Oswald de Andrade e Julieta Bárbara Guerini, sua mulher, em 1939: ele não admitiu que Antonio Candido, então com pouco mais de 20 anos, viesse a questionar sua excelência literária CRÉDITO: FUNDO OSWALD DE ANDRADE_CEDAE/IEL/UNICAMP_1939
Dentes postiços
Oswald de Andrade, da grande guerra ao amor maior
Lira Neto | Edição 218, Novembro 2024
Na solidão, sou soturno […].
Em público, afirmativo e solar.
Oswald de Andrade
Oswald de Andrade pôs a máscara contra gases venenosos que lhe cobriu o rosto inteiro. Apenas os olhos esverdeados apareciam por trás dos dois visores redondos de vidro grosso. Tiras ajustáveis de tecido fixavam o equipamento por trás da cabeça. À altura da boca, um tubo se acoplava ao filtro cilíndrico, dando ao conjunto um aspecto de tromba alienígena. O cheiro forte do revestimento de borracha e a sensação de claustrofobia eram quase tão sufocantes quanto as substâncias contra as quais o dispositivo visava proteger. Oswald não suportou aquilo além de poucos segundos. Arrancou o apetrecho, ofegante.
Em situação real, no caso de exposição a um bombardeio de material tóxico, teria morrido ao inalar o ar contaminado. O maior temor das autoridades inglesas e francesas era a possibilidade de uma guerra química. Substâncias letais vinham sendo utilizadas pelos alemães desde a Primeira Guerra Mundial. Com a eclosão do novo conflito, os governos intensificaram a fabricação de equipamentos de segurança contra gases mortíferos. Os comitês de defesa civil recomendavam, como exercício de treinamento, o uso do dispositivo durante pelo menos quinze minutos diários.
Oswald comprara três máscaras idênticas. Uma para ele, outra para Julieta Bárbara Guerini, sua mulher, e uma terceira de reserva. Depois disso, a providência imediata foi tentar fugir da França o mais rápido possível. Pegaram uma carona inicial até Tours, a cerca de 240 km de Paris. De lá, por falta de outro meio de transporte disponível, utilizaram boa parte do dinheiro que levavam consigo para subornar o motorista de uma ambulância que os conduziu até Bordeaux, 350 km adiante. Os curiosos que se apinharam em torno do veículo ficaram atônitos ao ver sair dele não feridos de guerra, mas o casal de brasileiros carregados de malas, frasqueiras e valises.
De lá, Oswald e Julieta gastaram mais alguns punhados de francos para percorrer outros 200 km em um trem lotado de soldados até Biarritz, já próximo à fronteira espanhola. Na bela cidade-balneário da costa sudoeste francesa, depararam-se com o que Oswald definiu como “a mais alta ralé do mundo”: “Condes da Espanha, ladies inglesas, a alta burguesia da França, turistas e cosmopolitas de toda parte.”
Não ficaram para assistir ao que lhes pareceu uma festa de despedida da civilização europeia antes da hecatombe. Seguiram adiante, atravessando o território espanhol em outro trem, dessa vez uma composição de luxo da companhia ferroviária Sud Express – da janela do vagão, podiam observar as ruínas deixadas pela guerra civil no país. Tinham pressa de chegar a Portugal, governado pelo ditador António de Oliveira Salazar, nação autodeclarada “território neutro” na guerra contra os nazistas.
Mas em Lisboa compartilharam das mesmas agruras sofridas por centenas de outros fugitivos, muitos deles brasileiros. Não havia meios de embarcar para casa. Atravessar o Atlântico era mesmo uma ação temerária. Os submarinos alemães estavam pondo a pique navios das mais diversas bandeiras, sem fazer distinção entre destróieres, cargueiros ou transatlânticos de passageiros. Acionada, a embaixada dizia nada poder fazer para aplacar a angústia dos compatriotas. “Agora estamos às voltas com o problema do regresso e da guerra submarina”, escreveu Oswald a seu filho mais velho, José Oswald Antônio de Andrade, o Nonê.
Enquanto esperava solução para o problema, encontrou por acaso na capital lusitana um repórter dos Diários Associados, o jornalista Arnon de Mello – futuro deputado federal, governador de Alagoas e, mais tarde, pai de Fernando Collor de Mello, que viria a se eleger presidente da República. Quando soube que Arnon estava arrumando as malas para fazer a cobertura da guerra diretamente de Paris, tentou demovê-lo da ideia:
“Não faça isso, não cometa essa loucura”, disse Oswald. “[Esta] será a guerra invisível, a guerra de gotinha d’água que nos cai na pele e nos destrói a carne, dos gases que não se anunciam pelo cheiro e que matam. Pus uma máscara e quase me asfixiei.”
