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    Entre o final do século XIX e início do XX, padre Cícero promoveu milagres contestados pelo Vaticano, aliou-se a jagunços e coronéis, atuou como líder político e enriqueceu, tornando-se uma das figuras de maior devoção popular no Brasil. À época repreendido e quase excomungado pela Igreja, passou a ser visto mais recentemente como possível antídoto ao crescimento dos neopentecostais FOTO: LEVI BIANCO

anais da fé

Padre Cícero sem perdão

A luta de um bispo para reabilitar o mais venerado líder religioso do Nordeste

Adriana Negreiros | Edição 117, Junho 2016

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O sol mal despontara no horizonte naquele dia de festa, no interior do Ceará, e dom Fernando Panico já sentia as primeiras gotas de suor a lhe escorrer pelo corpo, sob as vestes litúrgicas. Era sempre a mesma coisa quando, por dever do ofício, o bispo se via obrigado a usar aquela roupa obviamente inadequada ao calor de Juazeiro do Norte: uma túnica branca de mangas compridas, sobre a qual recaía, como se fosse um poncho, o paramento tradicional dos sacerdotes durante a missa, uma casula de cor violeta. Ao contrário dos seus muitos colegas de celebração – padres com as testas vincadas que se abanavam nervosamente, reunidos no altar –, dom Fernando não se mostrava nada incomodado com a atmosfera escaldante daquela manhã. Parecia, na verdade, exultar.

Era o dia 20 de dezembro de 2015, e ele, o chefe da diocese, tinha um anúncio importante a fazer. Ao longo da cerimônia, no entanto, o microfone sem fio precisou ser trocado mais de uma vez – o som dos alto-falantes saía abafado, sem a potência necessária para chegar em alto volume a todas as 50 mil pessoas que se reuniam no descampado da praça do Socorro, em Juazeiro. Assim, foi num tom próximo ao de um grito que dom Fernando anunciou oficialmente, no final do ano passado, a “reconciliação” da Igreja Católica com uma das figuras de maior devoção popular no Brasil, o padre Cícero. “A partir de agora, ninguém pode mais dizer que vocês são fanáticos”, garantiu o bispo aos romeiros, reunidos em frente à capela onde Cícero Romão Batista, morto em 1934, está sepultado.

Houve oportunidade ainda, na missa campal com quase duas horas de duração, para que dom Fernando lesse e comentasse trechos da carta acerca do líder religioso cearense, que ele recebera, semanas antes, do Vaticano. O comunicado, assinado pelo italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do papa Francisco, admitia a importância do padre Cícero Romão Batista para os fiéis, e ressaltava “os bons frutos que hoje podem ser vivenciados pelos inúmeros romeiros que, sem cessar, peregrinam a Juazeiro”. O bispo conduziu a leitura como se narrasse o desfecho vitorioso de uma epopeia. Naquela semana, jornais, revistas e emissoras de tevê de todo o país anunciariam que padre Cícero havia sido perdoado por Roma e estava a um passo da santificação. Quase oito anos depois de dar entrada no pedido de reabilitação canônica de Cícero – que chegou a ter a excomunhão decretada pelo Santo Ofício, e morreu apartado da Igreja, com as ordens sacerdotais suspensas –, dom Fernando podia, finalmente, cantar vitória.

 

“Agradeço a todos os que trabalharam com afinco para que este dia chegasse”, disse o religioso. Eufórico, citou bispos, arcebispos, padres e amigos. Fez uma menção especial à freira Annette Dumoulin, de 80 anos, posicionada na parte de trás do altar, de onde cantara e gritara inúmeros “vivas” ao padre Cícero – a religiosa não se conteve nem mesmo durante a homilia. Com vestido de algodão roxo, óculos escuros e o chapéu de palha típico dos romeiros, irmã Annette passou o dedo indicador pela face, simulando o correr de um pranto, quando ouviu o bispo dirigir a ela uma frase de padre Cícero: “Deus nunca deixou nenhum trabalho sem recompensa, nenhuma lágrima sem consolação.”

Havia dissidências, no entanto, ao clima geral de festa. No meio da praça, entre os romeiros, a psicóloga Maria do Carmo Pagan Forti estava ficando cada vez mais inquieta. Não podia acreditar no que ouvia – ou melhor, no que não ouvia. Ao perceber que Fernando Panico não mencionaria seu nome, viu-se dominada por um forte sentimento de humilhação. Esperou o fim da missa e, com dificuldades para encontrar passagem em meio à multidão, deixou a praça do Socorro e percorreu, abatida, os pouco mais de mil metros até o pequeno hotel onde mora sozinha, no Centro da cidade. Depois de vencer as escadas que levavam ao quarto com vista para a rua, ligou o computador e escreveu um longo e-mail para o bispo. “O senhor não me vê”, queixou-se.

Ainda se passariam algumas horas antes que dom Fernando pudesse ler a mensagem da amiga, que ele havia magoado. Isso porque, mal se encerrava a celebração na praça do Socorro e ele já era esperado num auditório próximo dali. Em vez da missa, deveria conduzir agora uma coletiva de imprensa. Trocara a tórrida casula violeta por um blazer preto, entreaberto, de forma a exibir a cruz peitoral. Irmã Annette, sentada ao seu lado, apenas dispensara o chapéu de palha, deixando à mostra os cabelos grisalhos, modernamente repicados rente à cabeça. No encontro com os jornalistas, o bispo explicou, num tom divertido, quão inapropriado seria se o Vaticano houvesse devolvido as ordens sacerdotais a Cícero. “Como se poderia fazer isso? É um defunto”, riu. Tentava convencer os presentes de que a valorização das virtudes do sacerdote era mais importante do que um pedido explícito de perdão por decisões tomadas na Cúria Romana entre o final do século XIX e o início do XX. “Reconciliar a Igreja com o padre Cícero… Isso, sim, é bonito”, suspirou.

 

No íntimo, é possível que dom Fernando tenha se lembrado das palavras de Maria do Carmo Forti, proferidas quase um ano antes, após ele cair em desespero ao receber, pelos Correios, um comunicado do Vaticano – uma mensagem que, ao contrário do que a missa e a coletiva de imprensa faziam crer, havia jogado água fria sobre as maiores esperanças dos defensores de padre Cícero. Na carta, a Igreja defendia serem “justas e justificadas as medidas disciplinares que, a seu tempo, foram aplicadas pela Santa Sé em relação ao padre Cícero Romão Batista” – proibindo-o de atuar como sacerdote – assim como era justificável a manutenção da punição até a sua morte, “de modo a não ser possível prosseguir com o pedido de reabilitação”.

