Em Tóquio, estamos rodeados de arranha-céus. São belos e imponentes, mas ao mesmo tempo não têm aquela ostentação dos espigões americanos. Estão lá e pronto. Elegantes. Silenciosos ILUSTRAÇÃO: HARRIET LEE-MERRION ILLUSTRATION_HARRIETLEEMERRION.COM
Okāsan
Meu filho único foi morar em Tóquio, com bolsa do governo japonês para cursar uma universidade local. Eis um relato da primeira vez que o visitei e o que vivi durante catorze dias
Mori Ponsowy | Edição 122, Novembro 2016
A um mês de completar 21 anos, meu único filho foi morar em Tóquio, com bolsa do governo japonês para cursar uma universidade local. Até aquele momento, nós dois sempre havíamos morado juntos. Sempre sozinhos, em vários países. O que se segue é o relato da primeira vez que o visitei, que foi também a primeira vez que estive no Japão. Minha intenção é contar o que vivi durante esses catorze dias
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雲おりおり 人を休める 月見かな
Lua cheia:
para repousar os olhos
uma nuvem de tempos em tempos
Bashô
DIA 0_No balcão do aeroporto de Narita onde compro a passagem da van que me levará a Tóquio, a moça aponta para um aviso: partida às 18h50. Faltam dez minutos: é o tempo de ir ao banheiro e lavar o rosto. Quando, às 18h48, chego ao local indicado, a van está encostando. De luvas brancas, o motorista pega minha mala e a acomoda no porta-malas. Para dirigir, calça outro par de luvas, igualmente brancas. Partimos no exato segundo em que o relógio deixa de marcar 18h49 e indica 18h50.
Já é de noite. As estradas parecem saídas de um filme do futuro. Embora, imagino, ainda seja a hora do rush, há tão poucos carros circulando que não sei se avançamos em alta velocidade ou em câmera lenta. Nenhum outdoor polui a paisagem, silêncio absoluto.
Vou ao encontro de meu filho. Este é o país que ele escolheu para estudar, para se descobrir, para se inventar. Mais uma hora e estarei com ele.
NOITE_Como se fosse cúmplice de uma história que ninguém lhe contou, a moça da recepção sorri quando me identifico. “Seu filho já chegou”, ela diz, e em seguida me entrega a chave do quarto. Não pede o passaporte nem manda preencher alguma ficha.
Chamo o elevador. Quando a porta se abre, dou um passo para entrar e quase trombo com um rapaz que saía. Ele me olha nos olhos. Leva um susto. Eu também olho para ele. Ele ri. É o Mati! Seu cabelo parece um ninho de rato, está magérrimo e sua pele, que sempre foi muito branca, agora está meio bronzeada. “Não reconheci você!”, digo. “Tudo bem, mas agora me cumprimenta!”, ele responde, e ri de novo. Largo a mala. Não dizemos mais nada. Nós nos abraçamos e só agora, ao sentir o cheiro de seu pescoço, esse cheiro que reconheço; só ao acariciar seu cabelo transformado numa maçaroca; só ao sentir as costelas salientes por causa da magreza – só agora percebo que viajei até o outro lado do mundo para viver este momento. Queria que esse abraço não acabasse nunca. Esse silêncio e essa proximidade me alimentam.
MAIS TARDE_“Estamos em igualdade de condições”, diz Mati quando saímos do hotel. Caminhamos ao léu por uma zona da cidade que ele visita pela primeira vez. Ruas estreitas, sinuosas, com muitos barzinhos, gente bebendo e comendo. Quase todos homens, de calça preta e camisa branca. São os chamados salary men, explica meu filho, “homens que trabalham em troca de salário fixo”. Exatamente o contrário do que ele sonha para a vida dele.
Sempre fomos bons companheiros de viagem. Não temos pressa. Preferimos conhecer menos e dar tempo para que as imagens, os sons, as sensações nos tomem por completo. Não falamos muito: observamos. Mesmo nessa primeira noite, depois de meses sem nos vermos, caminhamos em silêncio. O que quer que tenhamos a dizer um ao outro pode esperar. De resto, por acaso a linguagem pode expressar alguma coisa mais importante que o simples fato de estarmos juntos?
A “igualdade de condições” acaba assim que entramos num lugar para comer: não consigo entender o cardápio, muito menos fazer qualquer pergunta à moça que nos atende ou decifrar o que está escrito nos cartazes. Então me dou conta de que só poderei me comunicar por meio de meu filho. Eu o ensinei a falar: ma-mãe, ár-vo-re, ca-sa. Agora é ele que fala por mim. E é também por intermédio dele que vou sobreviver depois que se esgotar o tempo que me foi reservado como pessoa indivisa, seja ele qual for.
Peço que ele diga à garçonete que achei seu colar bonito. A moça responde com poucas palavras e tira o adereço. “Ela diz que é um presente para você”, traduz Mati. A moça me estende o braço. Em sua palma aberta, o colar.
DIA 1, MANHÃ_“Aqui se caminha pelo lado esquerdo”, explica Mati enquanto descemos as escadas. Estamos na estação Tóquio, uma das maiores da cidade, para comprar as passagens do shinkansen – 新幹線, o trem-bala – que vamos tomar daqui a dois dias. Dizer que há uma infinidade de gente na estação é pouco. É pouco dizer que mesmo assim reina o silêncio e tudo está em ordem. Tampouco sei descrever a imensidão do lugar: subimos e descemos escadas, avançamos por túneis cheios de luz, atravessamos espaços de onde partem e aonde chegam oito, nove, dez corredores diferentes. As principais placas estão escritas no alfabeto latino, mas isso de nada me adianta. Awajicho, Ogawamachi, Ichigaya, Kagurazaka, Toshimaen, Gokokuji: nenhum nome soa familiar. O próprio mapa do metrô me confunde.
As pessoas estão muito mais bem-vestidas do que em Buenos Aires. A moda do “quanto mais desalinhado, melhor” não chegou aqui – ou não pegou. Faz 33 graus, mas não vejo ninguém de sandália. Sem distinção de idade, homens e mulheres estão muito mais cobertos que os raríssimos ocidentais com quem cruzamos.
De vez em quando, Mati se detém para ler uma placa e logo em seguida retoma a caminhada. Tenho medo de perdê-lo em meio a tanta gente. Ou, melhor dizendo, tenho medo de me perder dele. Mas já não estou perdida? Por acaso não perdi a âncora que esse menino foi para mim até pouco tempo atrás? Minha vida transcorre numa intricada estação de metrô na qual não sei de onde vêm os trens nem para onde vão. Se eu quisesse, poderia tentar decifrar o mapa. Mas decidi olhar para outro lado e abrir a porta para a incerteza. Quero aprender a viver sem medos.
ALMOÇO_Meu filho vive com o dinheiro contado. A bolsa que o governo japonês lhe deu paga a matrícula da universidade, a hospedagem na residência estudantil, a passagem de ida ao Japão e de volta à Argentina quando ele tiver completado o curso, o seguro de saúde e uma ajuda de custo que cobre suas despesas de alimentação e transporte. Não lhe falta nada, mas não sobra um tostão. Enquanto andamos por Shibuya, ele me explica que desde que está morando em Tóquio raras vezes comeu fora. Ele vive à base de bentō – 弁当, uma porção de comida individual acondicionada numa caixinha, em geral com arroz, peixe ou frango e algum legume –, que compra baratinho em qualquer mercado. Quando atravessamos uma avenida, lembro que Kafka Tamura, personagem de Murakami, costumava comer bentō, e penso que, pelo menos durante minha estadia, Mati vai experimentar outros pratos.
Estamos rodeados de arranha-céus que não parecem com nenhum outro de cidades que já visitei. São belíssimos e imponentes, mas ao mesmo tempo não têm aquela ostentação dos espigões americanos. Estão lá e pronto. Elegantes. Silenciosos. A avenida por onde passeamos também não se parece com as de Nova York ou Buenos Aires. Não há trânsito pesado e mal se ouve o motor dos carros. Ninguém buzina.
Chegando a uma esquina, viramos à direita e de repente a grande cidade ficou para trás. Entramos por uma viela sinuosa saída do passado. Então me vem à mente outro romance de Murakami: lembro do momento em que, no meio de um viaduto, Aomame sai do táxi, desce uma escada e se encontra num mundo paralelo. Isso é Tóquio: uma conjugação de passado, presente e futuro que mais parece um estado onírico.
Vamos almoçar num izakaya – 居酒屋, um local informal que oferece comida e bebida. O espaço é minúsculo: um balcão de madeira em L, dois bancos de um lado e quatro do outro. Demos sorte de encontrar dois lugares. Mati lê o cardápio, pergunta alguma coisa ao homem que atende do outro lado do balcão e que também é quem cozinha, serve as bebidas e lava a louça. Os fregueses querem saber de onde somos, o que fazemos. Meu filho come e fala. Ou, melhor, devora e fala. Fico surpresa como esse garoto antes tão reservado com os adultos agora se comunica com tanta facilidade. De vez em quando eu o cutuco: “Que é que eles estão dizendo?”, quero saber, “do que estão rindo?” As explicações sempre me parecem muito sucintas. Entendo que cada um deles veio almoçar sozinho, ninguém se conhecia e muito provavelmente eles nunca voltarão a se ver. Há uma senhora que passa dos 70, uma garota de 20 e poucos que trabalha numa revista e dois salary men que insistem em me oferecer cerveja e fazer perguntas em inglês. Mas só me interessa olhar para o meu filho e escutar o que ele diz.
