Charge de Luiz Gê publicada em 1979: o nome PT para o novo partido tinha, entre outras vantagens, a de não lembrar a utilização política dos sindicatos em favor de líderes políticos tradicionais, como fazia o getulista PTB CRÉDITO: LUIZ GÊ_1979
Os PTs possíveis
Como foi criado o Partido dos Trabalhadores, nos anos 1970
Celso Rocha de Barros | Edição 192, Setembro 2022
Djalma Bom se lembra do dia em que o governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, compareceu à posse da direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1975. Egydio era um grande empresário que chegou a ser diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE) nos anos 1950 por uma chapa conservadora. Em 1964, conspirou contra João Goulart e apoiou o golpe de Estado. Entretanto, era visto como membro da ala moderada do regime militar. Indagado pelo presidente Ernesto Geisel sobre o motivo de ter comparecido à posse de Luiz Inácio Lula da Silva, Egydio respondeu que o sindicalista se rebelava contra o peleguismo varguista, não aceitava suborno para encerrar greves e havia derrotado os comunistas. Chegou em São Bernardo de helicóptero, jogando poeira em todo mundo que o esperava.
O convite para Paulo Egydio partiu do sindicato, mas alguns operários desconfiaram que alguém do governo do estado planejava usar os sindicatos eleitoralmente. A suspeita tinha fundamento. O secretário de Relações do Trabalho do estado de São Paulo, Jorge Maluly Neto, queria fundar um partido trabalhista e conseguiu o apoio de sindicalistas ligados à máquina oficial para se candidatar ao governo paulista. O próprio Lula conta que compareceu a uma reunião com cerca de cem sindicalistas em que a proposta de um partido “social-trabalhista” foi apresentada. Quando alguém perguntou quem defenderia os sindicatos em caso de problema com a polícia, Maluly teria batido no próprio peito, para aplauso geral. Lula se irritou, discursou dizendo que os sindicalistas deveriam ter como escudo a própria classe trabalhadora, e depois disso não foi mais chamado para as reuniões.
O partido “oficial” dos sindicatos não prosperou, mas há ecos da ideia na formação do “novo” PTB, em 1980, que, por incrível que pareça, não era o grande partido getulista de mesmo nome que existiu entre 1945 e 1965. Se você perder o fio da meada neste parágrafo, não é culpa sua – essa história é que é ridícula. No final dos anos 1970, o PTB estava se reorganizando sob a liderança de Leonel Brizola, getulista histórico, cunhado do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Para sabotá-lo, a ditadura concedeu a sigla PTB a outro partido, fundado por uma sobrinha de Getúlio, que não tinha expressão política. Brizola levou seus trabalhistas para o PDT. No PTB fake foram parar alguns dos sindicalistas que teriam participado do partido de Maluly Neto, como o líder metalúrgico paulistano Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, nome mais importante do sindicalismo “oficial”. Seria, entretanto, errado considerá-lo apenas um “pelego”, ou seja, um sindicalista submisso aos patrões. A máquina sindical herdada da era Vargas tinha tanto mecanismos de controle quanto espaços de autonomia, e Joaquinzão participava de ambas as esferas.
Dois aspectos nos interessam na história do partido social-trabalhista de Maluly Neto: em primeiro lugar, ela nos mostra como todos os lados do espectro político sabiam que os sindicatos seriam uma força política digna de nota quando a democracia voltasse. Em segundo lugar, de maneira involuntária e um pouco esquisita, a turma de Maluly e de Joaquinzão acabou contribuindo para a criação do PT.
“Quem colocou na cabeça do Lula essa ideia de Partido dos Trabalhadores foram os trotskistas”, conta Fernando Henrique Cardoso. Há algum exagero em sua formulação, mas ela tem base nos fatos. Os trotskistas, membros da esquerda internacional que ficaram do lado de Leon Trótski na briga contra o stalinismo, tiveram uma importância na fundação do PT muito desproporcional à força numérica de seus militantes.
Logo no início do debate sobre a criação de novos partidos, grupos de esquerda começaram a trabalhar pelo projeto de um partido socialista, de perfil mais ou menos social-democrata. Um deles foi a Convergência Socialista.
Sua origem está em um pequeno grupo que aderiu ao trotskismo em Santiago, capital do Chile, onde vivia boa parte da esquerda brasileira exilada antes do golpe de 1973 contra Salvador Allende. Em uma reunião na casa do crítico de arte trotskista Mário Pedrosa, foram apresentados a Peter Camejo, líder do pequeno partido trotskista norte-americano Socialist Workers Party (SWP),[1] que lhes ofereceu material de propaganda. Os militantes brasileiros aderiram ao trotskismo e, na volta ao país, fundaram a Liga Operária. Em 1977, quando três militantes do grupo, Celso Brambilla, Márcia Bassetto Paes e José Maria de Almeida (o Zé Maria), foram presos em Mauá (SP) e torturados, estudantes organizaram as primeiras manifestações estudantis de rua desde 1968 para pedir sua libertação. Foi o que o jornalista Elio Gaspari chamou de “Geração de 1977”.