Ainda assim Arnon seguiu para a França, de onde escreveria longa reportagem para O Jornal – na qual reproduziu o diálogo travado com Oswald. Quem também estava em Lisboa era o jovem Vinicius de Moraes, com 26 anos à época, acompanhado da primeira mulher, Beatriz Azevedo de Mello, a Tati. O poeta, que já publicara quatro livros de versos, recebera uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Mas o início da guerra alterou os planos de Vinicius. Ele também tentava encontrar uma maneira de retornar ao Brasil. Oswald, com pouco dinheiro, pediu-lhe algum emprestado, prometendo pagar quando os dois conseguissem regressar ao país.
Outro encontro ocasional se deu com Plínio Salgado. Oswald esbarrou com ele no hall do hotel onde estava hospedado o primo Marcos Inglês de Souza – mais um dos tantos brasileiros na cidade à espera de algum navio que se arriscasse à travessia oceânica. O caso de Plínio era diferente. Exilara-se em Portugal após ser preso em decorrência do ataque promovido, em 1938, por integrantes da ultranacionalista Ação Integralista Brasileira (AIB) ao Palácio Guanabara – residência oficial da Presidência da República. Oswald não perdeu a oportunidade de fazer troça com o maior representante da extrema direita brasileira, líder supremo da AIB.
Perguntou-lhe sobre o que pensava do pacto de não agressão assinado, cerca de um mês antes, entre Hitler e Stálin. O acordo entre a Alemanha nazista e a União Soviética comunista havia deixado estupefatos os partidários dos respectivos espectros ideológicos. No mundo inteiro, direitistas e esquerdistas ainda estavam igualmente atônitos com a notícia. Plínio então teria levantado as sobrancelhas e, com a característica voz esganiçada, respondido à pergunta de Oswald:
“[Agora] sou liberal.”
Oswald se divertiu com o mimetismo ideológico do “Hitler de [São Bento do] Sapucaí”, como o apelidava. Poucos dias depois, aceitou o convite para um almoço oferecido por outro entusiasta do nazifascismo: o velho amigo português António Ferro, de quem era padrinho de casamento. O ex-ativista do modernismo lusitano, que em 1922 publicara o manifesto “Nós” nas páginas da revista Klaxon, editada pelos modernistas brasileiros, tinha se tornado o todo-poderoso ministro da Propaganda do ditador Salazar. Admirador assumido de Hitler e Mussolini, Ferro idealizara a chamada “política do espírito”, mito central do Estado Novo português – sustentado pelo culto nostálgico ao passado das grandes navegações lusitanas e, ao mesmo tempo, pelo louvor à simplicidade da vida rural e da “pobreza honrada” do povo português.
“O modernismo não tem [mais] circulação em Portugal. O sinal está fechado. O António Ferro deu um inspetor de trânsito exigente”, concluiu Oswald após a conversa com o homem forte de Salazar. Guardaria de Portugal a imagem de um país preso ao passado: “O ambiente, os preconceitos, os costumes, as beatas eram os mesmos do tempo do padre Amaro”, constatou, aludindo ao romance O crime do padre Amaro, de Eça de Queiroz, lançado em 1875.
Após mais de um mês de expectativa, Oswald e Julieta, assim como Vinicius e Tati, conseguiram embarcar em 5 de outubro no vapor Angola, da portuguesa Companhia Nacional de Navegação, transferido em caráter de emergência da rota africana para socorrer a multidão que aguardava transporte para o Brasil. O navio atracou ileso no Porto do Rio de Janeiro exatos quinze dias depois, às sete da manhã, com 538 passageiros a bordo. À chegada, foi recepcionado por chuvas de serpentinas vermelhas, verdes e amarelas – combinação das cores oficiais dos dois países irmãos.
No convés, Julieta posou sorridente para fotos, com vestido estampado, chapéu de aba larga e lenço em volta do pescoço. Ao lado dela, Oswald usava paletó de linho branco, gravata colorida e óculos escuros redondos, comprados na Europa. Fez questão de mostrar aos jornalistas as máscaras contra gases que trouxera da viagem.
Nos dias seguintes, para onde fosse, carregaria uma delas consigo. Ao que tudo indicava, o Brasil não corria nenhum risco de ser atingido por um bombardeio químico. Mas, de fato, uma atmosfera venenosa aguardava Oswald no retorno ao país.
