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    Janela do Palácio do Planalto após a invasão de 8 de janeiro de 2023: “Talvez, em um futuro apocalipse, essas ruínas revelem que esses prédios foram construídos não para impor a vontade da maioria, nem a de Deus, mas para proteger o que é vulnerável da força bruta”, diz Petra Costa CRÉDITO: DIVULGAÇÃO

questões cinepolíticas

Se essas ruínas falassem

O documentário Apocalipse nos trópicos, de Petra Costa, entre a catástrofe e a revelação

Eduardo Escorel | Edição 226, Julho 2025

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Relevante, audacioso e denso – essa foi minha impressão de Apocalipse nos trópicos, o novo documentário de Petra Costa, a que assisti pela primeira vez no início de junho passado. Faz quase um ano que o filme estreou no Festival de Veneza, fora de competição. Depois disso, foi exibido em diversos festivais no Brasil e no exterior. Chamou a atenção, de imediato, a intensa cobertura da imprensa internacional especializada quando o filme passou em Veneza, enquanto a repercussão no Brasil segue, até o momento, bastante limitada, o que não era de se esperar. Afinal, além de ter qualidades raras em documentários brasileiros recentes, Apocalipse nos trópicos trata de um tema atual e indispensável para compreender um dos principais dilemas do país: a influência decisiva do fundamentalismo evangélico no processo político, e a ameaça daí decorrente ao regime democrático.

Além de escrever, dirigir e produzir Apocalipse nos trópicos, Petra Costa é também a narradora do documentário, o que ela faz, em parte, na primeira pessoa. O texto da narração inclui referências a diversos autores sem identificá-los de imediato – seus nomes aparecem, entretanto, nos créditos finais. Além de passagens da Bíblia, na versão do rei James, são citados, entre outros, a escritora americana Ayana Mathis, a pesquisadora britânica das religiões Karen Armstrong, o documentarista João Moreira Salles,[1] o jornalista Fábio Marton, os apresentadores de podcast Ramtin Arablouei e Rund Abdelfatah, e os filósofos Friedrich Nietzsche e José Ortega y Gasset – autores que sinalizam, por si sós, a magnitude da ambição de Costa.

Apocalipse nos trópicos é um ensaio em forma de documentário que compõe um díptico com o filme anterior da diretora, Democracia em vertigem, sobre o qual escrevi ser “difícil conceber projeto mais ambicioso” (Democracia corrompida, piauí_153, junho de 2019). Engano meu. Não só o novo documentário é tão ou mais audacioso, como reincide em uma visão de “abrangência excessiva”, conforme assinalei no comentário publicado há seis anos. O dano é, porém, minimizado, se forem levadas em conta a importância do tema e as virtudes da realização.

 

A origem do interesse de Costa pela fé evangélica é revelada ao espectador depois do prólogo, os créditos de apresentação e uma cena que mostra um pastor e quatro mulheres orando em uma casa modesta, na tentativa de reconfortar a de comportamento suicida. Aos 11 minutos do início do filme, a narradora diz:

Antes de filmar aqueles pastores em Brasília [é uma referência às cenas do prólogo], eu sabia pouco sobre a fé evangélica. Eu só sabia que, em qualquer cidade do Brasil onde não tem hospitais nem ruas pavimentadas, tem sempre uma igreja evangélica, oferecendo serviços sociais, um senso de comunidade e um sentido para a vida [a narração é então acompanhada de outras cenas de pastores pregando]. A minha formação laica não estava me ajudando a decifrar os sinais em meu entorno [cenas de mulheres rezando com as mãos levantadas, chorando e se abraçando; plano próximo de página da Bíblia]. Eu sabia o que era Revolução Russa e a fórmula do oxigênio, mas nada sobre Paulo, João de Patmos ou os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Era como se compartilhássemos a mesma Terra, mas falássemos línguas completamente diferentes. Então, eu finalmente começo a estudar a Bíblia.

Um dos grandes méritos de Apocalipse nos trópicos é ser a crônica audiovisual do aprendizado pessoal de Costa, instigada pela vontade de conhecer algo que ignorava – virtude considerável, por tornar o documentário uma longa jornada em busca de conhecimento.

