CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
Os imortais da bola
Uma nova Academia Brasileira de Letras surge no país
Guilherme Henrique | Edição 234, Março 2026
“Vamos esperar a Fátima, porque só tem macho aqui”, gracejou o jornalista Celso Unzelte, de 58 anos, ao ajeitar a câmera de seu computador. Marcada para as sete da noite, a reunião virtual daquela terça-feira, dia 3 de fevereiro, já estava alguns minutos atrasada. Os participantes – onze naquele momento, como um time de futebol – conversavam sobre amenidades. “Napoleão, você ainda está na CBF?”, perguntou um deles. “Não, fui defenestrado pelo presidente deposto”, respondeu o historiador do esporte Antônio Carlos Napoleão. Ex-gerente do acervo da Seleção Brasileira, ele foi demitido em 2023 pelo então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, que dois anos depois acabou destituído, sob acusação de falsificar uma assinatura para conquistar a reeleição em 2022.
Pouco depois, já com a presença da socióloga Fátima Antunes e quórum de quatorze pessoas, Unzelte abriu oficialmente o encontro para empossar a nova presidência da Academia Brasileira de Letras do Futebol (ABLF).
“É um momento de muita satisfação, porque esse sonho vai se tornando cada vez mais real”, discursou o jornalista piauiense Severino Gomes de Oliveira Filho, de 65 anos. Conhecido no meio esportivo como Buim, foi ele quem fundou a ABLF em novembro de 2023. Também foi o segundo presidente da academia, cargo que estava passando ao jornalista e escritor Marcelo Duarte, de 61 anos, criador do Guia dos curiosos.
No discurso de posse, Duarte expressou uma mágoa recorrente entre autores da literatura boleira: a percepção de que são ignorados pela crítica literária e pela imprensa, e de que têm pouco prestígio entre seus pares. Dos 1 114 imortais espalhados em academias estaduais de letras e na Academia Brasileira de Letras (ABL), apenas seis escrevem regularmente sobre futebol. “Há obras interessantíssimas sendo lançadas, títulos que não estão nos jornais, na programação das feiras do livro ou nas bienais. É um gênero marginalizado”, lamentou o novo presidente.
Seguindo o modelo da ABL – por sua vez inspirado na Academia Francesa –, a nova academia tem quarenta membros. Escolhidos por Buim, os patronos das quarenta cadeiras incluem Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Pelé e Elza Soares (os dois últimos não eram escritores, mas deixaram livros autobiográficos, alguns em coautoria).
Os acadêmicos foram selecionados de acordo com critérios concebidos por Buim, que chegou a quatro categorias de autores aptos a entrar na ABLF: membros da ABL com ao menos um livro sobre futebol (caso de Ignácio Loyola Brandão e Ruy Castro), integrantes de academias de letras estaduais com ao menos dois livros sobre o esporte, autores que publicaram livros sobre o esporte até 1979 ou que têm ao menos cinco livros a respeito de futebol. “Escolhemos 1979 porque, a partir de 1980, os autores já são centenas e aí faltaria cadeira”, justificou o ex-presidente da ABLF.
A distribuição das cadeiras exigiu paciência do fundador, que começou buscando nomes conhecidos, para que a nova instituição ganhasse relevância. A cadeira nº 1 foi para Ignácio de Loyola Brandão, por ser membro da ABL. Para persuadir o também imortal Ruy Castro, autor de Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha, a estratégia foi diferente: Buim lhe ofereceu a cadeira 10, cujo patrono é Nelson Rodrigues, também biografado por Castro. “Ele, que é o Pelé da nossa literatura de futebol, já tinha direito à vaga por ser da ABL, mas poderia recusar”, diz Buim. “Ruy Castro mantém contato, é atencioso, mas sempre por e-mail. A academia para a qual ele tem tempo é a outra, a grandona.”
Os jornalistas esportivos Juca Kfouri, Mauro Beting e Paulo Vinicius Coelho, o PVC, também aceitaram o convite. A organização das cadeiras ocorreu sem sobressaltos até o nº 22. A posição seria ocupada pelo pesquisador Ivan Soter. “Só que 22 foi o número do Bolsonaro nas eleições”, conta Buim. “Ivan me ligou e disse: ‘Severino, não quero o nº 22. Se você não puder me dar outra cadeira, eu abdico do direito de participar.’ A cadeira nº 20 era do escritor Claudio Aragão, que é muito amigo dele. Expliquei a situação ao Aragão, que aceitou a troca.”
Ao contrário da Academia Brasileira de Letras, que oferece remuneração mensal e benefícios aos imortais, a instituição futebolística não tem um centavo. “Não há receita”, lamenta Buim. Tampouco há sede física: as reuniões, que em geral acontecem uma vez por mês, são virtuais.
Durante o evento de posse, Antunes questionou se a ata de fundação está registrada em cartório, para que o colegiado tenha validade jurídica. “Ainda não”, respondeu Unzelte. O jornalista contou que certa vez levou o livro de atas até um cartório de registros, só para descobrir que ali se faziam apenas atestados de nascimento, casamento e óbito.
Apesar das dificuldades operacionais, os acadêmicos da bola querem aproveitar a Copa do Mundo deste ano e a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será no Brasil, para ganhar visibilidade. Há quem cogite aumentar o número de cadeiras para incluir compositores que tenham canções sobre o esporte – a exemplo da ABL, que em 2022 empossou Gilberto Gil. “Acho a ideia muito boa. Samuel Rosa, Tom Zé e Chico Buarque têm músicas sobre futebol”, comentou PVC na reunião. Buim, no entanto, resiste à proposta: “Temos pelo menos cem ou duzentos escritores em condições de serem acadêmicos. Vamos valorizar a pessoa que não escreveu livro se o objetivo é justamente valorizar o livro de futebol?”
Nas reuniões da ABLF não se fala, veja só, de futebol. Pelo menos, não se discutem jogos recentes de times para os quais os acadêmicos torcem. “Não vamos ficar comentando as polêmicas da arbitragem de Flamengo e Corinthians”, explicou Duarte. É uma maneira de evitar brigas.
Na reunião de fevereiro, o grupo rejeitou, com bom humor, a sugestão de Mauro Beting, palmeirense inveterado, para que o fardão seja verde. Houve consenso sobre a necessidade de promover um encontro presencial até o fim do ano, já que muitos acadêmicos não se conhecem pessoalmente. “Precisamos do nosso próprio chá das cinco, como na ABL”, disse Antunes. “Aqui será o corote das sete”, brincou Beting, referindo-se ao popular coquetel à base de vodca ou cachaça.
