REINALDO FIGUEIREDO_2024
Riso sem meio-termo
Ricardo Araújo Pereira e sua defesa do humor incondicional – com uma ajudinha de Machado de Assis
André Boucinhas | Edição 218, Novembro 2024
Certa vez perguntaram ao escritor e linguista Umberto Eco qual livro ele gostaria de ter escrito, mas não conseguiu. A resposta veio de pronto: uma teoria da comédia. Para o italiano, nenhuma das grandes obras sobre o assunto – de Freud a Bergson – conseguiu tratar do fenômeno do humor em toda sua amplitude. Incapaz de fazê-lo, Eco apelou para a ficção e escreveu O nome da rosa. Produziu um romance notável, mas precisou se ater a “apenas” uma dimensão do humor – o seu caráter subversivo.
Foi o humorista português Ricardo Araújo Pereira quem contou sobre o dilema de Eco em seu podcast Coisa que não edifica nem destrói, dedicado justamente a fazer aquilo que Umberto Eco não foi capaz. No programa, cuja primeira temporada foi ao ar entre setembro de 2023 e janeiro de 2024 e a segunda começou no mês passado, Araújo Pereira afirma que seu objetivo é discorrer “chatamente” sobre o humor. Mas há muito mais que isso nos dezesseis episódios da primeira temporada do podcast, exibidos semanalmente. Para construir uma visão ampla da comédia, o humorista português tomou emprestada uma série de técnicas e estratégias narrativas de ninguém menos que Machado de Assis.
A primeira pista para isso, claro, está no próprio título, retirado de um trecho de Memórias póstumas de Brás Cubas. No primeiro episódio, Araújo Pereira faz referência a essa alusão, explicando que se trata de uma boa síntese do que pensa sobre o humor: uma coisa que nem edifica nem destrói. Em seguida, conversa sobre o romance machadiano com o crítico literário Abel Barros Baptista, especialista lusitano em Machado de Assis. Ainda que volte a falar do escritor brasileiro somente uma vez, de passagem, a influência dele se faz sentir do começo ao fim – e nos ajuda não só a identificar o tom adotado pelo podcast, mas também a compreender melhor alguns de seus objetivos.
O narrador defunto de Memórias póstumas de Brás Cubas foi uma extraordinária surpresa, mas creio que a inovação mais inquietante de Machado nesse romance é a irreverência com que trata o leitor. A maioria dos escritores de sua época buscava, com a narração em primeira pessoa, criar uma aliança com o público, tratando-o em geral com intimidade respeitosa. Brás Cubas, ao contrário, faz pouco caso não só dos demais personagens do livro, como também do leitor, valendo-se do álibi de estar morto e, portanto, não precisar da aprovação de ninguém. A primeira patada vem logo na abertura, quando afirma que “se [o livro] te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote”. Esse tom perdura até o fim do romance.
No podcast, Araújo Pereira sublinha que está apresentando ali uma visão muito pessoal das coisas e também não se preocupa em afagar o público. Já no primeiro episódio, ele se define como um chato monomaníaco e, depois de arriscar uma primeira definição de humor, adverte que “estamos a nos divertir demasiado e por isso vou falar um bocadinho de etimologia, para sanar esse entusiasmo”. Depois de relatar uma história familiar no episódio Sobre viagra espiritual, antecipa que naquele “ponto os ouvintes já perceberam para onde isto caminha. Estamos perante um daqueles casos em que numa história banal do cotidiano se encontra pretexto para uma reflexão de elevado teor filosófico”. E arremata: “É sempre irritante quando isso acontece.” Apesar de irritante, ele continua – e o ouvinte que se conforme com isso.
Um dos recursos utilizados por Brás Cubas para mostrar que ele só faz o que quer são as longas e frequentes digressões, que quebram a narrativa e atrasam o avanço da trama. Segundo o próprio personagem, seu estilo lembra o andar dos ébrios, que “guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”.
