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Presídio político Maria Zélia, 1936

poesia

Presídio político Maria Zélia, 1936

Um poema inspirado na história de militância política da família Abramo

Paula Abramo | Edição 235, Abril 2026

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PRESÍDIO POLÍTICO MARIA ZÉLIA, 1936

um abismo embaixo de outro abismo
embaixo de um
terceiro abismo
que desemboca num quarto

a cidade amanhece salpicada de pardais

 

de pardal a pardal
a miopia se arrasta
o último abismo
da série mergulha em outro

impossível
acender um fósforo mas surge a sombra
do meu avô
embrulhada em papel de carta
e toques enferrujados
de escrita clandestina

endereços falsos
nomes ocultos pelo gênero trocado
personagens de uma gesta reduzida a abreviaturas
surge Fúlvio
para me lembrar
“não olhe tanto para dentro”

 

se não olharmos tanto para dentro
o abismo
se desintegra em trens matutinos
cor de laranja vagões e vagões e vagões
lotados de calor
cheirando a banho apressado e secador de cabelo
um organizado empurra-empurra
solidário

que por sua vez se desintegra
pelas ruas esfiapando-se em estações
se espalha por escritórios oficinas mecânicas
supermercados
com roupas velhas
opacas de tão puídas
lá vai ele
se espalha
e acende fósforos que acendem cigarros
que acendem
fogões que aquecem
o café da manhã apressado em horas obscenas
que acende o dia
por sua vez feito de dias
mise en abyme de tons imprevistos

Observe a marca da gota:
a forma ovoide de aspereza denunciando
nesse papel tão velho,
com mais de oitenta anos,
quais
separações,
chuvas,
goteiras,
quais circunstâncias aqui reunidas
determinam
a transgressão desse fecho autoritário:

 

“queime esta carta,
não guarde,
não esconda papéis,
apague, anule:
fiat lux”?

Nesse caso, o fiat teria sido
um não deixar rastro. Um lampejo sem opções,
um não, mais que um início.
E enquanto isso, as trancas
grasnam
a única palavra que conhecem: quem?
E a pergunta abarca
a possibilidade do rancho,
a permissão do Sol, a pausa
antes do soco.
Quem, perguntam todos, e os complementos
circunstanciais e diretos do pronome
em sua múltipla variedade constroem
as grades,
as paredes,
os dias da semana
interrogados:
quem é o seu contato, quem te disse,
quem te deu esses livros, de quem
são essas cartas
manuscritas.

E anos atrás, menino,
em sépia, lento, você molhava o bico de pena
e as páginas
se enchiam devagar, impecáveis,
preparando aquilo que viria.

E agora aqui, um dente apodrecido na masmorra,
quase como uma semente brotando,
lançando até o pulmão
uma raiz quente e gorda de pus.
De quem são essas cartas, quem
te mandou.

Distingamos então o fiat
do fiat.
Um é a luz que nasce para apagar tudo: um fósforo
aceso no canto de uma carta,
e que abre um buraco no tempo, um buraco invisível
na retina,
como os livros de Alexandria em chamas, fora
do campo visual, longe
da hipótese da luz, e o outro
é o fiat que engendra
e expele
seus contrários,
o breu, a guerra,
o chão: um fiat
fértil, encarnado
em coisas,
não em ausências.

Mamma,
os dias
são tranquilos.
Traduzi aqui um manual
de fabricar sapatos,
te mando com permissão
do atencioso diretor deste presídio
para ajudar no teu sustento
e dos meus irmãos.
Obrigado pelos ternos
e pela torta de nozes.
Lembranças à minha prima
que vai casar.

Calculemos então que complementos,
que orações subordinadas,
que acusativos, dativos, determinam
a distância entre um fiat e outro fiat.

Por exemplo, esta carta:
na pressa antes da fuga,
gotas que delatam
sua condição de restos
de filmes lacrimais
microscopicamente estourados,
como bolhas desastradas,
grávidas, caindo
sobre a instrução precisa:

queima
tua mania de guardar papéis.

Porém na cela, meses antes,
a luz entrando como uma ironia dos trópicos,
alguns papagaios desenhados no céu,
no horizonte
sonoro do pátio do presídio;
a tocha
iluminando
o calabouço negro do Castel Sant’Angelo,
e os intermináveis solilóquios
de Cellini
com o próprio deus,
agora aqui vertidos a outra língua,
em outro calabouço
– eco daquele? –
como se fosse um jogo de espelhos
diante de outros espelhos.