Depois de ler a carta de mais um ouvinte do programa Consultório sentimental, a radialista Helena Sangirardi fez uma pausa. Antes de pôr na vitrola o disco de cera com a próxima música romântica, anunciou com a voz familiar e melodiosa de sempre:
“Oswald de Andrade é o candidato do povo à Academia Brasileira de Letras.”
Na sala de estar da casa de Oswald, o repórter do Suplemento Literário da revista Diretrizes achou graça da coincidência. Estava ali exatamente para entrevistá-lo a respeito do assunto. Sentado na poltrona predileta – que ele chamava de “a cadeira do papa” –, Oswald descascava e chupava tangerinas trazidas na bandeja por Julieta.
Dias antes, anunciara de forma inusitada sua segunda candidatura à abl. Em vez de barganhar votos nas tradicionais conversas ao pé do ouvido com acadêmicos, lançara uma campanha pública, por meio de propagandas transmitidas pelo rádio, prometendo inclusive fazer comícios em palanques, como se disputasse uma eleição popular. Seria, na verdade, uma anticandidatura, com a finalidade de expor os vícios do “cambalacho” nos bastidores da instituição. “Não espero ser eleito, ainda não há paraquedas blindado”, explicou ao jornalista, usando imagem bélica. “Meu destino é de um paraquedista que se lança sobre uma formação inimiga: ser estraçalhado.”
Oswald e Julieta haviam se mudado do apartamento no Edifício Itapetininga para um velho casarão de três andares na Rua Martiniano de Carvalho, 689, na Bela Vista, um dos imóveis deixados de herança pelo pai de Oswald, o velho coronel José Oswald Nogueira de Andrade. Durante a entrevista, o repórter atentou para as obras de arte na sala: “A casa de Oswald de Andrade lembra de momento a momento, através dos magníficos quadros pendurados pelas paredes – os Picassos e os Chiricos, os surrealistas, os dadaístas e os abstracionistas –, o movimento que ele chefiou no Brasil.” Mas o moço vanguardista de 1922 já era um homem maduro, aos 50 anos, embora ainda se dissesse disposto a continuar fazendo barulho.
“A minha candidatura é o resultado de uma vida polêmica que agora já atinge de perto o passado vencido”, comentou. “O Brasil não tem mais gente para suprir os quadros da paralisia senil que fizeram há muito tempo da Academia de Letras um asilo de impotentes.”
Oswald disputava a cadeira de número 24 do Petit Trianon, deixada vaga pela morte do poeta e diplomata Luís Guimarães Filho em abril daquele ano de 1940. Além dele, havia mais cinco pretendentes à imortalidade. Dois outros modernistas – Manuel Bandeira e Menotti del Picchia –, o historiador Basílio de Magalhães, o crítico Berilo Neves e o gramático Julio Nogueira. Provocado a opinar sobre a obra dos concorrentes, Oswald afirmou: “Não sei quem são os srs. Basílio de Magalhães e Berilo Neves. Julio Nogueira sei que é um gramático. A Academia precisa de gramáticos para uso interno. Eu aconselharia a alguns acadêmicos tomá-lo como professor particular.”
Sobre Menotti, também foi irônico. Disse que o autor de Juca Mulato seria “digno de figurar em todas as academias” – “e em todos os museus”. Quanto a Bandeira, considerava-o “grande poeta, mas crítico fraco e pouco orientado”. “Talvez por isso mesmo seja eleito.” Ao final da entrevista, o repórter quis saber se, além da campanha pública, Oswald recorreria também ao clássico expediente de bater à porta dos imortais, indo de casa em casa pedir voto. O entrevistado não conteve a gargalhada: “Pedirei os votos aos acadêmicos, como é protocolar”, respondeu, aos risos, “mas por carta aberta, que será enviada pessoalmente a cada um e amplamente divulgada pela imprensa.”
O Suplemento Literário da Diretrizes ilustrou a entrevista com uma caricatura desenhada por Antônio Nássara – Oswald caindo das alturas amparado por um guarda-chuva aberto –, acompanhada de uma fotografia na qual encarava a câmera com ar desafiador, olhando de cima para baixo, empunhando uma das máscaras contra gases trazidas da Europa. “A Academia Brasileira de Letras é muito pequena para conter Oswald de Andrade”, concluía o texto, publicado sem assinatura, em duas páginas da edição de agosto de 1940.