No capítulo I (Óbito do autor), Brás Cubas informa que começará pela sua morte, mas, no meio do caminho, no segundo capítulo, acaba mencionando um tio e decide mudar de rumo e descrever sua genealogia, o que acontece no capítulo III. Mais escancarado ainda é o aparte que faz no capítulo LXXI (O senão do livro), quando diz que se arrependeu de estar escrevendo suas memórias. No capítulo seguinte (O bibliômano), considera suprimir o capítulo anterior, perguntando-se o que um bibliômano, dali a setenta anos, pensará ao ler aquele despropósito. E, no capítulo LXXIII (O luncheon), reclama que “o despropósito fez-me perder outro capítulo. Que melhor não era dizer as cousas lisamente, sem todos esses solavancos!”.
Araújo Pereira tampouco está preocupado em “dizer as cousas lisamente” – e também mergulha em divagações. Na abertura do episódio Sobre medo, informa que antes de entrar no tema fará “uma longa digressão prévia”: recupera um verso de Lord Byron sobre a diferença entre comédia e tragédia, compartilha uma fofoca sobre o casamento do poeta inglês, debocha do caso que ele teve com a meia-irmã e, por fim, resolve falar sobre as origens da Guerra de Troia. Dali salta para o mito de Perseu, porque… bem, porque no fundo Araújo Pereira queria mesmo era falar do escudo de Perseu. Por que deu toda essa volta? Porque ele quis.
As digressões de Araújo Pereira podem ser vistas como uma forma de debochar do público, mas nem ele nem Brás Cubas param por aí. No capítulo IV(A ideia fixa), o narrador de Machado de Assis acusa o leitor de frivolidade, pois “prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades”. Antes de descrever seu famoso delírio (no capítulo VII), arranja tempo para fazer, novamente, pouco caso de nós, que o lemos: “Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração.” Araújo Pereira não deixa por menos. Ele anuncia que o episódio Sobre xixi e cocó (na grafia de Portugal) era há muito aguardado pelo ouvinte, sem dúvida pouco refinado. E ainda lembra que somos “excrementos adiados, digamos assim, estamos pacientemente à espera de ser excrementos. E aqui fica uma ideia bem, bem bonita”.
Não somos apenas nós, leitores e ouvintes, que recebemos esse descaso: os dois narradores tratam a alta cultura com o mesmo desdém. Brás Cubas se formou na Universidade de Coimbra, embora confesse que estudou mediocremente: “Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estroina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico” (cap. XX). Mesmo com essa revelação, não tem pudor de citar autores, obras e máximas clássicas o tempo todo, sempre em tom de autoridade, quando não de superioridade. Faz questão de nos lembrar, por exemplo, que “Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco” (cap. I). Como notou o crítico Roberto Schwarz, “o que dizer da comparação entre as Memórias e o Pentateuco, sutilmente vantajosa para as primeiras, gabadas pela originalidade?”.[1]
Araújo Pereira ainda não se comparou a Moisés ou Salomão, provavelmente por falta de oportunidade. Mas não se inibiu ao rebaixar a causa da Guerra de Troia a uma intriga mesquinha armada por celebridades vaidosas (o que não deixa de ser o caso). No podcast, mitos, personalidades históricas, filósofos e poetas são democraticamente colocados no mesmo barco e tratados todos do mesmo jeito: sem solenidade alguma.
Brás Cubas faz parte de certa elite fluminense que, em 1880, ano da publicação do romance, estava em declínio. O narrador, falecido em 1869, não viu a hegemonia da cafeicultura paulista, nem a força que ganharam os movimentos abolicionista e republicano, empurrando a classe social dele ladeira abaixo. Machado de Assis, ciente da crise que atingia aquela elite, criou um personagem que a representava em toda sua empáfia e autoconfiança, porque no auge de seu poder.
