Cidade maravilhosa: “O Rio destinou os lugares naturais mais belos aos ricos e poderosos, que hoje entendem essa paisagem como algo que pertencesse a todos, sem distinção de classe e raça. Mas, com isso, dissimulam cinicamente o seu próprio privilégio de viver ali, diante do mar, diante do Cristo, diante do Morro Dois Irmãos, desfrutando de lindas ruas e praias” CRÉDITO: CAIO BORGES_2026 (INSPIRADO EM BASQUIAT)
A paisagem brutal
Como enfrentar a beleza e o cinismo do Rio de Janeiro
Danilo Marques | Edição 233, Fevereiro 2026
New York, I love you
But you’re freaking me out[1]
James Murphy
1_Na infância, eu não costumava ir às praias da Zona Sul. Só vim a frequentá-las no fim da adolescência, com uns 16 anos. Eu não gostava de praia, em parte porque nunca me dei bem com meu corpo. Além disso, meus pais não costumavam me levar ao Rio, apesar de morarmos em São João de Meriti, um município da Baixada Fluminense distante apenas 40 minutos de carro da capital. Eu não conhecia Copacabana, Ipanema, Leblon. Não conhecia Catete, Flamengo, Botafogo, Urca. De São Conrado, não sabia nem mesmo o nome. Minha família não frequentava esses locais e achava que restaurantes, centros culturais e teatros não eram lugares para o nosso bico. Minha vida era circunscrita à Baixada Fluminense.
Lembro que, no quarto ano do ensino fundamental, deparei num livro de geografia com uma lista das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Muitas ficavam em outros países, mas, entre elas, estava o Cristo Redentor. Eu pedia aos meus pais que me levassem até lá, mas eles nunca tinham tempo nem grana. Do terraço da minha casa, meu irmão apontava na direção de uma montanha e dizia: “Olha bem lá no alto. É naquele ponto que fica o Cristo Redentor.” Eu via apenas uma mancha indecifrável.
Mais velho, tive a ideia de pegar um dia o metrô, sozinho, e ver enfim com meus próprios olhos a paisagem que irrigava meu imaginário havia tanto tempo. Mas esse projeto foi sabotado pela pandemia, que limitou radicalmente meus movimentos e o de todo mundo.
Em 2022, quando fiz 17 anos, passei em jornalismo na UFRJ, faculdade que fica na Urca, na Zona Sul do Rio. Naquela época, eu ainda tinha pouquíssima noção da vida fora de São João de Meriti. Por isso, nos dois primeiros dias de aula, meu pai foi comigo até lá. Pegamos o ônibus da linha 734, que sai da Vila Norma, bairro vizinho ao meu, e saltamos na Pavuna, que fica na Zona Norte do Rio, onde apanhamos o metrô até Botafogo. Depois, pegamos o ônibus da linha 513, que em cerca de 15 minutos nos deixou na porta. Aprendi o trajeto e passei a ir sozinho.
Eu demorava cerca de uma hora e meia para ir da minha casa à faculdade. As aulas, nos três primeiros períodos do curso, aconteciam à tarde. Para mim, porém, tratava-se de um curso em tempo integral, já que eu saía pela manhã e só retornava à noite. Além de complicado, esse percurso consumia boa parte dos 700 reais da bolsa que eu consegui na universidade: gastava 25 reais por dia em passagens, ou quase 505 reais por mês. Lá pelo terceiro semestre, eu já estava mais aclimatado à região, embora ainda me embananasse quando saía da maratona em três etapas.
Certa vez, uma professora marcou uma aula no Fórum de Ciência e Cultura, na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. Essa via é um cobiçado endereço da Zona Sul, com prédios antigos e elegantes, em geral de estilo europeu. Das janelas dos apartamentos, imensos e caríssimos, podem-se contemplar um dos famosos cartões-postais do Rio, o Pão de Açúcar, e as centenas de veleiros flutuando sobre as águas da Baía de Guanabara. Da minha turma, só eu fui naquela aula. Na saída, precisei do auxílio do GPS para chegar até a estação de metrô mais próxima.
Com medo de ser assaltado, gravei na memória o caminho e guardei o celular no bolso. Prestes a entrar na Rua Senador Vergueiro, decidi perguntar a duas mulheres que estavam um pouco à frente qual era o caminho até a estação. Quando as cumprimentei, antes de fazer a pergunta, elas passaram o olho rapidamente em mim e correram para o outro lado da rua. “Desculpa”, gritei, de longe. E gritando ainda expliquei que estava perdido e queria apenas pedir informação. Uma delas disse: “Achei que fosse assalto.” E riu. Caiu na gargalhada.
