vultos da tevê
Tiago Coelho Ago 2023 14h33
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No capítulo 132 da novela A Favorita, Flora arma um plano contra Gonçalo: troca os remédios do empresário idoso por pílulas inócuas. Ele se dá conta de que Flora, por trás da máscara de vítima, é na verdade uma assassina e decide ir à polícia. Mas a moça o atrai de volta para casa, fazendo-o crer que a mulher e a neta estão em perigo. A sequência ganha então ares de thriller e terror psicológico. Gonçalo entra em sua mansão, que está às escuras, pois Flora cortou a energia. Chama pela mulher e a neta. Ninguém responde. Ele apoia a mão num móvel e sente um líquido viscoso – é sangue. Flora surge do alto da escada, segurando uma lanterna e vestindo uma camisola branca empapada de sangue. “Elas estão lá em cima”, diz a vilã, em tom macabro.
Desesperado, Gonçalo sobe a escada. Aproxima-se de um quarto e abre a porta. Gotas de sangue escorrem da maçaneta. Dentro, ele vê um cenário de carnificina, com a roupa de cama branca toda manchada de vermelho. “Eu botei as duas dentro do closet”, diz Flora. O homem, enfartando, tenta se mover até o armário. “Melhor o senhor não ver o que tem dentro”, adverte a vilã. Gonçalo desaba no chão, ofegante. “A dona Irene se entregou mais fácil. Mas a Lara… Ô menina pra gritar”, ela diz, saboreando cada sílaba. O empresário solta um suspiro e morre. Flora se aproxima do corpo e sussurra: “Gente velha é um perigo, morre por qualquer coisinha.” Não havia corpos no quarto e o sangue era falso. Ela matou Gonçalo de susto, sem encostar nele um dedo sequer.
João Emanuel Carneiro, o autor de A Favorita, foi uma criança insone. Aguardava ansioso para ver os clássicos do cinema que passavam de madrugada no Corujão, na TV Globo. Apesar de morrer de medo, tinha preferência por filmes de suspense e terror. Era tão solitário quanto Danny Torrance, o garoto que percorre de triciclo os corredores vazios do Overlook Hotel em O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, baseado no livro de Stephen King, de quem Carneiro é um leitor fanático. É desse filme uma das cenas que mais o assombraram na adolescência: aquela em que Danny se depara com os espíritos das meninas gêmeas. “Para gostar de filme de terror, você precisa ter muito medo. Sou medroso, tenho medo de fantasma”, diz ele à piauí, no café de uma livraria do Leblon. “Mas quem não tem medo não tem imaginação.”
Na infância, Carneiro teve mais de trezentos bonequinhos de chumbo ou plástico. Para cada um deles, o garoto deu um nome, características particulares e confeccionou uma certidão de nascimento. No fim do ano, fazia trezentas minicédulas de votação para cada boneco eleger um líder. Todos moravam num castelo onde havia um cativeiro que o menino enchia de azeite. O condenado à morte era jogado lá dentro. “Era uma infância solitária, o que me sobrava era imaginação”, conta o novelista. “Éramos só eu e minha mãe. E eu era o companheirinho dela.”
Sua mãe, Lélia Coelho Frota (1938-2010), antropóloga, poeta e pesquisadora de arte popular brasileira, criou o filho sozinha. Ela não gostava que ele assistisse à tevê e desligava o aparelho. Ele, teimosamente, religava. A mãe estava quase sempre absorta em seu trabalho, escrevendo ou lendo livros. “Eu odiava livros na infância, pois eles tiravam o tempo que ela podia dedicar a mim. Queimei vários livros da minha mãe quando pequeno.”
Carneiro e a mãe moraram em diferentes bairros do Rio de Janeiro e também em diversas cidades: Petrópolis, Belém, Lisboa e Paris. As constantes mudanças faziam com que as amizades do menino não tivessem continuidade. “Minha mãe tinha uma alma nômade”, diz. A pequena família fazia longas viagens pelo interior do Nordeste e o Norte de Minas Gerais, onde a antropóloga pesquisava sobre artistas populares, a respeito dos quais escrevia artigos e livros. Carneiro se lembra de uma visita ao escultor cearense João Cosmo Félix, o Nino (1920-2002), em Juazeiro do Norte, de romarias em Canindé, no Ceará, do gosto de uma galinha ao molho pardo que lhe fez mal no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, de pernoites em casas de pau a pique e do pavor de ser picado por um barbeiro. “Era muito perrengue. Andávamos em ônibus velhos em estradas de terra. Ela me levava porque não tinha companhia nem tinha com quem me deixar. Não era tão ruim, mas eu queria mesmo era ir para a Disney.”
Duas tendências da infância o acompanham até hoje: acordar tarde e odiar o calor. Quando se mudou com a mãe para a abafada Belém – onde a antropóloga escreveu um livro sobre o Museu Paraense Emílio Goeldi, nos anos 1980 –, o único prédio com ar-condicionado dessa instituição era a biblioteca. Ao se refugiar lá, Carneiro se aproximou dos livros. O primeiro que leu marcou sua memória: o romance infantojuvenil O Pequeno Lorde, da escritora inglesa Frances Hodgson Burnett (1849-1924). Na adolescência, foi leitor assíduo de quadrinhos de ficção científica e chegou até a escrever HQs. Aos 14 anos, bateu à porta do escritório do cartunista Ziraldo no Rio de Janeiro e ofereceu algumas histórias para a série de quadrinhos O Menino Maluquinho. Acabou contratado como roteirista.
Na hora do vestibular, Carneiro optou pelo curso de letras da PUC-Rio. Para se enturmar, resolveu fazer cinema, em paralelo à faculdade. Aos 21 anos escreveu e dirigiu o curta-metragem Zero a Zero, produzido com recursos próprios. O filme, um diálogo bem-humorado entre um homem e uma mulher na praia, ganhou o Prêmio de Melhor Curta 16mm no Festival de Cinema de Gramado de 1992. “Eu queria ser diretor, não escritor. Achava essa coisa de escrever meio modorrenta, triste. Me fazia lembrar do menino trancado em casa com a mãe debruçada sobre a máquina de escrever. Mas o meu texto chamou mais a atenção do que a direção.” Ele é de uma geração que, nos anos 1990, resgatou no Brasil a importância do trabalho do roteirista para os filmes. Seu aprendizado autodidata passou pelo Manual do Roteiro, de Syd Field, e pelos filmes que assistiu no Estação Botafogo, um cinema de arte do Rio.
Central do Brasil (1998) foi o primeiro roteiro de longa-metragem que Carneiro escreveu, com Marcos Bernstein, a partir de uma ideia do cineasta Walter Salles, que dirigiu o filme.[1] Além de fazer o roteiro, Carneiro foi assistente de direção, viajando com a equipe pelo sertão pernambucano, onde se passa parte da história. “Muito da cultura popular retratada no filme, eu vivenciei com minha mãe, naquelas viagens em ônibus velhos, frequentando feiras e romarias, como a Dora e o Josué, os personagens de Central do Brasil”, diz ele. Dora, interpretada por Fernanda Montenegro, é o ponto de partida para o que viria a ser uma marca do roteirista: os personagens dúbios. “Ela vive nessa zona cinza entre o bem e o mal, o que eu considero uma coisa muito brasileira. Uma mulher que escreve cartas para analfabetos, mas não as envia.”
Carneiro escreveu mais treze longas-metragens para diretores renomados. Um deles foi A Partilha, de Daniel Filho. Diretor de criação da Rede Globo na época, Daniel Filho levou Carneiro para a emissora para ser colaborador em A Muralha (2000), uma minissérie escrita por Maria Adelaide Amaral, a partir do romance de Dinah Silveira de Queiroz. “Daniel queria que eu colaborasse com um aspecto mais cinematográfico, dando mais ações para as imagens, criando cenas de guerras”, conta Carneiro.
