A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    Em 1982, Beatriz Sarlo se opôs à operação militar nas Malvinas. Em 2013, decidiu conhecer as ilhas, quando um referendo definiria seu futuro político: "Talvez tenha sido a minha última viagem importante. Ela me transportou não apenas ao pesadelo da guerra, mas a muito antes." LEGENDA: KERRIN HOFMANN

carta do extremo sul

Uma estrangeira nas ilhas

Impressões sobre as Malvinas trinta anos depois da guerra

Beatriz Sarlo | Edição 104, Maio 2015

A+ A- A

Nunca pensei em viajar para as Malvinas. A ocupação argentina de 1982 foi um dos episódios mais traumáticos da minha experiência política durante a ditadura. Eu me opus à operação naquele momento, quando se opor implicava fazer parte de um grupo quase invisível. Na época, chegamos a redigir um longo documento justificando nossa oposição à guerra e apontando o equívoco de boa parte da esquerda em apoiar a operação militar. A questão das Malvinas continuou a me perseguir durante muitos anos, e eu continuei a criticar o triunfalismo cego e o nacionalismo sem princípios. Nunca me senti mais distante do país onde vivia do que naqueles meses em que tudo foi eclipsado pela ilusão de que, guiada pela ditadura, a Argentina estava derrotando a Grã-Bretanha. Essa fantasia coletiva foi meu pesadelo.

Por isso nunca pensei em viajar para as ilhas, que eram para mim um lugar crepuscular: o crepúsculo da ditadura, da morte de centenas de soldados argentinos, de um nacionalismo territorial que não me interessava e que a Guerra das Malvinas me mostrou ser um tremendo equívoco não só dos militares, mas também de um avatar da ideologia argentina. Eu não tinha nada a comprovar nas ilhas.

Salvo nos guias turísticos, porém, as viagens sempre começam de forma não planejada, e minha ida às Malvinas foi um evento fora do programa. Em 2012, quando se completavam trinta anos da guerra, subscrevi um outro documento político, no qual se dizia, entre outras coisas, que “a afirmação obsessiva do princípio ‘As Malvinas são argentinas’ e a ignorância ou desprezo do arbítrio que ele implica debilitam a reivindicação justa e pacífica da retirada do Reino Unido e de sua base militar”. O texto teve grande repercussão na Argentina e, como comecei a notar pouco antes da viagem, nas ilhas também. [1]

 

Assim que anunciaram que os ilhéus participariam de um referendo, em 10 e 11 de março de 2013, resolvi – como se sempre a tivesse desejado – fazer essa viagem, escolhendo um pretexto para que não tivesse de explicar o tempo todo o que estava fazendo lá. Propus a Jorge Fernández Díaz, secretário de redação de La Nación, que o jornal me enviasse para cobrir a votação. Na tarde anterior à viagem, passei pela sede do jornal. Na hora de nos despedirmos, Jorge me disse: “Você não vai só escrever os artigos; vai escrever um livro.” Respondi que não, que eu não via um livro, mas naquele momento também não podia adivinhar.

A ida às Malvinas talvez tenha sido minha última viagem importante e forma um todo com as viagens da juventude: a última viagem durante a qual a experiência foi inesperada, reveladora, fora do programa. Ela me transportou não apenas ao pesadelo da guerra de 1982, mas a muito antes, a dias muito remotos. Fui às Malvinas quase movida por uma improvisação impulsiva. Mas fiz meu trabalho e escrevi os artigos. No próprio dia da chegada enviei a primeira matéria, para a qual escolhi um título cujo significado eu só entenderia por completo no final da viagem: “A experiência incomensurável.”

 

O avião, com rota Buenos Aires–Santiago do Chile–Punta Arenas–Stanley, estava cheio de jornalistas e observadores internacionais: o referendo era um acontecimento que importava não apenas à Argentina, aos ilhéus e à Grã-Bretanha. A bordo também havia turistas, cujo destino final eram as ilhas ou o sul do Chile. De Santiago a Punta Arenas fui sentada entre uma americana e um canadense. Ela estava lendo um romance de Charlotte Brontë em seu Kindle e me disse que ia fazer oito dias de trekking em Torres del Paine. O canadense lia um policial, do qual retirou páginas fotocopiadas de um guia de Punta Arenas e me apontou no mapa um local: “This should be a nice walk.” Antes, durante o embarque, vi dois franceses. Pensei que fossem observadores internacionais do referendo. Finalmente, quando um deles foi pegar um café, perguntei ao outro: “Excusez-moi, monsieur, vous allez aux Malouines?” Ele respondeu: “Bien sûr.” Então me animei: “En ce cas, êtes-vous du comité international d’observateurs?” E ele, resolutamente: “Pas du tout. Nous allons faire le tour des îles en bateaux à voile.” [2]

 

Eu achava que, como eu, todo mundo estivesse indo para o referendo. No entanto, pensei: também eu vou para uma ilha fabulosa, onde as ovelhas são tangidas de moto ou quadriciclo.

Descemos em Punta Arenas para passar pela imigração. Quando embarcamos de novo, sentou-se a meu lado um chileno que trabalhava na base militar britânica de Mount Pleasant como garçom do cassino de suboficiais, onde são servidas 500 refeições diárias. Uma mulher, amiga dele, também viajava nesse avião, para reassumir seu posto de bartender no cassino de oficiais, onde são servidas 150 refeições diárias. Os dois voltavam depois de um mês de férias. Meu informante chileno parece contente: trabalha nas ilhas há três anos e calcula que em mais dois já terá juntado dinheiro suficiente para casar, comprar uma casinha e um táxi em Antofagasta, no norte do Chile. Nem pensa no referendo. Está mais preocupado com o anúncio da mudança da empresa concessionária do catering da base militar. Trinta chilenos ganham a vida lá. Dois aviões semanais transportam verduras e frutas do continente.

Meu amigo John King, ao chegar de Londres, descreveu assim sua aterrissagem nas ilhas:

 

Quando nos preparávamos para pousar, com o Exército, em 1991, eu estava olhando pela janela do avião no momento em que dois caças apareceram de repente para nos escoltar. Os pilotos pairavam fora, ao nosso lado. Continuaram a nos acompanhar por um trecho e depois, com uma espécie de sopro, desapareceram. Assim que aterrissamos, um militar nos deu instruções sobre como devíamos nos identificar e tomar cuidado com as minas enterradas.

Nós, ao contrário, pousamos normalmente, sem escolta de caças.

 

Daquela viagem de 1991, John King me trouxe um relógio de pulso azul, redondo, com mostrador branco, um pinguim no terço superior e a inscrição, em letras pequenas: Visit the Falklands. Usei-o por muitos anos, até que um dia quebrou. O relojoeiro olhou para ele com tristeza e se declarou incapaz de consertá-lo. Agora eu queria achar um igual e mandar para John. Não consegui. Multiplicaram-se as lojas que vendem suvenires para os turistas dos cruzeiros, mas já não há relógios azuis com pinguins.

O taxista que vem me apanhar no aeroporto é um argentino que resolveu se estabelecer nas ilhas. Acaba de receber um crédito de 95 mil libras, a ser quitado em trinta anos, e está construindo uma casa nos subúrbios de Stanley, a capital. Um irmão muito mais novo, que está de visita, o acompanha. Durante a viagem num veículo 4 x 4, ele nos fala de outros imigrantes: não só chilenos, mas também nativos de Santa Helena (a ilha no meio do Atlântico onde Napoleão foi prisioneiro dos ingleses) e de Ascensão. O motorista me deixa na 11 Ross Road West, onde fica a casa de Joost Pombert, que ele conhece muito bem.

Poucos dias antes de partir, eu soube que algumas famílias ofereciam hospedagem em um quarto da casa, já que a Malvina House (assim mesmo, no singular) estava lotada. Embora eu tivesse um quarto reservado nesse hotel, achei melhor ficar com uma família local. Na tarde do sábado, quando o táxi me deixou ali, em frente à cerca e ao gramado que tive de atravessar até chegar à grande casa branca, ao cumprimentar o dono que me esperava à porta tive a impressão de assomar a um local estranho e familiar ao mesmo tempo. Não pude confirmar essa impressão nas primeiras duas horas, porque me tranquei para escrever o primeiro artigo, a tempo de enviá-lo ao jornal naquela mesma noite.

Mas depois, às oito da noite, com a luz do dia ainda entrando pelo janelão da sala-cozinha onde estavam Joost e suas duas filhas, ao fazer o brinde de boas-vindas confirmei que não me enganara. Em frente à casa, um navio semiafundado, carcomido pela maresia e pelas ondas, era o símbolo ilhéu que alguém de terra firme, como eu, precisava como confirmação. Já sabia que Janet, a mulher de Joost, estava em viagem de trabalho e que não nos conheceríamos. Havíamos nos correspondido antes do meu embarque.

