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    O Complexo de Formação Olímpica do Nordeste, em Fortaleza, é um dos 22 centros de preparação para a Rio 2016 que o governo Dilma tinha prometido entregar até dezembro de 2015. Só cinco ficaram prontos a tempo. Praticamente concluído há mais de um ano, o complexo do Ceará segue sem uso FOTO: CLAUDIO PEDROSO_2016

anais do esporte

Ouro de tolo

As promessas e a realidade do projeto para o Brasil alcançar o topo do quadro de medalhas na Rio 2016

Cristina Tardáguila, Juliana Dal Piva e Raphael Kapa | Edição 113, Fevereiro 2016

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No dia 13 de setembro de 2012, uma quinta-feira, o Palácio do Planalto abriu as portas de seu salão mais nobre para receber os atletas vindos dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres. Além de aproveitar a oportunidade de posar ao lado da elite do esporte nacional, a presidente Dilma Rousseff e o então ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, pretendiam fazer naquela cerimônia o anúncio de um plano arrojado: algo capaz de dar ao Brasil as condições para figurar entre os dez primeiros lugares nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Um feito inédito na história do esporte nacional, e ainda mais significativo porque, semanas antes, os brasileiros haviam partido de Londres em 22º lugar. Na história das Olimpíadas, nossas melhores colocações tinham sido a 15ª posição, em Antuérpia, em 1920, e o 16º lugar em Atenas, em 2004.

No palco montado no palácio, o cerimonial enfileirou seis cadeiras bem abaixo de um gigantesco telão. Dilma sentou-se na terceira delas, tendo a sua direita o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, e Aldo Rebelo. A então ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, o então presidente da Autoridade Pública Olímpica, Márcio Fortes, e o presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Andrew Parsons, ficaram a sua esquerda.

Um locutor de voz grave fez a abertura da cerimônia e passou a palavra ao ministro dos Esportes. Aldo Rebelo elogiou “a dedicação, a disciplina, a entrega e o espírito patriótico” de cada um dos atletas presentes. Depois, com um aceno de cabeça na direção de sua equipe técnica, fez aparecer no telão uma projeção de slides que guiaria a plateia pela apresentação do projeto, concebido para turbinar de uma vez por todas o esporte de alto rendimento no país.

 

“Nós apresentamos hoje o plano Brasil Medalhas”, anunciou o ministro, ainda ajustando o microfone. “Falo de algo que nos ajudará a preparar o Brasil para a Olimpíada e a Paralimpíada de 2016, que compatibilizará o Brasil, país-sede, anfitrião, acolhedor dos jogos, com o quadro de medalhas que nós queremos.”

Dilma, Gleisi, Nuzman, Fortes e Parsons precisaram girar e inclinar desconfortavelmente o corpo para assistir à projeção, mas pareciam compartilhar o entusiasmo do momento. Tratava-se do primeiro projeto oficial focado exclusivamente no desenvolvimento dos atletas rumo à Rio 2016. Além do objetivo ambicioso de fazer o país chegar entre os dez primeiros lugares nos Jogos Olímpicos, o plano também fixaria uma meta paralímpica: ficar entre os cinco maiores vencedores. Ambição que parecia viável, depois de um nono lugar em Pequim, em 2008, e do sétimo posto no quadro de medalhas nos Jogos de Londres.

A plateia, composta por alguns jovens de camiseta, calça jeans e tênis – e por muitos membros do governo de terno e gravata –, aprovou quando Rebelo disse que o Brasil Medalhas teria um “recurso extraordinário de 1 bilhão de reais” nos quatro anos seguintes, e que esse valor “já estava assegurado nos orçamentos de 2013 a 2016”. No telão, surgiram as “linhas de repasse”: o “Bolsa Atleta Pódio” e o “Bolsa Técnico”, além da garantia de apoio a “equipes multidisciplinares”, “equipamentos e material esportivo”, “treinamento no Brasil e no exterior” e “participação em competições”.

 

Os aplausos foram efusivos.

Os valores seriam alocados em duas grandes iniciativas, continuou Rebelo, procurando ser didático: a maior parte, 690 milhões, iria “diretamente para o apoio aos atletas”; outros 310 milhões estavam previstos “para a construção, a reforma e o aparelhamento de centros de treinamento em todo o Brasil”.

No telão, os slides detalhavam o projeto: o Brasil Medalhas ergueria ou remodelaria “22 centros de treinamento (21 olímpicos e um paralímpico)”. De acordo com o ministro, tudo já havia sido acertado com a presidente Dilma e comunicado às confederações. Os espaços deveriam ficar prontos até o fim de 2015, a tempo de poderem contribuir para a preparação da equipe olímpica. Serviriam como local de concentração para as seleções brasileiras das mais diversas modalidades. Na reta final do ciclo olímpico, os melhores atletas se reuniriam nesses espaços a fim de se preparar para a competição, sob a coordenação de uma mesma equipe técnica. Encerrada a Rio 2016, os 22 centros do Brasil Medalhas, parte do “legado” dos jogos no país, continuariam a ser usados por atletas de diversos níveis.

 

O planejamento específico – quais centros construir, onde erguê-los e a seleção dos atletas a serem atendidos – seria definido em conjunto com “as confederações, as federações e os clubes”. O ministro então deixou o púlpito e assinou um “termo de compromisso” que seria publicado meses mais tarde no Diário Oficial da União. Na portaria nº 83, de 24 de abril de 2013, Rebelo e os representantes de quatro bancos (Banco do Brasil, Banco do Nordeste do Brasil, BNDES e Caixa), além de Eletrobras, Correios, Infraero e Petrobras, se comprometiam a “definir e gerir em conjunto a aplicação dos recursos financeiros, assim como os instrumentos específicos para as transferências necessárias” à concretização do Brasil Medalhas, e a “avaliar em conjunto a indicação dos atletas a serem beneficiados”.