Em 1978, a Liga Operária adquiriu controle do corpo editorial do jornal Versus e lançou a proposta de construção de um partido socialista, chamado Movimento Convergência Socialista.
A Convergência Socialista ficaria célebre dentro do PT como sua tendência mais radical, o que levou à sua expulsão em 1992. Mas não se deve projetar esse radicalismo em suas origens. O grupo, nos anos 1970, apoiava o MDB e, inclusive, defendia a candidatura oposicionista (simbólica) do general Euler Bentes Monteiro, em 1974, contra o general Ernesto Geisel. No início, era uma proposta muito mais moderada do que a dos outros grupos marxistas que formariam o PT.
Na verdade, a ideia era preservar a organização trotskista (a Liga Operária) como um grupo organizado dentro do partido de centro-esquerda mais amplo, que seria formado a partir da Convergência Socialista. Essa estratégia tinha um pedigree marxista razoável: no Manifesto Comunista, de 1848, os comunistas são apenas “a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país”. Em diversos lugares e momentos históricos, e por sugestão do próprio Leon Trótski, os trotskistas aderiram a partidos de esquerda de massas com o objetivo de, uma vez lá dentro, conquistar adeptos para a sua tendência (ou, se possível, conquistar a liderança da agremiação). A prioridade eram os partidos com forte base operária, em geral social-democratas.
Isso explica a ideia de formar um partido semelhante ao Partido Trabalhista inglês ou ao Partido Socialista francês, nos quais os trotskistas tinham grupos muito minoritários, mas ativos. Como não havia no Brasil um partido trabalhista em que pudessem entrar, os trotskistas brasileiros criariam um no qual já começariam dentro.
É bom registrar que houve vários casos ao redor do mundo em que foram os trotskistas infiltrados que se converteram à social-democracia. O socialista francês Lionel Jospin foi membro de uma organização trotskista por muitos anos e foi “entrado” no Partido Socialista (de centro-esquerda) para ganhar espaço na organização. Ao contrário da maior parte dos trotskistas que participaram do “entrismo”, Jospin se infiltrou sigilosamente entre os socialistas. Ganhou espaço, tornou-se secretário-geral do partido e governou a França entre 1997 e 2002 com a mais absoluta moderação. Como uma espécie de “esquerda da terceira via”, Jospin foi uma referência para Lula, que discursou em um de seus comícios em Bordeaux logo antes de ser eleito presidente da República. Pouco depois, Antonio Palocci e Luiz Gushiken, dois ex-militantes da organização trotskista Liberdade e Luta, redigiram a Carta ao Povo Brasileiro, que sinalizava para o mercado financeiro que o governo Lula seria moderado.
A Convergência Socialista teria uma história bastante diferente – e turbulenta – com o Partido dos Trabalhadores.
A primeira conferência do Movimento Convergência Socialista – que era registrado legalmente como associação civil – ocorreu em São Paulo em agosto de 1978, em um colégio no bairro Cambuci. Os trotskistas davam tanta importância ao evento que o chefe da associação trotskista internacional à qual a Convergência pertencia, o argentino Nahuel Moreno, compareceu à conferência. Quando o velho trotskista viu aquele auditório lotado em plena ditadura, chamou a liderança do movimento e disse: “Vocês estão loucos, não há espaço para uma coisa dessas.” Ele tinha razão.
A polícia chegou e todos foram presos. Foi necessária uma mobilização da esquerda internacional, com apoio de parlamentares em Portugal e na Espanha, além de personalidades como o escritor Gabriel García Márquez, para evitar que Moreno fosse extraditado para a Argentina, onde teria sido executado imediatamente pela ditadura mais sanguinária da América do Sul. Para impedir um incidente diplomático que comprometeria a imagem internacional da abertura, a ditadura brasileira acabou permitindo que Moreno fosse mandado para a Colômbia. Os líderes da Convergência ficaram presos até dezembro.