Como se tivessem combinado, quando nos levantamos todos protestam. Somos seus convidados e não precisamos pagar. Mati se despede de cada um com uma inclinação de cabeça. Eu o imito. Arigatô, ele diz. Arigatô, eu digo, e pronuncio várias vezes seguidas minha primeira palavra em japonês. Arigatô, eles dizem. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
NOITE_Caminhamos em direção a Shinjuku, um dos bairros preferidos de Mati. Nas poucas ocasiões em que falamos por telefone, ele mencionou seu fascínio por esse local. Meu filho não é do tipo que viaja e liga o tempo todo, e, por mais que eu quisesse ter notícias, logo nas primeiras vezes que telefonei notei certa má vontade em seu tom de voz e resolvi esperar que ele me ligasse. Mesmo assim, embora eu não saiba dizer com que frequência infrinjo minha decisão, de vez em quando ligo ou mando uma mensagem perguntando como ele está ou dizendo que o amo. Numa dessas ocasiões, não pude deixar de dizer que sinto falta dele. Mas pelo menos nunca disse “muita falta”, acho. Fiz questão de criar meu filho para que ele fosse livre, vivesse sem culpa, e pelo jeito consegui. Que sentido teria lhe dizer, agora, que gostaria de vê-lo e ouvi-lo com mais frequência?
Shinjuku: uma Times Square multiplicada por mil. Ruas e mais ruas abarrotadas de gente, centenas de luminosos combinando os três alfabetos japoneses. Mati caminha rápido. Eu o sigo, o que não é nada fácil em meio à multidão. E se eu o perder de vista? Não trouxe dinheiro: entreguei tudo a ele porque, sem óculos, não faço a menor ideia dos valores de cada moeda ou nota. E se eu o perder de vista? Multidões nunca me atraíram. Posso apreciar a energia do local, posso entender por que meu filho fica fascinado… mas preferiria estar numa chácara observando uns carneirinhos no pasto. O pai de Mati também não gostava de multidões, a não ser que ele estivesse no palco e a multidão fosse seu público. O fato de nosso filho ser tão diferente de nós em certos traços de caráter é um mistério. Sua enorme clareza mental, um milagre. E se eu o perder de vista? E se me perder nesse cenário saído de um Blade Runner Reloaded? Queria pegar sua mão, mas não tenho coragem. Talvez daqui a alguns anos, quando ele for mesmo um adulto, eu possa fazer isso. Mas agora ele se irritaria. Apenas agarro a ponta de seu colete. “Estou com medo de me perder”, explico. Ele olha para mim: “Tudo bem”, diz, e sorri. Felizmente, é de noite. Ele não pode ver que, agarrada a ele – como ele se agarrava a mim quando tinha 3 anos –, estou chorando.
DIA 2, MANHÃ_Saí de Buenos Aires com o propósito de, enquanto estivesse fora, escrever e meditar todos os dias. Em minha última viagem, passados dois dias, comecei a sentir uma angústia que aumentava de hora em hora. Ter me afastado de minha mãe de 89 anos era, em parte, a razão da angústia: à medida que os dias passavam e eu estava longe dela, algo me dizia para voltar. A sensação de urgência foi crescendo até que precisei interromper a viagem. Disse a minha mãe que antecipara a volta por um motivo que inventei na hora. Nos meses seguintes, percebi que minha presença não mudaria nada: sua vida – e o dia de sua morte – não depende de mim. Por mais que eu queira estar ao lado dela quando isso acontecer. Talvez seja onipotência minha acreditar que possa ajudá-la nesse trânsito da vida para o que houver – ou não – depois. Talvez seja amor.
Outra coisa que descobri naquela viagem foi que não gosto de viajar, ainda que sempre tivesse pensado o contrário. Quer dizer: sinto uma forte atração por conhecer outras culturas, mas não me interessa fazer isso como turista. Não, se tiver de abrir mão das horas que toda manhã dedico à escrita. Não, se isso interromper minha prática diária de meditação. Não, se tiver de andar mais rápido. Para mim, deixar de escrever é o caminho mais curto para a angústia, a depressão, para sentir que minha vida não tem sentido.
Portanto, aproveito que Mati foi à academia e fico no hotel. Neste segundo dia em Tóquio tomo o café da manhã já munida de lápis e papel para avançar no romance que comecei há mais de um ano. Será a primeira e última vez que vou trabalhar nele durante minha estada no Japão: a partir da manhã seguinte, estes registros diários vão substituir a escrita do romance.
TARDE_O cruzamento Shibuya é um entroncamento de avenidas junto à estação de metrô homônima. É um dos raros cruzamentos no mundo do tipo “em x”, “em diagonal” ou, em inglês, scramble crossing (cruzamento mexido, como os ovos). Os semáforos interrompem o trânsito dos carros em todos os sentidos simultaneamente, permitindo que os pedestres atravessem em todas as direções ao mesmo tempo, até na diagonal. O melhor ponto de observação dessa efervescência é um Starbucks no 2º andar do edifício Tsutaya.
Antes de chegar lá, digo a mim mesma que ter escrito e meditado de manhã deve me manter a salvo da angústia quando atravessar essas ruas com milhares de pessoas ou observar o cruzamento desse 2º andar com paredes de vidro. Respiro fundo ao desembarcar do metrô. Estou relaxada, aprumada, convencida de que sou um samurai do século XXI.
Escolhemos uma mesa junto à vidraça. Meu filho contempla a multidão como se ela lhe pertencesse. Ajusta os fones de ouvido, pede emprestado meu caderno e começa a praticar kanji – os caracteres do mais antigo e complicado dos três “alfabetos” japoneses. Mesmo em férias, ele estuda pelo menos duas horas por dia. Decido observar o movimento dos pedestres todo o tempo que estivermos ali. Vou provar a mim mesma que posso fazer isso. Então acontece uma coisa inesperada: cada vez que a massa começa a atravessar, fixo a vista num indivíduo. Ele é único, penso. Como meu filho. Tem uma vida, uma história, um passado, um futuro, diferente de todos os demais. A maré humana é apenas uma ilusão. Ou a ilusão seria o indivíduo?
Espicho os olhos para o caderno – o meu caderno – em que Mati ficou escrevendo. Fileiras e fileiras de cerrados ideogramas. Vistos assim, como um todo, são uma corrente que me confunde, como a da rua. Mas observados individualmente – explica Mati – cada um deles significa não uma palavra, mas uma situação, uma cena diferente de todas as demais: “ter dor de barriga”, “parece que vai chover”. Ninguém sabe com exatidão quantos caracteres existem. Cinco mil? Dez mil?
Penso como o pai de Mati ficará orgulhoso quando eu lhe contar tudo isso. Nós nos separamos quando nosso filho tinha 1 ano, mas sempre o amei muito. De repente me lembro: não posso lhe contar nada. Ele morreu duas semanas depois que Mati partiu. Minha vida, a vida dele, a vida de cada uma das pessoas que atravessa a rua são tão únicas, tão complexas, mas também tão comuns como qualquer um dos kanji traçados neste caderno.
DIA 3, MANHÃ_Mati anota tudo numa folha de papel. À medida que ele tenta me explicar, vou me convencendo de que não serei capaz de chegar a meu destino. Ele escreve: 1) sair do hotel, andar cinco quadras, entrar estação Shimbashi; 2) pegar linha Ginza, a amarela; 3) descer na Gaienmae, andar oito quadras até Harajuku.
Combinei um encontro com Ryukichi Terao. Ele vai me esperar na saída 2 da estação Harajuku, ao meio-dia. Nesse meio-tempo, Mati vai estudar na academia. Pode parecer estranho, mas ele estuda enquanto faz bicicleta – e pelo visto funciona, porque ele fechou o semestre com A em todas as disciplinas. “Você vai comigo?”, pergunto. “Harajuku fica do lado oposto da academia, vou perder uns quarenta minutos”, ele diz. Viajei 36 horas só para me encontrar com ele, mas não falo nada: ele poderia retrucar que vim porque quis. Não estamos discutindo: só estou um pouco nervosa, com medo de me perder. Peço para ele me explicar melhor, as anotações não bastam. Ele olha para o alto, armando-se de paciência. “O que você não entende?” Minha vontade é dizer que não entendo nada, mas resolvo ser mais específica e me concentro. “Entrando na estação de Shimbashi, como faço para comprar a passagem? Como vou saber a que plataforma devo ir e onde fica essa plataforma? De que lado da plataforma tenho de esperar o trem? Quando descer na Gaienmae, que saída devo tomar para que sejam oito quadras até Harajuku, e não doze? E quando chegar a Harajuku, já fora da estação, como vou saber qual é a saída 2, onde Ryukichi ficou de me esperar?” Mati começa a responder, e para cada resposta tenho outra pergunta. Ele continua falando, mas a essa altura já parei de escutar: penso que uma das decisões mais acertadas que tomei nesta viagem foi trazer dois vidrinhos de Rivotril a mais. “Acho que vou me perder”, digo. Esgotada sua paciência, ele responde: “Mas que falta de espírito de aventura!”
Falta de espírito de aventura? Menino, tenho vontade de lhe dizer, você tem noção do que está dizendo? Se no ano passado por pouco não fui passar três meses numa aldeia perdida no Benim, como voluntária! Se quando você tinha 1 ano fui sozinha estudar num país desconhecido, levando você comigo! Falta de espírito de aventura, eu?! É isso que meu filho pensa de mim? É a única vez em toda a viagem que discutimos. O confronto dura menos de um minuto, nenhum dos dois quer estragar o encontro. “Vou com você”, ele diz. “Não precisa”, respondo. “Você tem razão: se eu me perder, me perdi. Vou sozinha.”