O entusiasmo diante da promessa de investimento federal na preparação dos atletas não demorou a se manifestar. Num país em que a maior parte dos recursos para o esporte de alto rendimento depende, direta ou indiretamente, do poder público, um projeto como aquele tinha impacto direto na vida dos desportistas. Convidado a discursar, o nadador paralímpico Daniel Dias, vencedor de seis provas nos Jogos de Londres, elogiou o programa recém-anunciado. “A gente precisava de investimento. E está acontecendo. Em nome de todos os atletas olímpicos e paralímpicos, quero dizer o meu muito obrigado por acreditarem em nós.”

Dias então se referiu a Dilma como “capitã” da delegação brasileira e pendurou no pescoço da presidente as seis medalhas de ouro que tinha conquistado nas piscinas do Reino Unido. Com um sorriso acanhado, a presidente posou para fotos e devolveu os prêmios ao atleta – pesados que só – com a devida deferência.

“O certo”, disse a mandatária ao microfone, “é que nós vamos ofertar 22 centros de treinamento.”

Novos aplausos dos atletas.

 

Aos olhos do esporte nacional, a cifra de 1 bilhão de reais era vultosa, ainda que os investimentos no setor viessem aumentando desde os anos de bonança dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva – e, em muitos casos, continuariam a crescer sob a presidente Dilma. O Bolsa Atleta, criado em 2005, por exemplo, depositava recursos diretamente nas contas dos esportistas, como ocorre com as bolsas de iniciação científica. Em 2010, o benefício distribuiu 20 milhões de reais. No final do primeiro mandato de Dilma, já alcançava a marca de 181 milhões.

Outra fonte de recursos para o esporte são as leis de renúncia fiscal. A Lei Agnelo/Piva, que repassava à época 2% das receitas brutas das loterias federais aos Comitês Olímpico e Paralímpico, é a maior delas. Em 2010, movimentou 167 milhões de reais; em 2014, 317 milhões. A Lei de Incentivo ao Esporte, bem mais recente, atrai empresas e pessoas físicas interessadas em fazer avançar projetos esportivos: o apoiador escolhe onde quer investir e tem o valor abatido do imposto de renda, até o limite de
6% do total devido à Receita Federal. Entre 2010 e 2013, essa lei pôs à disposição do esporte de alto rendimento uma média de 140 milhões por ano.

Em julho do ano passado, o Tribunal de Contas da União se reuniu para debater um relatório, realizado pelos técnicos da instituição, que apresentava um levantamento atualizado e exaustivo dos investimentos financeiros no esporte brasileiro e, em particular, no esporte profissional competitivo. Comitês Olímpico e Paralímpico, confederações e federações haviam sido consultados a respeito de suas fontes de renda, volume de recursos recebidos e despendidos.

Dessa espécie de mapa do dinheiro no esporte nacional, chegava-se à cifra de 3,9 bilhões de reais investidos no esporte de alto rendimento entre 2010 e 2012, ano do anúncio do Brasil Medalhas. Os recursos eram provenientes sobretudo de repasses feitos pelo governo federal, governos estaduais e prefeituras, leis de renúncia fiscal e patrocínios de empresas públicas. Cerca de 70% do total, ou 2,7 bilhões, haviam saído dos cofres federais (de forma direta ou por meio de renúncia fiscal) naquele período de três anos.

Nesse cenário, 1 bilhão de reais a mais vindos de Brasília certamente fazia diferença.

 

Em dezembro passado, data-limite estipulada para a entrega dos 22 centros de treinamento prometidos, Aldo Rebelo abriu seu gabinete, já no Ministério da Defesa, para falar sobre o plano Brasil Medalhas. Na porta, um militar fardado fazia a guarda, protegendo o segundo nome da hierarquia das Forças Armadas do Brasil, depois da presidente.

O alagoano Aldo Rebelo, quadro importante do Partido Comunista do Brasil, é calmo, fala de maneira pausada e tem o hábito de sorrir entre uma frase e outra. Acomodado numa poltrona, recordou a concepção do programa. Disse que no início de 2012, quando estava à frente dos Esportes, decidiu conversar com representantes de diversas confederações e levantar as chances reais de medalha para o Brasil na Rio 2016. “O quadro não era o mais alentador”, resumiu o ministro, sem entrar em detalhes.

Rebelo contou que logo em seguida recorreu à presidente e sugeriu que o governo se esforçasse para proporcionar à delegação brasileira condições de figurar “pelo menos entre os dez primeiros” no quadro de medalhas de 2016. Dilma assentiu. Encomendou um projeto, que também deveria servir para consolidar as políticas públicas de esporte. Pouco tempo depois, o Brasil Medalhas veio à luz.

Ao tomar posse para o segundo mandato, Dilma decidiu tirar Rebelo dos Esportes, substituindo-o pelo radialista, bispo da Igreja Universal e deputado federal pelo PRB George Hilton. Depois de doze anos, o Ministério deixava de estar sob o comando do PCdoB (antes de Rebelo, a pasta fora ocupada pelo também comunista Orlando Silva).

Na conversa em seu gabinete da Defesa, Rebelo insistiu que o projeto continua a ser uma peça fundamental na preparação dos atletas brasileiros para os Jogos de agosto. Já lhe parecia uma vitória, de toda forma, o fato de o Brasil Medalhas simplesmente ter saído do papel.