A luz caía. Lentamente, tudo se recobria de uma película translúcida e cinza. Lá fora fazia muito frio, como sempre ali. Comemos carne com uns legumes estranhos e duros, que é o que se consegue nas ilhas, onde tudo que vinga parece petrificado ou eletrizado. Joost cultivava algumas verduras no quintal. Depois fui examinar aquelas plantas que cresciam contra o vento como exemplares minerais de uma botânica original ou sobreviventes numa natureza hostil. Como um baixo contínuo, eu lembrava que aquele frio, aquele vento e aquela superfície rochosa haviam sido a paisagem dos soldados argentinos, sem comida e sem roupa adequada, na aventura de 1982.

 

Joost é bom cozinheiro, e aquelas verduras peculiares, aquelas folhas retorcidas se transformaram em nosso jantar. As filhas, de 13 e 15 anos, não mostraram interesse em colaborar com o que era um dos meus objetivos: falar com um grupo de estudantes. Foi uma missão desejada e impossível.

Acompanhei Sophie, a mais velha, à escola, esperando encontrar seus colegas pelo caminho. Ninguém falou conosco. Sophie andava rápido, cortando caminho pelo barranco que sobe da costa. Falamos de sua próxima viagem à Inglaterra, onde ela vai concluir o secundário, que nas Malvinas só vai até o 4º ano, e não até o 7º, como na Argentina. Está em dúvida entre matemática e filosofia. Ficou contente quando eu disse que ela talvez descobrisse que as duas podem ser muito próximas. Quando chegamos à porta da escola, percebo que ela quer se livrar de mim o mais rápido e discretamente possível, sem perder as boas maneiras. Percebo que não quer ser vista comigo. Mas peço que me apresente ao diretor.

Entra, decidida, quase imperiosa, na secretaria, e me apresenta. Diz: “Journalist from Buenos Aires. She is living at home.” Durante todos esses dias, nas conversas com Sophie, não esbarro num assunto que me permita mencionar a Argentina.

O diretor da escola me olhou com desconfiança e só autorizou uma visita para dali a cinco dias, uma visita que acabou consistindo numa correria, dele e minha, a toda velocidade pelos corredores e salas dessa escola secundária bem iluminada, limpa, repleta de aparelhos e de livros, projetores, salas de música. O diretor se chama David Tongue e é nervoso, incisivo, desconfiado, no limite da descortesia. Veio de Londres e tem pouco mais de 40 anos. Ainda não perdeu o ar resoluto da cidade grande, um estilo seco e arrogante que não vi em outros ilhéus. Não me permitiu parar em nenhum lugar nem conversar com ninguém. De qualquer forma, não havia muita gente com quem falar. O diretor escolheu a hora em que os alunos tinham o recreio mais longo e, quando esse intervalo se aproximava do fim, também deu por encerrada a visita. Os estudantes só falaram com jornais britânicos. Eu podia riscar do meu caderninho o projeto de fazer uma matéria com os jovens.

Minhas botinas vermelhas, que fora de Buenos Aires sempre provocam comentários e, meses antes, em Harvard, tinham sido uma infalível conversation piece com desconhecidos de toda espécie, eram ignoradas, com disciplinada indiferença, pelas filhas de Joost. Sabiam que, se fizessem qualquer comentário, abririam uma brecha para que eu falasse sobre a Argentina. Inteligentes, se abstiveram. Chegaram a dizer que é difícil conseguir roupa boa nas ilhas, mas nunca me perguntaram sobre a roupa no lugar de onde eu vinha. Entendi que ninguém tinha ensinado isso a elas. A Argentina simplesmente se transformara em algo ameaçador e impronunciável. Antes de 1982, as coisas não eram assim. Joost se referia sem dificuldade à Argentina, país com o qual (como eu iria descobrindo) a família tinha relações de longa data. As meninas, ao contrário, se recusaram a aprender castelhano na escola. Alegaram não gostar do professor, um espanhol, mas essa não era a única razão. A cautela que mantinham comigo indicava uma distância mais profunda. Eu levara um CD de Spinetta, que pensava em deixar com elas depois de explicar quem era. Percebi que era melhor nem tentar.

A casa de Joost fica muito perto da do governador das ilhas, quase no final da rua mais importante de Stanley. É uma avenida na orla, onde a cada 200 ou 300 metros há um monumento histórico. Durante sete dias caminho ao longo dessa avenida sob vento, garoa, nevisco, alguns raios intermitentes de um sol que parece apagado, novamente a garoa e, sempre, o vento que quase não me permite avançar. Às vezes as rajadas me dobram e me empurram para o lado. Subo o zíper de meu casaco com forro de pele e penso nos soldados argentinos de 1982. As pessoas com quem cruzo ao longo da avenida olham para mim e imediatamente detectam que sou estrangeira. Quando as cumprimento, me respondem com um meio sorriso ou uma inclinação quase imperceptível da cabeça.

 

No domingo de manhã, isto é, no primeiro dia em que acordei nas Malvinas, Joost me levou até a catedral. Imaginei que alguma coisa poderia acontecer ali, mas o local encontrava-se quase vazio porque a cidade inteira estava ligada no referendo. Em vez de seguir diretamente para o Town Hall, onde estavam as urnas, resolvi ficar um pouco na igreja. Na porta, o reverendo Richard Hines apertava a mão de quem entrava. Precavendo-se, comentou comigo: “Talvez hoje sejamos poucos.” Depois, em castelhano, porque foi missionário no Chaco, me deu novamente as boas-vindas.

Sento sob a alta nave de madeira escura, um casco de navio emborcado, e espio ao redor: nas paredes, as placas rememoram malvinenses mortos no início do século XX. Espero o sermão. Decerto o reverendo Hines pensa que fui até lá para ouvi-lo. Pergunta: “Que dia é hoje? Um dia muito importante porque nosso referendo se inicia.” Foi a única menção.

Soa um harmônio e a bela voz de uma soprano canta o primeiro hino, alusivo a Mateus 7.24 .[3]
The wise man built his house upon the rocks
And the rain came down but the house kept firm.
But the foolish man built his house upon the sand
And the house on the sand came down.

A segunda parte do sermão é sobre o Dia das Mães. Sinto certo desapontamento e corro para o Centro, onde se formam filas para votar.

 

Neville Hayward, gerente de supermercado, veste um terno confeccionado com a bandeira britânica: colete e calça, cortados de tal modo que os desenhos coincidem nas costuras e nas pregas, gravata-borboleta no colarinho da camisa branca; sua mulher está com uma túnica folgada, que traz na barra pequenas manchas em vermelho e azul, como um jogo óptico. Quando, horas mais tarde, um canal argentino o entrevista, o homem diz, como era previsível, que sua fantasia é uma afirmação de seu patriotismo. Ele e a mulher de fato provam o quanto são patriotas ao suportar em mangas de camisa aquela temperatura. No frio da manhã, pulando e rindo, esperam a vez de votar.

Todas as pessoas estão ali na rua em função do referendo. Um imigrante de Santa Helena acompanha sua mulher loira. Farão uma fila que vira a esquina: gente que se conhece e responde à imprensa estrangeira como se já soubesse o que os jornalistas querem ouvir. Sempre informam quando chegaram às ilhas ou a que geração de ilhéus pertencem. Em alguns casos nem é preciso perguntar o voto: a camiseta branca traz estampado um mapa da América Latina em que a superfície da Argentina é ocupada pelo Oceano Atlântico (país afundado no mar), com os dizeres “Britânico até a medula”. Equivalente do pôster “Falk U Argentina” que, devidamente ilustrado, enfeita alguns automóveis.

Um homem de 50 anos me explica a política argentina. Eu permaneço em silêncio, e ele, talvez pensando que tenha sido muito incisivo, retira o papel branco que cobria o pacote que segurava esse tempo todo, e diz: “Em sinal de amizade, quero lhe oferecer um enrolado de salsicha; faz muito frio para a senhora.”

Agradeço sinceramente, porque tenho muita dificuldade em suportar o frio. Em seguida, o homem torna a cobrir a generosa bandeja de enrolados e retoma o ar severo. Enquanto como, escuto sua argumentação bem articulada: “Não podemos nos separar da Grã-Bretanha porque não teríamos dinheiro para pagar nossa própria defesa. Não poderíamos pagar, por exemplo, aos russos, nem a quem quer que seja. E a Argentina nos atacaria.”

“Então continuar sendo território britânico é o único jeito de não virarem território argentino?”, pergunto. “Exatamente.”