O roteirista emendou mais dois trabalhos como colaborador na Globo: a minissérie Os Maias (2001), uma adaptação do romance de Eça de Queiroz também feita por Maria Adelaide Amaral, e a novela Desejos de Mulher (2002), escrita por Euclydes Marinho. Ele então percebeu que a tevê dava mais autonomia de criação para o roteirista do que o cinema. “O cinema é o lugar do diretor. Na televisão, ninguém se destaca mais que o autor.” Mas não era de seu interesse ficar no time de colaboradores. “Eu estava resolvido a deixar a Globo”, diz. Ocorreu, porém, que em 2003 a Globo decidiu renovar seu elenco de autores e encarregou o novelista Silvio de Abreu de escolher uma sinopse para lançar um novato. Ele pinçou uma ideia de Carneiro que levaria à novela Da Cor do Pecado.
Meu primeiro encontro com Carneiro foi no café da Livraria Argumento, um point charmoso do Leblon, no Rio, em uma manhã do fim de maio. Naquele momento, a novela Todas as Flores, escrita por ele e dirigida por Carlos Araújo, estava chegando à reta final e se tornara “o produto original mais consumido da história da Globoplay”, nas palavras do diretor da plataforma, Erick Brêtas. A garçonete se aproximou e Carneiro pediu uma porção de welsh rarebit – torradas com manteiga e queijo derretido que costuma comer quando vai à Inglaterra para se refugiar do verão carioca.
Carneiro, de 53 anos, tem um jeito afável e a fala calma, perpassada por um humor sutilmente irônico como o de muitos de seus personagens. Pouco afeito à tecnologia, quase não usa as redes sociais, onde suas vilãs fazem tanto sucesso. Como Vanessa, a aprendiz de megera de Todas as Flores, que em dado momento diz para sua irmã, Maíra, a mocinha cega: “Abre o olho, hein! Aliás, não abre o olho não, acorda, já que de olho aberto você não enxerga nada mesmo!”
O novelista conta que falas como essa “vêm de roldão” à sua mente quando está escrevendo. “O personagem sopra no meu ouvido. Quando a cena está certa, o diálogo flui naturalmente. Quando não flui, sei que a cena está com problemas.” Os seus vilões costumam disparar todos os impropérios imagináveis. Pergunto se a falta de filtro moral ajuda a criar esses diálogos. Ele fecha os olhos e, como quem confessa um pecado aprazível, faz que sim com a cabeça.
Quando era adolescente, ele achava fascinante a ideia de que a novela pudesse prender a atenção do público durante tanto tempo. Mas não era um espectador assíduo do gênero. “Não vi tanta novela. Meu desconhecimento me favoreceu. Eu pude trazer algumas inquietações do cinema.” Das poucas novelas que assistiu, as de Gilberto Braga eram suas favoritas. “Tinha aquelas personagens chiques, a Stella Simpson e o Miguel Fragonard de Água Viva”, relembra. Eram novelas que falavam de um lugar de onde ele vem, a elite carioca, embora, quando perguntei sobre sua posição social, ele tenha dito: “Classe média…” – para, depois de uma breve reflexão, corrigir um pouco: “Média rica.”
Como nas novelas de Braga, as de Carneiro têm sempre personagens pobres almejando a riqueza e ricos com medo de empobrecer. “Durante muito tempo tive medo de ficar pobre e passar fome”, ele conta. “Passei a cuidar do dinheiro e dos negócios de minha mãe desde muito cedo. Eu não tinha ninguém com quem dividir essa responsabilidade. Acho que vem daí esse medo de meus personagens. É o medo de ir parar na calçada.”
O medo da pobreza, paradoxalmente, fez de Carneiro uma pessoa que não teme correr riscos no trabalho. Mas também, um bom avaliador de riscos.
Em sua primeira novela, Da Cor do Pecado, ele apostou numa história com estrutura clássica: o bem contra o mal e uma história de amor como eixo central. O fio condutor da trama veio daquele romance que ele leu quando criança em Belém, O Pequeno Lorde, a história de um menino pobre inglês que, depois da morte do pai, descobre ter herdado um título de nobreza. Para abrasileirar a ideia, Carneiro criou o filho de um milionário, Paco, que é dado como morto após um acidente de helicóptero. Duas mulheres alegam estar grávidas do rapaz: Preta, uma maranhense negra, e Bárbara, uma carioca branca de família tradicional falida. O filho legítimo de Paco é o que ele teve com Preta. “A novela é a história de como uma mulher negra e seu filho se inserem na vida do patriarca, enquanto há outra querendo pegar o lugar dela”, resume Carneiro.
Se a estrutura dramática era convencional, a aposta na protagonista beira a transgressão. Quando Da Cor do Pecado estreou, em janeiro de 2004, a Globo estava no ar havia 39 anos, mas nunca dera o papel principal de uma novela a uma atriz negra. “Eu sabia que era uma mudança grande na emissora, mas cabia na história que eu queria contar. Como você vai confrontar um milionário racista? Com uma mulher negra. É mais transgressor do que se a personagem fosse feita por uma atriz branca”, diz o novelista.
A atriz Taís Araujo, que achava que a chance de ser protagonista na Globo jamais aconteceria, viu na personagem Preta o prenúncio de uma mudança de atitude no país. “Ele foi visionário ao criá-la. Ela estava em consonância com aquele momento do Brasil no início dos anos 2000”, diz Araujo à piauí. “A Preta tinha orgulho da sua identidade, da sua independência financeira, como feirante. Já nos primeiros capítulos ela diz para o Paco, orgulhosa, que era dona do próprio negócio.”
Uma novela costuma ter entre 150 a 200 capítulos. Alguns autores, até os mais experientes, para enfrentar toda essa quantidade de episódios, costumam desenvolver “barrigas” a partir do meio do folhetim. São recursos narrativos que vão esticando a trama já conhecida, fazendo com que gire em círculos ou se arraste lentamente até quase perto do fim, quando a novela retoma as novidades e surpresas. Em sua estreia, para evitar barrigas, Carneiro criou um sistema que chamou de “balizador de vinte capítulos”. Segundo esse método, a cada vinte episódios ele introduzia um acontecimento novo e relevante na história para movimentá-la pelos próximos vinte capítulos. Com isso, a história parecia sempre avançar, ágil e interessante. “Desde o seu primeiro trabalho, Carneiro demonstrou uma grande agilidade no andamento das histórias, bons diálogos e cenas bem escritas”, comenta Maria Cristina Palma Mungioli, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP e pesquisadora do Centro de Estudos de Telenovela.
Da Cor do Pecado, dirigida por Denise Saraceni, mostrou-se uma aposta certeira da Globo e de Carneiro. A novela teve uma média de 43,6 pontos de audiência – a maior já alcançada na faixa das sete da noite nos últimos 28 anos. Durante os anos 2000, foi também a novela mais exportada da Rede Globo – para 107 países.
Em 2006, Carneiro estreou Cobras & Lagartos, no mesmo horário das sete. A partir dela, consolidou um estilo: o protagonista anti-herói, amoral, orbitando a tal zona cinza que tanto interessa ao autor. O eixo da trama é o malandro Daniel Miranda, o Foguinho (interpretado por Lázaro Ramos), inspirado em Macunaíma – o ardiloso personagem criado por Mário de Andrade. Foguinho odeia seu trabalho informal e precarizado no comércio popular. Ganha pouco, é desprezado pela família e pela mulher que ama. Massacrado pela pobreza, revida com trambiques e malandragens.