Não me reconheço. Eu não era assim, não tinha medo de me perder. Ele mesmo me disse isso a certa altura da discussão: “Se você se perder, qual o problema?” Boa pergunta. Outra boa pergunta é por que marquei esse encontro. Ryukichi é o tradutor de García Márquez, Cortázar, Onetti, Vargas Llosa. Na Embaixada do Japão, na Argentina, fizeram a gentileza de me pôr em contato com ele. Por acaso tenho a pretensão de que ele venha a traduzir meus livros? Ryukichi morou na Venezuela, onde também morei e onde Matías nasceu. Temos amigos em comum. Vou vê-lo por razões literárias? Para me sentir ungida de sua importância? Ou para sentir que não é só Mati que tem o que fazer, eu também tenho um compromisso inadiável neste país para onde só vim porque não aguentava nem mais uma semana sem ver meu único filho?
Ponho a mochila no ombro e saio do hotel. Às 11h59, chego à saída 2 da estação Harajuku, onde Ryukichi e sua mulher já estão me esperando. O castelhano dele é perfeito, com vocabulário rico e um sotaque dos Andes venezuelanos que me lembra a minha melhor amiga do colégio. Estou orgulhosa: não só não me perdi, como cheguei com pontualidade japonesa. E se vim ver Ryukichi, não foi por nenhum dos motivos anteriores: se meu filho resolver se estabelecer neste país, quando vier visitá-lo quero ter amigos com quem possa conversar sobre assuntos que me interessam. O medo do metrô de Tóquio, o medo de me perder – como quase todos os medos – são vencidos fazendo exatamente aquilo que se teme: saltando no abismo. Quando você salta, um anjo te sustenta. Mas antes é preciso atrever-se a saltar. Esse é o espírito de aventura que, com o passar do tempo, se perde.
MEIO-DIA_Aos sábados há uma feira livre em Harajuku. Fica na Omotesando, uma avenida larga e arborizada que alguns apelidaram de Champs-Elysées de Tóquio. Digo “feira livre”, mas em qualquer outro país teríamos de chamá-la de outro modo, porque não tem nada a ver com o que conhecemos por esse nome. O ritmo das pessoas é outro. A ordem, a tranquilidade, o silêncio. A delicadeza com que pegam uma berinjela e a examinam antes de comprá-la. As beterrabas são embrulhadas uma a uma, com capricho. Os pepinos, de dois em dois. Cestos com pimentões de várias cores parecem saídos de uma natureza-morta de Cézanne. Nunca lhes passaria pela cabeça juntar todos os pimentões vermelhos. O senso de estética para eles não resulta da prosperidade, mas de um modo de fazer as coisas que parece inato. Estou tão maravilhada, tão comovida que agradeço intimamente a Ryukichi e a sua mulher por não fazerem questão de conversar. Eles também se entregam ao quadro de Cézanne que, agora que dele fazemos parte, deixa de ser natureza-morta e talvez se transforme numa daquelas cenas urbanas de Monet. Vendem mostarda, vinagre, saquê, nozes, sementes, cogumelos, curry. As pessoas não são uma multidão, os produtos não estão amontoados. Há espaço e ar. Não há música de fundo. Ninguém grita. Nenhum bebê chora. Tudo está imaculadamente limpo.
Sentamos para almoçar ali mesmo, e embora conversemos durante a refeição, não o fazemos pela necessidade de preencher o silêncio. Às vezes faço uma pergunta, eles respondem. Depois voltamos a comer. Dali a pouco, um deles me pergunta alguma coisa e nos estendemos sobre o assunto. Conto como me impressionou ver tantos homens sozinhos à noite. Ryukichi, com um senso de humor que deve ter aprendido na Venezuela, comenta: “Não sei o que está havendo com os rapazes de hoje em dia. No meu tempo, a gente gostava de garotas.” Ele tem 44 anos. É a primeira vez, mas não será a última, que um nativo me fala do crescente desinteresse dos jovens japoneses por sexo e por estabelecer uma relação.
Depois do almoço, vamos a um lugar que serve exclusivamente saquê. Ryukichi cheira e saboreia a bebida como um degustador de vinho. Há dezenas de saquês diferentes: daiginjo (大吟醸) junmai (純米), honjozo (本醸造), koshu (古酒), tezukuri (手造り). Pedimos três, um de cada tipo, e, como velhos amigos, cada um prova um gole do copo dos outros.
Saindo da saqueria, vamos a um bosque que abriga o Meiji Jingu, um dos mais importantes templos de Tóquio. A sombra de 110 mil árvores nos protege do calor. Ao passar sob um grande torii de madeira – os torii são aqueles característicos pórticos japoneses –, Ryukichi diz que devo fazer uma pequena reverência. “É apenas um sinal de respeito pela natureza e pelos antepassados”, explica. Caminhamos em silêncio. Ao lado do templo há um poço de pedra com água e grandes conchas de madeira. Imito os demais e pego a concha com a mão direita, encho de água e despejo sobre a esquerda; passo a concha para a mão esquerda e derramo água sobre a direita; verto água na mão esquerda e lavo a boca. Diante do templo, fazemos duas reverências, batemos palmas duas vezes, “para acordar os deuses”, e terminamos com outra reverência.
Na volta, em frente à estação, eles me explicam detalhadamente como voltar. Ao me despedir, faço uma leve inclinação de cabeça, que eles respondem do mesmo modo, e eu repito, e eles também. Mergulho no mundo subterrâneo de Tóquio. Vou me encontrar com Mati no bairro onde ele mora, onde agora é sua casa.
PARÊNTESE SOBRE MATI CRIANÇA_Antes de completar 5 anos, Mati já dizia que ia morar no Japão. Nunca soube de onde ele tirou essa ideia. Talvez tenha sido porque, com 2 anos, ele aprendeu a comer peixe cru. Ainda que à época o sushi não estivesse na moda, ele sempre me pedia salmão. Morávamos em Boston, e lá o peixe era vendido a um preço razoável. Ele também gostava de legumes crus: aspargo, brócolis, rabanete. Quando já vivíamos na Argentina, Mati começou a dizer que ia viver no Japão. Ele não gostava que eu saísse, muito menos à noite. Vivia me ligando, a toda hora. Se por algum motivo eu não atendia o celular, ele entrava em pânico. A pessoa que estivesse cuidando dele não sabia o que fazer para acalmá-lo. Ele logo imaginava que eu tinha sofrido um acidente fatal. “Prometo que não vou morrer”, eu lhe dizia. A frase não terminava aí, mas a segunda parte eu anunciava só a mim mesma: “Pelo menos até você ser um homem feito.” Para mim, era mais que uma promessa. Mesmo não acreditando em Deus, sentia que havia um trato entre nós: meu filho não tinha ninguém no mundo, portanto eu não podia morrer enquanto ele precisasse de mim.
A ideia de que “quando crescesse” ele viveria no Japão durou alguns anos. Mati desenhava a casa que teria e, ao lado, esboçava um círculo: “Você vai morar aqui”, dizia. “Nesta bolha”, e ria às gargalhadas. A chave ficaria com ele, que trancaria a porta por fora para que eu não pudesse sair. “Mas por que não posso sair?,” eu perguntava, defendendo meus direitos. “Porque você vai ser muito velhinha.” Não conseguia convencê-lo a me dar um jogo de chaves da minha própria bolha.
Agora ele tem 21 anos e vive do outro lado do mundo. Tenho as chaves de casa, que fica a 36 horas de avião da dele. Posso entrar e sair a hora que quiser. Ele nem toma conhecimento.
TARDE_Meu filho me espera na saída do metrô. Quer que caminhemos por Suginami, o bairro onde ele mora. Não há prédios, apenas uma via principal com algum comércio, rodeada por ruas sinuosas com casas pequenas, impecáveis, todas muito parecidas.
Como se quisesse me mostrar o lugar exato onde fotografou uma cerejeira em flor, como se quisesse me fazer cúmplice de seu apego por certas cenas, ele me conduz aos locais onde tirou as fotos que me mandou. Atravessamos uma ponte, caminhamos pela margem de um riacho. Mas nada do que vejo se parece com as fotos. Não que seja diferente, nem que as imagens não sejam fiéis: é que as fotografias só mostravam uma faceta dessa paisagem suburbana, e agora vejo tudo o que há em torno. Agora aspiro o ar limpo. Escuto o grasnido dos corvos e o canto incessante das cigarras.
Chegamos a um edifício que parece ser um templo. Nada nos impede de entrar, assim como nada nos impede de pisar os jardinzinhos de qualquer casa: não há grades, cercas, muros. Atrás do templo encontramos uma centena de túmulos pequenos, despretensiosos, um ao lado do outro – uma laje ou pedra quadrada ao nível da terra, sobre a qual se ergue um cubo, também de pedra, e sobre este uma última peça, de forma alongada, retangular. Caminhamos entre eles por espaços estreitos onde cresce grama e alguma flor silvestre. Atrás de muitos túmulos, vemos três, quatro, cinco ou seis sarrafos de madeira. Não estão fincados na terra, mas dentro de um recipiente, como um vaso. Sobre eles, traçados com tinta preta, caracteres em kanji que Matías se esforça em decifrar. Mais tarde ficarei sabendo que o nome dessas madeiras é sotoba (卒塔婆) e que as inscrições são sutras. Alguns sotoba estão desgastados pela chuva, pela neve, pelo sol. Restou apenas uma vaga lembrança dos kanji de outrora.