O documento assinado pelo cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição Romana), foi despachado em 27 de outubro de 2014 e chegou ao Crato dias depois. Em vez de devolver as ordens a Cícero – e formalmente reabilitá-lo –, o Vaticano sugeria a realização de uma “reconciliação histórica”. Era tudo que Roma podia oferecer. Dom Fernando leu a correspondência, escondeu-a e, após três meses de sofrimento solitário, enviou-a por e-mail para Forti. A psicóloga conta que o sacerdote estava em pânico. “Ele temia que a imprensa caísse matando em cima”, lembrou. Para ela, o mais aconselhável era não titubear. Foi o que disse ao bispo: “Dom Fernando, a imprensa é burra. Os jornalistas repetem a nossa fala. Se o senhor afirmar que o pedido de reabilitação foi negado, dirão isso. Mas, se disser que Roma fez o que sempre quisemos, eles vão na onda.”

 

Finda a entrevista, em que arrancou gargalhadas dos repórteres com frases bem-humoradas, dom Fernando pôde, finalmente, ler o longo desabafo de sua amiga. Ela relembrava os percalços enfrentados desde que se envolvera no processo de reabilitação de Cícero e, nas entrelinhas, manifestava a dor de não ter tido o trabalho reconhecido publicamente. O religioso escreveu uma resposta contemporizadora, com um pedido de desculpas pela “ingenuidade” de não a ter mencionado durante a missa. Como não obtivesse resposta, foi ter com Forti na recepção do hotel. “Ingenuidade não é pecado. Para perdoar, preciso de matéria”, ela disse, lacônica.

 

Maria do Carmo Forti e Fernando Panico se conheceram pouco tempo depois de ele ser nomeado bispo do Crato. A psicóloga fazia uma de suas frequentes viagens de São Paulo ao Ceará, em setembro de 2001, quando foi convidada para um café da manhã na casa do padre Murilo de Sá Barreto, então pároco da igreja matriz de Juazeiro do Norte. O clima era de confraternização por causa da romaria de Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade – uma das muitas festas no movimentado calendário religioso local. As peregrinações motivadas pela devoção a padre Cícero fazem com que, em períodos festivos, a população de Juazeiro mais do que dobre de tamanho. Hoje, 250 mil pessoas vivem no município. A cada romaria, cerca de 300 mil fiéis chegam à cidade em caminhões pau de arara, ônibus, vans, carros e também de avião, num total de 2,5 milhões de visitas por ano.

Nascido na cidade italiana de Tricase há 70 anos, Fernando Panico é um homem de porte imponente. Naquele setembro de 2001, seus cabelos fartos, hoje totalmente brancos, ainda mantinham um tom castanho-acinzentado. O rosto redondo e as bochechas coradas dão a ele um ar bonachão. É um homem de riso fácil e gestos acolhedores. O comportamento um tanto sedutor rendeu-lhe, entre amigos próximos, o apelido de Marcello Mastroianni – uma referência ao galã do cinema italiano, protagonista de A Doce Vida, de Federico Fellini.

Apresentados a uma certa distância na copa da casa do padre Murilo, ele e Maria do Carmo Forti tiveram que estender as mãos por sobre cabeças alheias para o primeiro cumprimento – entre elas, a da romeira e ex-senadora Heloísa Helena, atual vereadora de Maceió (AL), presente à ocasião. Recém-empossado na Diocese do Crato (cidade vizinha a Juazeiro do Norte e sede da Cúria Diocesana), dom Fernando já ouvira falar da psicóloga paulista que, desde 1983, dedicava-se a estudar a vida da beata Maria de Araújo, protagonista do chamado “Milagre de Juazeiro”, o primeiro atribuído a padre Cícero. No dia 1o de março de 1889, logo após o religioso lhe entregar a comunhão, a hóstia teria se transformado em sangue na boca da beata. O fenômeno se repetiria por dias a fio, espalhando pelo sertão cearense a fama de milagreiro de Cícero Romão Batista e atraindo ao então povoado centenas de peregrinos interessados em ver o “sangue de Jesus” impresso nos paninhos que a beata usava para conter o líquido que escorria da sua boca.

Teria início, ali, o fenômeno das romarias e a fama controversa do sacerdote local. Para muitos, um santo; para outros, um embusteiro que incentivava o fanatismo em uma das regiões mais miseráveis do Brasil. Roma não reconheceu o milagre da suposta transformação da hóstia em sangue, e baixou ordens expressas para Cícero desdizer, em público, tudo o que havia afirmado sobre o caso. Ele deveria negar ser aquele o sangue de Cristo, além de afastar a beata Maria de Araújo de Juazeiro do Norte e proibir qualquer espécie de devoção aos panos ensanguentados. Por se recusar a obedecer a essas determinações, Cícero foi proibido de celebrar missas, além de ser impedido de administrar os sacramentos – teve, portanto, as ordens canônicas suspensas.

Forti é uma mulher de 64 anos com a pele muito alva, lábios e sobrancelhas finos e cabelos curtos, tingidos em tom avermelhado. Do tipo despachada, tem um senso de humor ferino e autodepreciativo – gosta de fazer piada com o próprio peso, que considera excessivo. Fuma um cigarro atrás do outro, para desgosto dos amigos padres, e gesticula largamente enquanto fala. Embora ainda mantenha o sotaque paulistano, incorporou ao seu vocabulário expressões típicas do Ceará, como a interjeição de espanto “Valha-me, Deus!”. Forti mora sozinha num hotel de poucas estrelas – “como Ernest Hemingway”, compara –, mas não pode se queixar de solidão. Coleciona bons amigos em Juazeiro do Norte, entre religiosos, professores e alunos nas duas instituições onde dá aula – o Centro Universitário Unileão e a Faculdade de Medicina Estácio de Juazeiro do Norte.

Antes de se formar em psicologia e tornar-se admiradora do padre espanhol Óscar Quevedo (famoso pelos estudos de paranormalidade e por estrelar um quadro no programa Fantástico, da TV Globo, chamado “O caçador de enigmas”), Forti cursou as faculdades de teologia e letras. Em 1983, por causa de seu interesse em assuntos sagrados, aceitou o convite de um amigo cearense para conhecer as romarias de Juazeiro do Norte. “Vim achando que desembarcaria em uma terra de fanáticos. Estava cheia de preconceitos”, lembrou. Ela e o rapaz ficaram hospedados na casa de irmã Annette Dumoulin, freira belga residente no Ceará desde 1976. Não se tratava de um endereço qualquer. Por coincidência, a religiosa morava de aluguel em uma residência modesta onde, no começo do século passado, vivera a beata Maria de Araújo.