Como reconhece o líder metalúrgico Zé Maria, estava claro que os jovens da Convergência haviam tentado “dar um passo maior do que a perna”. Daí em diante, a prioridade passaria a ser construir o partido socialista com o movimento operário, que àquela altura já estava se preparando para o segundo ano de greves.[2] Na eleição de 1978, a Convergência apoiou a candidatura do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, Benedito Marcílio, para deputado federal. Marcílio foi eleito pelo MDB. Antes, no entanto, os trotskistas haviam oferecido o seu apoio a Lula, que não aceitou concorrer.
Como já dissemos acima, Fernando Henrique Cardoso exagerou quando disse que foram os trotskistas que colocaram esse negócio de partido na cabeça do Lula. Na verdade, dois meses depois da greve da Scania e um mês antes da realização da reunião em que a liderança da Convergência seria presa, Lula foi a um congresso dos petroleiros da Bahia e declarou que estava na hora de os trabalhadores construírem seu partido.
Estavam presentes na plateia o próprio Fernando Henrique Cardoso, o líder petroleiro e futuro prefeito de Campinas Jacó Bittar e o ex-ministro do Trabalho do governo deposto de João Goulart, Almino Affonso. Almino havia ganhado fama nos anos 1950, ainda muito jovem, por sua participação na campanha “O petróleo é nosso”, a mesma na qual havia se destacado o pai de Fernando Henrique Cardoso, o general nacionalista Leônidas Cardoso, que se elegeu deputado federal pelo PTB em 1954.
Almino voltara do exílio “na raça”, no começo da abertura, mas antes da anistia. Tornou-se assessor jurídico da Prefeitura de Santo André e colunista da Folha de S.Paulo. No dia 6 de janeiro de 1978, escreveu que “começou a haver um debate em torno da formação de novos partidos políticos, comprometidos com as classes populares. A princípio, foram rumores, conversas sem propósito definido. Já agora, […] as posições vêm se explicitando, conforme declarações de políticos e intelectuais publicadas nos últimos dias”. Na verdade, as “conversas sem propósito definido” ocorriam em sua casa, em reuniões semanais com políticos de esquerda e intelectuais.
A ideia de Almino era criar um partido que representaria os assalariados (não só os operários), seria intensamente democrático em sua estrutura interna, adotaria a democracia como valor fundamental (e não apenas tático, como via para alcançar o socialismo), nacional, sem ligação com nenhuma experiência socialista estrangeira, sensível às reivindicações de mulheres e negros e empenhado na construção do “socialismo democrático”. A proposta, apesar de ter várias semelhanças com a de Fernando Henrique Cardoso, era diferente: não seria apenas uma confederação de movimentos, mas um partido político profissional com participação ativa das lideranças populares e incorporação de novas pautas, como os direitos das mulheres e dos negros. Seria um partido “implicitamente social-democrata”, como o Partido Socialista do Chile, que Almino havia conhecido bem no exílio em Santiago.
Uma das ideias-chave tanto do projeto de Almino quanto do de FHC era um partido que tivesse democracia interna, o que acabaria sendo central na construção do PT. Essa ênfase não foi obra só de intelectuais “libertários” de 1968 ou de operários e estudantes revoltados. Era uma reação ao mandonismo da política brasileira, que tinha entre suas manifestações o caudilhismo da era Vargas. O personalismo de lideranças pré-1964 como Leonel Brizola e Miguel Arraes irritava os defensores do novo partido, até pelas dificuldades de reuni-los em uma só legenda. De fato, quando a reforma partidária veio, Brizola fundou o PDT e Arraes permaneceu no PMDB.
Na volta do congresso dos petroleiros, no qual Lula havia anunciado sua intenção de formar um partido, Almino se sentou ao seu lado no avião e lhe perguntou se a proposta era para valer. Lula disse que sim. Almino então fez sua defesa da ideia, argumentando que os partidos de esquerda anteriores – PTB, PSB, PCB, PCdoB – eram, no fundo, de quadros com pouca base popular. Era preciso construir um partido que de fato contasse com a participação dos trabalhadores. Lula levou Almino para conhecer Olívio Dutra, o jovem líder bancário gaúcho. Almino, por sua vez, apresentou Lula a seu círculo de intelectuais e políticos.
Lula passou a participar dessas discussões com o grupo de Almino. Em uma delas, discutiram o que, exatamente, seria um Partido dos Trabalhadores. Os intelectuais presentes queriam uma ampliação do horizonte do partido para novos setores que não os operários. FHC dizia: “Vocês estão achando que o Brasil é a Europa” (onde o operariado industrial era uma fração muito grande da população), mas não era o caso. O sociólogo Francisco de Oliveira perguntou a Lula: “Você sabe como vive um trabalhador lá do Sul que planta arroz com água até a cintura?” Era preciso dar voz também a ele. Lula então disse, para a alegria dos presentes, que, sendo assim, tinha que ser um partido do povo. Alguém perguntou: “E os empresários?” Lula respondeu: “Aí é demais, aí não.” Mas pensou por um momento e acrescentou: “A não ser que seja o velhinho.” O velhinho era Teotônio Vilela, o senador da Arena que se convertera em militante pela democracia e visitara Lula no abc durante as greves.