Quando um magnata, dono de uma loja de luxo, está prestes a morrer, busca uma alma nobre para deixar sua herança, já que não tem filhos e julga sua família indigna de receber a fortuna. Acaba deixando a dinheirama para um jovem pobre e bondoso que cruza seu caminho e que se chama também Daniel Miranda (interpretado por Daniel de Oliveira). Foguinho rouba a identidade do xará e abocanha a herança. Mas passa a viver acossado por um dilema moral: levar a boa vida que nunca teve ou dizer a verdade ao rapaz pobretão e devolver todo dinheiro? Ele escolhe a primeira opção.
Ramos fazia par com Taís Araujo, que interpretava Ellen dos Santos, uma vendedora de loja de luxo, que o rejeitava quando era pobre e se aproxima depois que ele enriquece. “Foi muito bom para minha carreira interpretar, depois de uma heroína clássica em Da Cor do Pecado, uma personagem amoral, interesseira, cheia de complexidades”, diz Araujo. O casal amoral interpretado por Ramos e Araujo alcançou mais popularidade do que o casal romântico (interpretado por Mariana Ximenes e Daniel de Oliveira). Casais românticos, aliás, nunca fazem muito sucesso nas tramas do novelista. “Não sou muito romântico nem gosto tanto de criar histórias românticas. Nas minhas novelas seguintes, as histórias de amor românticas nunca mais foram o eixo central”, ele diz. Para Luís Enrique Cazani Júnior, doutor em comunicação pela Unesp e autor de dois estudos sobre a dramaturgia de Carneiro, nessa novela “Carneiro começa um processo de desconstrução da matriz clássica que ele próprio usou em Da Cor do Pecado. Ele brinca com as regras da dramaturgia ao romper com o lugar fixo dos mocinhos e vilões bem delineados”.
Cobras & Lagartos teve uma média de audiência de 38,3 pontos no Ibope. Dez pontos acima da novela antecessora, Bang Bang. Depois de Carneiro assegurar dois sucessos para a Globo no horário das sete, a emissora decidiu incluí-lo em 2008 no panteão dos autores das novelas das nove da noite, que havia dezoito anos eram sempre os mesmos, em esquema de revezamento. Sua estreia no novo horário foi com A Favorita, a história da perversa Flora.
Nas noites insones da infância, assistindo ao Corujão, Carneiro conheceu A Sombra de uma Dúvida (1943), clássico de Alfred Hitchcock. O filme conta a história de Charlie Oakley (interpretado por Joseph Cotten), um assassino em série que, para escapar da polícia, se refugia na casa da irmã, que desconhece os crimes do parente. Lá, se aproxima da sobrinha adolescente (Teresa Wright), que pouco a pouco começa a desconfiar que o tio esconde segredos sombrios. “Ela fica na dúvida se aquele parente que ela tanto ama é um assassino ou não. É o meu filme preferido do Hitchcock. E tem um tema muito paradigmático de minhas histórias”, diz Carneiro. O filme foi a inspiração para A Favorita.
Carneiro decidiu colocar o público no mesmo lugar da sobrinha, com suas dúvidas. No campo das telenovelas foi além: quis chacoalhar as convicções do espectador e criou uma espécie de jogo. Duas amigas, Flora e Donatela, se apaixonam pelo mesmo homem, Marcelo, filho de um poderoso industrial. O triângulo amoroso termina em tragédia: o jovem milionário é assassinado. Flora e Donatela estavam na cena do crime, mas a primeira é flagrada com uma arma na mão e acaba presa. Donatela assume a maternidade de Lara, a filha que Flora teve com Marcelo e que é herdeira dele.
Anos depois, Flora sai da cadeia, ansiosa por buscar justiça: quer provar sua inocência e recuperar o amor da filha. Patrícia Pillar encarnou Flora, uma personagem de cabelos louros encaracolados, olhos azuis tristes, tom de voz sofrido e roupas simples. Interpretada por Cláudia Raia, Donatela é uma nova rica deslumbrada, coberta de roupas e joias extravagantes, que não consegue disfarçar seus modos grosseiros e politicamente incorretos. Uma mulher acusa a outra de ser a assassina.
Na realização da novela, tudo foi pensado para embaralhar a interpretação do espectador, da escolha das atrizes ao figurino. Carneiro esperava que o público ficasse dividido entre as duas. “Mas a pesquisa de opinião feita pela Globo dava mais de 90% do público acreditando na Cláudia Raia como vilã”, conta Carneiro. No capítulo 56, Donatela sequestra Flora, aponta uma arma para ela e diz que vai pôr um fim àquela história. Flora se aproxima do cano do revólver e diz, zombeteira: “Você não tem coragem, porque você não é uma assassina como eu.”
“Essa revelação foi algo disruptivo para a época. O mote da novela era esse: as aparências enganam. E você pode estar errado em suas convicções”, diz Carneiro. “Quando houve a revelação, muita gente se revoltou. Eu queria que as pessoas questionassem suas crenças e ideias. E elas não estavam muito acostumadas a isso na televisão.”
Reprisada pela Globo no ano passado, A Favorita pôde surpreender uma nova geração, que nas redes sociais comparou sua reação com a dos pais, no passado. No Twitter, @guirodrigg escreveu: “Minha mãe até hoje é revoltada por ter sido enganada. Diz que se decepcionou com a novela porque afirmava na época: ‘Tadinha da Flora, essa Donatela é uma vagabunda.’ Ela é, hoje, a maior hater da novela.” Já @Vinisilva2050 tuitou, sobre a reação da mãe: “Cheguei do trabalho e minha mãe estava vendo outra novela que não era A Favorita. Perguntei a ela o porquê. E ela respondeu que estava se sentindo muito enganada por não saber qual era a assassina. Estava com ansiedade e parou de assistir.”
A cartilha das telenovelas recomenda que a identidade do assassino seja revelada apenas nos capítulos finais – ou, melhor ainda, no último capítulo. Em A Favorita, a revelação ocorreu no fim do primeiro terço da trama, no capítulo 56. Mas, se o clímax foi entregue tão cedo, o que sobrou para os mais de cem capítulos ainda por vir? “A partir da revelação da assassina, eu quebrei minha história e recomecei outra fase. Virou um novo ato”, diz Carneiro.
Agora, no segundo ato, o público conhece a verdadeira face de Flora, mas quase todos os outros personagens da novela a ignoram. E Donatela, antes tida como vilã, assume o lugar de heroína, na sua tentativa de desmascarar a arqui-inimiga, que sai matando quem descobre sua história verdadeira. A audiência aumentou, porque o público quis ver até onde a psicopata iria e quantos conseguiria enganar para tomar posse da fortuna deixada por Marcelo. “Com esse jogo, o autor desafia aquilo que é uma das coisas mais fixas da estrutura da telenovela: identificar quem é o bem e quem é o mal. Ele inovou no básico. Reconhece no público alguém que está querendo entrar no jogo, e o público entra com o conhecimento que tinha do gênero. E, nesse jogo, Carneiro transgrediu”, diz Cazani Júnior.
Depois dessa ousadia, o novelista continuou testando os limites de uma dramaturgia mais desafiadora na Globo. Em 2010, escreveu a intrincada série A Cura, sobre um médico (Selton Mello) em Diamantina, no interior de Minas Gerais, capaz de curar os pacientes graças a seus dons mediúnicos. Os pacientes, porém, quando já estão gozando de plena saúde, são atingidos por um mal súbito e morrem, misteriosamente. O enigma tem ligação com o sobrenatural: remete a um antigo parente do médico, um explorador de diamantes e perverso traficante de negros escravizados que viveu na região no século XVIII. A trama é contada em três tempos: o presente (século XXI), a infância de Dimas no passado recente (século XX) e o passado remoto (século XVIII).