A carta aberta de Oswald, endereçada nominalmente a cada um dos quarenta imortais, foi divulgada logo em seguida pelos jornais e revistas: “Senhor acadêmico, será Vossa Senhoria uma das raras inteligências desse grêmio que compreendem a atual situação do mundo e portanto a da própria Academia?”, indagava. “Ou será Vossa Senhoria daquelas teimosas velhas de Botafogo, que ainda acreditam no pavoneio dos títulos literários, roubados aos verdadeiros trabalhadores da cultura?”
A provocação de Oswald não foi bem recebida pela maior parte da imprensa. Mesmo um jovem cronista de 27 anos como Rubem Braga, autor de O conde e o passarinho – livro de estreia, lançado em 1936 –, recriminou atitude tão sarcástica. Pelas páginas do Estadão, Braga argumentou que, enquanto o pacato e sereno Bandeira poderia, no mínimo, “ensinar boas maneiras acadêmicas a muitos acadêmicos”, Oswald, “homem de maus bofes e maus modos”, deveria “pôr a mão na pesada consciência, cheia de crimes contra a respeitabilidade e o sossego dos intelectuais no país”.
Outro cronista, Brito Broca, dez anos mais velho que Braga, mas ainda inédito em livro, considerava que Oswald andava meio fora de moda – “e de foco”. “Uma blague de Oswald de Andrade, há dez anos, era êxito certo; hoje precisaria ele lançar recursos muito maiores para agitar o ambiente.” Para Broca, com o surgimento do romance social de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, a literatura brasileira tomara novo impulso na década de 1930, tornando obsoletas as traquinagens modernistas. “Já não é fácil alguém impressionar-se com as irreverências e as diatribes que outrora escandalizavam.”
Opinião ainda mais demolidora tinha o jornalista Armando Pacheco, titular da coluna “Microscópio” no jornal carioca Beira-Mar, especializado na cobertura noticiosa da Zona Sul. Ao lembrar que o livro de poemas Circo, de Álvaro Moreyra, era dedicado a Oswald, comentou: “A dedicatória é justa e bem convincente. Oswald de Andrade é um verdadeiro palhaço literário. Lugar de palhaço é no circo.”
O resultado da votação secreta na ABL não surpreendeu ninguém. Manuel Bandeira foi eleito com 21 votos. Berilo Neves conseguiu sete. Basílio de Magalhães, três. Menotti del Picchia, mesmo tendo retirado a candidatura em favor de Bandeira, recebeu o apoio de um dos colegas. Oswald, do mesmo modo, obteve um único voto. O grande mistério era saber quem se atrevera a votar nele. Mais tarde, quando viesse a publicar suas memórias, Cassiano Ricardo garantiria ter sido ele o autor da proeza:
“Oswald teve meu voto em 1940 e eu votaria de novo no seu nome ilustre e subversivo”, escreveu o autor de Viagem no tempo e no espaço.
Guilherme de Almeida, porém, em carta privada ao colega acadêmico Ribeiro Couto – enviada à época sob a rubrica “Confidencial”, escrita à máquina, em tinta vermelha –, sustentava versão diferente. Ao revelar a Couto ter optado por conferir um voto de consolação a Oswald, Guilherme disse ter levado em conta o passado de amizade entre os dois: “Nascemos juntos nas letras. […] Juntos, em colaboração, escrevemos e publicamos nosso primeiro livro de dupla estreia”, justificou, referindo-se às peças Mon coeur balance e Leur âme, lançadas em 1916.
Mário de Andrade, que acompanhava a contenda a distância, sentiu-se vingado com a vitória do amigo Bandeira. “Uf!, descansamos de torcer”, suspirou, em carta a Rubens Borba de Moraes. Mário parecia ter informações seguras de que Guilherme de Almeida teria sido mesmo o responsável pelo voto solitário em Oswald de Andrade: “O Gui, mais uma vez, fez safadeza, inventando um pretexto para não votar no Manuel.”
A mágoa de Mário em relação a Oswald continuava imensa:
“Está aí um com o qual eu jamais farei as pazes enquanto estiver na posse das minhas forças de homem”, jurou, em carta a Drummond.
O rapaz de fala mansa, queixo curto, calvície precoce e rosto sempre bem escanhoado foi levado por Paulo Emílio Salles Gomes para conhecer Oswald de Andrade. Aos 22 anos, aluno do curso de ciências sociais da USP, Antonio Candido ainda não adotara o frondoso bigode que pouco mais tarde deixaria crescer sob o nariz marcado pelas cicatrizes da acne juvenil. Comentava-se que as costas meio arqueadas do moço eram resultado do hábito de viver debruçado sobre livros. Porém, quando posava para fotografias, corrigia a postura da cabeça e dos ombros, normalmente projetados para a frente, assumindo atitude de estudada elegância.
