CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
Banho de axé
O terreiro de candomblé que abriga um spa em Salvador
Tatiane de Assis | Edição 234, Março 2026
O taxista Adailton dos Santos Bispo mora no Cabula – bairro de Salvador a cerca de meia hora de carro do turístico Farol da Barra – e de quando em quando costumava levar passageiros para destinos na área onde vive. Eles iam principalmente para o campus da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) ou para o Hospital Roberto Santos. Há dois anos, as viagens de Bispo para Cabula aumentaram, depois que ele firmou uma parceria com Mãe Angélica de Oxum, ialorixá que mantém no bairro, há quase três décadas, o Ylê Yá Yalodeíde, terreiro da tradição ketu.
Como ocorre em outros terreiros de Salvador, ela recebe pessoas não praticantes do candomblé em atividades específicas. Turistas aparecem para saber o que o jogo de búzios diz sobre suas vidas ou para tomar um banho de folhas. Esse último ritual é famoso no terreiro da Mãe Angélica, porque pelas mãos da ialorixá ganhou uma nova roupagem e foi rebatizado de “banho de axé”. Ela também adicionou outros serviços aos que não são da religião, como massagem e escalda-pés, criando dentro do terreiro uma espécie de spa. Fabio Santos conta que, a depender do orixá da pessoa, a composição do banho de axé muda. Mas Mãe Angélica enumera algumas folhas e ervas usadas: alecrim, manjericão e oripepê.
Bispo busca os passageiros no hotel ou em casa, aguarda o tempo necessário para os rituais de proteção, e então os leva de volta, zelando para que façam a visita ao terreiro com segurança. “Em média, as pessoas ficam lá na Mãe Angélica uma hora e meia, duas horas”, estima o taxista, que cobra 100 reais pelo serviço, caso o turista esteja pelas bandas da orla. Já, os serviços no local variam entre 200 e 300 reais.
Logo que descem do táxi, os clientes são recebidos pela vira-lata Stephanie, mascote do lugar, e por Fabio Conceição Gomes Santos, de 41 anos, filho de Mãe Angélica. Segundo nome na hierarquia do terreiro (e, por extensão, do spa), ele sempre oferece água, café e tapioca aos recém-chegados. Isso, porque antes de se encontrar com a ialorixá é preciso “esfriar o sangue” – deixar a energia do mundo lá fora e se conectar com o sagrado.
Meia hora depois, surge Mãe Angélica, com seus óculos de aros grossos na cor branca. A saia rodada e longa é na cor amarela, associada a Oxum, orixá do qual ela é filha. A bata é branca, cor de Oxalá, e o turbante verde homenageia Oxóssi, orixá que rege o ano de 2026.
Mãe Angélica de Oxum – na certidão, Angélica Conceição Ferreira Gomes – é uma mulher negra que, em paralelo à atividade religiosa, trabalhou a maior parte da vida como técnica de enfermagem. Aos 66 anos, é casada e tem dois filhos. Depois de se aposentar, realizou o sonho de fazer faculdade: formou-se em turismo em 2008 pelo Instituto Baiano de Ensino Superior (Ibes), hoje Centro Universitário de Salvador (Uniceusa).
Quando fez estágio em hotéis de Salvador, ela notou que muitos turistas queriam conhecer o candomblé, mas não realizavam esse desejo. Ou tinham medo – fruto do preconceito –, ou desistiam por causa dos horários dos terreiros.
Em 2014, durante a Copa do Mundo no Brasil, Mãe Angélica recebeu um grupo de torcedores americanos. Eles queriam visitar todos os espaços do terreiro, mas ela explicou que isso não é permitido: o candomblé tem seus mistérios, só revelados a quem se inicia em sua prática. A ialorixá resolveu então oferecer aos gringos um aperitivo dos rituais: uma reza seguida de banho de folhas. Sobre o corpo dos visitantes em trajes de banho, ela despejou, com uma cuia, água temperada por uma mistura de folhas. Estava ali o germe do “banho de axé”.
O banho se integrou a outras atividades oferecidas no quintal do terreiro aos não praticantes do candomblé, mas foi só a partir de abril de 2025 que alcançou um público mais amplo, graças principalmente a dois influenciadores. Douglas Matos e Mylena Stella, do nicho de viagens e estilo de vida no Instagram, fizeram vídeos mostrando a experiência que tiveram no spa dentro do Ylê Yá Yalodeíde, chamando a atenção para os serviços, como massagem, escalda-pés, búzios e sacudimento. Com isso o número de seguidores do perfil do terreiro no Instagram saltou de 3 mil para 17 mil.
Apesar de ter expandido os frequentadores do terreiro, o spa, segundo Mãe Angélica, ainda não dá lucro, pois o custo para manter o local é alto, entre 4 e 5 mil reais por mês. “É como se você estivesse em uma recepção de hotel para receber a pessoa. Tem que ter banheiro lavado, roupa lavada, toalhas de pé separadas de toalhas de mão”, diz. Santos complementa: “O que deixa caro são os insumos, como material de limpeza, as folhas, alimentação, água de coco. Todo turista gosta de coco.” Formado em direito, o filho de Mãe Ângela quase terminou publicidade e marketing, o que lhe é útil na estruturação do empreendimento de autocuidado.
O spa pelo menos tem ajudado na manutenção do terreiro, que abriga atividades assistenciais, como atendimento odontológico e médico, além de cursos de capacitação. A ialorixá mantém parcerias com professores da Uneb e no passado já contou com o apoio de políticos, como a ex-deputada federal Tia Eron (Republicanos), que, contrariando o histórico de conflito entre igrejas evangélicas e terreiros, é da Igreja Universal do Reino de Deus.
Mãe Angélica planeja levar o spa para um bairro mais central e manter o terreiro no Cabula. Acredita que a mudança pode atrair mais clientes e deixar mais clara a divisão com as atividades religiosas. Sua intenção, contudo, não amaina as críticas. Uma liderança religiosa ouvida pela piauí, afirmou: “É extremamente necessário achar formas de sustentabilidade [dos terreiros]. Ela poderia fazer bonecas de orixás, atabaques para vender. Mas não mexer nessa parte litúrgica e ritualística.”
Em resposta, Mãe Angélica garante que tudo que faz está de acordo com os fundamentos da religião. “Eu faço um trabalho diferente, sou diferenciada. Mulheres de Oxum gostam de novidades, de somar e ajudar. E estou aqui para isso”, diz, arrematando a declaração com seu lema: “Fé, força e ousadia.”
