Afonso Arinos, Lula e Ulysses Guimarães na Constituinte: anos depois, Joseph Safra confessou ao petista que no mesmo dia que doara 50 mil dólares à sua campanha dera 5 milhões à de Collor CRÉDITO: PAULA SIMAS
O salto e o susto
A primeira campanha presidencial de Lula em 1989 e a reação das elites
Fernando Morais | Edição 234, Março 2026
Mesmo exercendo um cargo para o qual não fora eleito e governando com um ministério que havia sido integralmente nomeado pelo falecido Tancredo Neves, o José Sarney recém-convertido à causa da democracia conseguia se equilibrar na cadeira presidencial. Além de dividir o poder de fato com o presidente da Câmara, Ulysses Guimarães, e tourear a crise econômica com planos que pareciam nunca dar certo, Sarney tinha que enfrentar a campanha pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte que ocupava a atenção dos políticos e de parte da opinião pública. Ainda com os motores aquecidos pela frustrada batalha do movimento pelas Diretas Já, agora Lula teria que se juntar aos que defendiam a convocação da Constituinte. Não um Congresso que fizesse também as vezes de Constituinte. A população, ou pelo menos seus ativistas mais vistosos, não queria uma impostura, mas uma eleição secreta cujos escolhidos teriam o papel exclusivo de redigir a nova Carta, no fim da qual o conjunto dos eleitos se autodissolveria.
A primeira trombada foi com espertos representantes das elites brasileiras – aquilo que debochadamente se convencionou chamar de “o andar de cima”. A rasteira dos conservadores foi um mondrongo batizado por seus criadores com o nome pomposo de Comissão Provisória de Estudos Constitucionais. Ágeis e certos de que a ideia iria de encontro ao que era reivindicado pelo conjunto das esquerdas (a Constituinte exclusiva, livre e soberana, escolhida por voto secreto pelos eleitores), instituíram a tal comissão e, ladinos, embutiram nela vistosos e representativos nomes da esquerda. Era uma tentativa de cooptar os adversários e negar a acusação de que se pretendia gerar uma Constituição trasmontana e conservadora. Os adesistas mais afoitos exageravam e pediam que se elegesse apenas um Congresso de senadores e deputados, que se desdobrariam dando meio expediente para a redação da nova Constituição e meio para o dia a dia parlamentar – com a manutenção do general João Baptista Figueiredo no poder até que a nova Carta decidisse a forma de escolha de seu sucessor. Ou seja, uma solução ainda pior que a do Colégio Eleitoral, que, de uma maneira ou de outra, conseguira defenestrar o general Figueiredo. […]
Para presidir a Comissão Constituinte, seus autores convidaram o grande orador udenista Afonso Arinos de Melo Franco, que se esmerara na derrubada de Getúlio Vargas, e sobre cuja história pairava a aura de homem honesto, rígido e incorruptível. E mais: Afonso Arinos fora o autor da primeira lei brasileira, de 1951, a punir o racismo – lei que recebeu seu nome –, estabelecendo que atos de racismo passariam a ser punidos com penas de reclusão e multa a quem as praticasse. E, mais, considerava contravenção penal a recusa de atendimento a clientes por preconceito de raça ou cor, criminalizando, no caso, o responsável pelo estabelecimento comercial, e ainda previa como incursos os responsáveis pela recusa de inscrição de alunos em estabelecimentos de ensino por preconceito de raça ou cor. Ironicamente a Lei Afonso Arinos seria promulgada por Getúlio Vargas, de volta ao poder desde as eleições de 1950. Ficava difícil tachar de fascista um vulto de tal envergadura. […] Sem apoio popular ou da sociedade como um todo, ainda que incensada pela imprensa, a Comissão Afonso Arinos minguou até evaporar por completo, deixando para o Congresso Constituinte, eleito pelo voto em 1986, poucas e irrelevantes propostas.
A passagem pela Constituinte serviu, primeiro, para exibir um Lula soberano nas urnas: com 651 763 votos, ele se convertia no parlamentar mais votado da história do país. Ele próprio, no entanto, reconheceria que o Parlamento não era um hábitat adequado a sua personalidade, estilo e formação.
– Percebi que aquele campo não era o meu. Se eu fosse por ali poderia quebrar a cara muito rapidinho. Qualquer deputadozinho de meia-tigela, eleito com 5 mil votos, podia ir à tribuna e fazer um discurso me dando um esporro. E a imprensa publicaria, porque era contra o Lula, sacou? Então eu comecei a perceber… Bom, meu lance não é esse. Ou seja, eu não vou entrar nessa bola dividida porque isso aqui tem vida curta. Aquele negócio podia projetar um cidadão em uma semana e afundá-lo em um dia.
