Manir e a lei da gravidade: entre as panaceias contra os sintomas da Covid longa, constam infusões intravenosas de vitaminas e terapias como “limpeza do sangue”, oferecidas em clínicas na Suíça, no Chipre e na Alemanha. O cansaço encabeça a lista dos perrengues mais sentidos CRÉDITO: EGBERTO NOGUEIRA_ÍMÃ FOTO GALERIA_2024
Sob o peso do mundo
A imensa fadiga que a Covid longa me causou
Mônica Manir | Edição 209, Fevereiro 2024
Começou em janeiro de 2021, com uma dor nas panturrilhas. Dor, não. Ardor. Era como se as batatas das pernas estivessem pinicando e, ao mesmo tempo, ficando tremendamente pesadas. Eu massageava a região, alongava, botava os pés para cima, mas o incômodo persistia. Recorri à telemedicina. A médica anotou minha queixa e, quando lhe mostrei as panturrilhas pela câmera do celular, verificou que não estavam avermelhadas, brilhantes, nem inchadas. Mesmo assim, me recomendou fazer um ultrassom com Doppler urgentemente. “Talvez seja trombose”, cogitou. Trombose nas duas pernas? O Google dizia ser possível, porque tudo é possível no Google – e tudo também parecia possível durante a pandemia. Toquei para o laboratório. Seria mais um exame entre os incontáveis que eu já havia realizado desde que a Covid-19 abduzira meu corpo, dois meses antes.
Falo da segunda onda, quando a variante Gama foi a que mais contaminou no Brasil. O laboratório em São Paulo estava cheio, muita gente com máscara de pano misturada a alguns poucos com N95. Os exames de imagem aconteciam no primeiro andar. Só que o laboratório não dispunha de elevador. Mesmo se tivesse algum, não seria prudente pegá-lo, porque os elevadores haviam se tornado antros de contaminação. Restou-me a escada. Sete míseros degraus que, em outros tempos, eu galgaria tranquilamente. Mas a Mônica pós-Covid não era a Mônica pré-Covid. Cheguei ao primeiro andar como se tivesse escalado o Everest.
O exame para trombose deu negativo. Naquele dia, porém, recebi o diagnóstico de um mal que me perseguiria pelos próximos dezoito meses. Eu integrava o grupo dos que enfrentavam a sequela mais menosprezada, embora comum, da Covid: a fadiga. Em 2022, cerca de 46 milhões de pessoas no mundo amargavam dificuldades parecidas com as minhas se considerarmos um estudo feito por cientistas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Michigan, segundo o qual, em um universo de 200 milhões de pessoas com Covid longa no mundo, 23% dos pesquisados reclamavam desse sintoma.
A fadiga é um incômodo recorrente na neurologia. Quem sofre de esclerose múltipla – distúrbio autoimune em que as células de defesa atacam o sistema nervoso central – se queixa dela. O sintoma também acomete os que sofrem de mal de Parkinson, esclerose lateral amiotrófica (degeneração progressiva dos neurônios responsáveis pelo controle dos movimentos voluntários) e miastenia grave (enfermidade que afeta a comunicação entre os nervos e os músculos). Vítimas de infarto, traumatismo craniano ou infecções virais agudas, como a dengue e a poliomielite, relatam a mesma indisposição, à semelhança dos que passaram por quimioterapia. A questão é que a ciência considera a fadiga uma sensação tão subjetiva quanto a dor: varia de indivíduo para indivíduo. As dores até têm suas métricas, como a escala visual analógica (EVA) ou a escala de classificação numérica. Já a fadiga se mostra bem mais arredia às aferições.
Escadas costumam cansar muita gente sã, mas dois degraus já me obrigavam a dobrar o corpo e apoiar as mãos nos joelhos. Minha energia simplesmente se esvaía. Comecei a escrutinar os locais que visitava à procura de degraus e rotas alternativas, tal qual uma amiga cadeirante fazia. A imagem que sempre me vinha era a de Relatividade, gravura do holandês Maurits Corneille Escher em que escadas se imbricam de maneira surreal. Personagens sem rosto sobem e descem os degraus numa casa estapafúrdia, onde as leis da gravidade deixaram de existir.