Desculpar-me, naquela situação, significava o mesmo que um zero à esquerda. Nem mesmo se eu ajoelhasse. Nem se chamasse a atenção para as roupas de marca que eu estava vestindo, parceladas em dez vezes no cartão de crédito da minha mãe. Nem se exibisse a mochila que indicava que eu era um estudante. Ainda assim, eu continuaria não pertencendo àquele lugar, ao Flamengo, à Zona Sul, ao Rio de Janeiro.
2_Eu estava esperando uma amiga no andar de cima da Livraria da Travessa de Botafogo, que fica na Voluntários da Pátria, a rua mais movimentada do bairro. Em uma espécie de mezanino, fica um café caríssimo. Maria demorou, e demorou muito. Para passar o tempo, comecei a prestar atenção na conversa de uma mulher e um homem de meia-idade na mesa ao lado, ambos com sotaque excessivamente carioca.
Os dois haviam rompido seus casamentos e falavam sobre filhos. Depois, sobre a juventude. Sobre como havia sido legal uma viagem que fizeram no passado à serra fluminense com colegas. Sobre um amigo em comum que, durante a adolescência, fumava maconha sem parar.
O homem pediu um refrigerante zero açúcar. Vestia camisa branca de manga longa, calça de alfaiataria e sapatos pretos, desses lustrosos e bicudos (não pude ver muito bem a mulher: como ela estava do meu lado, eu teria que dar uma guinada de 180° para observá-la por inteiro).
A conversa dos dois, então, enveredou para um assunto que acho especialmente irritante: os problemas da esquerda. Eles comentaram sobre as dificuldades que políticos progressistas enfrentarão nas próximas eleições, o perigo que Tarcísio de Freitas representava (mas o homem tinha alguma simpatia por Tarcísio, dava para perceber). Ele disse: “Acho que o grande problema é o seguinte: os políticos de esquerda não admitem que a polícia meta porrada nesses pivetes.” A mulher deu uma risadinha discreta, como quem concorda e não quer se comprometer, ou talvez como alguém que discorda, mas não o suficiente para argumentar.
Eu, que havia quase uma hora prestava atenção no papo, não me contive. “Acontece que pivete tem cor”, eu disse ao casal, fazendo questão de me intrometer. O homem me olhou espantado, parecendo prestes a ter uma vertigem, e pediu desculpas. Ele disse que era só brincadeira e me ofereceu um copo d’água.
3_Por um tempo, fiz parte de um projeto de extensão na faculdade que realizava experimentações em fotografia analógica. Aprendi a fotografar, revelar e ampliar. Organizávamos, uma vez por ano, um evento que convidava profissionais da área para aulas abertas e oficinas. Todo o grupo era composto por alunos da UFRJ, com exceção de um rapaz, Marcos, que cursava cinema em outra universidade. Ele morava na Gávea, na Zona Sul. De seu apartamento, que deve custar uma cifra macabra, ele via claramente o Cristo Redentor, o mesmo que, anos antes, eu fizera tanto esforço para enxergar.
No segundo ano do evento de fotografia, combinamos que venderíamos camisetas estampadas com desenhos feitos pelo grupo. Marcos, que havia se metido com uma vertiginosa variedade de atividades artísticas, além de cinema, queimou a largada e falou que ele mesmo poderia estampar as camisetas, sozinho. Contribuímos, cada um, com uns 10 reais para comprar os materiais. O resultado ficou uma merda.
Ele, então, abandonou seu habitual mutismo para justificar a lambança. Disse que sua semana havia sido difícil, com vários problemas que consumiram seu tempo e sua atenção. E ali estava o resultado. Para nos consolar, exclamou: “Basta olhar pela janela que tudo passa, pô!”
Eram dias ensolarados e quentes. Marcos falava de forma pausada, muito expressiva, como uma criança, acrescentando em cada uma das frases a interjeição “Pô!”. Depois de dar sua justificativa, aproveitou para fazer uma apologia da alegria inegociável do Rio de Janeiro. Concluiu, dizendo: “Pô, é impossível ter depressão aqui, nessa cidade!”