 

Explicação mais detalhada da inspiração para fazer Apocalipse nos trópicos está na entrevista da diretora a Simone Zuccolotto, gravada em Veneza para o Canal Brasil, em setembro de 2024:

A gênese desse filme está em 2016, quando eu e meu fotógrafo, João Atala, fomos ao Congresso brasileiro para tentar entender o que estava acontecendo com a democracia. E aí, quando a gente entrou lá, em vez de achar deputados falando sobre as questões do impeachment, a gente achou o pastor [e deputado federal, na época] Cabo Daciolo, junto com muitas fiéis, abençoando cada mesa do Congresso e falando em línguas.[2] Então, eu cheguei para o pastor e perguntei: “O que que vai acontecer com a democracia brasileira?” E ele me disse: “A única certeza é que o governo de Deus vai se estabelecer no país.” Em seguida, ele me entregou a Bíblia e pediu que eu aceitasse Jesus no meu coração.

No prólogo, vemos e ouvimos (aos 3 minutos e 35 segundos do início do filme) Cabo Daciolo responder à mesma pergunta de Costa. Ele diz:

 

Na verdade, olha só: está declarada a queda do governo do ímpio. A nação brasileira está vivendo um momento novo. Eles não conseguem entender o que está acontecendo porque a guerra não é contra homens, a guerra é espiritual. Entrou Jesus. Em nome do Senhor Jesus. A vitória. A vitória. Essa Bíblia aqui é para vocês. Aqui está a verdade. Comecem a leitura no Novo Testamento. Não começa no Antigo, não. Comecem aqui, em Mateus. [Daciolo entrega a Bíblia a Costa]. Aqui vai falar de Jesus Cristo. Esse é o Deus que eu sirvo. Para a honra e a glória de Jesus Cristo.

Portanto, de acordo com Cabo Daciolo, há uma guerra espiritual em curso, o que vem a ser um dos temas dominantes de Apocalipse nos trópicos.

Na continuação da entrevista ao Canal Brasil, Costa revela:

Aquele momento [no Congresso, em 2016] foi o momento em que os meus olhos se abriram para um fenômeno do qual eu não tinha consciência até então, que é esse casamento entre a religião evangélica, especialmente o fundamentalismo religioso evangélico, e a política, que está se consolidando muito rapidamente no Brasil e diz respeito a cada um de nós. […] Então, esse filme é um mergulho para tentar entender […] quão firme está a parede que divide a religião e o Estado no Brasil. […] O filme é uma investigação […] Uma camada do cinema direto, que acompanha a política brasileira nessa mistura e nesse casamento com a religião evangélica. Uma outra camada é a investigação através dos milênios de o que significava a interpretação dessa palavra ‘apocalipse’, que foi mudando para os cristãos, e como isso influencia diretamente a política. Existem grupos que rezam pelo fim do mundo, que esperam que o fim do mundo se antecipe, para antecipar a volta de Jesus. Isso era algo que eu não imaginava, que eu não sabia.

“Vertentes” ou mesmo “assuntos” seriam termos alternativos possíveis para as “camadas” entrelaçadas ao longo dos 109 minutos de duração de Apocalipse nos trópicos.

No catálogo online do Festival de Veneza, a diretora declarou, ademais:

Esse encontro [com evangélicos no plenário da Câmara, em 2016] me levou a uma jornada pelos símbolos e mistérios do cristianismo – e, ao mesmo tempo, me submergiu na turbulência política que assola o Brasil. Testemunhei multidões ouvindo Silas Malafaia, o televangelista mais influente do Brasil. Fiquei diante de pinturas renascentistas retratando as almas em chamas do Apocalipse. Filmei fiéis brasileiros de joelhos no meio das ruas, interpretando a pandemia como um sinal de Deus. A crença espiritual flui de uma necessidade humana profunda e inescapável. Ela deveria ser compatível com a vida e o funcionamento de uma democracia, mas nem sempre é o caso. Quando as forças do fervor religioso se chocam com os ideais democráticos, o resultado pode muito bem nos lançar à tirania.