Dumoulin estava com o cóccix fraturado e passava horas deitada na cama ou sentada a uma cadeira – o que propiciava longas conversas entre ela e Forti, quando aproveitava para introduzir a hóspede nos mistérios de Juazeiro. Com riqueza de detalhes, contou a ela tudo o que sabia sobre a beata Maria de Araújo. A psicóloga ouviu as histórias “de boca aberta”, em sua própria definição, e antes mesmo de embarcar de volta para São Paulo, onde exercia um cargo burocrático na Sabesp, a companhia de saneamento do estado, decidiu fazer da beata o seu principal objeto de estudo. “Para quem estudava parapsicologia, a história da transformação da hóstia em sangue era um presente dos céus”, explicou. Tinha 31 anos quando resolveu dar essa guinada importante nos rumos da vida.

Assim, sempre que tirava férias ou conseguia uma folga na Sabesp, Forti saía de São Paulo em direção a Juazeiro do Norte. Como ainda não existiam voos diretos entre as duas cidades, era comum que gastasse um dia inteiro em escalas e conexões. Seus familiares e amigos paulistanos não entendiam a obsessão por uma cidade pobre, longínqua e com atrativos tão pouco convencionais, mas ela dava de ombros. A partir das pesquisas, concluiu o mestrado em ciências da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e publicou o livro Maria do Juazeiro: a Beata do Milagre, no qual defende a tese de que a transformação da hóstia em sangue não foi truque, mas sim um fenômeno paranormal. Por causa dos estudos, começou a receber convites para participar de simpósios e seminários sobre padre Cícero. Tornou-se, assim, uma referência no assunto. Nada mais natural, portanto, que naquela manhã de 15 de setembro de 2001, dia de festa em Juazeiro, Fernando Panico puxasse Maria do Carmo Forti de lado, na casa de padre Murilo, dizendo que queria ter uma conversa com ela.

 

O bispo que antecedera dom Fernando Panico à frente da Diocese do Crato, dom Newton Holanda Gurgel, não era exatamente um admirador de padre Cícero. Costumava dizer que o sacerdote “chegou ao Juazeiro missionário, tornou-se visionário e acabou milionário”. As palavras do bispo refletiam o pensamento médio do tradicional clero do Crato. No seminário da cidade, os futuros padres liam livros clássicos da historiografia crítica ao religioso, como Padre Cícero: Mito e Realidade, de Otacílio Anselmo, publicado pela editora Civilização Brasileira, em 1968. Na obra, como na maior parte da literatura sobre o tema até os anos 80, o clérigo é apresentado como um embusteiro que fazia pactos com coronéis e cangaceiros – chegou a condecorar Lampião com uma controvertida patente de capitão – e acumulava um patrimônio incompatível com suas atividades cristãs.

Entre as famílias tradicionais do Crato, de onde saíram muitos membros destacados do clero, persiste até hoje uma mágoa histórica com relação a Cícero. O fenômeno das romarias fez com que o pequeno povoado de Juazeiro crescesse vertiginosamente a partir do final do século XIX. Proibido de celebrar missas, padre Cícero passou a receber os fiéis na janela de sua casa. Aos olhos dos romeiros que acorriam à cidade e atribuíam a ele, com crescente frequência, a responsabilidade por graças alcançadas, o padre era uma vítima do poder do Vaticano, um incompreendido. Cícero transformou a devoção em capital político. Em 1911, apoiou um movimento que culminou na emancipação de Juazeiro, tornando-se seu primeiro prefeito. Com isso, Crato perdeu divisas e importância política.

A antipatia dos cratenses contra Cícero Romão Batista, entretanto, tornou-se maior em 1914, durante a chamada Sedição de Juazeiro. Naquele ano, o interventor do Ceará, coronel Marcos Franco Rabelo, nomeado pelo então presidente Hermes da Fonseca, determinou a invasão e destruição da cidade. Temia que Juazeiro se transformasse em uma nova Canudos – o vilarejo baiano também havia atraído seguidores de um líder místico, Antônio Conselheiro, e ofereceu resistência militar às investidas do governo federal, sendo afinal destruído em 1897. Em reação, Cícero abençoou um exército de sertanejos que, armas em punho, marchou de Juazeiro até Fortaleza para depor Rabelo. Na jornada, incorporando beatos, jagunços e cangaceiros ao grupo, os sertanejos foram saqueando os comércios das cidades por onde passavam. O Crato foi a primeira vítima. Proprietários de lojas e armazéns perderam tudo o que tinham. Famílias inteiras foram à bancarrota. O ódio contra padre Cícero, apoiador da ação, seria transmitido por gerações. Ele e seus seguidores, de toda forma, saíram vitoriosos: o movimento terminou com a deposição de Rabelo.

O envolvimento de Cícero com uma luta armada não passou despercebido por Roma. Além do fato de ter professado milagres não reconhecidos, agora também pesavam contra ele acusações de violência política.

Ao assumir a Diocese do Crato, em 2001, Panico meteu-se, portanto, em um vespeiro histórico. Na primeira missa sob seu comando, em junho daquele ano, provocou alvoroço ao pedir vivas ao Padim – como Cícero é tratado pelos romeiros –, durante a celebração. Muitos dos fiéis ali presentes ainda tinham firme a lembrança dos tempos em que crianças eram proibidas de ser batizadas com o nome de Cícero ou Cícera – e padres mais irreverentes faziam piada dizendo preferir benzer os “santinhos” com fotos de Chitãozinho e Xororó a jogar água santa sobre as estatuetas do sacerdote, esculpidas em madeira, em volumes industriais, pelos artesãos da região.

Dom Fernando Panico, contudo, conhecia melhor do que o clero local, do Crato  e de Juazeiro, o que se passava no Vaticano – e agia em sintonia com Roma. A chefia da Congregação para a Doutrina da Fé era ocupada, naquela época, pelo então cardeal alemão Joseph Ratzinger. Partiu dele a iniciativa, em maio de 2001, de enviar uma carta à Diocese do Crato questionando a pertinência – e acenando com a possibilidade – de se fazer um rigoroso estudo sobre os milagres atribuídos ao cearense. Para isso, o Vaticano concordaria em liberar o acesso a documentos mantidos em segredo havia quase um século. O comando da Igreja estava particularmente preocupado com o aumento do número de evangélicos na região. Em março de 2005, em uma entrevista ao jornal americano The New York Times, Panico comparou padre Cícero a um “antivírus” contra os movimentos neopentecostais. “O mérito dos romeiros é manter viva uma genuinidade da fé que a Igreja Católica aprecia, sobretudo em um contexto em que muitos buscam viver sem religião. O padre Cícero é um instrumento de Deus para a busca do sagrado”, ele me disse.