Para esse homem, o Reino Unido é, em primeiro lugar, uma necessidade geopolítica, mais do que a longínqua pátria de uma identidade. Para a maioria, ao contrário, há algo de identitário em jogo: uma mescla de duas ilhas em hemisférios diferentes. Algo de rural britânico define a paisagem e algo de patagônico a marca com a mesma intensidade. Com esses dois traços construo provisoriamente uma identidade ilhoa, à qual se acopla a ilhoa identidade dos imigrantes que chegam do meio do Atlântico. “O ilhéu”: as filhas de Joost, Sophie e Sorrel, nadadoras, participam dos jogos olímpicos das ilhas que foram ou são territórios britânicos.

Tento falar com uma garota de 9 ou 10 anos, muito bonita, com o cabelo preso para trás por uma tiara também patriótica. Ela não responde. Meu sotaque certamente me delata, e a mãe a toma pela mão para afastá-la. Aqui me sinto particularmente consciente do meu sotaque, coisa que nunca me acontece em outros lugares onde se fala inglês. Depois será reforçada minha impressão de que muitos ilhéus, em outras circunstâncias, podem falar um pouco de castelhano. Mas não agora. Não com uma pessoa vinda da Argentina. Um passo à frente, está na fila uma das representantes na Assembleia das ilhas, que entrevistarei dias mais tarde. Quase na porta de entrada do Town Hall, outro membro da Assembleia. Um homem aponta para ele. Imperioso e petulante, ordena: “A senhora tem que falar com esse aí. Vamos, faça suas perguntas.”

Minha aparência não britânica é indisfarçável. Com a exceção dos imigrantes do Chile ou de Santa Helena, todos me parecem loiros, mesmo quando não são. Depois penso que meus olhos sofrem de uma espécie de racismo defensivo: todos me parecem brancos, e eu me sinto moreninha. Minha autoconsciência se transfere a minha roupa e a meus sapatos, porque, excluindo a fantasia de bandeira britânica, os ilhéus têm um estilo atemporal, quase sem nenhuma marca da moda. Sentindo-me duplamente estrangeira, por causa da minha origem e também do juízo que, nesta manhã de referendo, atribui a todo argentino a ideia de se apoderar das ilhas, lembro-me da estranha história de Alejandro Betts, o único ilhéu que escolheu viver na Argentina. Arranjou um emprego no aeroporto de Córdoba e agora defende o direito argentino às ilhas. É o único caso conhecido. Betts hoje vive em Agua de Oro, Córdoba, e não votará junto àqueles que foram seus vizinhos até ele deixar as ilhas, aos 60 anos.

 

Os números do censo de 2012, publicados pelo Penguin News, são eloquentes no que diz respeito à autodefinição dos recenseados. Mais da metade dos votantes, quase 70%, definem assim sua identidade como povo: Falkland Islander (traduzido a uma denominação argentina: malvinenses). Explicaram-me que o adjetivo kelper só é aceitável quando utilizado por um ilhéu. Impróprio para quem não é. A nacionalidade argentina não aparece nessas opções. Seria muito estranho se aparecesse.

Na memória está o desembarque de abril de 1982, não a épica de alguns gauchos precariamente assentados nas ilhas em 1830. Sua história não começa com a Coroa espanhola, nem com o governo de Juan Manuel de Rosas. Seria preciso submetê-los a um aprendizado que não desejam, mais parecido a uma doutrinação que à recuperação de qualquer passado perdido. E, além disso, sempre seria um passado com o qual eles não têm nada a ver. A identidade não é simplesmente um dado estabelecido por leis e tratados. Há décadas as ciências sociais valorizaram a cultura, os costumes, a língua, a organização familiar, as religiões, as formas de trabalho e do lazer como fios que tecem a trama da identidade.

Os habitantes se declaram ilhéus das Falklands mais do que britânicos. Todos aqui falam em “gerações”, adicionando à palavra algum ordinal e, eventualmente, a origem do antepassado pioneiro (imigrante, no meu entender; pirata, na visão do nacionalismo argentino): terceira geração, Gales; quinta geração e prisioneiro da Argentina durante a guerra; terceira geração, Escócia; britânico das Falklands, quarta geração; uma mulher de Gales se define como “ilhoa britânica”; outra, “ilhoa vinda da Escócia”. As respostas que obtive na fila parecem pergaminhos de um torneio genealógico. São dias de patriotismo. Ninguém duvida do resultado do referendo. A única incógnita é se o comparecimento será maior do que na eleição dos membros da Assembleia local.

A pergunta a que os ilhéus devem responder com um sim ou um não é a seguinte: “Deseja que as ilhas Falklands conservem seu atual estatuto político como território ultramarino do Reino Unido?” A resposta afirmativa abre duas possibilidades: como território ultramarino, as ilhas preservam o direito de no futuro reivindicar a autodeterminação. Ou, então, podem nunca fazê-lo, por decisão própria ou cedendo a pressões econômicas e políticas do Reino Unido. Permanecendo como território ultramarino, a defesa e a política externa das ilhas continuarão sob a responsabilidade da Grã-Bretanha. Este último ponto é importante quando se vier a considerar o direito à autodeterminação. Estas ilhas assumiriam a obrigação de enfrentar esses gastos inevitáveis?

Se for mantido o status atual, o governador continuará a ser nomeado por Sua Majestade, a rainha, de acordo com a ordem constitucional aprovada em 2008, permanecendo em exercício até que ela revogue o mandato. Escolhe-se uma Assembleia Legislativa composta por oito membros eleitos pelos cidadãos, além de outros dois que são incorporados a ela pelo cargo que ocupam como Chefe de Finanças e Porta-voz, sem direito a voto. Permanecem quatro anos em suas funções. O governador conta com a assistência de um Conselho Executivo integrado por três membros da Assembleia, entre outros funcionários.

É isso que será votado. Mas, como em toda eleição, o voto não se esgota nessas razões institucionais.

O referendo pode ser vivido como o capítulo final de uma vitória dos ilhéus. Quando se faz uma pergunta desse tipo a um conjunto de pessoas que vivem em comunidade, essa comunidade exerce uma opção política transcendente: O que somos? Qual é nossa inserção no mundo? Que relação será reconstruída com a Argentina, se é que algum vínculo se reconstruirá?

Sob as prescrições legais há um modo de vida, que eles saberão definir e cuja definição será sempre respeitável. Seria uma boa ideia que os argentinos soubessem o que essas mulheres e esses homens querem dizer exatamente quando chamam a si próprios de “ilhéus das Falklands”, em vez de corrigi-los dizendo que o que chamam Falklands na verdade se chama Malvinas, porque, em 1833, os ingleses desalojaram o gaucho Rivero e implantaram uma dominação colonial. No ato, os ilhéus responderiam que eles não são uma colônia, e sim um território ultramarino. Por isso, mais de 2 500 pessoas refutam o modo como os argentinos caracterizam o regime político em que vivem. Os argentinos que reivindicam as ilhas dizem aos ilhéus: “Mesmo que não percebam, vocês vivem numa colônia, enquadrada nas resoluções da ONU sobre descolonização. Vocês acham que vivem num território ultramarino, mas, considerando o passado colonial da Grã-Bretanha (aí podem ser enumerados casos como o da Índia e sua luta pela independência, na qual seus habitantes, por certo, não queriam ser território britânico), a invasão de 1833 às ilhas define seu presente.” Não é um argumento que eles considerem verossímil. Além disso, depois de 1982, na memória desses ilhéus, foi a Argentina que ocupou o lugar do invasor.

 

Com os pés e as orelhas geladas, continuo percorrendo a fila de votantes. Faz muito frio, e os jornalistas não estão autorizados a entrar no Town Hall até amanhã à noite, quando anunciarem o resultado. Fora, duas cabines de telefone vermelhas, idênticas às de Londres, parecem tanto um marco turístico quanto uma afirmação de identidade. Eu me sinto tentada a entrar numa delas e a ligar para Buenos Aires, mas me contenho. Lembro-me de uma noite em que eu estava em Nova York, num clube de jazz. Ouvia um pianista branco, cujo nome não sabia. Afastei-me do balcão, caminhei entre as mesas até onde estava o telefone público (os celulares ainda não haviam chegado) e liguei para Buenos Aires. Quando atenderam, eu não soube o que dizer, nem por que estava ligando. Precisava de uma conversa que não podia ter pelo telefone. De certo modo, a fila de votantes com diversos distintivos britânicos acentuava minha condição de estrangeira, porque depois de interrogá-los encontrava o mesmo estoque de respostas: sem chance de conversa.

Fui caminhando até o Malvina House, pensando, para me acalmar, que o hotel estaria cheio de estrangeiros como eu, todos aqueles que deviam acompanhar o referendo e, depois de seguir a fila durante duas horas, com o mesmo frio que eu sentia, davam meia-volta e se dirigiam pela rua da orla para o mesmo destino.