Não se tratava, claro, de uma iniciativa exclusivamente sua, como ele próprio sublinhou. Seu braço direito nesse projeto havia sido o também comunista Ricardo Leyser. Secretário de Alto Rendimento do Ministério dos Esportes desde 2009 e homem forte da pasta, entre 2005 e 2007 Leyser representara o governo federal na organização dos Jogos Pan-Americanos no Rio, e mais tarde ajudaria a coordenar as ações federais na candidatura para a Rio 2016. Passados doze meses de sua saída do Ministério dos Esportes, Rebelo lembrou-se do antigo assessor ao ser questionado sobre a evolução das obras dos 22 centros de treinamento que havia prometido na cerimônia de lançamento do Brasil Medalhas. Não sabia dizer com precisão quantos seriam efetivamente construídos, nem quais já estavam prontos.

Pressionado, apertou os olhos e, com o indicador na bochecha, respondeu com uma pergunta: “Você já falou com o Leyser?”

 

Ao longo dos últimos quatro anos, o governo federal produziu pelo menos quatro listas que estabeleciam os centros de treinamento do plano Brasil Medalhas. Duas delas estão disponíveis, desde novembro de 2013, no portal que o governo mantém sobre os Jogos de 2016 (www.brasil2016.gov.br). A terceira foi fornecida pela assessoria de imprensa do Ministério dos Esportes em novembro de 2015. E a quarta, preparada pela mesma equipe, já em janeiro de 2016. Nenhuma das quatro, no entanto, atinge o total de 22 centros prometidos por Rebelo e referendados por Dilma. A lista inaugural continha dezesseis endereços. A segunda, publicada dias depois da primeira, quinze centros; a terceira, treze; a quarta, que está efetivamente sendo implantada, dez, menos da metade do anunciado.

Dos dez centros previstos, contudo, apenas cinco haviam sido inaugurados dentro do prazo determinado pelo próprio governo (dezembro do ano passado): três em São Bernardo do Campo, em São Paulo – o Centro de Treinamento de Atletismo, o Centro de Ginástica Artística e o Centro de Desenvolvimento do Handebol Brasileiro –, o Centro Pan-Americano de Judô, em Lauro de Freitas, na Bahia, e o Centro de Canoagem Slalom de Foz do Iguaçu, no Paraná.

A pouco mais de sete meses do início da Olimpíada, outros cinco centros ainda não podiam ser usados pelos atletas e aguardavam algum tipo de finalização. Levavam a rubrica “em obras” o Centro Paralímpico Brasileiro, em São Paulo; o de Hipismo, em Barretos; o de Formação Olímpica do Nordeste, em Fortaleza; e outros dois no Paraná, o Centro Nacional de Treinamento de Atletismo, em Cascavel, e o Centro de Treinamento de Ciclismo de Londrina.

Nunca foram esclarecidos os critérios utilizados para montar uma lista com apenas dez CTs para o Brasil Medalhas. O Ministério afirma que esse número foi definido após “tratativas com confederações e governos locais”. Mas, entre as diversas listas existentes, nota-se que ficaram pelo caminho espaços que, um dia, foram identificados pelo próprio governo como relevantes para a preparação olímpica. Um deles é o Centro Nacional de Tênis, em Florianópolis, que constava das duas listas iniciais. Segundo a federação da modalidade na capital catarinense, o projeto nunca saiu do papel.

Boa parte do alardeado investimento de 1 bilhão de reais também ficou pelo caminho – em particular na fatia que deveria ser diretamente investida na preparação dos atletas. Os 690 milhões de reais anunciados como apoio financeiro direto aos esportistas encolheram. Até janeiro, apenas 328 milhões – menos da metade do prometido – haviam sido despendidos, segundo o próprio Ministério dos Esportes. Por outro lado, o recurso destinado à construção dos centros de treinamento – dinheiro que, antes de beneficiar os futuros integrantes da delegação olímpica, passa pelas mãos das empreiteiras – deu um salto. Até dezembro, quando apenas cinco dos 22 CTs inicialmente prometidos estavam prontos, o investimento em infraestrutura para os atletas havia passado dos prometidos 310 milhões de reais para 452,2 milhões – um acréscimo de quase 50%.

 

O governo patina nas explicações. Não responde por que a verba dos atletas encolheu, nem por que houve um salto nos gastos com as obras. Dados obtidos por meio do Serviço de Informação ao Cidadão revelam que o aumento no custo dos dez centros aconteceu antes mesmo que os primeiros tijolos do Brasil Medalhas fossem cimentados. Somados, os orçamentos iniciais dos dez centros já perfaziam um total de 613,5 milhões de reais – quase o dobro dos 310 milhões anunciados pelo ministro como suficientes para construir 22 CTs.

Uma vez iniciadas as obras, contudo, os custos totais dos centros tenderam a se manter dentro das previsões orçamentárias. Como o aumento nos custos aconteceu entre o anúncio de Rebelo e a divulgação do orçamento inicial de cada uma das obras, o erro não está na execução dos projetos, mas no planejamento do Brasil Medalhas.

As razões da retração do apoio financeiro aos atletas também são obscuras. Esportistas e confederações criticam os critérios de seleção para um dos instrumentos do programa, o Bolsa Pódio. Para estar apto a receber o benefício, o atleta precisa figurar entre os 20 melhores do mundo em sua modalidade.
O governo então insere o nome do desportista em uma das quatro faixas prefixadas do programa – dependendo de sua posição no top 20, ele pode receber de 5 mil a 15 mil reais por mês. A concessão da Bolsa Pódio varia de um ano para o outro, a depender dos resultados obtidos pelos atletas brasileiros.