Assim, Costa entende que o choque das forças do fervor religioso com os ideais democráticos não é apenas uma guerra espiritual: ele tem consequências práticas na esfera política – tema correlato de Apocalipse nos trópicos. Em 2016, quando inicia a filmagem de Democracia em vertigem, a diretora diz que “uma crise política e econômica estava deixando os brasileiros descrentes dos poderes da democracia” e que ela teve a revelação que a levaria, alguns anos depois, a investigar o fundamentalismo evangélico em seu novo filme.

Em decorrência das declarações de Costa, resulta natural que a primeira imagem mostrada em Apocalipse nos trópicos seja um detalhe mínimo do famoso tríptico O jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch: na parte superior do painel central, um grupo de pessoas nuas, agarradas umas às outras, está saindo da água e entrando pela abertura estreita do que parece ser um imenso ovo. Entre múltiplas interpretações, há quem considere que Bosch dá ênfase à relação entre o diabo e o cuidado do Jardim, equiparando a cena paradisíaca a um ambiente demoníaco e à premonição apocalíptica. De acordo com essa visão, a cena no centro da tela que retrata os amantes do prazer (em vez de devotos de Deus), nesse falso paraíso, demonstra que o Anticristo tem o controle do ser humano, aproximando-o cada vez mais da situação apocalíptica.

O plano seguinte ao detalhe de O jardim das delícias terrenas é Brasília – os prédios da Câmara e do Senado circunscritos por uma janela, como a indicar que o Congresso é o local privilegiado dos embates previstos e um dos principais focos de atenção do documentário. Seguem-se imagens da capital em várias épocas, desde quando ainda estava em construção. Após 20 segundos de música, a narração associa essa sequência inicial a “uma visão do futuro do Brasil […] com o desejo de iniciar uma verdadeira democracia, mais igualitária, mais justa. E o cimento que a manteria de pé era uma fé. Não em Deus, mas nas ideias igualmente abstratas de progresso e democracia”. Nesses termos, Apocalipse nos trópicos poderia ser resumido como a história do mais recente episódio de transformação da utopia em distopia.

Ficam assim delineadas, nos primeiros minutos do documentário, as ideias em confronto que Costa procura dissecar. Subdividido em cinco capítulos numerados e epílogo, com seus respectivos títulos, esse arranjo serve de baliza para orientar o espectador, que é conduzido pela narração ao sabor de uma livre associação de ideias.[3]

 

Jair Bolsonaro não deixa de ser um personagem destacado no filme, mas o protagonista de Apocalipse nos trópicos é mesmo o pastor evangélico neopentecostal Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec). Apesar de só ser apresentado no Capítulo I (O influenciador), ele tem presença destacada do prólogo ao epílogo.

Em um evento ocorrido “a alguns metros do Congresso” em 2016, sobre o qual Costa diz não ter entendido bem “o que estava testemunhando”, Malafaia é chamado ao microfone, diante dos então deputados federais Jair e Eduardo Bolsonaro, e se dirige aos gritos à multidão que está com as mãos levantadas:

Nós estamos aqui para declarar: o Brasil esquerdopata não vai incendiar o Brasil, não! Aqui é lugar de paz! Nos chamam de fundamentalistas. Verdade. Nós temos fundamento. Somos contra aborto. Temos fundamento! Somos a favor da vida. Somos contra a liberação de drogas. Temos fundamento! Nosso Deus e nosso Pai [os fiéis repetem esta frase e também as que vêm a seguir], nós declaramos: O Brasil é do Senhor Jesus! Amém!

“Agora, revendo essa cena”, diz Costa no filme, em off, “percebo que eles estavam profetizando, ou melhor, planejando o futuro do país.”