Embora não tenha sido um fenômeno de público, A Cura foi elogiada pela crítica e eleita a melhor série da tevê em 2010 pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA). “A Globo se interessa também por produtos que deem prestígio a ela, além de audiência”, observa o crítico Nilson Xavier.
Público, de fato, Carneiro arrebatou com Avenida Brasil, em 2012, sua novela mais famosa e de maior audiência até hoje. Ele tinha três ideias iniciais para a trama. A primeira, criar uma heroína vingadora. A segunda, promover uma grande reviravolta quando o folhetim chegasse ao capítulo 100 (seriam 179 capítulos no total). A terceira, falar de um fenômeno socioeconômico que ocorria na época: a ascensão da classe C. “A classe C era fortíssima, consumidora e detentora de uma identidade cultural afinada com o funk e o sertanejo”, diz o novelista. “Morar em Ipanema, escutar Chico Buarque, ir para Paris, nada disso era um referencial para essa classe. O rico aspiracional era Anitta, cantor sertanejo, jogador de futebol.”
Nas novelas, tradicionalmente, as tramas centrais aconteciam nos núcleos ricos. Os pobres entravam em cena como o alívio cômico ou em tramas secundárias. Ele decidiu que não faria uma novela sobre a elite. “As pessoas já não tinham mais interesse na alta sociedade. O Leblon soava velho e pouco vibrante. O subúrbio, por outro lado, tinha mais libido.” E, outra vez, um clássico do cinema veio à lembrança: Não Matarás (1932), do diretor Ernst Lubitsch, em que um militar alemão, no fim da Primeira Guerra Mundial, pede ao soldado francês que atirou nele: “Vá a Düsseldorf, procure Ana e diga que eu a amo.” O francês, tomado pela culpa de ter matado o alemão, cumpre o prometido e acaba se apaixonando pela namorada de sua vítima.
Em Avenida Brasil, a golpista Carminha (Adriana Esteves) seduz o incauto Genésio (Tony Ramos), um viúvo que tem uma filha pequena, Rita. Com a ajuda do amante, Carminha passa a perna em Genésio e vende a casa dele. O viúvo descobre a tramoia, mas é, por acaso, atropelado na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, por Jorge Tufão (Murilo Benício), um astro do Flamengo. Agonizante, Genésio transmite a Tufão o nome e o telefone de sua casa. Achando que Carminha precisa de proteção, o jogador se aproxima dela. A golpista não perde tempo e se casa com o craque, depois de abandonar a menina Rita num lixão.
Carminha passa a viver uma vida de luxo como mulher de jogador de futebol, sem dispensar o amante. Rita é retirada do lixão, adotada por uma família argentina e rebatizada como Nina (Débora Falabella). Adulta, chef de cozinha, ela retorna ao Brasil para se vingar. Consegue um emprego de cozinheira na mansão de Tufão. Se faz de amiga e cúmplice de Carminha, que não a reconhece. Fria e ardilosa, Nina passa por cima de valores caros às heroínas da telenovela. Vai se tornando um espelho de Carminha: mente, dissimula e engana. Nina corrói a autoconfiança da família de Carminha aos poucos, inclusive presenteando Tufão com romances que o façam perceber a sua realidade, como O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, para que se dê conta das traições da esposa.
O núcleo principal da novela não está situado numa região onde moram os ricos, mas no fictício bairro do Divino, às margens da Avenida Brasil. Depois de abandonar o futebol, Tufão, muito bem de vida, quer ser rei no subúrbio e constrói lá seu castelo. É o núcleo secundário de Avenida Brasil que vive no Leblon, bairro de elite. No subúrbio, onde vai espocar a tragédia central da novela, estão 90% dos personagens, a maioria formada por pessoas empreendedoras, otimistas e orgulhosas de sua identidade. Naquele momento, a periferia havia chegado ao centro.
“Avenida Brasil é um retrato da sociedade brasileira no ano de 2012. Foi uma novela representante do seu tempo tanto quanto Vale Tudo, de Gilberto Braga, representou o Brasil de 1988”, diz Xavier. O novelista, porém, prefere não associar seus trabalhos a leituras sociológicas do país. “Meu interesse sempre foi fotografar a pessoa que está entre dois mundos no sentido da moralidade. Aí é que está meu interesse”, diz Carneiro. O escritor Antonio Prata, que trabalhou na equipe de roteiristas da novela, também ressalta que é com a dramaturgia que Carneiro mais se preocupa. “Ele é muito dedicado à história e em criar personagens interessantes. E gosta de botar fogo no parquinho toda semana.”
Cazani Júnior analisou os sete primeiros capítulos de Avenida Brasil para desvendar o ritmo e a agilidade da novela, em seu ensaio Da Veiculação em Fluxo Contínuo para a Disponibilização: O Gancho na Produção de Sentido da Telenovela Avenida Brasil. Ele constatou uma novidade sobre a concepção de “gancho” – o recurso de interromper uma ação antes do intervalo comercial ou do fim do capítulo, para deixar o espectador curioso. “Em Avenida Brasil, os ganchos não aconteciam só no final do capítulo, mas de uma cena para a outra, criando uma gradação dentro do episódio, em que uma cena deixa uma expectativa para a próxima e vai avançando assim até o final do capítulo”, diz o pesquisador. “Carneiro também não se preocupa com a dispersão do espectador. Tudo muda o tempo todo.”
Outro fator que ajudou no sucesso da novela foi a habilidade de construir cenas em que a imagem é muito relevante, ao contrário da tradição televisiva (a novela da tevê é herdeira dos folhetins do rádio). “Como a televisão foi forjada no diálogo, a fala costuma ser mais importante que a imagem. Mas Carneiro tende a trabalhar a construção da cena como um todo”, diz a pesquisadora Maria Cristina Palma Mungioli. Isso não significa colocar a palavra em segundo plano. “O diálogo é a essência da novela. Acho que a cena tem que ter sempre uma provocação do escritor”, diz Carneiro.
A diretora-geral de Avenida Brasil, Amora Mautner, percebeu que a novela causaria impacto logo ao ler os primeiros capítulos. “Eram bem escritos, com personagens complexos, dramaturgia coesa e bem estruturada. E tinha esse elemento moderno de uma mocinha anti-heroína e diálogos muito bons.”
Carneiro começou a ficar otimista com o futuro de Avenida Brasil quando viu o teste de Adriana Esteves interpretando Carminha. “Eu pensei: ‘Que coisa extraordinária essa mulher fazendo esse papel.’ Estou feito com essa novela.” Esteves havia sido convidada pelo diretor Ricardo Waddington para fazer Monalisa, a cabeleireira e namorada de Tufão na juventude. Ela já estava apegada ao papel quando os diretores sugeriram que fizesse o teste para Carminha. “Fiquei com muita vontade de fazer, completamente inspirada”, conta Esteves à piauí. “Durante aquele ano em que gravei a novela, cada cena que fazia, eu sabia que seria um grande sucesso. E eu sou suburbana como a Carminha. Tenho fortemente essa característica de ser uma atriz popular, e o texto da novela também era.”