O meu cansaço não suportava a gravidade do cotidiano. A xícara, o notebook, uma única sacola com produtos básicos de higiene, tudo parecia me puxar para baixo. O litro de leite longa vida demonstrava como a minha qualidade de vida diminuíra. Ao chacoalhá-lo, eu sentia tontura e precisava me sentar, olhando abismada para a embalagem cartonada e pensando que braço era aquele à minha disposição, mas sem disposição.
Meus músculos davam a impressão de responder como queriam. Eu havia perdido o controle deles, fossem os das panturrilhas finas, dos braços longos ou das costas lordóticas. Eu, que nunca me preocupara com meu próprio peso, passei a considerar o peso de tudo. Descobri que a cabeça de um adulto pesa em torno de 5 kg. Meu pescoço às vezes não conseguia sustentá-la e, ao me deitar de lado, o cérebro parecia sair do eixo, como se a massa cinzenta fosse desabar em minha orelha. Efeito similar ocorria com o coração, caso eu deitasse sobre o lado esquerdo. Sentia que o órgão escorregava para cima das costelas e as pressionava a cada pulsação. Em razão disso, dormi noites seguidas apenas do lado direito.
Ao contrário da fadiga pós-exercício físico, minha fadiga pós-Covid não diminuía depois de algumas horas de vagabundagem ou de uma boa noite de sono. Descansar depois de um esforço exagerado não adiantava. Deitar até piorava a situação porque eu precisava enfrentar na cama o efeito colateral de tarefas excessivas para a minha condição neurológica. Se o esforço parecia viável no momento de realizá-lo, à noite o corpo me cobrava a estripulia. Além de o cérebro e o coração desabarem, braços e pernas viravam toras. Era quase impossível movimentá-los. Insone, eu ficava pensando qual das minhas atividades tinha passado do limite: o banho demorado ou dirigir por 1 km a mais.
Dirigir, aliás, se tornou um suplício. Manter os braços ao volante por 30 minutos já me cansava. Aliviava chacoalhá-los de vez em quando, como se eu estivesse secando as mãos. Decidi, então, picotar as viagens mais demoradas. Parava a cada hora a fim de andar um pouquinho.
Com o tempo, adotei a estratégia de restringir tarefas diárias na base da tentativa e erro. Se fazer três coisas prioritárias me derrubasse, o jeito era realizar somente duas no dia seguinte. Os médicos me diziam para não abdicar de exercitar os músculos, mas advertiam que eu não podia me exceder. Era um dilema, um funesto jogo de tabuleiro.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) entende por Covid longa aquela em que os sintomas aparecem (ou reaparecem) em até três meses depois da contaminação pelo coronavírus, duram no mínimo dois meses e não podem ser atribuídos a outras doenças. Diferentes autores usam diferentes expressões para designar esse quadro. Além de Covid longa, é possível encontrar na literatura científica os termos Covid pós-aguda, Covid crônica, síndrome pós-Covid e sequelas pós-agudas da infecção por Sars-CoV-2.
Não importa o nome, a enfermidade se manifesta por uma miríade de sintomas. Quantos? Mais de cinquenta, segundo um estudo publicado em agosto de 2021 na revista Nature e assinado por sete pesquisadoras dos Estados Unidos, México e Suécia, segundo o qual, aliás, a porcentagem de pessoas que reclamavam de fadiga chegou a 58%. Outro levantamento, divulgado em janeiro de 2023 pela Nature reviews microbiology, contabilizou mais de duzentos, que afetam vários sistemas orgânicos, do neurológico ao cardíaco, do imunológico ao reprodutivo. O trabalho foi conduzido por quatro americanos, dois deles vinculados à Patient-Led Research Collaborative – uma investigação coletiva em que os próprios autores vivenciaram ou vivenciam as agruras da síndrome pós-Covid e advogam a favor de pessoas afetadas pela síndrome.
Fadiga, dor de cabeça, dificuldade de concentração, perda de cabelo e dispneia (dor no peito) figuram entre os sintomas mais frequentes em ambos os estudos. No início da pandemia, as mazelas predominavam em indivíduos que haviam sido hospitalizados. Hoje, porém, atingem sobretudo os que tiveram Covid moderada, leve ou mesmo assintomática, talvez devido ao fato de mais pacientes estarem procurando centros de pesquisa para relatar suas sequelas.