 

PRESIDIO POLÍTICO MARIA ZÉLIA, 1936

un erebo bajo otro erebo
bajo un
tercer erebo
que desemboca en un cuarto

la ciudad amanece punteada de gorriones

de gorrión a gorrión
repta la miopía
el último erebo
de la serie se ahonda en otro

imposible
prender un cerillo pero viene la sombra
de mi abuelo
envuelta en papel cebolla
y golpes oxidados
de escritura clandestina

direcciones falsas
nombres encubiertos en un género fingido
personajes de una gesta reducida a abreviaturas
viene Fúlvio
a recordarme
“no mires hacia adentro”

no mirando hacia adentro
el abismo
se desintegra en trenes matutinos
color naranja vagones y vagones y vagones
llenos de tibieza
resabios de baño apresurado y secadora
organizado apretuje
solidario

que se desintegra a su vez
por las calles deshilachado en estaciones
se distribuye en oficinas talleres mecánicos
supermercados
con la ropa vieja
opacidad raída
sale
se distribuye
y enciende cerillos que encienden cigarros
que encienden
hornillas que encienden
el rápido desayuno a horas obscenas
que enciende el día
a su vez hecho de días
puesta en abismo de matices imprevistos

Observa la huella de la gota:
la forma ovoide de aspereza denunciando
en el papel ya viejo,
ya de más de ochenta años,
¿qué
separaciones,
lluvias,
goteras,
qué circunstancias aquí colegidas
determinan
la transgresión de ese cierre autoritario:

“quema esta carta,
no la guardes,
no escondas papeles,
borra, anula:
fiat lux”?

En cuyo caso el fiat habría sido
un no quedar rastro. Un destello sin opciones,
un no, más que un inicio.
Y mientras, graznan
los cerrojos
la única palabra que conocen: quién.
Y la pregunta encierra
la posibilidad del rancho,
la permisión del Sol, el lapso
antes del golpe.
Quién, preguntan todos, y los complementos
circunstanciales y directos del pronombre
en su mucha variedad construyen
los barrotes,
los muros,
los días de la semana
interrogados:
quién te dijo, quién vino, a quién frecuentas,
quién te dio estos libros, de quién
son estas cartas
manuscritas.

Y hace años, de niño,
en sepia, lento, hundías el plumín filoso
y las planas
llenándose despacio y pulcras
para esto.

Y ahora aquí, un diente podrido en la mazmorra,
casi como una semilla que brotara,
que echara una raíz cálida y gorda de pus
hasta el pulmón.
De quién son estas cartas de quién
las recibiste.

Distíngase entonces el fiat
del fiat.
Uno es nacer de luz para anularlo todo: un cerillo
encendido al borde de una carta,
y que abre un hueco en el tiempo, un hueco invisible
en la retina,
como los libros de Alejandría en llamas, fuera
del campo visual, lejos
de la hipótesis de luz, y el otro
fiat que engendra
y expele
a sus contrarios,
lo negro, la guerra,
el suelo: un fiat
fértil, encarnado
en cosas,
no en ausencias.

Mamma,
los días
son tranquilos.
Traduje aquí un manual
de elaborar zapatos,
te lo mando con la venia
del amabilísimo rector de este presidio
para tu sustento
y el de mis hermanos.
Gracias por los trajes
y el pastel de nueces.
Felicita a la prima
que se casa.

Calcúlese entonces qué complementos,
la importancia de qué completivas,
qué acusativos, dativos, determinan
la distancia entre un fiat y otro fiat.

Por ejemplo, esta carta:
prisa previa a la fuga,
gotas
que se acusan restos
de películas lagrimales
microscópicamente reventadas,
como globos torpes,
grávidos, precipitados
sobre la instrucción precisa:

quema
tu manía de atesorar papeles.

Pero en la celda, meses antes,
la luz entrando como una ironía del trópico,
algunos loros dibujados en el cielo,
en el horizonte
sonoro de la cuadra del presidio;
la antorcha
iluminando
el calabozo negro de Castel Sant’Angelo,
y los interminables soliloquios
de Cellini
con dios mismo,
ahora aquí vertiéndose a otra lengua,
en otro calabozo
– ¿eco de aquél? –,
como en un juego de espejos
frente a espejos.


Este poema faz parte do livro Fiat lux, a ser lançado em maio pela Editora 34, com tradução de Gustavo Pacheco. Publicado em 2012 no México, o livro se inspira na história de militantes políticos da família Abramo perseguidos por ditaduras no Brasil, entre eles o pai e o avô da poeta. O jornalista trotskista Fúlvio Abramo (1909-93), casado com Anna Stefania Lauff, operária e enfermeira, foi detido em 1935 pela polícia de Getúlio Vargas no Presídio Maria Zélia. Em 1937, exilou-se na Bolívia, onde trabalhou como professor de botânica (são dele as ilustrações do poema). Marcelo Abramo (1948) foi preso durante a ditadura militar brasileira e depois se exilou no México, país em que nasceu a autora.

Paula Abramo

É poeta e tradutora, nascida na Cidade do México, onde vive. Já traduziu mais de sessenta obras brasileiras para o espanhol.

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