Nos anos 1990, ainda muito jovem, Esteves recebeu duras críticas por sua personagem em Renascer. A atriz se afastou das novelas com um quadro de depressão. Mas deu a volta por cima e, aos 43 anos, com Carminha, foi alçada ao patamar das estrelas da tevê. “Eu me joguei naquelas loucuras da Carminha. O João Emanuel Carneiro confia no ator dele e ficava louco para ver o que a gente dava de retorno daquilo que ele criou. Em troca, nos dava liberdade para criar. Eu ia para casa estudar, pensar em novas ideias para compor a Carminha. Doze anos depois, ainda fico louca em pensar na Carminha”, diz Esteves, aos risos.
Amora Mautner define o processo de criação da novela como uma “improvisação combinada”. “O texto era tão bom que a gente falou: ‘Vamos brincar.’ Se a Adriana botasse um caco nas falas, ou fizesse um gesto que a equipe gostava, o João aprovava e permitia que aquilo fosse incorporado à personagem. Ele deixava a equipe livre, e isso contribuiu para o estilo de intepretação visceral da Adriana”, conta Mautner. Carneiro nunca se importou com mudanças em seu texto. “Não penso como outros autores que querem que os atores digam tudo letra por letra. Se uma frase couber melhor na boca do personagem do jeito do ator, vai ficar mais verdadeiro.”
Apesar de todo o planejamento, na reta final de toda novela bate um cansaço. “Lá pelo capítulo 170 você não aguenta mais, está de saco cheio”, diz Carneiro. Alguns críticos consideraram alguns desfechos de Avenida Brasil atropelados. Como o episódio em que Nina levou uma rasteira de Carminha e a vilã roubou as fotos e os negativos que a mocinha guardava como prova do adultério. O público questionou: “Nina não tinha cópias digitais das fotos?” O deslize na trama seria por causa do cansaço? “Talvez, não sei”, explica Carneiro. “É que sou um analfabeto digital. É mesmo um absurdo a Nina não ter cópias das fotos num pen drive, na nuvem.” O novelista conta que não sabe sequer fazer um Pix.
O último capítulo da novela foi ao ar no dia 19 de outubro de 2012 e levou até mesmo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a reforçar as linhas de transmissão de energia para evitar apagões no país. Mais de 80 milhões de pessoas assistiram ao epílogo, que atingiu a média de 52 pontos de audiência. Desde então, nenhum capítulo de novela atingiu esse patamar. Avenida Brasil também superou um recorde anterior do autor (com Da Cor do Pecado) e se tornou a novela da Globo mais vendida para o exterior.
Todo esse sucesso trouxe uma sensação de onipotência para Carneiro. “Eu olhava pela janela e dizia: ‘O que aquele homem está fazendo lá embaixo que não está assistindo a minha novela?’”, relembra. “Avenida Brasil me criou um desafio maior: eu precisava superar as expectativas para a próxima.”
A estreia de sua novela seguinte, A Regra do Jogo, foi antecipada em dois meses, para agosto de 2015, porque Babilônia, de Gilberto Braga, amargava a pior audiência da história das novelas das nove e precisou ser encurtada. Era um desafio duplo para Carneiro: entrar antes do tempo previsto e suceder um fracasso de audiência. Mas grande parte do público já tinha migrado da Globo, afugentada pelos temas densos e provocadores de Babilônia, e pousara na TV Record, aumentando a audiência da novela bíblica Os Dez Mandamentos. “Babilônia criou um filho terrível na Record. Lembro que estava dirigindo meu carro na época que A Regra do Jogo estreou, e parei atrás de um ônibus que tinha uma propaganda enorme da novela da Record que dizia: ‘Vai abrir o Mar Vermelho.’ Vi aquela onda vindo pra cima de mim e percebi que seria difícil”, conta Carneiro. “Pensei que a cena em que Moisés abre o Mar Vermelho fosse durar uns dois dias na novela, mas eles estenderam por quase uma semana. Só depois disso minha novela recuperou audiência.”
Em A Regra do Jogo, Carneiro fez o movimento contrário de Avenida Brasil. Se Nina era boa e se corrompia, o novo protagonista, Romero Rômulo (Alexandre Nero), era um bandido que tropeçava na bondade. “Eu senti uma cobrança muito grande com essa novela das nove que eu gosto muito, mas não fez tanto sucesso. A história de um homem mau que se apaixona pela ideia de ser bom. O contrário da série americana Breaking Bad que naquela época fazia muito sucesso”, diz Carneiro. “Mas, olhando em retrospecto, era uma novela muito masculina. Tudo convergia para um universo muito masculino. E esse é um horário majoritariamente visto por mulheres.”
Antonio Prata tem outra explicação para o fracasso da novela. “A Regra do Jogo estreou num Brasil que estava embicando para baixo. As coisas no país começavam a ficar ruins, com crise econômica, impeachment, Operação Lava Jato. A novela falava de corrupção, criminalidade. As pessoas não queriam ver o que elas estavam vivendo.” Para o crítico Nilson Xavier, a dubiedade do protagonista pode ter espantado o público. “A trama central é muito boa. Mas não era uma novela popular, era uma história difícil. Romero era muito ambíguo. E, mais uma vez, em uma novela do João Emanuel Carneiro, a gente não sabia se ele estava falando a verdade ou não.”
Se foi difícil para o público entender as intenções dos personagens, para a equipe da novela o complicado foi acertar os ponteiros. A própria diretora de núcleo da novela, Amora Mautner, teve um entrevero com a atriz Cássia Kis, que interpretou Djanira da Silva, a mãe do bandido Romero Rômulo. Segundo Mautner, Djanira, ao morrer, devia mostrar ao público que acreditava na bondade do filho. “Mas ela fez o contrário: fez a cena como se soubesse que o filho era um monstro, com raiva dele. Não era essa a intenção. A personagem não sabia que o filho era mau. Era a confiança dela que o modificaria. A novela era chiquérrima nesse sentido, havia um dilema existencial como o dos personagens de Dostoiévski”, conta Mautner. “Eu pedi para a Cássia Kis regravar, e ela ficou bravíssima comigo.”
Depois de se destacar na direção de Avenida Brasil, Mautner foi alçada ao cargo de diretora artística na Globo. Havia uma grande expectativa sobre o resultado de A Regra do Jogo, cujos bastidores, diziam as colunas de tevê, foram ficando cada dia mais tensos. “Foi uma pressão grande sair de um sucesso como Avenida Brasil. E eu, pessoalmente, acho que errei na expectativa que criei, de dizer que ia fazer mais uma novela genial”, diz Mautner. “A expectativa é a mãe da frustração. Hoje em dia, depois desse episódio, eu entro nos projetos com menos expectativas. Porque a gente sempre pode ser atravessada pelo inesperado, que no caso de A Regra do Jogo foi o sucesso da Record.”
A Regra do Jogo teve uma média de audiência de 28,54 pontos. Escapou por pouco de ficar como lanterninha na lista das piores audiências da década de 2010 (o lugar é ocupado por Babilônia, com média de 25,45). Depois de A Regra do Jogo, a Globo separou a dupla Carneiro-Mautner. O autor nega ter havido desentendimentos entre os dois. Disse que mudanças de diretores no comando de suas novelas são comuns em sua trajetória, pois gosta de variar as parcerias para que surjam coisas novas. Mautner também não guarda mágoas desse projeto. “Gilberto Braga dizia para sua equipe em toda novela que estreava: ‘Vamos fazer um pacto: estaremos juntos. Se der certo, será fácil. Se der errado, será mais difícil, mas ainda assim estaremos juntos.’ Esse é o meu lema”, afirma a diretora. “Os projetos passam, as parcerias ficam. Eu sou fã do João Emanuel Carneiro e espero trabalhar com ele de novo. Para mim está tudo muito bem resolvido. Mesmo nos momentos difíceis da novela, sempre tive carinho e admiração.”