Os desportistas questionam o fato de o Bolsa Pódio não contemplar talentos em evolução, e de se concentrar apenas em nomes consolidados. Argumentam que o objetivo do Brasil Medalhas, de conquistar mais prêmios do que nunca na Rio 2016, teria maiores chances de ser alcançado se o programa não se restringisse ao top 20 de cada modalidade. O ideal seria que o critério do benefício se adaptasse às singularidades de cada esporte. Há modalidades em que o ranking dos vinte melhores do mundo oscila com mais facilidade e frequência do que em outras. Falta um ajuste fino, dizem.

O Ministério dos Esportes defende a meritocracia e mantém o critério. Segundo a pasta, são 250 os atletas beneficiados pelo Bolsa Pódio atualmente. Uma consulta ao Sistema de Informação ao Cidadão, no entanto, revelou que, em novembro de 2015, eram 185 os esportistas contemplados pelo benefício.

Até janeiro, 57 milhões de reais haviam sido distribuídos pelo governo federal como apoio direto ao desenvolvimento dos atletas. O restante das ações de apoio previstas na portaria assinada por Aldo Rebelo viria de empresas estatais que endossam o programa, entre elas, Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e Correios.

Entre as oito estatais que em 2012 se comprometeram a destinar verbas ao plano, duas não colocaram um único real no Brasil Medalhas: a Eletrobras e o Banco do Nordeste. A estatal de energia diz que não efetivou o apoio acertado no Planalto porque patrocinou por um tempo o basquete nacional e considerava que “já havia cumprido seu objetivo estratégico de divulgar a marca da empresa”. O Banco, por sua vez, afirma que as entidades esportivas não apresentaram projetos aptos a captar verbas junto ao órgão.

Entre as outras seis estatais, a Caixa foi a que mais investiu: desde a criação do plano, desembolsou um total de 120 milhões de reais, repartidos entre quatro modalidades olímpicas e todas as quinze paralímpicas. Em seguida vêm os Correios, com 45 milhões de reais destinados aos esportes aquáticos, ao tênis e ao handebol. A Petrobras fica em terceiro, com um aporte de 34 milhões ao judô, ao boxe e ao tae kwon do. A Infraero aparece em seguida, tendo investido 9 milhões no judô olímpico e paralímpico. O Banco do Brasil e o BNDES não deram informações sobre suas contribuições para o Brasil Medalhas

Em Brasília, naquela manhã de dezembro, Aldo Rebelo se confundiu algumas vezes ao falar do projeto de que cuidou por 28 meses. Deu o Centro Nacional de Atletismo de Cascavel como pronto, quando, na verdade, o que se via por lá em janeiro era um canteiro de obras com apenas 40% da construção concluída. O ministro tampouco soube explicar por que o governo federal gastou uma cifra maior para construir um número menor de centros. Nem por que os atletas, em contrapartida, receberam menos.

“Não sei”, disse Rebelo. “Sei que os centros de treinamento de excelência, como o de judô, na Bahia, ficaram prontos e foram entregues. O de São Bernardo, que era de canoagem e de handebol, ficou pronto. O de Campinas não ficou pronto, mas evoluiu bastante.”

Na verdade, a lista mais recente do Brasil Medalhas não prevê um centro de treinamento em Campinas, nem um de canoagem em São Bernardo. Aldo Rebelo foi adiante: “O de canoagem, lá de Foz do Iguaçu, ficou pronto. Está lá, funcionando. As pistas de atletismo de Cascavel: eu fui lá.” Cascavel, a rigor, fazia parte da lista de obras ainda não concluídas. E Rebelo insistiu: “Ah! Pode não ter sido inaugurado, mas eu visitei no ano passado e já estava bem adiantado. Tem um negócio em Maringá também, eu me lembro de ter ido. É preciso ver o que o Leyser diz.”

 

Planos como o Brasil Medalhas foram adotados, muitas vezes de maneira exitosa, por outros países que sediaram olimpíadas. Em 1988, quatro anos antes de sediar a Olimpíada em Barcelona, a Espanha ganhou apenas quatro medalhas, tendo ficado em 25º lugar no ranking dos medalhistas em Seul, na Coreia. Com medo de fazer feio, dessa vez em casa, a Asociación Deportes Olímpicos – equivalente espanhol do Comitê Olímpico Brasileiro – pôs em marcha um programa para fornecer equipamentos às confederações e bolsas aos atletas. O resultado é celebrado até hoje. Nos Jogos de 1992, a Espanha faturou 22 medalhas e chegou ao final da disputa num surpreendente sexto lugar.

No Reino Unido, o UK Sports fez algo semelhante. Em 1996, nos Jogos de Atlanta, o país amargou um 36º posto no quadro de medalhas. No ano seguinte, criou-se um programa de incentivo ao esporte de alto rendimento, que investiria 732 milhões de libras (o equivalente, hoje, a 4,2 bilhões de reais) nos quinze anos seguintes e ajudaria os atletas britânicos a conquistar a terceira posição nos Jogos de 2012, disputados em Londres.

O Japão, que sediará a Olimpíada de 2020, já fixou metas. Toshiaki Endo, ministro responsável pela realização do evento, convocou os jornais há alguns meses e avisou: quer 16 medalhas de ouro, e já trabalha na elaboração de um plano oficial para isso. Na última Olimpíada, o Japão obteve sete ouros.

