Furlan ganhou novo fôlego, com questionamentos bizantinos entre diversos órgãos da Justiça para saber quem tinha competência para julgar o caso. Em 21 de julho, Rayssa lançou sua candidatura. Oito dias depois, João Furlan sofreu uma operação de busca e apreensão de aparelhos eletrônicos em sua casa. A operação fora autorizada por um juiz substituto do Tribunal Regional Eleitoral que, mais tarde, foi declarado suspeito por ser sócio do advogado de Josiel Alcolumbre, o autor da ação contra o promotor.
A campanha de Alcolumbre ao Senado correu do jeito tradicional. Seis meses antes do pleito, Alberto Samuel, o irmão de Alcolumbre que mais tarde seria conselheiro da Amprev, foi abordado pela Polícia Militar em São Paulo. Ele acompanhava um carro que transportava 500 mil reais em espécie. Alberto disse às autoridades que se tratava de “honorários advocatícios”, mas se esqueceu de combinar a versão com o motorista do carro, que revelou à polícia que o dinheiro vinha de um grupo “para financiar uma campanha política”. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o motorista se negou a revelar o partido para não se “complicar muito”. O caso foi para a Justiça paulista, onde acabou arquivado sem consequências para nenhum dos envolvidos.
Alcolumbre renovou seu mandato de senador com 48% dos votos, 22 mil de vantagem sobre Rayssa, mas as consequências para os Furlan continuaram. Em agosto de 2025, a recém-empossada ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, decidiu reabrir o inquérito contra o promotor João Furlan. Em seguida, a procuradora regional eleitoral do Amapá, Sarah Teresa Cavalcanti de Britto, usou a decisão para denunciar João Furlan ao Conselho Nacional do Ministério Público. Ele foi afastado do cargo em janeiro passado. Foi a primeira baixa na família Furlan.
No dia 3 de março, o ministro Flávio Dino, do STF, afastou o prefeito Dr. Furlan e o vice-prefeito de seus cargos por suspeita de fraude na licitação de obras em um hospital da cidade. A Polícia Federal nem havia citado o vice-prefeito na denúncia, mas mesmo assim a Procuradoria-Geral da República de Paulo Gonet pediu ao STF que estendesse a punição ao vice por considerá-lo parte do núcleo de decisões. O pedido foi acatado. A novidade caiu como uma luva para Alcolumbre: o presidente da Câmara dos Vereadores, Pedro DaLua, do mesmo União Brasil do senador e conhecido como seu braço direito, assumiu o comando da prefeitura. A segunda baixa da família Furlan.
O grupo de Alcolumbre tomou a prefeitura como que de assalto. Entraram no prédio e ordenaram que servidores de pelo menos quatro secretarias – Finanças, Saúde, Educação e Comunicação – retirassem seus pertences imediatamente e passassem senhas de acesso. Segundo um servidor que falou com a piauí em condição de anonimato, eles pediram a relação dos contratos firmados por essas pastas, com a intenção de revisá-los, e trocaram a fechadura das portas.
Em que pese seu temor inicial de um ano ruim, 2022 foi vitorioso para Alcolumbre. Não só renovou seu mandato no Senado, como apoiou o candidato certo para o governo do Amapá. Clécio Luís, eleito pelo Solidariedade e hoje também filiado ao União Brasil, venceu com 53,7% dos votos no primeiro turno. Como de praxe, o novo governador entregou cargos relevantes para Alcolumbre, que instalou aliados em postos estratégicos, como a Secretaria de Justiça e Segurança Pública.
Agora, as primeiras pesquisas eleitorais indicam que Clécio Luís terá enormes dificuldades de se reeleger em outubro de 2026 em nova disputa com Dr. Furlan. Alcolumbre então já arregaçou as mangas para enfraquecer o rival. No fim de 2025, mandou um recado claro para um deputado, Vinicius Gurgel (PL-AP), que já foi seu aliado e bandeou-se para o lado de Furlan. Segundo quatro fontes ouvidas pela piauí, o senador disse que, se Gurgel continuasse na oposição, ele próprio, Davi Alcolumbre, atuaria para acelerar uma investigação por lavagem de dinheiro em licitações fraudulentas que corre contra o deputado no STF. Gurgel não cedeu. Seu caso, que ficara por mais de um ano parado no gabinete do ministro Alexandre de Moraes, amigo muito próximo de Alcolumbre, já voltou a andar. Foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República em janeiro passado.