Suas palavras me deixaram atônito. Pouco tempo antes, eu havia carregado com meu pai e meu irmão o caixão de meu tio, em um cemitério de Mesquita, município da Região Metropolitana do Rio. Aos 59 anos, meu tio morrera com um tiro na cabeça. Tinha sido escolhido ao acaso por traficantes de uma comunidade em Belford Roxo, cidade onde ele morava, que queriam dar um recado a milicianos que pretendiam conquistar seu território. No mesmo condomínio onde meu tio morava, e na mesma hora, foram mortos um porteiro e um rapaz que fazia a pintura das grades do local. As imagens de segurança da rua, divulgadas em telejornais, são brutais: quando ouve os tiros, meu tio corre, mas logo é atingido. Tudo isso aconteceu numa sexta-feira de abril de 2023, às cinco da tarde, quando eu assistia a uma aula online da faculdade.
A Baixada Fluminense reúne treze municípios, com os quais o Rio tem uma relação parecida com aquela que os Estados Unidos estabeleceram com a periferia latino-americana: um misto de exploração e desprezo. A proximidade fez surgir nessa margem urbana um não lugar, uma cidade-dormitório. Não há o que fazer em São João de Meriti. O município tem prefeitos reacionários, políticos inúteis e igrejas neopentecostais às pencas. Não tem hospitais, nem boas escolas, públicas ou particulares. Não existe planejamento urbano. É também uma cidade sem muitas árvores. Debaixo do Sol abrasivo, as pessoas carregam toalhinhas, com nomes ou desenhos bordados, para secar o suor. O asfalto das ruas é precário, e os viadutos espantam com sua cor de fumaça. As bocas de fumo são o que há de mais cosmopolita por lá.
Quem vai de São João de Meriti ao Rio de Janeiro, depois de descer na Pavuna, na Zona Norte carioca, precisa pegar a Linha 2 do metrô. Na parte inicial do caminho, os vagões trafegam na superfície. Da janela, se vê o mesmo padrão da minha cidade: terrenos abandonados, pouco verde, prédios residenciais populares e imensos, muito parecidos uns com os outros. É assim até a Estação Cidade Nova, quando o trem mergulha fundo na terra. E não há grande diferença entre a paisagem depreciada de São João, da Pavuna, de Madureira ou de Parada de Lucas e outros subúrbios.
Para continuar o caminho até a Zona Sul, é preciso trocar a Linha 2 pela Linha 1. Nesta, o trem permanece o tempo todo no subsolo. Quando chegamos ao destino em Ipanema ou Leblon e subimos pela escada até a superfície, parece que, num passe de mágica, fomos transportados do Terceiro Mundo dos subúrbios para outro lugar: o Sol ilumina as ruas arborizadas e as fachadas dos restaurantes e lojas elegantes, pessoas bem-vestidas trafegam com seus cães, as crianças parecem sempre em férias, jovens passam em bicicletas caras, enquanto os entregadores voam em suas magrelas desconjuntadas e as babás sempre uniformizadas levam os bebês para um passeio na praça. Alguns passos mais, e estamos nas praias cheias de turistas flanando pelo calçadão ou estendidos na areia, sob os guarda-sóis coloridos, servidos pelos funcionários maltrapilhos dos quiosques.
No caminho até a faculdade, às vezes caminhava ao lado de Danty, um amigo de origem social parecida à minha e que, morando em Jacarepaguá, na Zona Oeste, demorava quase o mesmo tempo que eu para chegar à escola. Nós dois olhávamos os prédios entre Botafogo e Urca, especulando quanto custava um apartamento ali. Andando um pouco mais, conseguíamos ver o mar na enseada e, depois, chegávamos à Mureta da Urca, de onde se vê o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara. Ali, gente de todas as idades e classes sociais se juntavam, entupindo-se de álcool e de alegria, como numa cena de telenovela. “É tudo muito cínico”, me disse Danty um dia. As palavras dele não me afetaram na hora, mas ficaram guardadas comigo. Eu ainda levaria um tempo para entendê-las.
O Rio destinou os lugares naturais mais bonitos para os ricos e poderosos, que hoje entendem essa paisagem como algo que pertencesse a todos, sem distinção de classe e de raça. Mas, com isso, dissimulam cinicamente o seu próprio privilégio de viver ali, diante do mar, diante do Cristo, diante do Morro Dois Irmãos, desfrutando de belas ruas e belas praias. É um modo de recorrer à dádiva natural para amaciar as mágoas dos que não têm lugar em um ambiente tão seletivo quanto esse.