Fixar metas é praxe tanto nos Jogos Olímpicos como nos Pan-Americanos. No ano passado, o Brasil chegou aos jogos continentais de Toronto com o objetivo de conquistar 141 medalhas, repetindo o número de prêmios obtidos quatro anos antes, no Pan-Americano de Guadalajara. Conseguiu exatas 141 medalhas. Na Olimpíada de Londres, em 2012, a proposta era a estabilidade: manter o total de medalhas da competição anterior. Como em 2008 o Brasil levara quinze em Pequim, a conquista de dezessete no Reino Unido foi plenamente satisfatória.

A meta que o COB estabeleceu para a Rio 2016 e que se transformou no principal objetivo do plano Brasil Medalhas representa um salto ambicioso, para dizer o mínimo, no histórico de objetivos traçados até aqui. Para que o Brasil fique entre os dez primeiros lugares em agosto, estima-se que terá de colocar no peito entre 27 e 30 medalhas, quase o dobro do que foi conquistado há quatro anos. Sem que os atletas possam usufruir dos recursos prometidos para sua preparação, o alvo parece ainda mais distante.

 

Cid Gomes fez sua última aparição pública como governador do Ceará no dia 30 de dezembro de 2014, ao inaugurar o Centro de Formação Olímpica do Nordeste – ou melhor, parte dele.

O convite para o evento no CFO trazia uma vacina anticríticas. Convocava abertamente para a “entrega da primeira etapa” da construção. No cronograma oficial do Brasil Medalhas, o espaço ficaria pronto em março de 2015. Naquele momento, a obra já estava quase finalizada (92% pronta, segundo o governo cearense), mas faltavam acabamentos e a instalação de aparelhos de ar-condicionado. Gomes, com um mandato que venceria no dia seguinte, não podia esperar.

As comemorações começaram do lado de fora do complexo, que se estende por 85 922 metros quadrados, um espaço equivalente ao do Sambódromo do Rio de Janeiro. Projetado para atender a 27 modalidades esportivas, o centro nasceu não para ser “mais um”, mas para ser “o melhor”, ressaltou o próprio Cid Gomes, alguns meses atrás, sentado na varanda arredondada de seu apartamento. Hoje no PDT, o ex-governador e ex-ministro da Educação mora perto da praia de Iracema, uma das mais conhecidas de Fortaleza. Desde que deixou a Esplanada, em março de 2015, transformou a sala de estar de seu apartamento em escritório político. É de lá que ele costuma atender aos telefonemas de Brasília.

Ao longo de uma hora e pouco de conversa, fumando um cigarro atrás do outro, o ex-governador falou do centro de treinamento quase inaugurado. Contou que, para conseguir erguer o CFO, foi direto à presidente Dilma e lhe pediu dinheiro. Disse ter sido assim, simples assim, que o centro entrou no Brasil Medalhas.

Situado numa região cercada por favelas, o CFO foi pensado para ser o maior e mais bem equipado centro de excelência olímpica do Nordeste. O complexo reúne três grandes edificações e uma área externa de competição. A maior das construções é o ginásio principal: uma arena multiuso completamente climatizada, com capacidade para receber até 21 mil espectadores. As outras duas, interligadas, abrigariam, conforme o projeto, o local de treino propriamente dito e um espaço para alojamento, academia de ginástica, salas de atendimento médico e fisioterapia. Na área externa do CFO há uma pista de atletismo, um campo de futebol, piscinas de natação e de saltos ornamentais, quadras de vôlei de praia e tênis, além de pistas de BMX e skate. No dia da pré-inauguração, Gomes não conseguia disfarçar o orgulho.

Depois dos discursos de praxe, a comitiva convidada para a cerimônia iniciou o tour por um dos prédios. No térreo, os convidados conheceram a sala de levantamento de peso. Cid Gomes ergueu uma barra de peso e sorriu para as câmeras. Depois, fez uma vistoria nas 84 suítes preparadas para abrigar até 248 atletas, todas elas com banheiros e equipadas com beliches, armários, mesas de estudo, tevês de LED e geladeiras.

Antes de ir embora, o governador arriscou dar alguns socos nos bonecos de treino do boxe e, acompanhado do ginasta Arthur Zanetti, medalha de ouro nas argolas na Olimpíada de Londres, visitou o espaço da ginástica artística. O campeão olímpico elogiou o tablado dos exercícios de solo, as barras assimétricas, o cavalo e as argolas à mostra. Depois, encorajou um eletricista que havia trabalhado na obra, e que acompanhava tudo de perto, a saltar sobre o cavalo. O funcionário não se fez de rogado. Pulou de forma desengonçada e caiu nas espumas, sob risos da plateia.

Naquele dia, tudo indicava que o CFO estaria pronto em três meses. Em dezembro do ano passado, contudo, um ano depois da quase inauguração, o centro continuava fechado aos atletas, à espera dos últimos retoques. A Secretaria do Esporte do Ceará diz que falta concluir 5% da obra. Numa visita ao local, a reportagem notou a ausência de um corrimão aqui, de um azulejo acolá, da pintura, da retirada do entulho e da instalação de grades. Na academia de ginástica, esteiras, bicicletas e aparelhos de musculação seguem embalados exatamente como foram entregues. Na cozinha industrial, o panorama é o mesmo, assim como na área de serviço, onde imensas máquinas de lavar roupas aguardam instalação.

Jeová Mota é o atual secretário do Esporte do Ceará, o terceiro no cargo desde o início do governo Camilo Santana, do PT, há um ano. Numa manhã de dezembro, ao apresentar as razões para o atraso na abertura do CFO, Mota evocou o troca-troca de titulares na secretaria que ocupa, as dúvidas sobre o melhor modelo de gestão a ser implantado no centro de treinamento e, por fim, a Operação Lava Jato, que afetou a empreiteira Galvão Engenharia, responsável pela obra.