O estilo irreverente, mas autoritário, de Brás Cubas evidencia a marca de um grupo social acostumado a ser senhor em um mundo escravista. O deboche generalizado revela o sentimento de superioridade do personagem em relação às pessoas em geral. O rebaixamento da alta cultura reforça sua posição de autoridade, mesmo no que diz respeito a figuras históricas e até sagradas. As alterações bruscas do ritmo da narrativa são um esforço para se fazer senhor da história e mudá-la a seu bel-prazer. Ao dar voz a toda essa soberba em um momento de decadência, Machado de Assis expunha o quanto havia de ridículo nela.
Os pares profissionais de Araújo Pereira não vivem exatamente num tempo de decadência. Muito pelo contrário: o ofício de humorista nunca exerceu tanta atração, a notar pela enxurrada de comediantes amadores que surgem semanalmente na internet, a proliferação de palcos de stand-up comedy e a ascensão à fama de muitos cômicos. Alguns deles levam milhares de pessoas aos seus shows, mesmo sem ter passado pela tevê ou pelo cinema, bastando o YouTube ou as redes sociais para espalhar seu sucesso.
Além disso, nos últimos vinte anos o humor começou a ocupar um espaço cada vez maior na sociedade, em parte graças à internet e às redes sociais. Os talk shows comandados por comediantes se multiplicaram nos Estados Unidos e passaram a influenciar o debate político. Também no Brasil muitos humoristas são considerados porta-vozes de determinadas bandeiras políticas – tanto no campo conservador quanto no progressista.
Esse novo contexto deu grande destaque social à comédia, mas gerou uma inesperada vigilância em relação às mensagens das piadas e ao posicionamento político dos humoristas. “Humor que perpetua opressão precisa ser silenciado”, dizem uns. “Fazer graça com a minha crença é crime!”, alertam outros. Em comum, ambos têm o desejo secreto (por vezes nem tão secreto assim) de cercear o humor. Além dessas manifestações de ocasião, existe a reação coletiva raivosa nas redes sociais a determinadas piadas, com os cancelamentos virtuais, sem falar na censura de fato por meio de processos judiciais e até da condenação de humoristas.
À primeira vista, Araújo Pereira parece alheio a tudo isso – como Brás Cubas parecia alheio à crise que rondava a elite fluminense a que pertencia. Mas o humorista não está. Desde o primeiro episódio, de maneira mais ou menos explícita, ele aponta a irracionalidade desse policiamento por meio da exposição da natureza do humor. Porém, não ataca a questão de cara. Ele sabe que “muita gente tem tentado produzir uma definição satisfatória do humor e falhado”. Decide não se dedicar a elaborar uma definição complicada, mas “perder bastante tempo com várias definições simples. Ou talvez deva dizer mesmo simplistas”. E completa: “Pode ser, e esta é minha esperança, que várias explicações simplistas se reúnam para compor uma complicada.”
Dessa forma, ele se aproxima do tema aos poucos, em zigue-zague, e vai montando um painel amplo, variado e complexo. Em nenhum momento se preocupa em reunir “as várias explicações simplistas” de forma sistemática e coordenada, mas, se nós fizermos isso por ele, o que emerge ao fim do podcast é uma abordagem de humor nada trivial e muito menos conciliadora.
Araújo Pereira nunca escondeu sua posição radical. Na crônica Ou podemos rir de tudo ou não podemos rir de nada, sem abrir exceções, publicada em sua coluna na Folha de S.Paulo, em 23 de outubro de 2021, foi direto ao ponto:
No que toca ao riso, só existem essas duas posições radicais. Não creio que haja meio-termo. Ou defendemos que é possível rir de tudo ou defendemos que não é possível rir de nada. A partir do momento em que a gente abre uma exceção (“podemos rir de tudo, exceto disto” ou “não podemos rir de nada, exceto daquilo”), deixa de ser possível sustentar a posição.
Em seu livro A doença, o sofrimento e a morte entram num bar: uma espécie de manual de escrita humorística, publicado em 2016, Araújo Pereira escreve: “A primeira constatação do humorista, o seu ponto de partida, talvez seja este: o mundo, aparentemente sólido e inexpugnável, tem uma vulnerabilidade. Permite que o olhemos de mais do que uma maneira.” É uma definição que, além de sagaz, tem um componente político, pois significa que as coisas do mundo não comportam uma única interpretação. Há muitos modos de olhar os fatos, um deles é o humor.