Numa de suas primeiras viagens ao Vaticano logo após assumir o bispado, Panico conversou com o futuro papa Bento XVI sobre os procedimentos a serem adotados a partir de então. Foi-lhe recomendado que formasse uma comissão de notáveis, estudiosos dos mais diferentes campos do saber, que pudessem se debruçar sobre o material disponível e elaborar um parecer a respeito da pertinência – ou não – de se dar entrada em um processo de reabilitação canônica de Cícero Batista. Com a reabilitação, o sacerdote cearense poderia ter suas punições suspensas, sendo perdoado pela desobediência à hierarquia eclesiástica. A pena de excomunhão de Cícero, decretada em 1916, não chegou a ser aplicada. Em 1921, atendendo ao apelo do então bispo da diocese local, dom Quintino Rodrigues, o Santo Ofício concordou em extinguir a pena máxima, mas manteve todas as outras punições. Rodrigues alegou, à época, que padre Cícero, então um homem velho e com problemas no coração, não sobreviveria à excomunhão.

Naquele março de 2001, Ratzinger recomendou que os membros da comissão fossem, preferencialmente, pessoas de outras regiões, sem ligação direta com o culto a padre Cícero, capazes de analisar os fatos “sem paixão”. Depois de explicar toda a história a Maria do Carmo Forti e certificar-se de que havia sido bastante enfático sobre a necessidade de uma certa racionalidade, Panico fez o convite. “Você gostaria de fazer parte da equipe?”, perguntou. “Claro que sim”, ela respondeu. “Aceitei com toda paixão, que procurei não demonstrar – afinal, ele queria sobriedade”, lembraria depois.

Além de Forti e da freira Annette Dumoulin, faziam parte da comissão especial outros dez integrantes. Um deles, o historiador paranaense Eduardo Pena, despertava especial curiosidade por ser irmão da atriz Letícia Spiller. A equipe trabalhou durante cinco anos, analisando documentos até então mantidos sob sigilo na Diocese do Crato. Havia rolos de cartas empoeiradas, documentos amarelados pelo tempo, papéis marcados com o carimbo seco do Vaticano. “Eram peças de um enorme quebra-cabeça que, pouco a pouco, conseguíamos montar”, lembra irmã Annette. Em Roma, realizou-se uma extensa pesquisa nos arquivos, então secretos, com todos os documentos produzidos no Vaticano sobre o religioso e líder popular brasileiro – até aquele momento, apenas a parte brasileira do processo era conhecida. “Muitos me criticaram por liberar tantos segredos”, contaria, depois, Fernando Panico. “Mas agi pelo bem da história.”

Em 2003, envolvida com o processo de reabilitação e cansada de viver na ponte aérea, Maria do Carmo Forti resolveu aceitar um convite para dar aulas em Juazeiro do Norte. Pediu demissão do emprego na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), fechou seu pequeno consultório de psicologia no bairro da Vila Mariana e mudou-se em definitivo para o Ceará – com uma pequena pausa, em 2006 e 2007, para uma temporada de estudos em Braga, Portugal, onde se doutorou em filosofia. Com a mudança, estreitou-se ainda mais sua amizade com Fernando Panico – a quem ela chama, carinhosamente, de “Dom”. Com o aumento da intimidade, vieram as cobranças. Ela se lembra da tarde em que, internada no hospital com dengue hemorrágica, recebeu a visita do bispo. Depois de perguntar rapidamente sobre a saúde de Forti para os médicos, foi ao que o interessava: queria saber como estava o andamento dos trabalhos da comissão. “Ele é um trator”, definiu a amiga, com admiração.

Ao fim de cinco anos de intenso trabalho, a equipe produziu um estudo condensado em nove volumes, acompanhado de um relatório em que dom Fernando Panico dizia, expressamente, ter concluído pela necessidade da reabilitação canônica de padre Cícero. No íntimo, ele considerava como passo seguinte e quase inevitável daquela empreitada a abertura do processo de beatificação, ao fim do qual o Padim Ciço poderia ser declarado santo. Em maio de 2006, Panico viajou ao Vaticano para protocolar os documentos na Congregação para a Doutrina da Fé. Entregou a papelada e voltou ao Ceará. Começava uma espera que iria durar oito longos anos. Por isso, ao receber aquela primeira carta no final de 2014 – um documento que surpreendentemente negava a reabilitação, depois de o próprio Vaticano ter incentivado a abertura do processo –, dom Fernando ficou em estado de choque.

 

“Dom, não consigo entender porque o senhor não está feliz”, insistia Forti, diante do desânimo do amigo. “Não faz sentido reabilitar um homem que já morreu”, ela argumentava. No tal comunicado que tanto abatera o bispo, o cardeal Gerard Müller solicitava o envio de uma mensagem com a enumeração de “elementos que, a seu critério, fazem hoje do padre Cícero uma figura a ser valorizada do ponto de vista pastoral e religioso”. Desanimado, o bispo mal tinha forças para redigir a mensagem. Somente em junho de 2015, mais de seis meses depois de receber a comunicação de Roma, resolveu convocar uma reunião com os auxiliares mais próximos para compartilhar a leitura da carta.

Irmã Annette recorda-se de ter ficado preocupada ao ouvir o trecho em que o Vaticano expressamente negava o pedido de reabilitação. Mas se debulhou em lágrimas ao escutar, na sequência, as frases que defendem a necessidade de uma forma de “reconciliação histórica” com a figura do sacerdote. “Dava uma aflição ouvir aquele choro. Era uma coisa contida, parecia desesperada”, lembrou Maria do Carmo Forti. Os assessores presentes à reunião combinaram de escrever a mensagem com os tais elementos valorosos de padre Cícero para que o próprio dom Fernando, no mês seguinte, a levasse ao Vaticano.

Em julho, o bispo viajou para Roma – e de lá voltou ainda mais desanimado. Como a mensagem da diocese tivesse demorado muito a ser enviada, haviam preparado uma outra por lá mesmo. O documento final já estava pronto, dom Fernando foi informado, e agora aguardava apenas a assinatura do papa Francisco. “E o que diz a mensagem?”, quis saber Forti, ao recebê-lo de volta a Juazeiro e agradecer pelo presente que o amigo lhe trouxera da Itália, um prosaico pen drive em formato de vaquinha. “Não sei”, ele respondeu, cabisbaixo. “Agora é esperar.”