NOITE_Só percebo meu cansaço quando tiro os sapatos para entrar no restaurante que meu filho escolheu. Foi um dia bom, mas longo. Talvez por isso o local me desagrade. Não me sinto à vontade desde o primeiro momento. Fica num 3° andar. Matías me explica que em Tóquio são frequentes os comércios que não dão para a rua, que funcionam nos andares altos dos prédios. A maioria nem traz placa de identificação. O salão tem pouca luz, três ou quatro mesas. Sentamos no chão diante de uma delas. Uma mesa é ocupada por um homem sozinho que fuma enquanto come; outra, por duas mulheres de meia-idade que também estão fumando e comendo. O cheiro de cigarro me incomoda. Não entendo como se pode gostar da mistura de fumaça e comida na boca. Tenho vontade de abrir uma janela. Matías diz que em Tóquio é proibido fumar na rua, mas pode-se fumar em muitos bares e restaurantes. Acho estranho ele não se incomodar com isso. Quando criança – e adolescente – ele tinha cisma com os fumantes. “Como é que essa gente pode puxar essa fumaça nojenta para dentro dos pulmões?”, dizia. Não gosto de estar aqui, mas procuro disfarçar, pois foi uma escolha de meu filho. Uma ideia me passa pela cabeça. Não. Nem chega a ser uma ideia: é apenas um vislumbre. O rastro deixado no pensamento por algo que nem chegamos a pensar.
DIA 4_De certo modo, hoje começa outra viagem. Vamos passar uma semana no Japão rural. O shinkansen para Nagoya sai às 11h3. As portas do trem abrem às 10h53 e fecham trinta segundos antes do horário de partida. Venho imaginando esta viagem há meses. Há coisas sobre as quais quero conversar e imaginei que o trem seria um bom lugar para fazer isso. Não faz muito tempo que Mati deixou a Argentina, mas de lá para cá ocorreram muitas coisas sobre as quais não pudemos falar por telefone e sobre as quais eu gostaria de conversar com ele.
Os passageiros viajam em silêncio. Não sei se por proibição ou mera consideração pelos outros, mas ninguém fala ao telefone no trem, no metrô ou no ônibus. Quando conversam, é sempre em voz baixa. Algumas pessoas trouxeram seus bentō e, assim que partimos, logo abrem as caixinhas e começam a comer com palitinhos. Em poucos minutos, atingimos 300 quilômetros por hora. Mati pega um caderno, põe os fones de ouvido e começa a traçar caracteres kanji. A cidade ficou para trás. Quem estava comendo guardou o lixo – nunca saberei onde. Ninguém deixa sujeira no trem: todo mundo conserva os restos até encontrar um lugar adequado onde dispensá-los. Percebo que não é o momento para ter uma conversa com Mati. Ele está feliz, concentrado, estudando. No seu mundo. Vários trens nos esperam nos próximos dias. Em algum deles poderei – poderemos – conversar.
Nas raras paradas entre Tóquio e Nagoya, notamos que, poucos minutos antes de chegar ao destino, os passageiros se levantam e se dirigem até as portas entre os vagões. O shinkansen se detém por breves segundos em cada estação: o necessário para que os passageiros possam descer e os que esperam do lado de fora subam, respeitando a fila formada na plataforma. Perto de Nagoya, nós dois fazemos a mesma coisa. A sociedade se encarrega de nos ensinar e nos moldar, sem que ninguém precise nos explicar.
Descemos e faltam exatos oito minutos para a partida do trem de Nagoya a Furukawa, nosso destino. Meu filho mostra os bilhetes a um guarda que nos explica como chegar à plataforma. “Você entendeu?”, pergunto. Ele caminha apressado, carregando minha mochila e a dele. Eu o sigo. Subimos escadas. Atravessamos um saguão. Pegamos um corredor. Descemos outras escadas e chegamos a várias plataformas. Mati corre os olhos pelo lugar. Nossa plataforma é a 4, mas aqui estão as plataformas a partir do número 10. Damos meia-volta e subimos as escadas que acabamos de descer. Matías pede informação a outro guarda. Atravessamos o saguão e descemos outra escada, muito mais longa que as anteriores, pulando os degraus de dois em dois. No final da escada, avisto nossa plataforma. Posso ler o número enquanto vou descendo. O trem ainda está lá, as portas abertas, sem fila. Quem tinha de entrar já entrou. Mati alcança uma porta, está a ponto de entrar, mas olha para trás e se dá conta de que ainda estou na escada. O trem apita. As portas vão fechar. Tento descer os degraus de três em três, mas assim que termino de descer tropeço e caio. Matías me vê no chão e olha para o trem. Eu olho para Matías. O trem está a apenas 5 ou 6 metros de mim. Mati dá um passo em minha direção. Eu me levanto. Ele me puxa por um braço. O trem volta a apitar. As portas começam a fechar no instante em que saltamos para dentro, de mãos dadas.
Pouco depois estamos olhando a paisagem pela janela. Não há um centímetro de terra sem cultivar. Arrozais e mais arrozais que, nesta época do ano, são de um verde berrante, alegre, como que fosforescente. “Como é lindo”, Matías diz, e fica em silêncio.
Quando chegamos atravessamos a aldeia a pé, da estação até o ryokan onde vamos nos hospedar. Faz calor. Não como em Tóquio, porque estamos nos chamados “Alpes japoneses”. Um ryokan (旅館) é uma pousada tradicional japonesa, parecida com aquelas onde se albergavam os andarilhos dos séculos XVI e XVII. Nas grandes cidades restam poucos, mas são comuns no interior. O nosso é uma casa de 150 anos, no alto de uma pequena colina. Mesmo tendo visto fotos, não estamos preparados para o que nos aguarda: assim que entro no quarto, penso que poderia ficar o resto da viagem aqui, escrevendo. Chão coberto de tatames, as portas corrediças e uma janela com vista para um templo no meio de um bosque. Não há camas: a esta hora, o centro do quarto é ocupado por uma mesa baixa e almofadões onde nos sentamos para tomar o chá que nos oferecem. Num móvel laqueado, encontramos dois yukata (浴衣, uma versão informal do quimono), meias com dedinhos e sandálias. Tudo isso para ir ao onsen (温泉, banho de águas termais).
A ideia de entrar nua numa piscina de água quente junto com outras mulheres, também nuas, me causa certo desconforto, mas estou resolvida a fazer a experiência. Enquanto caminho até lá, atravessando corredores cobertos de tatames, descubro por que as japonesas dos filmes dão passinhos tão curtos: a parte inferior do yukata é muito estreita e impede passadas mais largas.
Poucas vezes na vida fui tão feliz como nessa primeira noite. Nunca imaginei que o banho pudesse ser um ritual tão bonito. Tão delicado. Antes de entrar na água, devemos nos limpar. A piscina é de pedra, de contornos irregulares, do tamanho da sombra de um grande freixo. A água libera um vapor que se espalha pelo ambiente. De um lado há uma fileira de seis ou sete banquinhos de madeira, muito baixos. Três estão ocupados. Neles, sentadas, nuas, três mulheres japonesas se ensaboam, lavam o cabelo e o enxáguam. A lentidão com que fazem cada movimento, o cuidado com que limpam cada parte do corpo, o silêncio reinante, tudo isso torna sagrado esse momento. Elas enchem uma bacia de madeira de água e a derramam sobre o corpo para tirar a espuma.
Já limpas, vão até o onsen e mergulham. Uma delas fica boiando. Outra senta numa reentrância da pedra. A terceira remexe a água com as mãos.
Faço a mesma coisa que vi as três fazerem. Lavo meu corpo prestando atenção em cada movimento. Lavo o cabelo. Lavo os pés. Tiro a espuma. Por fim, entro na água. Os corpos das outras mulheres, corpos comuns, bonitos, me comovem. É isto que nos irmana. Nossa fragilidade nua.
DIA 5_O desjejum é servido às sete da manhã; o jantar, às seis da tarde. Talvez fosse o horário das refeições dos viajantes do século XVI. Tomamos o desjejum vestindo nossos yukata. Na mesa há um fogareiro minúsculo, sobre o qual repousa uma folha verde. Explicam que sobre ela podemos esquentar os cubos de tofu, as algas e os peixes secos, achatados, cobertos de sal. Além disso, em tigelas de várias formas e cores, há um vegetal cru que parece capim, feijão fermentado, missô, arroz, dois lagostins, salada de batatas, iogurte de chá verde e outros quitutes gelatinosos que experimentamos sem saber o que são.
Está chovendo, mas para Mati a água não nos impede de sair. “É verão. Qual o problema de se molhar?”, diz. É uma boa pergunta. Por que com o passar do tempo ficamos mais cautelosos? Como nos transformamos em adultos parecidos a nossos pais? Os empregados do ryokan nos emprestam dois guarda-chuvas.
Hida-Furukawa é uma aldeia nas montanhas da região de Gifu, atravessada pelo rio Setogawa. O rio corre ao longo de uma viela que mal comportaria um carro – uma ruazinha de pedestres, com calçamento de pedra escura –, contido por um canal de pedra estreito, não muito profundo. Na água absolutamente transparente, nadam carpas alaranjadas. De ambos os lados da rua há casas de dois andares. Predominam o branco e a madeira, embora também se vejam alguns ocres e marrons. Os telhados, inclinados para a rua, recolhem a água da chuva em calhas que a escoam. Cada casa tem sua pontezinha que cruza o canal para permitir a entrada dos moradores. A rua está quase deserta.
Deixamos o caminho principal, atravessamos um pequeno campo de girassóis e chegamos a uma loja que vende lenços, cerâmica, brinquedos. Um velho sentado diante de uma mesa baixa desenha uma paisagem, com pincel e tinta preta. Fala com Mati em japonês. “Ele quer que sentemos para poder nos desenhar”, meu filho traduz. Não temos a menor vontade de posar para um retrato. Estamos ensopados e, agora que o sol saiu, com sede e calor. Mati agradece e nesse momento a vendedora se aproxima. Ela explica que o homem tem 93 anos e vai todos os dias à loja para desenhar. Penso em minha mãe. Ela não conseguiria segurar um pincel assim. Sua caligrafia mudou. Às vezes hesita antes de decidir que letra vem depois da que acaba de escrever. Também não poderia falar com clareza para ser entendida por um estrangeiro.