Em frente ao Malvina House fica a redação do Penguin News, uma casinha de madeira, de telhado baixo. Entrei sem bater. Nem a diretora, nem John Fowler, o principal colunista, estavam. Na pequena recepção, um pinguim sobre um pedestal, coberto de recortes do jornal, carrega um exemplar embaixo da asa; usa óculos e segura um lápis. É uma escultura pop, engraçada e bem-feita. Depois fico sabendo que é obra dos secundaristas. Para uma argentina, o pinguim branco e preto representa tanto as Malvinas como os Kirchner. [4] Então me vem à cabeça a imagem surreal de um pinguim kirchnerista coberto de recortes do jornal das ilhas: um oximoro para os nacionalismos.

Entra-se no Malvina House por uma escadaria também de madeira (tudo parece ser de madeira nas ilhas). Pelas janelas do bar se avista a baía cor de chumbo e imóvel, com uma linha de costa a encerrar o horizonte. E se avista o céu, baixo, cor de chumbo e imóvel, apesar do vento que, em qualquer outro lugar
do mundo, mereceria os adjetivos furioso, irado, persistente, glacial e úmido. Mas em Stanley é apenas normal. Escrevo a sequência de adjetivos e penso nos soldados argentinos da guerra de 1982. Sinto uma espécie de fúria diante dos rostos desconhecidos de garotos vindos de Jujuy e de Corrientes (repito os nomes dessas duas províncias pobres) na paisagem odiosa e maléfica que as ilhas devem ter parecido a seus olhos.

No bar do hotel, rodeada de jornalistas de várias procedências, minha amiga brasileira, três especialistas ingleses, um professor também inglês, cada um concentrado em suas coisas e, ao mesmo tempo, conversando, com a atenção dividida entre o texto que temos que mandar para São Paulo, Rio ou Londres, para Buenos Aires ou Tóquio, e lampejos de consciência que me fazem pensar: estou nas Malvinas, estou nas ilhas, em Stanley, o lugar que foi invadido durante a ditadura, o fato mais traumático daqueles anos para mim, que não podia aceitar nem aquela guerra, nem aquele nacionalismo, nem aqueles compatriotas que o apoiaram e acreditaram nele. Estou aqui e penso: há 31 anos, quando os argentinos desembarcaram em Stanley, eu era jovem e nunca imaginei que pisaria nestas ilhas.

Entram no bar uns veteranos de 1982 que vieram visitar o cemitério. Cumprimento os recém-chegados e pergunto por que viajaram justamente agora, nos dias do referendo, mas eles não querem falar, como se a discrição fosse uma ordem que eles também compartilham com os ilhéus. Desse jeito não vou conseguir apurar nada, penso. E de imediato percebo que não é verdade. Percebo que já aprendi muito: o vento, o cinza pesado do mar, o céu baixo, a resistência dos ilhéus em responder muitas perguntas. São afirmativos, decididos na primeira resposta e depois lacônicos, como se já não houvesse mais nada a dizer à estrangeira. Por sorte, à tarde conversarei com Joost na casa onde me hospedo, diante daquele navio semiafundado, que parece o objeto cênico de um sonho: encalhado, carcomido pelo sal, mais cinza que o mar e o céu, preso nas águas, o navio as detém em impalpáveis elipses ao seu redor.

 

Às duas e meia da tarde, são mais de 300 carros que seguem pela estrada rural que vai do porto às alturas do Moody Valley, ladeadas pelos cenários de duas emblemáticas batalhas: Mount Longdon e Two Sisters. Numa média de três ocupantes por automóvel, deslocaram-se 900 pessoas, um terço da população. Pelas escarpas, sete cavaleiros (que de longe parecem criollos, com seus arreios rústicos) e um caminhão carregado de ovelhas encabeçam a descida até o porto. Muito lentamente, os carros embandeirados percorrem a aldeia seguindo o contorno da costa. Quem não está na caravana está fotografando. O governador, de camiseta amarela, olha o movimento sorrindo tranquilo na entrada de sua casa.

Caminho até o extremo de Stanley, pela avenida beira-mar. Sei o que estou procurando: aquele relógio azul que John me trouxe destas ilhas. Quero conseguir outro igual, do mesmo tamanho, um pouco grande para meu pulso, com o mesmo mostrador branco, quase luminoso no escuro, com o pinguim e a inscrição Visit the Falklands. Não é para mim que quero esse relógio novo, mas idêntico ao outro, e sim para dá-lo a ele, como elo de uma secreta corrente de entendimento entre nós dois. Percorro todas as lojas de suvenires, pergunto, examino. Não há relógios, nem sequer diferentes do que estou procurando. Passado fugidio. Como um resto de iconografia onírica, o relógio adquire um sentido diferente do que eu consigo compreender. Eu o procuro como se fosse muito mais importante, o signo de alguma coisa no meu passado. Se quero entregá-lo a John é porque também lá tenho algo a devolver, uma dívida a saldar. Dois dias depois me darei conta de que há outras contas ignoradas.

Ao entardecer, no bar do Malvina House, estamos todos teclando, cada qual no seu notebook. Quando termino, já escurecendo, vou a pé até a casa de Joost. A avenida beira-mar sobe até chegar a uma escadaria, que também é preciso subir, enquanto os carros seguem por baixo; depois há alguns metros de parque duro e espinhoso, e de novo se desce. Caminho pela estreita calçada que beira as casas com jardinzinhos de um verde-pedra na frente e hortas lunares de estranhas botânicas despontando dos lados. Casas brancas e verdes, com bandeirinhas, parecidas com a de Joost. É quase noite, e o cachorro late quando abro o portão do jardim. Dentro está aquecido e logo encontro Joost, que me oferece um martíni ou um uísque. “Sexta-feira minha sogra vem nos visitar. Ela vai gostar de te conhecer.” Dou uma resposta polida, porque não imagino o que vai acontecer na sexta.

Do meu quarto se avista o quintal-horta nos fundos da casa. E o quintal das duas casas vizinhas. A noite cai, minha segunda noite nas ilhas, e ainda não consigo pôr as ideias em ordem. Acima de tudo, não consigo entender a verdadeira razão de eu estar aqui. Por muitos anos, a invasão argentina foi para mim uma obsessão e me fez repudiar os diversos nacionalismos territoriais. Mas aos poucos as ilhas, que foram um dos meus temas recorrentes nos anos 80, começaram a se distanciar. Quando soube do referendo, elas voltaram ao primeiro plano, como se alguém tivesse acionado uma teleobjetiva histórica. As ilhas se aproximaram, e desejei estar aqui quando da votação. Não acho outro pretexto mais verossímil que o de escrever meus artigos sobre esse evento. Olho pela janela e repito para mim mesma: “Aqui estou”, como se estar aqui fosse uma coisa preparada durante anos, um projeto. E sei muito bem que eu não tinha esse projeto.

 

Stanley é um lugar britânico e patagônico. Por momentos tenho a ilusão de que a paisagem é a mesma: extensões áridas, capim bravo ou sei lá como se chamam essas touceiras de mato ouriçado e pontudo, muito amarelo, verdes tirantes a marrom, algumas escarpas no horizonte próximo. A luz é oblíqua e o sol, que aparece fugazmente entre as nuvens, parece um astro frio.

Duas vezes por dia vou a pé até o Malvina House, e cada vez fico mais intrigada com os jardins, que parecem complicados origamis pétreos. Na avenida beira-mar, a única cor vibrante e definida é a das bandeiras e das coroas de papoulas de papel, poppies, que há nos monumentos, como oferenda. Conheço essas poppies desde a infância. A comunidade britânica de Buenos Aires as distribuía em outubro e novembro, em memória dos mortos nas guerras do reino. O memorial aos soldados britânicos caídos na luta contra as forças argentinas em 1982 tem seus pedestais e seus muros de pedra enfeitados com coroas de poppies e uma fita preta indicando à memória de quem são dedicadas. O vermelho dessas singelas flores artificiais cintila sobre o cinza da pedra monumental, o cinza do céu e os escuros matizes do mar. O jardim das casas, em compensação, é melancólico, endurecido, a um olhar acostumado à latitude de Buenos Aires.

A beira-mar é uma avenida de monumentos. À direita vê-se o monumento à Royal Marine. Prefiro passear pelo povoado em vez de ir à Gypsy Cove observar pinguins. Além do mais, acho que já não é época para avistá-los. Sem esses monumentos, Stanley se pareceria muito mais com o que se vê na aquarela do italiano E. de Martino, datada de 1866. A baía muito fechada, de águas cinza e paradas, a escarpa marcando o horizonte, o céu sem cor, as casinhas de paredes claras e telhados de duas águas com chaminé. Mudaram as cores dos telhados: hoje são mais vibrantes e variadas, mas essa aquarela de 1866 dá bem a ideia de um conjunto pequeno e espalhado ao longo da costa, com pouco mais de 200 ou 300 metros de profundidade, em ascensão. Foi o núcleo urbano de uma imensa extensão rural: ovelhas e mais ovelhas. Todas as ovelhas e seus pastores aparecem nas fotos do museu. Todo dia se come cordeiro em Stanley, que preserva a cultura da carne e não quer saber da cultura do peixe. De novo, a Patagônia.