Dom Fernando tinha suas razões para estar preocupado com uma negativa do Vaticano. Não era apenas a reputação de padre Cícero que estava em jogo. Se ele tivesse que assumir, publicamente, o fracasso no processo de reabilitação do religioso, seria trucidado por seus inimigos. Que são muitos.

 

A defesa que passou a fazer da figura de maior devoção popular no Nordeste, desde que assumiu a Diocese do Crato, gerou problemas, ódio e desafetos para Panico, mas essa não foi a única razão para que ele se tornasse, rapidamente, verdadeira persona non grata para parte da cidade. Ao contrário do bispo anterior, oriundo de uma família tradicional local, dom Fernando não tinha laços familiares com a região. Tampouco conhecia os costumes regionais que, de tão arraigados, já eram naturalizados. Uma de suas providências mais ruidosas foi entregar a administração do Hospital e Maternidade São Francisco de Assis, que funciona nos moldes de uma Santa Casa, à ordem dos camilianos. Antes, médicos particulares tinham livre trânsito para utilizar os equipamentos do lugar, sem repassar nenhum valor para a instituição – ao mesmo tempo em que cobravam dos pacientes pagamentos indevidos. Os funcionários também foram proibidos de abastecer-se com amostras grátis na farmácia do hospital. Muita gente não gostou. Na imprensa local, o bispo começou a ser alvo de críticas. Espalhou-se o boato de que, depois de intervir no hospital, tomaria o controle das rádios – todas elas seriam obrigadas a transmitir apenas músicas sacras.

Ainda em 2001, meses depois de assumir a diocese, dom Fernando foi diagnosticado com um câncer no sistema linfático. Ele gosta de contar uma história para ilustrar como passou a ser perseguido pela imprensa da região. Certo dia, diz o bispo, estava no hospital, recuperando-se do tratamento para o linfoma de Hodgkin, quando os enfermeiros anunciaram a chegada de uma visita: era o jornalista Luiz José dos Santos, proprietário da Gazeta de Notícias, jornal de circulação quinzenal cuja redação funciona na própria residência do publisher. “Achei que fosse uma visita de cortesia”, relatou Panico. Santos teria pedido, então, para ler em voz alta um texto que havia escrito. O artigo começava com um título, digamos, forte: “Dom Fernando chega implantando o apostolado do terror.” E prosseguia com acusações ao novo titular da Cúria Diocesana da região. “O senhor quer que eu publique este artigo ou prefere que ele não saia?”, Santos teria perguntado. “O jornal é seu, publique se quiser”, desconversou dom Fernando. A reportagem foi impressa. Luiz José dos Santos dá uma outra versão da história: diz que foi ao hospital a convite do bispo. “A matéria vazou. Ele ficou sabendo do conteúdo e queria que eu mudasse. Acrescentei algumas informações, mas mantive o título”, contou.

Luiz José dos Santos tem 71 anos. Magro, baixinho e com cabelos pretos, passaria, sem dificuldades, por um homem dez anos mais novo. Começou a trabalhar como repórter em Fortaleza, em uma central de notícias dos Diários Associados. Como o salário era ruim, mantinha paralelamente uma sinecura no serviço de radiocomunicação do estado, além de atuar como plantonista da madrugada no jornal Tribuna do Ceará. Cansado da rotina estafante, em que mal tinha tempo para ver os filhos, mudou-se com a família, nos anos 90, para o Crato. Vivera na região quando criança, época em que frequentava o seminário e sonhava em ser padre. “Mas, como eu era muito bonito e as meninas caíam em cima quando me viam com a roupa de coroinha, não deu certo.”

Como primeira iniciativa empreendedora, Santos montou um estúdio fotográfico. Fazia álbuns de casamentos e batizados e, entre um trabalho e outro, enviava reportagens sobre a região para o jornal O Povo, de Fortaleza. Em 1997, criou a Gazeta de Notícias. Sua autoproclamada inspiração foram os jornais The New York Times e, principalmente, a Folha de S.Paulo, cujo dono, Otavio Frias Filho, ele tem na conta de um ídolo. Relata que, certa feita, ligou para a redação do jornal paulista e pediu para falar com o colega. Apresentou-se para a secretária como um proeminente empresário cearense do ramo de comunicação interessado em fazer parcerias. A moça anotou o recado. Dias depois, segundo seu relato, estava na estrada Juazeiro–Crato quando o telefone tocou. Do outro lado, uma voz anunciou que Otavio Frias Filho queria falar. “O-ta-vio Fri-as”, enfatizou Santos, destacando o sobrenome. Ato contínuo, pisou no freio e, tratando de equilibrar o celular entre o ombro e o ouvido, parou o carro no acostamento. “Era como se Jesus Cristo estivesse me ligando.” Santos lamenta apenas que a conversa não tenha prosperado: ele pediu ao dono da Folha que conseguisse anúncios da Nestlé, das “chinelas” Havaianas e da Petrobras para a Gazeta. “Frias disse que aquilo era assunto do departamento comercial”, contou.

Como dono de jornal, uma das primeiras providências de Santos foi contratar uma secretária. Aline Maria da Silva tinha 16 anos quando começou a namorar o patrão, à época com 54. Um tempo depois, a moça ficou grávida e Santos foi colocado para fora de casa pela mulher – ele ainda era casado. Ele e a secretária resolveram, então, viver juntos. O jornalista fica envaidecido quando seu relacionamento com a atual mulher é comparado ao do presidente Michel Temer com a primeira-dama Marcela. “Aline mudou de nível social depois de se casar comigo. Hoje ela frequenta ambientes finos, é uma senhora elegante e excelente na área de finanças”, orgulha-se.

 

Como não conseguira se entender com o bispo naquela visita no hospital, Luiz José dos Santos transformou a busca por escândalos envolvendo o religioso numa espécie de missão. Viajou para as cidades onde Fernando Panico viveu a fim de resgatar seus “podres”, como se refere a histórias que, em comum, possuem apenas o fato de terem acontecido no passado do desafeto. De Oeiras, no Piauí, onde o religioso trabalhou antes de assumir a Diocese do Crato, voltou com a notícia de que dom Fernando era “autoritário”. Pelo Google Maps, percorreu as ruas da cidade de Tricase, onde nasceu o bispo, em busca de informações que pudessem ser úteis na empreitada. Nas suas investigações, ele disse, descobriu também que o atual chefe da Diocese do Crato é um “estelionatário”. Uma das provas seria um cheque no valor de 37 reais, devolvido por falta de fundos.