As discussões prosseguiram e, por isso, Lula adiava a decisão de fundar o PT (ou fosse qual fosse o novo partido). Sonhava com uma legenda que atraísse o máximo possível dos progressistas do MDB, no qual militavam membros de diversas organizações de esquerda, além de nacionalistas e democratas progressistas variados. Mas queria que o controle estivesse com os sindicalistas. Não queria ser chefe do “setor sindical” de um partido, queria que sua turma de sindicalistas liderasse um partido, ou, ao menos, tivesse peso razoável na composição de sua liderança.
No meio dessas conversas, os trotskistas da Convergência Socialista forçaram a mão de Lula. Fernando Henrique exagerou a influência dos trotskistas, mas não mentiu.
A Convergência Socialista conseguiu uma pequena, mas importante penetração no movimento sindical. No Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, aproximou-se do presidente Benedito Marcílio e ajudou a elegê-lo deputado federal em 1978. Esse sindicato era muito importante: dele havia se desmembrado o de São Bernardo, e Santo André havia sido uma base importante dos comunistas em São Paulo. Como Lula, Marcílio administrava as várias tendências em sua base com habilidade.
Foi em um congresso dos metalúrgicos do estado de São Paulo em Lins que Marcílio, sem a concordância prévia de Lula ou do grupo de São Bernardo, lançou a proposta do Partido dos Trabalhadores. A declaração de Lins foi escrita pelo trotskista Zé Maria, um dos presos que haviam inspirado a volta do movimento estudantil às ruas em 1977.
A Convergência Socialista, lembre-se, foi fundada a partir do exemplo do Socialist Workers Party norte-americano. Durante um curto período em 1978, a Convergência se chamou Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), uma tradução literal de SWP, nome que propuseram aos sindicalistas para o novo partido. PST também era o nome do partido de Nahuel Moreno na Argentina. A turma da Convergência propôs aos sindicalistas “PST” como nome do novo partido.
Mas Benedito Marcílio, como Lula, era mestre em jogar com os grupos de esquerda. Argumentou que “socialista” era um negócio complicado demais para os trabalhadores e que ninguém ia entender aquilo. “Partido dos Trabalhadores” era o suficiente.
O nome “PT” ainda tinha outras vantagens: evitava o “socialista”, que poderia atrair a atenção da repressão e expressava bem a essência do que estava sendo proposto: um partido que seria controlado pelos trabalhadores. Não tinha um “comunista” ou um “socialista” que prendesse o partido a algum dos movimentos da esquerda internacional, o que todos viam como uma vantagem. E, por fim, não tinha o “B” do PTB getulista, que lembrava a utilização política dos sindicatos em favor de líderes políticos tradicionais. Um dos maiores quadrinistas brasileiros de todos os tempos, Luiz Gê, expressou a ideia em uma charge em que operários construíam um monumento com as letras “P” e “T” e se recusavam a incluir o “B” oferecido por outro grupo sem macacão de operário.
“Nasceu em Santo André, não em São Bernardo”, diz Benedito Marcílio. Há uma dose de verdade nisso, mas, como a versão de FHC sobre os trotskistas, ainda está longe de ser a história toda.
Para começar, a proposta dos metalúrgicos de Santo André só foi aprovada em Lins porque teve o apoio dos sindicalistas “pelegos”, os adversários de Lula e do grupo de São Bernardo. Eles não estavam votando no PT como nós o conhecemos, mas, é muito provável, no partido que o secretário do Trabalho Maluly Neto queria montar. Depois de Zé Maria ler a proposta de criação do Partido dos Trabalhadores, o próprio Joaquinzão se inscreveu para falar. Sorrindo, Zé Maria se lembra de Joaquinzão ter dito o seguinte: “Olha, eu me inscrevi aqui no congresso com uma proposta de moção para refundar o PTB. […] Mas eu gostei da ideia aqui dos meninos de Santo André, então eu retiro a minha proposta e apoio a deles.”