Acabamos posando, claro. Não sei sobre o que o velho e Mati conversam. O homem não tem pressa. Ele nos observa e desenha em seu ritmo. Finalmente, orgulhoso, nos entrega o papel, com sua assinatura. Não nos reconhecemos. Meu filho pergunta à moça – não se atreve a perguntar a ele – quanto devemos. “Nada, nada”, ela diz. Mati insiste. O velho é mais enfático: “Nada”, repete, imperativo. Para provar, pega outra folha e começa a desenhar uma paisagem que, explica, também é para nós. Depois desenhará um peixe, uma rua, o campo de girassóis. Enquanto ele nos enche de desenhos, eu me pergunto se Mati estará pensando se um dia ele também será como esse velho. Ou, o que é mais provável, a velhice lhe é estranha, impensável, como para mim, até pouco tempo atrás, era pensar que ele viveria no Japão, convencido de que quer ficar aqui para sempre.
DIA 6_Hida-Takayama fica a quinze minutos de Hida-Furukawa, e é para lá que vamos esta manhã, de trem. Os trens são o cenário que imaginei para conversar com Mati. Não sobre qualquer coisa, mas sobre os assuntos que, nos meses de sua ausência, fui anotando mentalmente como “necessários”. Em nenhum momento me perguntei se seriam necessários para ele, necessários para mim, necessários segundo certos preceitos, ou necessários só para uma parte de mim que ainda acha que pode cuidar, influenciar, moldar, ajudar esse filho que uma vez foi só meu e agora é do mundo.
Hesito alguns segundos antes de falar, e é Mati quem puxa assunto. “Quer que eu te conte o que me aconteceu ontem à noite?”, pergunta. “Claro!”, respondo. Desde que ele aprendeu a falar, adoro que me conte tudo o que quiser contar. Quando ele era pequeno, eu vivia lhe perguntando o que tinha sonhado, o que tinha feito na escola, o que as professoras tinham dito, com quem brincava no recreio, qual era sua cor preferida, que bicho gostaria de ser. Depois fui aprendendo a perguntar menos. A esperar.
Na véspera, depois de jantar no ryokan, Matías foi dar uma volta. Encontrou um isakaya e entrou. Havia quatro ou cinco homens “maduros”. Nenhuma mulher. Matías se sentou diante do balcão e, antes que pudesse pedir qualquer coisa, dois homens se aproximaram. “Perguntaram de onde eu era, o que estava fazendo lá, com quem tinha vindo, se gostava da comida do Japão.” Ficaram conversando quase duas horas. Quando voltou ao ryokan, eu já estava dormindo. “Os caras queriam que eu comesse o que eles estavam comendo”, Matías continuou, enquanto o trem avançava por entre os arrozais. “Um dos velhos se chamava Seito.” Tanto insistiram que Mati jantou de novo. Não o deixaram pagar nada. “Nunca foram a Tóquio. Pediram meu telefone para me visitar, caso apareçam por lá.” “E quantos anos tinham esses velhos?”, pergunto, e olho para meu filho, sabendo que agora estamos brincando. Ele pensa, antes de responder. “Uns 60”, ele diz, e dá uma risada que reconheço ter sido a sua um dia. Eu também rio. Nesse momento, somos, juntos, o que já fomos.
Hida-Takayama é uma aldeia, mas uma aldeia grande. Percorremos um longo trecho, num calor de 33 graus, da estação até o Centro antigo. Várias ruas permaneceram como devem ter sido nos séculos XVII e XVIII, quando o local era um pujante centro urbano que recebia mercadores ricos. Não sei se as casas são de madeira ou estão pintadas de marrom. Hoje muitas são restaurantes, museus, lojas. É agosto – o mês das férias de verão –, as ruas estão repletas de turistas japoneses. Alguns se locomovem de jinrikisha –人力車, um carro de duas rodas, de tração humana.
Tiramos os sapatos e entramos na casa da família Kusakabe – uma antiga família de comerciantes e prestamistas –, agora aberta à visitação. Sem razão aparente, começo a me sentir um peso para Mati. Ou, mais precisamente, sinto que hoje ele não tem vontade, nem está muito contente, de estar aqui comigo. Ele tem 21 anos, e eu sou sua mãe. Seria muito mais divertido passear com uma turma de amigos, penso. Os pisos da casa, como os de todas as outras que visitamos, estão cobertos de tatames; os espaços interiores são amplos e separados por biombos de madeira e papel-arroz que tantas vezes vimos no cinema. Não há móveis. Descalços, percorremos os aposentos, cada um por si. A sensação de que Matías está cheio de mim vai crescendo. Subo ao 2º andar por uma escada muito íngreme e dou de cara com um vigamento de madeira escura, que se destaca contra o fundo de paredes brancas. É a estrutura que sustenta o teto: uma retícula tridimensional leve, de uma leveza que só se verá no Ocidente muito tempo depois. Um sistema de ripas, tirantes e escoras que se duplicam, como num espelho. Tração e compressão. Não sei onde Matías está. Queria lhe mostrar essa maravilha, mas me contenho. Por um momento, penso que talvez eu não devesse ter vindo visitá-lo.
Nos arredores da cidade, chegamos a um templo. Quando voltamos, estou com dor de cabeça, nas costas, na cintura. Embora tenha trazido de Buenos Aires um considerável farnel de analgésicos, já não tenho quase nenhum: eu os engoli de quatro em quatro. Meu filho pergunta a uma mulher onde podemos encontrar uma farmácia. Seguimos suas indicações. Mati mostra ao farmacêutico o papel em que anotei – em caracteres ocidentais – o princípio ativo do remédio que costumo tomar. O farmacêutico lê com atenção. Pergunta alguma coisa, Mati responde. O homem torna a examinar o papel e vai procurar algo nas prateleiras. Volta com uma caixinha. Os caracteres da embalagem são ideogramas. Pergunto a Mati se o princípio ativo é o mesmo. Mati olha a caixinha. Olha para mim. Depois para o farmacêutico. Entre os dois chegam ao princípio ativo do tal remédio: ibuprofeno. “Não, filho, ibuprofeno eu ainda tenho.”
O farmacêutico explica que talvez possamos encontrar o que procuro em outra farmácia. Vai até a porta, aponta numa direção e depois em outra. “A quantas quadras fica?”, pergunto a Mati. “Quinze.” “Não tenho condições de andar quinze quadras”, digo, tentando soar o mais adulta possível. Nesse momento eu queria estar em casa. Na minha cama. O farmacêutico olha para mim e faz um sinal para esperar. Atravessa as prateleiras de remédios e volta com uma bicicleta. Diz algo para Mati. Mati traduz: “Ele vai me emprestar a bicicleta para eu ir até a outra farmácia, enquanto você me espera aqui.”
Eu me pergunto se alguma vez poderei parar de dizer obrigada. Obrigada ao farmacêutico que emprestou a bicicleta a Matías. Obrigada ao meu filho pela paciência. Obrigada pelos cinco pães que comerei mais tarde, quando encontrarmos uma padaria. Obrigada por eu ter um filho. Este filho. Obrigada por poder escrever. E por existirem as palavras, e outras mulheres, e países como este. Obrigada por esta maneira de sentir. Mesmo que doa quase todos os dias. Mesmo que continue a doer. Mesmo que a dor nunca passe.
TARDE_Ao voltar para o ryokan em Furukawa, visto o yukata e vou até o onsen, esperando que se repita o milagre da véspera. Mas ele se nega. Por isso é um milagre: porque nunca se repetirá.
Mas antes de saber disso, vou arrastando meus passinhos curtos, querendo compartilhar minha nudez com a de outras mulheres. De repente sou atraída por uma visão. O que vejo me abala de tal maneira que pesará sobre o resto da viagem.
A caminho do onsen, vejo meu filho, de costas, sentado numa poltrona. Ele está sozinho. Saiu do quarto pouco antes, dizendo que ia estudar. Eu me aproximo, mas à medida que chego mais perto noto alguma coisa esquisita. Algo me diz que seria melhor ter seguido em frente, mas não é isso que faço. Meu coração dispara. Não quero ver o que vou ver. Seria melhor dar meia-volta e ir diretamente para o onsen, como planejava. Ele está de costas para mim, e antes de vê-lo já sei o que está acontecendo. Está sentado numa grande poltrona. Sua cabeça sobressai acima do encosto. Eu o reconheço pelo cabelo e pela postura do corpo.
Tem um cigarro na mão. Ele o segura com familiaridade. Com prazer. Ele olha para mim. Eu olho para ele. É a primeira vez que o vejo fumar. “Não sabia que você fumava”, balbucio, e cubro minha boca com as mãos. Agora entendo por que ele estava tão à vontade naquele restaurante em Suginami. Entendo por que ele masca chiclete com tanta frequência. O que posso lhe dizer? O que posso dizer que ele já não saiba? Saio, antes que ele me veja chorar. Vou até o onsen. Até aquele lugar onde eu me banharia nua com outras mulheres. Mas hoje não há ninguém. Hoje estou sozinha. Fico imaginando os pulmões contaminados do meu menino: esverdeados, pretos, os alvéolos grudentos, os brônquios obstruídos. Meu menino fuma e nunca me contou. Segurava o cigarro entre os dedos como se fosse seu amigo. Meu menino não é mais o meu menino. É um homem. Há aspectos de sua vida que ignoro. Afundo na água quente.
DIA 7_Shirakawa-gō é uma aldeia de 1 700 habitantes, situada no monte Haku-san, num pequeno vale formado pelo rio Shō. Chegamos na manhã do sétimo dia da minha viagem. Daqui a outros sete, vou dar um abraço no meu filho e embarcar para Buenos Aires. Não sei quando o verei de novo.
