CRÉDITO: ACERVO MAX FRISCH©_ZURIQUE_1966
Responda, se for capaz
As perguntas incômodas do escritor Max Frisch
| Edição 221, Fevereiro 2025
Introdução e tradução de Claudia Cavalcanti e Arthur Nestrovski
Um dos autores suíços mais importantes do século XX, Max Frisch (1911-91) escreveu romances, contos e peças de sucesso. Suas obras abarcam um amplo espectro temático, tratando inclusive de questões sobre vida a dois (sempre homem e mulher), masculinidade e identidade. A política é um de seus temas essenciais, como não poderia deixar de ser para quem passou pela Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria.
Arquiteto de formação, Frisch teve uma carreira bem-sucedida e premiada neste ofício, que abandonou no início dos anos 1950 para se dedicar inteiramente à literatura. Stiller (1954), Homo faber (1957) e Gantenbein (1964) são alguns de seus romances de grande êxito, com milhões de exemplares vendidos em alemão e traduzidos para várias línguas. Suas peças Biedermann e os incendiários (1953) e Andorra (1961) estão entre as mais encenadas em língua alemã de todos os tempos.
Parte considerável da criação literária de Frisch foi dedicada aos seus diários, nos quais ele reuniu reflexões sobre estética e política, esboços de romances e peças, além de relatos de viagens. Tornaram-se clássicos os volumes Tagebuch 1946-1949 (1950) e Tagebuch 1966-1971 (1972). Neste último, aparecem onze questionários (a maioria com 25 perguntas), que se tornaram famosos entre os leitores de língua alemã, por causa de seu tom provocativo a respeito de variados temas, como amor, dinheiro, mulheres e casamento. Hoje, algumas dessas perguntas fariam com que o escritor fosse cancelado no primeiro minuto de leitura.
Não é o caso do questionário publicado aqui, que abre o diário iniciado no ano de 1966. Dessa vez, Frisch toca em dilemas existenciais e afetivos de todo ser humano, convidando cada leitor a contar (ao menos para si mesmo) suas verdades inconfessáveis. Divirta-se!
- Você tem certeza de que está realmente interessado na preservação da espécie humana, depois que você e todos os seus conhecidos não estiverem mais aqui?
- Por quê? Responda em poucas palavras.
- Quantos de seus filhos não vieram ao mundo por sua própria vontade?
- Quem você preferiria jamais ter encontrado?
- Você se acha devedor de alguém (que não precisa saber disso)?
Se sim, você odeia a si mesmo por causa disso, ou a outra pessoa? - Gostaria de ter memória absoluta?
- Como se chama o político cuja morte por doença, acidente de carro etc. encheria você de esperança? Ou acha que sempre vai ter outro igual a ele?
- Qual pessoa já morta você gostaria de rever?
- E qual não?
- Você preferiria pertencer a outra nação (cultura)? Qual?
- Até que idade gostaria de viver?
- Se tivesse o poder de fazer acontecer o que hoje lhe parece certo,
você o faria mesmo contra a vontade da maioria? Sim ou não? - Por que não, se lhe parece certo?
- Tem mais facilidade de odiar um grupo de pessoas ou uma pessoa
determinada? E prefere odiar sozinho ou coletivamente? - Quando você desistiu de pensar que ficará mais inteligente?
Ou ainda não desistiu? Informe sua idade. - Você se convence com a autocrítica?
- Na sua opinião, no que os outros o levam a mal e no que você mesmo se leva a mal? Caso não seja a mesma coisa: o que o leva a pedir perdão?
- Se você se pega imaginando não ter nascido, essa ideia o incomoda?
- Quando pensa nos mortos, gostaria que o morto lhe dissesse alguma coisa, ou preferia dizer alguma coisa a ele?
- Você ama alguém?
- E de onde tira essa conclusão?
- Supondo que nunca tenha matado alguém, como explica que isso jamais tenha acontecido?
- O que lhe falta para ser feliz?
- A que você é grato?
- Qual dessas duas opções prefere: morrer, ou continuar vivendo algum tempo como um animal saudável? Como qual?
