CRÉDITO: VALENTINA FRAIZ_2026
Ser poesia é estar verde in natura e também brasa lenha fumaça
Calila das Mercês | Edição 234, Março 2026
DETALHE
o detalhe está no caminho
o atalho já nos está dado
limites ainda perdidos
segredos já esfarelados
o antes agora não vale
cedo vem tarde partido
metades inteiras repartem
palavras perderam sentido
o eterno que presenciei
o abraço virou um aceno
amores seguem resistência
amores seguem em suspenso
o canto já foi a coragem
a âncora do cais do meu porto
o tempo jamais é covarde
tempo orixá tempo todo
COLADA É UM SONHO
um beijo que não basta
boca que saliva
feriado prolongado
baliza perfeita de olhos fechados
janela sem tela de segurança
mel de maria bethânia
maçarico de oxiacetileno
cobre virando trança
panela aquecida de cerâmica
chuveiro frio não sara calor
a chama acordada além da cama
o que será que tem dentro dela pra deixar
esquecido arroz em chamas
duas horas no céu pro meu corpo sob ela
mergulhar cheio de chão cera de vela
dançar brega reggae qualquer som sobre o tapete
na rua na cozinha na janela com vista pro tanque pro sena ou pro atlântico oceano
incansável encaixe
um beijo que não basta
colada é um sonho
CONVITE
I
bem verdade que
as marcas da sua pele na minha
ninguém poderá ver, saber
por onde regou com a ponta da língua
ou com seu olhar marejado que
caminha (ou insiste)
caber
receio, poeira sonhar a direção
estrada, praia grande, cachoeira
tanto chão pra revezar
bem verdade que
ainda cabreira adentra
caminhos, vielas e cá descobre água
fonte para irrigar seus olhos silabando
meu nome junto a tantos outros
que eu nem sabia ter (sorri na espera de)
te ver
se abrir protestar com (as pontas d) os escuros cabelos
o vigor dos seus pelos lamber palavras pescoço seu queixo
tudo tão (água e sal e doce água)
bem verdade que
as marcas da sua pele na minha
me convidam pra ver o mar
mergulhar sem te acordar do sonho
e da varanda velar seu sono seu cheiro
seus riscos (todos eles até os escritos) uma onda
II
aguar na praia
à sua maneira
nada é beira
tudo é muito
tão profundo
que a constância
vira futuro
espaço fortuito
pra tua imensidão
(ô baby, fica na praia
até a próxima estação?)
não esquece o colorido
não esquece o reggae, o piseiro
banho junto no chuveiro
mergulho junto no espelho
trancar a porta para quê
se o que fizemos era mar
amostra pra lua cheia
com cortinas de estrelas
todas as cores impregnadas
esquece de tudo e de nada
tranca só o medo
UM PASSO ATRÁS É UM PASSO A MAIS
ser poesia é estar verde in natura
e também brasa lenha fumaça
estar poesia é sorrir fina dureza
eco do segredo, fogaréu da casa
errar na vírgula, escolher a máscara
chorar no mesmo abraço errante
recuar do que sufoca engasga
antes copo cheio, depois um gole d’água
imensa na oferenda, ponte ensina viajante
um passo atrás é um passo a mais
firmamento fundamento voo de quem faz sal
escorrer na pedra que rola há tanto
caminhar de mãos dadas promessa
com afeto medo sangue pulsante
ser poesia é cavalgar incerteza
de quem te ler na escuta silenciosa
e lambe a dúvida mambembe circulante
se pode molhar os pés mergulhar
no fundo da rua minguante, ou boiar
e diluir tudo em um instante
decifrar poesia é mais difícil (talvez impossível)
porque é patuá, às vezes lou-
cura onda mistério do que não pode ser dito
por não compreender a geografia do artifício
a exatidão do recém tido
por ser um sopro a lida da vida
por ser um rio a adoçar a maresia
o frio do céu azul daqui o quente daí, da Bahia
em casa cedo a gente aprende
nem todo até logo é des-
pedida, um passo atrás é um passo a mais
porque é an-
coragem
porque é acolh-
ida