À noite, enquanto serve seu cordeiro cozido, Joost fala da fazenda de ovelhas da sogra e me mostra fotos de homens rudes, que parecem gauchos e, em muitos casos, são peões vindos do Uruguai, camponeses de bigodes lisos, chapéu enterrado até as sobrancelhas e aquele olhar ladino típico das fotos do final do século XIX, que sempre, em qualquer lugar do mundo, tinham uma ótica atenta às particularidades raciais.

Pela janela, os restos do naufrágio novamente imprimem um caráter onírico à conversa, embora minhas perguntas sejam muito precisas, profissionais, e as respostas de Joost sejam ricas em referências concretas. Suas filhas intervêm muito pouco. Queria que elas falassem comigo. Mas o território da adolescência é difícil, e pode ser que o problema não esteja só no fato de eu ser estrangeira e elas não se interessarem pelo meu país. Joost sabe tudo sobre as ilhas, presente e passado, talvez porque ele mesmo seja um estrangeiro aqui. Chegou como um holandês aventureiro, der fliegende Holländer, muito jovem; trabalhou para vários patrões, apaixonou-se por Janet Robertson e ficou. Ou seja, uma história de imigrante, embora Joost venha de um país rico e tenha sido seu espírito viajante, mercantil e hippie que o trouxe às ilhas. Por parte de pai, suas filhas são de primeira geração.

Joost não tem nenhuma dúvida quanto ao resultado do referendo. A economia local depende da pesca: ele é funcionário de um órgão governamental que controla os navios pesqueiros; sua mulher é executiva de uma companhia de pesca. As autoridades fiscalizam até o último quilo de peixe que os navios recolhem em suas águas e cobram royalties sobre o pescado. As ilhas defendem seu patrimônio marinho e os proventos de seus habitantes. Têm orgulho de sua eficiência. Sophie, a filha mais velha, vê as coisas de outro modo: para continuar estudando, irá para a Grã-Bretanha, projeto que mantém viva toda sua expectativa adolescente; os 15 anos que ela viveu nas ilhas lhe ensinaram que ali não há roupa boa, nem do seu gosto; que também para suas coisas pessoais ela depende de uma viagem à Grã-Bretanha.

Na mesa dessa singular refeição, onde o cordeiro se destaca como uma imposição geopolítica além de pertencer a uma tradição culinária, há pouca verdura e umas maçãs murchas, pequenas e muito caras. Quando percorro o supermercado, tudo parece racionalmente adaptado à possibilidade de conseguir comida de lugares que estão separados das ilhas por centenas (Chile) ou milhares de milhas. Uma argentina de classe média passeia entre ofertas escassas, poucas marcas, pozinhos no lugar de líquidos e sólidos.

 

Na manhã seguinte ao referendo escuto comentários dando conta de que a presidente Kirchner chamou os ilhéus de squatters: posseiros. Tenho a medida exata do insulto. A palavra soa mais forte em inglês do que traduzida. Todos aqui mencionam a questão da defesa das ilhas, e os argentinos são o eixo dessas conversas. Subtexto do referendo: uma comunidade próspera, que será ainda mais próspera depois de 2017, quando começar a exploração de petróleo, cujos ganhos, porém, não bastarão para cobrir a ajuda da Grã-Bretanha, se esse país os abandonar e decidir que seus interesses no Atlântico Sul podem ser defendidos apenas com uma base nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. Os ilhéus são cidadãos de uma aldeia que pode comprar tudo o que necessita, menos equipamentos bélicos e soldados para operá-los. No seu estado atual, evocam a figura arcaica do protetorado, e não é difícil entendê-los: viver no outro extremo do mundo, receber visitas interessantes, zelar por seus recursos pesqueiros, iniciar logo mais a exploração de petróleo e deixar que a velha Inglaterra cuide do resto (acima de tudo, dos vizinhos argentinos da costa oeste).

À tarde fui ao Deano’s, o pub popular de Stanley. Do lado de cá do balcão só havia homens. Do outro lado, uma morena, lenta mas sorridente, e um barman de Santa Helena. De início não entendi do que se tratava, mas senti certa incongruência no ar. Era o som da televisão, que transmitia em castelhano do Rio da Prata. “Desplazamientos largos de pelota a los volantes.” As ilhas captam esses sinais de televisão em castelhano para não ter que pagar por transmissões via satélite. Muito estranho: esses operários que acabavam de terminar a jornada de trabalho, parrudos, vestidos de azul e com boina, assistindo ao futebol como se estivessem no bar de uma estação de subúrbio na Grande Buenos Aires.

Pouco depois, um homem tocou no meu ombro, de leve. Fiquei contente antes que ele começasse a falar, porque os pubs de tradição inglesa ou americana são bons lugares para puxar conversa com estranhos. Fazia já vários dias que eu estava tentando falar com alguém que não fosse funcionário público ou jornalista. Deus me mandava aquele operário de 50 anos, de rosto marcado, barba rala e cabelo ruivo. Pensei: um irlandês. E os irlandeses são bons conversadores. Encostados de lado no balcão, ficamos frente a frente. O homem acabou de decidir o começo, usando o tu, mas com uma pronúncia que não era espanhola: “¿Vienes de Buenos Aires?”

Não estou traduzindo. Ele me disse exatamente isso: ¿Vienes de Buenos Aires?, em castelhano, lento e com forte sotaque. Era a primeira pessoa que falava comigo em castelhano em Stanley. Era um evento fora do programa, um momento em que uma lâmina se rompe.

“Vengo de Buenos Aires.”

“¿Lo conoces a ese que entró?”

Ele se referia a um jornalista do canal argentino Telenoticias que pouco antes havia chegado ao local para pedir permissão de filmar um torneio de dardos que logo mais seria disputado ali.

“Sí, lo conozco. Somos todos periodistas.”

“Ah, pertenecen todos al mismo…”

Fez um gesto como quem aponta para um espaço circular e deixou em suspense a palavra não pronunciada. Eu fiquei olhando para ele. Quando vi que já não ia continuar por nenhum dos caminhos que abrira, perguntei: “¿De dónde sacaste el español?”

Pensei: se ele não está interessado na minha biografia nem na minha profissão, certamente vai querer falar da sua. De fato, o ruivo não tinha nada a perguntar, mas poderia me entregar um relato.

“Lo aprendí en Córdoba.”

“¿En qué lugar?”

“Cruz Grande, Cruz Chica…”

“La Cumbre. Hay muchos ingleses allí.” Passei para o inglês: “How did you get there?”

“Four years, with a scholarship.” Não me conta como conseguiu a tal bolsa nem o que aprendeu em Cruz Grande e Cruz Chica. Olha-me com desconfiança.

“I came back because I was born here, best place in the world.”

“Sure. By the way, do you always watch football like this, I mean, a Spanish speaker?”

“It doesn’t matter at all.”

Pensei que aí começaria outra conversa, mas estava enganada. Aí terminava. Perguntei ao ruivo, depois de algum tempo em que voltou a se concentrar na partida, qual era o seu trabalho.

“Building. I drive huge machines, cranes and the sort.”

Disse isso orgulhoso, com uma espécie de grande gesto que indicava um trabalho complicado. E acabou. Passado um tempo, paguei a conta e deixei algumas moedas sobre o balcão, como se faz em qualquer lugar. O ruivo me advertiu:

“You are leaving your coins.”

“Thought I had to leave them as a tip.”

“No tip here. Take care.”

Mais tarde, Joost e sua sogra me informarão que meu amigo do Deano’s é bem conhecido em Stanley (todo mundo é bem conhecido aqui). Um rapaz inteligente que viveu uma tragédia: o pai matou a mãe. Como naquela época havia muita oferta de bolsas de estudo, lhe deram uma, mas ele resolveu voltar. Agora, segundo o que me contam, tem problema com bebida.

No dia seguinte fui ao outro pub de Stanley, o Victory Bar, separado do Deano’s por uma clara fronteira de classe. Lareira com boa lenha, grande balcão em L, clientela de comerciantes e funcionários. Na televisão, em vez de esportes com narração em espanhol, videoclipes e rajadas de noticiários. Nas prateleiras, que têm o fundo forrado com a bandeira britânica, há uma insólita máquina de umidificar charutos e suvenires das ilhas, a maior parte com ironias ou maldições dirigidas aos argentinos. O cardápio do almoço traz como opções chicken curry ou chili com carne. Sobre o bar, justo acima de minha cabeça, pende uma placa de carro: Montevideo 207-331. No balcão, à minha esquerda, uma gigantesca botina preta, de onde sai uma grande medalha de guerra: uma escultura patriótica. Encostados nas paredes, dois caça-níqueis. A mulher que me atende percebe no ato que sou estrangeira. Não me dirige a palavra, nenhum comentário que dê brecha para uma conversa. Enquanto espero o chicken curry, vou até a janela do outro lado do salão; sob a janela há uma mesa de bilhar e um caixote com a inscrição “Elvis Presley, 3764 Hwy 51 Memphis”. Do lado de fora, um gato cinza sentado sobre a cerca fita o mar, também cinza. Através do vidro, bato uma foto.