O ônibus nos deixa fora da aldeia, na beira do rio. Atravessamos uma ponte longa e estreita e o que vemos parece uma ilustração de história infantil. Quase tudo é verde, quase tudo está vivo: ao pé de umas colinas cobertas de bosques, estende-se um vale estreito pontilhado de plantações. São cultivos irregulares, separados não por cercas, mas por sulcos por onde corre a água. O tom do verde varia conforme o plantio. Como é verão, está tudo crescido, no auge. As colinas verde-escuras contrastam com o verde amarelado dos arrozais.
Além do verde e do azul perfeito do céu, só vemos marrom: o marrom de Siena da única rua, o castor de alguma trilha serpenteante e o sépia das casas. Ah, as casas! São de madeira, com telhado de duas águas, inclinado. Tão simples, com tão poucas linhas que chegam a provocar ternura. Têm a forma de duas mãos unidas em oração – dado o acentuado caimento do telhado – e estão espalhadas pelo vale. Não passam de trinta. Telhados de palha, espessos e compactos, capazes de resistir ao peso da neve que aqui, no inverno, se acumula mais do que em praticamente qualquer outro lugar do mundo.
Vamos nos hospedar num minshuku – 民宿, uma pousada – quase no fim da rua que atravessa a aldeia. Nosso quarto, um cômodo de planta quadrada onde há apenas tatames, dá diretamente para as plantações. Quando digo “diretamente” não me refiro a uma janela, a uma porta ou terraço de onde avistamos a paisagem. Não há nada. Nosso quarto é uma caixa tridimensional sem um dos lados. A quarta parede, aquela que no teatro é imaginária, aqui também inexiste. O lado ausente se abre para a paisagem. A única separação entre nós e o vale é a altura de 1 metro que há entre o piso de madeira e a terra do campo. Não foi construída assim por razões turísticas: a casa é assim mesmo. As casas são assim mesmo. A ideia de que podemos ser roubados nem nos passa pela cabeça.
Contemplamos a aldeia, seus verdes sem fim, as casas de conto de fadas. Diferentemente do que ocorre no teatro, onde o público, através da quarta parede imaginária, pode ver os atores representando como se não soubessem da existência de uma plateia que olha para eles, hoje, neste quarto, nesta caixa sem um dos lados numa aldeia perdida do Japão, somos nós, de dentro, que olhamos para fora. O vale, as plantações, o céu, as casas, tudo segue seu curso, sem se importar com quem os vê. Para a paisagem, nós somos totalmente indiferentes. Como as nuvens para o céu, a chuva para o rio. A incapacidade de nos indiferenciar do que acontece, nossa fragilidade emocional é o que nos separa do resto da criação. Não somos o rio, nem o mar, nem sequer uma minúscula aldeia como esta. Somos um emaranhado, um exagero de emoções, uma combinação de amor, temores, rejeições, incertezas, desejos. Somos mães. Somos filhos. Olhamos o mundo e sofremos. E quando ninguém nos vê, choramos sem saber se é de alegria ou de tristeza.
Caminhamos pela aldeia. Observamos uma mulher velha, de pé, encurvada sobre uma caixa de papelão onde há dois ou três punhados de feijão roxo, miudinho. Podemos vê-la de perto porque sua casa se abre para o caminho, para o vale, como nosso quarto no minshuku. Embora seja verão, a mulher veste uma camisa laranja de manga comprida, superposta por uma camiseta cinza de manga curta, sobre a qual ela usa um avental azul. A passagem do tempo está inscrita em suas mãos. Traz o cabelo coberto por um lenço xadrez azul e branco. Sacode ligeiramente a caixa, remexe os feijões, seleciona um e, colhendo o grão entre o indicador e o polegar, ela o transfere para outra caixa, menor. Quando percebe que paramos para olhá-la, ela ergue os olhos por um instante antes de voltar ao trabalho. “Pergunta o que ela está fazendo”, digo a Mati. Sem abandonar a postura encurvada, ela interrompe sua tarefa e dá uma longa explicação. Como sempre, a tradução de Matías é um breve resumo. “Ela está escolhendo os mais bonitos”, diz. Fico esperando ele acrescentar mais alguma coisa, mas ele se cala. “E como ela sabe quais são os mais bonitos?”, pergunto. Para mim parecem todos iguais. “Não está vendo, mãe?”, ele responde. “Uns são mais bonitos do que os outros!” Claro que não estou vendo, filho, tenho vontade de lhe dizer, enquanto ele pergunta à mulher se pode tirar uma foto dela. Como posso discernir entre um feijão roxo e outro? Matías a fotografa. Ela não olha para a câmera; continua seu trabalho.
Seguimos. Só se escuta o canto incessante das cigarras. Meu filho se agacha para fazer outra foto. Penso na mulher e em seus feijões. Há algo que não chego a entender. “O que ela faz com os feijões mais bonitos?”, pergunto depois a Matías. “Ela os planta”, responde, como se fosse evidente. “Os outros são para comer.”
DIA 8_Está garoando. São nossas últimas horas em Shirakawa-gō e queremos ver a aldeia do alto de uma das colinas. Ontem percorremos o vale, hoje caminhamos pelo bosque. Nos embrenhamos por uma trilha entre as árvores, cada uma delas etiquetada com um número. De vez em quando, aqui e ali, um túmulo. Também havíamos visto alguns entre as plantações. São túmulos simples, um montículo de pedras arredondadas, do tamanho de um ovo de avestruz ou de um grande réptil. Sobre o montículo se ergue uma única pedra com uma inscrição. Não são túmulos de aldeia. Não são túmulos de cemitério. Também não são túmulos esquecidos: todos têm oferendas de flores frescas. Neste vilarejo, os mortos estão enterrados entre os vivos.
Quando iniciamos a descida, a vista da aldeia volta a nos surpreender. “Eu poderia ficar morando aqui pelo resto da vida”, digo, meio sem pensar. “Eu poderia ficar três semanas”, diz Mati. E acrescenta: “Mas só se tivesse uma academia, um boteco decente e mais garotas.” “Por que só três semanas se tivesse academia, boteco e garotas?” Ele responde, sem titubear: “Porque também tenho minhas necessidades artísticas!” “Que necessidades artísticas?”, digo, rindo. E ele me explica: “A necessidade de mudar de cenário, mãe. Chegaria uma hora em que já teria tirado todas as fotos possíveis.”
Chove forte e é hora de partir. O ponto de ônibus fica do outro lado do rio, fora da aldeia. Vamos buscar as mochilas no minshuku e quando estamos prestes a sair a dona da pousada nos detém e nos oferece um par de guarda-chuvas. “E como vamos devolvê-los, se já estamos indo embora?”, pergunto. “Ela diz que é só entregar em qualquer uma das lojas antes do ponto de ônibus”, responde Matías. “Ela vai buscá-los amanhã. Ou quando parar de chover.”
DIA 9_Deixamos os “Alpes” e estamos perto do litoral. Deixamos a aldeia e voltamos a uma cidade. Faz 35 graus em Kanazawa. Vamos conhecer o Kenrokuen (兼六園), um dos mais belos jardins do Japão. Kenrokuen significa “jardim dos seis atributos” – segundo a antiga teoria paisagística chinesa, são seis os atributos de um jardim perfeito: espaço, reclusão, artifício, antiguidade, abundância de água e vistas panorâmicas. Li sobre tudo isso e espero encontrar pontes e cascatas, canais, lagoas e lanternas, jardins de pedra onde sentar e meditar.
No caminho, cruzamos com duas adolescentes vestidas com quimonos e sandálias de madeira, com uma mulher de bicicleta que segura o guidom com uma das mãos e na outra leva uma sombrinha, e com um homem de uns 30 anos que também dirige sua bicicleta com uma das mãos, já que a outra segura um celular, do qual ele não desgruda os olhos. “Ele está caçando Pokémons”, me explica Mati. “De bicicleta, dá para ir mais rápido e pegar mais.”
O Kenrokuen é tão imenso que não sabemos que direção seguir. Quero ver a lanterna Kotoji-Toro, a fonte Funsui, a casa de chá Yugao-tei, a ponte pênsil, os pinheiros Karasaki, digo a Mati. Estamos numa área onde só há arbustos baixos e quase nenhuma sombra. Veem-se as primeiras árvores ao longe. Estou ensopada de suor e peço a Matías que localize no mapa onde fica aquilo que, segundo a teoria paisagística chinesa, pensei fosse um jardim recluso e com muita água. “O mapa não fala nada sobre teoria paisagística chinesa”, responde Matías. Eu não trouxe meus óculos de leitura (para que eu precisaria de óculos num jardim?), e só enxergo manchas coloridas no mapa de Mati. Para mim os mapas sempre foram um mistério. Teoricamente, consigo entendê-los, porém na prática sempre acabo num lugar diferente daquele pretendido. O GPS do celular de Matías tampouco ajuda: na tela vemos que, de fato, estamos no jardim, mas o aplicativo não consegue localizar a lanterna, nem a fonte, nem os pinheiros. Muito menos os locais sombreados. Faz tanto calor que até as cigarras estão quietas. Só os corvos grasnam.
Vamos passar um só dia na cidade. Não é possível, penso, que eu já queira sair daqui. Não é possível que não veja as maravilhas que há para ver e que fazem a fama do lugar. Foi para conhecer Kenrokuen que paramos em Kanazawa. Seguimos por um caminho que parece levar a uma área onde se avista um arvoredo. O caminho se bifurca, serpenteia. Por mais que avancemos, as árvores estão sempre à mesma distância. Não consigo apreciar a beleza do jardim. É grande demais, não podemos percorrê-lo com este calor. Estamos perdidos. Não conseguimos chegar aos jardins pequenos dentro do maior. Aos lugares frescos.