Um dia as coisas começaram a mudar. Durante o trajeto que eu percorria todos os dias, passou a tomar conta de mim uma tristeza ímpar. Eu sofria dentro da condução que andava pelas ruas estragadas de São João de Meriti. Sofria esperando o ônibus na Rua Professor Lindolfo Gomes, às margens do Rio Pavuna, que cheira mal como um cadáver. E sofria ainda mais quando notava tudo aquilo que os outros tinham ao seu dispor – e eu não. Eram dilemas estabelecidos no que me faltava.
Ao me dar conta do elenco de ausências que constituía minha cidade, comecei a fazer um esforço imenso para acreditar que São João também era parte do mesmo universo semântico que o Rio. Não havia, porém, contraste maior com minha cidade sem praia, sem ruas arborizadas, coberta de lixo, esgoto a céu aberto e a linha decadente de trens cargueiros. Para pertencer ao Rio – já que me parecia uma dádiva viver numa cidade dotada de tanta beleza – passei a dizer que gostava do calor (embora odeie), de praia (apesar de me incomodar a areia colada no corpo), de futebol (ainda que não suporte as reações hipermasculinas que ele provoca).
As desigualdades se manifestavam também de maneiras mais sutis. No primeiro semestre de 2023 (quando consegui uma vaga no curso de radialismo, pois só depois eu me mudaria para o de jornalismo), passei a estudar das 16 às 21 horas. O tempo era calculado milimetricamente para que eu chegasse em casa livre de perigos. Depois das 23 horas, as ruas de São João e da Pavuna viram uma terra sem dono, e eu, bobo, muito provavelmente seria assaltado. O assassinato do meu tio fez com que, para minha família, os perigos não fossem apenas latentes, mas reais. Eu deveria estar feliz por ter conseguido uma vaga na universidade pública (fui o primeiro no meu núcleo familiar imediato), mas a tensão me cercava por todo lado.
Passei a alimentar um forte ressentimento em relação ao Rio ao me dar conta de que, na verdade, era um intruso na paisagem da cidade, tanto do ponto de vista geográfico quanto racial. Eu sentia inveja dos colegas de sala que chegavam na escola em questão de minutos. Que conseguiam, em dias úteis, frequentar, além das aulas da faculdade, o curso de francês, a academia e o cinema à noite. A maioria, aliás, tinha tempo para acumular um capital intelectual notável. Eles frequentavam escolas cujas mensalidades consumiriam parte considerável da renda de toda a minha família. Enquanto para mim a universidade significava uma conquista paradigmática, para alguns desses colegas não passava de um movimento natural de ascensão social.
Estudei por muito tempo numa escola católica. Depois, fui matriculado em uma evangélica. Nos dois casos, tive poucos colegas de classe que sonhavam com a universidade. A maior parte deles vislumbrava entrar nas Forças Armadas ou em alguma força policial. A segurança financeira era o principal motivo dessa decisão – e, por algum tempo, essa mesma possibilidade encheu minha mente. Ser militar ou policial era também para os meninos uma forma de contrariar as expectativas e se alinhar com as forças diametralmente opostas ao tráfico, que os alicia de maneiras muito astutas.
Sentindo que precisava alcançar uma posição equivalente à dos outros – os privilegiados –, me esforcei para ampliar minha cultura. Eu anotava qualquer referência a obras e autores mencionados nas aulas. Fazia o longo percurso de ida e volta à faculdade sempre com alguma leitura nas mãos. Meu objetivo era superar as diferenças mais visíveis entre mim e as pessoas com as quais passei a conviver. Parecia-me um método eficiente de apaziguar pelo menos algumas das minhas feridas.
Mas nem sempre esse era o recurso mais eficaz diante do cinismo com que as pessoas no Rio lidavam com as diferenças sociais, ignorando os esforços alheios para mudar a vida, pois não havia nada a ser mudado na vida dessa cidade onde todos – ricos e pobres, brancos e pretos – podem usufruir hedonística e democraticamente de incontáveis maravilhas.
Foi assim que um sentimento corrosivo de vingança e frustração cresceu em mim, como na Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade:
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan.
