CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Os economistas franciscanos
O movimento católico que defende uma economia capaz de gerar não só riqueza, mas também alegria – para todos
Danilo Marques | Edição 225, Junho 2025
Quando o papa Francisco veio ao Brasil em 2013, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, a estudante Mariana Reis Maria, na época com 20 anos, viajou de Campinas até o Rio de Janeiro só para vê-lo. Ela herdou o catolicismo da mãe, professora e “mulher de muita fé”, como descreve a filha. Na Praia de Copacabana, Maria participou da missa rezada pelo papa para 3,7 milhões de pessoas.
Na época, a jovem católica cursava o terceiro ano de economia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e começava a se encaminhar para o estudo de problemas sociais, com o estímulo do professor Paulo Sérgio Fracalanza. Frequentadora da Paróquia São Joaquim e Sant’Ana, ela se preocupava em “pensar Cristo em uma visão da justiça, da pessoa empobrecida”, nas suas palavras. Surgia assim um vínculo entre sua fé e sua atividade acadêmica.
Ao ingressar no mestrado, em 2015, Maria acatou a sugestão de Fracalanza, seu orientador, para se dedicar aos temas do meio ambiente e da industrialização. Ele enviou à aluna a encíclica que o papa Francisco publicara em maio daquele ano, a Laudato si’ (Louvado sejas), cujo subtítulo é Sobre o cuidado da casa comum.
Considerada uma das encíclicas mais importantes do século, a Laudato si’ critica o consumismo e a cultura do descarte, consequências de uma economia predatória que leva à degradação do meio ambiente, à perda da biodiversidade e à deterioração da qualidade de vida.
O texto faz um apelo em prol do maior cuidado com a Terra, da economia sustentável e do uso responsável da tecnologia. “Lanço um convite urgente para renovar o diálogo sobre a maneira como estamos construindo o futuro do planeta”, escreveu Francisco. “Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental que vivemos e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós.”
Aprovada em 2017 a dissertação de Maria se intitulou Explorando o desenho de políticas públicas mais sustentáveis: é possível a transição energética de baixo carbono?. Dois anos mais tarde, ela iniciou sua participação no movimento Economia de Francisco (ou EoF, a partir do inglês The Economy of Francesco), uma rede de jovens acadêmicos e empreendedores proposta em 2019 pelo papa Francisco.
O movimento começava a se articular mundialmente para defender os princípios de uma economia solidária, responsável e inclusiva, tal como pregados pelo papa na Laudato si’ e na exortação apostólica Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho), de 2013.
O nome da organização, no entanto, diz respeito em primeiro lugar a São Francisco de Assis e só depois ao pontífice – que, embora seja jesuíta*, até citou, em Laudato si’, uma frase de São Francisco que está em sintonia com os princípios ecológicos da EoF:
“Louvado sejas, meu Senhor”, cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços:
“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras.”
A pandemia limitou as primeiras iniciativas da EoF a interações pela internet. Mesmo com as dificuldades impostas pela Covid, foi criada a EoF Academy, instituição que busca impulsionar pesquisas acadêmicas alinhadas aos ideais da Laudato si’. Maria tornou-se uma das coordenadoras da entidade internacional.
Só em 2022, os economistas e empreendedores tiveram seu primeiro encontro presencial, na cidade italiana de Assis, onde São Francisco nasceu, em 1181. Compareceram 3 mil pessoas, de diversos países. Maria estava entre eles. Foi a segunda vez que a economista brasileira viu o papa. “Naquele momento, ele jogou a bola. Colocou a responsabilidade sobre a gente”, ela conta. Os participantes firmaram um compromisso com Francisco em um documento público:
Nós, jovens economistas, empreendedores e agentes de mudança, convocados aqui em Assis, de todas as partes do mundo, conscientes da responsabilidade que recai sobre a nossa geração, comprometemo-nos hoje, individualmente e coletivamente, a viver a nossa vida para que a economia de hoje e de amanhã se torne uma economia do Evangelho.
A economia, diz o Pacto de Assis, deve gerar não apenas riqueza, mas também alegria – e para todos, pois “a felicidade que não é compartilhada é incompleta”. Ela deve se orientar para a paz, não para a guerra. O ser humano, a família e a vida devem ser o centro de uma matriz econômica em que “o cuidado substitui a rejeição e a indiferença”.
O documento reivindica “trabalho seguro e digno para todos”, prega o combate à miséria e à desigualdade, e pede respeito às culturas e tradições dos povos, a todos os seres vivos e aos recursos naturais da Terra. Essa carta de princípios firmada junto com o papa termina em nota otimista: “Acreditamos nesta economia. Não é uma utopia, porque já a estamos construindo.”
No Brasil, os princípios da EoF foram abraçados pela Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (Abefc) – Santa Clara foi amiga e seguidora de São Francisco de Assis. Com apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que em 2022 e 2024 destinou 70 mil reais para seus projetos, a organização conta com quinze núcleos regionais que atuam em colaboração com diferentes movimentos sociais. Adaptadas às necessidades locais, as atividades de cada núcleo são bem variadas: vão do desenvolvimento da agricultura ecológica à distribuição de cestas básicas.
A organização é descentralizada, mas os integrantes – que atuam de maneira voluntária – são todos compromissados com o Pacto de Assis. “São seis anos desde que começamos a construir o movimento, e estamos todos em sintonia”, diz o economista Eduardo Brasileiro, de 34 anos, integrante do Secretariado da Abefc.
Mariana Reis Maria encontrou Francisco pela última vez em setembro do ano passado, em Roma. Entregou-lhe a cópia de um artigo seu sobre economia sustentável e um exemplar de Rethinking the economy for the common good (Repensando a economia para o bem comum), obra coletiva dos economistas da EoF Academy. A audiência quase foi cancelada, pois o pontífice estava bem debilitado. “Foi muito especial e emocionante”, lembra Maria. “Mas só deu tempo de cumprimentar e agradecer.”
Em 21 de abril, morreu Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, que inspirou e apoiou a EoF. O movimento encontrou consolo no cardeal escolhido para sucedê-lo no Trono de São Pedro. O americano (e cidadão peruano) Robert Francis Prevost causou boa impressão já pela escolha do nome: Leão XIV, inspirado em Leão XIII (1810-1903), o papa que publicou, em 1891, a encíclica Rerum novarum (Das coisas novas), que trazia um subtítulo sugestivo: Sobre a condição dos operários.
Como muitos católicos mundo afora, o jornalista brasileiro Peterson Prates, de 28 anos, integrante da EoF, sentiu-se órfão com a morte de Francisco. Mas ele considera que o novo papa “parece ter bastante conexão com o tempo que nós vivemos”. Mariana dos Reis Maria acredita que o primeiro pontífice americano representa uma continuidade dos princípios de seu antecessor. “Ninguém espera uma cópia de Francisco”, diz. “Mas tudo indica que Leão XIV dará prosseguimento à doutrina social da Igreja.”
Ela parece ter razão. Em sua missa inaugural, em 18 de maio, o novo papa não mediu as palavras no sermão: “Ainda vemos muita discórdia, muitas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelo preconceito, pelo medo do diferente, por um paradigma econômico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres.”
*Nota de rodapé: Uma versão anterior do texto informava erradamente que o papa era franciscano.
