CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Segredos da fé
O artista católico que decora lojas maçônicas
Tatiane de Assis | Edição 221, Fevereiro 2025
Foi com um vizinho em Araguaína (Tocantins) que Valdson Ramos descobriu a arte. Ele tinha cerca de 16 anos e estava voltando do Centro da cidade, onde trabalhava com o pai e os irmãos como servente de pedreiro. Perto de sua casa, parou junto a um portão. Esticou o corpo e apertou os olhos para ver melhor o que um rapaz no quintal estava fazendo. Ramos não conhecia ainda aquele vizinho que, sentado em uma cadeira, pintava uma tela.
Da metade para cima, o quadro mostrava uma cachoeira. A metade inferior estava em branco. “Ver aquela paisagem surgindo pareceu mágica”, recorda Ramos. Ele pediu licença para entrar e observar o trabalho. O vizinho concedeu mais do que isso: adotou Ramos como aprendiz. “Ele se chamava Jefferson Paladin. Era mais velho que eu, devia ter 20 e poucos anos. Foi meu primeiro instrutor e me ensinou as técnicas básicas de pintura. Fazia telas, mais de decoração, para vender”, conta. Ramos também descreve de forma vívida a figura do mestre: “Ele era alto, magro, tinha cabelos curtos, lisos e grossos. Falava inglês e, por ter convivido com gringos, tinha um sotaque diferente.”
Paladin foi como uma aparição na vida do adolescente – e o mesmo vento que o trouxe o levou. Ramos, hoje com 52 anos, perdeu de vista o mentor por décadas O fascínio pelas tintas, contudo, não desapareceu: o servente de pedreiro foi se tornando artista.
O segundo passo de sua formação se deu em Anápolis, cidade goiana onde foi morar em 1992 com a mãe – que tinha se separado do pai – e três de seis irmãos. Um ano depois da mudança, ele se matriculou na Escola de Artes Oswaldo Verano. “A proposta pedagógica era bem academicista. Aprendi bastante”, diz.
Ele continuava a trabalhar na construção, agora pintando paredes. Além de se dedicar às telas, aproximou-se do teatro e chegou a atuar em algumas peças. Sentia-se satisfeito, exceto por uma coisa: suas pinturas não eram aceitas nos salões de arte. O incômodo o fez dar mais um passo: em 2005, foi estudar na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. “Eu entrei na graduação atrasado, tinha 33 anos. Estava curioso para saber o motivo pelo qual as pessoas gostavam de uma arte meio estranha.” Nessa época, estranhos para ele eram, por exemplo, os ready mades do artista francês Marcel Duchamp, como A fonte (1917), um urinol de porcelana branca.
Depois do encontro com o vizinho, outro acaso mudou a vida de Ramos. Em 1997, o dono da mecânica que ficava na frente do seu ateliê, na região central de Anápolis, ficou encantado com os letreiros que o artista fazia para o comércio e o convidou para pintar uma loja maçônica.
Ramos não sabia nada a respeito da maçonaria e hesitou em aceitar o convite. Mas acabou topando. Passados quase trinta anos, tornou-se uma referência na decoração de lojas maçônicas. Das quinze existentes em Anápolis, ele se orgulha de ter ajudado a decorar oito.
A aura de segredo que envolve a maçonaria não intimida Ramos. “Eles são muito sigilosos. Quando me pedem algo, eu vou até onde consigo em minhas pesquisas, lendo em revistas e procurando na internet”, conta. “Mas não tenho acesso aos livros deles. Por isso, depois que pesquiso, a gente senta, faz ajustes e fecha a proposta.”
Ramos conta que uma de suas empreitadas mais audaciosas foi decorar o salão nobre do prédio da Primeira Inspetoria Litúrgica do Estado de Goiás, que reúne seis templos maçônicos perto do Aeroporto de Goiânia. “Levei os pedreiros, jogamos massa de cimento. Fiz como se fossem os blocos do antigo Egito que conformam as pirâmides. Lá tem três guardiões feitos com fibra de vidro, cada um com 2,40 metros de altura. Representam os deuses Rá, Amon e Osíris”, descreve.
Os serviços prestados à maçonaria ajudaram na evolução técnica de Ramos, que ganhou experiência em materiais como resina de poliéster e borracha de silicone. O artista teve um estalo: poderia usar esses recursos em sua própria obra. Uma instalação sem título, de 2012, traz moldes das mãos de pessoas que participaram de um dos mais tradicionais eventos católicos de Goiás, a Romaria de Trindade – inclusive das mãos dele e de sua mulher. As obras têm fitas devocionais coloridas entrelaçadas entre os dedos, parecidas com aquelas dedicadas ao Senhor do Bonfim, em Salvador.
Mais do que uma experiência formal, essa obra marca um ponto de virada na carreira de Ramos. Foi o momento em que ele levou para sua arte um elemento fundamental de sua vida: a fé católica. “Eu vivo isso desde criança. Eu me lembro dos textos cantados na igreja em Formoso, cidade de Goiás onde nasci, e dos hinos bem antigos, em Colmeia, no Tocantins, onde vivi antes de mudar para Araguaína. Tudo isso faz parte da minha vida, não tem como apartar”, diz.
À luz da inimizade histórica entre a maçonaria e a Igreja Católica, talvez pareça estranho que Ramos se disponha a decorar as lojas maçônicas. Mas essa rivalidade é coisa do passado, como explica o doutor em história Jefferson William Gohl, que estuda a atuação política da maçonaria no Estado Novo de Getúlio Vargas. “Pode se dizer que o ápice da disputa entre católicos e maçons se deu entre o final do século xix e os anos 1920. Depois, e até hoje, os ânimos arrefeceram.”
Um dos trabalhos mais profundamente religiosos de Ramos é Rogai por nós, série de onze telas que ele pintou com vinho canônico e água benta, seguindo uma sugestão de Sirlene Rodrigues de Melo, sua mulher e assistente. Os quadros representam santos dos quais não se vê o rosto, pois estão inteiramente cobertos por mantos. Ramos diz que sua intenção foi dar ao espectador a possibilidade de imaginar o santo que preferir – e orar por ele. Os quadros são marcados pela sobriedade, com uma paleta de cores reduzida, contrastando tons claros e terrosos, como aponta a curadora Cinara Barbosa, cearense radicada em Brasília. “É um trabalho tão melancólico quanto uma missa de domingo”, ela diz.