Se o arrebatador Lula dos palanques do ABC não se familiarizava com aquele universo, o papel de “atacante matador” era o figurino sob medida para José Genoino. Apesar da fama que trazia da Guerrilha do Araguaia, de cujo massacre era um sobrevivente, o cearense esguio e de maçãs do rosto saltadas – até então conhecido do público por uma foto do passado, em que ele aparecia algemado por seus captores do Exército, apoiado no tronco de uma árvore – revelou-se um articulador capaz de conversar com parlamentares de todas as correntes, comportamento que merecia olhares admirados até dos setores militares. Mas foi nos arranca-rabos do plenário e das comissões que Genoino se destacou, como o próprio Lula reconhece:
– A bancada deliberava e me orientava: “Olha, você não pode entrar em determinada jogada, você não tem que ficar pedindo voto, você não pode fazer isso, fazer aquilo.” E o Genoino é um exímio parlamentar, é aquele cara que dizia: “Aqui é bola dividida? Tá, eu vou.” Ele não se preocupava se quebrasse a perna e não pudesse jogar mais. Ele entrava, e entrava com maestria. Ele fazia coisas que, eu digo pra você, eu jamais faria. Ele tinha a cara de pau de fazer determinadas coisas, ele entrava em cada bola dividida que eu já sei que não dava pra eu pôr a perna ali, que eu quebrava a minha canela. E ele entrava.
A despeito da severa autoavaliação, Lula foi um deputado constituinte ativo e prolífico. Do dia seguinte à instalação da Assembleia Nacional Constituinte, 2 de fevereiro de 1987, até seu final, em outubro de 1988, ao ser promulgada a nova Carta, ele conseguiu incluir doze propostas de artigos. Nos vinte meses de duração da Constituinte, ocupou a tribuna em 71 oportunidades, o que revela que quase uma vez por semana utilizava o grande expediente para defender as propostas do PT, sem contar os apartes e questões de ordem – intervenções que regimentalmente deveriam ser curtas, quase telegráficas, mas que os parlamentares utilizam para falas às vezes mais longas que seus próprios discursos. Mas o que melhor resume a participação do Partido dos Trabalhadores na Constituinte está no longo pronunciamento feito por ele no dia 4 de fevereiro, no quarto dia após a instalação dos trabalhos. Lula reiterou suas críticas ao processo constituinte (por exemplo, chamou a atenção do presidente, Ulysses Guimarães, para o fato de que os senadores eleitos em 1982 tinham sido escolhidos apenas para a realização de expedientes ordinários e cotidianos, não para escrever a nova Constituição) e insistiu em que seu partido iria apresentar proposta alternativa para a nova Carta Magna – texto que na verdade já estava em fase de consolidação pelo jurista Fábio Konder Comparato.
Expressou preocupação com as tentativas de setores conservadores – incluindo militares, empresários e autoridades governamentais – de limitar a soberania da Constituinte e restringir a participação popular. Seu discurso desenha o que era o Brasil de 1987: um país com 135 milhões de habitantes em que 7 milhões de pessoas concentravam a riqueza nacional enquanto 14 milhões de aposentados viviam na miséria, 13 milhões de brasileiros consumiam menos calorias que o mínimo necessário, e cerca de mil crianças menores de 1 ano morriam de fome diariamente. Essa realidade de extrema iniquidade, prosseguiu, era agravada pela violência no campo, pela repressão policial e pelo peso da dívida externa de 110 bilhões de dólares. Como alternativa, Lula propunha uma Constituição que garantisse distribuição justa de renda, reforma agrária, valorização do salário mínimo, democratização dos meios de comunicação e revogação das leis repressivas herdadas da ditadura militar. Enfatizou que a verdadeira soberania da Constituinte só seria alcançada com ampla participação popular, defendendo a realização de plebiscitos e a transmissão pública dos debates. O tom do discurso era ao mesmo tempo de denúncia e de convocação à mobilização. Lula alertava que, sem pressão organizada das ruas, a Constituinte corria o risco de ser capturada pelos interesses das elites. A fala terminava com um chamado à ação, convocando o povo brasileiro a se manter vigilante e ativo no processo de construção democrática, e reafirmando o compromisso do PT com os trabalhadores e com a construção de um Brasil mais justo e soberano. Embora tenha ficado perdido nas maçarocas impressas da Constituinte, o pronunciamento de 4 de fevereiro sintetizava a posição do PT como força política comprometida com a radicalização da democracia e com a defesa intransigente dos interesses das maiorias, marcando sua atuação no processo que resultaria na Constituição de 1988.
