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Uma outra realidade

    “Sonho dos espíritos. Quando somos bem jovens e nosso interior está bem limpo, quando dormimos, nós sonhamos com os espíritos aparecendo bem nítidos para nós. Toda a floresta dos espíritos aparece. Quando sonhamos com os espíritos, nós não dormimos bem, pois estamos virando outros! É assim que se parece a floresta dos xapiri em nossos sonhos”, escreveu Joseca Yanomami no verso do desenho, em sua língua materna. Os textos das legendas nas páginas seguintes também são do artista. Ele os considera parte de cada trabalho Foto: estúdio em obra_grafite, lápis de cor, tinta de caneta esferográfica e tinta de caneta hidrográfica sobre papel_42 x 59,5 cm

portfólio

Uma outra realidade

Sonhos e mitos retratados pelo artista indígena da Amazônia

Joseca Yanomami | Edição 230, Novembro 2025

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Apresentação de Hanna Limulja

Na infância, Joseca Mokahesi Yanomami gostava de caçar em torno da casa coletiva onde morava. À semelhança de outros meninos, ele ficava imerso na floresta e corria atrás de pequenos animais, sobretudo calangos e passarinhos. Por ser criança, nunca ia muito longe. Quando regressava, se sentia diferente. Deitava-se na rede e sonhava com a floresta. Nos sonhos, Joseca aumentava de tamanho. Seus braços, pernas, boca e olhos cresciam imensamente. Depois, quando despertava, ele percebia que seu corpo tinha voltado ao tamanho normal.

Às vezes, durante o sonho, a floresta aparecia com um brilho muito forte. As folhas das árvores cintilavam feito plumas de urubu. Para onde Joseca olhasse, havia uma luz intensa. Ele acordava com saudade dos animais que frequentavam a mata. Assim que o tempo da vigília encobria o do sonho, o garoto saía em busca dos bichos. Como também tinham saudade dele, os animais estavam sempre perto da casa, à espera do encontro.

 

A saudade era o que movia Joseca a ir atrás daquilo que enxergava em seus sonhos. É igualmente a saudade que emociona os yanomamis quando, ao cair da tarde (e é preciso que a tarde caia), eles sentem o vazio deixado por aqueles que já se foram. Os sonhos com os mortos surgem da saudade que os próprios mortos sentem dos vivos, que permanecem neste plano, o hwei mosi. Os parentes vivos, ao despertarem, se dão conta de que era um sonho e de que a saudade é um sentimento que contagia.

Joseca passou a infância se defrontando com sonhos que não compreendia e que duraram até o início de sua juventude. Não raro, nessas ocasiões, sentia medo. Diante dos estranhos seres de luz que apareciam em alguns daqueles sonhos, ele pensava: “O que está acontecendo? Será que vou morrer?” Depois, nas andanças pela floresta, tinha dúvidas quando flechava um mutum: “Será que é uma ave de verdade? Será que é um yanomami? Ou um fantasma?” Joseca voltava para casa confuso, refletindo sobre essas coisas. Temia estar se transformando em outro e não conseguia dormir bem.

Um dia, seu pai lhe explicou: “Os seres de luz surgem nos sonhos porque querem que você se torne xamã.” Esses seres são os xapiri pë, espíritos auxiliares dos xamãs. Eles invadem o sono de toda criança que pretendem converter em xamã até que ela cresça e alcance a idade de ser iniciada.

 

Depois da explicação de seu pai, Joseca continuou tendo sonhos com os xapiri pë, mas agora não temia mais nada, pois desejava se tornar um xamã. Por várias razões, o desejo não se concretizou, e os seres de luz pararam de aparecer. As cenas daqueles sonhos, contudo, permanecem dentro de Joseca, que nasceu em 1971, à beira do Rio Uxiu, no Norte de Roraima. São essas imagens que ele transporta para seus desenhos e suas pinturas.

Desde 2022, quando realizou uma exposição individual no Masp, Joseca figura entre os principais artistas contemporâneos do Brasil. Já participou de mostras importantes em países como Austrália, Japão, China, França e Itália. Atualmente, mora na comunidade yanomami Buriti, na margem esquerda do Alto Rio Demini, no Amazonas.

Este relato deriva de uma entrevista que fiz com Joseca em Boa Vista, no dia 11 de maio de 2024. Comecei a conversa perguntando como era possível que ele, sem ser xamã, retratasse um universo que apenas os xamãs conseguem ver. Foi então que Joseca me revelou a sua vocação xamânica interrompida precocemente. No final da conversa, lhe entreguei as gravações dos sonhos de xamãs yanomamis que realizei entre 2015 e 2017, durante meu trabalho de campo como antropóloga na comunidade do Pya ú, no Amazonas.

 

Em suas experiências oníricas, esses grandes homens veem um mundo a que só eles têm acesso. Por meio de seus cantos e falas – ou seja, da palavra –, contam para os kuapora thë pë (as pessoas comuns, que não são xamãs) tudo o que viram. Dessa maneira, mostram que a floresta é muito mais do que aquilo que podemos enxergar a olho nu e no tempo da vigília. Joseca, por sua vez, transforma em imagens o que os xamãs narram com palavras. Percebo, assim, que ele também atua como um xamã. Afinal, por meio de suas pinturas e seus desenhos, mostra para nós, os napë pë (não yanomamis), que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã cosmologia.

