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    CRÉDITO: ALBERTO BENETT_2026

despedida

Sem recheio

O desaparecimento gradual dos filhos do meio

Mônica Manir | Edição 233, Fevereiro 2026

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O magnata Bill Gates representa uma espécie em vias de extinção – e não por ter bilhões de dólares, mas por ser filho do meio, à semelhança da cantora Madonna, do investidor Warren Buffett e do piloto Ayrton Senna. Segundo de três irmãos, o fundador da Microsoft integra um recheio familiar que está desaparecendo. Com a fecundidade em queda na maior parte do mundo, três ou mais filhos viraram exceção. “De tão raro, o filho do meio vem se transformando em objeto de estudo”, diz a demógrafa Simone Wajnman, professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Esse desaparecimento paulatino também ocorre no Brasil. De acordo com o Censo de 2022, a taxa nacional de fecundidade é de 1,55 filho por mulher, a menor já registrada no país. O índice está muito próximo do norueguês (1,41), do americano (1,62) e do australiano (1,64). Em 1960, a cifra era de 6,28 filhos por brasileira e chegava a 8,56 na Região Norte. Desde então, a taxa tem caído ininterruptamente. O fenômeno se explica tanto pelo declínio da mortalidade infantil – que desestimula os pais a investirem numa sucessão de partos, já que mais crianças vingam – quanto pela migração maciça do campo para a cidade, onde não existe o imperativo de colocar novos braços no mundo a fim de garantir a sobrevivência da família na lavoura.

Outro aspecto que justifica a tendência é o choque entre o período reprodutivo das mulheres e o investimento delas na carreira profissional. Hoje ficou comum a percepção de que um herdeiro basta porque não sobra tempo biológico para conceber o segundo, ou de que vale a pena abdicar da parentalidade porque a sociedade já não recrimina tal decisão. “Ter mais de um filho se tornou um ato de coragem, especialmente para as mulheres, não só pelos aspectos emocionais e corporais que envolvem a gestação, mas também por causa das dificuldades financeiras e da velocidade das mudanças entre cada geração. Não dá mais para criar filho ‘tudo igual’, como se dizia antigamente”, afirma a demógrafa Glaucia Marcondes, coordenadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo), da Unicamp.

 

A psicanalista Margareth Arilha, outra pesquisadora do Nepo, ressalva ser importante observar o papel da religião nesse cenário. “Certas alas tradicionais continuam desejando famílias maiores.” Ainda conforme o Censo de 2022, a taxa de fecundidade das mulheres evangélicas (1,74) estava acima da média nacional. Depois vinham as católicas (1,49), as sem religião (1,47), as adeptas de religiões de matriz africana (1,25) e as espíritas (1,01). Outras religiosidades, em conjunto, totalizavam 1,39.

O último Censo também apontava que a taxa de fecundidade das brasileiras sem instrução ou com ensino fundamental incompleto era de 2,01 filhos por mulher. Já as brasileiras com ensino superior completo tinham índice bem menor: 1,19.

Embora o país caminhe para uma política pessoal de filho único, o número mágico de herdeiros – aquele considerado ideal pelos pais, segundo pesquisas do instituto Gallup nos Estados Unidos e do Fundo de População das Nações Unidas – é dois, preferencialmente de sexos distintos. Em geral, se o casal tem três, é porque um “escapou” ou porque vieram gêmeos.

 

O filho do meio amarga duas frustrações: nunca saboreou o privilégio de ser único e perdeu a condição de ser o caçula. “Há quem sustente que essa posição ou amadurece a pessoa antes do tempo ou a torna muito complicada psicologicamente”, diz Wajnman, ela mesma uma filha do meio e mãe de três.

 

A teoria de que a ordem de nascimento dos filhos faz diferença no desenvolvimento e na personalidade da criança teve seus altos e baixos. O pai da matéria, o psicólogo e médico austríaco Alfred Adler (1870-1937), trabalhou com Sigmund Freud, mas discordou dele por não julgar a sexualidade tão importante assim. No início do século XX, Adler descreveu comportamentos típicos de primogênitos, caçulas e filhos do meio.

Destronado da condição de filho único, o primogênito seria mais inseguro por querer se proteger de súbitos reveses do destino. O caçula, normalmente coberto de mimos, encontraria terreno fértil para virar uma criança-problema ou um adulto desajustado. O do meio, por sua vez, seria ambicioso e viveria em constante luta para se destacar entre os extremos, o que lhe daria condições de sobreviver com mais sucesso no mundo lá fora. Claro que a teoria de Adler leva em conta uma série de nuances. Para o psicólogo, a ordem de nascimento é importante, mas não determinante. O desenvolvimento individual também dependeria da dinâmica familiar mais ampla, do estilo de criação dos pais e das experiências de cada criança, inclusive com os irmãos.

 

Pesquisadores subsequentes passaram a ver o filho do meio como uma figura rebelde e mal compreendida, imersa na síndrome do abandono. Ele sofreria tanto que acabou merecendo uma data comemorativa. No Brasil e em diversos outros países, 12 de agosto é o Dia do Filho do Meio. Não se trata de nada oficial. A efeméride nasceu nos Estados Unidos e se espalhou como uma brincadeira, uma compensação para as agruras enfrentadas pelos que não são nem primogênitos, nem caçulas.

Em 2011, depois de dez anos estudando o filho do meio, a psicóloga americana Catherine Salmon, da Universidade de Redlands, na Califórnia, lançou o livro The secret power of middle children, escrito com a jornalista Katrin Schumann e ainda não traduzido para o português. À piauí, Salmon declarou que, sem os filhos do meio, o mundo perderá a resiliência, a adaptabilidade, a independência e, principalmente, a capacidade de negociação deles – “atributo mais valioso do que nunca, mas pouco incentivado no sistema educacional”.

Para Glaucia Marcondes, o desaparecimento gradual das famílias com vários filhos impacta a rede de cuidados. “O estoque de parentes que poderiam se revezar na atenção aos idosos diminui bastante”, diz a demógrafa da Unicamp. Ela afirma que a árvore genealógica frondosa tende a se transmutar num pé de feijão, com várias gerações para cima e poucos galhos laterais nas partes mais baixas. Por causa da longevidade maior, as pessoas terão bisavós, mas irão carecer não só de irmãos, como de tios, primos, sobrinhos.

Simone Wajnman, da UFMG, resgata um provérbio árabe para ilustrar o que está se esvaindo: “Eu contra os meus irmãos; eu e meus irmãos contra os meus primos; eu, meus irmãos e meus primos contra o resto do mundo.” Não seria apenas o fim do filho do meio. Seria o fim do clã na sua acepção mais pura.

Mônica Manir
Mônica Manir

É jornalista. Publicou os livros Por um ponto final (Com-Arte) e Diário de uma fadiga (Cancioneiro).

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