“Que tal deixar o jardim para lá e ir almoçar?”, pergunto. Os olhos de Matías se iluminam. “E tudo aquilo que você queria ver aqui?”, pergunta. “Eu vim para te ver”, respondo, “não para morrer de calor num jardim.”
No caminho de volta, paramos diante de uma pedra que parece ter alguma importância: está junto à trilha, isolada. Nela, estão entalhadas umas linhas de kanji. Ao lado, uma placa de madeira informa que se trata de um haicai que Matsuo Bashō escreveu quando passou por Kanazawa a caminho de Komatsu, em 1689. Matías traduz com dificuldade o que está inscrito na pedra: Rubro, rubro brilha o sol:/à brisa do outono/indiferente.
Saímos do jardim sem ter visto a ponte Ganko-bashi, nem a lagoa Kasumigaike, nem as azaleias em flor. Enquanto procuramos um restaurante, tentamos compor nosso primeiro haicai: Dois famélicos/O jardim não importa/Vamos embora. E, assim, inventando haicais, rindo, deixamos para trás o jardim que não chegaremos a conhecer.
DIA 10_Matías lê alguns dos registros desse diário e me diz: “Mãe, você realmente acha que as coisas aconteceram assim… ou sabe que está inventando?”
DIA 11_Matsumoto é famosa sobretudo por seu castelo. Meu filho sugere que o visitemos no fim da tarde, quando o calor diminui e a luz é melhor para fotografar. Agora, ainda de manhã, ele foi estudar num café. Eu passeio pela Nakamachi-dōri, uma típica rua dos antigos distritos comerciais, ladeada por velhos armazéns de muros caiados. Passo por pequenas lojas, pequenos restaurantes, pequenos ryokan. Tudo aqui é harmonioso. Nenhuma irregularidade no pavimento. Silêncio. Ar limpo. A rua estreita e sem calçadas. Paro e observo a tampa de um bueiro, e logo em seguida outra. Não há duas iguais: cada uma tem um motivo desenhado em relevo. Às vezes o motivo até se repete, mas não as cores entre os relevos. Flores ou formas geométricas pintadas à mão de amarelo, azul, vermelho, branco, verde.
Em toda a viagem não vi uma única loja de artesanato. Aqui parece não existir aquela repetição de motivos do passado recriados à exaustão no presente. O que se vende é aquilo que se faz agora, não a imitação vazia do fazer de outra época. Estranhamente, porém, o que é feito hoje tem certo sabor contemporâneo e ao mesmo tempo antigo. Várias lojas vendem utensílios de cerâmica, nenhum igual a outro. Muitas xícaras e tigelas assimétricas. Gosto tanto de um cavalo que me sinto tentada a quebrar a promessa de não comprar objetos supérfluos. Já há algum tempo sinto que, quanto menos coisas tiver, melhor. O cavalo de cerâmica olha para mim. Que é que eu vou fazer com ele se o levar para a Argentina? E se dentro de pouco ou muito tempo eu resolver mudar de país? Agora que meu filho não vive comigo, eu também posso partir.
Entro numa loja. A senhora que atende deve ter uns 75 anos, talvez 80. Konnichi-wa, digo, sem saber ao certo se dei bom-dia ou boa-noite. Assim como os bueiros, todos os vestidos são diferentes. Parecem feitos à mão, com capricho. A senhora dá a entender que, antes de entrar no provador, devo tirar os sapatos. Depois me entrega um pano branco, translúcido, muito leve. Ela fala comigo em japonês, com suavidade. Eu a olho, sem entender. Então ela faz um gesto: essa espécie de tule é para cobrir o rosto e a cabeça ao provar o vestido. (Meu voto de castidade em relação ao consumo libera as roupas, mas com uma condição: a cada camiseta nova, devo me desfazer de uma antiga; a mesma coisa para cada calça, cada par de sapatos. Mesmo assim, continuo tendo mais do que preciso.)
A mulher tira de uma gaveta uma folha de papel em cores pastel. Gostaria de poder lhe dizer que não é preciso caprichar no pacote, pois a viagem vai amarrotá-lo. Ela se ajoelha no chão, dobra o vestido com extremo cuidado e o embrulha, sem pressa, com esmero, como para presente. Depois me estende os braços e o entrega em minhas mãos. As duas nos olhamos em silêncio. Só abrirei esse pacote em Buenos Aires e, então, penso, usarei este vestido para sempre.
Matsumoto-jō (松本城,) é um castelo medieval. Fica no meio de um parque, rodeado por um grande fosso de água – majestoso, imponente, um imenso pagode sobre uma base de pedra que o eleva acima do terreno. Apesar de ser uma construção militar, mais parece um palácio que um forte.
Os cinco andares do castelo diminuem na largura à medida que ganham em altura. Cada nível parece abrigar aposentos ou recintos independentes, com telhado próprio, de modo que, embora a construção seja única, há vários telhados inclinados em cada andar. Salvo umas finas faixas brancas, o prédio é todo preto – talvez por isso também o chamem Karasu-jō (烏城), o castelo dos corvos.
Contornamos o fosso para vê-lo de vários ângulos. Depois nos sentamos num lugar de onde avistamos os Alpes japoneses. À medida que anoitece, as pessoas vão saindo do parque e o castelo adquire uma feição sinistra. O céu se reflete na água. As nuvens se refletem. Os corvos.
“Não é incrível existir um país como este?”, meu filho pergunta mais tarde, a caminho do hotel. Nós dois sabemos que ele não está falando do castelo. Está falando de outra coisa. E eu sei – mais uma vez, eu sei – que ele nunca mais viverá em seu país.
NOITE_Já perto do hotel, paramos para escutar uma banda que toca rock ao ar livre, para um público de rapazes e garotas da idade de Matías. “Você não quer ficar?”, pergunto.
No dia seguinte ele dirá que conheceu duas garotas e que jantou com uma delas. Ficaram de se ver de novo quando os dois voltarem a Tóquio. É a primeira vez em toda a semana que meu filho encontrou alguém da idade dele. Tenho vontade de lhe agradecer por ser como é. Só espero que não esteja achando muito chato viajar comigo.
Há um tufão perto de Tóquio, com ventos de até 180 quilômetros por hora. Vários rios estão a ponto de transbordar. Mais de 400 voos foram cancelados, mas os trens continuam operando normalmente, e nós encaramos a volta. Meu filho aproveita a viagem para estudar, como é seu costume nos trens. Desde que deixamos o hotel, sinto que ele está distante. Me sinto um estorvo. Ele escuta música com os fones num volume tão alto que temo que ele fique surdo. Tenho a sensação de que, embora ainda faltem três dias para minha volta a Buenos Aires, nossa viagem terminou ontem.
Uma hora depois da partida, o alto-falante anuncia alguma coisa. Peço a Matías que tire os fones para escutar. “Estão pedindo desculpa”, explica, “porque o trem vai chegar a Tóquio com três minutos de atraso.”
Quando desembarcamos, Matías caminha na frente, apressado. Eu o alcanço e falo com ele, que responde sem me olhar nos olhos. Quer ir à academia. Quer retomar sua vida. O tufão já passou, mas ainda chove e o vento está furioso. Como furiosa estou eu, pois Mati caminha muito rápido. Então lhe pergunto como chegar ao hotel. Ele me explica com relutância. Tenho vergonha de não saber me localizar sozinha nesta cidade. Sou uma inútil. Ele vai para a academia. Vejo seu corpo de costas. Gosto dele. Eu o amaria mesmo que não fosse mãe dele. Se tivesse a idade dele e não fosse sua mãe, eu o amaria.
Sigo suas indicações, tentando me lembrar dos truques mentais que me acalmam quando me sinto mal. Estou com fome de vários dias. Comeria uma dúzia de bifes à milanesa. Quero vinho. Quero voltar para casa. Não quero que meu filho me olhe assim. No Centro de Tóquio, em plena Shinjuku, entro num Kentucky Fried Chicken. O cheiro de frango frito, esse cheiro americano, insalubre, é exatamente disso que preciso. Pego uma coxa de frango com as mãos e dou uma mordida, olhando pela janela do 2º andar desse local vazio. Chove. Daqui a três dias volto a Buenos Aires. Uma onda de guarda-chuvas brancos cobre as ruas.
DIA 12_A chuva persiste. Todos os guarda-chuvas na loja de conveniência são brancos, e eu escolho o mais barato. Não ando nem meia quadra e o vento o vira do avesso. Tento endireitar puxando uma das varetas, mas percebo que, se continuar fazendo isso, vou quebrá-lo todo. Mudo de estratégia e com um leve puxão no tecido ele fica direito. Continuo até a esquina. Conforme as instruções que decorei antes de sair, agora eu deveria dobrar à esquerda e atravessar uma ponte. Hoje tenho o dia inteiro só para mim e quero conhecer Tsukiji Shijō (築地市場), o mercado de peixe onde vendem atuns de até 300 quilos e os maiores peixes-espada do mundo. Se eu for a pé, em uma hora e meia estou lá, atravessando zonas da cidade que ainda não conheço. Chegando, vou passear entre as bancas que vendem algas, sardinhas, caviar, caramujos. Mas cadê a ponte? Ela não está onde deveria estar. Será que eu deveria ter dobrado à direita e não à esquerda?
Dou meia-volta e de repente o vento vira o guarda-chuva de novo. Desta vez meu truque não funciona. Se eu me postar contra o vento, talvez a mesma força que o virou do avesso possa endireitá-lo. E assim ocorre: o guarda-chuva faz “plop” e retoma sua forma. Agora só preciso encontrar a ponte. Talvez não tenha decorado bem o caminho. Tiro do bolso o papelzinho com as anotações. Sem óculos não consigo ler. Este não é um bom dia para ir ao mercado de peixe de Tóquio. Muito menos a pé. Procuro os óculos mesmo assim. Imagino que, no final da tarde, Mati ficará surpreso ao saber que fui sozinha até o outro lado da cidade. Ele não conhece o Tsukiji Shijō. Vou lhe mostrar fotos dos atuns imensos. Dos vendedores. Das barraquinhas de comida. Dos pratos deliciosos que terei comido sozinha. Com a mão esquerda seguro o cabo do guarda-chuva e com a direita – que também segura o papel com as indicações – ponho os óculos.