Lula apoiou a proposta, como outros líderes de São Bernardo, contra a forte oposição dos líderes ligados ao PCB. Versões divergem sobre se esse apoio foi concedido antes do congresso ou depois que Lula “leu a assembleia” e viu para onde sua base sindical estava indo. Tanto Almino Affonso quanto Fernando Henrique Cardoso suspeitam que Lula sentiu, diante do desafio do grupo de Santo André, que poderia perder sua base sindical se continuasse adiando o lançamento do PT. O próprio Zé Maria, entretanto, garante que Lula, seja por já ter chegado convencido, seja por ter lido a assembleia, apoiou a proposta. E que, sem Lula, o partido aprovado em Santo André e em Lins corria o risco de se tornar apenas “a proposta de cem moleques, poderia ser só uma organização pequenininha aí, certo?”.
Isso Lula e seu grupo não queriam, de jeito nenhum. As negociações com Almino Affonso prosseguiam. O próprio Almino, em artigo na Folha de S.Paulo de 30 de janeiro de 1979, interpretou a declaração de Lins como um momento da construção de seu Partido Popular:
O noticiário da imprensa, por falha de informação ou intriga marota, tem atribuído aos metalúrgicos o ânimo de formar um partido, só e exclusivamente de trabalhadores. Não posso imaginá-los, entretanto, fechando-se num obreirismo estreito. Ao contrário, o que buscam os dirigentes sindicais […] é constituir um partido que expresse os interesses dos assalariados. Pode haver algo mais abrangente? Aliás, a resolução do Congresso de Lins, ao criar uma comissão articuladora da implantação partidária, fixou-lhe os rumos da atuação: “Com outros setores da sociedade inicie gestões junto às bases e comece a encaminhar esta luta nacionalmente.” […] Parece-me compreensível que os trabalhadores queiram constituir, primeiramente, um núcleo básico, de sorte que, no debate com políticos e intelectuais comprometidos com a causa popular, eles possam ter um peso específico, sem se exporem à clássica manipulação. Há de ser com esse cuidado que Lula declarou à imprensa: “A criação do partido é, por enquanto, uma decisão do Congresso dos Metalúrgicos. Uma decisão como esta deve ser sempre levada para as bases e discutida diretamente com os trabalhadores.”
A tentativa de minimizar o impacto de Santo André e Lins é evidente, mas a interpretação não era completamente injustificada. A própria citação de Lula mostra que São Bernardo ainda preferia ampliar seu universo de alianças. Era hora de os defensores do Partido Popular e do PT sentarem face a face e resolverem suas diferenças.
Em 2 de junho de 1979, houve um encontro no Pampas Palace Hotel, em São Bernardo do Campo, onde compareceram 51 deputados federais e 26 estaduais do MDB, 35 sindicalistas, políticos cassados e diversos intelectuais de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Estavam lá dois futuros presidentes da República, Lula e Fernando Henrique Cardoso. Além de Lula, vários dos principais líderes do novo sindicalismo, como Djalma Bom, Olívio Dutra e o líder do sindicato dos professores de Minas Gerais, o futuro deputado federal petista Luiz Dulci. Além de FHC, compareceram grandes figuras do que viria a ser o PSDB, como os futuros governadores de São Paulo Mário Covas e José Serra. Havia gente da Igreja Católica e de movimentos sociais, além de intelectuais como Francisco Weffort e José Álvaro Moisés. Frei Betto foi convidado, mas não se interessou. E havia duas ausências notáveis: nem Brizola nem Arraes foram a São Bernardo.
A reunião foi a última e a maior tentativa de emplacar o projeto do Partido Popular, ou de um Partido dos Trabalhadores que fosse equivalente a ele. A escolha de São Bernardo como local da reunião era uma sinalização de que os sindicatos deveriam ter um papel importante na nova legenda.
As discussões duraram dois dias. Havia diferenças importantes entre os dois grupos, que foram percebidas por todos os participantes. Djalma Bom contou que teve a impressão de que os políticos do MDB na reunião pareciam mais dispostos a instrumentalizar os sindicatos do que a se deixar liderar por eles, e que a sensação no abc era justamente de que era hora de se libertar dessa herança do velho sindicalismo. O deputado emedebista Airton Soares notou que os sindicalistas desconfiavam muito dos parlamentares, dos intelectuais e dos exilados. Francisco Weffort observou que ali havia dois mundos muito diferentes, o dos operários e o dos políticos, e que não era fácil aproximá-los. Luiz Dulci, por sua vez, percebeu nos parlamentares um estranhamento diante do “basismo” dos católicos progressistas. E Fernando Henrique Cardoso se lembra de uma dinâmica mais simples: “A questão era: Quem ia mandar?”