Na próxima sequência, que mais parece um vídeo de propaganda política da campanha presidencial de 2018 (a dificuldade de identificação da proveniência das cenas incluídas no documentário é frequente e perturbadora), Malafaia olha diretamente para a câmera e propõe explicar “por que você deve votar em Bolsonaro para presidente da nossa nação. […] [Ele] tem uma das coisas mais importantes, nesse tempo, que nós precisamos no Brasil…” – mas não termina a frase. Quem esclarece, no plano seguinte, “o que nós precisamos no Brasil” é o próprio Bolsonaro, discursando em off com imagens da Avenida Paulista, tendo o prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ao fundo e uma moça em primeiro plano, usando uma camiseta preta com a palavra “intervenção” impressa em letras brancas. “Se eu chegar lá, no que depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa”, diz Bolsonaro.

Outros manifestantes também usam camiseta, ora branca, ora preta, pedindo “intervenção” (militar, se subentende), prestando continência ou colocando a mão no coração, enquanto as promessas do candidato prosseguem em off: “Não vai ter um centímetro demarcado pra reserva indígena ou pra quilombola.” Recorrendo ao tripé de uma câmera para simular uma metralhadora, Bolsonaro faz mímica, como se estivesse atirando, e grita em sincronismo com a imagem: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre!” – referência, feita em 1º de setembro de 2018, ao PT, que governava o estado desde 1999.

O que o candidato de Malafaia promete é um massacre, promessa que, vista em retrospecto, prenuncia o plano, revelado quatro anos mais tarde, de cometer assassinatos para impedir a posse de Lula. Primeiro, promessa de campanha. Depois, plano frustrado que, se levado adiante, teria sido catastrófico.

Ainda no Capítulo i, Malafaia aparece, no hospital, ao lado da cama de Bolsonaro, esfaqueado cinco dias depois das declarações feitas no Acre e a um mês do primeiro turno da eleição, em 2018, vítima da violência que incitou ao dizer que iria “fuzilar a petralhada”. “Foi milagre”, sussurra Bolsonaro. “Foi milagre, como ele está dizendo. Foi milagre”, concorda Malafaia.

Dois dias depois de ser eleito presidente da República, com 55,13% dos votos válidos, Bolsonaro é recebido por Malafaia no palco da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, diante da multidão de fiéis, aos gritos de “Mito! Mito! Mito!”. “Deus escolheu as coisas loucas para confundir as sábias”, proclama Malafaia, ao lado do novo presidente, de cara fechada o tempo todo:

Deus escolheu as coisas fracas para confundir as fortes. Agora a coisa vai ser mais profunda. Deus escolheu as coisas vis, de pouco valor, as desprezíveis, que podem ser descartadas, as que não são, que ninguém dá importância, para confundir as que são, para que nenhuma carne se glorie diante dele. É por isso que Deus te escolheu.

Petra Costa reage de imediato a Malafaia, pela primeira vez: “Deus escolheu as coisas loucas, fracas, vis e desprezíveis”, ela repete. E prossegue: “Usando esses versos bíblicos, Malafaia inaugura um novo tipo de líder para o Brasil. Alguém cuja falta de capacidade é justamente o que lhe permite se tornar um instrumento de Deus.”

O Capítulo I termina com a capela do Palácio da Alvorada ao pôr do sol, seguida das imagens da piscina e dos espaços internos, sem vivalma.

Malafaia faz apenas breve aparição no início do Capítulo II (Deus nos tempos do cólera), mas reaparece, a todo vapor, a partir da abertura do Capítulo III (Domínio). Visto do banco de trás do carro que está dirigindo, ele não demora a soar a buzina para reclamar, num acesso de mau humor, do motoqueiro que cruza à sua frente:

Para deixar de ser abusado. O que que ele pensa que é? Ele pensa o quê? Fica costurando pra lá e pra cá e ainda quer buzinar. Vá tomar banho esse cara. Vai aprender a pilotar essa porcaria. […] O que é que foi? Ainda quer reclamar. Que é que foi? Tá fazendo besteira pra lá e pra cá. Tá pra lá e pra cá. Quer ser jogado lá fora. Quer o quê? […] Olha os seguranças, vai dar um susto nele, agora. […] O pessoal pensa que pastor é pro cara vir e pisar no pescoço, porque é pastor. Jesus virou mesa no templo, irmão. O pessoal não conhece a Bíblia. Jesus pegou o chicote e saiu arrebentando com a turma que estava de safadeza no templo. Virou mesa, deu chicotada. Não teve moleza.