Com sua influência no governo local, nos principais órgãos de controle e na Justiça estadual, com seus aliados ocupando cargos em empresas públicas e autarquias e seus múltiplos tentáculos em Brasília, e com sua notável “política de grupo, de entrega”, Alcolumbre é tratado como governador de facto do Amapá, reavivando a figura histórica do coronel, descrita no clássico Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal. Mas, em Brasília, seguindo aquele discurso que fez quando ganhou seu primeiro mandato de presidente do Senado, Alcolumbre apresenta-se como “o que há de novo na política do país”.
Nos últimos anos, o senador estendeu seu domínio para mais um espaço típico do coronelismo: a regularização fundiária do Amapá, um estado jovem, que só deixou de ser território federal em 1988. Aconteceu o seguinte: em 2019, quando ocupou a Presidência da República interinamente por dois dias, Alcolumbre assinou um decreto regulamentando os termos pelos quais a União pode se desfazer de suas propriedades urbanas e rurais no estado. A operação passa pela Superintendência do Patrimônio da União no Amapá. Há anos Alcolumbre instalou no comando da SPU um dos seus, no caso, a cunhada Leily Gonçalves de Andrade.
Com isso, qualquer interessado em comprar imóveis ou terras no Amapá em posse da União precisa negociar com o órgão – na prática, com Alcolumbre. Quem chega no Amapá não demora a ouvir de empresários que, para adquirir grandes terrenos no estado, é necessário recorrer a negociações no escuro dos bastidores, tanto mais quando o valor da compra é expressivo. O senador nega qualquer envolvimento nas questões fundiárias, mas uma coisa é certa: Alcolumbre vinha usando a superintendência da cunhada para travar pedidos de concessão de áreas federais feitas pela Prefeitura de Macapá, quando o município ainda era comandado por seu rival.
Alcolumbre não quis dar entrevista à piauí. A revista, então, enviou uma lista com dezenove perguntas ao senador, que respondeu todas elas, embora nem sempre abordando o ponto central. O tema em que o senador mais se alongou diz respeito às emendas do orçamento secreto. Sobre a reunião com líderes partidários em que disse que podia distribuir 150 milhões “dele”, afirmou que a destinação de recursos orçamentários “é prática lícita, transparente e constitucionalmente prevista”.
Quanto à informação de que, depois de deixar o comando do Senado, continuou determinando a distribuição de recursos do orçamento secreto, disse que a destinação de verba “segue critérios institucionais e mecanismos próprios do processo legislativo”. Indagado se mandou dinheiro para o empreiteiro que é também seu segundo suplente, aquele que sacava os recursos na boca do caixa, a nota do senador afirmou: “As emendas parlamentares (individuais ou coletivas) em que há indicação de beneficiários pelo senador Davi Alcolumbre constam de documentos públicos, transparentes e rastreáveis.”
A respeito de pressões junto ao Judiciário para prejudicar adversários, o senador negou qualquer movimento neste sentido. Sobre a pressão exercida para demover os Furlan, disse que “a narrativa é gravíssima”, não tem o “mínimo de razoabilidade”, pois os membros do Ministério Público não estão “sujeitos à influência ou controle de parlamentares”. Sobre a advertência de acelerar o processo contra o deputado Vinícius Gurgel, disse que a acusação “é grave, ofensiva e não corresponde à realidade”.
Em outras passagens, o senador evitou explicações dizendo que os casos envolvendo seu nome não foram investigados ou não seguiram adiante na Justiça. “Nunca houve denúncia, ação penal ou qualquer imputação formal”, disse, ao referir-se ao telefonema interceptado em que apareceu conversando com o doleiro Fayed Traboulsi. Ou: “Não há investigação, denúncia ou procedimento que sustente essa irresponsável acusação”, afirmou, sobre a circulação de “bolsas de dinheiro vivo” na campanha de 2018. Ou: “O senador jamais foi denunciado ou processado”, declarou, ao responder sobre o esquema da rachadinha em seu gabinete. Ou ainda: “Não há qualquer elemento que vincule o senador ao transporte de valores ou a financiamento de campanha”, sobre os 500 mil reais capturados com seu irmão em São Paulo.
