CRÉDITO: FLÁVIA BOMFIM_2025
Todos querem alguma coisa por perto mas ninguém sabe o quê
Moisés Alves | Edição 232, Janeiro 2026
XANGÔ ENTRE IRMÃOS
a vida
em qualquer circunstância
fica acesa.
convoca-se tanta força
para dar apenas um passo,
para cair, ficar parado.
nascemos prontos
para o que for.
estamos prontos
para o que quer que venha,
pois o que vem na hora
arranja uma forma nova
apta em nos caber.
às vezes um homem
ama, trabalha, bebe e come
realizando o campo formoso do universo.
mesmo assim
corações estão desesperados
à espera de um vulcão
quando se pode apenas
aguardar pelo chamado.
a vida química
revela soluções extraordinárias
ao fazer de uma pessoa
um composto de muito mato, cinza e águas.
as cartas embaralharam-se.
ainda assim um rapaz receia
que seu coração rache diante
do meu rapaz muito misturado.
mas é inevitável.
caso esteja na paz da guerra
ou na guerra pela paz,
inevitável.
nosso espírito prenhe
quer espalhar as notícias dos mundos
que se deslocaram no ar
e nós estamos no meio
e dessa vez
somos nós os chamados.
espíritos abrigam-se
na nudez de um rosto
mesmo quando
aniquilado pelo sol
e álcool.
espíritos nos veem
negando prazeres banais
e dizem: pelo menos a paixão, soldado!
você traz o medo da morte,
da idade, da desordem,
de ficar mais pobre,
o medo de sofrer.
mas sofrer é um pássaro
de carona na borda de um trem.
em algum instante
ele fará o que veio fazer.
DIANTE DO INCÊNDIO
para Alberto Pucheu
A paisagem é uma pele.
Neste espaço
tudo o que tem de aparecer
se organiza e então se acende
para que todos vejam.
A necessidade de uma forma.
Todos querem alguma coisa por perto
mas ninguém sabe o quê.
A pele é o cofre
e o couro onde suas veias escrevem
o que haverá de ocorrer.
Uma escrita desalarmante
a depender do estado das artérias.
É verdade que você tem medo
de seu próprio destino?
Por que temer
o que é seu?
Confie na viscosidade de seu sangue
seja o que for, o sangue saberá
dar notícias aos passados e ao que vem
e assim receber recomendações
para decompor a brutalidade de uma dor.
Mas bem aos poucos
para que você conheça
distintos estados de levar
tudo isso em pleno corpo.
Deuses têm fogo e ar, água e terra.
Estão nas veias, portanto,
tenha paciência.
Há terras estrangeiras
porque deuses são estrangeiros
onde quer que estejam.
Desconhecem o que fazer
em mundos alheios.
O que a dor faz,
só uma dor mais acentuada deslocará.
Dores guerreiam.
Mas fracassam diante de nossa carência.
Uma carência dá fome.
A fome pede pão e carne.
Pão e carne levantam.
Um levante é irrefreável.
Nada detém o bando.
Ia dizendo
a pele é o grande livro,
a floresta em revoada, em chamas.
É sua pele que atrai os sonhos
para dentro de sua cabeça
e organiza uma cor só dela.
Própria. Que retornará no Egito
daqui a quatro décadas.
Todos podem ler a língua
incrustada nas linhas de sua testa.
Você já amou até atingir o escândalo
da entrega total, já amou até esse ponto?
É o que minhas linhas reconhecem
nas suas, você está viva
que eu sei.
Você já amou
até a agonia, é o que vejo.
Vamos, atenda o telefone,
é urgente, quero cantar pra você.