Chama também atenção a diversidade de assuntos sobre os quais Lula se debruçava, sempre com aparente propriedade. […] Claro, nem tudo o que ele defendeu ou reivindicou permaneceu na versão final da Constituição. Mas a mudança que custara tanto sacrifício e mobilizações populares nunca vistos – e que iria transformar a vida dele e a do Brasil – estava garantida no artigo 14 da nova Carta (“A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos…”) e nos parágrafos 2 e 3 do artigo 77:
- 2º – Será considerado eleito Presidente o candidato que, registrado por partido político, obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos.
- 3º – Se nenhum candidato alcançar maioria absoluta na primeira votação, far-se-á nova eleição em até vinte dias após a proclamação do resultado, concorrendo os dois candidatos mais votados e considerando-se eleito aquele que obtiver a maioria dos votos válidos.
As Diretas Já que haviam posto milhões de pessoas nas ruas estavam garantidas, mas não eram para já. Arranjos do “andar de cima” conseguiram enfiar um sapo goela abaixo dos que esperavam votar para presidente em 1988. E o mandato de Sarney, que seria de quatro anos, foi espichado para cinco. Segundo um informe do Serviço Nacional de Informações, o famigerado SNI, a ideia inicial de aumentar em um ano o mandato do presidente que tomara posse no lugar de Tancredo foi levada ao próprio Sarney por um certo Bloco Parlamentar Evangélico (BPE). Os arapongas registraram também que o bloco, “formado por parlamentares de diversas agremiações e que vislumbra a criação de um novo partido político”, pretendia, originalmente, que o mandato presidencial tivesse não quatro ou cinco, mas seis anos de duração.
O essencial é que haveria eleições diretas, livres e secretas dali a um ano, no penúltimo mês de 1989. A escolha do sucessor de Sarney viu surgirem nada menos que 22 candidatos – lista que, impressa numa cédula de papel (as urnas eletrônicas só seriam adotadas nas eleições municipais de 1996), ocupava uma tripa de 30 cm de comprimento. […]
Assim, Lula precisava enfrentar representantes de rigorosamente todas as tendências do espectro político brasileiro: do palanqueiro ultranacionalista Leonel Brizola (PDT) até o jovem Fernando Collor de Mello (PRN), ex-prefeito de Maceió e ex-governador de Alagoas, neto de Lindolfo Collor, primeiro ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e filho de Arnon de Mello, jornalista, ex-senador e ex-governador de Alagoas. Lindolfo fora o responsável pela primeira Consolidação das Leis do Trabalho brasileira e pela criação de sindicatos de trabalhadores e de patrões. Arnon, jornalista talentoso e dono de uma incorporadora imobiliária (da qual eram sócios Roberto Marinho e, minoritariamente, o jovem baiano Antônio Carlos Magalhaes), acabou se celebrizando por ter alvejado e matado, por engano, durante uma sessão de 1963, um colega de Senado, o acreano José Kairala.
A montagem do comando da campanha de Lula começou antes que ele registrasse a candidatura. […] Na rica e cosmopolita Ribeirão Preto, o único ativo do PT era um caminhão sem som e com uma só lâmpada. E nada mais. Era com isso que o vereador de origem trotskista Antonio Palocci tinha que se contentar para tentar eleger o próximo presidente da República. Do outro lado, o candidato que parecia despontar como seu principal adversário – e que venceria Lula num apertado segundo turno – nadava em dinheiro. Fernando Collor colocou como seu tesoureiro o advogado gorducho e careca Paulo César Farias, misto de chefe mafioso e empresário megalomaníaco. Prepotente e impositivo, quanto mais Collor subia nas pesquisas, respaldado pelo “andar de cima” e por quase toda a grande mídia, PC Farias, como era conhecido, tornava-se mais audacioso e exigente. Ele não tinha vida social, não comparecia a festas badaladas pelos meios de comunicação e mantinha o perfil baixo. Nunca aparecia nos comitês de campanha nem dava palpites no que quer que fosse da disputa de Collor pela Presidência. O negócio dele era outro. Numa visita ao dono da companhia aérea TAM, o comandante Rolim Adolfo Amaro, PC Farias foi direto ao ponto, sem rodeios nem meias-palavras:
– Precisamos do empréstimo de dez jatinhos para a campanha, abastecidos e com as respectivas tripulações, até o fim do ano.
Rolim, que não era dado a ouvir malcriações, respondeu no mesmo tom:
– Olha, Seu Farias, pode até ser que eu venha a votar no seu candidato, mas isto aqui é uma empresa, não é uma casa de caridade. O máximo que posso fazer é oferecer-lhe cinco jatinhos, com tripulação, hangaragem, combustível e manutenção. E tudo a preço de custo, eu não lucraria um centavo.