A minha Covid exigiu internação por três dias sem ventilação mecânica. Daí me incluírem na turma dos moderados. As chamadas “opacidades em vidro fosco”, alterações detectadas pela tomografia computadorizada do tórax, atingiram 25% dos meus dois pulmões – o que significava um aumento de densidade em certas áreas pulmonares. Também foi apontado um espessamento na parede dos brônquios médios. O perigo maior estava na dosagem de proteína C-reativa. Sintetizada no fígado, a substância se eleva diante de um processo inflamatório ou infeccioso. O normal é ficar abaixo de 3,0 mg/L. Meu exame de sangue indicava uma taxa de 170,3 mg/L. Na época, novembro de 2020, não havia vacina disponível para os brasileiros. Eu contava apenas com o meu sistema de defesa no combate àquela tempestade inflamatória, uma resposta imune exacerbada do corpo ao ataque do coronavírus.
Embora crianças e adolescentes possam exibir uma constelação de sintomas pós-Covid, os casos predominam em adultos na faixa dos 40 aos 65 anos. Mulheres são as mais afetadas, mas ainda faltam pesquisas que esclareçam o motivo disso. Estudos também falham em definir a fadiga – um pouco porque a fadiga tem algo de subjetivo, um pouco porque o mundo acadêmico talvez entenda que o problema se explique por si mesmo. Mas neurologistas das Universidades de Rochester, Nova York e Colorado, nos Estados Unidos, defendem a necessidade de uma definição mais exata para o termo, como aconteceu com a memória. Quando foram identificados diferentes tipos e processos de memória, as investigações científicas sobre o assunto tiveram um progresso considerável.
A palavra “fadiga” vem do latim fatigare (“cansar”, “extenuar”) e é “a mais banal das insuficiências”, nas palavras do historiador francês Georges Vigarello. No livro História da fadiga, ele mostra que há registros do sintoma desde pelo menos a Idade Média. Durante os séculos XII e XIII, por exemplo, enaltecia-se a exaustão dos guerreiros. O cavaleiro robusto, capaz de envergar uma armadura de 25 kg e encarar batalhas extenuantes, merecia todas as honras. As viagens dos comerciantes, que se aventuravam por mar e terra para comprar e vender mercadorias, eram retratadas como difíceis e muito cansativas. Entre a guerra e os negócios, pairavam as peregrinações religiosas, em que os pés descalços e o esgotamento físico se confundiam com a redenção.
Fadiga como punição aparece na autobiografia do francês Jean Marteilhe, Mémoires d’un galérien du Roi-Soleil (Memórias de um escravo de galé do Rei Sol), lançada no século XVIII. Preso aos 17 anos por ser protestante, o autor se viu obrigado a servir nas embarcações do católico Luís XIV: “Eu me vi remando com força total durante 24 horas, sem um momento de descanso. […] Nessas ocasiões, o comitre ou outros marinheiros enfiam um pedaço de pão, embebido em vinho, na boca dos pobres […] remadores para evitar seu desfalecimento.” Comitre era o oficial que ditava o ritmo das remadas.
Na década de 1830, as cadeias francesas não se distinguiam muito das antigas galés. “Todos os condenados, qualquer que fosse sua posição na sociedade, se submetiam aos trabalhos mais penosos, conhecidos pela designação de grande fadiga”, escreveu o jornalista Maurice Alhoy no livro Les bagnes: histoire, types, moeurs, mystères (As galés: história, tipos, costumes, mistérios), publicado em 1845. O autor se notabilizou como um dos criadores do diário Le Figaro.
No final do século XVIII e início do XIX, com a multiplicação das fábricas, a fadiga dos operários ganhou os holofotes. Entretanto, o fenômeno só causou preocupação de fato quando o esgotamento físico passou a comprometer a eficiência dos trabalhadores, sujeitos a jornadas cada vez maiores. Nesse contexto, foram feitos cálculos matemáticos para medir o cansaço por hora de trabalho e definir a quantidade de alimento capaz de diminuí-lo. A fadiga virou mote para estudos, denúncias e protestos, invariavelmente sob o viés econômico.
Vigarello explica que as máquinas do século XIX e de boa parte do século XX moldaram outro tipo de cansaço. A perda de vigor não derivaria apenas dos excessos no trabalho, mas também de poluentes que estariam invadindo e prejudicando o corpo. É o tempo das vitaminas e dos fortificantes. Tempo de suplementar para ganhar energia e combater as toxicidades que infestam o ambiente.