Na saída, reparo nos únicos grafites que vi em Stanley. Sobre os muros de tábuas verdes de uma rua lateral que desce para o mar, escreveram Falklands em letras cursivas amarelas, com volteios onde se entrelaça uma grande flor. Não é uma escritura de grafite, mas a ampliação de uma página de caderno escolar. Imagino um grupo de crianças com a professora. Imagino o momento em que decidiram acrescentar a cabeça de dois pinguins ou lobos-marinhos de boca aberta e mostrando uma inesperada linguinha rosa-claro.

 

É quinta-feira. Terminado o referendo, começo a me sentir inquieta. Uma jornalista diz que isso acontece com todo mundo, à medida que a data do retorno se aproxima. O trabalho que nos trouxe aqui praticamente chegou ao fim; cumprido o objetivo, os visitantes querem ir embora. Na noite anterior, Joost me disse que eles, os habitantes das ilhas, não se sentem isolados. “Você está na minha casa, faz vários dias que conversamos sobre vários assuntos; minhas filhas te conheceram. Assim como você veio, outros virão. O tempo todo aparece gente nova, ainda que de passagem. Mesmo no camp, [5] sempre passam pintores, ou geógrafos, ou fotógrafos, ou gente do cinema. Minha sogra, que mora no camp, e as amigas dela contam histórias desses visitantes que vêm de longe. Além disso, viajamos. Minhas filhas agora vão às olimpíadas das ilhas, já foram no ano passado. A mais velha logo mais vai para Londres. Como a maioria dos garotos daqui que vão terminar o colégio na Grã-Bretanha, ela deve passar oito ou dez anos longe e provavelmente, como a maioria deles, voltará a Stanley com uma experiência de mundo. As ilhas são cosmopolitas, não são provincianas.”

Eu vim até aqui para saber disso? Entre um martíni e outro, Joost vai dando lições práticas, num tom pausado e quase imparcial. Depois comemos o infalível cordeiro, símbolo da ancoragem de Stanley em seu isolamento no Atlântico Sul.

 

Vou à Gilbert House entrevistar os representantes na Assembleia das ilhas. Caminho pela avenida beira-mar procurando algum traço que evoque uma tipologia estatal. Nada. Estou perdida, embora seja impossível perder-se em Stanley, e peço informação a um homem que vai saindo de um chalezinho de madeira branca com telhado verde de duas águas. Estranhando que o mastro e a bandeira não tenham me alertado que é ali mesmo, o sujeito me responde: “A senhora está bem em frente à Gilbert House.”

Ali trabalham os oito representantes eleitos pelo voto. Mais do que a sede da Assembleia, parece a casa de um guarda florestal na Patagônia, perto de algum lago: os mesmos canteiros com flores laboriosas e espinhentas, o mesmo caminho de pedras brancas, estilo rural, de fronteira, conforto austero de colonos, como se se tratasse de algo que acabou de ser feito, sem aquelas perspectivas “estatais” que caracterizam quase todas as sedes de governo na Argentina. Gilbert House parece o fórum de um vilarejo do Oeste americano reconstruído como set de um filme de John Ford. Se houvesse um poste com cavalos, a ilusão de um lugar arcaico seria completa. A ausência de imagem “estatalista” reforça a impressão de que os laços comunitários são tão fortes quanto os cargos oficiais. Num lugar tão pequeno, os representantes continuam sendo moradores comuns.

Volto à catedral, onde foi festejado o resultado do referendo, e caminho ao longo da costa. Há pássaros brancos, albatrozes, penso, lembrando o remotíssimo poema de Baudelaire. Apesar do frio, ouso sentar por alguns minutos num banco que ostenta, como outros, a frase que lembra quem salvou Stanley dos argentinos: From the Sea, Freedom. Dois quilômetros à frente, em direção à casa de Joost e do governador, um monumento evoca outras datas em que as ilhas foram defendidas pelo mar: em 8 de dezembro de 1914, as forças navais britânicas salvaram this colony de um ataque alemão comandado pelo vice-almirante Graf von Spee. Esse nome ecoa na batalha do Rio da Prata durante a Segunda Guerra: em 1939, a única batalha em que britânicos e alemães se enfrentaram na América do Sul teve como protagonista o encouraçado Graf Spee. Esses ciclos arbitrários de nomes, sobre os quais sei muito pouco, me fazem pensar no assunto. Terceira estação da via-crúcis patriótica, o monumento com baixos-relevos de batalhas aéreas e terrestres, com a inscrição: “Em memória daqueles que nos libertaram. 14 de junho de 1982.” Anéis de tempo. Essa gente está obcecada com sua defesa. Tem medo que a Grã-Bretanha acabe achando muito alto o custo da base nas ilhas (3 bilhões de dólares por ano) e a abandone. A conclusão me parece estranha: essas pessoas têm medo da Argentina?

Leona Roberts, a diretora do museu de Stanley, me conta sua história sobre argentinos (quase todos têm uma). Em 1982, ela tinha 10 anos, um pai chileno ausente e uma família com doze irmãos. Fazia meses que ela queria, pedia, implorava à mãe que lhe comprasse uma boneca, sem sucesso. Era uma família pobre, e seu desejo não cabia no orçamento. No dia em que os argentinos marcharam pelas ruas de Stanley, a mãe dela apareceu em casa com a boneca nova. Uma semana depois, a dúzia de irmãos Roberts estava preparando ovos de Páscoa. Pela janela, viam dois recrutas famintos. Sentindo-se culpada, tentando explicar a situação aos filhos, a mãe deu aos rapazes as sobras que guardava para as galinhas. Todas as histórias sobre soldados argentinos falam da fome.

Ainda a caminho do museu, antes que Leona Roberts me contasse sua história da boneca, senti muito frio e pensei naqueles meses de 1982, muito mais frios do que este março. É um frio ingovernável. Meu casaco impermeável forrado de pele não basta. Como se minha roupa fosse imaterial, tenho o corpo e os pés gelados.

Entra-se no museu por uma passarela branca, que termina numa lateral da casa de madeira. Diante de um espelho tiro a única fotografia em que apareço nas ilhas. Atrás de mim há uma vitrine com duas velhas máquinas de escrever e, ao fundo, as janelas abertas para a rua. Um anúncio de 1932 oferece calendários pintados à mão para o novo ano. Outro aconselha a seus potenciais clientes: “Por que comprar em Londres e esperar pela chegada da encomenda, muitas vezes já fora de moda por causa da demora? Por que não comprar chapéus, vestidos de noiva e de batismo, luvas, botas para cavalheiros aqui mesmo no armazém de secos e molhados de John Kirwan?” A poucos metros, há uma fotografia de três trabalhadores rurais cuja legenda diz Three gauchos at leisure. A legenda dos três gauchos pode ser interpretada como levemente irônica. Dois dos personagens parecem de fato criollos (embora os olhos claros de um deles levem a pensar numa mistura com britânicos). São certamente de origem rio-platense, e mais certamente de origem uruguaia, como muitos gauchos das ilhas. Estão em pé, ladeando o terceiro personagem, notoriamente diferente, vestido com paletó de veludo, corrente de relógio no bolso do colete, boina de pala rígida, camisa e gravata branca, bigode aparado à inglesa e cachimbo na boca. Os dois gauchos parecem ser os capatazes de um farmer.

 

Quero falar sobre isso com John Fowler, do Penguin News. Vou procurá-lo na sede do jornal e vamos almoçar em frente, no Malvina House. Antes de viajar para as ilhas, eu li as colunas de Fowler e lhe escrevi para ter certeza de que o encontraria. Fiz bem, porque, a seu modo, o homem é um viajante: chegou às ilhas nos anos 70, como professor de colégio, abandonou-as duas vezes, pensando que seria para sempre, e voltou as duas vezes. Fowler não é, portanto, um daqueles interlocutores que, antes de começar a falar, põem três, quatro ou cinco gerações sobre a mesa (principalmente ao conversar com uma argentina, por mais que eu tente tranquilizá-los dizendo que, pelo lado materno, sou de segunda geração).