Durante todo o governo Gomes, a gestão do CFO era atribuição da Secretaria de Grandes Eventos, mas o órgão foi extinto após a posse de Camilo Santana. Nesse vácuo, a Casa Civil e a Secretaria de Esportes passaram a disputar a responsabilidade pelo empreendimento, o que retardou decisões importantes sobre a obra. “Além disso”, acrescentou Mota, “logo que assumi a Galvão entrou em processo de recuperação judicial.” No fim do ano passado, três executivos da empreiteira foram condenados pela Justiça Federal pelos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa. “Automaticamente, deu uma diminuída no ritmo das obras.”

Enquanto isso, os atletas de alto rendimento do Ceará continuam treinando nos espaços de sempre, aguardando a inauguração definitiva do centro.

 

No judô, uma das modalidades mais fortes do Brasil olímpico, o atraso na abertura do centro de Fortaleza impacta no desempenho e também no ânimo dos atletas. Érika Hellen Ferreira, de 20 anos, é uma das quatro melhores do país na categoria de até 63 quilos. Apaixonou-se pelo esporte aos 5 anos, quando viu crianças da vizinhança indo treinar com seus pequenos quimonos, e seguiu o grupo pelas ruas do bairro Sapiranga, na periferia da capital cearense. Hoje coleciona vitórias que despertam a atenção do mundo todo.

A jovem aprendeu judô numa escolinha que dividia espaço com a biblioteca pública do bairro. Há cerca de quatro anos, passou a treinar nos fundos da escola onde estudou, numa sala desocupada de 7 metros de largura por 7 de comprimento – com janelas basculantes, duas lâmpadas, cinco ventiladores de teto e um quadro-negro. Mesas e cadeiras cederam lugar a um tatame. Ferreira não dispõe de academia de ginástica nem da ajuda de fisioterapeutas, psicólogos e massagistas, prevista no projeto do CFO.

Mesmo assim, de campeonato em campeonato, a atleta vem crescendo. Na primeira seletiva para a Rio 2016, disputada em dezembro de 2012, ela obteve o terceiro lugar, chamou a atenção da Confederação Brasileira e passou a participar de treinamentos esporádicos com a seleção nacional. Na seletiva ocorrida no fim de 2014, deu azar: sofreu uma lesão no braço logo na primeira luta e ficou fora da disputa por vaga para a Olimpíada do Rio. Seu foco agora é Tóquio 2020.

Há poucos meses, ela recebeu o convite para se mudar para a Romênia e treinar por lá durante um ano. Diante das condições que tem encontrado no Brasil, ela e um de seus conselheiros, o presidente da Federação Cearense de Judô, José Cardoso Neto, consideram a proposta irrecusável. “Se o CFO estivesse funcionando, com técnicos contratados para o treinamento, talvez ela nem fosse para o exterior. A gente teria aqui a mesma condição que ela vai ter lá”, lamentou Neto.

Entre os dez CTs beneficiados pelo plano Brasil Medalhas, há outro que poderia acolher Ferreira: o Centro Pan-Americano de Judô, na Bahia. A obra custou 43 milhões de reais e foi uma das primeiras a ser inaugurada, em julho de 2014, com a presença de Aldo Rebelo. Segundo Cardoso Neto, no entanto, não há treinamento contínuo por lá. Os judocas mais bem colocados do país praticam em seus clubes e se reúnem esporadicamente na Bahia para competir uns com os outros. Não é disso que Érika Ferreira precisa. A judoca busca treinamento concentrado. Foco sem intervalos.

 

Os corredores cearenses, por sua vez, também têm encontrado obstáculos. Na falta do CFO, usam a pista da Universidade de Fortaleza, a Unifor, que também foi financiada com verba federal. Jerry Gadelha é o atual presidente da Federação Cearense de Atletismo. Num café no bairro Guararapes, o ex-atleta disse que a iniciativa de construir o CFO é positiva, necessária e muito bem-vinda, mas lamenta não só o atraso, como também a falta de diálogo durante a concepção do espaço. Como resultado, a pista de corrida do complexo tem piso diferente do empregado atualmente.

“Quando fomos conhecer o centro, houve um estranhamento”, ele disse. “A gente tem um equipamento na Unifor [Universidade de Fortaleza] que tem um certo tipo de piso, igualzinho ao usado em competições olímpicas. Lá, no complexo, fizeram outro tipo. Não posso dizer que seja pior. É diferente”, explicou Gadelha.

Ao preparar sua saída do governo, Cid Gomes separou e repassou a Camilo Santana um caixa de 9 milhões de reais destinados exclusivamente ao CFO. No planejamento do ex-governador, seu sucessor deveria entregar a administração do centro a uma Organização Social – algo semelhante ao que vem sendo feito, por exemplo, no sistema de saúde do Rio e de São Paulo. Mas a ideia não vingou. Nenhum dos envolvidos sabe dizer quanto custará a manutenção do equipamento quando o centro estiver aberto e funcionando.

“Temos uma ideia do custo do centro parado, mas, funcionando, a gente não tem noção não”, admitiu o secretário Jeová Mota, sem saber que, horas mais tarde, a informação cairia mal aos ouvidos de Cid Gomes. “Para mim isso não é um bicho de sete cabeças. Já fiz muito isso”, reagiu o ex-governador, ao ser questionado sobre a falta de um cálculo dos custos de manutenção do CFO aberto. “A gente se concentrou foi na construção.”