Depois, Malafaia aparece no filme diante do Ministério da Justiça, em Brasília, discursando. Protesta contra a criminalização da homofobia, acusando o Supremo Tribunal Federal (STF) de ter rasgado a Constituição. A multidão grita repetidas vezes: “Igreja unida jamais será vencida!”

Em seguida, Malafaia está no seu jato marca Cessna Citation III, batizado “Favor de Deus”, a caminho de Brasília, em 2021, para encontrar o presidente Bolsonaro. Com a máscara cirúrgica (por causa da pandemia) caída no queixo, ele diz que o avião “custou 1,4 milhão de dólares e hoje vale uns 800 mil”. Sobre a pauta da conversa com o presidente, diz: “O discurso de Bolsonaro da campanha, lá atrás, de que tinha que ter um evangélico no Supremo. […] Eu não sei se o presidente vai arriscar, mesmo tomando pressão de tudo que é lado aí, de não cumprir essa palavra porque ele vai ficar numa saia justa no mundo evangélico.”

No Capítulo IV (Gênesis), enquanto Malafaia toma café, sentado na mesa de sua mansão, com bolo, torta e pães à mesa, uma pergunta é feita em off: “O que o senhor acha que vai acontecer em 2022?” Malafaia responde: “Vai perder a eleição”, referindo-se a Lula. “Sabe por quê? Ele tá ferrado no mundo evangélico. Ele tá ferrado no mundo evangélico. Anota o que eu estou te falando. Nós somos mais de 30% da população.[4] Não vai dar para ele não.”

No cercadinho do Alvorada, Bolsonaro declara que “eles vão ter que apresentar uma maneira de termos uma eleição limpa, se não tiver, nós vamos ter problemas o ano que vem”. Em uma live, afirma que entrega “a faixa presidencial para qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa, na fraude não”. Petra Costa observa: “Ao colocar sob suspeita o sistema de votação do país”, Bolsonaro dava “o primeiro passo de qualquer manual para matar uma democracia”. E, quando o ministro do STF Alexandre de Moraes ameaça tornar Bolsonaro inelegível, a narração completa: “A guerra estava declarada.”

No comício de 7 de setembro de 2021, na Avenida Paulista, Bolsonaro está no palanque, rodeado por seguidores de camiseta amarela, nas quais está estampado: “Sim. Mudaremos o Brasil.” Um deles é Malafaia, que ataca o ministro do STF: “Não vai ser a caneta de um ditador de toga que vai derrubar um presidente eleito pelo povo! Deus vai derrubar essa gente. Vamos ao progresso e a uma vida abençoada. Deus abençoe a todos.”

Malafaia passa a palavra, entregando o microfone a Bolsonaro, enquanto a multidão grita: “Mito! Mito! Mito!” Bolsonaro: “Deus nunca disse para Israel: ‘Fique em casa que eu luto por você.’ Ele sempre disse: ‘Vai à luta que eu estou com você.’” A imagem congela, e Costa explica em off: “Vamos olhar de novo essa cena.” A imagem retrocede e a narração continua: “Aqui, Bolsonaro olha para Malafaia em busca de aprovação.” O pastor assente com um movimento de cabeça. “E Malafaia parece saber exatamente o que o presidente vai falar.” Bolsonaro repete: “Vai à luta que eu estou com você.” E prossegue: “Não podemos admitir uma só pessoa querer fazer valer a sua vontade. Chegou o momento de dizermos a essas pessoas que agora tudo vai ser diferente. […] Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha. Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá!” A multidão grita várias vezes: “Eu autorizo!”

Vale destacar três aspectos dessa sequência. Trata-se, em primeiro lugar, de uma convocação explícita para a população “ir à luta”, ou seja, combater. Além disso, ao atacar Alexandre de Moraes, o então presidente da República faz exatamente o que acusa o ministro do stf de estar fazendo. Finalmente, esse é um raro momento de Apocalipse nos trópicos em que Costa interfere para analisar o teor da imagem que, regra geral, ao longo do documentário, serve de ilustração do que está sendo narrado e é acatada como sendo uma reprodução da realidade.