Ele diz que ser humorista “implica uma noção de jogo quase (ou completamente) infantil com as coisas – e conosco próprios. Trata-se de entender as pessoas, os objetos, as ideias, a linguagem como brinquedos, feito de peças possíveis de se organizar de outra forma, acrescentar, subtrair, deformar, virar ao contrário, pôr noutro sítio”. Se o humor é como um jogo e uma forma inesperada de ver o mundo, não há o que impeça de rir de tudo, sem exceção. A sua visão do humor tem, portanto, uma forte coerência intelectual, o que se comprova também nas discussões frequentes que faz na coluna semanal na Folha e, mais ainda, no podcast, onde encontrou o formato ideal para destrinchar e aprofundar a sua compreensão a respeito do que nos faz rir.
No episódio inicial Sobre isto, comenta que “nem todo riso é humorístico, e nem todo humor faz rir”. Parece um mero jogo de palavras, mas a frase aponta, numa forma elegante, para uma distinção que passa batida por muitos que adoram discutir os famigerados limites do humor. Quando alguém tripudia de outra pessoa e os que estão por perto riem, esse não é necessariamente um riso humorístico. Por outro lado, hoje em dia ouve-se que certas piadas “não têm graça” porque ofendem algum grupo ou se opõem a determinados valores, como se a comédia tivesse a função de gerar apenas contentamento, sem contrariar ninguém. “Humor e riso estão, e eu diria que estão orgulhosamente, do lado do que é reles. Estão mais do lado do profano do que do sagrado, mais do lado do caos do que da ordem, mais do lado do abjeto do que do sublime, mais do lado do feio do que do belo, mais do lado do obsceno do que do casto.”
Para ele, a comédia está claramente mais do lado da desilusão do que da esperança, podendo ser considerada a “admissão festiva de uma derrota”. O humorista relembra um antigo chefe de jornal que, na hora do fechamento da edição, dizia em voz alta para os colegas: “Vamos! A vitória é dura, mas é deles.” A fala não diminui o trabalho ou evita as dificuldades, mas ao fazer rir parece tornar a tarefa menos árdua, pelo menos por alguns instantes. Apesar disso, não vende falsas esperanças: “A vida é de fato derrota, é perder.”
A atitude cômica, portanto, nasce de um estranhamento ou de um incômodo (real ou fictício) e não de certezas, por isso o humor não consegue ser dogmático e evangelizador. Alguém pode usar piadas e tiradas espirituosas para fazer propaganda política, mas isso não transforma um deputado ou um presidente em comediante (embora Tiririca e Zelensky tenham provado que o contrário pode ocorrer). No dia 3 de março de 2022, com as notícias trágicas da guerra entre Rússia e Ucrânia, Araújo Pereira resolveu falar sobre o conflito em seu programa de sátira política Isto é gozar com quem trabalha, no canal português SIC. Ao contrário de programas similares – como o Daily Show, de Jon Stewart, ou o extinto Greg News, de Gregório Duvivier –, ele não se preocupa em conscientizar seu público, tanto assim que abriu o show dessa maneira:
Não podemos começar o programa sem referir que estamos a assistir a uma guerra na Europa. E as imagens que nos chegam são obviamente de devastação e morte, e nada disto tem graça, como é evidente. E em circunstâncias normais o silêncio seria nossa única reação possível. No entanto, a CMTV [canal de notícias português] mandou um enviado especial a Kiev e, portanto, em breve podemos não ter Europa, mas programa temos com certeza absoluta. O primeiro aspecto interessante no repórter que a CMTV enviou para nos dizer o que se passa na Ucrânia é que ele não sabe nada do que se passa na Ucrânia.