Para tentar solucionar a questão, talvez tarde demais para colocar o Brasil no top 10 da Rio 2016, no final de 2015 o COB promoveu uma parceria entre a consultoria Ernst & Young e a Secretaria de Esportes do Ceará. Desde então, a empresa trabalha para calcular o custo de manutenção do complexo e, até março, deve apresentar a Jeová Mota o melhor modelo de gestão. O valor do contrato com a empresa de consultoria é confidencial, será divulgado apenas no dia da entrega do estudo.

Mas o que realmente preocupa os esportistas são questões bem práticas do cotidiano, detalhes que deveriam ter sido definidos no projeto ou a partir da pedra fundamental do CFO. Eles querem saber como funcionará o imenso centro. Quem poderá usufruir do local? Como esses profissionais serão selecionados? Quem fará uso dos alojamentos? Como serão divididos os horários de treinamento? Haverá seleções nacionais abrigadas ali? As incertezas também afligem a secretaria: “Preocupa, claro que preocupa”, reconheceu Mota, antes de anunciar sua intenção de se informar melhor sobre experiências administrativas no esporte. Até o fim do primeiro semestre deste ano, às vésperas da Rio 2016, ele pretende ir a Barcelona para conhecer de perto a experiência olímpica da cidade.

 

A quase 3 mil quilômetros de Fortaleza, na cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo, três centros do plano Brasil Medalhas estão abertos e em pleno funcionamento. São espaços simples mas funcionais, onde o silêncio do esforço físico concentrado se intercala com o ranger dos aparelhos e os gemidos dos atletas que utilizam sua infraestrutura, dia e noite.

O Centro de Handebol, o de Ginástica Olímpica e o de Atletismo ficam um ao lado do outro, no bairro de Vila do Tanque. O primeiro conta com duas quadras, uma academia de ginástica, uma sala de fisioterapia e uma área de convívio para os atletas. Numa tarde do final do ano passado, mais de cinquenta pessoas circulavam pelo terreno de 40 mil metros quadrados, sinal de que o investimento de pouco mais de 14,5 milhões de reais (sendo 1 milhão de reais da prefeitura) já surtia efeito.

É no Centro de Handebol que a Seleção Brasileira – masculina e feminina – se concentrará para disputar os Jogos Olímpicos deste ano. Depois, o local passará a servir de sede para a confederação nacional da modalidade. Mas, para que isso ficasse acertado, foi preciso negociar um ponto logo de cara: por cerca de dez anos, os custos de manutenção do centro serão divididos entre a Confederação Brasileira de Handebol e o governo municipal de São Bernardo.

A cinco minutos dali, a pé, fica o Centro de Atletismo. Com quase 30 mil metros quadrados, o local dispõe de uma área aberta de treinamento, arquibancada para 1 500 pessoas, sala de apoio técnico e até para atendimento à imprensa. Em 2015, o espaço ganhou a certificação mais alta da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF). Das 133 pistas “nível 1” existentes em todo o mundo, nove estão no Brasil. A de São Bernardo é uma delas. O Centro de Atletismo custou 32,5 milhões de reais aos cofres públicos – 90% oriundos da verba federal, e 10% da municipal – e é gerido exclusivamente pela Prefeitura de São Bernardo. Os moradores da região falam com orgulho do espaço, que parece fazer parte do dia a dia da cidade.

O Centro de Ginástica Olímpica é outro que já está nas contas municipais de São Bernardo. O Brasil Medalhas investiu nele 7,3 milhões de reais em equipamentos. No local, os ginastas dispõem de aparelhos idênticos aos que são utilizados nas Olimpíadas, e o piso é “até melhor do que os que vimos em competições recentes”, disse o técnico Fernando Lopes, treinador de atletas de ponta como o premiado Diego Hypólito.

O ginasta Caio Souza tem 1,60 metro de altura, 52 quilos e habilidade para sustentar o próprio peso nos braços e se equilibrar, imóvel, nas argolas. Em 2014, ouviu a promessa de que São Bernardo ganharia um CT de alto nível. Treinava num clube da região, usando um cavalo improvisado. O aparelho era atado ao chão por fios e, no lugar das fitas de couro que costumam envolver o maquinário, havia esparadrapos de farmácia. “Certo dia avisaram que o material do tal CT ia chegar. E a gente se perguntava o que seria: um solo, um cavalo, uma argola, uma paralela e uma barra? Não! Chegaram quatro de cada um!” Souza e Lopes deixaram tudo de lado e foram ajudar a colocar os pisos, posicionar os aparelhos, remover as embalagens e dar vida ao local. O atleta, que à época ainda não despontava como uma das promessas de medalha do Brasil, hoje é indicado pela sua confederação como uma das principais apostas para a Rio 2016. No Pan-Americano de Toronto, no ano passado, o rapaz surpreendeu ao conquistar um bronze na prova de saltos, vitória que ele atribui à existência do centro.

“A diferença é que agora treino com mais qualidade”, explicou. “É o mesmo que falar para um jogador de futebol jogar com uma bola oficial ou com uma daquelas de plástico. Qual vai proporcionar a melhor performance? Qual vai render mais resultados?”

Mas o que São Bernardo tem que Fortaleza não teve? Há quem afirme que os CTs do município paulista não saíram do zero, ganhando vida a partir de uma maquete, como no Ceará. Os centros já existiam em forma de projeto e foram apenas integrados ao plano do governo federal. Mas há também quem evoque pessoas como Douglas Ferrari e sua experiência.