Sou a única pessoa parada na rua. Os demais vão e vêm com passo seguro. Meu guarda-chuva volta a virar do avesso. Tento descobrir a direção do vento para endireitá-lo. A chuva molha as lentes dos óculos. Boto os óculos no alto da cabeça. Seguro o guarda-chuva com uma das mãos, com a outra o papelzinho e, afastando as pernas para ter uma boa base de sustentação, aponto o guarda-chuva contra o vento. As pessoas passam sem me olhar. Minha luta é pessoal. Durante os segundos que o guarda-chuva leva para desvirar, o papel se encharca. À medida que a tinta vai borrando, somem os vendedores, as mil variedades de algas, os espetaculares peixes-espada. Abro os braços (num deles está pendurado o guarda-chuva) e olho para o céu, que de algum modo há de continuar lá no alto, acima das nuvens de verão. Estou em Tóquio.
PARÊNTESE SOBRE OKĀSAN_Durante a viagem, sempre que peço para meu filho perguntar alguma coisa a alguém ou dizer algo da minha parte, ele começa dizendo okāsan. É como ele se refere a mim quando se dirige aos outros. De início pensei que queria dizer “mãe”, mas notava que nessa palavra havia mais alguma coisa. Como não sei japonês, o que escuto são sons, entonações. Não consigo distinguir mais do que quatro ou cinco palavras: diferentes saudações conforme a hora do dia, dois modos de agradecer, e okāsan. Eu sou okāsan. “Existe outra maneira de dizer ‘mãe’?”, pergunto a Matías. “Existe, sim: haha”, diz. “Mas eu não sou haha”, digo. “Não”, responde. “Não ficaria bem eu me referir a você com essa palavra.”
Desde que cheguei ao Japão, acordo várias vezes durante a noite. Estou dormindo e de repente abro os olhos. Insônia total. É nessas horas que escrevo este diário. Para não acordar Mati, que dorme na cama ao lado, não acendo a luz. Me escondo sob os lençóis e digito com os polegares na tela do celular. Quando preciso de ar, ponho a cabeça para fora por alguns instantes. Como as carpas do rio Setogawa, saio para respirar e mergulho de volta no meu rio.
Okāsan, escrevo no Google. Preciso entender. Logo fico sabendo que em japonês se escreve assim: お母さん. Desses quatro caracteres, o primeiro é um prefixo honorífico, e os dois últimos também. Só o segundo é um kanji. O que resta da palavra tirando os prefixos e sufixos? Resta “母”. Procuro no tradutor: 母 pronuncia-se haha e quer dizer “mamãe”. お母さん pronuncia-se okaasan e também quer dizer “mãe”. Começo a entender o que eu intuía: meu filho se refere a mim de modo formal.
Sob os lençóis continuo minha busca. Descubro como “母” foi mudando ao longo do tempo. Em marfim, em bronze, em timbres, o pictograma original mostrava uma mulher com seios e mamilos muito marcados. Às vezes aparecia ajoelhada, às vezes, de pé.
Girando a imagem em 90 graus, retirando os excessos para simplificar a escrita, resta o kanji atual: 母. É isso que fui e não sou mais. Mamãe. Agora sou お母さん. Agora há uma distância entre nós. Uma distância feita de tempo, uma distância que não entendo, que detesto. Uma distância à qual não me acostumo e que não consigo traduzir. Os seios que nutrem, a mulher que dá vida, essa eu já não sou. お e さん me separam do meu filho. お e さん o protegem de mim. Como o fosso de água protege Matsumoto-jō, o castelo negro sem janelas, mas com frinchas verticais que permitem divisar o inimigo e atacá-lo sem ser visto.
Por que janela, por que porta, com que idioma posso me aproximar do meu filho? Onde está o kanji que me permitirá contatá-lo? Será que nunca mais vou ser 母? Vou ficar congelada, petrificada, imóvel para sempre em お母さん?
DIA 13_Tenho medo de não encontrar o tom adequado para esta última noite. Sei o que gostaria de transmitir, mas não sei se posso fazê-lo com palavras. O idioma às vezes não dá conta. Se soubesse cantar, seria mais fácil.
Reservamos essa noite para ir à Tōkyō Sukaitsurī (東京スカイツリー), conhecida mundo afora por Tokyo Skytree. Já vimos a torre muitas vezes, sempre de longe. Uma torre branca com um levíssimo toque azul-celeste, que se estreita conforme ganha altura e se eleva muito acima dos mais altos arranha-céus de Tóquio. Uma Torre Eiffel neofuturista que do alto de seus 634 metros toca as nuvens. Matías tem fascinação por ela, já havia me mandado fotos. Ele foi várias vezes até a base, mas nunca subiu. Decidimos ir a Asakusa e de lá caminhar até a torre.
Asakusa é uma zona remanescente do passado, com ruas estreitas ladeadas de casas e lojinhas. Os turistas são atraídos pelo Sensō-ji (金龍山浅草寺,), o templo mais antigo de Tóquio, e pelas bugigangas do mercado de rua. Nós nos aproximamos do templo, tiramos fotos sob o portão Kaminarimon (雷門) – com o deus do vento à direita e o do trovão à esquerda –, mas logo enveredamos pelas ruas transversais e caminhamos ao acaso, nosso passeio predileto. São seis da tarde, anoitece e as lojas fecharam. Temos a sorte de vê-las com as portas metálicas de enrolar abaixadas, lindas: estão pintadas de tal modo que parecem shōji – 障子, as portas tradicionais japonesas feitas com ripas de madeira e papel-arroz.
Lemos num guia que o trajeto de Asakusa até a torre leva 21 minutos. Demoramos uma hora e meia. Os tais 21 minutos devem valer para quem trilha o caminho mais curto. Mati e eu não nos guiamos por um mapa, mas pela torre, hoje iluminada com tons dourados e violáceos. Sukaitsurī é uma torre, mas também é uma árvore. Uma árvore que quer chegar ao céu. Uma árvore cujas raízes estão sob o solo, mas que sonha com algo além.
A árvore, a torre, nos guia. Cruzamos o rio Sumida (隅田川, Sumida-gawa), em cujas margens viveu o poeta Matsuo Bashō. Pensávamos que a Sukaitsurī estaria logo depois da ponte, mas não: ainda temos uma boa caminhada pela frente. Conforme nos aproximamos, a torre perde os contornos fantasmagóricos e exibe seu intrincado exoesqueleto de aço. A base e a parte inferior têm a forma triangular, que se torna cilíndrica à medida que a construção ganha altura. Suas curvas, côncavas e convexas, mudam de forma dependendo do ângulo de observação.
Há quatro elevadores, cada um decorado com motivos de uma das estações do ano. Coube-nos o inverno. O elevador é imenso, com capacidade para quarenta pessoas. Sobe, silencioso e espantosamente rápido. São tantos os andares que temos tempo para olhar, assombrados, os pássaros que voam na paisagem invernal projetada nas paredes. Só quando a projeção se apaga notamos que o painel superior do elevador é transparente: estamos subindo por dentro da torre. Quando estamos perto do 350o andar, é como se estivéssemos no céu.
Pairamos sobre a cidade mais populosa do planeta. Estamos num mirante circular, uma espaçonave transparente de paredes curvas, a 450 metros de altura. Dentro da nave, nenhuma luz acesa. Acima, o céu estrelado. Abaixo, as luzes da maior economia urbana da Terra. Ali, até onde a vista alcança, vivem 38 milhões de pessoas. São 38 milhões. Aqui no alto, ninguém fala. Olhamos para baixo, caminhamos lentamente, observando a megametrópole de diferentes pontos. Tudo parece em harmonia, ao longe. Talvez, no fim das contas, haja um futuro possível. Amigável. Quando digo alguma coisa a Mati, falo num sussurro. Parece que caminhamos no ar. Somos etéreos. Podemos ver a redondeza da Terra. Flutuamos. E nos expandimos no espaço.
DIA 14_Chegou o dia. Minha mochila está pronta e deixamos o quarto. Ainda faltam duas horas para o trem que me levará ao aeroporto. Nenhum dos dois tem vontade de sair para caminhar. No fundo, talvez o que mais desejamos é que essas horas passem logo. Pelo menos é esse o meu desejo: que a despedida fique para trás. Suponho que meu filho também deseje que ela logo passe e ele retome sua rotina: duas semanas me vendo todo dia foram mais do que suficientes. Olhamos um para o outro sem saber muito bem o que fazer. Já compramos minha passagem de trem na estação de Shinjuku. “Vamos fazer o quê?”, ele pergunta. Quero abraçá-lo. “Quer sentar lá?”, digo, e aponto para um sofá no lobby do hotel.
Remexo seu cabelo, um ninho de fios. Ele encosta a cabeça no meu ombro. É de manhã, mas Mati tem um ar cansado. Em poucos minutos o ritmo de sua respiração se altera: ele dorme. Já não sei se quero que as duas horas passem rápido ou devagar. Já não sei se quero que as duas horas passem. Ao redor, tudo segue igual: o balcão da recepção, a moça que me deu as boas-vindas na primeira noite e disse que meu filho me esperava, o silêncio que permeia tudo, a suavidade com que as pessoas falam. Escuto a respiração de Matías. Há quanto tempo eu não a sentia tão próxima? Escuto sua respiração. Dentro de duas horas embarco para Buenos Aires. Fecho os olhos.
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