A opção seguinte de Carneiro foi criar uma trama solar, o oposto do clima sombrio de A Regra do Jogo. “Quis fazer uma novela gostosa de assistir, em Salvador. Como uma novela das sete, mas às nove”, diz. Segundo Sol estreou em 14 de maio de 2018, contando a história de Beto Falcão (Emilio Dantas), um cantor de axé music famoso nos anos 1990, mas que depois caiu no ostracismo e se viu totalmente falido. Dado como morto na queda de um avião, ele se refugia numa ilha e se relaciona com Luzia (Giovanna Antonelli), enquanto sua família fatura com o luto do público pelo cantor.
Carneiro reconquistou a audiência, atingindo 33,36 pontos no Ibope. Mas pela primeira vez, viu a crítica torcer o nariz para seu trabalho desde que se tornara autor de novelas. “A descoberta de que Beto Falcão estava vivo acontece logo depois da metade e a trama perde o interesse. E o autor repete muitos recursos usados em outras novelas, como a vingança”, analisa Xavier.
A ausência de negros em Segundo Sol, tanto mais que se passava em Salvador – cidade em que 82% da população é negra –, também desagradou. O Ministério Público chegou a notificar a Globo pela sub-representação de negros na novela. Na época, Dennis Carvalho, diretor artístico da novela, disse à Folha de S.Paulo: “Não quero a obrigação. Tem que ter feminista, tem que ter negro, tem que ter não sei o quê. Não. As cobranças são maiores hoje, ótimo. Mas não vou colocar um personagem por obrigação.”
O diretor teve que fazer um desagravo, depois da declaração. E a Globo se comprometeu em aumentar o número de negros no elenco, na segunda fase da novela. A partir daí, passou a ser mais vigilante com a representatividade racial em seus produtos audiovisuais. Carneiro reconhece o erro e acha que o episódio serviu como aprendizado. “Foi um processo educativo para todos nós.”
A Globoplay tem 30 milhões de assinantes, segundo a Bloomberg Línea Brasil. Está bem à frente de outras grandes plataformas de streaming, como a Netflix (com 15 milhões de assinantes), a Disney (8 milhões) e a HBO (4 milhões). Com um mercado relevante no Brasil, essas plataformas seguem a trilha da Rede Globo e correm para produzir o conteúdo audiovisual de maior popularidade no país: a telenovela. A Netflix já tem uma novela em pré-produção. A HBO prepara outra, com a história de uma vingança.
Graças à estrutura de que dispõe, a Globoplay saiu na frente, em 2021, com a novela Verdades Secretas 2, continuação de uma minissérie de Walcyr Carrasco feita para a tevê aberta. Carneiro estava na fila para fazer mais uma novela na tevê aberta quando a Globo decidiu que sua próxima história seria lançada no streaming. Numa demonstração de força, a emissora anunciou a estreia, em outubro de 2022, de duas novelas ao mesmo tempo: Todas as Flores, de Carneiro, na Globoplay, e Travessia, de Gloria Perez, na tevê aberta.
A imprensa comentou que, para Carneiro, a mudança teria sido um rebaixamento. Mas ele não viu assim. “Fiquei feliz. Foi um desafio novo. É uma novela menor, com 85 capítulos, um tamanho no qual acredito mais do que os 180 da tevê aberta.” Nos bastidores, as lideranças da Rede Globo e da Globoplay haviam decidido que Todas as Flores tinha o perfil ideal para ser uma novela exclusiva do streaming. “Identificamos várias características na história que a tornavam uma ótima candidata: uma trama ágil, uma história de vingança, personagens femininas fortes. A decisão foi acertada”, diz Erick Brêtas, diretor da plataforma. “As tramas complexas de João Emanuel Carneiro, com personagens que não caem no maniqueísmo, vilões que seduzem e mocinhas que não são ingênuas, tudo isso é muito compatível com o público do streaming, que, pelo contato com as séries, demanda histórias que tenham essas características.”
Todas as Flores surgiu para Carneiro com o lampejo de uma cena: Maíra (Sophie Charlotte), uma jovem cega, encontra a mãe que ela achava que tinha morrido. A mãe, Zoé (Regina Casé), que aparenta boa reputação, na verdade comanda uma organização de tráfico humano. “Embora minha mãe tenha sido ótima, a ideia da mãe perversa me fascina, é a minha bruxa preferida”, diz Carneiro. Zoé mantém um relacionamento doentio com Humberto (Fábio Assunção), ex-morador de rua que foi parar em sua ONG. Em vez de traficá-lo, ela se relaciona sexualmente com ele e depois o manipula para dar golpes – história que tem semelhanças com a da ex-deputada federal e pastora Flordelis dos Santos, condenada por matar o marido, que foi antes um interno de sua ONG.
Carneiro pensa que o formato mais curto dos folhetins do streaming permite que ele enxergue a história com mais clareza e possa trabalhar uma quantidade menor de personagens e desenvolver de maneira mais ágil a história principal. Há também maior liberdade para tratar de assuntos espinhosos e cenas com drogas e sexo. “No streaming, você está escrevendo uma história que as pessoas escolheram ver. Isso permite que o superego do autor não fique vigiando tanto, em todos os sentidos, do erotismo aos limites de criação.”
Certa elitização é outra consequência, como o próprio Carneiro observa. “Tenho sentido uma repercussão maior de Todas as Flores na classe média, na elite, nas pessoas com quem convivo. Ouvi mais retorno delas do que do povo nas ruas, porque não chega a todas as camadas da sociedade como a tevê aberta.”
Travessia, de Gloria Perez, não agradou nem ao público nem à crítica. E, quanto mais essa novela desgostava a audiência da tevê aberta, mais Todas as Flores chamava atenção no streaming, apesar de uma e outra não serem concorrentes. A novela de Carneiro foi exibida em duas partes: a primeira estreou em outubro de 2022 e acabou em dezembro; a segunda entre abril e junho deste ano. Brêtas diz que a estratégia de repartir Todas as Flores foi para que não dividisse a atenção do público com o Big Brother Brasil 23, exibido entre janeiro e abril. “Nossos dados mostram que, quando o Big Brother está no ar, um número importante das pessoas que assistem dramaturgia vai para o reality show. Quisemos manter a potência máxima da novela, reter a atenção das pessoas.”
Na segunda parte de Todas as Flores, Maíra se infiltra na organização que trafica humanos para denunciar a mãe. Ela compra crianças de traficantes, tropeçando na vilania para se vingar da genitora. A reação da crítica e de parte dos fãs da novela mudou consideravelmente. Houve uma grande expectativa de que a mocinha preparasse uma estrondosa vingança, mas ela é constantemente passada para trás pelas vilãs. Alguns personagens secundários que o público havia aprovado ficaram desimportantes ou praticamente sumiram da história. E o desenrolar das tramas centrais mostrou-se um tanto atabalhoado, com cenas e desfechos que desafiavam a verossimilhança, segundo os críticos.
Carneiro reconhece que dividir a trama em duas partes o obrigou a mudar de planos. “A princípio, não era dividido. Decidiu-se depois. Tive que mudar histórias, os rumos de personagens, fui me adaptando para desenvolver a trama nesse esquema. Mas, quanto ao desenvolvimento das cenas, não sou só eu. É uma questão de direção também, entende?”
“A novela entregou um bom resultado na primeira parte, deixou um gancho forte para a segunda, mas aí o autor perdeu a mão”, avalia Xavier, que acredita que novelistas do perfil de Carneiro deverão ser canalizados cada vez mais para o streaming. “Ele é um autor cuja narrativa foge dos modelos tradicionais de teledramaturgia. A tendência é que só os autores com pegada mais popular, palatável, como Walcyr Carrasco e Gloria Perez, fiquem na tevê aberta.”