O jovem Candido foi incorporado ao grupo de estudantes universitários que se habituou a visitar Oswald nos domingos à tarde. À turma, a princípio liderada por Paulo Emílio e Décio de Almeida Prado, logo se somaram outros dois colegas de faculdade: Rui Coelho e Lourival Gomes Machado. O primeiro, com 20 anos, abandonara a vetusta Faculdade de Direito para, a exemplo dos demais, estudar na moderna Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. O outro, formado em direito e ciências sociais aos 23 anos, já era o primeiro assistente da cadeira de sociologia, ministrada pelo professor Paul Arbousse-Bastide, o “Bastidão”, assim chamado pelos alunos para diferenciá-lo de Roger Bastide, o “Bastidinho” – apesar do sobrenome em comum, os dois mestres franceses não eram parentes.
Na casa da Rua Martiniano de Carvalho, as conversas dominicais se prolongavam noite adentro – “estimuladas pela cortesia calorosa do anfitrião, um dos mais perfeitos que conheci”, segundo definiria Antonio Candido. “Oswald nos tratava bem e ao mesmo tempo fazia troça de nós, como era seu hábito, inventando diversas piadas e nos pondo o apelido de chato-boys, que pegou. Chato-boys porque, segundo ele, [éramos] estudiosos, bem-comportados, sérios antes do tempo.”
Mas a relação de cordialidade com Oswald ficou estremecida quando, em maio de 1941, os moços uspianos decidiram lançar uma revista de cultura, Clima, devidamente incentivados e financiados por Alfredo Mesquita – o diretor, produtor e ator que havia se recusado a montar A morta, a peça publicada pelo escritor em 1937. Para agravar a insatisfação de Oswald, o grupo pediu a Mário de Andrade, e não a ele, um texto de apresentação para o número de estreia.
“Clima é uma revista de gente nova e desconhecida, gente que poderia parecer por demais ousada apresentando-se a si mesma e que, a seu próprio ver, precisava de uma apresentação feita por pessoa de reconhecida autoridade”, esclarecia a nota da Redação. “Ninguém mais do que Mário de Andrade estava nessas condições.”
Oswald continuava a ser visto muito mais como franco-atirador do que propriamente escritor relevante, capaz de avalizar uma nova revista cultural organizada por estudantes universitários. Enquanto isso Mário – o “anti-Oswald” – alcançara a condição de quase unanimidade, tido e havido como mentor intelectual do melhor da produção modernista. “Oswald fazia muita brincadeira e nós nos dávamos muito bem. Mas tínhamos mais respeito pelo Mário porque ele era, vamos dizer assim, um universitário antes da universidade”, explicava Décio de Almeida Prado.
Um punhado de admiradores, de todas as idades, costumava se reunir em torno da mesa cativa que o autor de Macunaíma mantinha junto ao balcão do Bar e Restaurante Ao Franciscano, à Rua Líbero Badaró, onde tomava chope nos finais de tarde, fumando um cigarro da marca Metropole. “Oswald ficava meio à margem; mesmo porque seu sarcasmo desmanchava de um lado o que o seu enorme encanto pessoal tinha construído do outro”, comentava Candido.
Crítico iniciante, mas já titular de um rodapé semanal na Folha da Manhã, Antonio Candido acreditava que Oswald de Andrade estivesse preparando, enfim, o livro destinado a lhe garantir lugar no cânone literário brasileiro. Há tempos Oswald dizia trabalhar naquela que prometia ser sua obra máxima: um grande painel ficcional intitulado Marco zero, dividido em nada menos que cinco volumes: A revolução melancólica, Chão, Beco do escarro, Os caminhos de Hollywood e A presença do mar. “Desde já, é fora de dúvida que o famoso Marco zero, que aí vem, vai decidir as relações do seu autor com a posteridade”, confiava Candido.
Em um dos rodapés semanais na Folha, sintomaticamente intitulado Romance e expectativa, ele passou em revista toda a obra em prosa de Oswald publicada até ali. No levantamento crítico, confessava ainda não ter lido Memórias sentimentais de João Miramar, pois o livro, lançado em pequena tiragem, quase clandestina, estava esgotado e jamais fora republicado – uma raridade bibliográfica, em suma, que ninguém encontrava mais, nem mesmo em sebos. Quanto a Serafim Ponte Grande, Candido revelava tê-lo lido às gargalhadas, mas considerava que o excesso de chistes comprometera a consistência do romance como realização literária de peso.