As revelações sempre viravam matéria de primeira página na Gazeta, distribuída gratuitamente em pontos comerciais e estabelecimentos públicos da região. O empresário logo percebeu que, quanto mais falava mal de Panico, mais rapidamente a edição esgotava. O jornal atingiu o ápice da circulação, no entanto, quando noticiou a existência de um vídeo em que um ex-seminarista de 35 anos dizia ter mantido relações sexuais com o bispo. Semanas depois, um outro vídeo, com teor semelhante, passou a ser compartilhado pelas redes sociais.

À época das fofocas sexuais, que se espalharam como rastilho de pólvora no Crato e em Juazeiro, Maria do Carmo Forti sugeriu ao bispo uma contraofensiva de gestão de crise: daria um jeito de espalhar o boato de que ela própria e o religioso eram amantes. Depois, a psicóloga viria a público, simulando revolta. “As pessoas iam ficar confusas. Afinal, ele tem uma amante ou é homossexual?”, brincou. “Se ele é homossexual, não vem ao caso. Os homens que dizem ter se relacionado com o bispo são maiores de idade, não há crime nisso”, comentei, durante um almoço com a psicóloga, num restaurante por quilo de Juazeiro. Forti me ouviu em silêncio e depois me encarou, séria. “Tenho certeza de que dom Fernando não é homossexual”, disse.

O imbróglio chegou à Justiça. Panico ganhou duas ações civis por danos morais contra o jornalista, condenado a pagar multas de 10 e 15 mil reais por noticiar conteúdos ofensivos a ele, e registrou boletim de ocorrência na delegacia por causa dos vídeos. Uma investigação policial concluiu que dois padres e um juiz aposentado, todos desafetos do bispo, estavam envolvidos na produção, filmagem e distribuição do conteúdo nas redes sociais. O delegado Diogo Galindo de Góes pediu o indiciamento dos envolvidos. A pena, se eles forem condenados, pode chegar a dezoito anos de reclusão.

“Não sei nada sobre esses vídeos, não tenho nada com isso”, defendeu-se o monsenhor José Honor de Brito Filho. “Tudo o que sei é que, se eu for preso, terei que viver até os 108 anos”, desdenhou o padre, de 90 anos e olhos furta-cor, como definiu uma fiel que, durante a confissão, encantou-se com o colorido dos seus olhos. “Para evitar maiores problemas, prefiro não tratar desse assunto”, desconversou outro dos acusados, o monsenhor João Bosco Cartaxo Esmeraldo, de 75 anos. De famílias tradicionais do Crato e, portanto, doutrinados desde pequenos a ver Cícero Romão Batista com olhos críticos, os dois religiosos estão entre os maiores desafetos de Fernando Panico. Nenhum deles, porém, pode ser considerado o inimigo número 1 do bispo. Esse título pertence ao empresário Francisco Pereira da Silva, dono da FP Construções e Empreendimentos Imobiliários. “Se faltar uma pá de cal para enterrar esse bispo, eu mando buscar uma enchedeira”, garantiu Pereira da Silva.

 

Francisco Pereira da Silva e a Diocese do Crato disputam na Justiça um total de 746 mil metros quadrados de terra – conjunto que, segundo estimativas do setor imobiliário, vale em torno de 200 milhões de reais. As terras pertenciam ao padre Cícero e foram doadas, em testamento, a “Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”. No livro Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, o escritor Lira Neto explica que a fortuna do sacerdote foi construída a partir de doações de romeiros e, principalmente, de coronéis da região que, de olho em seu patrimônio político, presenteavam-no com terrenos, casas, prédios, cabeças de gado e móveis. Mais tarde Cícero faria do clero cratense o principal beneficiário de sua polpuda herança. “Cícero contava como líquido e certo que um gesto tão generoso resultasse na sua imediata reconciliação com a Igreja. Não foi o que aconteceu”, escreveu o biógrafo.

A casa onde vive Francisco Pereira da Silva, com a esposa e quatro filhos, foi construída num desses terrenos que pertenceram ao padre Cícero e possui 6 mil metros quadrados de área total. Dono de diversos prédios comerciais da região, Pereira da Silva tem especial orgulho do Autoshopping Padre Cícero, uma espécie de shopping center de automóveis. A inauguração do espaço foi comemorada com uma festa para a alta sociedade local. Maria Rodrigues, mulher do empresário, compareceu ao evento com seus cabelos loiros apanhados numa trança lateral e ombros à mostra. Assim como a esposa, Pereira da Silva cultiva a vaidade. Na hora de se vestir, costuma fazer escolhas que transitam entre o sofisticado e o casual. Uma de suas composições favoritas inclui jeans com lavagem clara, blazer e camisa social – sem gravata e com alguns botões desabotoados, de modo que um pouco da pelugem do peito possa ser contemplado. Com poucos cabelos no alto da cabeça, planeja fazer um implante. Um amigo cabeleireiro de São Paulo garantiu que poderia realizar o procedimento em apenas trinta minutos, por 10 mil reais.

Aos 61 anos, Pereira da Silva não lembra, nem de longe, o jovem que, em 1992, retornou para o Ceará após uma temporada de dezessete anos trabalhando em padarias do bairro de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo. Embora se defina como um homem “de pouco estudo”, considera-se “esclarecido”. Quando se encanta por uma palavra, usa-a à exaustão. “Desprovido” e “dúbio” estão entre as preferidas do momento. Filho de um zelador de igreja com uma dona de casa, cresceu assistindo às missas de padre Murilo Barreto – aquele em cuja casa Maria do Carmo Forti foi apresentada a dom Fernando Panico. “O bicho era bonito. Tinha voz afinada”, lembrou.

Francisco Pereira da Silva recomeçou a vida em Juazeiro vendendo cereais para os armazéns da região. Mas não gostava do serviço. Certo dia, um amigo corretor perguntou se ele não se interessava em comprar um terreno. Se tivesse paciência, em breve poderia revender o imóvel pelo dobro da quantia. Francisco adquiriu um pedaço de terra por 40 milhões de cruzeiros. Poucos meses depois, segundo relata, vendeu uma parcela ínfima da propriedade pelos mesmos 40 milhões. Gostou da brincadeira e passou a comprar outros imóveis. Começou a treinar o olhar para identificar oportunidades de negócios onde o cidadão comum veria apenas um terreno baldio. Em pouco tempo, já vendia loteamentos e construía casas. Na virada do século, era um homem rico.