Músicas como Menino do Rio, de Caetano Veloso, Do Leme ao Pontal, do Tim Maia, Aquele abraço, do Gil, Samba do avião, de Tom Jobim, começaram a me causar ojeriza. Eu estava me tornando um sujeito amargo, em vez de uma pessoa que poderia aproveitar as mudanças que estavam ocorrendo em minha vida. Não foram poucas as vezes que chorei no vagão abarrotado na volta para casa. Calhou de Drummond também dizer:
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone, perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
No fim de 2023, fui a São Paulo pela primeira vez, para o Festival piauí de Jornalismo. Parcelei o ingresso em duas vezes e me hospedei na casa de Márcia, uma amiga da minha mãe que mora na Vila Prudente, a alguns minutos da estação de mesmo nome, na Zona Leste paulistana. Desembarquei na Rodoviária Tietê, tomei rapidamente um banho e saí logo. Apanhei o metrô e 20 minutos depois estava subindo as escadas da Estação Trianon-Masp, em plena Avenida Paulista.
Não era exatamente um lugar bonito. No entanto, aqueles prédios altos, as ruas entulhadas de gente, o horizonte sem mar e sem morros tinham algo de honesto, pareciam não dissimular nada, o que me comoveu, despertando em mim alguma ternura. Era o tipo de cidade que me atraía, porque ela não impunha nenhuma admiração narcísica a seus moradores: não sendo tão bela, deveria ser apenas vivida como um desafio, e não como uma graça divina.
São Paulo também não exigia que seus moradores a congratulassem sem parar e se deleitassem com seu passado pretensamente aristocrático: interessava mais a abertura para o futuro. De alguma forma, as multidões me camuflavam – ao passo que, em meu estado de origem, as diferenças acabavam me oferecendo algo como um código a ser cumprido.
Era também a cidade que me propiciava, ao menos naquele momento, o direito de ser ativamente melancólico. Ali também era mais fácil entender a minha depressão (causada, nessa época, pelo sem-número de questões que me atravessavam diariamente), porque São Paulo coloca tudo em pratos limpos, sem reagir com cinismo às distâncias sociais nem falsificá-las em cartões-postais.
A fotografia que costuma ilustrar livros didáticos no capítulo sobre desigualdade social brasileira foi feita em São Paulo. Mostra aquele prédio de classe média alta no bairro Morumbi – com uma piscina oval na varanda de cada apartamento –, dividindo o espaço urbano com a favela de Paraisópolis. Os dois complexos residenciais são fronteiriços e estão divididos por um muro.
No Rio, as favelas sofreram um processo curioso: em vez de símbolos da miséria, acabaram como um “cartão-postal às avessas”,[2] compondo o fundo exótico da paisagem espetacular. Há outros exemplos de assimilação da miséria e mesmo do crime no Rio. O desenho do Mickey carregando um fuzil nas costas, acompanhado da frase “Tu tá no RJ, não é Disney”, era um comentário crítico do designer Raphael Brunet, do bairro da Penha Circular, à violência no Rio. Acabou adotado como peça de estilo, com a imagem agora estampada em roupas, bandeiras, cangas e uma grande variedade de produtos. A desgraça virou cinicamente uma modinha.
Sobretudo as músicas consumidas largamente por camadas mais pobres falam de uma geografia afetiva do Rio. É coisa que remonta ao velho samba, avançou pela Bossa Nova, pelo Tropicalismo e chegou até hoje. Os funkeiros e rappers se ocupam, assim como eu, do desejo de ascensão social e reproduzem, apesar dos beats pesados, o mesmo tipo de autocongratulação do imaginário carioca. Nos filmes ambientados na cidade quase sempre é a mesma coisa. Sem falar nas novelas, inebriadas por esforços de conciliação entre as classes sociais e as raças. Com isso, nossa capacidade crítica fica a cada dia mais debilitada. É como se quem ousasse criticar o Rio e sua encenação social não tivesse direito de pertencer à cidade.
Rápido percebi que já não me sentiria em casa nem na Baixada Fluminense nem no Rio. Passei a frequentar apartamentos de alguns amigos que levavam uma vida muito diferente da minha. Mas não conhecia ninguém – com exceção de Danty (que logo saiu do país, imaginando ter uma vida melhor na Europa) – que sentisse algo parecido ao que eu sentia em relação à cidade. Mesmo os que não eram privilegiados de berço, com o tempo acabaram apaziguando seus ressentimentos.