A favor da tese de FHC, há o exemplo de uma discussão que parece tola, mas foi lembrada por todos os participantes da reunião de São Bernardo entrevistados por mim. Tradicionalmente, nas organizações de esquerda, a reunião terminava com o discurso da principal liderança. Quem seria? Os parlamentares queriam Almino Affonso, os sindicalistas queriam Lula. No fim, após alguma deliberação, Almino ofereceu a honra a Lula. Um dos argumentos que FHC usou para convencê-lo foi: “Almino, nós precisamos dele, ele é que tem a base de trabalhadores.” Era verdade: sem os sindicalistas, o Partido Popular seria igual aos partidos de esquerda anteriores que Almino Affonso criticara no avião, na volta de Salvador: partidos de quadros, grandes quadros, nesse caso, mas sem participação popular efetiva.
Na verdade, há várias outras questões por trás de “Quem manda?”. Para os dois lados, havia bons motivos para duvidar do projeto do Partido Popular.
Para os sindicalistas, havia o risco real de que a adesão representasse a diluição de sua influência dentro de um grupo de políticos experientes que dificilmente abdicariam da liderança do processo. Por que o fariam? Para São Bernardo, a aliança com os grupos de esquerda radical era bem mais segura: a maioria tinha saído enfraquecida da luta armada, e havia menos chances de disputar a liderança de um partido que incluísse o novo sindicalismo. Além disso, o discurso radical servia aos interesses de um sindicalismo em fase de formação, que não queria, logo depois de seu surgimento, subordinar a decisão de fazer ou não greves às negociações do fim do regime.
Por outro lado, seria difícil para o grupo de Almino e FHC romper com o MDB, porque a reforma partidária foi realizada antes do fim da ditadura. Nesse cenário, era mais arriscado dividir a coalizão pró-democracia. O MDB havia obtido uma vitória espetacular na eleição de 1974 e estava em ascensão. Era altamente provável que viesse a formar o primeiro governo pós-militares (o que aconteceu). A reforma partidária, quando veio, favoreceu a criação de partidos que já tinham uma base parlamentar forte.
Lembre-se: quando os emedebistas olhavam para o futuro PT, não viam a poderosa máquina que venceu quatro eleições presidenciais nos anos 2000. Viam um sindicalismo forte, mas recém-nascido, cristãos de esquerda que desconfiavam da política “pelo alto” e pequenos grupos de esquerda que tinham toda a cara de que tornariam sua vida difícil. O PT parecia uma aventura, porque era exatamente isso. Como bem lembrou Lula em uma entrevista de 2005, para os parlamentares do MDB, aderir ao PT teria sido trocar um pássaro na mão por dois voando.
O deputado federal Airton Soares foi um dos que entraram no PT, junto com o deputado estadual Eduardo Suplicy e mais alguns poucos parlamentares que permitiram ao partido conseguir seu registro. Nos anos seguintes, tiveram a possibilidade de participar da construção de um partido que desempenharia um papel importante na democracia brasileira. Mas, do ponto de vista de sucesso eleitoral e da convivência com a esquerda petista, vários deles encontraram dificuldades que pareciam dar razão aos emedebistas que não aderiram ao partido na sua fundação.
Se foram poucos os parlamentares que aderiram, o PT conseguiu recrutar grande parte dos intelectuais que participavam das discussões com Almino Affonso. Na visão de Fernando Henrique Cardoso, “a intelectualidade queria uma coisa mais sonhadora”. Havia uma certa lógica na adesão: vários estudavam temas muito entrelaçados com o contexto em que o PT havia sido formado. Francisco Weffort era autor de um estudo clássico sobre o populismo brasileiro, a cuja estrutura sindical São Bernardo se opunha. José Álvaro Moisés era um pesquisador dos novos movimentos sociais. No fim, o contato entre os dois “mundos” de que falou Weffort foi rico e houve trocas efetivas entre eles.
Mas o Partido Popular não foi fundado. A esquerda do MDB se reorganizou como “tendência popular” e continuou atuando no partido durante a maior parte da década de 1980. Já o Partido dos Trabalhadores foi fundado oficialmente em 1980, no Colégio Sion, em São Paulo, com forte predominância de sindicalistas e católicos progressistas, além de incluir também organizações marxistas menores, intelectuais críticos da esquerda autoritária e alguns dissidentes do MDB.
No entanto, grande parte dos participantes da reunião do Pampas Palace Hotel se reencontraria nove anos depois para escrever a Constituição do Brasil. Alguns anos depois, a esquerda do MDB se reposicionaria ideologicamente e disputaria a Presidência do país com o PT por vinte anos.