 

Antes de retomar o fio da meada do confronto que se aproxima, o Capítulo V (Guerra santa) faz uma incursão didática nos livros do Apocalipse, ilustrada com pinturas renascentistas, e lança mão de uma sequência do filme O Evangelho segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini, acompanhada dos versos do spiritual cantado por Odetta:

Sometimes I feel like a motherless child

A long way from home…

(Às vezes me sinto uma criança sem mãe/Longe de casa…)

Segundo Costa, quando se tornou candidato à reeleição, Bolsonaro assumiu a persona de quem foi ungido e detém o poder. “E, enquanto a esquerda se resigna a propor reformas sociais modestas diante de um sistema capitalista falho”, comenta a narradora, “a extrema direita fala em um nível totalmente diferente. Ela encarna um tipo de fervor revolucionário, declarando a supremacia divina e a guerra santa.”

Malafaia reage às afirmações de Lula, feitas em um comício, segundo as quais “há gente que não está tratando a igreja para cuidar da fé ou da espiritualidade. E está fazendo da igreja um palanque político. Eu, Luiz Inácio Lula da Silva, defendo o Estado laico. E eu falo isso com a tranquilidade de um homem que crê em Deus. Quando quero conversar com Deus, eu não preciso de padres ou de pastores”.

Malafaia não mede as palavras ao retrucar: “Vá lavar essa tua boca de cachaça e para de falar asneira, rapaz. Quem te falou que pastores e padres são intermediários entre Deus e o homem? O mediador entre Deus e o homem é Jesus Cristo, 1º Timóteo, 2:5.”

Em seguida à diatribe contra Lula, imagino que para mostrar haver pastores contrários a Malafaia, Costa inclui uma gravação feita pelo pastor Paulo Marcelo – candidato do Solidariedade a deputado federal em 2022 –, na qual ele chama Malafaia de “um câncer para o Evangelho”.

A diretora entrevista Lula entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, enquanto ele toma café, em casa, com Janja da Silva, sua mulher, sentada ao lado:

Petra Costa: Presidente, por que nos últimos meses o Bolsonaro te ultrapassou no segmento evangélico nas pesquisas eleitorais?

Lula: Olha, eu acho que porque ele trabalhou isso como jamais alguém trabalhou. Tem pastor que ameaça o cara que não votar no Bolsonaro. Esses dias teve um tiro lá dentro da igreja, sabe? O negócio está violento. É uma pressão…

Costa: E o senhor vai fazer campanha nas igrejas?

Lula: Eu não costumo pedir voto assim. Ninguém me peça para ir a uma igreja pedir voto. Eu não vou. Eu vou na igreja para rezar.

Costa: Nunca foi?

Lula: Não vou pedir voto. Não faz parte da minha formação política.

Essa postura não impediu Lula de se encontrar durante a campanha com evangélicos favoráveis à sua candidatura nem de divulgar, em 19 de outubro de 2022, a onze dias do segundo turno, uma carta aos evangélicos, na qual declara, conforme Costa assinala na narração, “que não vai mudar as leis que proíbem o aborto no Brasil e que vai respeitar a liberdade religiosa”.

Malafaia volta a reagir, desta vez com ameaça: “Não é o cara que chegou agora no nosso meio com discurso ‘evangeliquês’, porque aqui [mostra o celular] a gente destrói os caras. Não vem, que a gente arrebenta eles.”

O Capítulo V (Guerra santa) chega ao fim com gravações variadas, algumas amadoras, feitas em 30 de outubro, dia do segundo turno da eleição presidencial. Vemos uma blitz da Polícia Rodoviária Federal procurando impedir pessoas de votar, parando carros com bandeiras do PT, recomendando a passageiros de um ônibus que não apoiem um ex-detento e um carro com o adesivo de Lula rasgado. Apelos são feitos a Deus em favor dos dois candidatos, e em meio à expectativa geral é noticiado que Bolsonaro lidera a apuração, até Lula passar à frente com 50,01% dos votos. A Justiça Eleitoral confirma a vitória do petista, e uma celebração é desencadeada, incluindo choro e cantoria. Não faltam tampouco lágrimas e rezas de eleitores do candidato derrotado, assim como uma ameaça em off: “Não pense, Luiz Inácio Lula da Silva, que você ganhou essa eleição, que nós vamos engolir essa eleição fraudulenta à custa de fake news.”