“Uma vez corridos os anos e acalmado o rodamoinho feito pelo sr. Oswald de Andrade, o que sobrará em definitivo na sua obra?”, perguntava-se Candido. “Muito dos seus escritos é conversa e piada registrada.” Quanto à Trilogia do exílio, classificava-a como obra falha “como estilo, como criação de personagens, como expressão de humanidade”. Não seria por meio dela, portanto, que Oswald poderia assegurar lugar de relevo na literatura nacional. Por isso, Candido apostava tanto no aguardado Marco zero. Seria a vez de o autor mostrar que era um escritor de verdade, não mero clown, ativista cultural de vanguardas envelhecidas – “Já não é sem tempo”, sublinhou.
Oswald não admitia que um fedelho com pouco mais de 20 anos – e além do mais desprovido de senso de humor – viesse a questionar sua excelência literária. “A análise que acaba de fazer de minha obra o sr. Antonio Candido é um modelo de leviandade carrancuda”, rebateu, no Estadão. “Admito ofensa pessoal, mas não admito burrice em relação à minha obra.” A seu favor, Oswald evocava a autoridade de Roger Bastide, professor de Candido na USP, que escrevera uma resenha para o Estadão com elogios hiperbólicos à Trilogia do exílio.
Bastide chegara a dizer que, em perspectiva histórica, a trilogia oswaldiana ocuparia no Brasil posição análoga à que ocupava, na França, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. “É o ponto final de uma época que começou com Machado de Assis”, analisava o professor francês. “Machado é a introdução do amor romântico no interior da família burguesa brasileira. Oswald é a decomposição desse romantismo amoroso. […] É o ciclo machadiano que se encerra.”
Os três romances da série estavam, por sinal, de volta às livrarias. Por intermédio do colega Erico Verissimo, Oswald conseguira que Henrique Bertaso, dono da Editora Globo, sediada em Porto Alegre, republicasse a Trilogia do exílio em um único volume, sob o título geral de Os condenados – na reedição, o nome do primeiro tomo foi alterado para Alma; o do segundo, A estrela de absinto, mantido; e o do terceiro, de início A escada de Jacob, depois A escada vermelha, reduzido para simplesmente A escada.
“Acredito que, desta vez, meu livro alcançará êxito bem maior”, dizia Oswald. “A Globo é a organização perfeita em seu gênero. Um livro editado pela grande casa porto-alegrense tem a seu favor essa organização que, sabem todos, é fator de importância decisiva.” Contudo, ao contrário das expectativas, mesmo bem editado e bem distribuído, Os condenados continuou ignorado pelo grande público. Com o novo projeto, Marco zero, Oswald pretendia, finalmente, arrebanhar leitores e calar os críticos: “Quero ver como se portará o sr. Antonio Candido e seus chato-boys.”
De acordo com o anunciado, a pentalogia seria uma espécie de história coletiva de São Paulo, composta de múltiplos quadros, cenários e personagens. Um “romance mural”, inspirado nos grandes afrescos do pintor mexicano Diego Rivera que, com abundância de figuras, cores e situações, retratavam aspectos da história e da cultura de seu povo. Capítulos esparsos da futura obra vinham sendo divulgados em diferentes veículos, desde o jornal acadêmico xi de Agosto, da Faculdade de Direito, à principal revista semanal do país, O Cruzeiro. “Oswald de Andrade muito em breve apresentará o romance cíclico paulista Marco zero”, diziam os anúncios pagos por ele mesmo nas páginas de Dom Casmurro.
“Vai ser uma revolução”, assegurou Oswald em entrevista ao jornal carioca A Manhã, alimentando o suspense. “Considero já encerrada a fase de polêmica da literatura moderna, que ficou bem marcada nas Memórias sentimentais e em Serafim Ponte Grande”, advertiu. “Os meus livros anteriores encerram apenas experiências de estilo variadas e agressivas; agora fiz uma obra de trabalho sereno.”
Em outra entrevista, concedida à paulista A Gazeta, Oswald tentou explicar por que seus livros nunca haviam conquistado maior número de leitores: “Coloquei-me, bem cedo, numa posição de combate e de pesquisa técnico-expressional. Isso torna difícil a leitura […]. Não são livros para o grande público.” O entrevistador Silveira Peixoto, tradutor do romancista americano William Faulkner, quis saber se ele esperava que Marco zero quebrasse a regra e se firmasse como sucesso de vendas. “Candidamente acredito nisso. Acho que Marco zero vai acabar com o meu afastamento do público que lê.”
