Uma reflexão sobre Gaza e o apagamento da dor alheia
| Edição 230, Novembro 2025
SALVE, BITUCA
Parabéns à piauí pelos 19 anos e sua alentada edição especial com 110 páginas. Nós, leitores, fomos contemplados por um número recorde de matérias, do maior interesse, entre as quais destaco O julgamento, da Camille Lichotti, A grande chantagem, da Ana Clara Costa, Universidade à venda, do Leandro Aguiar, A estrada, do Bernardo Esteves e Pai e filho, do João Batista Jr.
Como é impossível discorrer sobre todas as reportagens mencionadas, escolhi a que contou a história da adoção de um filho pelo cantor Milton Nascimento e seu atual estado de saúde. É um breve relato biográfico desse músico extraordinário, que encantou toda uma geração com sua arte, cuja transcendência projetou-o internacionalmente, principalmente entre os grandes instrumentistas do jazz. Foi acima de tudo um congregador, pois reunia no seu entorno músicos excepcionais, como o legendário Clube da Esquina.
Na questão da paternidade, a matéria esclareceu algo que sempre deve ter intrigado aqueles que acompanharam sua carreira musical, pois no lançamento do álbum Milagre dos peixes, havia uma composição denominada Pablo, em homenagem ao filho recém-nascido. Inclusive a capa que encarta o disco, totalmente diferente, mostra uma mão amparando um bebê. E depois houve silêncio total sobre o assunto. Agora é revelado o motivo do afastamento do filho que ele assumira de um relacionamento passado, devido a intimidações recebidas.
Só resta lamentar seu estado atual, algo terrível para qualquer pessoa, principalmente para esse grande ídolo, que ao menos pode contar com o carinho e os cuidados do filho adotado.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
GAZA
É curioso que a tradução do artigo A measure of things human tenha se transformado em Quem seremos depois de Gaza? (artigo publicado no site da piauí, em 14 de outubro de 2025) Por que não “Quem serão os israelenses depois de Gaza?”, ou “Quem serão os palestinos depois de Gaza?”. O “nós” universal escolhido pela tradutora, esse “quem seremos”, revela mais do que parece: mostra como grande parte do debate sobre a guerra em Gaza, especialmente no Ocidente, foi conduzido a partir da perspectiva de quem nada tem a ver com o conflito. Ignora-se deliberadamente a experiência traumática de uma das partes envolvidas e o ataque bárbaro que deflagrou a guerra, tudo em nome de um propósito narcisista de virtude moral.
Essa postura não é nova. Ela repete o modo como muitos não judeus tratam o Holocausto.
Dara Horn, em People love dead jews, observa com precisão que o Holocausto sempre foi usado por não judeus como uma maneira de se sentirem virtuosos, mas raramente como uma tentativa de compreender o antissemitismo que o tornou possível. O genocídio dos judeus tornou-se um espelho moral no qual o mundo gosta de se ver compassivo, sem jamais encarar a própria cumplicidade no ódio que o gerou.
É essa exatamente a postura do escritor indiano citado no artigo como alguém entre aqueles que “buscam resgatar as lições liberais e humanistas do Holocausto para impedir que deem margem a impulsos vingativos”. Novamente, um não judeu falando sobre um evento do qual não faz parte e propondo a sua universalização. Mas transformar o Holocausto em alegoria universal é, em si, uma forma de negá-lo.
A única lição possível do Holocausto, senão a mais importante, deveria ser sobre o ódio aos judeus, o mesmo ódio que mobilizou populações inteiras contra essa minoria e produziu a barbárie. Retirar dos judeus a centralidade nesse evento é apagar da história o próprio antissemitismo.
Como disse o sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel, o Holocausto não foi a inumanidade do homem para com os homens. “Foi a inumanidade para com os judeus! Os judeus não foram mortos porque eram humanos — aos olhos dos assassinos, eles não eram humanos: eram judeus!”
Quando se afirma, como nesse artigo, que os judeus vêm se “vingando do Holocausto” através do Estado de Israel, reedita-se o mais antigo dos libelos antissemitas: o judeu como vingativo, beligerante, desumano, suspeito.
O Holocausto não começou com os fornos crematórios. Começou exatamente como este tipo de atitude: silenciando uma minoria, deslegitimando sua dor, criando teorias conspiratórias que transformam vítimas em algozes.
O título da tradução pergunta: Quem seremos depois de Gaza? A resposta está dada pela própria publicação do artigo em uma revista de prestígio: seremos, e já somos, uma sociedade que normaliza o apagamento do trauma judaico e o silenciamento das vozes judaicas. Um mundo que usa judeus como peças simbólicas em disputas ideológicas, que só lhes concede voz quando ela serve para deslegitimar o campo oposto ou legitimar narrativas convenientes. Um mundo em que o mais bárbaro ataque terrorista, que deu origem a uma guerra terrível, é tratado como irrelevante, em que as vítimas judias e israelenses não merecem sequer ser lembradas. Em que o trauma de um povo perseguido há séculos, sobrevivente de massacres, espalhado pelo mundo por expulsões sucessivas, é deslegitimado. Em que um movimento político que devolveu a esse povo o direito de existir e de se defender é descrito como mera vingança e quem é considerado apto a ensinar sobre esse movimento são aqueles a quem ele se opõe.
Depois de Gaza seremos um mundo que apaga a dor alheia em nome da própria pureza moral. E, nesse gesto, voltamos a ser cúmplices do mesmo silêncio que um dia tornou o Holocausto possível.
FLAVIO TREIGER_SÃO PAULO/SP
REPORTAGENS EM ÁUDIO
Nem posso crer que agora vocês estão publicando reportagens também em áudio. Um sonho antigo meu, para viabilizar a leitura de tanto conteúdo de qualidade no trânsito e em meio a outros afazeres. Eu já havia pedido isso a vocês havia anos, mas nunca me retornaram. Expandam a iniciativa!
ANA VASCONCELOS_SÃO PAULO/SP
NOTA EM ÁUDIO DA REDAÇÃO:
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CARTA AO RENATO
Enquanto leio a edição de outubro em tons comemorativos, seja pelo aniversário da revista ou por uma recente condenação histórica, chego em uma das seções que mais me diverte: o Diário do Geraldo. Desta vez, um tom melancólico me acompanha, visto que recentemente Renato Terra anunciou seu desligamento de outra redação, por onde eu o acompanhava religiosamente. Como Renato é um homem afeito a comentários, aproveito o espaço para elogiar seu trabalho, pedir por mais colunas humorísticas e dizer que desejo muito sucesso na sua carreira. Todos os meses me divertia com os comentários de Vale tudo, com o nosso vice dando suas escapadas a São Paulo às sextas-feiras e com as incontáveis alfinetadas distribuídas com muito bom humor.
REBECA LOURENÇO_SÃO PAULO/SP
NOTA METALINGUÍSTICA DA REDAÇÃO: Fica a sugestão para que o próximo diário traga um comentário do Geraldo a respeito da saída do Renato da outra redação.