Mastigando um caríssimo charuto Cohiba de grossa bitola, PC Farias levantou-se sem estender a mão ao anfitrião e deixando no ar duas ameaças:
– Se o Fernando ganhar as eleições, pode ir pensando em mudar de ramo, porque eu pessoalmente me encarregarei de proibir que qualquer patente acima de major receba o senhor no Ministério da Aeronáutica.
E, já na porta de saída, sacramentou a tentativa de extorsão:
– Fernando eleito, vamos comprar uma empresa aérea só pelo prazer de quebrar a TAM.
Enquanto “Seu Farias”, de gazua na mão, parecia operar uma guitarra que não parava de imprimir dinheiro, o PT corria o chapéu para conseguir doações de camisetas de algodão ralo, sobre cada uma das quais a zelosa militante Marisa Letícia Lula da Silva, mulher de Lula, costurava a estrelinha vermelha do PT. Na biografia de Marisa, escrita por Camilo Vannuchi, o autor revela que ela organizava bingos e pilotava uma barraquinha para vender camisetas, broches, estrelinhas e bonés com o nome do marido. “Marisa chegou a fazer cem camisetas por dia na casa dela, em um silkscreen doméstico”, conta o jornalista. Em março, quando Lula, Collor e Brizola apareciam nas pesquisas tecnicamente empatados, o procurador aposentado Hélio Bicudo chamou Lula num canto e falou, em voz baixa: “O Joseph Safra, dono do Banco Safra, quer te conhecer. Você topa encontrá-lo?” Militante do PT, Bicudo era secretário de Negócios Jurídicos da prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, também petista. De origem judaica, brasileiro nascido no Líbano, Joseph Safra era o homem mais rico do Brasil e estava entre os cem mais ricos do mundo. É claro que Lula topou.
O encontro entre os dois aconteceu na sala de visitas da casa de tijolinhos à vista onde vivia Bicudo, nas franjas do Morumbi. O previsto era que duraria não mais que 15 minutos, mas o banqueiro tomou-se de encantos pela conversa do metalúrgico e o papo durou quase duas horas. Antes de sair, Safra cochichou alguma coisa a um componente do pequeno exército privado de guarda-costas que faziam sua escolta – na época eram frequentes em São Paulo os sequestros de grandes empresários, por cuja libertação os autores costumavam pedir fortunas. O segurança foi até um dos carros do comboio que acompanhava Safra permanentemente e entregou ao patrão um envelope pardo, retangular, que o repassou de imediato a Lula, com uma explicação:
– Acho que não concordo com quase nenhuma de suas ideias, mas fiquei admirado com sua sinceridade ao defendê-las. Quero fazer uma contribuição… modesta, eu reconheço… para ajudar sua campanha. Receba-a certo de que não quero nenhuma contrapartida. Nem vou querer, no futuro. Foi um sincero prazer conhecer o senhor.
Levantou-se e embarcou num dos carros negros da caravana que o esperava à porta da casa de Bicudo. O conteúdo do envelope – 50 mil dólares, a mais alta contribuição recebida pela candidatura de Lula até então – foi celebrado com o espoucar de garrafas de espumante nacional no comitê de campanha. Só muitas décadas depois, quando Lula já era ex-presidente, é que Safra, que se tornara amigo dele, confessou que naquele dia saíra da casa de Bicudo em direção a um dos hotéis de luxo espetados na Zona Sul da cidade e fizera a Fernando Collor, que o esperava, ansioso, uma doação de 5 milhões de dólares – quase 80% do que custaria toda a campanha de Lula. Somados, os gastos mais altos com a campanha (o setor de rádio e tevê), que em geral custam algumas dezenas de milhões de dólares, giraram em torno de 1 milhão de dólares.
Fazer doações legais (registradas no Tribunal Eleitoral) ou paralelas, quando o candidato está bem nas pesquisas, já era um costume corriqueiro nas eleições brasileiras. Quando Lula pulou de 14 para 20 pontos – sempre embolado com Collor e Brizola –, algum recurso começou a fluir para o caixa do Partido dos Trabalhadores, permitindo luxos jamais vistos pela peãozada da campanha, como ter carros alugados esperando o candidato em cada destino que ele pousasse. Até então Lula fazia seus deslocamentos em aviões de carreira, em ônibus e até em barcos. À noite, ao viajar de carro entre uma cidade e outra, um segundo veículo ia atrás, com os seguranças da Polícia Federal – privilégio assegurado por lei a todos os candidatos a presidente formalmente registrados. Entre os federais e Lula ia um carro da campanha, com os faróis altos acesos para que, no veículo da frente, o candidato pudesse ler a súmula do que falaria em seu discurso na parada seguinte. Num hábito que guardaria até seu terceiro mandato presidencial, Lula lia, botava o calhamaço de lado e falava de improviso – muitas vezes sem aproveitar uma sílaba do que tinha sido escrito para ele. Com a entrada de recursos já era possível hospedar-se em bons hotéis, e não ter mais que dormir em puxados das casas de militantes do partido. Ainda assim, o total gasto nos dois turnos pelo PT (o equivalente a 6 milhões de dólares) era menos de 10% do que se avaliava ter custado a campanha de Collor (70 milhões de dólares).