Nesse momento foram exibidas inúmeras cenas do jornalista afirmando que não tinha nenhuma informação e, em muitas delas, confessa não saber nem que horas são. Todo o bloco se destina a zombar do repórter nas mais diferentes situações, sem emitir uma crítica política sequer, nem mensagens de solidariedade às vítimas ou um pedido de paz. Não que Araújo Pereira seja frio ou sem coração (espero), mas ali está a fazer humor. Em vez de manifestar sua indignação com a guerra, o humorista desencantado focou sua atenção em um detalhe insignificante: um jornalista desinformado. É disso, do despreparo de um correspondente, e não da guerra em si que ele ri.
O comediante parte de uma derrota, mas usa o humor como arma de defesa – e também de ataque. Aqui, Araújo Pereira recupera o mito de Perseu. Sem poder olhar nos olhos da Medusa, o semideus utilizou seu escudo para se proteger e ver sua oponente através do reflexo, para então atacá-la. Como o escudo de Perseu, o humor protege e fere o adversário porque o reflete. E, como todos os espelhos, reflete de forma invertida. No caso do humor, é justamente essa inversão que agride.
Quando zombamos dos nossos inimigos exagerando seus defeitos ou deturpando suas qualidades, estamos nos vingando de um jeito peculiar, o que nos causa prazer. No episódio Sobre rir de tudo e rir de nada, Araújo Pereira conta que, durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos se divertiam cantando os seguintes versos: “Hitler só tem uma bola [testículo], Göring tem duas, mas são muito pequenas, Himmler tem a mesma coisa, e o Goebbels não tem bola nenhuma.” Muitas vezes a comédia é o que nos resta. “É quase nada. Mas é o que há”, escreve o humorista em seu livro A doença, o sofrimento e a morte entram num bar.
Isso é particularmente verdadeiro em relação à nossa derrota maior: a morte. Araújo Pereira é categórico: “Eis a minha hipótese: o homem é o único animal que ri, porque também é o único que tem consciência de sua própria extinção”, escreve em seu livro. As religiões ajudam a lidar com isso de uma dada maneira, a comédia de outra. No episódio Sobre uma coisa engraçada que me aconteceu a caminho da sepultura, Araújo Pereira afirma que a melhor definição para o trabalho do humorista é “fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer”. Tudo é passível de ser zombado, pois em breve todos seremos excrementos. Por isso temos tanto fascínio por piadas de xixi, cocô e flatulência (ele se esqueceu de mencionar meleca) – que nos lembram do nosso lado terreno, provisório, embora seja justamente a consciência de tudo isso que nos torne humanos.
Essa “celebração da contradição humana entre o sublime e o profano”, diz Araújo Pereira, funciona como um importante motor da comédia. Ela não impede a morte, mas nos ajuda a lidar com a ideia. Não à toa, imediatamente depois de uma grande tragédia surgem as zombarias. No mesmo dia do acidente que matou o piloto Ayrton Senna (e isso antes da internet) circularam piadas no Brasil como a que perguntava: “Sabe qual a bebida preferida do Senna? Batida de coco.”
Esse comportamento aparentemente mórbido não é exclusivo dos brasileiros, como Araújo Pereira prova no episódio Sobre uma coisa engraçada que me aconteceu a caminho da sepultura. Ali ouvimos exemplos de americanos que zombaram da própria morte, mandando escrever em seus túmulos coisas como: “Isso não estava na minha agenda”, “Eu bem disse que estava doente” e – como pediu Mel Blanc, dublador do Pernalonga e Patolino – That’s all folks. E nem sequer é mórbido: trata-se justamente de uma forma de encarar a morte e aliviar sua dor, mesmo que temporariamente.
Aliás, os efeitos da comédia são provisórios e limitados, como Araújo Pereira não se cansa de ressaltar. Os danos reais são inexistentes, mesmo quando parece abominável. Em Sobre cozinhar bebés (de novo, na grafia de Portugal), ele recupera o caso do especial da Netflix, Jimmy Carr: his dark material, de 2021, que gerou uma onda de críticas ao humorista britânico, levando inclusive políticos de vários países a sugerir boicotes e mudanças na legislação. Tudo por causa desta piada contada por Jimmy Carr: “Quando as pessoas falam do Holocausto, se referem à tragédia e ao horror dos 6 milhões de judeus aniquilados pela máquina de guerra nazista. Mas nunca mencionam os milhares de ciganos mortos pelos nazistas. Nunca ninguém quer falar sobre isso, porque nunca ninguém quer falar dos aspectos positivos.”