Até 2011, o ex-padeiro vivia tranquilo, aumentando o patrimônio a cada dia. Naquele ano, dom Fernando Panico entrou com uma ação na Justiça reivindicando a anulação da escritura que atribuía ao empresário a posse de 746 mil metros quadrados de terra. Dom Fernando questionava a validade de uma procuração datada de 12 de agosto de 2002, em que padre Murilo dava ao empresário poderes para vender, a quem lhe conviesse, as glebas em Juazeiro pertencentes a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Em 2010, com a tal procuração, Pereira vendeu as terras para a FP Construções e Empreendimentos Imobiliários: ou seja, Francisco Pereira, pessoa física, vendeu para o mesmo Francisco Pereira, pessoa jurídica.

Em sua defesa, o magnata do ramo imobiliário de Juazeiro alegou que comprou as terras de padre Murilo em 1998, oferecendo como pagamento duas casas e a quantia de 9 mil reais. “Naquela época, os terrenos não valiam nada. E, como eu gozava de muita intimidade com o padre Murilo, não fizemos o recibo de compra e venda da propriedade”, justificou. Dom Fernando afirma que em 2002, ano da procuração, ele já era bispo da diocese – portanto, deveria ser consultado sobre qualquer transação que envolvesse o patrimônio da Igreja. Além disso, em 2010, quando Pereira usou a procuração para colocar as terras no nome de sua empresa, padre Murilo já estava morto havia cinco anos, o que, no entender dos advogados da Diocese do Crato, tornaria a procuração inválida. A defesa também observou que Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que aparece como proprietária das terras, é uma pessoa jurídica inexistente. O Cartório Paulo Machado, que emitiu a procuração, foi multado em 50 mil reais por irregularidades no documento.

A disputa pelas terras está na Justiça, e Francisco Pereira da Silva afirma já ter acumulado um prejuízo de 20 milhões de reais entre despesas com advogados e valores depositados em juízo por clientes que compraram loteamentos nas terras em litígio. Para conseguir munição para a guerra, o empresário montou uma espécie de central de investigações da vida do bispo, em um dos cômodos de sua casa. É lá que recebe, quase diariamente, perto do anoitecer, o jornalista Luiz José dos Santos, da Gazeta de Notícias, com quem troca informações sobre o religioso.

As últimas apurações, segundo contou Pereira da Silva, apontaram a existência de um terceiro vídeo erótico envolvendo o bispo. “O conteúdo é tão imoral, é tão do baixo meretrício, que não vou relatar para você por uma questão de respeito”, disse-me.

 

Na noite de 12 de novembro de 2015, passado pouco mais de um ano desde que recebera o primeiro e frustrante comunicado do Vaticano, dom Fernando Panico notou a aproximação, a passos cuidadosos, de Giovanni d’Aniello, núncio apostólico no Brasil – uma espécie de representante diplomático do papa. Os dois estavam no Condomínio Espiritual Uirapuru, em Fortaleza, onde se comemoravam os 100 anos de fundação da Arquidiocese da cidade. “Tenho uma carta para o senhor. Vem de Roma”, anunciou D’Aniello, em tom de suspense. De imediato, Panico soube do que se tratava. “E é boa?” O núncio limitou-se a responder com um sorriso.

Ansioso, o bispo deixou a festa mais cedo e seguiu para sua casa em Fortaleza. No quarto, protegido de olhares curiosos, abriu o envelope e leu a mensagem preparada como complemento à fatídica correspondência anterior. Ali deveria estar, afinal, o resultado de uma década e meia de trabalho e dedicação à causa de padre Cícero. Assinada pelo secretário de Estado do papa Francisco, o segundo homem na hierarquia no Vaticano – mas, de toda forma, não o primeiro, o que frustrou dom Panico –, a carta sugeria que se deixassem à margem “os pontos mais controversos” da figura do sacerdote, pondo em evidência “aspectos positivos de sua vida e figura, tal como ela é atualmente percebida pelos fiéis”.

Em vez de pedir desculpas ao sacerdote – ao longo de 29 parágrafos, as palavras “perdão”, “reabilitação” ou “reconciliação” não são mencionadas –, o documento recomendava o acolhimento dos 2,5 milhões de peregrinos que visitam Juazeiro todos os anos. “As grandes romarias ilustram o calendário evangelizador de Juazeiro e constituem momentos altos de formação da fé católica”, dizia o Vaticano. Em outro trecho reconhecia, com certo atraso, que “o afeto popular que cerca a figura do padre Cícero pode constituir um alicerce forte para a solidificação da fé católica no ânimo do povo nordestino”.

Há quem acredite, entre as pessoas que acompanharam o processo, que o Vaticano pode ter chegado à conclusão de que não era possível ignorar o passado controverso de padre Cícero, depois de ter tido acesso aos estudos da comissão que mandou formar – estudos que, apesar de em grande medida defenderem o líder religioso cearense, também colocavam uma lupa sobre a vida de Cícero, suas brigas com a Igreja e suas alianças com jagunços e coronéis. Também as denúncias acumuladas contra dom Fernando Panico, nesse período – simultâneas aos seus esforços para reabilitar o controverso líder religioso –, podem ter tido algum peso na decisão. “A Santa Sé dá muita importância à diocese de origem do pedido de revisão. E o bispo, com tantas acusações contra ele, é visto com reservas”, avaliou o engenheiro químico Renato Casimiro, ex-presidente do Memorial Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. Casimiro e o historiador Daniel Walker, um estudioso do fenômeno das romarias, organizaram o maior acervo particular com documentos sobre padre Cícero no Brasil e, em 2010, doaram o material para a Universidade Federal do Cariri.

A carta que chegou às mãos de dom Fernando, de toda forma, reforçava a necessidade de aproximação com os romeiros. Não tem passado despercebida ao Vaticano a investida das igrejas neopentecostais em fiéis que, até recentemente, eram dissuadidos pelos padres de suas paróquias de reverenciar Cícero. Em épocas de romaria, as praças onde se localizam os santuários têm sido disputadas por comerciantes de suvenires católicos, de um lado, e obreiros evangélicos, de outro. Verdadeiros exércitos de arregimentação de fiéis são enviados para Juazeiro durante as peregrinações: cantores gospel em estilo moderno, de olho nos romeiros mais jovens, bem como médicos e enfermeiros preparados para medir a pressão e os batimentos cardíacos dos idosos. Os representantes das igrejas evangélicas também tomam o cuidado de oferecer sombra e água gelada aos romeiros, itens valiosos no calor do sertão. “Como arma de persuasão, os pastores utilizam um argumento estratégico: a Igreja Católica seria uma arma do mal, baseada na intolerância, tanto que um dia baniu padre Cícero de seus quadros”, explica o biógrafo Lira Neto.