Para um candidato de esquerda, com chances de chegar ao segundo turno, subir nas pesquisas significava também despertar contra si a artilharia da mídia conservadora – sem exceção, jornalões, revistas semanais e estações de rádio e tevê azeitaram sua artilharia em abril quando Lula chegou aos 20% das intenções de voto. O primeiro tirombaço veio da sucursal paulista do Jornal do Brasil, da qual o jornalista Ricardo Kotscho se licenciara para assessorá-lo. O repórter Luiz Maklouf Carvalho revelou na primeira página do jornal que o candidato tinha uma filha fora do casamento, Lurian (acróstico que combinava os nomes de Lula e da mãe, a enfermeira Miriam Cordeiro), de 15 anos, fruto de um rápido namoro de Lula, viúvo da primeira mulher, Maria de Lourdes. A namorada engravidara quando o metalúrgico estava paquerando Marisa Letícia. O jornalista do JB afirmava que, salvo meia dúzia de amigos íntimos, Lula “escondia” Lurian do público, dizendo sempre que era pai de “quatro meninos”. No pé da entrevista, a enfermeira avisou que ia votar em Fernando Collor.
Ninguém saberia dizer se a virada nos números era consequência da reportagem do JB, mas o certo é que depois da sua publicação Lula desabou sucessivamente nas pesquisas, dos 14 pontos em que se encontrava em abril para modestos 5 pontos. Isso apesar de, no dia seguinte à divulgação da reportagem, a Folha de S.Paulo desmentir que Lula escondia a filha do público. Em pesquisa na ficha autobiográfica que preenchem todos os parlamentares eleitos, e que é publicada no Diário do Congresso Nacional, o jornal descobriu que Lula havia declarado, sim, ser pai de cinco filhos, revelando o nome de todos, inclusive o de Lurian. E, como já sobrevoava a direção da campanha a desconfiança de que Lurian poderia ser usada pelos adversários, estava pronta uma autobiografia assinada e escrita na primeira pessoa pelo candidato, intitulada Lula: o coração da estrela, agendada para ser impressa e distribuída no dia 12 de maio. Nela, Lula falava com naturalidade sobre a filha e as condições em que ela nascera.
Coincidência ou não, a revelação da existência de Lurian provocou o desabamento de Lula nas pesquisas e com a subida surpreendente de Collor de 20 para 43 pontos. Mas o miasma Miriam Cordeiro voltaria às primeiras páginas. A história foi cuidadosamente guardada por Leopoldo Collor, irmão mais velho do candidato, que tinha planos de usá-la como carne de canhão no golpe de misericórdia que o programa eleitoral de Collor exibiria às vésperas da eleição. O cerco da mídia ao candidato operário parecia não ter fim. Nesse mês, O Estado de S. Paulo escalou de seu plantel ultraconservador o jornalista José Nêumanne Pinto para publicar, em página inteira, uma comparação estapafúrdica entre a densa reflexão leninista O Estado e a revolução e o programa de governo do Partido dos Trabalhadores. Como o relambório não era extenso o suficiente para encher toda a página, com o propósito de completar o espaço o jornal enxertou um enorme e tosco desenho, em que uma caricatura de Lula se somava à imagem tradicional e conhecida em que aparecem os rostos de Lênin, Marx e Engels. O título, do mesmo calibre do texto, era apropriadamente “PT prega socialismo do século XIX”. É verdade que muita gente naquele Brasil dos anos 1980 ainda se assustava com as propostas do PT, mas só um dinossauro de direita poderia ver as digitais de Vladímir Ilitch Uliánov, o Lênin, no singelo e nem tão radical tridecálogo do partido de Lula […].
Os dois episódios, que se deram no fim da corrida eleitoral, são reveladores da paúra que assaltou a grande imprensa, aterrorizada com a perspectiva de que Lula vencesse o ex-governador de Alagoas. Mas, para chegar a assustar os grandes jornais e o principal adversário, Lula e o PT tiveram que atravessar vários e caudalosos rubicões. Sem recursos e sem uma cobertura isenta da imprensa, a candidatura de Lula capengou entre os 6% e 7% das preferências do eleitorado pelas semanas seguintes à revelação do “caso Lurian” até chegar a arriscados 5% em agosto.