Como rir do extermínio de pessoas?
A questão é que a graça não é essa, explica Araújo Pereira. O humor ali vem da surpresa, não do conteúdo. A piada, contada num tom sério sobre um assunto delicado, vai seguindo de forma coerente e moralista até uma conclusão absurda. Quando a plateia percebe que foi enganada, ri. Simples assim. Ora, como a graça está no fato de a conclusão ser absurda, o comediante mostra que na verdade repudia o assassinato dos ciganos, embora diga o contrário.
Raciocínio semelhante aplica-se à polêmica piada de 2011 de Rafinha Bastos, apresentador do extinto programa de comédia CQC, quando disse que a cantora Wanessa Camargo estava tão bonita grávida que ele “comeria ela e o bebê”. O humor emerge do exagero repentino e não da suposta confissão, já que não só não tem graça como é impossível ter relações sexuais com um feto.
Nesse sentido, confirma-se que a comédia não passa de uma brincadeira com a linguagem. Apesar do vocabulário que a aproxima de um combate (“o comediante bombou”, “ele estava matador”, “que punch devastador”), ela mais confunde do que esclarece. “Normalmente entende-se que o punch do punchline [gatilho que deflagra a gargalhada] acerta no assunto a que a piada se refere. Não é verdade. Quem leva o punch é a plateia. E é importante manter presente que se trata de um punch metafórico, uma espécie de susto, uma surpresa que provoca o riso” (no episódio Sobre pugilismo). Para Araújo Pereira, este, sim, é o limite do humor: não passa de um discurso. E nessa brincadeira muitas vezes dizemos o oposto do que queremos expressar. Chama-se a isso de ironia, e compreendê-la exige certo esforço de interpretação por parte de quem ouve. Esforço que anda em falta no mercado.
Sobre rir de tudo e rir de nada é um dos episódios menos divertidos e menos machadianos do podcast, mas um dos mais reveladores. Araújo Pereira retoma o título e o conteúdo da mencionada coluna da Folha de S.Paulo – e avança. Reproduz diversos trechos de uma palestra do ensaísta português Desidério Murcho, intitulada Quando o humor é danoso. Como o nome – da palestra, não do filósofo – já indica, Murcho acredita que “em muitos casos de humor, os danos são inequívocos” e que, quando isso acontece, “a sua proibição ou pelo menos a sua reprovação social é perfeitamente adequada”. Por fim, Murcho diz: “Fazer humor sobre coisas sérias é danoso, fazer humor sobre outras pessoas é danoso, fazer humor sobre nós próprios é danoso, fazer humor sobre crítica social é danoso, fazer humor sobre facínoras é danoso.”
O que sobrou mesmo? Murcho, pelo menos nesse discurso, parece uma versão moderna do venerável Jorge, monge de O nome da rosa, que desprezava o riso e só enxergava perigo nele. É praticamente o oposto de tudo aquilo que Araújo Pereira acredita e defende bravamente em seu podcast. Talvez por isso refute com aparente mau humor os argumentos do seu sisudo conterrâneo. No fundo, os dois concordam com a máxima de que “ou defendemos que é possível rir de tudo ou defendemos que não é possível rir de nada”. Apenas estão em lados opostos.
Pessoalmente, desconfio um pouco do tudo ou nada. Gosto da distinção do humorista britânico Rowan Atkinson (famoso mundialmente por interpretar Mr. Bean, mas muito maior do que esse personagem), que diz:
Criticar uma pessoa pela sua raça é claramente irracional e ridículo, mas ridicularizar sua religião, isso é um direito. Isso é liberdade. A liberdade de criticar ideias, qualquer ideia – incluindo as crenças mais sinceras – é uma das liberdades fundamentais da sociedade. […] O direito de ridicularizar é muito mais importante para a sociedade do que o direito de não ser ridicularizado porque, para mim, representa abertura – e o outro representa opressão.