Sob influência do digital, a fadiga do século XXI está mais espalhada no cotidiano e mais vinculada à sobrecarga mental, seja no trabalho ou em casa, seja nas relações interpessoais. Disseminam-se a estafa, o estresse e sua versão turbinada, a Síndrome de Burnout. O personal trainer não é propriamente escanteado, mas aos poucos vai cedendo espaço para os psicoterapeutas. A exaustão se interioriza e a alma fica mais alquebrada que o corpo. Vigarello postula que, nessa fase da humanidade, a autonomia adquirida pelo indivíduo das sociedades ocidentais, acrescida do sonho de emancipação e liberdade, tornou extremamente difícil vivenciar quaisquer situações de pressão. Tudo cansa porque tudo oprime e nada descansa. Como lamuriou Clarice Lispector, o que mata é o cotidiano: “Eu queria só exceções.”
Eis que, em março de 2020, a pandemia chega e transforma o cotidiano numa exceção assustadora, que ameaça virar regra. Cresce o receio de os avanços científicos não conseguirem nos salvar da ameaça viral. Em 2021, quando o Brasil registrou o maior número de óbitos por Covid (424 107), morreram no país 46% mais pessoas do que o esperado naquele ano. De janeiro a março de 2023, ainda em razão do coronavírus, o índice continuou acima da expectativa, embora num patamar bem menor: 18%. Os números são de um consórcio formado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde, a organização global de saúde Vital Strategies e a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais, que representa os oficiais de Registro Civil.
Entre os mais exauridos durante a pandemia, estavam os médicos e paramédicos. Na ocasião, atribuía-se a fadiga da categoria à terrível jornada de trabalho, fosse pelas horas extras, pela exposição contínua ao vírus, pelo medo de contaminar familiares ou pela falta de descanso entre uma onda e outra da Covid. Todos acreditavam que, tão logo vencessem o coronavírus, voltariam à rotina de sempre no “conforto médico”, a sala dos hospitais onde as equipes de saúde costumam relaxar.
Pouco se falava da fadiga pós-Covid, já sentida por muitos profissionais naquelas salas. Reclamar de cansaço para subir escadas, enquanto inúmeros pacientes sucumbiam nas UTIs, soava como heresia. No entanto, uma pesquisa recente com 603 médicos da Grã-Bretanha demonstrou que 48% deles manifestaram perda de rendimento nas atividades diárias em razão da Covid pós-aguda. Cerca de 18% afirmaram que ainda não conseguiam trabalhar devido às sequelas. Aproximadamente 55% pegaram o vírus na primeira onda da pandemia. Desses, 77% acreditam que se contaminaram no local de trabalho. A Associação Médica Britânica conduziu o estudo entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023.
Lembro-me claramente do médico que me atendeu num hospital público de Boiçucanga, no litoral paulista. Foi no verão de 2021. Alguns minutos debaixo do guarda-sol, às oito da manhã, me desgastaram completamente. Sentia-me um saco vazio – sem forças, com dor no peito e um assustador formigamento no braço esquerdo. Corri para o pronto atendimento do hospital recém-inaugurado. Recebi uma pulseirinha amarela e fiz o eletrocardiograma. Com minha ficha na mão, o médico despontou no corredor como quem se arrastava para o cadafalso. Aparentava uns 40 anos. Magro, gambitos empoleirados em sandálias de couro, corrente no peito com uma foto dos pais, ele contou que lá se iam cinco meses de fadiga. “Tem dias que desabo na cama logo depois do expediente e ninguém me tira dali.” A Covid o pegara de sola e o levara à intubação. Agora, além do cansaço infinito, sentia as panturrilhas arderem. Por sorte, tinha recuperado o paladar. “É um vírus do mal, sabe?” Ele disse que meu eletrocardiograma estava o.k. e que o formigamento provavelmente não passava de parestesia, choquinhos irritantes na pele, como se cada poro quisesse chamar minha atenção. Outra consequência típica da tempestade inflamatória causada pelo coronavírus.
O médico olhou para o receituário com o timbre do hospital, mas deixou a caneta pendurada no ar. Pelo franzir da testa, devia ter sofrido um apagão de memória. A foto dos pais balançava em preto e branco no peito. Ele a envolveu com uma das mãos e, com a outra, me prescreveu um analgésico. Seguia o protocolo de recomendar algo que sabia não funcionar.