Fowler me observa de uma distância sorridente. Passa a impressão de que esse é seu olhar sobre o mundo, o do clássico personagem literário inglês, alguém que mantém um equilíbrio delicado entre seu ceticismo e seus princípios. Ou melhor, alguém que mantém seus princípios e crenças com um estilo cético que, quase sempre, os melhora. É um estilo difícil de cultivar, e nele se reconhece uma marca de classe social, não necessariamente de classe de origem, mas da passagem por bons e velhos colégios. Fowler é um homem de mais de 60 anos. Sem alterar o tom de voz, exprime absoluta convicção de que as ilhas têm o direito de decidir seu destino.

Ele acredita que os destinos não se sustentam apenas no passado. Os destinos que só tiram sua força do passado são trágicos. E, no entanto, Fowler tem fascinação pelo passado. Sua tese, que ele não apresenta como tese porque não há nada mais distante dessa formalidade do que um espírito inglês, é que as ilhas e a Patagônia fazem parte de uma mesma região. Em ambos os lados do Atlântico, a economia desde meados do século XIX foi a da criação de gado; em ambos os lados, as ovelhas substituíram as vacas que Darwin contou aos milhares. Em ambos os lados, usam-se os arreios criollos. Dois dias atrás, quando apontei para os arreios dos cavaleiros que encabeçavam a mobilização pelo referendo, uma adolescente se lembrou das palavras em castelhano que tinha aprendido na escola: bozal e cabresto, bastos e cojinillo. Continuam sendo usadas no camp até hoje.

John Fowler me conta que quando um grupo de colonos escoceses chegou ao interior das ilhas para criar ovelhas, atividade que conheciam à perfeição, todos ficaram muito contentes ao ver pastores a cavalo, porque já não teriam mais que caminhar atrás dos rebanhos. “Mas não tinham o vocabulário para designar os arreios.” Adotaram então as palavras em espanhol, ouvidas por todos os que viajam pelo camp. Ali também se encontra o che rio-platense e uma longa lista de empréstimos, encabeçada pela frase que me parece mais simpática: Let’s go pasear.

Então Fowler dá um rumo particular ao assunto. Sem fazer afirmações taxativas, partindo desses “empréstimos”, sustenta sua ideia de que se trata de uma mesma região cultural, natural e agrária. No quase deserto habitado pelos aventureiros que Darwin encontrou, hoje estão as fazendas hipertécnicas, onde as ovelhas são reunidas, cuidadas e separadas em seus currais por pastores de motocicleta. Como na Patagônia. E muitos sobrenomes britânicos se repetem em ambos os lados do Atlântico Sul.

Darwin chegou a umas ilhas cheias de vacas selvagens, coelhos e boa pesca. A descrição parece corresponder melhor à ilha de Robinson Crusoé do que a esta que estou vendo agora. No ínterim, seguindo o relato amável de Fowler, estão as décadas em que a maioria vivia no camp, em casas com uma disposição hierárquica que também lembra a das habitações da Patagônia argentina.

 

Na sexta-feira à noite, jantei na casa de Joost com sua sogra e seus amigos. Tive provas do cosmopolitismo ilhéu, manifesto nos rumos de uma conversa em que todos mencionaram lugares remotos onde adquiriram experiências, recolheram anedotas, fizeram estudos e pesquisas ou participaram de reuniões de negócios. A pessoa menos viajada nessa mesa sou eu, que não cheguei, por exemplo, até a Austrália, onde os mais habilidosos nas lides do camp vão se aperfeiçoar na técnica de tosquiar ovelhas e nos torneios desse ofício. Até 1982, esses deslocamentos incluíam a Argentina. Joost esteve lá várias vezes de férias com a mulher, como turistas que visitam o país vizinho.

Mas foi a sogra de Joost quem me ofereceu a melhor história, sem querer ou talvez com astúcia. Na quinta-feira à noite, quando cheguei em casa, ela, Ann Chiswell, já estava lá, tomando um martíni na cozinha. Nos primeiros minutos, alguma coisa na conversa teve para mim um eco muito distante, que pedia para ser reconhecido, que de início não me pareceu importante (devo estar cansada, pensei, e começo a perceber entonações difusas do inglês), mas depois me intrigou. Não conseguia me distanciar dos sons que Ann pronunciava e só ia acompanhando o que ela dizia como se corresse num segundo plano, um plano menos importante. De repente, em espanhol, Ann me perguntou: “Decime, ¿vos de qué barrio sos?”

Só isso. Só essa frase que as meninas não entenderam. Como se essas palavras tivessem me iluminado, entendi tudo. Ann falava inglês com a mesma pronúncia das minhas professoras na Belgrano Girls School, a pronúncia do inglês de Belgrano, um pouco arcaico, hipercorreto, em que nenhum som se perdia e tudo era afiado e límpido. E o castelhano que ela usou para me perguntar de que bairro eu era também era o velho castelhano do bairro de Belgrano, daquelas famílias de origem britânica cujas filhas cavalgavam entre duas culturas enquanto ensinavam a língua de seus avós. Era Belgrano english e Belgrano spanish, duas línguas mortas que renasciam para mim em Stanley, faladas por uma mulher um pouco mais velha que eu, que durante dois anos, até passar para o Northlands, tinha sido aluna do mesmo colégio que eu frequentei por onze anos.

Ann Chiswell, a sogra de Joost, me descobrira. Ela foi a primeira a notar que alguma coisa nos sons que eu pronunciava a levava a um determinado bairro de Buenos Aires, não a qualquer lugar da cidade da qual ela sabia que eu vinha, mas àquele bairro em especial, e suspeito que também já soubesse que exatamente àquela escola na esquina da avenida Melián com a rua Pampa. Tentei disfarçar como pude o impacto desse golpe de passado remoto que me atingia numa casa em Stanley. Mas no fim da noite Ann pediu que nos fotografassem juntas, me abraçou pelo ombro e recordou que ela (e não eu) tinha sido excelente jogadora de hóquei. Difícil saber ao certo, mas ela também devia estar sob a influência daqueles sons do espanhol e do inglês que hoje já não se escutam em Buenos Aires.

Eu não imaginava que poderia encontrar aqueles sons nas ilhas. Ann certamente também não adivinhou que a argentina que se hospedava na casa de sua filha e bebia os extraordinários martínis do seu genro, enquanto tentava conversar, sem muito sucesso, com suas netas, sessenta anos atrás estivera tão perto dela no espaço de um bairro e numa geografia cultural. Nem eu podia prever esse encontro.

A história da Ann é uma típica história das ilhas, que até 1982 mantinham fortes elos com a comunidade britânica da Argentina. Sua filha, Janet Robertson, resumiu essa história quando, já de volta a Buenos Aires, eu lhe pedi mais detalhes:

O nome da minha mãe é Ann Chiswell. Ela tem uma irmã, Sally, que também estudou no Northlands. Faz muitos anos, quando recebi um amável convite para visitar as terras do senador Hipólito Solari Yrigoyen, ele me perguntou sobre minha família. Eu lhe disse que meu tio Jonathan (irmão gêmeo da minha mãe, que agora mora em City Bell) tinha frequentado a Escola Naval. Um dos convidados disse: “Ah!, o inglês? Você não se lembra do inglês, o loiro Cheeeswell?” Divertido. O mundo é mesmo pequeno. Até os anos 40 ou 50, uma loja na rua Florida chamada Chiswell Hnos. vendia roupa masculina, muito elegante. Uma vez, quando eu era pequena, achei um chapéu fedora num armário da minha escola em La Cúpula, entre as roupas que usávamos para nos fantasiar. Dentro tinha a etiqueta “Chiswell Hnos.”, e eu senti orgulho do meu avô.

O Northlands, as escolas inglesas de La Cúpula: tempo passado.

 

Na minha última tarde nas ilhas, vou me despedir de Fowler. De novo o procuro na redação do Penguin News. Tiro uma fotografia dele ao lado da escultura do pinguim, e os dois rimos com a sugestão de enviá-la à presidente argentina como sinal de boa vontade dos ilhéus. Sento diante de Fowler na única mesa da redação e, de repente, como se fosse uma cena preparada para mim, entra um homem de roupa militar, cabelo rapado, de uns 50 anos, com uma boina preta de onde sai um rígido penachinho azul e vermelho. É o chefe da base, ou algo assim. Não somos apresentados. Na verdade, fico fora de uma conversa que gira em torno da maratona que vai ser realizada alguns dias depois. O militar, que me deixa muito nervosa, por mais que, evidentemente, eu não exista para ele, não está em condições de participar da corrida por causa de uma entorse ou coisa parecida. A alta patente que atribuo a ele é confirmada quando alguém lhe diz: “Sendo assim, só lhe resta esperar com o governador na linha de chegada.”