 

OEpílogo (Revelação) começa com Petra Costa admitindo que ela “achava que, com o tempo, a humanidade não dependeria mais da religião”, mas que agora vê “a arrogância [que havia] por trás dessa ideia”. A diretora continua: “Por um tempo, as revoluções tendiam a derrubar um rei ungido por Deus para criar uma sociedade laica onde o poder nasceria do povo. Ultimamente, elas parecem estar indo na direção oposta.”

No dia seguinte à eleição, manifestações em vinte estados pedem intervenção militar e resistência civil. Pneus queimados, fogueiras e ônibus em chamas interrompem o tráfego. “Bolsonaristas acampam em frente aos quartéis e são acolhidos pelos militares. Protegidos por generais e financiados por empresários, eles imploram por um golpe”, diz Costa. A multidão de camiseta amarela grita: “Forças Armadas! SOS!”

E eis Malafaia de novo, olhando direto para a câmera. Desta vez, primeiro na posição de quem ensina, depois apelando para a coragem e a virilidade do presidente derrotado. Implícito está o apelo por um golpe: “Senhor presidente Jair Messias Bolsonaro, o senhor é o presidente legal em exercício. O senhor tem poder de convocar as Forças Armadas para botar ordem! Presidente Bolsonaro, como é que o senhor vai passar para a história? Omisso, covarde ou alguém que usa o seu poder legal, garantido pela Constitucional?” O lapso no final da última palavra é curioso.

“Mas Bolsonaro vai embora para Orlando. Sem dizer nada”, observa Costa, enquanto se vê o avião presidencial decolando rumo aos Estados Unidos, em 30 de dezembro de 2022, a dois dias da posse de Lula.

Malafaia, agora em entrevista para Apocalipse nos trópicos, declara:

Eu não concordei que ele foi embora para a América. Um líder fica, paga o preço. Vai para a cadeia ou não. Está aí o Lula. Tudo estava indicando que ele ia para a cadeia. Ele fugiu? Não. Postura de um líder. Então, para mim, o cara sair correndo daqui para a América, não concordei. Não vou concordar nunca. Fica e encara. Aguenta o pau.

Malafaia entra na sala identificada como sendo do presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e fecha a porta, dando a entrevista por encerrada.

Em 8 de janeiro, uma semana depois da posse de Lula, a multidão está a caminho da Praça dos Três Poderes, na chamada marcha do povo, entoando: “Deus, pátria, família e liberdade!” Um manifestante informa: “Olha, a Esplanada dos Ministérios vai ser tomada. E nós vamos tomar o Brasil de volta. Tem que ser assim. Tem que ser na força.”

Diante dos prédios da Câmara e do Senado, a multidão reza o Pai-Nosso. A sede do Congresso é invadida e ocupada. Janelões são destruídos. O STF é invadido. O mobiliário é quebrado. Uma manifestante diz: “Acabou a palhaçada. Agora a gente só sai aqui de dentro com o Exército. Intervenção militar é o que a gente pede, pronto.” Outro manifestante, enrolado em uma bandeira do Brasil, defeca, enquanto mulheres ajoelhadas rezam de mãos estendidas para o céu. No plenário do Senado, um manifestante, sentado na mesa diretora, agradece a Deus e proclama: “Tudo isto é para a honra e a glória do seu Deus, Jeová Jireh, o eterno Todo-­Poderoso. É isso aí. Jair Messias Bolsonaro. Você vai estar voltando para essa nação e continuar o seu governo, porque as trevas teve que bater em retirada para saberem que o Senhor é Deus.”

O acorde final de uma música soa na tela preta.