Em agosto de 2022, a neurologista Clarissa Lin Yasuda pediu seu “antigo cérebro” de volta num artigo sobre a pós-Covid publicado nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria, periódico mensal da Academia Brasileira de Neurologia. Professora da Unicamp, a médica contraiu uma infecção leve por coronavírus em agosto de 2020 e teve vômito, diarreia, sonolência e soluços, além de dores abdominais e de cabeça. Em dez dias, todos os sintomas desapareceram, menos a cefaleia. Um mês depois, a dor de cabeça aumentou e se fez acompanhar de sonolência durante o dia. A fadiga logo se instalou. “Foi estranho, porque sempre me considerei uma pessoa energética, que precisava de apenas sete horas de sono para se recuperar”, disse Yasuda à piauí, em setembro passado.
Quando pegou Covid, a neurologista estava com 45 anos. Em virtude dos sintomas que a assombravam, ela não conseguia realizar análises acadêmicas mais complexas nem escrever propostas para o financiamento de pesquisas. Tampouco conseguia redigir artigos com a agilidade de antes. Perdia prazos, faltava a reuniões e se atrapalhava em tarefas simultâneas. No fim de 2020, concluiu que precisaria se adaptar à nova situação e diminuiu o ritmo, mas manteve os treinos de natação. Foi apenas no fim de 2021 que seu “antigo cérebro” deu algum sinal de vida. “Se perdi 30% de minha velocidade natural depois da Covid-19, acho que recuperei uns 10%. É constrangedor e doloroso não me reconhecer.”
Há vinte anos, Yasuda estuda a relação entre a epilepsia e a atrofia do hipocampo, que pode acelerar processos degenerativos como a demência. Atualmente, outros pesquisadores da Unicamp investigam os efeitos do coronavírus sobre aquela área cerebral. A médica disse ter recebido mensagens de pessoas com sintomas semelhantes aos seus ou até piores. Muitas reclamavam que a maioria dos profissionais de saúde não compreendia os incômodos ou duvidava deles. “É frustrante porque sei que todos os sintomas são reais e comprometem a nossa vida e o nosso trabalho”, escreveu a neurologista no artigo.
Em setembro passado, quando conversamos por telefone, Clarissa Yasuda retornava da Irlanda, onde participara do 35º Congresso Internacional de Epilepsia. Queixava-se de muita sonolência, atribuída mais às consequências persistentes da infecção por coronavírus do que ao jet lag. Na tentativa de me provar que a Covid longa segue entre nós, a médica citou o investimento de 50 milhões de dólares que a Austrália acabara de fazer em pesquisas sobre o tema. O país de 26,4 milhões de habitantes deseja avaliar os impactos atuais e futuros da pós-Covid – especialmente depois do surto descontrolado da variante Ômicron em janeiro de 2022, quando quase 1 milhão de pessoas se contaminaram em apenas duas semanas.
Já no Reino Unido, cientistas saíram às ruas de Londres no começo de setembro em protesto contra os atrasos do governo para dar continuidade a um estudo sobre o tratamento dos principais sintomas da Covid longa. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos para a Saúde, responsável pela pesquisa, sofreu cortes expressivos de pessoal depois que a Grã-Bretanha deixou a União Europeia. Segundo Emma Wall, consultora acadêmica de doenças infecciosas e uma das líderes do estudo, muitos pacientes estão recorrendo a substâncias e procedimentos duvidosos na esperança de aliviar os incômodos, o que só alimenta a indústria das fraudes. Entre as panaceias, constam infusões intravenosas de vitaminas e terapias como “limpeza do sangue”, oferecidas em clínicas na Suíça, no Chipre e na Alemanha. Em março, o Departamento de Estatísticas Nacionais divulgou que 1,9 milhão de pessoas – ou 2,8% da população britânica – viviam com sintomas da pós-Covid. O cansaço encabeçava a lista dos perrengues mais sentidos.
Algumas pesquisas dão outro nome à fadiga: fatigabilidade. Se a fadiga transita no campo etéreo das percepções, a fatigabilidade é mais concreta. “Equivale ao tempo que alguém leva para atingir a falha numa determinada tarefa motora. Em nossos estudos, nós mensuramos esse tempo quando pedimos a um indivíduo que faça força num certo nível e que pare ao chegar à exaustão”, explica Leonardo Abdala Elias, professor-associado de engenharia biomédica na Unicamp e fundador do Laboratório de Pesquisa em Neuroengenharia (NER Lab) na mesma universidade. Num par de experimentos realizados em 2021 e 2022, ele e a mestranda Emilia Frigerio Cremasco identificaram que o grupo dos que tinham Covid demonstrou menor capacidade de gerar força e resistir ao esforço que o grupo controle, além de menos destreza na mão dominante. O grupo controle é aquele que não recebe tratamento algum ou recebe apenas placebo, ao contrário do grupo experimental, no qual se testa de fato a terapia ou o produto visado.