Oswald vinha preenchendo dezenas de cadernos, cadernetas e fichas avulsas para organizar o vasto material a ser explorado ao longo dos cinco volumes. Graciliano Ramos, que pusera os olhos nos calhamaços, dizia já serem mais de oitenta cadernos recheados de minuciosas notas de pesquisa: “Oswald registra com rigor todos os fatos dignos de interesse, traça um plano que se alarga continuamente e, nunca satisfeito com a sua forma, redige uma página quatro, cinco vezes.”
Às vésperas do vigésimo aniversário da Semana de 1922, Oswald finalmente parecia querer, com Marco zero, ser levado a sério. “Oswald de Andrade, que agitou, como um saci construtivo, o campo literário nacional, anda agora acomodado e despido, pelo menos aparentemente, de suas veleidades reformistas”, analisava o cronista José Domingues na santista A Tribuna. “Teria, como murmuram os maliciosos, sepultado o seu Dom Quixote, que lhe propiciou aventuras extraordinárias, para deixar viver o Sancho Pança.”
Mas a demora na publicação dos volumes de Marco zero deu margem a acusações de que o quinquagenário Oswald de Andrade estaria sem fôlego, em vias de se aposentar. Por isso, vinha se resumindo a resgatar do ostracismo escritos mais antigos. Além da reedição da Trilogia do exílio, também planejava a edição de todos os seus poemas em um único volume, intitulado Poesias reunidas de O. Andrade – trocadilho com o nome do conglomerado Indústrias Reunidas de F. Matarazzo. “Oswald já está cuidando das suas ‘obras completas’, providência da maturidade dos escritores que não podem ter muita confiança nos seus pósteros”, ferroava O Imparcial.
Em contraste, indagado sobre a fórmula para produzir um bom romance, José Lins do Rego, com pouco mais de 40 anos e já oito livros de sucesso no gênero, julgou não estar na idade de dar conselhos a ninguém. “Procure o velho Oswald de Andrade”, recomendou, irônico, ao repórter. José Lins lamentou existirem autores decadentes que não sabiam “engrandecer a senectude”: “Penso no pobre Oswald de Andrade, de dentes postiços, querendo morder a humanidade inteira, fora do tempo, como uma criatura de Frankenstein, sem amigos e sem inimigos; o desgraçado Oswald que perdeu a fortuna e o espírito. Melancólico destino de um Piolin sem picadeiro e sem público.”
De fato, mal de saúde e de dinheiro, Oswald perdera todos os dentes. Passara a usar dentadura dupla. Ao escrever uma ferina reportagem sobre os hábitos dos grã-finos da capital paulista para a revista Diretrizes, um jovem e talentoso repórter de apenas 25 anos, Joel Silveira, citou o escritor como um homem destruído, sem mais lugar no mundo. “Oswald de Andrade também já pertenceu à nata elegante de São Paulo. Mas foi expulso da finesse”, observou Silveira. “Hoje sua posição é a de um cidadão amargurado e revoltado com os seus antigos colegas de vida mundana.”
Eram tantos os cadernos, fichas de anotações e fichas avulsas que foi preciso contratar uma secretária para ajudá-lo na organização de Marco zero. Uma das primeiras pessoas a serem chamadas para a tarefa foi uma jovem de 23 anos, aluna de direito nas velhas Arcadas, e de educação física na USP, então amiga – e depois esposa – de Paulo Emílio: Lygia Fagundes, que incorporaria o sobrenome do primeiro marido, Goffredo Telles.
Mas quem ficou mesmo com o emprego de secretária de Oswald foi uma garota um ano mais nova que Lygia, Maria Antonieta d’Alkmin, amiga de Adelaide Guerrini, esposa de Nonê e irmã da mulher de Oswald, Julieta Bárbara. Também piracicabana, proveniente de família simples, residente na Vila Clementino – bairro paulistano de aspecto rural à época –, Maria Antonieta era aluna do último ano da Escola Normal. Filha de um modesto fiscal de rendas e de uma dona de casa, tinha conhecido Oswald na festa de casamento de Adelaide e Nonê. Ficara impressionada com a quantidade de doce e champanhe que ele devorava junto à mesa posta à disposição dos convidados. Ouvira dizer que era comunista, polígamo e, de acordo com as conversas que também escutara, antropófago.
Pouco depois, ao acompanhar a mãe e a irmã em visita a Julieta, foi abordada por Oswald, que lhe perguntou se por acaso gostava de literatura – e se tinha interesse em trabalhar para ele como secretária. Apesar do temor inicial em relação à figura do comunista devasso e comedor de carne humana, deixou-se levar pelo irresistível fascínio pessoal do escritor e passou a considerar a proposta. Acima de tudo, a família precisava de dinheiro. Devidamente advertida pela mãe a tomar cuidado com aquele homem que já havia casado pelo menos meia dúzia de vezes, Maria Antonieta aceitou o emprego.