Apartamentos com salas amplas. Móveis modernistas. Quadros abstratos e decorativos. Janelas abrindo-se para a copa das árvores ou para paisagens deslumbrantes. Passei a radiografar os apartamentos que visitava – e o que via das janelas. Quantos metros quadrados tinha a sala de estar. Os livros entulhados na biblioteca. Havia também uma certa obsessão em descobrir se o lugar possuía quarto de empregada e elevador de serviço. Para mim, eram e ainda são marcas muito óbvias do que foi planejado para gente como eu, vinda do lugar de onde eu vinha.
Sempre me acompanhava o sentimento dúbio de querer e de repelir aqueles lugares que eu visitava. Quanto ao subúrbio, eu já não me sentia mais próximo dele, mas não o odiava. Quando ia a São João visitar meus pais, observava o caminho e as pessoas num misto de espanto, desejo e asco. Vinha à mente outro poema de Drummond, A flor e a náusea:
Preso à minha classe e a algumas [roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Em dado momento, quando me aproximava de uma fenomenal depressão, pensei que era hora de mudar, de tentar me conciliar com o Rio e a Zona Sul. Aluguei então um quarto no apartamento de uma amiga, em Botafogo. Custava bem pouco, em comparação com os preços altíssimos da região. Eu demorava menos de 10 minutos até a faculdade e cerca de 20 para chegar à redação da piauí, em Ipanema, onde passei a trabalhar. Na mesma rua em que morava em Botafogo, tinha à minha disposição um posto de saúde, uma clínica da família, um cinema, uma livraria, bares e restaurantes, a estação de metrô e ônibus que iam para todos os cantos. A poucos metros dali, havia também uma delegacia policial. Assim, fui inserido involuntariamente numa espécie de “submundo dos filhinhos”, como canta Fernanda Abreu em seu hit Rio 40 graus.
Meu pai foi quem trouxe de carro a minha mudança: uma pequena vida empacotada em algumas bolsas. Do meu novo quarto, eu e ele avistamos o Cristo Redentor, que nunca pareceu tão perto. Como eu suspeitava, era fácil gostar do Rio morando ali. Me peguei olhando pela janela do ônibus da linha 426 (que sai da Tijuca com destino ao Leblon), admirando os dias ensolarados, um tanto feliz pelas facilidades das quais eu, agora, dispunha.
No sábado à tarde, retornava a São João para ver meus pais na casa em que eles vivem, com seu grande quintal, onde outras duas famílias dividem o espaço. Sempre que volto, me pego contando para eles sobre os lugares que passei a ocupar no Rio, e parece que estou falando de algo tão distante quanto outro país.
Em outubro do ano passado, mais de 120 pessoas foram mortas no Rio em consequência de uma ação policial truculenta, a mais terrível de que se tem notícia. No dia seguinte, a imprensa foi inundada de imagens brutais. Muitos corpos foram estendidos em uma via movimentada do Complexo da Penha. Avós, mães e pais, esposas e filhos choravam sobre os cadáveres.
Mais assustador foi se dar conta de que aquela barbárie estava acontecendo a poucos quilômetros da Zona Sul, onde reinava a certeza de que a violência não chegaria à Avenida Atlântica ou à Vieira Souto. Nestes lugares, a agitação mais visível era a dos trabalhadores, vindos da periferia ou voltando para lá, amontoados nos transportes públicos.
Pouco mais de um mês depois da chacina, chegou o verão. Os dias ficaram diabolicamente ensolarados. Como sempre, os domingos trouxeram gente de todos os cantos e periferias para encher as areias e os calçadões. A cidade irradiava alegria. As pessoas estavam felizes e animadas. Os eventos de outubro pareciam ter ocorrido em outro século. O que há de mais violento no Rio é a paisagem.
[1] Nova York, eu te amo/mas você me deixa assustado, versos da canção New York, I love you but you’re bringing me down (Nova York, eu te amo, mas você me deixa deprimido), do álbum Sound of silver (2007), do grupo LCD Soundsystem.
[2] Trecho do ensaio Sertões e favelas no cinema brasileira contemporâneo (2007), da professora Ivana Bentes, publicado pela revista Alceu: “Etapa histórica, não superada, do capitalismo, e os pobres, que deveriam, dada toda produção de riquezas do mundo, estar entrando em extinção, são parte dessa estranha ‘reserva’, ‘preservada’ e que a qualquer momento sai do controle do Estado e explode, ‘ameaçando’ a cidade.”
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