 

Foto: Filipe Berndt_acrílica sobre tela_95 x 147 cm

“A casa dos espíritos xapiri pë. Assim são as casas dos espíritos de nossos grandes e verdadeiros xamãs. Aqui onde nós vivemos é a base da casa dos espíritos xapiri pë e, lá no céu, está o topo da casa dos espíritos, que ultrapassa as costas do céu. Lá no alto dessa casa, ficam alguns espíritos xapiri para proteger. Se algum espírito violento vier na sua direção, eles logo vão ver. Mas a casa dos espíritos é ainda mais alta e, em seu topo mesmo, está Paxoriwë, espírito do macaco-aranha. Lá ele fica segurando a ponta da casa para não deixá-la balançar. Dentro dessa casa vivem todos os espíritos xapiri pë, lá no alto, onde a casa está enfeitada de plumas. Assim são as casas dos espíritos xapiri pë”

 

Foto: Filipe Berndt_acrílica sobre tela_91,5 x 137,5 cm

“Sobre como é o grande coração da Terra. Nós, yanomamis, os não indígenas, os animais que andam no chão, os animais que voam e os animais aquáticos, não conhecemos o grande coração da Terra. Somente os espíritos xapiri pë e os xamãs o conhecem, por isso pensamos que o grande coração da Terra não existe. Mas assim que é, todos nós estamos respirando juntos com o coração da Terra, quando ele respira o ar, todos nós respiramos juntos, porque todos os nossos corações estão conectados com o grande coração da Terra. É assim que todos nós respiramos juntos com o grande coração da Terra”

 

Foto: estúdio em obra_grafite, lápis de cor, caneta esferográfica e caneta hidrográfica sobre papel_50,5 x 65 cm

“O sonho de jacaré-açu (Melanosuchus niger). Quando o jacaré-açu quer nos atacar, é assim que nós sonhamos. Em cima de nossas cabeças, muitas abelhas solitárias (Centris sp.) ficam voando, os nossos mais velhos nos ensinaram que elas são os genros do jacaré-açu. Quando temos um sonho assim, facilmente seremos atacados por um jacaré quando
formos tomar banho”

 

Foto: estúdio em obra_acrílica sobre tela_100 x 120 cm

“Palavras sobre o espírito Koimari. Este Koimari pode ser bom para os yanomamis, mas também pode nos causar mal. Quando os espíritos amarram e carregam o interior de uma criança, é Koimari que os busca de volta rapidamente. Mas Koimari também ataca muito as crianças, ataca os velhos, ataca os inimigos, ataca as onças…
É assim que Koimari faz”

 

Foto: Julia Thompson _grafite, lápis de cor, caneta esferográfica e caneta hidrográfica sobre papel_50 x 65 cm

“Antigamente nossos antepassados comiam carne crua. Apesar de comerem crua, depois, com o tempo, dois jovens viram cabeças de lagartas caxa cozidas quando a maloca estava vazia. Então, jovem, velho, moça, mulher idosa, as pessoas ficaram pensando [sobre aquilo] até tarde. E, assim, muitas pessoas se reuniram, juntos se pintaram com tinta de urucum de forma que ficassem engraçadas, já que queriam fazer o jacaré rir [para conseguirem roubar o fogo que o jacaré escondia dentro de sua boca]. E, assim, ao terminar, as pessoas continuaram a dançar, mas o jacaré não riu de forma alguma. Sua esposa, a rã Hrãemeri (Otophryne robusta) não deixou que o jacaré desse risadas, as pessoas que dançavam estavam passando dificuldades ali, porém o pássaro Hiõmõra Moxi fez o jacaré rir ao defecar durante sua dança de apresentação. Dessa forma, como o jacaré riu com entusiasmo, deixou o fogo escapar [de sua boca] e todas as pessoas se apossaram do fogo. Então, [o pássaro] pegou o fogo com seu bico e assim colocou o fogo no alto do tronco da árvore. A esposa do jacaré, a rã Hrãemeri, tentou apagar o fogo com sua urina, mas o fogo não apagou. Dessa forma, o fogo existe até os dias de hoje, foi assim que nossos antepassados fizeram com o fogo”

 

Foto: Filipe Berndt_grafite, lápis de cor, caneta esferográfica e caneta hidrográfica sobre papel_45,5 x 75 cm

“Palavras sobre morrer nos sonhos. Quando morremos em nossos sonhos, nosso fantasma vai para o outro céu. Quando morremos no sonho, vemos todos os fantasmas dos mortos novamente. Voltamos a entrar nas casas dos fantasmas dos mortos. É assim que acontece quando morremos em sonho”

 

Foto: Filipe Berndt_grafite, lápis de cor, caneta esferográfica e caneta hidrográfica sobre papel_27,5 x 37,5 cm

“Quando escurece, os sonhos se espalham e dispersam. Então isso faz com que todos nós sonhemos. Nós, yanomamis, os não indígenas e os animais. A escuridão faz com que todos nós sonhemos em toda parte”

Joseca Yanomami

É artista plástico

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