Carneiro, entretanto, deverá voltar ao público das nove da noite. Ele foi escalado recentemente pela Globo para escrever uma novela para o horário. A trama, ainda é segredo, mas ele contou à piauí que será sobre duas mulheres que nascem no mesmo dia. Se a tendência é as novelas da rede aberta ficarem mais e mais populares, esse não é um caminho que o assusta. Apesar de ser filho de uma intelectual, ele não vê o gênero que o notabilizou como uma arte menor nem teme fazer entretenimento para as massas. “Ao fazer telenovela, me volto ao que minha mãe estudou: cultura popular”, diz ele. “Fazer novela é como uma escola de samba que sai todo dia.”
Ele também tem planos de voltar a fazer cinema, e não só como roteirista, mas como diretor. Já tem até um roteiro engrenado: um thriller sobre um crime cometido involuntariamente por uma pessoa comum.
No início de junho, combinei com Carneiro de irmos à exposição de parte do acervo de arte popular reunido por Lélia Coelho Frota, sua mãe, na Casa Roberto Marinho, um espaço de exposições no bairro do Cosme Velho, no Rio. A curadoria da mostra foi feita pelo próprio novelista, com obras de artistas como Bajado, Timbuca, Antônio Poteiro e Waldomiro de Deus, que ganharam notoriedade graças ao trabalho de Coelho Frota.
Chamei um UberX. Chegou um carro bem velho, o rádio alto e um motorista monossilábico e com a rabugice irreverente própria do carioca. O carro se aproximou da casa de Carneiro e o novelista embarcou. Caía uma chuva fina e pairava um mormaço abafado. Ele disse:
– Além da coleção de minha mãe, tem a exposição das obras da pintora Maria Leontina da Costa, minha madrinha. As duas eram muito amigas. Sempre havia jantares de artistas e intelectuais lá em casa, com a presença de Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto, Antonio Candido, Burle Marx… E eu no meio dos adultos.
– Você gostava?
– Gostava, mas sentia falta de ter criança para brincar. Me sentia muito sozinho.
A atmosfera mormacenta parecia incomodar o roteirista. O carro não tinha ar-condicionado e o trânsito estava engarrafado. Carneiro abaixou o vidro do carro, parecia inquieto. Como quem libera uma memória sufocada, ele contou:
– Eu era um excelente aluno no Colégio Santo Inácio. E a escola premiava os alunos que tiravam notas muito boas. Mas meu esforço não era reconhecido, nunca ganhei o prêmio porque minha mãe não era casada. Não era bem-visto naquela época – e estou falando dos anos 1970, 1980 – uma mulher divorciada. Então eu saí do Santo Inácio e fui para o São Vicente, que era uma escola mais progressista.
O novelista esticou o pescoço para ver o engarrafamento, que se espraiava por toda a Avenida Borges de Medeiros, que margeia parte da Lagoa Rodrigo de Freitas.
– A gente vai chegar ao Cosme Velho só amanhã, e depois vai ser um inferno para voltar. Mudança de planos. Vamos voltar para minha casa.
A contragosto, o motorista desviou e retornou ao Leblon.
– Mais importante do que planejar é identificar que o plano não vai dar certo e recalcular a rota. Isso é uma arte – disse Carneiro.
Quando estreou como autor titular em 2004, com Da Cor do Pecado, ele penou com a carga diária de trabalho. “Apesar do sucesso, era um volume de trabalho imenso. Eu trabalhava o dia inteiro, emendava o dia com a noite, não dormia, engordei 20 quilos. Minha cama quebrou e passei seis meses dormindo nela quebrada, não tinha tempo para resolver nenhum problema. Eu não estava preparado. Foi traumático.” Um capítulo de novela tem cerca de trinta páginas.
Em 2006, com Cobras & Lagartos, decidiu alterar sua rotina. “Vi que precisava mudar, senão eu ia enlouquecer.” Hoje, ele acorda às 11h, toma café da manhã e começa a escrever às 13h. Faz uma pausa para o almoço e volta ao trabalho até às 20h. Quando a novela começa, às 21h, ele assiste ao capítulo. Depois janta, lê um livro ou vê um filme. E dorme pouco depois das duas da madrugada.
Ele conseguiu criar essa nova rotina ao romper com uma prática da geração anterior de novelistas e suas equipes de corroteiristas. Era comum que eles estreassem uma novela com cerca de trinta capítulos escritos e dez gravados – e seguiam em frente. Com o passar do tempo, o número de capítulos previamente escritos encurtava e a equipe precisava correr para não atrasar o andamento da novela. Carneiro decidiu estrear suas novelas com cerca de cem capítulos já redigidos. “Fiz isso para não escrever seis episódios por semana. Eu guardava os cem capítulos com escaleta e ia gastando até o final da novela.” Escaleta é o esqueleto, a estrutura de um roteiro, com uma lista de cenas de cada capítulo e indicações de diálogos e ações.
Com cem capítulos já redigidos, Carneiro e sua equipe de colaboradores desenvolvem o restante com mais calma. “Para mim, novela não é um pão quentinho que você escreve num dia e grava no outro”, diz ele. “Televisão é um desafio em que só sobrevivem os fortes. É uma verdadeira arena de gladiadores. Tem tudo para dar errado, então tem que estar preparado.” Antonio Prata, que colaborou em duas novelas de Carneiro, Avenida Brasil e A Regra do Jogo, apoia a metodologia. “Muita novela embarriga porque os autores atrasam a entrega dos capítulos”, diz Prata. “Nas novelas do João a gente escreve 90 páginas por semana, e não 180. Você trabalha muito melhor os capítulos.”
Quando a novela estreia, algumas ideias desenvolvidas nesses cem capítulos antecipados podem não dar certo e precisar de modificações. Com a estrutura pronta, entretanto, fica tudo mais fácil. “Em A Regra do Jogo tivemos que fazer mais mudanças e reescrever mais coisas porque foi uma novela que não deu tão certo quanto Avenida Brasil”, conta Prata. “Mas é mais fácil mudar quando você tem tudo pronto. É como uma reforma: aproveita os tijolos e não reconstrói tudo do zero.”
A história de uma novela é sempre uma criação do autor titular, com o apoio de sua equipe de colaboradores. Em geral, eles decidem juntos alguns rumos das tramas, desenvolvem as escaletas e, então, repartem entre si as cenas que cada um vai escrever.
O estilo de Carneiro é mais centralizador. Ele decide o rumo das tramas sozinho, faz sozinho as escaletas e divide entre seus colaboradores as cenas que eles vão redigir, com indicações de ações e diálogos. “As cenas chegam bastante adiantadas do João para os colaboradores, com a descrição do que vai acontecer na cena e, muitas vezes, até trechos de diálogos desenvolvidos”, revela Prata. “O papel do colaborador é achar uma maneira mais esperta, coloquial, botar um molho. Refinar a cena e amaciar os diálogos.”
Em A Favorita, Carneiro foi à ilha de edição da novela acompanhar os primeiros capítulos gravados. Gostou da experiência. “A edição é a última chance de ver se o que escrevi está funcionando”, ele diz. O autor passou a pedir para o editor Fabrício Ferreira lhe enviar DVDs com os capítulos diariamente. “Queria ver se cada capítulo funcionava como um filme”, justifica Carneiro. O editor enviava os capítulos editados, Carneiro assistia de madrugada e no dia seguinte, às duas da tarde, ligava para Ferreira. “Ele me passava algumas observações. Algo que tinha escrito e cujo resultado filmado não gostava, ele conseguia resolver me pedindo para cortar ou encurtar alguma cena, excluir algum trecho do diálogo”, conta Ferreira, que desde A Favorita edita todas as novelas do autor. “Nunca nenhum autor fez isso de acompanhar todos os capítulos vendo a edição. E o diretor Ricardo Waddington deixava: dizia que o autor era a pessoa mais adequada para sugerir o corte de uma cena.”