Na reunião do Colégio Sion, em 10 de fevereiro de 1980, pouco antes do Carnaval, outro grupo importante marcou presença: grandes intelectuais da geração anterior vieram prestar seu apoio à nova legenda, como o crítico de arte Mário Pedrosa, o historiador Sérgio Buarque de Holanda e o crítico literário Antonio Candido. Os três haviam pertencido ao Partido Socialista Brasileiro, o grande formulador da ideia de um socialismo democrático no Brasil dos anos 1950. Intelectuais mais jovens ali presentes, como a atriz Lélia Abramo e o economista Paul Singer, também haviam sido do PSB. O partido nunca conseguiu uma penetração de massa, mas estabeleceu raízes na política de Pernambuco com Miguel Arraes, atraiu intelectuais importantes e, como não poderia deixar de ser, foi “entrado” pelo minúsculo movimento trotskista da época.
Os intelectuais do socialismo democrático não estavam ali só pela fotografia ou para “passar o bastão”: vinham convidar o PT a participar de uma tradição de esquerda democrática e independente no cenário internacional que, agora, tinha alguma chance de encontrar as organizações dos trabalhadores. Comparada às outras esperanças que os intelectuais brasileiros já tiveram ao longo de nossa história, até que essa não seria completamente frustrada.
Por que a ditadura permitiu que o PT se formasse? Por mais que já estivéssemos na fase de abertura, os partidos comunistas (PCB e PCdoB) e socialistas (PSB) só seriam legalizados após o fim do regime militar, e a liderança da Convergência Socialista foi presa por tentar montar um partido dentro da lei. O PT não tinha “comunista” ou “socialista” no nome, mas o regime conhecia o perfil ideológico de seus líderes. Afinal, já tinha prendido todos eles.
Durante os anos 1980, era comum ouvir de comunistas ou brizolistas que o PT havia sido obra do chefe da Casa Civil de Geisel, Golbery do Couto e Silva, para dividir a esquerda.[3] Na versão mais animada da teoria, o PT teria sido criado com esse propósito por ordem da cia.
Não há dúvida de que, do ponto de vista do regime, seria positivo se um partido não comunista atraísse os sindicatos e os católicos progressistas antes que os comunistas o fizessem. Mas, em 1980, quando o PT foi oficialmente fundado, já estava bem claro que o partido adotaria uma linha à esquerda dos comunistas em vários aspectos. O PCB, em especial, seguia uma tendência de completa moderação e diálogo, atuando dentro do MDB. Talvez a ditadura tivesse sociólogos que apostavam que partidos operários de massa evoluíam em geral para a social-democracia, mas não conheço registro disso.
Na verdade, havia dois aspectos do PT que o tornavam mais aceitável para a ditadura. O primeiro era que, ao contrário do PCB e do PCdoB, o PT não pertencia a uma grande rede geopolítica. Não era apoiado nem pela União Soviética, que apoiava o PCB, nem pela China ou, posteriormente, pela Albânia, a quem o PCdoB era ligado. Os trotskistas estavam conectados internacionalmente, mas não com alguém que tivesse um exército. Os sindicalistas do abc tinham vínculos fortes com os alemães e os suecos, mas, em termos geopolíticos, esses países estavam no mesmo campo que o Brasil. Os católicos progressistas podiam contar com o apoio do Vaticano para defendê-los da tortura, mas não para uma transformação revolucionária (como os sandinistas nicaraguenses descobriram). Enfim, se um petista infiltrado na máquina do Estado brasileiro transmitisse informações para uma das subdivisões da Quarta Internacional trotskista ou para o sindicato dos metalúrgicos da Alemanha, isso dificilmente causaria o colapso do capitalismo brasileiro.
Mas há uma explicação muito mais simples para a tolerância da ditadura com o PT: ele era extraordinariamente fraco.
É preciso enfatizar o quanto o PT, na sua origem, era fraco.
O partido não tinha dinheiro nenhum – a legislação brasileira não autorizava que os sindicatos o bancassem e praticamente não havia ricos entre seus filiados –, não governava uma única cidade e tinha pouquíssimos parlamentares. Sua estrutura era precaríssima – a primeira sede foi o escritório de advocacia de Airton Soares. Francisco Weffort, que foi uma liderança importante do PT até 1994, se lembra de que “na minha época, era um miserê completo”.
Do lado político, os rivais do PT na esquerda se fortaleciam. A máquina do MDB evitou que Lula atraísse para o PT a maior parte da esquerda emedebista. E os próximos anos seriam de vitórias espetaculares para o MDB, que se consolidaria como o grande condutor da transição democrática e a força predominante na Constituinte de 1988.
