Luiz Alfredo e Livia: ela ficou enciumada quando o marido adquiriu o escritório particular CRÉDITO: ©BEL PEDROSA_2014
Um canto no centro
O adeus ao escritório onde Luiz Alfredo Garcia-Roza escreveu quase todos os seus romances policiais
Livia Garcia-Roza | Edição 235, Abril 2026
Em 1996, com 60 anos e aposentado como professor pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde criou a pós-graduação em psicanálise, Luiz Alfredo Garcia-Roza encontrou um pequeno apartamento no Centro da cidade e o transformou num refúgio particular. Uma absoluta novidade em nossas vidas, na dele e na minha. Um escritório. Ali Luiz Alfredo, que já era um renomado autor de livros teóricos, escreveu romances policiais de muito sucesso e se consolidou como ficcionista. Ele queria correr riscos – contar histórias marcadas pela atmosfera carioca e pela figura reflexiva do seu protagonista, o delegado Espinosa.
O personagem é um tipo carismático, sóbrio, ético e culto, bem diferente de tantos outros detetives que frequentam os clássicos do gênero. Além de apreciar livrarias e sebos, ele ama flanar pelas ruas do Rio, a terra natal de Luiz Alfredo. Divorciado, vive sozinho em Copacabana e tem uma relação aberta com Irene, arquiteta que o visita regularmente. O nome do delegado homenageia Baruch de Espinosa, o filósofo racionalista holandês do século xvii.
Certa ocasião, quando lhe perguntaram por que resolveu abraçar a literatura policial, Luiz Alfredo respondeu: “Por urgência. Em geral, as pessoas se propõem a virar escritores na juventude. Eu comecei a escrever ficção com quase 60 anos. Não tenho mais tempo para grandes aprendizagens e divagações. Longos romances exigem anos e anos de trabalho. Daí a decisão de me dedicar às narrativas curtas, de menor complexidade e espessura temporal.”
Seu primeiro livro de ficção – O silêncio da chuva – ganhou, de cara, dois prêmios importantes: o Jabuti e o Nestlé, hoje extinto. Luiz Alfredo concebeu a trama ainda no apartamento do Flamengo onde morávamos. Os onze romances posteriores, em compensação, nasceram no escritório do Centro. Doze policiais primorosos, que inspiraram três filmes e uma série para a televisão. Os doze trabalhos de Hércules, realizados entre 1996 e 2019, um ano antes de Luiz Alfredo morrer.
Confesso que, logo após a compra do escritório, fiquei ressentida, enciumada. Às vezes, me pegava pensando em quem Luiz Alfredo estaria recebendo no seu espaço privado. Mas, com o passar dos meses, acabei relaxando. Aquilo não era da minha alçada – até porque Luiz Alfredo se portava como um marido na melhor acepção da palavra. Estava sempre ligado ao que nos rodeava. Não à toa, nos tornamos experts um no outro. E assim atravessamos mais de quatro décadas juntos. Bodas de resistência.
O “canto no Centro”, como Luiz Alfredo chamava o escritório da Avenida Beira-Mar, não era somente um local de trabalho. Era sobretudo um respiro – um lugar jeitoso, de tamanho adequado, no nono andar de um prédio comercial e residencial, com uma vista maravilhosa. Da janela, descortinavam-se o Pão de Açúcar, a Marina da Glória, o Museu de Arte Moderna e o Aeroporto Santos Dumont. O Rio de Janeiro aos pés de Luiz Alfredo.
Ele sempre foi um trabalhador incansável. Organizado, metódico e bastante preocupado com a finitude, costumava indagar quanto tempo de vida útil ainda teria pela frente. Saía de casa todas as manhãs, depois do café e do banho, e só voltava no final da tarde. O escritório era um espaço só seu. Por isso, estive poucas vezes lá. Nas raras visitas, me espantava com o silêncio absoluto do apartamento, que parecia uma biblioteca. Cerca de 2 mil livros se equilibravam literalmente no espaço. Luiz Alfredo não usava estantes. Preferia empilhar os volumes no chão – hábito que transferiu para o delegado Espinosa e que agradava a seus leitores.
Entre os livros, havia obras de Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, João Gilberto Noll, Machado de Assis, Joseph Conrad, William Faulkner, Ernest Hemingway, Fiódor Dostoiévski, Herman Melville, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Cormac McCarthy e tantos mais, sem contar os inúmeros ensaios de filosofia e psicologia. Com dois dormitórios, o apartamento era monástico, bem ao gosto de Luiz Alfredo.
Logo de início, ele se apossou do quarto da frente, onde acomodou a escrivaninha, o computador, a impressora e um sofá que tirou de nossa casa. Na sala, uma mesa com cadeiras aguardava as eventuais visitas de amigos ou de alunos em busca de orientação. No outro quarto, Luiz Alfredo fez seu aposento de vestir. Para a cozinha, levou uma máquina de café, copos e meia dúzia de xícaras. Dos poucos quadros que decoravam o imóvel, um retratava Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, cidade do pai dele.
O delegado Espinosa zanzava muito pelo “canto do Centro”, mas não morava ali. Numa noite em que iríamos jantar fora, Luiz Alfredo tomou o rumo do Bairro Peixoto – um enclave arborizado dentro de Copacabana –, diminuiu a marcha do carro quando se aproximou da praça local, apontou para fora e revelou: “Está vendo aquele apartamentinho com luz acesa? Lá vive o Espinosa.”
Também psicanalista e escritora, lancei em 2025 um livro que batizei justamente de Espinosa. Foi minha estreia na literatura policial. À época, publiquei um post nas redes sociais que dizia mais ou menos o seguinte: “Estava refletindo até que ponto me reinventei com a escrita dessa história. Antes que a repetição, a inércia ou a morte me vencesse, dei um giro e ousei escrever um livro policial protagonizado pelo Espinosa, a genial criação do meu marido. Me pus de personagem e vivenciei um romance com o delegado. Trabalhei na linha tênue entre o real e o imaginário, tentando me manter nela. De uma coisa estou certa: a vida só tem um rumo – em frente.”
Agora me recordo desses episódios com a alegria dos começos. O coração em paz. Lembro-me, ainda, de outra característica bonita do Luiz Alfredo. Ele gostava de passarinhos. Uma tarde, descobriu que alguns haviam feito um ninho no ar-
condicionado de nosso apartamento. Todos os dias, corria para espiar as aves. Assobiava, chamando-as. Um alvoroço quando apareciam.
No mês passado, assinei a venda do escritório. Me despedi serenamente do apartamento e soube que aquele edifício fica ao lado de onde o poeta Manuel Bandeira morou. Acho que Luiz Alfredo desfrutou de momentos felizes na Avenida Beira-Mar – com o silêncio, os livros e a vista. Seu trio de ouro.
No escritório, ele instalou várias linhas telefônicas. Mais de uma vez, lhe perguntei se ia ao Centro apenas para me ligar. Os telefonemas eram constantes. Eu não fazia outra coisa senão atendê-los. Certa manhã, Luiz Alfredo me ligou do Banco do Brasil e disse que não podia falar. Foi a conversa mais breve que tivemos. Hoje, se o telefone tocasse uma vezinha que fosse, para eu ouvir a voz dele, quanto contentamento… A vida é assim, passa.
