CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
O som ao redor
O artista colombiano que preserva paisagens sonoras
Leandro Aguiar | Edição 216, Setembro 2024
Quem sobe ao topo dos Cerros Orientales, a cadeia de montanhas encostada em Bogotá, a princípio tem a impressão de estar imerso no silêncio absoluto. Aos poucos, porém, o ouvido começa a captar os sinais da vida a 3,6 mil metros de altitude: o ruído dos insetos, o trinado dos pássaros, o assobio das pequeninas rãs andinas e as folhas de cedros centenários farfalhando ao sopro do vento frio e úmido. Esse conjunto forma o que o artista e ambientalista colombiano Ricardo Delgado, de 38 anos, chama de “paisagem sonora”.
Sob orientação dele, volto minha atenção para os sons mais distantes: um avião que sobrevoa a cordilheira, os motores e buzinas do tráfego na metrópole lá embaixo. As paisagens sonoras dos bosques andinos, explica o artista, correm o risco de se extinguirem, abafadas pela atividade humana. E o ecossistema local também está ameaçado: os Cerros Orientales são o que resta de um santuário botânico de espécies como o aromático laurel e o romero blanco, arbusto de propriedades medicinais. Nessas montanhas, nascem algumas das fontes hídricas que abastecem a capital colombiana, cujos mais de 7 milhões de habitantes têm sofrido nos últimos tempos com racionamentos periódicos de água.
Há catorze anos, Delgado percorre a Colômbia a fim de registrar as paisagens sonoras desse que é um dos países mais biodiversos do mundo e que sediará (em Cáli), no fim de outubro, a 16a Conferência das Nações Unidas Sobre a Biodiversidade (COP-16). Acompanhado de outros artistas e ambientalistas, além de antropólogos, biólogos, sociólogos, Delgado também já levou seus microfones a florestas tropicais e amazônicas, a bosques e cavernas da Cordilheira dos Andes, aos páramos que as rodeiam, aos pântanos atlânticos e à insólita Serra Nevada de Santa Marta, montanha de gelo em pleno Caribe, um dos seis glaciais remanescentes de um país que, até meados do século XX, tinha catorze montes nevados.
O artista utiliza as gravações em instalações sonoras que já montou em museus e espaços públicos, como a Cinemateca e o Jardim Botânico de Bogotá. Elas também servem a outros propósitos, como podcasts, palestras e artigos acadêmicos.
Cada bioma produz uma paisagem sonora única, que varia bastante ao longo do dia. Num lugar, o passaredo sobrepõe-se aos demais sons; em outro, ouve-se em primeiro plano a conversa dos sapos, ou o marulhar dos córregos, ou ainda o grito do condor. Em todos os ecossistemas, alerta Delgado, a biofonia (sons produzidos por seres vivos) e a geofonia (sons da terra) dividem espaço com a antropofonia (os sons produzidos por nós, humanos).
“Na época em que comecei a gravar, tinha uma visão mais romântica. Buscava um paraíso perdido, uma fuga do ambiente urbano de Bogotá em que fui criado, e me irritava quando o barulho de um caminhão surgia na gravação”, disse Delgado no livro Futuros multiespecie: Prácticas vinculantes para un planeta en emergencia (2023). “Com o passar dos anos notei que as atividades humanas estão presentes em todo o país. Não há um ‘lado de fora’. Vivemos num planeta antrópico.” Ou seja, dominado pela atividade humana em todos os sentidos.
Quando começou a coletar os sons do meio ambiente, Delgado enfrentou o menosprezo de alguns de seus colegas na Universidade dos Andes, onde se graduou em artes plásticas. Consideravam seu trabalho uma expressão da estética new age, com seu estilo relaxante e meio místico, mas pobre em rigor formal e experimentalismo. Ele decidiu afastar-se do ambiente acadêmico. Em 2010, internou-se no Parque Nacional Natural El Tuparro, no leste da Colômbia, quase na fronteira com a Venezuela. Serviu como guarda florestal voluntário por dois meses. A realidade que encontrou não era nada idílica. Contrabandistas faziam suas operações no parque, com o auxílio de outros guardas florestais. Miseráveis e combalidos pelo alcoolismo, indígenas locais dedicavam-se à pesca predatória.
Em meio a esses dramas sociais, Delgado firmou sua convicção de que deveria intervir só o mínimo possível nos sons que captava. Uma de suas inspirações foi John Cage, pioneiro da música eletroacústica, conhecido por 4’33”, peça composta de 4 minutos e 33 segundos de silêncio, para levar o público a tomar consciência do som ambiente nas salas de concerto. “Estou enamorado pelo som, não necessito que ele seja mais do que ele é”, diz o artista colombiano, traduzindo livremente uma máxima do mestre americano.
Um exemplo da intervenção mínima de Delgado em seu inventário de sons é o podcast Paisajes Sonoros em Vias de Extinción de Colombia, que pode ser ouvido no site paisajessonorosdecolombia.bandcamp.com. Com sua voz monocórdica, o artista se limita a informar o local da gravação, o ecossistema registrado e a atividade humana que o ameaça: ecoturismo abusivo, extração de petróleo, conflitos armados, criação de gado, expansão da monocultura, especulação imobiliária, ocupação irregular de terras. A partir daí, o ouvinte pode apreciar a textura e o aspecto espacial de cada paisagem sonora, e as diferenças de sonoridade quando o Sol nasce e quando se põe.
Numa dessas gravações de ecossistemas ameaçados, no Páramo Grande de Guasca, próximo a Bogotá, o próprio artista foi ameaçado. Um segurança o abordou para dizer que ele estava em uma área privada. Delgado respondeu que iria prosseguir de qualquer forma, e então o homem lhe apontou um revólver. “Dei meia-volta e fui embora. O argumento era por demais persuasivo”, conta o artista, com um riso nervoso.
A arte sonora de Delgado hoje conquistou as galerias, a academia e o apoio financeiro de instituições governamentais. Ele admite que seu trabalho terá sempre um fundo romântico. O artista diz que gosta sobretudo de gravar os momentos de maior atividade dos ecossistemas: o amanhecer, o entardecer e as primeiras horas da noite. “Curiosamente, nas cidades, o ciclo da atividade humana é parecido. O que levanta uma pergunta: será que somos, de fato, tão diferentes das demais espécies?”