Lula enfrentava adversários duros. De um lado Fernando Collor, que encarnou a fantasia do “fato novo” na política. Promovido nacionalmente pela revista Veja como Caçador de Marajás, por uma campanha que fizera em seu estado cortando supersalários de funcionários públicos, ele insistia em bater e rebater na tecla do moralismo, prometendo privatizar tudo, tirar apartamentos funcionais de ministros e dirigentes de estatais e leiloá-los em hasta pública. Ia vender até a frota de carros oficiais que serviam ao funcionalismo da máquina estatal. Máquina que ele ameaçava moralizar, pondo no olho da rua todos os excedentes da gorda folha de pagamentos do que chamava debochadamente de “barnabés” e, aproveitando a deixa da Veja, fazer no Brasil o que fizera na minúscula Alagoas: passar na guilhotina os “marajás” da área pública federal. Collor tinha a seu lado, abertamente, Roberto Marinho, o dono da Rede Globo de Comunicação, que cobria todo o Brasil – inclusive Alagoas, estado em que a repetidora do sinal global pertencia à família Collor.
E do outro lado de Lula, mas disputando o voto do mesmo universo popular, estava Leonel Brizola, considerado a besta-fera dos militares, um dos primeiros cassados pelo golpe de 1964 quando tentara convencer seu cunhado, o presidente João Goulart, a resistir de armas na mão à sedição direitista. E era recíproco o ódio que Roberto Marinho alimentava por ele – ódio visível na programação da tevê e das rádios Globo e nas páginas do jornal O Globo. Com frequência Brizola – apelidado o Centauro dos Pampas e tratado pelos íntimos como “engenheiro Leonel” – enxertava em seus discursos carbonários uma promessa que ficou famosa, feita desafiadoramente, dedo espetado na lente da câmera, com seu forte sotaque gaúcho:
– Se me elegerem presidente, no primeiro minuto da primeira hora do meu primeiro dia de governo casso com uma canetada todas as concessões de rádio e tevê do sr. Roberto Marinho.
Em meados do ano a candidatura petista ainda não se refizera do baque provocado pela reportagem do Jornal do Brasil sobre o romance com a enfermeira Miriam Cordeiro e sobre a filha dos dois, Lurian. Lula tentava o que podia: rodava pelo Brasil fazendo bons comícios para plateias numerosas, mas a falta de recursos o deixava muito longe daqueles que seriam seus principais concorrentes no primeiro turno. No começo do segundo semestre Lula continuava a engatinhar nos ora 5%, ora 6% das preferências, enquanto Collor voava alto, girando em torno dos 44% a 45%, com Brizola subindo de 11% para 12%, 13% e 14%. […]
Lula decidiu que era hora de definir seu companheiro de chapa. Collor escolhera como vice o senador mineiro Itamar Franco. Brizola também foi buscar nas águas do MDB/PMDB seu companheiro de chapa, o ex-deputado e ex-ministro da Justiça de Sarney, o pernambucano Fernando Lyra. Se dependesse dos setores à esquerda do PT, o vice de Lula seria o jornalista, ativista ambiental e ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, o que faria a Frente Brasil Popular (nome dado à chapa lulista) ampliar a aliança original, que era com o PSB e com o PCdoB, incorporando os quadros (e o modesto tempo de tevê) do PV, o Partido Verde. […]
O nome de Gabeira encontrou obstáculos no próprio PT. Uma parte acreditava que Lula-Gabeira era uma chapa muito puro-sangue, pão com pão, que sensibilizava o arco democrático de esquerda, mas não avançava na direção do centro, onde estavam os possíveis votos que faltavam para Lula encostar em Brizola e, quem sabe, chegar aos índices de Collor. “De posse do tempo na tevê, sem o qual a campanha de Lula cairia de 10 para 5 minutos diários, o PCdoB teve força para vetar o nome de Fernando Gabeira”, escreveu André Singer, da ala intelectual do PT e filho do economista Paul Singer. “O veto ocorreu por dois motivos: Gabeira não preenche o figurino ortodoxo do PCdoB e o partido se considerou diminuído vendo um membro menor da Frente (o PV) ocupar a Vice[-Presidência].”
Sem falar que havia claros preconceitos contra o comportamento de Gabeira, que voltara do exílio envergando uma tanga de crochê nas areias de Ipanema (na verdade, Gabeira usava a calcinha do biquíni de sua prima, a também jornalista Leda Nagle). De acordo com Jair Meneguelli, o “não” a Gabeira se devia também “à imagem de homossexual” que o jornalista passava. Segundo depoimento de Ricardo Kotscho ao jornalista e escritor Lira Neto, a opinião de Meneguelli não era unânime nem representava o pensamento de todos os operários do ABC pioneiros da fundação do PT.