A primeira providência da moça antes de encarar a empreitada foi se matricular em um curso de datilografia – embora o trabalho consistisse principalmente em tomar notas à mão do texto ditado pelo autor com base na montanha de apontamentos prévios. Oswald também a encarregou de procurar nos cadernos e páginas soltas determinadas cenas e passagens, para incorporá-las ao texto em processo de escrita final.
Oswald gostava de escrever durante as madrugadas. Acordava cedo e saía de casa no início da manhã, para ir ao escritório imobiliário que montara com o filho em um edifício na esquina da Rua Marconi com a Barão de Itapetininga. Antes, deixava bilhetes com instruções para Maria Antonieta: “Esses cadernos que estão aí na frente têm coisas preciosas. Conserve-os separados dos outros.” Voltava para casa na hora do almoço e, depois de se empanturrar com o prato predileto – bife com batatas –, trabalhava nos originais do primeiro volume de Marco zero. Pretendia inscrever A revolução melancólica na eliminatória nacional para o II Concurso Literário Latino-Americano, promovido pelos Estados Unidos como parte da política de boa vizinhança no continente e patrocinado, no país, pela Revista do Brasil.
“Geralmente, às 13 horas, quando chegava para o trabalho, encontrava o dr. Oswald debruçado sobre os originais, riscando trechos, quando não páginas inteiras, ou então escrevendo desordenadamente novas cenas”, recordaria Maria Antonieta. “Era, portanto, um trabalho paciente e cuidadoso esse de percorrer página por página escrita, às vezes até em rabiscos imperceptíveis, a ponto de eu precisar adquirir uma lente para destrinchar frases que o próprio dr. Oswald havia escrito e que, nem sempre, conseguia descobrir o significado.”
Nos bilhetes deixados para ela, a forma de tratamento, iniciada com a formalidade de um “Prezada Antonieta”, em poucas semanas evoluiu para o apelido carinhoso de “Tonetinha”. Não demorou para os dois passarem a se referir a Marco zero como “o nosso livro”. Ao final do primeiro mês de trabalho, além de pagar um salário mais alto do que ela esperava, Oswald comprou-lhe um tailleur quadriculado, no clássico padrão príncipe de Gales.
“Um presente pelo seu esforço”, justificou.
A essa altura, a esposa Julieta Bárbara passava mais tempo no Rio de Janeiro, sozinha, do que em São Paulo ao lado do marido. Arranjara um emprego no Ministério do Trabalho, por intermédio do então ministro Marcondes Filho, ex-apoiador da Revolução de 1932 que se convertera ao getulismo. Oswald ficou morando com os filhos Rudá e Nonê, a nora Adelaide e a netinha que recebera o mesmo nome da avó paterna: Inês. Certo dia, Maria Antonieta ouviu Julieta confidenciar, em conversa com a família Alkmin, não se sentir feliz ao lado de Oswald.
Na verdade, Julieta conhecera outro homem, o físico Mário Schenberg, militante comunista e professor do curso de ciências da USP. Filho de judeus russos, nascido no Recife, formado em física e matemática, interessado em artes, acabara de retornar de uma temporada de estudos e pesquisas na Universidade de Washington, no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e no Observatório Yerkes, em Wisconsin, nos Estados Unidos. Os dois se apaixonaram e deram início a um flerte, de início clandestino.
Oswald não cuidou de manter o casamento já desgastado. Em uma das muitas tardes de trabalho no manuscrito de Marco zero, uma tempestade de primavera desabou sobre a capital paulista. Ao som de trovões e à luz dos relâmpagos que caíam lá fora, ele se aproximou de Maria Antonieta e a beijou na testa. A garota, atônita, caiu no choro. Ao indagar ao “dr. Oswald” por que fizera aquilo, ouviu a resposta que a deixou ainda mais atordoada:
“Eu te amo.”
Oswald puxou do bolso uma folha de papel dobrada e ofereceu a ela os versos iniciais de um longo poema, Cântico dos cânticos para flauta e violão:
Saibam quantos este meu verso virem
Que te amo
Do amor maior
Que possível for.
O poema, que viria a ser incluído na edição de Poesias reunidas, suplicava:
Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d’Alkmin
O texto acima é um capítulo do livro Oswald de Andrade: mau selvagem, a ser lançado em breve pela Companhia das Letras.
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