De volta a Brasília, Davi Alcolumbre participou da transição do governo Bolsonaro para o governo Lula, no fim de 2022. Com seu jeito despojado e brincalhão, logo conquistou a simpatia do presidente. O governo sabia que Alcolumbre exercia mais influência sobre os senadores do que o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Nos bastidores da transição, Alcolumbre pediu que todas as indicações de segundo escalão que precisam passar pelo Senado – agências, conselhos – fossem feitas pela própria Casa, método que ele implementou nos tempos de Bolsonaro. O governo Lula concordou apenas em dividir as indicações. O senador aproveitou para indicar, em sua cota pessoal, dois nomes para compor o primeiro escalão.
Seu antigo adversário Waldez Góes entrou para a pasta do Desenvolvimento Regional, onde se cruzam os caminhos das emendas orçamentárias dos parlamentares. Além do ministro, Alcolumbre escolheu também o secretário-executivo da pasta. A sua outra indicação foi Frederico de Siqueira Filho para o Ministério das Comunicações, que já tentou cortar a concessão de uma rádio que fez críticas a Alcolumbre. O ministério alegou que a Rádio Forte FM Macapá dava “destaque ao prefeito municipal [Doutor Furlan, adversário de Alcolumbre] com exaltações pessoais e realizações”. A cassação está sendo julgada na Justiça. A rádio continua operando.
À vontade na roupa de governista, seja de Bolsonaro, seja de Lula, Alcolumbre entrou em campo quando o governo precisou aprovar Flávio Dino para o STF. O senador Plínio Valério, que vota com independência, às vezes a favor do governo, às vezes contra, lembra que recebeu uma ligação de Alcolumbre. Eles travaram o seguinte diálogo:
– Vai votar comigo no Dino, né? – perguntou Alcolumbre.
– Não – cortou Valério.
– Como não? Tu não és meu amigo?
Valério afirma que votou contra a indicação, mas Alcolumbre não guardou rancor. Pelo contrário: duas semanas depois, ligou novamente para avisar que tinha conseguido 30 milhões em “emendas extras” para Valério. “Claro que para o grupo dele o valor é maior, mas ele não oferece emenda amarrando [a distribuição com apoio político]”, diz. “Ele dá querendo agradar.”
Ou não. No final de 2022, Alcolumbre estava empenhado em aprovar o nome de Engels Augusto Muniz para o Conselho Nacional do Ministério Público. Na campanha pela nomeação, recebeu senadores em seu gabinete e apresentava Muniz como “nosso” candidato. Logo em seguida, perguntava ao senador – um deles relatou a cena à piauí – o valor das emendas que gostaria de indicar para seu estado. Com uma caneta, Alcolumbre fazia uma lista, com nomes dos senadores ladeados pelos valores pedidos. Era o escambo: um voto aqui, um dinheiro ali.
Em fevereiro de 2025, a recondução de Alcolumbre à presidência do Senado não teve nada a ver com a tumultuada eleição de 2019. Sem adversários, ele venceu com 90% dos votos. “A campanha foi chegar e dizer que era candidato”, resume o senador Plínio Valério. “[A essa altura], ele já tinha ajudado a pessoa, já tinha aberto a porta do ministério, resolvido problemas… Ele só teve que renovar esse tipo de amizade.” Consagrado, desta vez não precisou respirar aliviado nem sair beijando mãos e testas.
Quando o assunto é a discussão de ideias políticas, Alcolumbre se recolhe. Não tem nada a dizer. Em 2025, enquanto o senador Eduardo Braga (MDB-AM) finalizava o relatório sobre a reforma tributária, Alcolumbre fugia de qualquer conversa técnica sobre o projeto. “Fala com o Eduardo Braga, ele é meu líder, meu mestre”, dizia aos empresários que o procuravam para discutir o texto, um comportamento que destoa de outros presidentes que faziam questão de estar à frente das decisões de dimensão nacional.
Os interessados, então, pararam de procurá-lo e passaram a resolver tudo com Eduardo Braga. “O Davi sabe escapar do que é muito complexo”, diz um advogado que acompanhou as tratativas da reforma. “Se você usar uma linguagem mais difícil, ele se perde.” Esse advogado observa que a atuação de Alcolumbre acaba por conferir aos demais senadores a sensação de que cabe a eles discutirem as questões centrais – o que também explica em parte a popularidade de Alcolumbre entre os pares.