Ferreira afirma que essa dobradinha entre autor e editor, incomum na Globo, nunca foi incômoda e que as novelas de Carneiro foram sempre as mais desafiadoras que montou. “Eu gosto da forma como o João constrói a narrativa. Não me prejudicam em nada as observações dele. Só somam. São em prol do produto”, diz. “Ele junta uma cena na outra e cria um encadeamento muito bem amarrado. Não tem cena solta. É difícil deslocar uma cena de um capítulo dele, como dá para fazer em outras novelas. É uma metodologia que ele encontrou.”
Carneiro trouxe do cinema este recurso em que cada cena ou capítulo deve contar uma história completa. “Detesto novela com cena de repercussão, em que há um acontecimento e as outras personagens ficam comentando. Não acredito na ideia de que a tevê tenha que ser didática e explicativa. No cinema a gente aprende a não explicar tudo”, diz. Para ele, a ideia é “pensar cada capítulo como se fosse um filme”.
Ou um transatlântico. Um dos poucos encontros presenciais que Prata teve com Carneiro ocorreu em 2012, no Rio, para discutir o projeto de Avenida Brasil. O novelista expôs suas ideias para algumas tramas e personagens, Prata fez perguntas e lançou observações. Quando terminaram o trabalho, Carneiro contou ao escritor paulistano que uma das casas em que viveu na infância ficava em Santa Teresa, um bairro na parte alta do Rio de Janeiro, com vista para a Baía de Guanabara e o porto, os navios cargueiros gigantes e os transatlânticos.
Sobre a laje dessa casa, Carneiro costumava brincar de capitão da Marinha. Com um telefone velho, fingia estar recebendo uma ligação. “Aqui é o capitão do navio cargueiro inglês The Royal Ship pedindo permissão para ancorar”, dizia o garoto, e ele próprio respondia: “Permissão concedida, capitão. Pode atracar.” Prata pensa que, nessa brincadeira, Carneiro já “estava exercendo a vocação dele para autor de novela, que é como comandar um transatlântico, sozinho, do alto de uma laje”.
Carneiro mora numa casa de estilo contemporâneo em uma área reservada do Leblon onde não há prédios, apenas residências grandes e elegantes, em ruas muito arborizadas, afastadas o suficiente do burburinho das grandes vias. Na sala, há algumas obras de arte, fotografias de família, livros e uma grande tevê, que estava desligada quando a piauí encontrou o novelista. Naquele dia 1º de junho, a Globoplay iria exibir à noite o último capítulo de Todas as Flores. Mas o novelista já tinha visto, pois acompanhou todos os capítulos na ilha de montagem.
Carneiro serviu um chá de laranja e logo perguntou o que os críticos que entrevistei disseram sobre as suas novelas. Contei que alguém falou que suas tramas paralelas às vezes não funcionam. Ele concordou.
– Realmente, eu me dedico muito à trama principal. Mas novela é como uma refeição completa. Quando sinto que falta uma salada, coloco, por exemplo, uma trama paralela para trazer humor – disse. – O bom do streaming é que posso me dedicar mais à trama central e ter menos tramas paralelas. Todas as Flores foi uma experiência legal, mas não posso fazer o mesmo na tevê aberta.
Comentei que seus personagens são muitas vezes movidos pelo desejo de vingança.
– Você acha que sou uma pessoa vingativa? – ele perguntou, e respondeu de imediato. – Não sou.
Depois tomou um gole do chá e fez outra pergunta, no seu tom sardônico tão particular:
– Você se vingaria de alguém na vida?
Antes que eu respondesse, ele falou:
– Eu me vingaria.
– De quem? – perguntei.
– Não posso falar – ele disse, rindo. – O bom da novela é que o pior de você pode vir à tona, e você tem a chance de exorcizar seus monstros na ficção. E é melhor que fique por lá.
– E um acerto de contas? – indaguei.
– Um acerto de contas pode ser que eu tenha, sim. Com algumas pessoas de minha vida.
García Márquez disse que todo escritor está sempre escrevendo a mesma história. A do autor colombiano era sobre a solidão. A de Carneiro seria sobre vingança?
– Não. A minha é sobre essa zona cinza entre o bem e o mal. E também sobre a ideia de família, que é uma coisa que nunca tive muito. A ausência de uma família.
Ele fez um silêncio introspectivo e continuou:
– Ser filho de uma mãe solteira, ter que cuidar de mim mesmo desde cedo…
O novelista é meio-irmão da atriz Cláudia Ohana – e os dois são filhos do artista plástico Arthur José Carneiro Silva. Em 2014, Carneiro Silva entrou com uma ação na Justiça pedindo uma pensão alimentícia a ambos os filhos.
– Mas eu prefiro não falar disso, é um assunto muito chato. A questão é essa: eu fui criado sem pai.
Em uma reportagem de 2016, do site Notícias da TV, Ohana disse coisa parecida: que seu pai sempre foi ausente em sua vida.
Muitos dos personagens de Carneiro são órfãos, desamparados ou abandonados.
– Quando eu era criança, dizia para minha mãe que queria morar na casa dos sete anões. Então, a família nas minhas histórias é a projeção de uma felicidade perfeita. Porque há sempre um vazio, um vácuo nos meus personagens.
Hoje, ele tem uma família. É casado com o ator Carmo Dalla Vecchia, e os dois são pais de Pedro, que nasceu em 2019, pelo método da barriga de aluguel, feito nos Estados Unidos.
– Minha trajetória me levou a buscar a família que tenho hoje. Eu desejei ter uma família e consegui. Foi uma superação. Mas o passado é como um abismo que, quando você o encara, ele te olha de volta.
O primeiro livro que Carneiro deu de presente ao seu companheiro foi O Eterno Marido, de Fiodor Dostoiévski. Em abril deste ano, Dalla Vecchia contou no programa Altas Horas, da Rede Globo, como ele e Carneiro se conheceram em 2003. “Eu fazia a série A Casa das Sete Mulheres e, perto do final, eu morria de uma morte horrorosa”, lembrou o ator. “O João estava assistindo à televisão, olhou aquele cara e na mesma hora ligou para a autora e falou: ‘Maria Adelaide quem é aquele garoto que acabou de morrer?’” No mesmo programa, Dalla Vecchia comentou: “A gente veio ao mundo sozinho e a gente vai embora sozinho. Mas eu queria dizer para ele que, há quase dezoito anos ao lado dele, eu nunca me senti sozinho.”
Todas as Flores foi a primeira novela que ele escreveu com uma criança correndo pela casa. Por vezes, Pedro ocupava a cadeira do novelista no escritório e dizia: “Hoje sou eu que vou escrever a novela, papai”, conta Carneiro. “Meu filho odeia que eu escreva, porque tira um pouco do meu tempo para ele.” Lembra um pouco a história do pequeno e solitário João Emanuel, aborrecido com sua mãe debruçada o tempo todo nos livros ou na máquina de escrever.
No início da noite, Carneiro me levou até a porta de sua casa. Chamei um carro por aplicativo. “Espero que desta vez você tenha mais sorte e não venha um Uber Z”, disse ele, com seu humor de Carminha.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_204 com o título “O quebra-regras”.
[1] Walter Salles é irmão de João Moreira Salles, fundador da piauí.