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    CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

esquina do oriente

Ramadã da refugiada

Em Beirute, uma brasileira é desalojada duas vezes por Israel

Leila Salim | Edição 235, Abril 2026

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LÍBANO

A preparação começou algumas horas antes do pôr do sol. Vegetais lavados e descascados, mesa posta, toalha estendida. Durante o Ramadã, mês sagrado na religião islâmica, celebra-se todas as noites o iftar – a quebra do jejum. Tradicionalmente, as famílias muçulmanas reúnem-se em torno de uma mesa farta, e foi assim no iftar organizado pela brasileira Lindaura Hijazi em 17 de março passado.

A refeição, porém, não foi preparada em uma cozinha doméstica, nem servida na sala de casa. Aconteceu nos corredores e salas de aula da Universidade Libanesa, em Beirute. A mesa foi posta no chão, e os assentos eram os colchonetes usados à noite para dormir. As batatas fritas foram feitas no corredor, com um pequeno botijão de gás.

 

Aos 52 anos, 35 deles vividos no Líbano, Lindaura teve de abandonar seu apartamento às pressas com o marido, o gráfico libanês Bilal Hijazi, de 59 anos, e os dois filhos. A família mora no subúrbio de Dahieh, área residencial densamente povoada onde o grupo Hezbollah mantém algumas de suas instalações. O local vinha sendo pesadamente bombardeado pelas tropas israelenses, que tomaram parte do Líbano, na esteira da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã.

Era a segunda vez que os Hijazi se refugiavam na universidade. A primeira foi em setembro de 2024, depois que ataques aéreos israelenses derrubaram seis edifícios residenciais em sua vizinhança – um deles bem em frente ao prédio onde moram.

Nessa época, Lindaura veio para o Brasil com dois filhos, Sadek e Amin, repatriados em um avião da FAB. O marido ficou no Líbano, para manter seu emprego e cuidar da mãe idosa. Aqui, os meninos foram matriculados em escolas municipais de Foz do Iguaçu, no Paraná. Em 2025, os três retornaram ao Líbano. Logo depois, Hijazi foi demitido e passou a trabalhar por conta própria em pequenos serviços. Além de Sadek, hoje com 14 anos, e Amin, com 8, o casal têm quatro filhas adultas, que já não vivem com a família.

 

Quando começaram os bombardeios israelenses em março passado, a família deixou o apartamento e foi se abrigar primeiro na casa da mãe de Hijazi. Mas o local também estava sendo atacado. Eles resolveram então recorrer mais uma vez à universidade, onde cerca de trezentos refugiados se distribuíram pelo pátio e os três andares do prédio. Eles vinham sobretudo de regiões de maioria xiita, como o subúrbio de Dahieh, em Beirute, o Sul do Líbano e o Vale do Bekaa, no Leste.

Lindaura, a sogra, uma cunhada e as crianças passaram a dividir uma sala da universidade com mais oito famílias. Hijazi dormia no carro, estacionado em frente à universidade. O alojamento, segundo a brasileira, se encontrava dessa vez em uma situação “bem melhor” do que em 2024. O fornecimento de água era contínuo, e estavam mais limpos os banheiros, onde se podia tomar banho e até lavar roupas. Já a eletricidade era intermitente, como em todo o Líbano. Cortes de luz duravam até quatro horas, especialmente durante a madrugada. Kits de higiene e para a limpeza do ambiente foram distribuídos aos refugiados. A comida chegava duas vezes ao dia, entregue por organizações humanitárias cadastradas pelo governo libanês. As crianças estavam sem aulas e passavam o tempo brincando e olhando o celular.

 

Nascida em Assis Chateaubriand, cidade de cerca de 35 mil habitantes no interior do Paraná, Lindaura conheceu Bilal Hijazi em Foz do Iguaçu. Casou-se antes de chegar à maioridade, com autorização da família, e em 1991, aos 17 anos, pisou pela primeira vez no Líbano.

 

Como o país estava saindo de quinze anos de uma guerra civil – que deixou 150 mil mortos e cerca de 10 mil desaparecidos –, muitos expatriados apostaram nos novos tempos e resolveram voltar à sua terra natal. Foi o caso de Hijazi, que se mudara para o Brasil em 1982, depois que Israel invadiu o Líbano.

De família cristã, Lindaura só se converteu ao islamismo xiita depois de estudar e aprovar seus preceitos. E, mesmo já estando convicta da mudança de religião, procurou o conselho de um padre cristão no Líbano. “Ele me perguntou se eu iria me converter por causa do meu marido ou porque eu realmente queria”, ela conta. “Eu disse que tinha estudado e gostado muito do Islã, que queria por mim mesma. Então, ele me deu um tapinha nas costas, disse que Deus me amava e me abençoou.”

Tempos depois da conversão, ela passou a usar o hijab. “Cada vez que eu aprendo mais sobre essa religião, amo mais. Porque ela não é egoísta, não é racista e não é opressora”, afirma. Sua compreensão do Islã tem elementos políticos. “O caminho de Deus é junto com os oprimidos, que tem afeto pelos outros”, ela diz. “Os opressores querem roubar tudo e massacrar. Ou você está no caminho a favor dos opressores, ou está no caminho a favor dos oprimidos.”

 

A história de Lindaura e Bilal Hijazi, como a de muitas outras famílias libanesas, é marcada por deslocamentos sucessivos e perdas de todo o tipo. Logo que ela voltou ao Líbano com os dois filhos, em 2025, preferiu passar um tempo longe da capital. Por alguns meses, hospedou-se com Sadek e Amin no Sul do país, na casa de parentes, até se sentir segura para retornar ao apartamento em Beirute.

Nesse período, esteve em vigor o cessar-fogo assinado – mas nunca efetivamente implementado – entre Israel e Líbano em novembro de 2024. O acordo foi violado por Israel mais de 10 mil vezes até fevereiro deste ano, segundo registros da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil). “Morria gente todo dia. Dois, três, quatro, até famílias. Eram massacres”, ela conta.

Quando finalmente Lindaura voltou a Beirute, Sadek e Amin puderam retomar os estudos, sempre interrompidos pelos deslocamentos. Mas então ocorreram os ataques em março – e a escola foi fechada. “Quando eles estavam começando a gostar do colégio de novo, começou essa guerra”, lamenta a mãe.

Fluente na conversação e na leitura em árabe, Lindaura é conhecida na comunidade de mulheres brasileiras no Líbano como “a jornalista”. Diariamente, lê e traduz para o português notícias em árabe sobre o Oriente Médio e a política internacional, para então compartilhar as traduções com as amigas pelo celular. Ela não acredita que a paz com Israel possa um dia ser possível. “Israel nunca deixou o povo libanês e o povo palestino em paz”, diz.

No alojamento improvisado da universidade, enquanto aguardava pelo fim de mais uma guerra, uma das preocupações da brasileira era saber se o prédio onde sua família mora em Beirute ainda estava de pé. “Acho que não vou ter mais casa. Era a única coisa que eu tinha aqui no Líbano, e não vou ter mais.”

Leila Salim

É jornalista e pesquisadora em comunicação política

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