O PDT de Leonel Brizola também começou a corrida pela liderança da esquerda em condições muito melhores do que o PT. Ainda havia uma memória do trabalhismo pré-1964 em setores importantes da população brasileira, em especial no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Brizola foi eleito governador fluminense em 1982. Durante toda a década de 1980, o PDT foi maior que o PT, e até a eleição de 1989 era a legenda de esquerda mais importante do Brasil. Como o PT, esse partido se recusaria a participar do primeiro governo civil, liderado pelo PMDB, mas teria uma posição muito mais moderada que a dos petistas em episódios importantes. Preservou seu status privilegiado junto à social-democracia europeia e procurou fazer uma atualização programática. Durante a maior parte dos anos 1980, a melhor aposta para primeiro presidente de esquerda do Brasil era Leonel Brizola.
E é importante fazer uma ressalva: quando dizemos que o PT foi fundado por sindicatos, pela esquerda católica e por grupos de esquerda, de maneira nenhuma se deve concluir que todos os sindicatos, os católicos progressistas e os movimentos de esquerda aderiram de início ao PT (ou até hoje).
O PCB continuou poderosíssimo em sindicatos importantes e conseguiu dificultar muito a entrada do PT nessas organizações, por exemplo no Rio de Janeiro. Tendências de esquerda como o Partido Revolucionário Comunista (PRC) lançavam candidatos pelo PT, mas também o faziam pelo PMDB e pelo PDT. Havia grupos marxistas dentro do PDT, como o Coletivo Gregório Bezerra. Por sua ação no Rio de Janeiro, onde o movimento negro era forte, o PDT conseguiu recrutar figuras históricas, como os intelectuais Abdias Nascimento (que foi deputado federal e senador) e Lélia Gonzalez (que havia fundado o PT, mas mudou de legenda no meio dos anos 1980, após criticar duramente seus dirigentes), além do deputado federal Carlos Alberto Oliveira dos Santos, o Caó. Provavelmente por ter absorvido grande parte da Ação Popular nos anos 1970, o PCdoB se tornou hegemônico no movimento estudantil. Um grupo importante dos ambientalistas brasileiros (muitos dos quais ex-guerrilheiros, como Fernando Gabeira, Carlos Minc, Alfredo Sirkis e Liszt Vieira) fundou o Partido Verde no meio da década de 1980. Figuras relevantes do movimento de associações de bairro do Rio de Janeiro aderiram ao PDT. Um grupo do movimento negro de São Paulo fez parte do Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, estabelecido pelo PMDB, em 1984. Os movimentos sociais tinham mais força no PT que nos outros partidos, mas não estavam só ali.
E isso não era tudo. Várias tendências que levaram à criação do Partido dos Trabalhadores começaram a refluir pouco depois de sua criação. A recessão profunda do começo dos anos 1980 desmobilizou os sindicatos, que perderam poder de barganha. Ao longo da década, o papa João Paulo II colocou sérios limites à atuação do catolicismo progressista, e mesmo membros moderados do clero concluíram que não era mais necessário proteger dentro da Igreja a oposição à ditadura. As organizações marxistas teriam um final de década difícil.
O PT tinha tudo para dar errado. Não há a menor dúvida de que, se a transição democrática tivesse sido tranquila, ele teria desaparecido ou teria se tornado um desses partidinhos radicais da França que sempre têm lá seus 2% dos votos. Os primeiros anos foram um desastre em termos eleitorais. O futuro da esquerda na transição parecia estar com Brizola, em algo que surgisse a partir do PMDB ou, até a queda do Muro de Berlim, no PCB. Eventualmente, os sindicatos acabariam migrando para alguma dessas legendas, e a esquerda brasileira seria formada a partir daí. Mas a transição democrática brasileira não foi tranquila.
Trecho de PT, uma História, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.
[1] Peter Camejo (1939-2008) foi um militante estudantil contra a Guerra do Vietnã que chegou a se candidatar à Presidência dos Estados Unidos, em 1976, pelo Socialist Workers Party (SWP). Ele deixou o partido em 1980 e se aproximou do Partido Verde, pelo qual disputou algumas vezes o governo da Califórnia. Em 2004, foi candidato a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do militante pelos direitos dos consumidores Ralph Nader.
[2] Note-se, entretanto, que o grupo trotskista original resolveu adotar o nome Convergência Socialista, que seria do partido mais amplo. Foi com essa denominação que este se tornou uma importante tendência do PT na década de 1980. Alguns militantes petistas que não conheciam a história (eu, por exemplo) sempre acharam estranho que uma tendência tão refratária a alianças se chamasse “convergência”.
[3] Na biografia que escreveu sobre Lula, Fernando Morais conta que houve um encontro, quando Lula estava preso, entre este e um emissário que pode ter sido enviado por Golbery, que o interrogou a respeito de suas posições políticas. Entretanto, naquele momento o PT já havia sido fundado.