De estatura média e perfil franzino, Ferrari, que bate ponto na Secretaria Municipal de Esportes todos os dias, tem no currículo seis anos de serviço ao Ministério dos Esportes. Fala como se estivesse escrevendo um edital, misturando expressões como “estruturação do sistema”, “atendimento no âmbito dos três níveis” e “passivo para suprir necessidades”. Quando o Brasil Medalhas foi lançado, Ferrari viu uma oportunidade de desenvolver três dos vários projetos que existiam na Secretaria. Foi a Brasília defendê-los e conseguiu que fossem contemplados no programa. Desde então, seu objetivo é diminuir os custos que a Prefeitura de São Bernardo tem com a manutenção dos centros. Para isso, vai de empresa em empresa, mostrando que “as arenas, os atletas e os resultados” podem ser uma boa oportunidade para as marcas da região.

 

George Hilton, ministro dos Esportes, é um homem educado e orgulhoso da família. Na entrevista concedida às vésperas do Natal, durante uma viagem de trabalho ao Rio de Janeiro, o baiano se fez acompanhar de dois assessores e do filho Henrique Gottardo, ator da novela Dez Mandamentos, da TV Record. Antes de responder às perguntas sobre o Brasil Medalhas, Hilton fez questão de elogiar o trabalho do rapaz.

Como o seu antecessor, Aldo Rebelo, deixara claro à reportagem que apenas o secretário de Alto Rendimento, Ricardo Leyser, tinha pleno domínio sobre o projeto traçado para transformar o Brasil numa potência olímpica, a reportagem insistiu em ouvi-lo. A resposta da assessoria de imprensa da pasta foi taxativa: o único porta-voz disponível para falar sobre o plano Brasil Medalhas era mesmo o atual ministro. O próprio Leyser, procurado diretamente pela reportagem, respondeu apenas que estava “aguardando orientações” para saber se poderia falar, o que nunca aconteceu.

Leyser acumula quinze anos de experiência no mundo dos esportes; Hilton, apenas um. O ministério chegou a informar que o secretário de Alto Rendimento acompanharia o chefe na entrevista que concederia à piauí. No dia marcado, no entanto, o secretário não estava lá. “Precisou voltar para Brasília”, explicou um dos assessores.

A cada pergunta que respondia, Hilton procurava o olhar de aprovação de seus técnicos. Um mês antes, o ministro voltara atrás numa medida delicada. Depois de manter Leyser como secretário executivo por dez meses, decidira exonerá-lo. A saída inesperada do segundo posto mais alto da pasta fez com que confederações e atletas viessem a público questionar a medida, segundo eles de caráter exclusivamente político. Hilton estaria colocando mais filiados do PRB em cargos-chave, e isso afetaria a Rio 2016. No dia seguinte, o ministro reconduziu Leyser. Não mais à Secretaria Executiva, e sim à de Esporte de Alto Rendimento.

“Foi uma mera redistribuição no time”, explicou, com os olhos pregados nos assessores. “Leyser está muito feliz. Mas, num time, o técnico tem que ter essa percepção, né? De vez em quando, tem que deslocar um jogador para uma posição ou para outra.”

Dali em diante, a conversa se concentraria nos resultados do Brasil Medalhas. Hilton não criticou seus antecessores no ministério. Disse apenas que o centro de Fortaleza “poderia ter sido menor, sim”. “Mas precisamos fugir dessa ideia de que o CFO vai ficar abandonado, de que vai ser um elefante branco”. E concluiu: “O que poderia ter sido feito era ter redimensionado o espaço para que ele pudesse atender a um número menor de modalidades e ter um uso mais contínuo.”

Ao ser questionado sobre as razões do encarecimento dos centros de treinamento e da retração no apoio direto dado aos atletas, o ministro demonstrou certa surpresa. Um assessor interveio: “Na minha cabeça é mais meio a meio. Mais de 500 milhões de reais para infraestrutura, e 400 milhões e pouco para a bolsa. Mas a gente pode até depois conferir.” O ministro repetiu: “É isso. Tenho que conferir.”

Hilton foi mais prolixo fazendo planos para o futuro. Disse que quer deixar um modelo de gestão “definitivo” para ser implantado nos centros de treinamento erguidos ou remodelados com verba federal, estejam eles dentro ou fora do plano Brasil Medalhas. “A gente vai entregar uma lei de diretrizes e bases que vai ser aprovada pelo Congresso Nacional e que vai dizer o papel de cada um, quem faz o quê” na gestão desses centros. “Desde a Secretaria Municipal até o ministro do Esporte. Da liga, do clube formador até a confederação.”

Mas ainda não há rascunho disso tramitando por Brasília, e a indefinição sobre o futuro dos centros construídos no Brasil Medalhas permanece. “OK”, reconheceu o ministro, diante da cobrança. “Mas veja só: há dez, vinte anos, nem se pensava numa política de esportes. Você nem estaria me fazendo essa pergunta sobre gestão de centros de treinamento não fosse o Brasil Medalhas. Foi a construção desses centros que demonstrou essa necessidade.”

E quanto ao número total de centros do programa? A promessa inicial falava em 22 deles. Há dez a caminho. Quantos teremos, afinal?

Hilton coçou o cavanhaque ligeiramente grisalho, debateu por alguns instantes com seus assessores e escolheu manter o número que havia sido anunciado por Aldo Rebelo em 2012.

“Serão 22. Faremos 22 centros.”

“Vinte e dois?! Até a Olimpíada?”

“Não. Isso não.”

Cristina Tardáguila
Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

Juliana Dal Piva
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva foi subeditora da Agência Lupa e autora do livro Em luta pela terra sem mal (Multifoco)

Raphael Kapa
Raphael Kapa

Raphael Kapa é jornalista e professor. Foi repórter da Lupa entre 2015 e 2016. Hoje, ministra as oficinas de checagem do projeto LupaEducação.

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