 

Trabalhadores varrem estilhaços de vidro dos janelões quebrados da Câmara. Sucedem-se planos dos vestígios da destruição no STF, enquanto, em conclusão, Petra Costa diz:

Se essas ruínas falassem, talvez elas pudessem responder que a democracia pode ser a forma suprema de generosidade. Ela anuncia a determinação de dividir a existência com o inimigo. É incrível que a espécie humana tenha chegado a uma coisa tão bonita. Tão paradoxal. Tão acrobática. Tão frágil. Não é à toa que essa mesma espécie se mostre logo ansiosa para se livrar dela. É um exercício muito difícil e complicado para criar raízes na Terra. Talvez, em um futuro apocalipse, essas ruínas revelem que esses prédios foram construídos não para impor a vontade da maioria, nem a vontade de Deus, mas para proteger o que é vulnerável da força bruta. Em grego, apokálypsis não significa o fim do mundo. Mas sim um desvelar. Uma revelação. Uma chance de abrir os olhos.

Em outra ocasião, Costa havia esclarecido o sentido de desvelar como “tirar um véu para ver a realidade que nos confronta todos os dias de outra forma”. E disse esperar que o seu filme “seja um convite para isso”.

Surgem quatro legendas sobre fundo preto:

* “Em 2022, cerca de 70% da população evangélica votou em Bolsonaro, uma proporção maior do que qualquer outro grupo demográfico.”

* “Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Bolsonaro inelegível até 2030 por abuso de poder político e por disseminar informações falsas sobre o sistema de votação do país.”

* “Em novembro de 2024, a Polícia Federal concluiu que Jair Bolsonaro liderou uma organização criminosa que planejou um golpe de Estado contra Lula.”

* “A polícia também afirmou que o plano incluía o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes.”

Seguem-se os créditos finais, acompanhados da música Juízo final, de Nelson Cavaquinho, cantada por ele:

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente 

É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos para ver
A maldade desaparecer

Em seguida, ouve-se a Oração de São Francisco, adaptada e interpretada por Alessandra Leão, que também fez o arranjo e a produção musical:

Senhor,
fazei de mim um instrumento
[de vossa paz.
Onde houver ódio
que eu leve o amor.
Onde houver ofensa
que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia
que eu leve a união.
E onde houver dúvida
que eu leve a fé. […] 

Oh Mestre,
fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido,
amar que ser amado,
pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se vive
para a vida eterna.

Na medida de suas possibilidades, Costa fez o que pôde para não deixar Apocalipse nos trópicos se tornar um réquiem – sina de documentários, que se transformam com frequência em celebrações póstumas. Mesmo depois da estreia no final de agosto de 2024 no Festival de Veneza e da exibição em outubro no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, foram incluídas no final do filme duas legendas com informações datadas de novembro de 2024 (já citadas aqui).

Após estrear em cinemas de São Paulo e do Rio em 3 de julho, Apocalipse nos trópicos terá lançamento mundial na Net­flix em 14 de julho. Como as questões tratadas por Petra Costa em Democracia em vertigem e no seu novo documentário continuam na ordem do dia, a solução à vista é ela pôr mãos à obra desde já e fazer um novo filme dedicado ao papel dos militares para completar o tríptico do apocalipse. Valeria levar em conta também os dados mais recentes divulgados pelo IBGE, mostrando que pela primeira vez, desde a década de 1960, diminuiu o ritmo de crescimento da população evangélica no país.


[1] É fundador da piauí e atual presidente do Conselho Editorial da revista.

[2] “Falar em línguas” é uma referência à glossolalia, ou seja, a capacidade de uma pessoa, em transe ou não, de se expressar em idiomas desconhecidos, o que as religiões atribuem à inspiração divina.

[3] O roteiro do filme contou com a colaboração, entre outros, do jornalista Fernando de Barros e Silva, da piauí.

[4] O dado disponível na época indicava que os evangélicos representavam 21,7% da população. Agora, com o novo censo de 2022, os evangélicos representam 26,9%.

Eduardo Escorel
Eduardo Escorel

Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes

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