Com esses achados de fatigabilidade, Elias e sua equipe começaram a matutar sobre terapias para atenuar o cansaço dos que se submeteram à pesquisa. O foco do NER Lab é estudar os diferentes mecanismos envolvidos no controle neurofisiológico do movimento humano. Daí a razão de os olhos de Elias brilharem diante de um equipamento chamado tDCS – ou transcranial Direct Current Stimulation (em português, estimulação transcraniana por corrente contínua ou ETCC). O aparelho possui uma fonte elétrica de baixa intensidade e não invasiva. Por meio de eletrodos, a corrente emitida alcança certas áreas cerebrais dos pacientes, o que estimula a atividade delas durante exercícios de reabilitação. O processo é indolor.
Desde fevereiro, o ner Lab usa o equipamento numa pesquisa (patrocinada pelo Ministério Público do Trabalho) que busca identificar se choques sutis podem atenuar a fadiga pós-Covid quando aplicados nos doentes ao longo de cinco dias. Estudo conduzido por nove cientistas italianos e publicado no periódico NeuroRehabilitation em 2014 concluiu que os choquinhos diminuíram o cansaço em portadores de esclerose múltipla. “Se mostrarmos que o tDCS tem um impacto positivo também na fadiga pós-Covid, vamos propor novas pesquisas, inclusive com pessoas afetadas por outras doenças neurológicas ou neuromusculares”, diz Elias, bastante animado.
Quem também se anima com o experimento é a professora de educação infantil Andrea de Cássia Pontes Balioti, de 53 anos, que mora em Rio Claro, no interior de São Paulo. Em fevereiro de 2020, dezoito dias depois de se aposentar, ela manifestou uma intensa dor de cabeça frontal, como se algo lhe comprimisse o cérebro. Logo vieram os calafrios, a dor nos ossos e uma prostração que a impedia de se levantar da cama. A Covid ainda não desembarcara no Brasil, mas a dengue corria solta. A batelada de exames confirmou a doença transmitida pelo Aedes aegypti.
Foram nove meses de puro arrasto. “Parecia que eu estava envenenada”, relembra. “Pensei que nunca iria me curar.” Pouco a pouco, Balioti logrou carregar mais sacolas, varrer mais assoalhos e vencer mais escadas. Mas ainda não sente que sarou de vez. Para se aprumar, recorre à musculação com personal, à dança em ritmo lento e à natação com snorkel (tubo de respiração), já que não consegue virar o rosto para respirar fora d’água por causa da tontura. Outros movimentos, como erguer a janela de casa ou dobrar o corpo para a frente, também lhe causam mal-estar. “Fiquei mais xarope”, lamenta. Segundo o Ministério da Saúde, entre janeiro e meados de novembro de 2023, registraram-se 1,66 milhão de casos novos de dengue no Brasil contra 1,7 milhão de casos novos de Covid no mesmo período. Estudos comprovam que sintomas pós-dengue podem persistir por meses a fio – a fraqueza é o mais comum. Curiosamente, tais estudos não usam a expressão “fadiga”. Preferem a palavra “fraqueza”, embora os pacientes relatem perda de força e de energia semelhante à da Covid longa.
A sensação de envenenamento também aparece com certa frequência entre os “pós-covidados”, acentuada pelo gosto metálico na boca. Mais de uma vez, vasculhei o prato à procura de algum pedaço de papel-alumínio no meio da comida porque o sabor de metal invadia subitamente as minhas refeições. A neurologista e farmacologista Bindu Diana Paul, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, acredita que o excesso de ácido lático nas células provoca a distorção do paladar e a sensação de envenenamento. O composto se acumula ali no lugar do combustível celular habitual, consumido pela superinflamação típica da Covid.