Diferenciar entre características inatas e pensamentos e atitudes não resolve todo o problema dos limites do humor, mas me parece um guia interessante. Também penso que o humor, apesar de ser um discurso, pode causar um efeito na realidade maior do que Araújo Pereira está disposto a aceitar.
As charges, piadas e histórias humorísticas que zombavam da família real francesa no século XVIII contribuíram para desmistificar a monarquia aos olhos do povo e, por isso, foram fundamentais para colocá-lo contra a aristocracia durante a Revolução Francesa. Afinal, quando uma charge representa o rei Luís XVI como um porco chifrudo (em referência às traições de sua mulher) e a rainha Maria Antonieta como uma hiena com cabelos de Medusa, não só temos um desenho divertido, mas também um meio de mostrar que ambos estão muito longe das figuras superiores que consideravam ser. Se a população ainda visse seus monarcas como sagrados, pensaria duas vezes antes de derrubar a Bastilha, invadir Versalhes ou vibrar com a cabeça de um rei rolando guilhotina abaixo. Por outro lado, a infantilização e a ridicularização dos negros nos palcos de comédia americanos durante o século XIX e parte do século XX reforçavam a impressão de sua inferioridade para as plateias brancas e contribuíam para justificar as leis segregacionistas.
Nenhum desses exemplos implica concordar com Desidério Murcho ou o cerceamento do humor. Se dependesse da elite francesa setecentista, que considerava as sátiras à nobreza e aos monarcas ofensivas e de mau gosto, toda essa comédia teria sido proibida. E foi. Mas continuou existindo na clandestinidade e desempenhou um papel nada desprezível na queda do absolutismo. Hoje agradecemos a esses artistas, quase todos anônimos, por terem desrespeitado a lei, e saudamos o resultado desses crimes.
Como prever todas as implicações da eliminação de uma determinada piada? E mais: se você pode censurar aquilo que considera nocivo, por que aquele que pensa o oposto não pode? Quem deve deter o poder de decisão? Os riscos da censura são sempre muito maiores do que os da liberdade, como Araújo Pereira faz questão de ressaltar.
Interpretar uma obra tão perto de seu lançamento é sempre um risco. Em fevereiro de 1881, ano seguinte à publicação do romance de Machado de Assis, uma crítica do jornal Gazetinha assinada por U. D. (possivelmente o jornalista Urbano Duarte de Oliveira) afirmava que a obra era “deficiente, senão falsa”. Já o crítico Sílvio Romero escreveu que o estilo do autor não passava de uma “imitação afetada e pouco natural de autores ingleses”. O tempo deixou claro o épico erro de julgamento de ambos.
Minha tarefa aqui foi, pelo menos em parte, mais ousada do que a desses críticos, uma vez que o podcast de Ricardo Araújo Pereira sequer terminou. Certo, Coisa que não edifica nem destrói não é Memórias póstumas de Brás Cubas. O que analisei aqui nem sequer é uma obra de ficção, mas os recursos narrativos do podcast disfarçam algumas de suas intenções, que podem passar batidas aos ouvintes. E, para piorar, sempre há o risco de que Araújo Pereira esteja brincando (malditos comediantes!).
No entanto, a reflexão sobre o humor atravessa todo o seu trabalho – do grupo de humoristas Gato Fedorento até o programa de tevê Isto é gozar com quem trabalha, passando por seus livros, crônicas e podcasts. Sem dúvida, tenho uma vantagem adicional nessa história: mais de cem anos de tentativas de compreender o próprio Brás Cubas. A crítica especializada nos ensinou que devemos desconfiar de narradores que aparentam despretensão e simplicidade, pois muitas vezes são estes os mais ambiciosos e que sabem exatamente aonde querem chegar.
[1] No livro Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis (Duas Cidades/Editora 34).