Um ex-senador do alto clero – que pediu para não ser identificado, pois atua como consultor na iniciativa privada em Brasília – contou à piauí que já convidou Alcolumbre diversas vezes para debates públicos e eventos temáticos com empresários. O senador nunca aceitou. “Ele não quer aparecer, não quer ser posto à prova”, afirma. “É um presidente de Câmara de Vereadores. Mas o Senado também virou uma Câmara de Vereadores. Rebaixou-se muito o nível de discussão, de tema, de agenda.”
Adepto do fisiologismo gregário, Alcolumbre começou a se incomodar com o governo Lula quando o espaço para indicação de cargos na máquina pública – dele e dos colegas – passou a se estreitar. Não havia conseguido colocar Augusto Aras no STF e, agora, batalhava para emplacar seu amigo Rodrigo Pacheco, mas o governo optou por indicar Jorge Messias, servidor público de carreira e procurador da Fazenda Nacional desde 2007. Alcolumbre reclamou que não tinha sido previamente consultado sobre a decisão do presidente da República. Messias não é popular entre os senadores e sua única chance de ser aprovado é com a ajuda de Alcolumbre na campanha. Até hoje, quatro meses depois da indicação, o caso de Messias ainda não foi votado.
Às vezes, quando sente que seu espaço está sendo reduzido, Alcolumbre é até capaz de simular envolvimento em discussões mais complexas. Em maio do ano passado, quando o governo Lula publicou dois decretos alterando as alíquotas do IOF, os parlamentares se insurgiram contra a iniciativa dizendo que interferia nas atribuições do Legislativo. O mercado também se irritou com a medida e pressionou o Parlamento. Deputados e senadores cobraram de Alcolumbre, na posição de presidente do Congresso, que fizesse a defesa pública da instituição.
Duas semanas depois, Alcolumbre participou de uma reunião com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na qual acertaram um acordo para tocar a votação em frente. Mas, como o governo vinha atrasando o pagamento das emendas parlamentares, Alcolumbre aproveitou a crise dos decretos para o que realmente interessava: abrir uma brecha para pressionar pelo dinheiro. Atropelou o acordo que firmara com Haddad e, junto com Hugo Motta, articulou a derrubada dos decretos presidenciais. “Poderiam ter buscado o diálogo, a conciliação, a pacificação e o entendimento. Fizeram e tomaram uma decisão unilateral, que dá o direito ao Parlamento de tomar uma decisão unilateral de colocar em votação o projeto de decreto legislativo”, declarou Alcolumbre, como se não tivesse participado da negociação. “Que esse exemplo do IOF, dado pelo governo federal, seja a última daquelas decisões tomadas pelo governo tentando de certo modo usurpar as atribuições do Poder Legislativo.”
Em mais de trinta anos, foi a primeira vez que o Congresso aprovou um decreto legislativo para anular decretos do Executivo, que tem competência para publicá-los. Depois da derrubada, Alcolumbre fez um longo discurso. “O que este Parlamento fez ao longo dos últimos dois anos e meio, apoiando a agenda do governo, não deve ser reconhecido para chegarmos até aqui? […] Esqueceram o que foi feito antes de receber a faixa presidencial?” Finalizou dizendo que o papel do governo “agora é, a partir de amanhã, construir a agenda do Brasil e dos brasileiros, sem açodamento e, se possível, conversando um pouco mais com o Congresso brasileiro”.
Dois dias depois, o governo liberou o pagamento de 474 milhões em emendas – valor recorde do ano – para 149 parlamentares. Entre eles, Davi Alcolumbre foi o que mais recebeu recursos. Também houve uma audiência no STF para arbitrar a disputa entre governo e Congresso. Alcolumbre nem compareceu. Àquela altura, já tinha resolvido o seu problema e abandonou as discussões sobre o IOF. As alíquotas do imposto acabaram subindo, segundo um modelo muito parecido com o que a equipe econômica queria desde o início, contrariando o mercado. No fim, o governo superou a crise, mas saiu desgastado. Davi Alcolumbre mundiou, mundiou e mundiou a crise, e levou 20 milhões de reais do orçamento. Até agora, não há notícia de que o primo Pierre tenha comprado mais salas comerciais.
*O trecho foi alterado para incluir na afirmação do senador a expressão “em pleno mês das mulheres” e explicar seu contexto.
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