Felizmente o militar desaparece, e Fowler me conta que tem uma casa no sul da França, onde passa vários meses por ano: “Se você for a Perpignan, não deixe de me avisar”, diz. Não lhe digo que não conheço o sul da França nem que, muito provavelmente, nunca vou conhecer. “É por causa dos meus ossos”, ele explica, “não posso passar o inverno todo nas ilhas.” Sharon, que trabalhou nas relações públicas e na assessoria de imprensa do referendo, me conta que passa seu tempo livre nas ilhas andando a cavalo. Muitos já comentaram que têm o mesmo hobby, que possuem cavalos ou que, se não os têm, é porque dá muito trabalho ir até o campo para cuidar deles. Mas se fala muito em equitação.

Até os anos 80, como Fowler me explicara, as ilhas eram uma sociedade classista, dividida à inglesa com aquelas barreiras tão visíveis quanto invisíveis, feitas de fonética e maneiras. Hoje Stanley parece uma aldeia habitada somente por respeitáveis membros das camadas médias. Percebo que é uma impressão equivocada, que os 4 x 4 e os Land Rovers podem transportar capatazes ou milionários proprietários de enormes extensões no camp, onde as ovelhas são contadas às dezenas de milhares. Por outro lado, ninguém pode ser pobre num lugar tão frio. Ninguém pode ser pobre aqui, mas todos são parecidos: os casacos são uma espécie de recurso igualador da população da ilha.

Por momentos tenho a impressão de que entendo tudo. Falo com os membros da Assembleia e entendo. Falo com o pessoal do Penguin News e penso entender. Vou pela rua e cumprimento as pessoas que cruzo pelo caminho como se as conhecesse. Entro no supermercado, percorro as gôndolas, onde não há grande variedade nem muitas marcas diferentes, e acho que entendo o porquê. Penso que estes ilhéus comeriam melhor se as relações com o continente fossem como antes de 1982. De manhã, Sophie e Sorrel preparam seu iogurte com água e um pozinho. Colocam tudo numa garrafa, agitam o líquido e o tomam. Resisto a esse iogurte e receio que elas percebam que me parece uma espécie de preparado para astronautas.

Na verdade, a astronauta aqui sou eu. Não posso revelar a essa gente a violência dos meus sentimentos em relação às ilhas. Não queria que fossem território argentino. Queria que estivessem em qualquer outro lugar do planeta, longe o bastante para não terem sido objeto desse conflito territorial declarado. Simpatizo com o espírito de independência das pessoas com quem converso: têm algo de pioneiros, viver sob este céu de chumbo, com este vento que não parou de soprar nem por um instante. São como expedicionários de um romance de aventuras, que se tornaram burgueses, mas conservam no corpo algo da têmpera do sacrifício. Sophie e Sorrel costumam nadar muito cedo, antes de ir para a escola. Estão treinando para as olimpíadas das ilhas. Eu só consigo imaginar com um calafrio como será sair da piscina e em seguida caminhar até a escola. Sinto frio o tempo todo, por toda parte. Já na viagem de volta, em Punta Arenas um inglês que vinha de uma base na Antártida entrou no avião. Perguntei sobre o frio de lá, e ele me disse: “Vinda das Falklands, você acharia a Antártida melhor.” Não duvidei.

 

Sou uma estrangeira. Durante o referendo, alguns jornalistas e observadores receberam um envelope da parte do governador das ilhas: His Excellency the Governor and Mrs. Louise Haywood request the pleasure for the company of (e aqui meu nome) at a dinner at Government House. A primeira coisa que pensei foi que a casa do governador ficava bem perto da casa de Joost e que eu não congelaria nem na ida nem na volta. Depois caí em mim: não posso ir a esse jantar, não posso correr o risco de aparecer numa foto social, que um dos outros convidados poderia tirar e postar no seu Facebook. Estou num dilema. Preciso inventar uma desculpa.

Mas que desculpa é aceitável num caso como esse? Caminho pela avenida e vou forjando fórmulas decorosas, educadas e ridículas. Chego até a imaginar, absurdamente, que posso expor minhas verdadeiras razões ao governador e a sua esposa. Escrevê-las no verso daquele cartão de excelente cartolina branca. Ser franca com quem não pediu nem espera franqueza. Mentalmente escrevo vários cartões com minhas desculpas. Todas são empoladas ou fora de lugar, porque, além de tudo, eu nunca escrevi um cartão desculpando-me por não comparecer a um jantar na casa de um governador. Deveria consultar um romance de Graham Greene ou um manual de boas maneiras.

Sou plebeia. Meus reflexos são plebeus perante os de alguém que pertence ao Foreign Office. Penso em pedir ajuda a meu amigo John King. Pedir-lhe que escreva minhas desculpas e as envie por e-mail, para que depois eu as copie com letra caprichada, redondinha e direita. Percebo a tempo que John vai caçoar de mim, encontrando no meu pedido provas complementares à sua tese de que os argentinos têm um caráter nacional paranoico.

Por outro lado, eu queria ir à casa do governador para saber quem são os demais convidados e como é um jantar com um governador inglês, coisa que só vi no cinema. Como é a sociabilidade numa situação como essa? Eu poderia escrever páginas e páginas, penso.

Enfim, na noite em que as urnas são abertas, justamente enquanto escuto a fala do governador, decido me desculpar de maneira informal com Sharon, a pessoa das relações públicas que me entregou aquele envelope. Digo a verdade sobre qual poderia ser a reação no meu país se soubessem da minha visita à Governor’s House. Sinto vergonha de dizer o que digo. E ela percebe. Uma espécie de confissão política sobre a argentinidade dos nossos hábitos. Conservo o convite com seu timbre dourado e meu nome embaixo, grafado duas vezes errado. Sinal de que não deve constar nos registros do Foreign Office, coisa que me diverte. O governador parece um sujeito simpático, e depois fico sabendo que ele toca um instrumento, não lembro qual, numa banda onde Joost toca flauta. E eu continuo me perguntando como será a casa do governador. Fiz bem em não ir. Fica como um sacrifício da minha curiosidade dedicado a quem foi vítima de uma implacável sociedade de classes mantida nas ilhas até os anos 80.

Sou uma estrangeira: não tenho origem britânica nem venho das ilhas do Atlântico Norte; ninguém poderia me confundir com uma habitante de Stanley. Tampouco eu poderia me imaginar aqui, como podemos nos imaginar em lugares por onde passamos, até mesmo os menos diferentes do lugar de origem. Tenho a permanente sensação de entender e não entender. Sou um mal-entendido também para os outros, que me entendem, mas nunca sei até que ponto entendem a razão da minha vinda, da minha simpatia por seu direito de decidir. Eu mesma não sei se defendo esse direito porque uma ditadura na Argentina me obrigou a defendê-lo. Quer dizer, então – paradoxo final –, que a ditadura me obrigou a entender estes ilhéus. É o que nós temos em comum.

É uma sensação sustentada pela posição de uma argentina nas ilhas. Não a posição perante os ilhéus, mas a percepção que tenho de mim ali, nesse lugar que eu não quis visitar e que, de repente, se tornou indispensável: e que para sempre fará parte dos meus itinerários. Antes de partir, tomo a decisão de voltar às ilhas para conhecer o camp e visitar uma fazenda de ovelhas onde os tosquiadores tenham estudado seu ofício na Austrália e participem de campeonatos mundiais de tosquia. Mas, ao mesmo tempo, percebo que não passa de um gesto privado, que eu faço apenas para mim, para me certificar de que a viagem ganha sentido com a decisão de repeti-la. Voltamos aos lugares onde deixamos algo por conhecer, ou algo que amamos. Não tenho certeza de querer conhecer mais as ilhas. E eu tampouco as amo, porque amá-las me aproximaria perigosamente do nacionalismo do qual venho tentando me afastar. Talvez voltasse para escutar mais uma vez o Belgrano english e o Belgrano spanish de Ann Chiswell. Esses idiomas da infância.

Talvez eu tenha vindo às ilhas só para escutar essas línguas perdidas. Só vim para o que estava fora do programa.


[1] A íntegra do documento está disponível em malvin-and-hobbes.tumblr.com.

[2] “Com licença, mas vocês vão às Malvinas?” “Sim, vamos.” “São do comitê internacional de observadores?” “Não. Vamos velejar pelas ilhas.”

[3] Mateus, 7.24-26: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras, e as põe em prática, será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. Por outro lado, todo aquele que ouve estas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado a um insensato que construiu a sua casa sobre a areia.” (A Bíblia de Jerusalém.)

[4] Os correligionários e simpatizantes de Néstor Kirchner eram conhecidos como pingüinos, não só pelo fato de o ex-presidente ter nascido numa região gelada do país, como pela semelhança física que ele mesmo via entre seu nariz grande e o bico da ave.

[5] Termo usado nas ilhas para se referir a todo local que não seja Stanley ou a base militar.

Beatriz Sarlo
Beatriz Sarlo

Beatriz Sarlo, escritora argentina, publicou Modernidade Periférica, pela Cosac Naify e Tempo Presente, pela José Olympio

  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30