Não é que os evangélicos estejam interessados em incentivar o culto ao padre, o que seria incoerente com uma religião que não permite adoração de imagens e santos. A operação que tentam realizar, de difícil execução, é a de atrair a legião de fiéis sem no entanto incorporar o “santo” que esses católicos, sem apoio da Igreja, insistem em cultuar. A rigor, não é muito diferente daquilo que o próprio Vaticano parece estar tentando fazer.

A investida evangélica tem surtido efeitos. De acordo com dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 10% da população da cidade já é evangélica. Peregrinos protestantes que um dia foram católicos passaram a deixar contribuições em dinheiro em seus próprios templos – o que compromete a arrecadação nas igrejas católicas. Segundo o historiador Daniel Walker, a figura do romeiro típico, com chapéu de palha, rosário entre as mãos e ar submisso, tende a desaparecer. “Hoje, os jovens católicos vêm para Juazeiro tirar selfies com a estátua de padre Cícero e postar nas redes sociais. Usam bonés, e muitas das moças se vestem como periguetes”, observou. Ele também nota uma nova configuração nas caravanas familiares. “Estamos na quarta geração de romeiros. Antes, a devoção católica era naturalmente transmitida de pai para filho. Agora, observamos a presença de famílias divididas: o pai virou pastor, a filha casou com um evangélico”, comentou.

 

No dia 20 de novembro, ao chegar de Fortaleza de volta a Juazeiro do Norte, dom Fernando reuniu-se com os auxiliares mais próximos para a leitura da carta que o núncio lhe entregara. “Quando devemos divulgar o conteúdo da correspondência?”, questionou. “Ontem”, respondeu Maria do Carmo Forti. “Essa carta tem coisas perigosas. Se ela vaza para seus inimigos, eles acabam com a história do padre Cícero”, alertou. Nos trechos mais incômodos, o comunicado afirmava que “outros aspectos da pessoa do padre Cícero podem suscitar perplexidade”. Advertia que, em sua história, o clérigo incorreu em “fraquezas” e “erros”. E que “nem sempre soube encontrar as justas decisões a tomar ou adequar-se às diretrizes que lhe foram dirigidas pela legítima autoridade” da Igreja, embora “movido por um desejo sincero de estender o Reino de Deus”.

Dom Fernando e seus assessores decidiram comunicar trechos selecionados da carta na cerimônia de abertura da Porta Santa – ritual que simboliza o início do Ano Santo Extraordinário do Jubileu da Misericórdia, no dia 13 de dezembro de 2015, na catedral do Crato. Seria uma forma de medir a temperatura dos fatos e a reação ao documento: a depender de como a imprensa noticiasse a história, se poderia pensar em divulgar a carta na íntegra, na missa do dia 20, em Juazeiro. Embora considerasse a ocasião adequada, Forti estava preocupada com um possível vazamento. “Vai ser horrível se alguém perceber que Dom guardou a carta por todo esse tempo.”

Irmã Annette e a psicóloga foram encarregadas de preparar o texto da homilia. A freira belga escreveu a primeira versão do texto e, posteriormente, Forti fez acréscimos e ajustes. Decidiu-se que, no momento em que dom Fernando anunciasse a novidade, uma pintura a óleo sobre tela com a imagem do padre Cícero adentraria o templo, carregada por padres. E assim foi feito.

Instados por dom Fernando, os fiéis aplaudiram a cena. Mas, ao contrário do esperado, não houve nada próximo de um êxtase coletivo. “Sendo bem realista, essa decisão do Vaticano não influencia em nada a nação romeira. Para o devoto, o conceito já está formado: padre Cícero é santo e pronto”, avalia o historiador Daniel Walker. A missa seguiu seu curso, sem maiores gestos de entusiasmo por parte dos fiéis. O mais importante, porém, aconteceria horas depois. Abastecidos pela assessoria de imprensa da Diocese do Crato, os sites começaram a divulgar a informação, tal como lhes havia sido sugerido, com destaque: “Papa Francisco perdoa padre Cícero”, noticiou o site do jornal O Povo. “Vaticano informou à Diocese do Crato suspensão de punições do padre”, estampou o site G1. Forti sorriu aliviada. A imprensa, de fato, comprara a versão oficial da história.

De casa, acompanhando as notícias pela internet, o jornalista Luiz José Santos esboçou um ar de desprezo. “Se isso é tão importante, por que não foi anunciado pela Ilze Scamparini?”, perguntou-se, em referência à correspondente da TV Globo em Roma. Como o bispo marcara o gol, era preciso partir para o contra-ataque.

Em 20 de dezembro, quando a carta de Pietro Parolin foi lida durante a missa em Juazeiro do Norte, os adversários de dom Fernando Panico já haviam levantado a tese de que houvera manipulação dos fatos. O advogado Paulo Machado, dono do cartório que emitiu a procuração e a escritura favoráveis a Francisco Pereira da Silva, acusou o religioso de usar a carta de Roma como “tábua de salvação”. “A carta não exprime o que está sendo apregoado. A imprensa fala em perdão, mas não houve”, comentou. Sites contrários ao chefe da Diocese divulgaram textos de advogados, historiadores e religiosos denunciando uma possível farsa capitaneada pelo bispo e seus auxiliares.

Em meio à agonia com as decisões do Vaticano, dom Fernando descobriu, no fim do ano passado, que está com um novo câncer, dessa vez na próstata. Em março, pediu afastamento de suas atividades no comando da Cúria Diocesana local para submeter-se a uma cirurgia. É pouco provável que volte a ocupar o posto. Seu desejo, tão logo a Nunciatura Apostólica indique um novo bispo, é mudar-se para bem longe do Crato. Ainda não sabe se deve retornar para a Itália, seu país de origem, ou continuar na América Latina.

“Não posso permanecer em um lugar onde não sou bem-aceito”, constatou. Em seguida, citou o trecho do Novo Testamento em que Jesus faz recomendações aos seus apóstolos, antes de enviá-los pelo mundo para ensinar a palavra de Deus “como ovelhas entre os lobos”: “Mas, se alguém não vos recebe e não dá ouvidos às vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi o pó dos vossos pés.” (Mateus 10,14)

Adriana Negreiros
Adriana Negreiros

Jornalista e escritora, publicou Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço (Objetiva)

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