– No encontro nacional da Frente Brasil Popular tinha gente encaminhando a favor e contra determinados nomes [cogitados para serem vice de Lula]. Quem encaminhou a favor do Gabeira foi um dos fundadores do PT, operário raiz lá do ABC. O discurso dele foi mais ou menos assim: “Tem gente que é contra o companheiro Gabeira, porque ele gosta de dar o rabo. Isso é problema dele, ele dá para quem quiser. Nosso partido aqui não tem essas frescuras.”
O personagem citado por Kotscho não foi o único a defender Gabeira como vice-presidente, embora a maioria fosse contra – para um dos contrários ao convite ao jornalista, a foto de tanga havia se transformado num “símbolo da decadência moral”. O vereador Eduardo Suplicy, claro, era favorável, e recorreu a um preceito cristão para manifestar seu entendimento:
– Creio que podemos apoiar o Gabeira. Quem de nós não pecou antes dos quarenta?
Não adiantou, a maioria era contra. Foi então que surgiu a ideia que Lula repetiria trinta anos depois, em 2022, quando chamaria o tucano Geraldo Alckmin para ser seu vice na vitoriosa campanha contra a chapa Bolsonaro-Braga Netto. O nome de 1989 era o do desembargador aposentado do Rio Grande do Sul José Paulo Bisol, que Lula conhecera na Constituinte e que um ano antes estava na lista dos fundadores do PSDB gaúcho. A aproximação de Bisol com Lula ficou a cargo de Luiz Gushiken, então presidente nacional do partido. Com a concordância do convidado, teve-se apenas o trabalho de filiá-lo ao PSB, que já fazia parte da estreita frente que apoiava Lula. A inflexão do PT em direção ao centro deu resultados imediatos. Da escolha de Bisol até o mês de setembro Lula escalou, semana a semana, a rampa ascendente das pesquisas de opinião pública mais reconhecidas, a do Datafolha e a do Ibope – as quais, com diferenças irrelevantes, coincidiam em suas previsões. Lula subiu de 5% para 6%, pulando sucessivamente para 7%, 9%, 11%, 14% e 16%, ultrapassando Brizola e ameaçando o domínio de Collor, que caíra dos confortáveis 44% para perigosos 28%.
O salto de Lula encheu de alegria até a improvável figura do presidente Sarney, que tinha se convertido em saco de pancada de Collor durante a campanha. “O braço da Igreja [Católica] é mais longo do que pensávamos”, comentou um sorridente Sarney numa roda de políticos. Mas a subida de Lula não tocou o coração dos empresários que normalmente investiam em candidatos, como quem aposta em cavalos de corrida. Salvo raras e ralas exceções, a campanha permaneceu em sua toada franciscana, Lula tendo que se submeter aos irregulares horários de voos comerciais ou fazendo longos trajetos de carro. O dinheiro continuava vindo da venda maciça de estrelinhas do PT, de rifas (até passagens para Cuba eram rifadas para fazer finanças) e, acima de tudo, dos 30% dos salários de todos os eleitos pelo partido Brasil afora – vereadores, prefeitos e deputados, que já não eram poucos. Só na guerra do segundo turno é que Lula passaria a utilizar, em seus deslocamentos, um jatinho executivo, conseguido por amigos do governador de Pernambuco, Miguel Arraes, filiado ao PMDB. Ainda assim, tratava-se de uma aeronave em petição de miséria, com dezenas de milhares de horas voadas.
Na ponta do lápis, a arrancada de Lula rumo ao segundo turno mostrava que ele abocanhava cerca de 200 mil novos votos a cada dia que passava. Conforme cálculos da revista Veja, a campanha do PT contava com os braços de cerca de 100 mil militantes, “máquina que custaria a qualquer outro candidato algo em torno de 30 milhões de cruzados novos por mês” (cerca de 56 milhões de reais em 2025). E, se Lula ameaçava virar presidente, era para ele que a artilharia da grande mídia tinha que apontar. A começar pela própria Veja. Em uma semana a revista, que vendia cerca de 800 mil exemplares, selecionava as frases consideradas mais radicais pronunciadas por Lula em palanques ou entrevistas e as publicava em destaque, dentro de um box:
Onde tiver um terreno vazio, o trabalhador sem moradia deve invadir.
Não vamos fazer reforma agrária em beira de estrada, vamos dividir o latifúndio.
No primeiro ano de governo vou dobrar o salário mínimo. É fácil, pois é passar de nada para nada.