A professora Andrea Balioti destaca mais um ponto que a aborreceu durante a recuperação: o estigma da fragilidade feminina. Aqui e ali, ela percebia olhares e expressões que pareciam dizer: “É mulher, é fraca, está com depressão, reclama mesmo.” Daisy Fung, médica de família em Edmonton, cidade do Canadá, notou reação parecida quando postou nas redes sociais sobre a fadiga pós-Covid, que a impedia de trabalhar normalmente e de jogar tênis e badminton. Uns amigos lhe deram apoio, mas outros – inclusive colegas de jaleco – disseram que se tratava de burnout ou algum distúrbio comportamental. Reiteravam, assim, a tendência de psicologizar as dores das mulheres.
Assim que soube da investigação que pesquisadores da Universidade de Alberta vinham fazendo sobre o estigma em torno das vítimas da Covid longa, Fung se candidatou como voluntária. O questionário respondido pela médica e por mais 144 pessoas – a maioria do sexo feminino – revelou que o descrédito não só existe como aumenta a solidão dos incompreendidos, especialmente aqueles demitidos do trabalho por não conseguirem cumprir com suas funções. A revista The lancet discovery science publicou o estudo em novembro de 2022. Nele, os autores especularam sobre o papel que colegas, empregadores, instituições, sistemas de saúde e governos podem desempenhar para reduzir o impacto negativo na carreira profissional dos afetados.
Depois de vencer um câncer de mama com cirurgia, químio e radioterapia, Emily K. Abel enfrenta o cansaço extremo há duas décadas. Historiadora na área de saúde pública e professora emérita da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, escreveu o livro Sick and tired: an intimate history of fatigue (Doente e cansada: uma história íntima da fadiga). O relato desnuda os disfarces de que ela se vale para parecer inteira quando está destruída pelo torpor. Com acidez, a autora também menciona um amigo que, após infartar, disse enfim compreender o que Abel sente. “Isso me fez suspeitar que ele nunca acreditou no que eu falava antes, e muitas pessoas ainda não acreditam.”
O marido da historiadora costuma ir sozinho a programas culturais noturnos porque a mulher precisa se deitar até as 20 horas. Hoje com 81 anos, Abel sempre se imaginou o tipo de avó que encheria os netos de presentes e os acompanharia em aventuras emocionantes. Logo as crianças perceberam que o avô é quem assumiria esse papel. A historiadora ficava para trás, tirando cochilos matinais e vespertinos. Como o barulho das lojas de brinquedos a desnorteavam, ela invariavelmente aparecia de mãos vazias nas reuniões de família.
Para minha surpresa, um ano e meio depois do diagnóstico de Covid longa, percebi que os sintomas começaram a arrefecer. Aos poucos, o cansaço foi diminuindo. Eu sentia menos dores nas pernas e menos formigamento nas mãos. Os exercícios, orientados por um fisioterapeuta, ganharam carga. As massagens semanais claramente surtiam mais efeito. Eu já me permitia sair do supermercado com duas sacolas de orgânicos em vez de uma. Não precisava mais de carboidrato extra para dar uma volta no quarteirão. Aliás, passei a dar duas, três, quatro voltas. Fui carregando nas tintas e finalmente consegui visitar de novo uma região montanhosa da qual andava fugindo, apesar do bem-estar que sempre me trouxe. A pirambeira já não parecia tão intransponível.
Acima de tudo, aprendi a filtrar as recomendações de uma medicina ainda sem norte em relação à fadiga. Cientista nenhum sabe afirmar categoricamente por que a Covid e outras enfermidades podem desencadear tamanha exaustão mesmo depois da suposta cura. Topei ser escaneada por exames de imagem, mas não mais com recorrência, e neguei exames invasivos ou dolorosos, que mais buscavam eliminar diagnósticos do que entender minhas limitações. Meu corpo precisava desinflamar, e não se irritar em salas de espera.
Sequela é uma expressão dura. Na seara médica, trata-se de uma alteração anatômica ou funcional que permanece depois de completada a evolução de uma doença e que impõe dificuldades para os afetados. Um acidente vascular cerebral costuma deixar sequelas. Surtos de esclerose múltipla, idem. Outros acidentes, como os domésticos e automobilísticos, também podem causá-las. Por ironia, em latim, a palavra sequela refere-se também ao “ato de seguir”. Meu cansaço foi embora. Não sei se iria por si próprio ou se a maneira como o enfrentei fez diferença. Restou, no entanto, a desconfiança: será que, um dia, tudo voltará como uma avalanche? Sem resposta, o melhor mesmo é seguir em frente – que atrás vem outra variante.
Leia Mais