Se eleito, vou tabelar o lucro das empresas.
Na semana seguinte vinha a suíte com a repercussão das afirmações de Lula entre os empresários mais conservadores:
Oitocentos mil empresários fugiriam do país caso Lula fosse eleito presidente. Ele está tumultuando o país. Os empresários estão em pânico. (Mario Amato, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)
Não acredito que o Lula ganhe as eleições. Mas as ideias do PT são tão primárias que podem prejudicar a recuperação da economia mesmo que o Lula não passe do primeiro turno. (Olacyr de Moraes, empresário)
Qualquer declaração de Lula que desse margem a interpretação ambígua era imediatamente aproveitada e muitas vezes distorcida por seu principal adversário. Collor nem piscou quando Lula disse que se fosse eleito presidente as elites e as classes dominantes tentariam transformá-lo num “novo Salvador Allende”, uma referência ao presidente socialista chileno que fora derrubado pelo general Augusto Pinochet, em 1973, no golpe militar que transformou o Chile num mar de sangue. Três dias depois, numa entrevista, Collor acusou Lula de “pregar a revolução armada” caso fosse eleito presidente – “denúncia” que ganharia as manchetes dos jornais.
Sem o apoio da imprensa e sem recursos para contra-atacar Collor, que contava, por exemplo, com uma penca de jatos executivos, uma verdadeira flotilha perto do calhambeque voador que Arraes conseguira para Lula, o candidato do PT investia nos setores que o fizeram colar em Brizola: as bases trabalhadoras do ABC e de outros centros industriais do país, a Igreja Católica, os artistas e os intelectuais. À exceção de Marília Pêra e Claudia Raia, que haviam declarado apoio formal a Collor, a ampla maioria das estrelas da música, do teatro e da televisão – inclusive os contratados da TV Globo – estava com Lula. A força da Igreja Católica era de encher os olhos. […] Segundo o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, braço religioso da campanha do PT, cerca de 4 milhões de cristãos, organizados em aproximadamente 150 mil comunidades eclesiais de base espalhadas pelo território nacional, tinham se empenhado “pastoralmente”, de “corpo e alma”, na campanha de Lula. E, a despeito da linha dura imposta pelo papa João Paulo II, 300 bispos (de um total de 367 existentes no Brasil) viam inteira coincidência de sua “proposta pastoral e ética com o programa de governo apresentado pela Frente Brasil Popular” […].
A campanha eleitoral acabaria expondo aos olhos da população o racha ideológico que os católicos viviam. De um lado a organização fundamentalista de direita TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) anunciava o efetivo que pusera nas ruas defendendo a candidatura de Collor: 1,2 mil sócios e cooperadores, 1 530 correspondentes sediados em 372 cidades e mais 5,7 mil simpatizantes espalhados por cerca de mil municípios do país. Segundo o octogenário Plinio Corrêa de Oliveira, presidente da entidade, “na melhor das hipóteses, o Collor é um homem do centro, mas a tendência é que seja levado, maciamente, para a esquerda”:
– Mas é melhor um homem que vai maciamente para onde eu não quero, que outro que vai no tobogã para onde eu não quero.
Na outra ponta as comunidades eclesiais de base contribuíam para o fundo de campanha vendendo nas paróquias, a 65 cruzeiros novos (cerca de 121 reais em 2025), um vídeo de 10 minutos intitulado Olho vivo nas eleições, no qual um boneco, Simão, e uma pessoa, Tonho, discutem se Lula é ou não comunista e analfabeto, como acusara Collor. Quem responde a dúvida no mesmo vídeo é o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho:
– Lula não é comunista, mas um socialista que garantirá a democracia. […] E não é analfabeto, mas alguém que possui a cultura do trabalho, da vida, do sofrimento e da solidariedade. […] Collor é filho, ou neto, do movimento militar de 1964.
No dia 15 de novembro de 1989 o primeiro turno terminou – sem debates entre os dois favoritos, já que Collor se recusara a participar deles –, e as urnas confirmaram o que a maioria das pesquisas antecipara: Collor em primeiro lugar, com 30,5% dos votos válidos, seguido por Lula, com 17,2%, e grudado nos seus calcanhares, Brizola, com 16,5% das preferências. Os votos restantes foram pulverizados entre Mário Covas (11,5%), Paulo Maluf (8,9%), Guilherme Afif Domingos (4,8%), Ulysses Guimarães (4,7%) e Roberto Freire (1,1%). Dali a 33 dias Fernando Collor e Lula iriam para o mano a mano disputando a Presidência da República pelo voto popular, novidade que o Brasil não experimentava desde outubro de 1960.
Trechos do capítulo 6 do segundo volume do livro Lula: biografia, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.
